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Humanos e animais: afinidades fisionómicas e morais

Adidas – Instinct takes over. Agosto 2014

Hoje, 15 de agosto, é dia da Assunção. No Tendências do Imaginário, assiste-se, depois de alguma dormição, a uma ascensão da arte a tema de eleição. Colocados no mesmo dia, com um ano de intervalo, os artigos Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista, de 2013, e Chuteiras bestiais, de 2014, dialogam entre si incluindo obras de arte dos séculos XVI e XVII.

Peter Paul Rubens (atribuído a). Estudo de um homem barbudo e cabeça de uma criatura. Théorie de la Figure Humaine, 1773

Após uma breve desconversa ritual, o artigo Chuteiras bestiais entrega-se a duas operações a que, sempre que se proporcione, raramente resisto:
1) Cotejar realidades distintas e distantes. Neste caso, a publicidade do século XXI e a pintura dos séculos XVI e XVII;
2) Rasgar horizontes, abrindo “portais” (links) para entidades diversas. Neste caso, o anúncio, fantástico, “Instinct takes over”, da Adidas, acaba por convocar mestres da pintura e da gravura, tais como Giambattista della Porta (1535-1615), Ticiano Vecellio (c. 1485-1576), Peter Paul Rubens (1577-1640) e Charles Le Brun (1619-1690.
O resultado manifesta-se deveras curioso.

Chuteiras bestiais. Tendências do Imaginário, 15.08.2026

Pneus futuristas

Guilherme de Santa Rita – Orfeu nos Infernos, ca. 1904

No próximo ano letivo projeto abordar o movimento futurista na disciplina de Estéticas Contemporâneas e Sociologia do Imaginário, na Academia Sénior do Município de Braga. O artigo Pneus Olímpicos /Futurismo poderá servir como introdução.

Pneus olímpicos / Futurismo. Tendências do Imaginário, 14.08.2016

Santa Luzia dos meus amores

Masterpieces on Paper. The fifteenth-century choir books of the Abbey of Santa Giustina in Padua

O culto a Santa Luzia (ou Lúcia) é antigo. Existem indícios de remontar ao século IV em cujo início terá sido martirizada (por volta de 304).

Foi condenada pelo cônsul romano Pascásio a ser conduzida a um bordel para que fosse estuprada por libertinos. Mas o Espírito Santo intervém, tornando o corpo de Luzia totalmente imóvel e impossível de transportar. Nem mesmo com uma equipa de inúmeros homens e bois é possível movê-la. Enfurecido, Pascásio ordena que se despeje sobre ela piche, resina e óleo ferventes e, em seguida, manda cercá-la com uma pira que é incendiada. Contudo, as chamas não lhe causam dano algum, e ela continua a cantar louvores a Cristo no meio ao fogo. Então, uma espada é cravada em sua garganta, mas ela não morre imediatamente. Um sacerdote vem ministrar-lhe a Comunhão; só então expira.

Santa Lucia, pintura entre 1290 e 1310

Outras fontes [datadas do século XIV) especificam que seus olhos foram arrancados. (Ou, alternativamente, que, quando seu noivo lhe disse que a amava tanto por causa de seus olhos, ela mesma os arrancou e os levou até ele em uma bandeja, tateando o caminho.) Diz-se que, depois disso, a Virgem lhe trouxe olhos ainda mais belos. É por isso que ela é frequentemente invocada para curar doenças oculares e retratada por pintores carregando seus olhos em uma bandeja ou em uma taça. Outros recorrem a ela em busca de alívio para dores de garganta. (Wikipedia, em francês, 14.08.2008).

Os Olhos de Santa Luzia. Tendências do Imaginário, 14.08.2014

Parto pela boca

Gárgula do Mosteiro de San Martín Pinario de Santiago de Compostela. Fonte: Dolores Herrero Ferrio, Gargoyles of the Monastery of San Martín Pinario of Santiago de Compostela (Spain): Part Two

Não é raro deixar-me tentar por temas estranhos que não lembram ao diabo. Cuido, contudo, de os abordar com um mínimo de sobriedade.

Gárgula do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Batalha. Fonte – Jornal de Leiria

Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em acto ou em expiação. Constituem exemplos a evitar. Muitas gárgulas com figuras humanas são frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Várias freiras têm manto, mas subido ou aberto, exibindo os peitos e as partes genitais. Umas estão com as mãos juntas, em sinal de arrependimento, outras com as mãos em partes impróprias. Por vezes, aparece uma criança, de corpo inteiro ou só a cabeça (no peito, no ventre…). Há quem associe estas figuras de mulheres devassas com criança a freiras que tiveram filhos, nomeadamente com autoridades da comunidade eclesiástica. (Paródia disparatada, Tendências do Imaginário, 13.08.2014).

O avô do surrealismo

Jean I. I. Gérard (1803 – 1847) foi um ilustrador e caricaturista francês que publicou sob o pseudônimo de Grandville (…) Historiadores e críticos da arte chamaram-no de “a primeira estrela da grande era da caricatura francesa” e descreveram suas ilustrações como apresentando “elementos do simbólico, onírico e incongruente”, mantendo um senso de comentário social e “a transfiguração mais estranha e perniciosa da forma humana já produzida pela imaginação romântica” (Wikipedia, 11.08.2026)

Grandville: Disfarces e Metamorfoses. Tendências do Imaginário, 11.08.2016

Gárgulas obscenas

Parador de Santiago de Compostela, Hostal dos Reis Católicos. Edifício construído em 1509

Acontece investir mais num artigo. É o caso de Gárgulas Impúdicas, de 10 de agosto de 2014, revisto posteriormente em 23 de novembro de 2021.

Em 2017, decidi elaborar uma antologia, intitulada A Morte na Arte, com uma trintena de artigos do Tendências do Imaginário. Embora tenha revisto uma boa parte, com as vicissitudes da vida, acabei por suspender o projeto. Sinto, contudo, o dever de o reassumir.

O artigo que recoloco é o revisto: Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte. O link para o artigo de 2014 é https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/

Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte), 23.11.2021

Mergulho

Swatch. Mad about the sea. com.unico.Italy. Leberato Maraia. Itália, Junho 2013

O voo da monstruosidade interior

Colocado entre A cor do abismo, no dia 20, e Um silêncio de morte: Goya, dia 28, Leveza e turbulência na pintura de Goya, no dia 25, completa a tríade de artigos substantivos dedicados a Goya no mesmo mês de julho de 2017. Um indício provável do estado de espírito, e do corpo, em que me encontrava então mergulhado.

Imagem:
Goya – Autorretrato , ca. 1796. The Metropolitan Museum of Art

Ilusionismo e controlo

Ilustração: Joelle L., in The Camera Panopticon (https://ar.al/notes/the-camera-panopticon/, acedido em 25.07.2026)

Os artigos Jogo viciado e Pós-modernidade vitoriana abordam temas recorrentes no Tendências do Imaginário: o ilusionismo social e a vigilância disciplinar.

O primeiro, algo extenso e denso, incide sobre a eufemização da dominação e das desigualdades sociais. O segundo, mais leve e breve, ilustra a censura pública. Viral, conhecido ou ignorado, o anúncio “Alexandria Morgan run strapless”, da Tom Tom, foi proibido de aparecer na TV. Por uma qualquer conveniência. Não interessa aqui qual. Todas as censuras se justificam para quem as promove e visam poupar danos aos vulneáveis, que nem sequer se dão conta de semelhante zelo. Não recordo, na história da humanidade, de tamanha abrangência, concentração e eficiência de meios de controlo e censura. Tão pouco, tanta exposição e acomodação por parte dos visados. Talvez nos tempos de maior obsessão com o diabo e suas extensões.

Negro escuro. Goya

Acontece-me, embora raramente, produzir um ou outro artigo mais sério e encorpado. Afundo-me. É o caso de A cor do abismo, colocado em 20 de julho de 2017, e Um silêncio de morte: Goya, ambos dedicados a Francisco de Goya, artista que muito aprecio. Convém digeri-los sentado, de preferência, com bom audiovisual. Não forçosamente hoje, mas quando se proporcionar.

Imagem: Cartaz de Os fantasmas de Goya. De Miloš Forman, 2006