Humanos e animais: afinidades fisionómicas e morais

Hoje, 15 de agosto, é dia da Assunção. No Tendências do Imaginário, assiste-se, depois de alguma dormição, a uma ascensão da arte a tema de eleição. Colocados no mesmo dia, com um ano de intervalo, os artigos Arquitectura de Paisagem na Geometria Maneirista, de 2013, e Chuteiras bestiais, de 2014, dialogam entre si incluindo obras de arte dos séculos XVI e XVII.

Após uma breve desconversa ritual, o artigo Chuteiras bestiais entrega-se a duas operações a que, sempre que se proporcione, raramente resisto:
1) Cotejar realidades distintas e distantes. Neste caso, a publicidade do século XXI e a pintura dos séculos XVI e XVII;
2) Rasgar horizontes, abrindo “portais” (links) para entidades diversas. Neste caso, o anúncio, fantástico, “Instinct takes over”, da Adidas, acaba por convocar mestres da pintura e da gravura, tais como Giambattista della Porta (1535-1615), Ticiano Vecellio (c. 1485-1576), Peter Paul Rubens (1577-1640) e Charles Le Brun (1619-1690.
O resultado manifesta-se deveras curioso.
Pneus futuristas

No próximo ano letivo projeto abordar o movimento futurista na disciplina de Estéticas Contemporâneas e Sociologia do Imaginário, na Academia Sénior do Município de Braga. O artigo Pneus Olímpicos /Futurismo poderá servir como introdução.
Santa Luzia dos meus amores

O culto a Santa Luzia (ou Lúcia) é antigo. Existem indícios de remontar ao século IV em cujo início terá sido martirizada (por volta de 304).
Foi condenada pelo cônsul romano Pascásio a ser conduzida a um bordel para que fosse estuprada por libertinos. Mas o Espírito Santo intervém, tornando o corpo de Luzia totalmente imóvel e impossível de transportar. Nem mesmo com uma equipa de inúmeros homens e bois é possível movê-la. Enfurecido, Pascásio ordena que se despeje sobre ela piche, resina e óleo ferventes e, em seguida, manda cercá-la com uma pira que é incendiada. Contudo, as chamas não lhe causam dano algum, e ela continua a cantar louvores a Cristo no meio ao fogo. Então, uma espada é cravada em sua garganta, mas ela não morre imediatamente. Um sacerdote vem ministrar-lhe a Comunhão; só então expira.

Outras fontes [datadas do século XIV) especificam que seus olhos foram arrancados. (Ou, alternativamente, que, quando seu noivo lhe disse que a amava tanto por causa de seus olhos, ela mesma os arrancou e os levou até ele em uma bandeja, tateando o caminho.) Diz-se que, depois disso, a Virgem lhe trouxe olhos ainda mais belos. É por isso que ela é frequentemente invocada para curar doenças oculares e retratada por pintores carregando seus olhos em uma bandeja ou em uma taça. Outros recorrem a ela em busca de alívio para dores de garganta. (Wikipedia, em francês, 14.08.2008).
Parto pela boca

Não é raro deixar-me tentar por temas estranhos que não lembram ao diabo. Cuido, contudo, de os abordar com um mínimo de sobriedade.

Grotescas, as gárgulas incarnam o pecado, em acto ou em expiação. Constituem exemplos a evitar. Muitas gárgulas com figuras humanas são frades ou freiras que caíram na tentação da carne, da luxúria e da gula. Várias freiras têm manto, mas subido ou aberto, exibindo os peitos e as partes genitais. Umas estão com as mãos juntas, em sinal de arrependimento, outras com as mãos em partes impróprias. Por vezes, aparece uma criança, de corpo inteiro ou só a cabeça (no peito, no ventre…). Há quem associe estas figuras de mulheres devassas com criança a freiras que tiveram filhos, nomeadamente com autoridades da comunidade eclesiástica. (Paródia disparatada, Tendências do Imaginário, 13.08.2014).
O avô do surrealismo

Jean I. I. Gérard (1803 – 1847) foi um ilustrador e caricaturista francês que publicou sob o pseudônimo de Grandville (…) Historiadores e críticos da arte chamaram-no de “a primeira estrela da grande era da caricatura francesa” e descreveram suas ilustrações como apresentando “elementos do simbólico, onírico e incongruente”, mantendo um senso de comentário social e “a transfiguração mais estranha e perniciosa da forma humana já produzida pela imaginação romântica” (Wikipedia, 11.08.2026)
Gárgulas obscenas

Acontece investir mais num artigo. É o caso de Gárgulas Impúdicas, de 10 de agosto de 2014, revisto posteriormente em 23 de novembro de 2021.
Em 2017, decidi elaborar uma antologia, intitulada A Morte na Arte, com uma trintena de artigos do Tendências do Imaginário. Embora tenha revisto uma boa parte, com as vicissitudes da vida, acabei por suspender o projeto. Sinto, contudo, o dever de o reassumir.
O artigo que recoloco é o revisto: Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte. O link para o artigo de 2014 é https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/
O voo da monstruosidade interior



Colocado entre A cor do abismo, no dia 20, e Um silêncio de morte: Goya, dia 28, Leveza e turbulência na pintura de Goya, no dia 25, completa a tríade de artigos substantivos dedicados a Goya no mesmo mês de julho de 2017. Um indício provável do estado de espírito, e do corpo, em que me encontrava então mergulhado.
Imagem:
Goya – Autorretrato , ca. 1796. The Metropolitan Museum of Art
Negro escuro. Goya

Acontece-me, embora raramente, produzir um ou outro artigo mais sério e encorpado. Afundo-me. É o caso de A cor do abismo, colocado em 20 de julho de 2017, e Um silêncio de morte: Goya, ambos dedicados a Francisco de Goya, artista que muito aprecio. Convém digeri-los sentado, de preferência, com bom audiovisual. Não forçosamente hoje, mas quando se proporcionar.
Imagem: Cartaz de Os fantasmas de Goya. De Miloš Forman, 2006


