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Estigma capilar

Fotografia de Robert Capa. Chartres, 18 de agosto de 1944. Logo após a libertação da cidade, raparam o cabelo a uma mulher francesa que teve um filho com um soldado alemão como sinal de humilhação

Proveniente da Alemanha, país que tendemos a associar alguma contenção e ponderação, o anúncio “Hans”, da empresa de cabeleireiros Headhunter, excede-se. Propõe uma paródia ousada, senão atrevida, de uma realidade sensível: as campanhas de consciencialização para a inclusão de crianças com deficiência. Num aspeto o anúncio não deixa de estar certo: os cabelos podem funcionar como estigma, contagiando e desvalorizando a pessoa no seu todo. Recorde-se que, no final da Segunda Grande Guerra, nos dias imediatos à libertação da França, a população rapou o cabelo aos “colaboracionistas” com o regime nazi, expondo-os em cortejos degradantes (ver Violência e Humilhação: https://tendimag.com/2016/01/14/violencia-e-humilhacao/).

Marca: Headhunter. Título: Hans. Agência: Philipp & keuntje. Direção: Laszlo Kadar. Alemanha, 2000.

Horae ad usum Parisiensem. Antecipação medieval do surrealismo

Grandes Heures de Jean de Berry Fol. 12v

Há muito que andava à pesca do livro Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry], concluído em 1409. Acabo de o encontrar na Biblioteca Nacional de França. Reservados às elites, luxuosamente ilustrados com gravuras fabulosas, os livros de horas multiplicam-se durante a Baixa Idade Média. Correspondem a uma viragem da relação dos cristãos com o divino: a oração, retomada várias vezes, a horas certas, ao dia, é assumida em ambiente privado com recurso à mediação de imagens. Sobreviveram milhares de livros de horas. Em Portugal, o mais célebre é o Livro de Horas de D. Manuel (entre c. 1517 e c. 1538), publicado pela Imprensa Nacional e Casa da Moeda (1983).

Com capa original de veludo violeta, com dois fechos de ouro, rubi, safira e seis pérolas, o manuscrito das Grandes Heures de Jean de Berry (300X400 mm) é composto por 126 folios (252 páginas) com calendário (f. 1-6), horas de Nossa Senhora (f. 8-42), sete salmos da penitência e litania dos santos (f. 45-52), pequenas horas da cruz (f. 53-55) e do Espírito Santo (f. 56-58), grandes horas da Paixão (f. 61-85) e do Espírito Santo (f. 86-101) e ofícios dos mortos (f. 106-123). O livro está disponível, para consulta e descarga, no seguinte endereço https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Segue uma montagem de uma das primeiras Horas de Nossa Senhora, acompanhada por uma galeria com iluminuras provenientes das margens, uma autêntica “antecipação” medieval do surrealismo do século XX (ver outros casos de “antecipação” histórica do surrealismo nos artigos: https://tendimag.com/2020/03/24/aula-imaterial-4-maneirismo-e-surrealismo-sonhar-o-pesadelo/; https://tendimag.com/2020/04/04/aula-imaterial-5-maneirismo-e-surrealismo-2-humanoides/; https://tendimag.com/2012/05/05/braccelli-a-maneira-surrealista/).

Horae ad usum Parisiensem [Grandes Heures de Jean de Berry]. Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510

Galeria: Gravuras nas margens das Grandes Heures de Jean de Berry (carregar para aumentar). Fonte: Bibliothèque Nationale de France: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b520004510.

De uma extremidade à outra

Grandes Heures de Jean de Berry. 1400-1410. Fonte: gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France.

A uma amizade reencontrada

olhamos para o lado
uma criança chora
esquecida da dureza do vento
quando a terra é seca
e os cardos invadem as dunas

leva no olhar o sal
nas mãos um barco de papel
asas longas
à espera de um sopro
e um bafo quente
de boca interior

não bastam as pegadas na areia
pés de planta augada

erguemos o rosto
beijamos a espuma dos dias
perguntamos

e se a morte não basta?

(Almerinda Van Der Giezen. Excerto de poema)

Vivemos tempos ambivalentes. Aliás, o mundo sempre foi ambivalente. A lentidão convive com a aceleração e a luxúria com a humildade. Juntas, vizinhas ou à distância. Ora devoramos, ora ruminamos. Ávidos ou resignados, “vogamos num meio vasto, sempre incertos e flutuantes, impelidos de uma extremidade a outra” (Pascal, Blaise, Pensamentos, Artigo XVII – Conhecimento geral do homem). Consoante o estado do mar.

Criativos e invulgares, os anúncios Dry e Second Edition, da, Zara justificam uma atenção e um olhar redobrados.

Marca: Zara. Título: Dry. Produção: Smuggler. Estados-Unidos, julho 2022.
Marca: Zara: Título: Second Edition / An audiovisual poem inspired by Bob Marley. Abril 2022.

Transfiguração

O anúncio Flip, da B&Q, é exotérico e surpreendente. Baralha o olhar. Uma mulher inteira-se que está grávida e o mundo transfigura-se. Porque de transfiguração se trata! A religião cristã sempre se debateu com um desafio: apostada na catequese e na mediação com o divino através da imagem, como lograr dar visibilidade ao invisível? A publicidade confronta-se com outro problema: como expressar um pico hiperbólico de emoção?

Marca: B&Q. Título: Flip. Agência: Uncommon, London. Direção: Oscar Hudson. Reino Unido, maio 2022.

No que respeita à transfiguração, a resposta mais corrente parece ser, desde os evangelhos até aos anime, a suspensão da gravidade (ver A civilização da leveza), que neste anúncio se desdobra, em termos de relação com o espaço, em decomposição, à Tarkovsky, desorientação, à Escher, e transição, à Michel Gondry.

Andrei Tarkovsky. O Espelho. Excerto. 1975.
M.C. Escher. Relatividade. 1953.
Marca: Motorola. Título: Experience. Agência: Cutwater. Direção: Michel Gondry. USA, 2007.

Vida à distância

Samsung. The Awesome Product Adventure, abril 2022.

Cúmulo de grotesco, fantasia e magia, o anúncio The Awesome Product Adventure, da Samsung é, parafraseando Luc Boltanski (La souffrance à distance, 1994), uma paródia criativa e desenfreada de uma vida à distância refastelada num sofá ubíquo. A instalação Emoções Confortáveis da exposição Vertigens do Barroco, no Mosteiro de Tibães, em 2007, já convocava o fenómeno: chamava-se Emoções confortáveis. Esta género de paródia tem precedentes na própria publicidade, por exemplo, o anúncio chileno Digital Tv, da VTR CABEL TV (2008). Mas existe quem aprecie abandonar o sofá para desfrutar de outras vidas.

Marca: Samsung. Título: The Awesome Product Adventure. Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Direção: Keith Schofield. Reino Unido, abril 2022.
Marca: VTR CABEL TV. Título: Digital Tv. Agência: Lowe Porta Santiago. Direção: Cucho Olivares. Chile. 2008.

A vespa e a lua

Sem comentários! É um alívio parar de dar cabeçadas na lua, não é?

Wasp Belle. Curta-metragem da série Minuscule. Realização: Hélène Giraud e Thomas Szabo. Emissora original: France 2 e France 5. França, 2006-2008.

Sonolência divina

Hornbach. Every change needs a beginning. 2011.

Domingo é bom dia para acordar devagar. Na companhia de um vídeo delirante e de uma música tranquila. O anúncio Every Change Needs A Beginning, da Hornbach, propicia um momento de humor pintalgado de absurdo. A música Short Trip Home, composta por Edgar Meyer, com Joshua Bell no violino, presta-se a uma escuta meio acordada: o dever entorpecido e o prazer em vigília mínima. Hoje, nada de frases esquisitas, comentários retorcidos e lembranças de cemitério. Hoje, dia do Senhor, é dia de sonolência divina em alerta mínimo.

Marca: Hornbach. Título: Every Change Needs A Beginning. Agência: Heimat Berlin. Direcção: Pep Bosch. Alemanha, Agosto 2011.
Mike Marshall, Sam Bush, Edgar Meyer, Joshua Bell. Short Trip Home. Compositor: Edgar Meyer. 1999.

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Circulação

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Nesta sociedade da (hiper)informação, perdemos o hábito de descobrir. O mundo passa pela ponta do nariz à velocidade de um espirro. Uma obra que não circula é uma obra que não existe. Só os estúpidos, e os distraídos, produzem ou procuram o que não circula. Quem corre na autoestrada da vida com rodas quadradas, o mais avisado é sentar-se.

Mas o astronauta de chocolate existe, e é uma delícia! E a cidade de chocolate! E a explosão de sabores e texturas! Nada como uma dentada galáctica com um dilúvio de caramelo.

Marca: Lacta 5Star. Título: Astronauta! Agência: Wieden + Kennedy Brasil. Produção: Lobo. Brasil, Maio 2018.

Marca: Lacta 5Star. Título: Cidade de Chocolate! Agência: Wieden + Kennedy Brasil. Produção: Lobo. Brasil, Abril 2018.

Publicidade sem medo

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É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.