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Transfiguração

O anúncio Flip, da B&Q, é exotérico e surpreendente. Baralha o olhar. Uma mulher inteira-se que está grávida e o mundo transfigura-se. Porque de transfiguração se trata! A religião cristã sempre se debateu com um desafio: apostada na catequese e na mediação com o divino através da imagem, como lograr dar visibilidade ao invisível? A publicidade confronta-se com outro problema: como expressar um pico hiperbólico de emoção?

Marca: B&Q. Título: Flip. Agência: Uncommon, London. Direção: Oscar Hudson. Reino Unido, maio 2022.

No que respeita à transfiguração, a resposta mais corrente parece ser, desde os evangelhos até aos anime, a suspensão da gravidade (ver A civilização da leveza), que neste anúncio se desdobra, em termos de relação com o espaço, em decomposição, à Tarkovsky, desorientação, à Escher, e transição, à Michel Gondry.

Andrei Tarkovsky. O Espelho. Excerto. 1975.
M.C. Escher. Relatividade. 1953.
Marca: Motorola. Título: Experience. Agência: Cutwater. Direção: Michel Gondry. USA, 2007.

Vida à distância

Samsung. The Awesome Product Adventure, abril 2022.

Cúmulo de grotesco, fantasia e magia, o anúncio The Awesome Product Adventure, da Samsung é, parafraseando Luc Boltanski (La souffrance à distance, 1994), uma paródia criativa e desenfreada de uma vida à distância refastelada num sofá ubíquo. A instalação Emoções Confortáveis da exposição Vertigens do Barroco, no Mosteiro de Tibães, em 2007, já convocava o fenómeno: chamava-se Emoções confortáveis. Esta género de paródia tem precedentes na própria publicidade, por exemplo, o anúncio chileno Digital Tv, da VTR CABEL TV (2008). Mas existe quem aprecie abandonar o sofá para desfrutar de outras vidas.

Marca: Samsung. Título: The Awesome Product Adventure. Agência: Wieden + Kennedy (Amsterdam). Direção: Keith Schofield. Reino Unido, abril 2022.
Marca: VTR CABEL TV. Título: Digital Tv. Agência: Lowe Porta Santiago. Direção: Cucho Olivares. Chile. 2008.

A vespa e a lua

Sem comentários! É um alívio parar de dar cabeçadas na lua, não é?

Wasp Belle. Curta-metragem da série Minuscule. Realização: Hélène Giraud e Thomas Szabo. Emissora original: France 2 e France 5. França, 2006-2008.

Sonolência divina

Hornbach. Every change needs a beginning. 2011.

Domingo é bom dia para acordar devagar. Na companhia de um vídeo delirante e de uma música tranquila. O anúncio Every Change Needs A Beginning, da Hornbach, propicia um momento de humor pintalgado de absurdo. A música Short Trip Home, composta por Edgar Meyer, com Joshua Bell no violino, presta-se a uma escuta meio acordada: o dever entorpecido e o prazer em vigília mínima. Hoje, nada de frases esquisitas, comentários retorcidos e lembranças de cemitério. Hoje, dia do Senhor, é dia de sonolência divina em alerta mínimo.

Marca: Hornbach. Título: Every Change Needs A Beginning. Agência: Heimat Berlin. Direcção: Pep Bosch. Alemanha, Agosto 2011.
Mike Marshall, Sam Bush, Edgar Meyer, Joshua Bell. Short Trip Home. Compositor: Edgar Meyer. 1999.

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Circulação

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Nesta sociedade da (hiper)informação, perdemos o hábito de descobrir. O mundo passa pela ponta do nariz à velocidade de um espirro. Uma obra que não circula é uma obra que não existe. Só os estúpidos, e os distraídos, produzem ou procuram o que não circula. Quem corre na autoestrada da vida com rodas quadradas, o mais avisado é sentar-se.

Mas o astronauta de chocolate existe, e é uma delícia! E a cidade de chocolate! E a explosão de sabores e texturas! Nada como uma dentada galáctica com um dilúvio de caramelo.

Marca: Lacta 5Star. Título: Astronauta! Agência: Wieden + Kennedy Brasil. Produção: Lobo. Brasil, Maio 2018.

Marca: Lacta 5Star. Título: Cidade de Chocolate! Agência: Wieden + Kennedy Brasil. Produção: Lobo. Brasil, Abril 2018.

Publicidade sem medo

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É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.

O Absurdo do Extremo Oriente

“O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites” (Albert Camus, Le myth de Sisyphe, 1942).

Voiz the box

O absurdo pede subtileza; dispensa a retórica, as palavras e os argumentos. Repete mas não explica. O absurdo não promete, surpreende! O absurdo é o nó-cego da razão. Vem esta conversa a propósito do anúncio  The box, da Voiz, uma empresa tailandesa de produtos alimentares.

Marca: Voiz. Título: The box. Agência: Ogilvy & Mather Bangkok. Direcção: Wuthisak Anarnkaporn ( Un ). Tailândia, Abril 2018.

Absurdo sem gelo

Trident Sniper

Se fazer rir é difícil, criar o absurdo não é menos. E se o absurdo não apelar ao estranho mas ao familiar, o caso ainda é mais problemático. Uma narrativa absurda não precisa de mudar nem o cenário nem os protagonistas. O mesmo cenário, os mesmos actores, do princípio ao fim. O absurdo inteligente é simples: basta operar uma quebra de sentido numa sequência banal, um desvio insólito, por exemplo, a intrusão da legenda no enredo do filme, um thriller para não variar. O anúncio Sniper, da Trident, é perfeitamente absurdo. Aproveito para recomendar outro anúncio da Tridente: Pet store, de 2012: https://tendimag.com/2012/10/22/surreal-2/.

Marca: Trident. Título: Sniper. Agência: JWT (Porto Rico). Direcção: Luís Gerard. Porto Rico, 2010.

Imaginação e sensibilidade

Het NetHoje, descobri a Bonkers Amsterdam, uma agência de produção. Cada anúncio é um poema, e cada poema, uma dádiva.

O primeiro anúncio é fruta da época. Envolve uma agência funerária, negócio em crescimento. Alguns anúncios são particularmente criativos. Recordo o anúncio português  A um morto nada se recusa . O anúncio Friends, da Monuta, centra-se num grupo de amigos, que perde o membro estrela. Nenhuma novidade. O que mais cativa não é o tema, mas o modo.

O segundo anúncio, Tennis, da Het Net, propõe um humor absurdo. É necessário intuição para escolher o banal e arte para o subverter.

Marca: Monuta. Título: Friends. Agência: N=5, Amsterdam. Produção: Bonkers. Direcção: Bram Schouw. Holanda, Outubro 2017.

Marca: Het Net. Título: Tennis. Agência : Lowe Lintas & Partners. Produção: Bonkers. Direcção: Van Heyningen. Holanda, 2001.