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Labirinto de cegos

The Blind Leading the Blind, Pieter Brueghel the Elder, 1568.

Pieter Brughel. O Cego Conduzindo Cegos. 1568

Jean_Martin,_Les_Aveugles,_1937,_huile_sur_toile,_Lyon,_musée_des_Beaux-Arts

Jean Martin. Os Cegos. 1937. Lyon, Musée des Beaux Arts.

Há anúncios orientais, como este da Top Charoen Optical, que me ultrapassam. Que ligação existe entre quatro ladrões pitosgas e um banco de esperma? Uma empresa óptica. Nada como o absurdo para converter um deficiente visual. O disgusto pede óculos. O resto é imaginação desinibida. Apenas uma perplexidade: por quê o esperma como figura da desgraça?

Este anúncio tailandês lembra-me algumas obras de arte. Com mais de quatro séculos, o quadro de Pieter Brueghel, “um grupo de cegos conduzido por um cego” (1568), permanece actual. O quadro de Jean Martin, “os cegos” (1937; Lyon, Musée des Beaux Arts), condiz com a arte da desventura característica do Período entre as Duas Guerras Mundiais.

Marca: Top Charoen Optical. Título: The Bank. Agência: J. Walter Thompson Bangkok. Tailândia, 2003.

A cerveja, os ouvidos e o orgasmo cerebral

norrlandsguldljus_earbeer16Segundo o anúncio sueco The ASMAR Ear Beer, da cerveja Norrlands Guld Ljus, a ingestão de cerveja pelos ouvidos pode propiciar orgasmos cerebrais. Assombroso! A culinária é simples: duas colheres de realismo grotesco, uma, de expressionismo; três, de surrealismo; quatro, de absurdo; e duas, de pop art. Agita-se, com inteligência e técnica. O orgasmo cerebral pela orelha está pronto a servir. Diz-se que os povos menos soalheiros têm pouco sentido de humor. Preconceitos! Entre o riso e o espanto, o desbragado e o ruminado, há muito lugar para o humor. Este anúncio, à semelhança da Coca-Cola do Fernando Pessoa, estranha-se, entranha-se e saboreia-se. Com ou sem orgasmo cerebral.

Marca: Norrlands Guld Ljus. Título: The ASMAR Ear Beer. Agência: Hakestam Holst. Direcção artística: Joakim Khoury. Direcção criativa: Magnus Jacobbson. Suécia, Outubro 2016.

Sem limites

Estapafúrdio, bizarro… ou, com palavras mais elegantes, fabuloso e exuberante… O cúmulo da performance, da filosofia de cordel e da reflexividade expressiva. Limites, será que ainda existem limites? Sinto-me parodiado, gozado. E você? Também se sente parodiado? Não pelo que somos, mas pelo que significamos. Uns heróis cómico-lendários. Uns disparates perfumados.

Carregar nas imagens para aceder aos anúncios.

Old Spice. WhaleMarca: Old Spice. Título: Whale. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Steve Rogers. USA, Janeiro 2016.

Wieden_Kennedy_Old_Spice_Its_Nice_That_1Marca: Old Spice. Título: Rocket Car. Agência: Wieden + Kennedy (Portland). Direcção: Steve Rogers. USA, Janeiro 2016.

A força das palavras

CCHR

As palavras, mais do que dizer, constroem mundos. As palavras convocam di-visões do mundo (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). Ferdinand de Saussure demonstrou-o (Cours de Linguistique Générale, 1916), bem como, mais tarde, Mikhail Bakhtin (Marxisme et Philosophe du Langage, 1929) e J. L. Austin (How to do things with words, 1962). Este anúncio da CCHR International ilustra o poder, polémico, das palavras em termos de identidade e comportamento. Retirei-o do mural da Esmeralda Cristina, com quem tive o prazer de partilhar uma comunicação sobre os letreiros (banners) na publicidade.

Anunciante: CCRH International. Título: Childhood is Not a Mental Disorder. 2010.

Desencanto

Suzie 1

Este anúncio indiano é invulgar. Como diria o Principezinho, “o essencial é invisível aos olhos”. Uma das graças que o Criador nos concedeu consiste em pintar o mundo com as cores do desejo. Quando, invisuais ou não, vemos a princesa que sonhamos, ela dá-nos a mão para pintar o mundo.

Para além das cores do desejo, o Criador dotou-nos, também, com o “apanágio do riso”. O anúncio inscreve-se, com sucesso, num registo cómico. Um jovem com deficiência visual toma a cadela por namorada. Mas um dia, um novo par de óculos desfaz o encanto.

Esta aposta no disparate como detonador exacerba o riso, num cocktail absurdo, insólito e extravagante, concentrado num único momento, o momento que fecha o anúncio.

Acontece aos normais rir-se a um espelho invertido; dos deficientes, dos corcundas, dos surdos, dos cegos, dos coxos, dos feios e demais aberrações. Faz parte da nossa “natureza imbecil” (Blaise Pascal). Não é o caso deste anúncio. Seria má pontaria. Não seria?

Marca: Lenskart.com. Título: Suzie. Agência: Enormous, Ashish Khazanchi. Direcção:  Shirsha Guha Thakurta. Índia, Julho 2015.

Com as orelhas na cabeça

“Ciência sem consciência não passa de ruína da alma” (François Rabelais)

Unknown artist, Surgeon Conducting a Trephination in Guy of Pavia’s Anatomia, c. 1345.

Unknown artist, Surgeon Conducting a Trephination in Guy of Pavia’s Anatomia, c. 1345.

Quando crescer, quero ser cientista. Daqueles que têm sentido de humor e inventam descobertas absurdas, daquelas que só eles entendem e as revistas científicas disputam. Mas estes atributos da ciência têm a idade do Homem. Na Idade Média, salvaguardando a electricidade, abriam-se os crânios com técnicas cirúrgicas semelhantes às actuais.

Medieval Surgeons. Surgery in the 14th century

Medieval Surgeons. Surgery in the 14th century

Não me recordo de um vídeo tão rabelaisiano como este. Não admira, François Rabelais era médico, ria e fazia rir.

Marca: Science&Vie. Título: L’Opération. Produção: Scarfilm. Direcção: Phillippe Geus. França, 2015.

Vacas transparentes

Anchor transparênciaO leite faz mal? Cálcio a mais, lactase a menos, e um toque de osteoporose… A novíssima paranóia! Valham-nos os nutricionistas (vídeo 2). Precavidos, viveremos para sempre, até morrer. Se não fosse a Internet, o que seria de nós? Tem resposta para tudo. Anjo ou demónio?Vou mas é informar-me acerca do vinho e da água. Serão também uma ameaça?

Piscina de vinho para  celebrar a  nova colheita do Beaujolais Nouveau.

Piscina de vinho no Japão

Cleópatra embelezava-se com banhos de leite e os japoneses rejuvenescem com banhos de vinho. Segundo a Anchor, as vacas não se querem transparentes. O leite, tal como a água, dá-se bem no escuro.

Marca: Anchor. Título: If milk was meant to see the light, cows would be see-through. Agência: Colenso BBDO/Proximity New Zealand. Direcção: Damon Duncan. Nova Zelândia, 2003.

Denise Carreiro. Consumo do leite.

Grotesco familiar

Mainstream

Segundo Wolfgang Kayser, o grotesco radica no estranhamento. Numa situação familiar, sucede algo de insólito, que abala os nossos fundamentos e nos suspende no vazio. Mas nem sempre é o familiar que se desmorona perante o estranho. Às vezes, é o estranho que revela o familiar, como se o absurdo carecesse de um absurdo maior para se enxergar. Em suma, propõe-se um pequeno enxerto à teoria do grotesco de Wolfgang Kayser. O grotesco associa-se a um estranhamento do mundo familiar, consoante o conceito de unheimlich de Sigmund Freud, mas também pode estar associado a uma familiarização do estranho, a uma engrenagem do inesperado. O anúncio russo The Drowning constitui um bom exemplo deste grotesco familiar. No vídeo, carregue em CC e seleccione English.

Marca: Mainpeople. Título: The Drowning. Agência: Stereotatic. Direcção: Michael Lockshin. Rússia, Abril 2015.

A verruga

Domenico Ghirlandaio, An Old Man and His Grandson, C. 1490.

Domenico Ghirlandaio, An Old Man and His Grandson, C. 1490.

Uma pessoa habitua-se ao estranho: mãos, pés e órgãos genitais que se autonomizam e adquirem vida própria já não espantam. Até “o nariz” se separa do dono no conto de Nicolau Gogol (1836) e na ópera de Dmitri Shostakovich (1930). Mas uma verruga, nunca tal se viu! Os brasileiros não estão para meias medidas. Num anúncio que dura mais de cinco minutos, o Clube de Criação de São Paulo segue os passos de uma verruga que, uma vez liberta, logra uma vida de sucesso. A fama ultrapassa fronteiras. Portugal já convidou a verruga para um workshop dedicado ao empreendedorismo no estrangeiro. É bom regressar ao Tendências do Imaginário. A escrita de um prefácio manteve-me absorto.

Anunciante: Clube de Criação de São Paulo – CCSP. Título: The Fall and Rise of the Mole. Agência: Borghi/Lowe. Direcção: Carlão Busato. Brasil, Março de 2015.

Passear o sonho

Odilon Redon, “The Haunted and The Haunters”, 1896

Odilon Redon, “The Haunted and The Haunters”, 1896

“Matar o sonho é matarmo-nos” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares)
O blogue Tendências do Imaginário gosta de sonhar. Não há que estranhar! O sonho e o imaginário moram na mesma casa. Com os pés na cave e a cabeça no sótão. O anúncio Dream Run, da Honda, é todo ele um sonho. Não sei se os sonhos são assim, mas parece. Confusão, absurdo, síncopes, imprevistos, obsessão… E os Eurythmics a cantar “Sweet Dreams”.Também podia ser o Marilyn Manson. Há quem diga que “sonhar é acordar-se para dentro” (Mário Quintana, Os parceiros).

Marca: Honda. Título: Dream Run. Agência: Leo Burnett (Australia). Direção: Nathan Price. Austrália, Fevereiro 2015.