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A coca, Amarante e Monção

O poder autárquico democrático é filho da Revolução. As autarquias conhecem a importância da cultura e da comunicação. Não me admiraria se, no conjunto, se destacassem como o principal agente cultural do País. Cuidado, iniciativa e perseverança. Por exemplo, na criação e divulgação de vídeos sobre realidades locais. Na Internet, como é natural. Curiosamente, ambos os concelhos, Amarante e Monção, partilham a tradição da coca, um monstro milenário, ambíguo, que desassossega o Corpo de Deus.

Fernando e Albertino

Amarante, Natureza criativa. Janeiro 2020.
MONÇÃO | PROMO Corpo de Deus – Coca . 2019

A sociedade do medo. O riso e a morte.

O espetáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que acaba por exprimir apenas o seu desejo de dormir (Guy Debord, La société du Spectacle. 1967).

Há uma eternidade que não ria tanto com um anúncio. Aberta e espontaneamente. Uma empresa de electricidade malaia ridiculariza as novas tecnologias da realidade virtual. Importa rir.

A sociedade actual menospreza o riso. Aposta, em contrapartida, no medo, na catequese da ameaça, a modos como a santa inquisição, o nazismo, o estalinismo e outros guardadores de homens. Receamos tudo, até a água que bebemos e o ar que respiramos. Novos pastores, novos rebanhos, novos lobos, novos fantasmas, novos cavaleiros do Apocalipse.

Quino. Hombres de Bolsillo. Editorial. Lumen. 1977

Morre-se um pouco todos os dias. Nada escapa, tudo prejudica, tudo mata. Perdi a conta aos catastrofismos políticos e mediáticos a que sobrevivi. Acrescento uma bandeira à procissão: a vida precede a morte, viver pode matar! Mas, apesar da proliferação de infortúnios, só se morre uma vez. Parece que estamos pendurados num rosário de mortes. Se tudo mata, o riso ressuscita! É o que interessa. Convém reconhecer que os nossos pastores, ao contrário dos inquisidores, não nos conduzem a uma vala comum, satisfazem-se com o comboio fantasma. Não tenho emenda. Este comentário não faz jus ao anúncio. No meio de tanto humor, atravessou-se um espantalho.

Marca: TNB CNY 2020. Título: Reality Not Virtual. Produção: Reservoir World. Direcção: Quek shio Chuan. Malásia, Janeiro 2020.

As sapatilhas do ano novo

Je suis comme je suis / Je plais à qui je plais /Qu’est-ce que ça peut vous faire (Jacques Prévert. Je suis comme je suis. Paroles. 1946).

O que gosto de ter que fazer? Nada. Prefiro o resto, com vapores do inferno. My ugly side (Blue October). Mas nem o diabo me salva das obrigações. O Tendências do Imaginário resiste como espaço de liberdade. Em nove anos, nenhum dos 2 956 artigos foi escrito por dever. Irreverência e irrelevância numa evasão libertária. Bad (Michael Jackson)!

A publicidade sobre a passagem de ano foi escassa e discreta. Neste capítulo, a qualidade mora na China. Um anúncio frenético da Adidas incide sobre um show numa discoteca. Bebe-se, dança-se, coreografa-se, seduz-se e joga-se. Como nós. Somos todos, como agora se diz, pessoas. Não partilhamos, porém, os mesmos símbolos. Somos pessoas com culturas diferentes e denominadores comuns tais como as sapatilhas Adidas.

Marca: Adidas. Título: Adidas 2020 CNY. Agência: Haomai Advertisement Co., Ltd. Direcção: Muh Chen. China, Dezembro 2019.

Prendas, abraços e elfos

Com duas palavras se escreve a expressão espírito de Natal: prendas e abraços. O anúncio Holiday, da Amazon, prescinde do Pai Natal. Encomendas animadas e efusão humana. O espírito de Natal pede magia. O Pai Natal foi preterido pela maioria das grandes marcas. Como substituto, o elfo. El Corte Inglés retoma a figura do elfo: em 2018, o anúncio chamava-se O pai do El Corte Inglés é um elfo, este ano o anúncio A magia do Natal muda tudo continua a apostar na figura do elfo. O Natal de 2019 ficará na história da publicidade como o Natal dos elfos.

Marca: Amazon. Título: Holiday 2019. Agência: Lucky Generals. Direcção: Henry-alex Rubin. Estados Unidos, Novembro 2019.
Marca: El Corte Inglés Portugal. Título: A magia do Natal muda tudo. Portugal, Dezembro 2019.
Marca: El Corte Inglés Portugal. Título: O pai do El Corte Inglés é um elfo. Portugal, Dezembro 2011

Deus fez-se homem

Pirilampo

Aquele que era Deus fez-se homem,
assumindo o que não era,
sem perder o que era;
e assim Deus fez-se homem.
(Santo Agostinho)

Sou um desencantado que não desiste de se reencantar. A minha escrita é, ao mesmo tempo, cáustica e vitalista. Uma ironia própria de quem não está dentro sem estar fora. Gosto de pirilampos a voar na noite escura. Acontece tentar rabiscar a sombra com temas luminosos. Por exemplo, o Natal, artigo para a revista Spot (https://www.facebook.com/187372124695983/photos/a.2194957460604096/2194960357270473/?type=3&theater), retomado pelo jornal nós da Universidade do Minho (http://www.nos.uminho.pt/Article.aspx?id=3444).

Carregar na imagem para amplear.

Revista Spot. Spot Natal. Dezembro 2019.

Publicidade. Alternativas ao Pai Natal

Continuo a desfiar a amostra de 16 anúncios do Natal. Visualizámos anúncios com o Pai Natal em pessoa e com pessoas disfarçadas de Pai Natal. Nos próximos oito anúncios, as marcas prescindem do Pai Natal. Enveredam por alternativas típicas do imaginário atual: ET, Guerra das Estrelas, dragões, animais e, naturalmente, crianças, muitas crianças. Incorporo cinco dos oito vídeos. Os links dos três vídeos restantes aparecem no fim do artigo. Basta visionar dois ou três anúncios para ter uma noção das figuras alternativas ao Pai Natal. Palpita-me que a tendência aponta no sentido da erosão e da substituição da figura do Pai Natal. Entre outros motivos, a figura do Pai Natal acusa o desgaste da figura da prenda. Não que não se dê mais prendas. Não que elas não sejam mais caras. Perderam, simplesmente, parte da magia da dádiva, de que fala Marcel Mauss (Ensaio sobre a dádiva, 1925). É ao nível simbólico, subjetivo e afetivo que a falha se cava. A prenda desprende-se paulatinamente do imaginário fabuloso.

Marca: Migros. Título: La chouette Mimi apprend à voler. Agência : Wirz. Direcção : Martin Werner. Suíça, Novembro 2019.
Marca: John Lewis + Waitrose. Título: Edgar The Dragon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Direcção: Dougal Wilson. Reino Unido, Novembro 2019.
Marca: McDonald’s. Título: The Gift. Agência: Leo’s Thjnk Tank Berlin. Direcção: Sune Sorensen. Alemanha, Dezembro 2019.
Marca: Fedex. Título: Gift Box. Agência: BBDO. Direcção: Noam Murro. Estados Unidos, Novembro 2019.
Marca: Vale Sul Shopping. Título: Feliz Natal em mim. Produção: Consulado. Direcção: Marcos Boca Ceravolo e Tomas Pessoa Gurgel. Brasil, Novembro 2019.

Apple. The Surprise. Estados Unidos. Nov. 2019.

McDonald’s . Archie the Reindeer . Reino Unido. Dez. 2019.

Posten. In those days. Noruega. Dez. 2019.

O Pai Natal na publicidade. Glória e crise.

Júlia Ramalho. Presépio.

A maior mentira dos pais aos filhos não se refere à existência do pai Natal mas à promessa tácita de que as suas prendas os tornarão felizes (Laurent Gounelle, L’Homme que voulait être heureux, 2008).

Tenho andado ausente. Encalhei na Ilha de Sísifo. Perde-se tempo e não se ganha alento. Este artigo é gordo como o Pai Natal. O texto é esquelético mas os exemplos são muitos.

O Pai Natal mágico, risonho e rechonchudo, com barba branca e roupa vermelha, de trenó e na chaminé, é uma enorme fantasia da humanidade, que se espelha na publicidade. Mas tenho a impressão que cada vez menos. Perfila-se uma certa erosão.

No início de Dezembro, identifiquei 16 anúncios de Natal. Todos de grandes marcas. O Pai Natal propriamente dito aparece apenas em três: Coca-Cola, Oreo e Orange. Em outos três anúncios, Rema 1000, Bouygues e NOS, o Pai Natal resume-se a uma pessoa disfarçada. Oito anúncios (Globe Telecom, McDonald’s, Holiday, Migros, Admas Day, John Lewis, Fedex e Posten) recorrem a figuras alternativas ao Pai Natal. Por exemplo, o ET ou o dragão. Os dois anúncios restantes, da Macy’s e da Virgin, envolvem questões de género.

 Do conjunto de anúncios, só encontrei três com a presença do Pai Natal original: o anúncio positivo da Coca-Cola, marca de que o Pai Natal é “embaixador”, o anúncio da Oreo, em que o Pai Natal quase não se vê, sendo o protagonista um duende, e no anúncio dúbio da Orange em que o Pai Natal é armadilhado e capturado por um grupo de crianças.

“En el spot [de Coca-Cola] se ironiza con cariño la conducta de Papá Noel, un hombre extraño que llega de una tierra misteriosa y entra a las casas sin ser invitado, pese a lo cual las personas siempre eligen ver su bondad por encima de todo” (https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-regional-de-la-campa%C3%B1a-navide%C3%B1a-global:-santo-coca-cola-y-santa-claus-proponen-aceptar-las-diferencias).

Marca: Coca-Cola. Título: “What We Share Is Stronger”. Agência: Santo. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Novembro 2019.

Graças às bolachas Oreo, nasce uma amizade entre um duende e um empregado de uma loja de conveniência que culmina numa viagem no trenó do Pai Natal.

Marca: Oreo. Título: First Christmas. Agência: Martin. Estados Unidos, Novembro 2019.

O anúncio da Orange coloca o Pai Natal numa situação, no mínimo, embaraçosa. Graças às conexões electrónicas, um grupo de crianças, enfants terribles, sequestra o Pai Natal. A crise da imagem do Pai Natal começa a esboçar-se.

Marca: Orange France. Título: #AttrapezNoël – On l’a. Agência: Publicis Conseil. França, Novembro 2019.

Os três anúncios seguintes convocam o “espírito” do Pai Natal, mas o protagonista é um ser humano disfarçado. No anúncio da Rema 1000, o “pai Natal” não consegue entrar na casa inteligente, submetendo-se a uma série de infortúnios. No anúncio da Bouygues, o pai, que imita ao telemóvel o Pai Natal, é surpreendido pela própria filha. No anúncio da NOS, uma rapariga acredita que uma determinada pessoa é o Pai Natal. Esta última acaba por se disfarçar de Pai Natal. Uma “predição criadora”.

Marca: Rema 1000. Título: Crazy Santa. Agência: Try (Oslo). Direcção: Andreas Riiser. Noruega, Dezembro 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Papa Noël. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Novembro 2019.
Marca: NOS. Título: A Descoberta. Produção: Ministério dos Filmes. Direcção: Marco Martins. Portugal, Novembro 2019.

Para onde vão os mortos?

Agrupamento de Escolas de Briteiros. O Dia dos Mortos.

Hoje, temos direito a um comentário trifásico.

No dia dos mortos, solta-se a sede de cerveja. Ontem, a Budweiser brasileira, hoje, a mexicana Victoria. “A dónde vamos ao morir?” Para o nada abismal ou para a vida eterna? Cristo desceu ao inferno e regressou. E ressuscitou ao terceiro dia. As almas aguardam, pacientes, o Juízo Final. E os mortos visitam-nos… A última viagem, a passagem, permanece a nossa inquietação. Original e criativo, tecnicamente esmerado, o anúncio da Budweiser fascina os nossos fantasmas: pelos vistos, pixel a pixel, existe uma ligação biunívoca entre os vivos e os mortos.

Marca: Victoria. Título: Xibalba. A dónde vamos ao morir? Agência: Ogilvy Mexico. Direcção: Salomon Ligthelm. México, Outubro 2019.

Melgaço regressa à “noite dos medos”, um delírio mais celta do que maia. A bebida, agora, é a queimada. A procissão lembra a Santa Companhia (https://tendimag.com/2016/12/26/em-companhia-da-morte/). Sob uma chuva dionisíaca, os vivos incorporam as almas e comemoram os mortos.

Noite dos Medos em Melgaço | Altominho TV. 01/11/2019.

De origem mexicana, os “altares dos mortos” globalizaram-se. Homenageia-se quem é digno de memória. No Agrupamento de Escolas de Briteiros, erguem-se altares a uma diversidade de pessoas falecidas: Eusébio, Joaquim Agostinho, Amália Rodrigues, António Variações, Sophia de Mello Breyner Andresen, Steve Jobs, Edith Piaff, Camões, Martins Sarmento… Os mortos vivem no altar da memória, que, algum dia, também se apagará. Nem sequer falta o galo (https://tendimag.com/2016/10/19/o-galo-e-a-morte/)!

O baloiço

O projecto Quem somos os que aqui estamos surgiu no âmbito do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Visa o estudo das freguesias de Melgaço: iniciou em 2018, com as freguesias de Parada de Monte e Cubalhão; em 2019, foi a vez das freguesias de Prado e Remoães. O projecto prevê, para cada freguesia, as seguintes actividades e resultados: fotografias faladas; uma exposição de fotografia documental; um catálogo dedicado à exposição de fotografia documental; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares; uma exposição de fotografia a partir dos álbuns familiares; e uma publicação (um livro).

“Produzido pela Associação AO NORTE, este projeto é coordenado por Álvaro Domingues, tem produção executiva de Rui Ramos e conta com colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira e João Gigante”.

O Daniel Maciel escolheu para uma das fotografias faladas O Baloiço, com Celina Ribeiro, por sinal, minha tia. Comprova-se que houve mulheres emigrantes que gostaram de viver no estrangeiro; regressaram a Portugal um pouco contrariadas. Mas existem outras fotografias faladas, igualmente interessantes, na página Lugar do Real: http://lugardoreal.com/.

Em Julho de 2019, foi lançado o livro Pedra e Pele respeitante às freguesias de Parada do Monte e Cubalhão. No dia 20 de Outubro, foi a vez do livro Quem fica, da autoria de João Gigante, com textos de Álvaro Domingues e Albertino Gonçalves. Segue a fotografia falada O Baloiço e uma pequena galeria de fotografias do João Gigante.

O Baloiço, com Celina Ribeiro. Produção: AO NORTE. Agosto 2019.

Amor à distância

John Lewis. The man on the moon. 2015.

“A solidão desola-me; a companhia oprime-me” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Inserido no artigo O Homem na Lua (https://tendimag.com/2015/11/07/o-homem-na-lua/), o anúncio Man on the Moon, da John Lewis, foi varrido por ventos adversos. Nada como recolocar o anúncio.

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

The Economist/KFF findings add to a wave of recent research showing high levels of loneliness. A recent Cigna survey revealed that nearly half of Americans always or sometimes feel alone (46%) or left out (47%). Fully 54% said they always or sometimes feel that no one knows them well. Loneliness isn’t just a U.S. phenomenon. In a nationwide survey released in October from the BBC, a third of Britons said that they often or very often feel lonely. Nearly half of Britons over 65 consider the television or a pet their main source of company. In Japan, there are more than half a million people under 40 who haven’t left their house or interacted with anyone for at least six months. In Canada, the share of solo households is now 28%. Across the European Union, it’s 34% (Millenials And The Loneliness Epidemic, Forbes: https://www.forbes.com/sites/neilhowe/2019/05/03/millennials-and-the-loneliness-epidemic/#77e649ac7676

A solidão remete para a ausência de laços sociais. Émile Durkheim assume-o no ensaio sobre o suicídio (1897). Dizer ausência é pouco. Para haver solidão, não é necessário que os laços se quebrem, basta que afrouxem. Como sublinha Zygmunt Bauman (Liquid Love, 2003), a modernidade é caracterizada pelo afrouxamento dos laços sociais. Para além de laços sociais frouxos, existem laços sociais incómodos ou deteriorados, que convém controlar. A arte social é fértil neste tipo de comportamento: por exemplo, convidar sem nunca concretizar. Vivemos rodeados por dispositivos contra a intrusão, que lembram escudos sociais.

A profusão de laços sociais não obsta à solidão. Num lar de idosos, a exposição ao outro é máxima, mas a solidão predomina. Que os laços sociais se quebrem é natural. Que os laços sociais se afrouxem faz parte da nossa modernidade líquida. Que os laços sociais sejam indesejados é um novo problema, um problema que envolve a confiança.

A nossa veia estruturalista induz-nos a focar as redes e os laços. Mas as redes e os laços não são a única realidade que comove o homem. Subsistem minudências, porventura, fortuitas, que fazem dançar a vida. Aquém e além, ocorrem pequenos milagres e pequenas epifanias que nos despertam e nos abraçam. O anúncio opera uma dupla magia: a relação à distância entre a menina e o homem na lua e a relação empática com o público. Uma centelha de amor que passa pelo ecrã. Uma palpitação electrónica.