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A herança de Sísifo

Alzheimer

No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.

Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.

Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.

Fobias

TyC Sports 2018

O canal de televisão argentino TyC Sports destaca-se pelos anúncios politicamente ousados. Em 2016, visou, por ocasião da Copa América, a xenofobia de Donald Trump. Nas vésperas do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, no próximo Junho, lança um anúncio que visa, agora, a homofobia de Vladimir Putin. Os anúncios assumem a paixão do futebol como uma paixão de homens entre homens, paixão que ronda uma espécie de erotismo tribal masculino. Ser homem é partilhar, paroxisticamente, emoções com carga corporal. As objecções ao anúncio Putin contribuíram, entretanto, para a sua retirada da Internet.

Marca: TyC Sports. Título: Putin. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2018.

Marca: TyC Sports. Título: Trump. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2016.

Para além do céu azul

Órgão de Tibães

Órgão do Mosteiro de Tibães

Acabou o Encontro de Sociologia (mosteiro de Tibães). Quando a realidade ultrapassa o sonho, a gente sente-se assim, não sabe bem como; sente-se também assado, não sabe bem como. Hoje, levantamos a cabeça, erguemos o olhar e rasgamos horizontes. Fomos “para além do céu azul”.

Seguem duas músicas do álbum beyond the Missouri Sky (1997), de Charlie Haden e Pat Metheny: The Moon is a Harsh Mistress e Spiritual.

Encontro de Sociologia no mosteiro de Tibães

O Encontro de Sociologia traz-me afastado da música e do blogue. Mas é uma iniciativa compensadora. Seguem o cartaz, o texto de divulgação, o programa e a imagem do íman que será oferecido durante o Encontro.

Cartaz Encontro Sociologia

O Encontro de Sociologia congrega todos os alunos dos cursos de Sociologia da Universidade do Minho (licenciatura, mestrados e doutoramento), bem como os docentes e os funcionários do Departamento de Sociologia. O Encontro decorre no dia 18 de Abril, durante a tarde, no Mosteiro de Tibães. Para a deslocação entre a Universidade e o Mosteiro, haverá dois autocarros que partem às 13 horas junto à pastelaria Montalegrense e regressam às 19 horas. O Encontro inclui visita guiada ao Mosteiro, um dos mais belos exemplares da arte barroca em Portugal, uma conferência e um espetáculo com música, teatro e vídeo protagonizado por estudantes de Sociologia.

Contamos com a presença de todos!
A Direção do Departamento de Sociologia

Programa

14h00 | Visita guiada ao Mosteiro

16h00 | Sessão de Abertura

Rui Vieira de Castro, Reitor da Universidade do Minho,
Helena Sousa, Presidente do Instituto de Ciências Sociais
Albertino Gonçalves, Diretor do Departamento de Sociologia
Maria de Lurdes Rufino, Coordenadora do Mosteiro de Tibães
Joana Mota Silva, Presidente do NECSUM

Conferência “Vigilância, segurança e crime: desafios para a Sociologia”

por Helena Machado, Departamento de Sociologia da Universidade do Minho.

17h00 | Espetáculo de Música, Teatro e Vídeo pelos alunos dos cursos do Departamento de Sociologia

Moderação: José Cunha Machado, Diretor adjunto do Departamento de Sociologia & Joana Mota Silva, Presidente do NECSUM.

19h00 | Encerramento.

Imagem do íman alusivo ao encontro

Imagem do íman alusivo ao Encontro de Sociologia.

Música e espectáculo

01. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath. Detail. 1749

01. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath. Detail. 1749.

Nos tempos áureos do barroco, floresciam os eventos públicos ao ar livre: procissões, triunfos, regatas, concertos, fogo-de-artifício… Eram espectáculos hiperbólicos. Tal como acontece nos nossos tempos com os espectáculos dos Fura dels Baus, as competições desportivas, as cerimónias políticas ou os concertos de música rock.

02. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath, 1749

02. Canaletto. London. Westminster Abbey, with a Procession of Knights of the Bath, 1749.

Algumas das obras mais célebres de Georg Friedrich Handel (1685-1759) foram compostas expressamente para festas e comemorações. De origem alemã, Handel adquiriu a nacionalidade inglesa. Na Alemanha, foi mestre de capela do Eleitor de Hanôver, que se agastou com ele por causa de suas ausências em Londres. O Eleitor de Hanôver assume, entretanto, o trono da Grã-Bretanha, com o nome de Jorge I. Assim se apertam as malhas do destino. Consta que um amigo de Händel, “o Barão Kielmansegge, divisou um meio de reconciliá-los. Um dos passatempos favoritos dos nobres londrinos nesta época era o passeio de barco pelo Tamisa, acompanhados de uma pequena orquestra que os seguia em um barco próprio. Num desses passeios o Rei foi convidado a participar, e Kielmansegge providenciou para que a música executada fosse de Händel. Sem saber quem era o autor, o Rei se mostrou deliciado, e ao ser revelada a trama, perdoou-o” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Georg_Friedrich_H%C3%A4ndel).

03. Jorge I de Inglaterra com Handel, à esquerda.

03. George Frideric Handel (esquerda) e o rei Jorge I no rio Tâmisa, 17 de julho de 1717. Pintura de Edouard Jean Conrad Hamman (1819–88).

A Water Music foi encomendada pelo rei Jorge I para o acompanhar no rio Tamisa. Estreou em 17 de Julho de 1717. O sucesso foi de tal ordem que os músicos repetiram a peça três vezes (ver imagem 03).

The Hornpipe from Handel’s Water Music (HWV 349), performed by the FestspielOrchester Göttingen, Laurence Cummings, director.

O Messiah, encomendado por Lord Lieutenant da Irlanda, para uma campanha de beneficência, estreou no dia 13 de Abril de 1742, em Dublin. Assistiram cerca de 700 pessoas. Prevendo grande afluência, foi solicitado aos cavalheiros que se despojassem das suas espadas e às damas que não vestissem saias com armação, para caber mais gente. Durante o primeiro concerto em Londres, D. Jorge II, emocionado com o coro (Hallelujah), levanta-se. Respeitando o protocolo, “ninguém permanece sentado perante o rei em pé”, toda a assistência se levanta. Continua a ser costume assistir ao Messiah em pé.

Händel: »Hallelujah« (Messiah) ∙ hr-Sinfonieorchester ∙ Chœur du Concert D’Astrée.

04. A View of the fire-workes and illuminations at his Grace the Duke of Richmond, at Whitehall, and on the River Thames, Monday 15 May, 1749

04. A View of the fire-workes and illuminations at his Grace the Duke of Richmond, at Whitehall, and on the River Thames, Monday 15 May, 1749.

A Music for the Royal Fireworks foi encomendada pelo rei Jorge II para a celebração do Tratado de Aix-la-Chapelle, com  música e fogo-de-artifício. No dia de estreia,  27 de Abril de 1749, ocorreu um incêndio num paiol.

Filharmonia Narodowa. Jacek Kaspszyk conducts Händel’s La Rejouissance from Fireworks Music.

Estas três músicas são empolgantes. Prefiro, contudo, a serenidade do “Ombra ma fui”, largo da ópera Xerxes (1738).

George Szell and the London Symphony Orchestra play Handel’s Largo from Xerxes.

Triunfo

Dedico este pequeno texto ao José Viriato Capela e ao Henrique Barreto Nunes.

Denis van Alsloot. Ommeganck.  Bruxelas. 1615

Denis van Alsloot. Ommeganck em Bruxelas no dia 31 de maio de 1615. A imagem está em alta resolução. Pode carregar e aumentar.

Uma semana antes do Pentecostes, era costume celebrar, em Bruxelas, Notre-Dame du Sablon, protectora da cidade. A procissão (Ommegang, em flamengo) era imponente, uma extensa e variegada expiação colectiva. À semelhança da procissão do Corpo de Deus, convocava a participação, e o contributo, das principais instituições, cujos membros eram dispostos em meticulosa e ostensiva hierarquia. Cada corpo envergava o seu traje com a respectiva cor. Quanto mais poderosos, mais próximos da imagem da santa (ver quadro 1, de Denis van Alsloot).

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. A imagem está em alta resolução. Pode carregar e aumentar.

No seu clímax, a procissão serpenteava pela Grande Place de Bruxelas. À semelhança do Corpo de Deus, a procissão intercala cenários diversos, senão opostos: agora, o fausto religioso, político e corporativo; logo, a folia carnavalesca, grotesca e diabólica. A procissão incorpora, por exemplo, crianças fantasiadas de demónios. É neste cenário que espreita uma tarasque, ou seja, uma parente da Serpe da Bugiada de Sobrado e das cocas de Monção, de Amarante e de muitas procissões do Corpo de Deus.

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. Detalhe

Denis van Alsloot. The Ommeganck in Brussels on 31 May 1615. The Triumph of Archduchess Isabella. Detalhe.

No segundo quadro, o olhar de Denys van Alsloot concentra-se no Triunfo da Arquiduquesa Isabel (1556-1633), integrado na procissão (Ommegang) de Notre-Dame du Sablon. Os carros alegóricos, os gigantes e os dragões ilustram o esplendor barroco. Pintores e escultores consagrados dedicavam-se a conceber estas artes efémeras. Giuseppe Arcimboldo despendia o seu tempo e a sua arte no esboço de figuras excêntricas para os triunfos e outras festividades da corte dos imperadores Habsburgos (ver imagens). Embora os carros alegóricos versem sobre a natividade ou sobre o anúncio a Maria, trata-se de uma demonstração de poder. Em nome dos deuses do céu, celebram-se os deuses da terra.

Em Portugal, havia celebrações parecidas. Por iniciativa da realeza, do clero ou da nobreza. Frequentemente, em conjunto. No livro Artes e Artistas em Portugal (1892, Lisboa, Livraria Ferreira), Sousa Viterbo entrega-se a uma espécie de inventário histórico das festas nacionais que oscilam entre o cerimonioso, o barroco e o grotesco (junto um excerto com o capítulo IV). Manuela Milheiro tem uma obra notável, bem documentada e meticulosa, sobre Braga: A Cidade e a Festa no Século XVIII (2003, Guimarães, Núcleo de Estudos de População e Sociedade). Está acessível no repositório da Universidade do Minho (https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/848 ).

Sousa Viterbo. Artes e Artistas em Portugal. Capa e Capítulo IV. 1892.

 

O Carnaval de Antuérpia no século XVII

Erasmus de Bie retratou, em 1670, o Carnaval de Antuérpia. Não fica atrás do Rio ou de Nice. Ontem, como hoje, as pessoas deleitam-se com as artes efémeras. Tempos barrocos.

Tenho descendência a viver em Antuérpia. Nunca o imaginei! Mas a desigualdade entre sociedades quanto ao valor que conseguem atribuir aos seus membros é decisiva. No meu País, a balança pende para o lado de fora. Lembra um montado: plantam-se sobreiros para exportar rolhas. Um corpo exangue com uma sanguessuga na cabeça.

Erasmus de Bie. Carnival Floats on the Meir Square in Antwerp. 1670

Erasmus de Bie. Carnival Floats on the Meir Square in Antwerp. 1670

Carnaval brasileiro

O Carnaval é seu. Apple Brasil

Gostava de acompanhar estes dois anúncios da Apple brasileira com um texto antigo sobre o Carnaval. Mas… “És um palerma!”, costuma exclamar, afectuosamente, o meu amigo Moisés consternado com o meu desleixo proverbial. Escrevi vários textos sobre o Carnaval mas não encontro nenhum, exceptuando uma entrevista à Lusa (ver Carnaval é momento colectivo de esperança). Na verdade, aconteceu-me um percalço. Armazenei informação de vários anos num disco externo. Com o “pragmatismo” que me caracteriza, coloquei o disco no chão, à prova de quedas. Alguém, organizado, arrumou o disco sobre o computador; a gata recolocou-o no chão, com razão eterna: o computador era o seu divã ronronante. Dispensava tijolos! Ardeu, assim, ingloriamente, a maior parte do meu arquivo digital, incluindo os meus textos sobre o Carnaval.

Carnaval é cor, corpo e movimento. É deslumbramento, extravagância, irreverência e transfiguração. É pulsão, catarse, desejo, sexo e orgia. É o renascimento festivo da esperança. É a dança do tempo prenhe de futuro. Os dois anúncios da Apple brasileira captaram magistralmente o espírito do Carnaval.

Marca: Apple. Título: O Carnaval é seu. Agência: LewLara/TBWA Brazil. Brasil, Janeiro 2018.

Marca: Apple. Título: Meu bloco de rua. Agência: TBWA Brazil. Brasil, Fevereiro 2018.

Feliz Natal!

Marca: Indie Junior. Título: Horse. Agência: Leo Burnett (Lisboa). Direcção: Telmo Vicente. Portugal, 2014.

A bênção escatológica num mundo às avessas. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado

Dedico este artigo aos alunos de Sociologia da Cultura. Sabem aprender, descobrir e conhecer de diversas formas. Uma sabedoria em perdição. Gosto dos alunos! São pinceladas coloridas numa tela que tanto se esforça por ser cinzenta. Os alunos ajudam-me a não enterrar o pensamento. Aflitos com o pico de trabalhos práticos, contra-organizaram-se; pediram o adiamento da aula. Segue um texto de apoio. Tornou-se vício crónico a avaliação sobrepor-se à função.

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

Este texto decorre de um estudo em curso dedicado à festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado, no concelho de Valongo, estudo coordenado por Rita Ribeiro, que integra os seguintes investigadores do CECS (Centro de Estudos Comunicação e Sociedade) e do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia): Moisés de Lemos Martins; Manuel Pinto; Luís Santos; Emília Rodrigues Araújo; Luís Cunha; Jean-Yves Durand; e Maria João Nunes. Caiu-me em sorte escrevinhar sobre os Serviços da Tarde.

Vídeo 01. Festa dos Bugios e Mourisqueiros. Sobrado – Valongo. CECS. 2016. Ver, também, para uma panorâmica global, o documentário Viagem ao Maravilhoso: Bugios e Mourisqueiros, RTP, 1990.

Os Serviços da Tarde, ou Sementeiras, consistem numa sequência de episódios, de índole carnavalesca, associados à atividade agrícola. Culmina numa farsa: a Dança do Cego, ou Sapateirada. Trata-se de um ritual único e notável, antes de mais, pela consistência. Os princípios gerais, a macroestrutura, reiteram-se em cada uma das partes, as microestruturas (Goldmann, Lucien, 1970, “Microstrutures das les vingt-cinq premières répliques de Nègres de Jean Genet”, in Structures Mentales et Création Culturelle, Paris, Ed. Anthropos, pp. 341-67). Esta “cristalização fractal” decorre da sedimentação e da consolidação de crenças e rituais ancestrais. Os Serviços da Tarde, mormente a Dança do Cego, não destoariam das festas populares que excitavam as praças e ruelas medievais. O grotesco, acentuadamente escatológico, anima as diversas atividades, conferindo-lhes espontaneidade, irreverência e impacto. Não se observa qualquer separação entre os protagonistas e o público. Não existem palcos ou cercas passíveis de contrariar a abrangência turbulenta do convívio coletivo (Maffesoli, Michel, 1988, Le Temps des Tribus, Paris, Méridiens-Klincksieck). A interação, desejada, é constante. Predomina a cultura cómica popular  (Bakhtin, Mickail, [1965] 1970, L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Rennaissance, Paris, Gallimard). As máscaras, omnipresentes, escondem ou revelam? Alteram. Retomando Mikhail Bakhtin ([1929] 1970, La poétique de Dostoïevki, Paris, Seuil), a máscara propicia o diálogo com a alteridade que coabita dentro e fora de nós. Quando a mascarada é coletiva, são as próprias comunidades que se descentram e transformam.

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02. Bugios mascarados. Fotografia de Michel Sasso. 2012.

Os Serviços da Tarde abrem com a Cobrança dos Direitos. Ao ar livre, acompanhado por bugios e rodeado pelo público, o cobrador monta num burro às avessas. Para escrever a contabilidade, finge carregar a enorme pluma no rabo do burro. Este episódio marca toda a série. A figura do burro montado às avessas é remota. Esculturas da Antiguidade mostram Sileno (ver Sileno, o vinho e o burro: https://tendimag.com/2015/03/28/sileno-o-vinho-e-o-burro/) e Dionísio às arrecuas num burro (Imagem com Dionísio). Estas imagens popularizam-se nas iluminuras medievais. Durante as Festas dos Loucos e a Festa do Burro, o eclesiástico eleito bispo entra na igreja montado às avessas num burro, por sinal, o animal celebrado durante a “cerimónia” (ver Heers, Jacques, 1984, Fête des fous et carnavals, Paris, Fayard). Estes casos são convergentes: o burro montado às avessas simboliza a desordem cósmica, mais precisamente, a inversão do mundo, tópico maior dos Serviços da Tarde.  (Imagem da Idade Média; som com a missa do burro).

Dionísio montado num burro  (200AC) Minneapolis Institute of Fine Art

03. Dionísio montado num burro. 200 a. C. Minneapolis Institute of Fine Art.

O burro possui uma elevada carga simbólica que o inclina mais para as profundezas do inferno do que para as alturas do paraíso. Animal do presépio, o único montado por Cristo (na fuga para o Egipto e na entrada em Jerusalém), o burro é associado à teimosia e à sexualidade exuberante. Por seu turno, o uso do rabo do burro como tinteiro indicia, para além da inversão, o rebaixamento grotesco: a pluma e, por extensão, o cobrador deixam-se contaminar pelo baixo corporal asinino. A inversão e o rebaixamento são escatológicos (Cabral, Muniz Sodré A.& Soares, Raquel Paiva de A., 2002, O Império do Grotesco, Mauad, pp. 65-72). O baixo material e corporal, a sexualidade, os excrementos, a desordem e a poluição comportam uma potência de morte e de vida, de regeneração (Douglas, Mary, 1966, Purity and Danger, New York, Frederick A. Praeger).

À Cobrança dos Direitos, sucede a Lavra da Praça, que engloba três atividades agrícolas: semear, gradar e lavrar. A representação da agricultura como ciclo de tarefas povoa os livros de salmos e de horas medievais: o Livro de Horas de D. Manuel, da primeira metade do séc. XVI (1983, Imprensa Nacional / Casa da Moeda) constitui um bom exemplo. Mas os Serviços da Tarde acrescentam um pormenor crucial: a inversão do tempo. O camponês não só monta o burro como cavalga o calendário agrícola às avessas. Semeia antes de gradar; grada, antes de lavrar; paga os direitos antes de colher. Baralha-se o tempo, baralha-se a vida. Destroem-se ordens e constroem-se desordens (Balandier, George, 1980, Le pouvoir sur scènes, Paris, Balland; e Gonçalves, Albertino, 2009, Vertigens. Para uma sociologia da perversidade, Coimbra, Grácio Editor).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

Montado às avessas, o camponês semeia. Retira de um saco “sementes” que espalha sobre o público. Dissemina e, simbolicamente, insemina. Fertiliza e fecunda, como manda a festa de S. João! O “saco das sementes” continha, nos tempos do linho, baganhas esmagadas, substituídas, hoje, por serrim, ambos desperdícios. Segundo consta, com impurezas à mistura. A arruada toma ares de charivari: gaitas, gritos, obscenidades, provocações e um banho de gente. A violência espreita: o camponês, derrubado do burro, envolve-se com os bugios e com a assistência até aos limites do simulacro. A terra e a semente, o caos e a violência, a campa e o túmulo…

Os “actores” que “vestem a personagem” do camponês (Stanislavski, Constantin, [1949], A Construção da Personagem, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1986) evidenciam arte e treino. Aqui, o camponês deixa-se cair do burro desamparado e roda pelo chão. Logo, passa por baixo da cavalgadura. São gestos de rebaixamento, mas também habilidades teatrais de saltimbancos. A festa prepara-se, de facto, durante todo o ano, de ano para ano.

 

Vídeo 02. Lavra da Praça. Gradar.

Lavrar e gradar são actividades agrícolas consecutivas. Lavra-se e, de seguida, grada-se para, depois, semear. O arado que sulca a terra destaca-se como um símbolo quase universal da sexualidade (Chevalier, Jean & Gheerbant, 1969, Dictionnaire de symboles, Paris, Robert Laffont). Agora apeado, o camponês guia a grade, ou, no episódio seguinte, a charrua, puxada, uns metros à frente, por um burro ou por um cavalo. Destemperado, a frisar a doidice e a embriaguez, o camponês grada e sulca o asfalto, o granito e a terra. A condução, imprevisível, ameaça chocar com a assistência. Às vezes, acontece. Circulam e cruzam-se insultos e palavrões. A grade acaba destruída. O camponês faz questão. Não faltou pontaria para acertar numa árvore. O lavrar e o gradar convocam a sexualidade, a loucura, o caos, o movimento e a violência. O ambiente de “efervescência criativa” (Durkheim, Émile, [1912] 1991, Les formes élémentaires de la vie religieuse, Paris, Le Livre de Poche) frisa a orgia (Maffesoli, Michel, 1982, L’Ombre de Dionysos. Contribution à une Sociologie de l’Orgie, Paris, Méridiens/Anthropos). Catarse? Despedida cíclica? Libertação ? Violência fundadora (Maffesoli, Michel, 1984, Essai sur la violence banale et fondatrice, Paris, Librairie Méridiens/Klincksiec ; Girard, René, 1972, La Violence et le Sacré, Paris, Editions Grasset)?

Os Serviços da Tarde operam uma inversão do tempo, uma das maiores tentações da humanidade. Num anúncio publicitário célebre, um jovem casal despede-se, no meio da praça, à vista de todos. Ele sobe para o autocarro e ela fica desconsolada. As pessoas começam a “andar para trás”: o ciclista, o carro e os peões; o barbeiro recoloca o cabelo na cabeça do cliente, o pintor apaga a tinta, o varredor esvazia o lixo… E o autocarro reaparece, lentamente, de marcha atrás; o jovem desce, abraçam-se e ficam felizes para sempre. Este anúncio da Orange chama-se, apropriadamente, Rewind City (agência: Publicis; França, 2008). Encena o recurso à magia para alterar o destino e a ordem cósmica (ver Publicidade e Magia; https://tendimag.com/2013/08/05/publicidade-e-magia/). Os Serviços da Tarde invertem o ciclo agrícola para fazer recuar a vida? As gentes de Sobrado sabem que não há magia que valha. O que não os impede de retomar, ano após ano, o ritual. Os bugios também sabem que vão perder a guerra com os mourisqueiros. Mas entregam-se ao combate!

Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (ver Goldmann, Lucien, 1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard).

A Dança do Cego, ou Sapateirada, último episódio dos Serviços da Tarde, exibe todos os pergaminhos de uma farsa. Entaladas entre os mistérios e as moralidades, as farsas medievais aliviavam os fiéis de tanta seriedade. Surgiu, assim, um género teatral breve, com poucas personagens, apostado na ação, nos adereços e no cenário, em detrimento da palavra. A linguagem é vulgar, os gestos e os objetos impróprios e a violência, uma pantomina. Propensa a equívocos e absurdos, a farsa privilegia as reviravoltas que vitimam o agressor, humilham o soberbo ou enganam o aldrabão. Menção especial merece a inversão de género: a mulher engana e domina o homem, como no caso da Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente. Não obstante, a farsa não visa propósitos moralizadores ou edificantes. A interação com o público é apanágio da farsa. Relíquia histórica, a Dança do Cego ostenta estas propriedades. Convoca, inclusivamente, as personagens da farsa mais antiga de que há registo. Da segunda metade do séc. XIII, Le Garçon et l’Aveugle (Paris, Librairie Ancienne Honoré Champion, 1921) também inclui um cego acompanhado pelo criado.

Vídeo 03. Dança do cego. São João de Sobrado.

A Dança do Cego é tão apreciada que, à semelhança de outros números, é representada em vários locais da vila de Sobrado. Replicada junto à igreja e noutros locais, as pessoas acotovelam-se à volta de um lamaçal imundo. Dezenas de metros quadrados de lama, urina e excrementos de animais. Sentado num banco, andrajoso, o sapateiro martela o calçado, molha-o e atira-o indiscriminadamente para o público, que o recebe como uma espécie de bênção escatológica. O sapateiro e a mulher (representada por um homem) não param de se desentender. Aproxima-se um cego com o seu criado. O cego tropeça e estatela-se de bruços no lamaçal. Furioso, o sapateiro bate-lhe com a vara. Arrepende-se. Para verificar o estado de saúde, aproxima a cara do traseiro do cego. Respira, pelo menos por baixo! Deslocando-se de um lado para o outro, o sapateiro bate com a vara no lamaçal. Mais uns salpicos providenciais. O público aproxima-se e afasta-se; delira. Entretanto, o criado do cego rapta a mulher do sapateiro, que terá que recorrer ao jogo do pau para a reaver.

A auscultação de sinais vitais junto ao traseiro é rara e insólita, mas não é inédita. No livro Pantagruel, Epistemão foi decapitado durante uma batalha épica. Panurgo coze-lhe a cabeça:

“De repente, Epistemão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva. Disse então Panurgo: – Está, com toda a certeza, curado” (Rabelais, François, [1532] 2006, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, p. 168).

A Dança do Cego é uma obra-prima, sistemática e radical, de rebaixamento escatológico. O lamaçal é uma espécie de húmus. “O humano é também húmus” (Maffesoli, Michel, 1998, Elogio da Razão Sensível, Petrópolis, RJ, Vozes, p. 35). O cego estatela-se no lamaçal e aí permanece imobilizado. Os sapatos remetem para os pés, rasteiros e desvalorizados. O arremesso dos sapatos e os salpicos de esterco configuram um ritual misto de batismo e poluição. Tudo servido com entusiasmo público. Estamos perante um rebaixamento grotesco festivo, que regenera e restaura. A solução adotada pelo sapateiro para descortinar os sinais vitais do cego representa um caso paradigmático de rebaixamento mediante aproximação dos contrários: a face nobre e o traseiro ignóbil. Graças a este mergulho na terra e no corpo, a comunidade resulta renovada e reforçada. Não se vislumbra a mínima sombra de grotesco do estranhamento corrosivo kayseriano (Kayser, Wolfgang, [1957] 1986, O grotesco: configuração na pintura e na literatura, São Paulo, Editora Perspectiva). Na Dança do Cego, o rebaixamento quer-se cómico, vitalista e popular, “bakhtiniano”. O baixo, prenhe, é esperançoso.

Existem festas e rituais congéneres um pouco por todo o mundo. Lidamos com arquétipos (Jung, Carl Gustav, 2000. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes), “estruturas antropológicas do imaginário” (Durand, Gilbert, 1960, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, Paris, P.U.F.). Assim como, em Sobrado, o camponês brinda o público com sementes e o sapateiro com lama imunda, em Lanjarón (Granada, Espanha), durante a “Carrera del Agua”, logo a seguir à meia-noite de S. João, residentes e forasteiros percorrem cerca de 1 500 metros molhando-se uns aos outros, com o que estiver à mão, sob uma “chuva” que cai das janelas, das varandas e dos telhados, enviada pelos não participantes. A rega no lugar da sementeira.

O cego e o sapateiro movem-se na lama. Em Bibiclat, no norte das Filipinas, durante o São João, ao amanhecer, os aldeões reúnem-se em silêncio num campo pantanoso, cobrem-se de lama e vestem capas feitas de folhas de bananeira. Assistem neste preparo à celebração da missa.

Mais perto, nas freguesias de Romarigães (Paredes de Coura), Covas (Vila Nova de Cerveira) e São Julião (Valença) ocorre a pega ou apanha do porco. À volta de um recinto cercado, enlameado a rigor, o público assiste à briosa perseguição de porcos bravos. Ganha o concorrente mais rápido a agarrar os bichos (ver Lama, excrementos e porcos; https://tendimag.com/2016/06/26/lama-excrementos-e-porcos/).

Vídeo 04. Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira. 2012.

Recoloquemos o olhar na matriz medieval, nas festas dos loucos e na festa do burro. À semelhança do cobrador e do camponês, o eclesiástico eleito entra na igreja às arrecuas, montado num burro. Baseado em documentos de 1454 e 1482, Mr. du Tilliot descreve, em livro publicado em 1741, o pandemónio durante e após a celebração do ofício:

“On voyait les Clercs & les Prêtres faire en cette Fête un mèlange afreux de folies & d’impietez pendant le service Divin, où ils n’assistoient ce jour-là qu’en habits de Mascarade & de Comedie. Les uns étoient masquez, ou avec des visages barbouillés qui faisoient peur, ou que faisoient rire, les autres en habits de femmes ou de pantomimes, tels que sont les Ministres du Theatre. Ils dansoient dans le Choeur en chantant , & chantoient des chansons obscènes. Les Diacres & les Sou-diacres prenoient plaisir à manger des boudins & des saucices sur l’Autel, au nez du Prêtre célébrant : ils jouoient a ses yeux aux Cartes & aux Dez : ils mettoient dans l’Encensoir quelques morceaux de vieilles savates, pour lui faire respirer une mauvaise odeur. Après la Messe, chacun couroit, sautoit & dansoit par l’Eglise avec tant d’impudence, que quelques un n’avoient pas honte de se porter à toutes sortes d’indécences, & de se dépouiller entierement ; ensuite ils se faisoient trainer par les rues dans des tombereaux pleins d’ordures, où ils prenoient plaisir d’en jetter à la populace qui s’assembloit  autour d’eux » (Mr. du Tillier, 1741, Memoires pour servir a l’histoire de la Fête des Foux, Lausanne & Geneve, chez Marc-Michel Bousquet & Compagnie, pp. 5-6).

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Norte de França. Séc. XIII.

“Sabemos que os excrementos desempenharam sempre um grande papel no ritual da “festa dos tolos”. No ofício solene celebrado pelo bispo para rir, usava-se na própria igreja excremento em lugar  de incenso. Depois do ofício religioso, o clero tomava lugar em charretes carregadas de excrementos; os padres percorriam as ruas e lançavam-­nos sobre o povo que os acompanhava (Bakhtin, Mikahil, 1987. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo. HUCITEC, P. 126).

Durante a Missa do Burro, o ofício e os cânticos eram talhados a preceito. As pessoas cantavam, bramiam e zurravam em devoção ao animal.

Clemencic Consort. Clemencic Consort. Kyrie Asini – Litanie. La Fête de l’Ane. 1985.

À semelhança dos Serviços da Tarde, a festa dos loucos começa invertida e acaba escatológica.

 

A Dança do Cego ganha em ser integrada na série dos trabalhos agrícolas dos Serviços da Tarde. Alude, inequivocamente, à adubação. O camponês dispunha o estrume em montículos para o espalhar por todo o campo antes da lavra. Fertilizante, a Dança do Cego não conhece princípio nem fim; é o princípio e o fim; é o recomeço, em adubo líquido. O eterno retorno do estranho sempre próximo. Forasteiros, o cego e o criado ameaçam a ordem local. O rapto e o resgate da mulher do sapateiro exprimem o carácter agonístico da competição sexual. Nos Serviços da tarde, tudo é movimento, metamorfose e vertigem. Território, comunidade, violência e sexualidade, dimensões cardeais da vida humana, borbulham no caldeirão da lama impura. Impuro sobre impuro gera libertação e esperança. Há batismos e batismos! A potência telúrica e a promessa das entranhas abraçam-se, dançam e envolvem-nos nos Serviços da Tarde da festa de São João de Sobrado. De geração em geração, desde tempos imemoriáveis.