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A idade e a solidão

ONG Grandes Amigos. Familias hinchables. 2019.

“A mais terrível pobreza é a solidão e o sentimento de não se ser amado” (Madre Tereza de Calcutá).

A solidão não escolhe idades, mas não as escolhe por igual. A solidão escolhe, sobretudo, a velhice. Está-se só em casa ou na sala comum de uma residência sénior. A presença do outro não basta, importa partilhar laços. Não existem laços suplentes nem famílias insufláveis. E, como sugere Zygmunt Bauman, na modernidade líquida os laços tendem a afrouxar.

No dia 3 de Março, vai ser lançado na televisão o anúncio espanhol Familias Hinchables da ONG Grandes Amigos:

Mayte Sancho, investigadora en gerontología social y presidenta de Grandes Amigos, ha comentado como “Familias Hinchables” visibiliza que la solución a la soledad no deseada de las personas mayores pasa por regenerar los lazos afectivos (https://www.reasonwhy.es/actualidad/campana-familias-hinchables-soledad-mayores).

Para acompanhar, acrescento uma música em italiano, Solitudine, por um cantor brasileiro: Renato Russo.

Anunciante: ONG Grandes Amigos. Título: Familias Hichables. Agência: El Ruso de Rocky. Direcção: Günther. Espanha, Fevereiro 2019.
Renato Russo. La solitudine. Equilíbrio distante. 1995.

Sem título

Mais rápido do que a sombra. McDonald’s. Lucky Luke. BETC Paris. França.

A peste medieval foi terrível. Mas não tinha culpados. Inventaram-se. O tabaco tem os seus pecadores. Quem acredita que este género de anúncio retrata a realidade, abstenha-se de aumentar os impostos sobre o tabaco ou de publicar centenas de anúncios de mau agoiro. Se esta é a sua fé, deve proibir o tabaco. Basta de prognósticos fúnebres, exorcize-se o mal pela raiz! E, reduzido o fumo a cinzas, retire-se a palhinha da boca de Lucky Luke.

Anunciante: Wyoming Department Health. Título: Dear Mom. Agência: Warehouse 21. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Saco de batatas

A jornalista Paula Telo Alves cita o Tendências do Imaginário no editorial de O Contacto, Jornal do Luxemburgo, intitulado Sinais de Fumo, a propósito do projecto do governo luxemburguês no sentido de tornar obrigatória a instalação de detectores de fumo em todas as casas, incluindo as privadas. Para aceder ao artigo de Paula Telo Alves, carregar na seguinte imagem.

Esqueleto fumador.

No ano 2018, 18,8% das visitas ao Tendências do Imaginário provêm de Portugal; menos de metade do Brasil, 44,4%, e o mesmo que os Estados-Unidos, 18,6%. Relativizando, em Portugal, 26 visitas por 10 000 habitantes, e no Brasil, 3 por 10 000 habitantes. Confesso que já não sei para quem escrevo.

Cabe aos fumadores uma pesada sobrecarga fiscal. Não é segredo. No entanto, entre os fumadores não predominam as classes médias nem as classes altas. As classes populares estão sobre-representadas. O imposto sobre o tabaco é tudo menos solidário. Configura um imposto focado, por que só atinge um segmento da população, e um “imposto cego e injusto porque afecta os contribuintes de igual forma, apesar das disparidades dos rendimentos disponíveis”. É uma solução de recurso que colide com o princípio da progressividade fiscal. Pagam os mais pobres para todos. Duvido que esta equação seja constitucional. Mas deve ser. Os grandes textos como a constituição costumam ser poliglotas. Uma pessoa faz uma pergunta numa língua e a resposta vem noutra.

Em muitos países, a legislação e a propaganda anti-tabaco parecem desafiar as liberdades e garantias constitucionais. Sustenta-se que é para proteger os não-fumadores, vítimas do fumo intrusivo. Este argumento da discriminação de alguns para proteger os outros é antigo. Há noventa anos, protegia-se a raça. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a Inquisição “salvou” muitos heréticos de si mesmos. O homem permanece feito da mesma massa. Os nichos da intolerância e do totalitarismo são fáceis de construir. A privacidade tem-se manifestado, historicamente, a principal presa do totalitarismo. Totalitarismo e privacidade são antagónicos. 

Creio nos interpretes da constituição mais do que o turista inglês acredita na limpeza das ruas do Porto. 

 

“Um inglês descia a avenida dos Aliados. Depara-se com um imprevisto no passeio. Observa e pensa:

  • Isto parece cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva toca na anomalia.
  • Isto é mole como cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva extrai uma amostra que aproxima do nariz:
  • Isto cheira a cocó, mas cocó no Porto não pode ser
  • Aproxima a ponta do guarda-chuva e prova.
  • É mesmo cocó, ainda bem que não pisei.

Aflige-me que tantas organizações governamentais, para-governamentais e não-governamentais se empenhem sistemática e ostensivamente em associar o fumador, acima de dois milhões de pessoas em Portugal, à morte, ao morrer e ao morto. Além de mórbido é macabro. Se esta propensão não é uma afronta à dignidade dos cidadãos, então qual é o significado constitucional de dignidade? Como é possível que um Estado democrático divulgue “ameaças de morte” aos seus cidadãos por “crime de fumo”? Como é possível que as campanhas anti-tabaco se resumam, essencialmente, a ameaças de morte? Será que existem responsáveis que acreditam que o mundo é um videojogo?

O cigarro e a morte
O cigarro, a cinza, o fumo e a morte.

Tantas organizações anti-tabaco e nenhuma pró-fumador! Este desequilíbrio desassossega-me: O que impede os fumadores de se mobilizar através de organizações e associações? A resposta mais sensata encontro-a num apontamento de Karl Marx acerca dos camponeses:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo (…). Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas de elas constituem uma aldeia e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852).

Pulverizados enquanto massa, os fumadores portugueses constituem, tal como os camponeses de Karl Marx, um saco de dois milhões de batatas. 

O fumador suicida ou o cigarro mortal

Entre quatro linhas

Smoking Cartoon Angry Face (https://br.storyblocks.com/stock-image/smoking-cartoon-angry-face-hqzepxru7ozj6grsnrs)

“Quanto mais a água é pura, menos peixes tem” (Provérbio chinês)

Aprende-se quando se viaja. O aeroporto do Luxemburgo é magnânimo: permite fumar fora do edifício. Nuns rectangulozinhos chamados smoking areas, situados entre as entradas. Com 6 graus abaixo de zero, as calças pareciam cubos de gelo. Acodem-me dois sentimentos: um de culpa e outro de idiotice. Tanta chaminé bípede a expelir fumo magoa a cidadania: em tempos de aquecimento, os fumadores tanto aquecem os pulmões como o planeta. Mas mais do que fumar tabaco, fumam-se impostos. No tempo do volfrâmio, consta que havia quem acendesse o cigarro com notas de dinheiro. O fumo do tabaco também se desfaz no orçamento do Estado. Aproximo-me da smoking area. Uma jaula sem grades para párias. Fuma-se e defuma-se até à última cinza.

Uma nova doutora em Ciências Sociais: Heidi Rodrigues Martins. Universidade do Luxemburgo.

Esta segregação justifica-se: afasta os fumadores das entradas. A segregação sabe-se quando começa, não se sabe onde acaba. Com uma ponta de humor negro, imagino os cemitérios com um recanto destinado aos falecidos fumadores. Protecção tanto na morte como na vida. Em poucas décadas, a intolerância face ao tabaco disparou. A aversão das pessoas não é só mental, é física. O fumo incomoda. Na Europa, uma em cada três pessoas com mais de 15 anos fuma (28%). É muita população sem privilégios sobrecarregada com impostos. Uma nova versão da solidariedade social e da repartição democrática dos rendimentos. O confinamento rectangular do fumador não estranha. Faz parte do imaginário. Na topografia das almas, o único lugar que não tem fumo é o Céu. Não obstante, insisto que a obsessão pela pureza é perigosa. O puro pode ser imundo. Vou ter que deixar de fumar. É uma estupidez que dura uma vida. Não me apetece ser ovelha estrelada numa pastagem de cimento. Let us smoke on the water!

Deep Purple – Smoke On The Water – Live 1973 (New York, USA).

Os condenados da terra

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

“Não faz muito tempo a terra tinha dois biliões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilião e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado” (Jean-Paul Sartre, Prefácio, Franz Fanon, Os Condenados da Terra, 1961).

Quando não se vive e não se está morto, recorda-se.

Existe um anúncio que me marcou profundamente e não consigo encontrar: da Unicef, sobre a fome em África e com a música Twelve o’clock do Vangelis (Heaven and Hell, 1975). Tornou-se uma obsessão. Passava, há mais de 30 anos, na televisão francesa na hora de jantar. O apetite encolhia-se perante o cortejo de imagens de desnutrição extrema acompanhado por um lamento do outro mundo.

Não sei se encontrei o anúncio, mas nunca estive tão perto. A memória audiovisual é vaga, muito vaga. O anúncio Don, da Unicef, corresponde na música e em algumas imagens, mas data de 1985. Regressei de França em 1982. Talvez seja uma sequência ou talvez o tenha visto numa das então muitas viagens a França.

O vídeo Africa Hunger aproxima-se bastante do dito anúncio. Tem imagens terríveis de desnutrição e música do Vangelis, embora diferente e mais recente: Rachel’s song (Blade Runner, 1994). Nem sequer é um anúncio, a não ser o da nossa irresponsabilidade. Para Paul Virilio, a realidade acelerou a uma velocidade nunca vista, mas nem tudo acelerou, há realidades que mudam demasiado devagar.

Anunciante: Unicef. Título: Don. Agência: Opus. França, 1985. Música Twelve o’clock, Heaven and Hell, 1975.

MarK Van Doich. Africa Hunger. 2009. Música: Vangelis. Rachel’s song. Album: Blade Runner. 1994.

Pedagogia de choque

SAAQ. Stunt piéton

Do ponto de vista do cidadão moderno, os atropelamentos são inadmissíveis. Demasiada imprudência, distracção e morte. A publicidade destaca-se como um dos principais meios de prevenção. Há várias formas de dissuadir o peão imprevidente: acidentes tecnicamente estetizados ou dramatizados; mortos faladores; desespero dos pais das vítimas; anjos salvadores… Predominam os anúncios que chocam e assustam. É o caso do Stunt piétons, da canadiana SAAQ (Société de l’Assurance Automobile du Québec). O anúncio recorre ao choque e ao susto. O desvio é o caminho mais avisado. Os acidentes e as vítimas, reduzidas a esqueletos, reconhecem-se no ecrã de um aparato técnico. A simulação de uma realidade pode ter mais impacto do que a própria realidade.

A pedagogia do choque e do medo não é apanágio dos regimes e das instituições totalitárias. Mais ou menos eficaz, configura um discurso do poder. A pedagogia do choque e do medo esmera-se, mas, muitas vezes, sem grandes resultados. Por exemplo, contra o tabaco ou o álcool. Tudo indica que a pedagogia do choque e do medo também é apanágio das sociedades democráticas. A prudência não está associada ao medo? O medo não sensibiliza?

Marca: SAAQ. Título: Stunt piétons. Agência: Lg2. Direcção: Olivier Labonté Lemoyne. Canadá, Novembro 2018.

A sombra das novas tecnologias

phone

Anúncios como o Get your brain back, da reMarkable, ou Relax we post, da Ibis, multiplicam-se. A extrema euforia é mãe do desencanto. Inovações com o impacto das novas tecnologias não podem dormir na sombra do entendimento. As novas tecnologias são aditivas. Afastam-nos do “mundo da vida”. Moldam-nos, menos com sobressaltos e mais com massagens infestantes. O anúncio Get your brain back enuncia os riscos do mundo electrónico e sugere, como alternativa, o “papel digital”, uma oportunidade de negócio; no anúncio Relax we post, uma rede de hotéis disponibiliza uma ama-seca para cuidar dos telemóveis. Somos netos de Metropolis (Fritz Lang, 1927) e do Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932). Combate-se o fogo com o fogo. E o digital com o digital? A alienação com a alienação? Um novo flautista de Hamelin conseguirá afastar os ratos electrónicos, o cortejo de “amigos” mortos vivos? Em Portugal, os telemóveis existem desde 1991. Sobre os seus efeitos, pessoais e sociais, pouco se sabe. A procissão ainda vai no adro.

Get your brain back e Relax we post são dois anúncios notáveis a transbordar de criatividade. Contribuem, ambos, para abrir caminho num terreno movediço que a experiência já banalizou.

Marca: Ibis Switzerland. Título: Relax we post. Agência: Jung von Matt/Limat. Direcção: Johannes Schroeder. Suíça, Outubro 2018.

Marca: reMarkable. Título: Get your brain back. Agência: & Co./NoA, Direcção: Simon Ladefoged. Dinamarca, Novembro 2018.

 

 

 

Amor de filho

CP Group. Gratitude.

O anúncio tailandês Gratitude, da CP Group, ajusta-se ao gosto oriental: longo, lento e emotivo. Uma história muito bem contada. Era uma vez um professor que levava a mãe para a sala de aula…

Marca: CP Group. Título: Gratitude. Agência: Ogilvy Group Thailand. Direcção: Kumphol Witpiboolrut. Tailândia, Setembro 2018.

Publicidade sem medo

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É possível abordar assuntos sérios com humor. “Antes risos que prantos” (François Rabelais). Há quem procure sensibilizar à força e pelo medo (a campanha anti tabaco é um exemplo); e há quem o faça com humor e cumplicidade. Independentemente do conteúdo, o anúncio Aidez-nous à sauver des vies, da Cruz Vermelha francesa, é uma pérola da arte de consciencializar sem punir.

Anunciante: Croix-Rouge Française. Título: Aidez-nous à sauver des vies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: David Bertram. França, Junho 2017.

Sugestão

 

Francis Picabia - Love Parade (1917)

Francis Picabia. Love Parade. 1917.

“O nosso cérebro é uma esponja que se embebe com sugestões” (Francis Picabia, Jésus-Chist Rastaquouère, 1920).

Este anúncio é sugestivo. A sugestão pode ser mais potente do que a realidade. Sobretudo quando se trata de sexo, o maior alcoviteiro da sugestão humana. O anúncio Love Life – Aquarium é mais do que aquilo que mostra. É vulgar? Tão vulgar como nós, preservativos a rebentar de indignação. E a figura da menina? Não sei que diga, talvez uma Capuchinho Vermelho da pós-modernidade ou da sexualidade na idade da técnica. De qualquer modo, este anúncio tem o selo do Secretariado Federal da Saúde Pública da Suíça. Uma dupla garantia.

Marca: Love Life. Título: Aquarium. Agência: Rod Kommunikation AG Zurich. Direcção: David Constantin. Suíça, Fevereiro 2018.