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As férias e a natalidade

Spies travel

O artigo Fecundidade (https://tendimag.com/2018/06/20/fecundidade-2/) aguçou-me a curiosidade para os anúncios dedicados à natalidade. Consultei, com as entradas Natalidade e Fertilidade, duas bases de anúncios: Culturepub e Ads of the world. Resultado: uma meia dúzia de anúncios, alguns de questionável qualidade. Pelos vistos, o assunto não é relevante. Em cada acto sexual, 200 a 500 milhões de espermatozóides procuram o óvulo. Não é por falta de espermatozóides e de óvulos que os bebés não nascem. Estamos a falar de heterossexualidade. Ora, o prefixo hetero não está na moda. Nem nos organismos de governo, nem nas organizações não-governamentais, nem nas empresas altamente responsáveis. Os bebés, antes de nascer, não têm voz, nem votam, nem pertencem a grupos de pressão. É forçoso admitir que, na publicidade, o marcador dos bebés se resume às fraldas. A pesquisa vale o que vale, aponta, no entanto, para uma inexplicável negligência. Entretanto, a agência de viagens Spies Rejser descobriu que as férias são amigas da natalidade.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Denmark. Dinamarca, Março 2014.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Mom. Agência: Robert/Boisen & Like-Minded. Direcção: Niels Norlov. Dinamarca, Setembro 2015.

Chuva dissolvente

Habitat-1

Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

A Geração de Interior / The Indoor Generation

VeluxEstamos tramados! Não há nada que a gente faça que não faça mal. Tudo faz mal! Não é erro de Descartes, é erro de Deus. No futuro, o pânico será o medo de ser, o medo da ameaça de existir. O nosso futuro será a Panfobia.

O anúncio The Indoor Generation é promovido pelo grupo económico Velux especializado em janelas para telhados. Ve significa vento e lux, luz. O anúncio alerta para a necessidade de bem iluminar e bem arejar as casas.

We spend 90% of our life indoors. We have become The Indoor Generation and it is affecting our health and wellbeing (Velux).

Um excelente anúncio de sensibilização que não mendiga causas, inspira-se, com inteligência, na sua própria área de actividade.

Marca: Velux. Título: The Indoor Generation. Agência: &co./NOA. Direcção: Martin de Thurah. Dinamarca, Maio 2018.

A herança de Sísifo

Alzheimer

No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.

Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.

Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.

O amor é a melhor cura

The Last Judgement, fresco, detail, Giorgio Vasari (1511-1574) Cupola di Santa Maria del Fiore, Il Giudizio Universale

The Last Judgement, fresco, detail, Giorgio Vasari (1511-1574) Cupola di Santa Maria del Fiore, Il Giudizio Universale

A queda é um dos movimentos mais temíveis do imaginário humano. No anúncio brasileiro Fall, do Hospital do Amor, a queda é mais demorada, dramática e pungente do que a turbulenta descida aos infernos nas pinturas e nas esculturas do Juízo Final. Mas, neste anúncio, a queda revela-se reversível: a vítima é resgatada pelo amor.

Marca: Hospital de Amor. Título: Fall. Agência: WMcCann. Direcção: Paulo Garcia. Brasil, Maio 2018.

Solidão na velhice

Eric Lacombe. Shades of Melancholy

Eric Lacombe. Shades of Melancholy.

As pessoas de idade que vivem sós constam entre as categorias sociais mais vulneráveis. Carecem cuidado, no sentido de atenção e apoio. O seu número aumenta a um ritmo exponencial. Vai ser defendida, em breve, na Universidade do Minho uma dissertação de doutoramento em Sociologia dedicada, precisamente, ao “impacto das redes sociais na Qualidade de Vida dos indivíduos com 50 e mais anos que residem sós em Portugal: um estudo no âmbito do projeto SHARE”. Não é, porém, esta dissertação que justifica este artigo, mas o falso anúncio Without You, para a Tupperware.

Não há categoria social imune à publicidade. Um homem de idade que perdeu a companheira vive só, diminuído por algumas incapacidades e rodeado por “fantasmas” do passado, tais como a correspondência, os chinelos ou o avental. Resgata-o uma aparição luminosa: o Tupperware, uma ponte no tempo, que, como um psicopompo, liga o aqui e o além, o agora e o outrora. Talvez não salve a alma, mas reconforta o corpo e a mente.

Proporciona-se, ou talvez não, ouvir a canção Mr. Lonely (1964), de Bobby Vinton, um dos intérpretes de Blue Velvet (1963).

Marca: Academy of Media Arts Cologne / Tupperware. Título: Without You. Direcção: Fabian Epe. Alemanha, Março 2018.

Bobby Vinton. Mr. Lonely. Roses are red. 1964.

Bobby Vinton. Blue Velvet. Blue on Blue. 1963.

Humanização técnica

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A Samsung disponibiliza uma aplicação que fala por nós, corrigindo-nos, quando comunicamos com pessoas que sofrem de depressão. Quando a inteligência artificial se revela mais sensível do que a inteligência humano, o caso é grave.

“People with depressions are sensitive and can be prone to specific words or phase. Even with good intentions, sometimes people say things that do more harm than good.   PREDICT TO PREVENT, a predictive text keyboard that can prevent tragedy from depression. By suggesting right choices of words instead of ones that can potentially hurt those people with depression around you, to prevent the unintentional damage. Predict to Prevent is compatible with every messaging application. The keyboard is available in English and Thai.”

Marca: Samsung. Título: Predict to prevent. Agência: BBDO Bangkok. Tailândia, Abril 2018.

Mãos que tremem

Georges Moustaki

Acontece tremerem-me as mãos. Não consigo beber um copo de água, nem tão pouco assinar. Entendem os médicos que é um efeito secundário de alguns medicamentos que tomo. Pressinto, não obstante, o que pode significar a doença de Parkinson. Deus nem sempre escreve direito por linhas tortas. Em algumas linhas as letras vibram.

O anúncio Shake Parkinsons Off, do Institut du Cerveau et de la Moelle Épinière, confina-se à tremura de mãos provocada por emoções fortes, concluindo com um desejo: “só as emoções deveriam fazer-nos tremer”. O anúncio não mostra mãos associadas à doença de Parkinson. Alude à doença sem a exibir, tal como Georges Moustaki fala da revolução sem a nomear. Artes da comunicação.

Segue o anúncio Share Parkinsons Off, mais duas canções de Georges Moustaki:  Sans la nommer (1974) e, por inércia, Il est trop tard (1969).

Anunciante: ICM – Institut du Cerveau et de la Moelle Épinière. Título : Shaking Parkinsons Off. Agência : Publicis Conseil (Paris). França, Abril 2018.

Georges Moustaki. Sans la nommer. Les Amis de Georges. 1974. Extrait de l’émission “Bonjour bonsoir la nuit” du 01 août 1981 (INA).

Georges Moustaki. Il est trop tard. Le Métèque. 1969.

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

Nojo

NHS. Anti-smoking

O meu rapaz mais novo aproxima-se com uma embalagem de cigarros Marlboro de Angola.

– Vês! Só tem a frase “Fumar prejudica a saúde”, sem sentenças, nem imagens. Bastava assim…

– Não, filho! Não bastava assim. Não era suficientemente nojento.

Estou com gripe. Porquê? Toda a gente sabe e faz questão em mo dizer: “porque fumo”, a última tentação do demo. Como pode caber tanta sapiência no cérebro das pessoas? Tenho diabetes, porque fumo; insuficiência renal, porque fumo; torci um pé, porque fumo; extraí a tiróide, porque fumo; fui operado a duas hérnias, porque fumo. Escrevo azedo porque fumo. A medicina regressou à teoria dos humores. Trata-se de diagnósticos amigavelmente nojentos. Os estigmas são assim: poluidores, extravasam o seu âmbito. Gritamos a um cego! Qualquer dia, alguém vaticinará que a minha calvície e a minha teimosia tresandam a fumo. A estigmatização é um nojo e os seus paladinos, nojentos. E não usam travões. Já, em tempos, ninguém travava o medo dos vampiros: estaca cravada no corpo do suspeito e uma pedra a fechar a boca. Por vezes, as mesinhas antitabaco lembram medalhas de São Bento.

Enojar pessoas parece estar na moda. Até parece que quanto mais me enojas mais gosto de ti. Como no anúncio tailandês Disgusting, da Wai Wai Quick. Nada que se compare, porém, às campanhas antitabaco. Que a cruzada sanitária e higienista degrade a qualidade de vida de milhões de pessoas resume-se a um mero efeito secundário.

Marca: Wai Wai Quick! Título: Disgusting. Agência: Ogilvy & Mather. Tailância, 2000.

Vou propor a criação de um curso de nojologia. Centrado na ciência e na técnica do enojamento público, e vocacionado para os especialistas dos corredores e dos arredores do poder.

Os anúncios Accidents (2012) e Sugar Sugar (2011) ilustram o que pode ser a excelência de um trabalho de nojologia aplicada.

Anunciante: Quit. Título: Accidents. Reino Unido, 2012.

Anunciante: Make Smoking History. Título: Sugar Sugar. 2011.