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Horror pedagógico

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Hans Von Gesdorff. Field book of surgery. The wounded man. Strasburg. 1528.

De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de  Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:

Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).

Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.

Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!

Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.

Respeito

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Esqueletos fumadores. Edward Burra. Skeleton Party, circa 1952.

A maioria dos anúncios antitabaco fere a dignidade humana. Existem, felizmente, excepções. O anúncio One Breath, da Nicorette, não convoca bestas nem cadáveres. Esteticamente cuidado, irradia confiança: a capacitação em vez da humilhação, a esperança em vez do medo, numa parábola de salvação. A exclusão não é caminho para o chamamento. Com anúncios como o da Nicorette, apetece deixar de fumar. Como explicar a diferença? Será por o anunciante ser uma empresa privada que precisa cativar clientes?

Marca: Nicorette. Título : One Breath. Agência : AMV/BBDO London. Direcção: Toby Dye. Reino Unido, Outubro 2016.

A morte entre as mãos de uma criança

brady-campaignA publicidade tem picos temáticos, tais como os jogos olímpicos ou o campeonato do mundo de futebol. Acrescente-se o Halloween. Semanas antes, em Outubro, disparam os anúncios alusivos a mortos ou, eventualmente, à morte. O estilo vai do humor, amiúde negro, à sátira, passando pela paródia e pela ironia.

O anúncio Toddlers Kill, da Brady Campaign to Prevent Gun Violence, não é um rebento do Halloween, mas é sinistro, satírico e irónico, substituindo, num registo jornalístico, o slogan clássico “Guns don’t kill people, people do” por um novo slogan, absurdo: “Guns dont’kill people. Toddlers kill people”.

Anunciante: The Brady Campaign to Prevent Gun Violence. Título: Toddlers Kill. Agência: McCann Erickson (New York). Estados Unidos, Outubro 2016.

O período

kotex

A assunção da menstruação anda no vento. No anúncio Blood, da Libress, o lema é No blood shoud hold us back (https://tendimag.com/2016/10/05/sangue/). O anúncio brasileiro da Kotex insta as mulheres a não se inibir por causa da menstruação. Sustenta que o período não é um obstáculo. Os exemplos escolhidos têm impacto: uma chefe de cozinha, uma surfista, uma repórter… “Tratemos al período como lo que es. Algo natural, saludable. No un problema. Si, el período existe. No te detengas”.

Menos recente, o anúncio chinês da Kotex é bem humorado. Convoca gatos, porque “os gatos são sensíveis” e “as mulheres são tão sensíveis como os gatos”. Traçado o desenho, falta o teste. A evidência empírica não engana: os gatos só se sentem confortáveis com pensos higiénicos Kotex. Caso contrário, andam de lado, curvados ou de rastos.

Marca: Kotex. Título: No te detengas. Agência: Ogilvy & Mather Rio de Janeiro. Direcção: BABYS. Brasil, Setembro 2016.

Marca: Kotex. Título: Kotex’s Cat Video. Agência: Ogilvy & Mather Asia. China, 2014.

Rosa

issue-cancroGosto de anúncios apostados na vida. Dispenso arautos da morte alheia. Neste Outubro, Mês Internacional de Luta conta o Cancro da Mama, a empresa Issue e a ONG FUCA juntam-se num gesto de solidariedade.

La marca de coloración para el pelo Issue presenta una campaña realizada en colaboración con la ONG de lucha contra el cáncer FUCA. Tiñamos Octubre de Rosa invita a la gente a teñirse un mechón de su pelo de color rosa y compartir una selfie en redes sociales con el hashtag #ISSUEyFUCAdeRosa. Por cada foto publicada Issue hará una donación a la entidad. Para promocionar esta iniciativa se realizó un spot protagonizado por mujeres que sobrevivieron al cáncer, donde la premisa es que el pelo más hermoso es aquel que sobrevive a esa enfermedad. El spot fue dirigido por Maureen Hufnagel para Hachiko Films (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cti%C3%B1amos-octubre-de-rosa%E2%80%9D-preestreno-de-issue-y-fuca).

Anunciante: Issue Group. Título: Tíñamos octubre de rosa. Produção: Hachiko Films.  Direcção: Maureen Hufnage. Argentina

 

 

Fábricas de exterminação

Em 2006, o Ministério da Saúde francês e o INPES lançaram o anúncio The Factory, que apresenta uma fábrica de cadáveres dizimados pelo fumo dos cigarros. A associação de ideias é uma forma selvagem de pensamento. Esta fábrica de cadáveres do tabaco lembra outras “fábricas” exterminadoras: a peste negra; as guerras napoleónicas; a Primeira Guerra Mundial; a pneumónica; os campos de concentração nazis e soviéticos. Ao nível da ficção, também abundam os exemplos. Retenho o vídeo musical We Don’t Need No Education, dos Pink Floyd. Neste tipo de anúncios, pessoas parecem não retratar pessoas mas pré-cadáveres. Sobra uma estranha forma de humor. Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

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Marca: Ministère de la Santé & INPES. Título: The Factory. Agência: FCB (Paris). Direcção: Stephan Prehn. França, 2006.

O próximo anúncio é diferente. É feito por pessoas para pessoas, sendo provável um fumador reconhecer-se nas situações focadas. Integram, empaticamente, a sua experiência quotidiana. Reconforta uma pessoa sentir-se gente, não ser convidado a olhar para um anúncio com os pés na cova, eventualmente, com uma ponta de humor sinistro.

Marca: Ministère de la Santé, INPes, Tabac Info Service, França, 2012.

Distração Fatal

att-the-unseenThe Unseen, da AT&T, é um anúncio de prevenção rodoviária. Especial. Alerta sobre os riscos decorrentes de usos abusivos dos próprios produtos: atender ao telemóvel ou escrever mensagens enquanto se conduz. Não é a primeira vez que a AT&T recorre a este esquema (ver Close to Home, It Can Wait, 2015). É uma opção em expansão. Estamos perante uma nova modalidade, engenhosa, de publicidade de consciencialização.

O anúncio é primoroso. Os contextos, os protagonistas e os comportamentos são gizados e caracterizados ao mais ínfimo pormenor. Normais, as pessoas são encantadoras. O pai leva as filhas à escola. A mãe dá pela falta do cão. Liga ao marido. Este não atende, “it can wait”. Estaciona o carro para falar. Um rapaz “aparece” no banco de trás. Conversam. O rapaz desaparece. “Só”, o pai atende o telemóvel enquanto conduz. Atropela uma criança, aquela que lhe tinha aparecido no carro. “ You’re never alone on the road”. “Distracted Driving is never OK”. A aparição da vítima releva de uma espécie de premonição. Constitui o momento fulcral do anúncio. A premonição, crença arreigada na nossa história e na nossa cultura, não funcionou como aviso mas como prenúncio de morte. Em suma, um anúncio com impacto.

Marca: AT&T. Título: The Unseen. Agência: BBDO New York. Direcção: Frederic Planchon. USA, Setembro 2016.

A Sociedade da Prevenção

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Macabro, mas não tanto! (30 de Agosto de 2011)

Este anúncio (Death), produzido pela agência Fitzroy, de Amesterdão, foi recusado pela Hyundai que o considerou demasiado chocante para a marca. A Hyundai não se opôs, porém, à circulação viral. Trata-se de um anúncio proibido na televisão mas tolerado na internet.

Marca: Hyundai Veloster. Título: Death. Agência: Fitzroy, Amsterdam. Direcção: Tom Rijpert. Holanda, Agosto 2011.

“Macabro, mas não tanto” é o título do primeiro artigo do Tendências do Imaginário. Uma entrada pelo tema da morte no imaginário contemporâneo.

Georges Balandier e Michel Maffesoli sublinham a importância da noção de projecto como mote de uma modernidade disposta sacrificar o presente em nome de uma promessa.

Um dos principais motes da sociedade actual é a prevenção, postura pouco pós-moderna. Multiplicaram-se, em poucas décadas, os dispositivos votados à prevenção. Na saúde, nos mercados, na educação, na comunicação, nas novas tecnologias, no crime, na violência, nos corpos… A prevenção (i)mobiliza-nos. E acena com a morte. Se não fores previdente, corres o risco de morrer! Os espantalhos e os fantasmas da morte assombram as campanhas contra o tabaco, o alcoolismo, a toxicodependência, a sida, a obesidade ou o sedentarismo. Impressiona o prenúncio de morte repetido nos maços de tabaco. A morte ergue-se como o grande argumento de salvação.

Marca: Heineken. Título: When You Drive, Never Drink. Agência: Publicis (Itália). Itália, Setembro 2016.

Regressemos ao anúncio Death, um anúncio de sensiblização da Hyundai, para ilustrar a segurança do automóvel. A morte é protagonista. Nesta semana, visualizei sete anúncios novos associados à prevenção rodoviária. Cinco convocam a morte: três jovens atropelados em passadeiras; duas vítimas mortais em choque de viaturas. Acresce um despiste de uma mota em que o condutor não morre mas fica paraplégico. Estes anúncios foram produzidos por entidades oficiais. Todos acenam com a figura, terrível, da morte e, eventualmente, da incapacitação. A presença da morte é incontornável? Nem por isso. Lançado este Setembro, o anúncio da Heineken, When you drive never drink, com Jackie Stewart, conjuga a promoção da marca com a prevenção rodoviária, sem qualquer alusão à morte. Não é caso único.

Desenha-se uma nova tendência: contemplar o lastro da morte, uma vez que a morte de uma pessoa afeta familiares, amigos e próximos. No anúncio Dernière Classe, da Sécurité Routière, dirigido por Bruno Aveillan, a morte aflige os vivos. Faz sentido: “A morte é um problema dos vivos. Os mortos não têm problemas” (Norbert Elias, La Soledad de los Moribundos, México, Fondo de Cultura Económica, 1989, p. 10).

Anunciante: Sécurité Rodoviaire. Título: La Dernière Classe. Agência: La Chose. Direcção: Bruno Aveillan. França, Agosto 2016.

Nas sociedades modernas, a morte é afastada da vida corrente. Atente-se na localização, no entorno e no desenho dos cemitérios ou na crescente “solidão dos moribundos”. O testemunho do ato de morrer é cada vez mais burocratizado e filtrado. A experiência da morte atrofia-se ou eufemiza-se (Louis-Vincent Thomas, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot, 1979). Nos últimos séculos, cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil, 1975). Esta tendência acentua-se a partir do século XIX. Não deixa de intrigar que esta tendência ao isolamento discreto da morte coabite, hoje, com uma profusão de imagens da morte na arte, no cinema, nos vídeos musicais, nos videojogos, na publicidade, na banda desenhada, nas tatuagens… Uma dança macabra. Dos muros dos cemitérios e das igrejas medievais para os ecrãs da nossa disponibilidade mental. A morte alcança uma visibilidade simbólica desmedida. Às vezes, faz lembrar um comboio fantasma.

O maior parvalhão do universo

the biggest asshole

The World Biggest Asshole, da Donate Life, é um anúncio de consciencialização dedicado à doação de órgãos. O protagonista é um homem execrável. Grande parte do anúncio aplica-se a mostrá-lo. Mas eis que morre de repente. Descobre-se que, afinal, é um herói, um ser humano exemplar: é um doador de órgãos, um salvador de vidas. Este é um esquema corrente: uma narrativa que se precipita numa reviravolta final. Por outro lado, a doação de órgãos parece funcionar como uma indulgência. Neste mundo e no outro.

Anunciante: Donate Life. Título: The World Biggest Asshole. Agência: The Martin Agency. Direcção: Speck Gordon. USA, Agosto 2016.

O tempo que resta

Serge Reggiani

Serge Reggiani

Quanto tempo resta? Uma pergunta que ressoa nas cabeças. Somos uma sociedade de aprazados. Contamos os anos e os dias. Há institutos que dissecam os minutos. Atendendo às estatísticas, restam-me, em média, 10 anos de vida. Tenho viagem marcada para os 67 anos (esperança média de vida, 77,4 anos, menos 10 anos de redução por causa do tabaco). Um ano de reforma! Para 48 anos de trabalho. Mas não passam de médias! Só um incauto se identifica com médias. Seria, segundo os entendidos, uma especificação abusiva.

Le temps qui reste é uma canção de Serge Reggiani (1922-2004), do álbum Long Box Serge Reggiani, editado em 2004, ano de sua morte. A letra, da autoria de Jean-Loup Dabadie, merece especial atenção.

A título de curiosidade, Braga tem uma rua Serge Reggiani, em Fraião.

Serge Regianni. Le temps qui reste. Long Box Serge Reggiani. 2004.

LE TEMPS QUI RESTE

Combien de temps…
Combien de temps encore
Des années, des jours, des heures, combien ?
Quand j’y pense, mon coeur bat si fort…
Mon pays c’est la vie.
Combien de temps…
Combien ?

Je l’aime tant, le temps qui reste…
Je veux rire, courir, pleurer, parler,
Et voir, et croire
Et boire, danser,
Crier, manger, nager, bondir, désobéir
J’ai pas fini, j’ai pas fini
Voler, chanter, parti, repartir
Souffrir, aimer
Je l’aime tant le temps qui reste

Je ne sais plus où je suis né, ni quand
Je sais qu’il n’y a pas longtemps…
Et que mon pays c’est la vie
Je sais aussi que mon père disait :
Le temps c’est comme ton pain…
Gardes-en pour demain…

J’ai encore du pain
Encore du temps, mais combien ?
Je veux jouer encore…
Je veux rire des montagnes de rires,
Je veux pleurer des torrents de larmes,
Je veux boire des bateaux entiers de vin
De Bordeaux et d’Italie
Et danser, crier, voler, nager dans tous les océans
J’ai pas fini, j’ai pas fini
Je veux chanter
Je veux parler jusqu’à la fin de ma voix…
Je l’aime tant le temps qui reste…

Combien de temps…
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je veux des histoires, des voyages…
J’ai tant de gens à voir, tant d’images..
Des enfants, des femmes, des grands hommes,
Des petits hommes, des marrants, des tristes,
Des très intelligents et des cons,
C’est drôle, les cons ça repose,
C’est comme le feuillage au milieu des roses…

Combien de temps…
Combien de temps encore ?
Des années, des jours, des heures, combien ?
Je m’en fous mon amour…
Quand l’orchestre s’arrêtera, je danserai encore…
Quand les avions ne voleront plus, je volerai tout seul…
Quand le temps s’arrêtera..
Je t’aimerai encore
Je ne sais pas où, je ne sais pas comment…
Mais je t’aimerai encore…
D’accord ?

Jean-Loup Dabadie