Excessos do corpo e limiares da consciência


As danças de São Guido, observadas entre a Idade Média e a Idade Moderna, consistiam em surtos de histeria coletiva caracterizados por movimentos involuntários, espasmos e episódios de dança aparentemente incontroláveis. Grupos inteiros de pessoas começavam a dançar de forma compulsiva durante horas ou dias, por vezes até à exaustão ou desfalecimento.

As raves contemporâneas lembram, guardadas todas as proporções, as antigas danças de São Guido: multidões entregues ao ritmo até ao esgotamento, como se o corpo procurasse um limiar onde a consciência se transforma. Por outro lado, não deixam de dialogar com as longas peregrinações, nas quais o excesso já não é o da dança, mas o da marcha.
Imagem: William Blake – Illustration to John Bunyan’s The Pilgrim’s Progress. Composed c. 1824-27
Mangueira

Aguardei pelas 22 horas para recolocar o artigo Sugestão (21.07.2018). Não perguntem o motivo que a resposta pode ser delicada. Configura um exemplo de “fetichismo alegórico” (ver O robot emocionado). À primeira vista, o anúncio Aquarium “não tem ponta por onde se peque”.
O busílis está na sugestão: a mangueira, “nó de sentido”, presta-se a interpretações dúbias. No fim, insinua-se a palavra “sex”, que nãos costuma ser invocada em vão. Pelo sim, pelo não, o anúncio ressurge fora de horas, embora para sempre. Lobo bem vestido parece um cordeiro.
Língua e visão do mundo

As palavras são decisivas. Segundo Ferdinand de Saussure (Cours de linguistique génerale, 1916), a língua organiza a perceção e a experiência humanas; fornece os quadros conceptuais, os sistemas de diferenças e valores, através dos quais pensamos e interpretamos. A existência ou falta de palavras distintivas para dizer uma dada realidade influencia o modo como a apreendemos e expressamos. O anúncio “Always”, no artigo “No princípio, era a palavra”, representa um bom exemplo.
Caminho Negro e Descontrolo

Recoloco o artigo “Para além da virilidade”, de há 12 anos. Aproveito para restaura o anúncio “The Visit” (2014), do Instituto Nacional de Enfermedades Neoplásicas, assim como para acrescentar o anúncio “Descontrol” (2015), da Movistar, e o vídeo musical “El Camion” (1992), dos AGuiRRe, todos sob a direção de Jorge Caterbona, realizador argentino ativo no Perú. Um pretexto, também, para visitar este país andino.
El Camion
Iba por el camino negro
muy contento en mi camion
Iba por el camino negro
rumbo a la demolicion.-Iba por el camino negro
cuando la cana me paro
me pidieron los tomates
para la reparticion.-Buenas curvas
las curvas nuevas de mi pais
buenas rutas
las rutas viejas de mi pais.-Iba por el camino negro
cuando una rubia me paro
me pidio unos pesitos
para ejercer la profecion.-Buenas curvas
las curvas nuevas de mi pais
buenas putas
las putas viejas de mi pais.-Iba por un camino negro
rumbo a la demolicion
Iba por el camino negro
sin saber la solucion.-Voy por el camino negro
con la rubia en el faldon
Voy por el camino negro
muy contento en mi camion.-Voy por mi camino
Voy por mi destino.-
Distração Fatal e Smartphone

A WordPress passou a facultar-me a lista dos artigos publicados na mesma data nos anos anteriores. Alguns pedem restauro (e.g. completar o que desapareceu), outros revisão (e.g. aprimorar ou corrigir). Quase todos testemunham que, com o tempo, o blogue foi perdendo qualidade ou, pelo menos, abrangência. Agora limito-me quase a publicar conteúdos (sobretudo, músicas, anúncios, imagens) que me chamam a atenção; outrora, partilhava também pensamentos e sentimentos (pessoais). O que mudou? O auge do blogue coincidiu com os anos de isolamento: o blogue mantinha-me à tona e permitia-me alcançar as pessoas; hoje, regressei ao convívio com os outros. A vida e o papel do blogue mudaram.
Desde 2016, coloquei cinco artigos no dia 6 de junho. Retomo, restaurado e revisto, “Distracção fatal”. Complemento-o, acrescentado o artigo “Smartphone” do mesmo mês, mas do ano seguinte, 2017.
Fogo, Fumo e Cinzas

Fumar é atividade que ganha cada vez mais em ser relegada para a intimidade. Em público, acenam com a morte. O cigarro tornou-se o memento mori do século XXI: “mais um prego no caixão”; “fumar mata!”. Trata-se de uma sentença ritual bem-intencionada. Aliás, penso que se acredita que com boas intenções não se enche o inferno, mas se sobe a escada de Jacob. Apetece pedir também com amizade: “Já que vou morrer, deixem o prazer”. Mas contenho-me e agradeço com um sorriso penitente. Não me tenta incomodar os outros.
*****
Número e proporção de óbitos por algumas causas de morte, Portugal, 2023 e 2024 (Fonte INE)








