Archive | Ficção RSS for this section

O sonho da modernidade

Batelco Directory_Logo

Simplesmente fantástico este anúncio proveniente do Bahrain. Uma pérola adormecida na areia da memória. Vale a pena revisitar o sonho da modernidade.

Anunciante: Batelco. Título: Infinity. Agência: FP7, Bahrain. Directores: Steffen Hacker; Alexander Kiesl. Bahrain, Nov. 2010.

A sereia na idade da técnica

Os contos e as lendas não nos largam. São educação pelo sonho e pela imaginação. Umas vezes os revisitamos, outras os distorcemos, como no anúncio La Syrène, dos Sauveteurs en Mer.

Passadas algumas horas, o vento começou a soprar forte. A lua e as estrelas sumiram do céu e começaram a surgir trovões e relâmpagos.
O mar estava revolto, ondas gigantescas atacavam o navio. Os marujos, assustados, retiraram as velas do navio. As pessoas gritavam assustadas. O navio balançava muito, até que uma onda gigantesca o tombou para o lado. A escuridão foi total.
Um raio iluminou o céu e a Pequena Sereia viu pessoas gritando e tentando se salvar nadando.
De repente, a pequena sereia viu o príncipe. Ele estava se afogando. Ela sentia que tinha que ajudá-lo. Ela nadou entre os destroços do navio e o alcançou.
O jovem príncipe estava desmaiado. Ela segurou firmemente, mantendo a cabeça dele para fora da água, e flutuou com ele até a tempestade passar.
Ao raiar do sol, a pequena sereia verificou que o príncipe respirava tranquilamente. Ela ficou aliviada em ver que ele estava bem, ficou tão contente que o beijou. Nadou com ele até uma praia, o deitou na areia e escondeu-se atrás das rochas (Hans Christian Anderson, A pequena Sereia. Excerto. 1837).

A pequena sereia do anúncio, um pouco mais vestida do que o habitual, não tem força para valer ao príncipe. Será preciso um objecto técnico, um colete salva-vidas, para o salvar. Como avaliaria Hans Chistian Anderson esta adaptação? E.T.A. Hoffmann (1776-1822) talvez lhe encontrasse algum interesse. À semelhança do filme Quem tramou Roger Rabbit? (1988), a parte final do anúncio combina live-action e animação, para vincar, porventura, um maior efeito de realidade.

pateta-e-ze-cariocaQuando era pequeno, devorava “revistas aos quadradinhos”. Identificava-me, sobretudo, com o Pateta, leal, voluntarioso, trabalhador, aplicado, mas sem resultados ou com resultados catastróficos, e com o Zé Carioca, preguiçoso, esperto, palrador e vadio, que consegue escapar aos problemas e alcançar o que deseja. Um é o contrário do outro, mas identificava-me com ambos. A identificação pode ser estrábica.

Amontoadas centenas de fotografias sobre a mesa, estranho aquelas onde figuro. Como é possível uma pessoa estranhar-se? Não é necessário ser Dorian Gray. A auto-identificação, aparentemente natural, pode revelar-se um labirinto sem fios. Fiódor Dostoievski sabia isso, tal como, cerca de trezentos anos antes, Panurgo, o amigo inseparável de Pantagruel. Como é bizarro este mundo: uma pessoa identifica-se com dois bonecos opostos e estranha-se a si mesmo.

Anunciante: Les Sauveteurs em mer. Título: La sirène. Agência: Publicis Conseil. Direcção: Flying V. França, Novembro 2016.

O morto agarra-se ao vivo

“Temos de sofrer não só da parte dos vivos como ainda da parte dos mortos. Le mort saisit le vif” (Karl Marx, Le Capital, Livre 1, Préface de la première édition, 1867).

borrowed-time-pixarDevo esta curta-metragem ao meu rapaz mais jovem. Em boa hora! Nos primeiros passos do blogue, limitava-me a uma base de anúncios publicitários. Sobrava tempo para outros formatos, por exemplo, curtas-metragens e vídeos musicais. Hoje, acompanho uma dúzia de bases de anúncios. “É maior o passo do que a perna”.

Borrowed Time tem a chancela da Pixar. É um colecionador de prémios. Gustavo Santaolalla, vencedor de dois oscars, compôs a música. A história não podia ser mais bem contada.

Qual é o alcance de um sentimento de culpa que não tem razão de ser? Como o ultrapassar? Como desfiar o novelo da memória? Como colar os fragmentos do espelho? Que segredam os objectos? É preciso peregrinar até ao abismo da dor? Estrear um ritual único? Bater à porta do inferno para reacender a alma? Há algo de cósmico nesta curta-metragem. Abarca o mundo e a vida com um punhado de pormenores.

Borrowed Time. Pixar. Andrew Coats & Lou Hamou-Lhadj. 2015 (?)

Pinguins

J.J. Grandeville. Course de Clocher Conjugal, D'Un Autre Monde. 1844.

J.J. Grandeville. Course de Clocher Conjugal, D’Un Autre Monde. 1844.

O artigo precedente associa os desenhos de Grandville às capas dos discos dos Queen. Apetece-me fabular uma ponte entre os desenhos de Grandville e as capas dos discos dos Penguin Cafe Orchestra. O híbrido de Grandville que passeia, em 1844, na praça da Concorde em Paris parece migrar para as capas dos discos dos Penguin Cafe Orchestra. Têm um certo ar de parentesco.

Estas linhas são uma brincadeira, uma “drôlerie”. Um abuso da atenção apressada. Para remissão, acrescento uma música dos Penguin: Perpetuum Mobile, do álbum Signs of Life (1987).

Penguin Cafe Orchestra. Perpetuum Mobile, Signs of Life. 1987.

 

A espreguiçadeira

CThomas Mann. A Montanha Mágica.om 1915 artigos publicados no Tendências do Imaginário, apetece-me ensaiar um tipo de artigo enfadonho. Gosto de arte e de literatura. Abordam os fenómenos sociais com um olhar próprio. Constroem mundos verosímeis onde a sociologia ganha em se inspirar. Associa-se, assim, Mikhail Bakhtin a Fiódor Dostoiévski, Pierre Bourdieu a Gustave Flaubert, Marcel Proust à micro-sociologia, Thomas Mann a Erving Goffman…A Montanha Mágica (1924), da autoria de Thomas Mann, prémio Nobel da Literatura em 1929, é uma obra-prima do século XX. Hans Castorp, o protagonista, visita o primo, Joachim, internado num sanatório em Davos, na Suíça. Acaba ele próprio por ser internado com tuberculose. A escrita de Thomas Mann atarda-se sobre os meandros da “adaptação” de Hans Castorp ao sanatório, uma “instituição total” (Erving Goffman): usos dos objectos, a hexis corporal, os gestos, o espaço, o tempo, as rotinas, a comunicação, os afectos, os outros, o pessoal… Página a página, Hans Castorp ajusta-se à instituição, melhor, a instituição absorve-o, retomando uma expressão de Erving Goffman (Os momentos e os seus homens, 1988; Asilos, 1961). Retive dois excertos do romance. No primeiro, inicial, Hans Castorp “adapta-se”, com a ajuda do primo, ao sanatório; no segundo, já na parte final do livro, é a vez de Hans Castor, já veterano do sanatório, ajudar o tio cônsul, Tienapple, a “aclimatar-se” à orgânica e ao espírito da instituição.

Vislumbram-se, nestes dois excertos de A Montanha Mágica, algumas pontes entre Thomas Mann e Erving Goffman: a ideia de “espírito do lugar”, “a desarticulada monotonia da existência rotineira”, os rituais, o staff, a demarcação entre os mundos interior e exterior. No segundo excerto, o tio de Hans Castorp revela-se, hesitante e confuso, um caso de início de “mortificação do eu” (Asilos, 1961). O valor atribuído aos objectos é particularmente sedutor. O termómetro e o retrato, por exemplo. Mas, sobretudo, a espreguiçadeira, fonte de prazer, cuidado de si e entorpecimento. A espreguiçadeira ergue-se como um símbolo da instituição: introduz e ancora as pessoas na orgânica, no ritmo e no espírito do sanatório (sobre a importância dos objectos na interacção social, ver Erving Goffman, Relações em Público, 1971).

Para aceder aos dois excertos de A Montanha Mágica, carregar na imagem ou no seguinte endereço: A Espreguiçadeira.

Aqui há gato!

“I wish I could write as mysterious as a cat” (Edgar Allan Poe).

Enquanto espera a barca sagrada, a alma alimenta-se com memórias.

Villard's cat Sketchbook of Villard de Honnecourt, France ca. 1230 BnF, Français 19093

Villard’s cat Sketchbook of Villard de Honnecourt, France ca. 1230.

Enquanto estudante, tive vários colegas reformados. Um deles optou por dedicar a dissertação à simbologia do gato. Falava do antigo Egipto, onde matar gatos era crime, das famílias de gatos nos templos gregos e do gato preto diabolizado pelo papa Inocêncio VIII. Brincava com ele! Cada vez o admiro mais.

O gato das botas, o gato de Cheshire, o gato de Edgar Allan Poe, os gatos de Baudelaire, o Gato Malhado da Andorinha Sinhá, os gatos dos desenhos animados, os aristogatos, a Catwoman, os gatos de Andrew Lloyd Webber ou o gato reciclado do Shrek, todos ronronam no nosso imaginário.

Meowth. Pokémon.

Meowth. Pokémon.

O anúncio Netto-katzen, da marca alemã Netto Marken-Discount, é um compêndio de gatos em movimento. O que me chamou a atenção foi a banda sonora. Apesar de distorcida, recupera a música Music Fly (1977), dos Space. Os Space, banda francesa, granjearam alguma reputação no final dos anos setenta. Apesar de contemporâneos dos Kraftwerk e de Jean-Michel Jarre, a orquestração e a melodia recordam-me, sobretudo, a música de Francis Lai (ver, por exemplo, https://tendimag.com/2014/06/07/bilitis/).

Marca: Netti Marken-Discount. Título: Netto-katzen. Direcção: Brian Lee Hughes. Alemanha, Junho 2016.

Space. Magic Fly. Magic Fly. 1077.

Space. Just Blue. Just Blue. 1978..

 

Pokémon GO e São Cristóvão

 

Pawel Kuczynski.

Pawel Kuczynski.

A realidade é traiçoeira, não pertence a nenhum dos lados (a partir de André Gorz, Le Traître, 1957).

Tomei conhecimento deste cartoon do Pawel Kuczynski através do Abel Coentrão. Lembra São Cristóvão com o menino Jesus, e o mundo, aos ombros.

O jogo Pokémon GO não é um acontecimento menor. Representa um marco na história dos videojogos e da realidade aumentada. Menos pelo pioneirismo e mais pelo modo e pelo alcance.

Pawel Kuczynski  3

Pawel Kuczynski

O fenómeno Pokémon GO requer que se repense a relação entre o mundo real e o mundo virtual. Teorias outrora avançadas resultam, agora, insuficientes. Arrisquemos alguns apontamentos:

  • O mundo virtual realiza-se. Esta asserção peca por defeito. No mundo virtual, o mundo real não vem em segundo lugar. Tao pouco antecede, sucede, complementa, sobrepõe ou articula. O mundo virtual e o mundo real não só interagem como se interpenetram, o que extravasa as atividades listadas. Continuaram a ser úteis as noções de simulação, simulacro e hiper-realidade do Jean Baudrillard e do Umberto Eco?
  • O mundo real virtualiza-se. Esta asserção também peca por defeito. O mundo virtual é constitutivo do mundo real. Não paramos de retocar o passado, de alucinar o presente e adivinhar o futuro.
  • Na realidade aumentada, uma pessoa evolui em vários tabuleiros. Acede, anda, explora, escolhe, adquire, colabora, disputa, convive, lança bolas de fogo, acumula, perde e ganha. Os acidentes por inatenção, a “invasão” à base aérea canadiana, as inconveniências no museu de holocausto em Washington ou a proibição do governo da China são contingências que pouco ou nada têm a ver com efeitos perversos ou predições criadoras. São situações e acções possíveis e prováveis no entrelaçamento dos mundos virtual e real.
Cynocephali illustrated in the Kievan psalter, 1397

Cynocephali illustrated in the Kievan psalter, 1397

São Cristóvão é uma figura que não destoava num manga ou num videojogo. Filho de um rei pagão, eventualmente de Canaã, morreu, na Anatólia, martirizado, em 251. É, por vezes, retratado com cabeça de cão (ver, neste blogue, o artigo Santo Cão: https://tendimag.com/2014/03/15/santo-cao/). Até à conversão ao cristianismo chamava-se Auferus (bandoleiro) ou Reprobus (maldito). O “nome de baptismo” será Cristóvão (aquele que transporta Cristo). Gigante aprazível, com força colossal, assume como vocação servir os mais fortes. Em dada altura, serviu um rei poderoso. Mas, quando constata que este se assusta com o diabo, passa a servir o diabo até que comprova que este teme a cruz. Decide servir Cristo, que procurou durante muito tempo.

originaljan-mandyn-flanders-saint-christopher-and-the-christ-child-ca-1550.jpg

Mandyn Flanders. Saint-Christopher and the Christ child, ca 1550.

Um dia, encontra um eremita que o inicia à religião cristã. Como Cristóvão não se prestou a jejuar nem a rezar, o eremita propôs-lhe que a ajudasse as pessoas a passar um rio perigoso. Mais cedo ou mais tarde, Cristo lhe apareceria. Passados muitos dias, ouviu a voz de uma criança que lhe pede para a passar para a outra margem. Cristóvão coloca o menino no ombro e, munido com o bastão, faz-se ao rio.

St. Christopher, from the Westminster Psalter, c. 1250

St. Christopher, from the Westminster Psalter, c. 1250.

Aumentavam, a cada passo, a agitação das águas e o peso do menino. Cristóvão parecia carregar o mundo inteiro. Acabada a travessia, já na outra margem, o menino diz a Cristóvão que é o seu rei, Jesus Cristo. Pede-lhe que enterre junto à casa o bordão, que se transforma, dia seguinte, numa magnífica palmeira carregada de tâmaras. São Cristóvão dedica o resto da sua vida à divulgação da palavra de Deus. Consta entre os santos que mais pagãos converteram. Segundo Santo Ambrósio, conseguiu arrancar ao erro do paganismo quarenta e oito mil homens e leválos ao culto da fé cristã”.

Morre na Anatólia. no dia 25 de Julho do ano 251, reinava Décio, imperador romano. Foi cruelmente martirizado. Foi açoitado. Bateram-lhe com vergas de metal. Colocaram-lhe um elmo de ferro em brasa na cabeça. Acorrentaram-no num estrado de ferro, besuntaram-no com pez e pegaram-lhe fogo, mas o estrado desfez-se.

Ribera, St Christopher.jpg

Jusepe di Ribera, St. Christopher, 1637.

Amarrado a uma estaca, foi alvo de setas disparadas por quatrocentos soldados. Mas, espantosamente, nenhuma lhe acertou, paravam no ar. Uma seta inverteu o sentido e acertou no olho do rei responsável pela martírio do Santo. São Cristóvão adverte o rei : “amanhã, vou morrer, mas tu, tirano, deves fazer lama com o meu sangue e untar com ela o teu olho para seres curado”. São Cristóvão foi decapitado. O rei misturou um pouco de sangue com terra e colocou-o no olho. Ficou curado e convertido! Este relato do martírio de São Cristóvão encerra uma notável densidade simbólica.

 

 

Futura campanha sanitária

A luta contra o tabaco é apenas um passo no sentido da cura universal. Outras campanhas se seguirão, por exemplo, contra o ensino enquanto causa de transtornos psíquicos. Para prevenir o risco de perturbação mental dos professores, encara-se utilizar os manuais escolares de um modo semelhante ao dos maços de cigarros. Eis uma antevisão.

Capa de manual

Protótipo de capa de manual escolar

Contra-capa de protótipo de manual escolar

Protótipo de contra-capa de manual escolar