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A simulação da moral

Giovanni Buonconsiglio. Aristóteles e Fílis. Circa 1500-1515.

«Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube» (Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira, 1523).

Manifestam-se cada vez mais frequentes os anúncios que aderem ao formato patente no anúncio russo Born Inclusive, da Naked Heart Foundation. Creio que se inspiram, por um lado, na sofisticação (quase) laboratorial da psicologia experimental e, por outro, na vulgaridade mediática dos “apanhados”. Não duvido que sejam eficientes e convincentes, mas comportam uma característica que me provoca algum ceticismo e renitência. Encenam situações ideais que tendem a afastar o ruído ambiente, as intromissões, eventualmente imprevisíveis, dos efeitos “parasitas”, por outras palavas, da contingência das variáveis e dos fatores que os sábios apelidam “espúrios”. Arrefecem a efervescência da vida, propendem a pintar o mundo a preto e branco: o certo e o errado, o bom e o mau… Uma simplificação sedutora. Convoco a máxima do sofista Protágoras, “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”, e o pensamento de Pascal, a medida do homem é turbulenta, incerta e infinita. Lutar por um mundo melhor não significa caricatura-lo e descolori-lo. A redução maniqueísta e monocromática não me parece uma perspetiva apropriada, não é uma promessa auspiciosa.

Demasiado cínico? Estou em crer que mais vale cínico do que estúpido. “O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso”; “o indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido; ” “É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio” (Carlo Cipolla, Allegro ma non tropo, 1988).

Anunciante: Naked Heart Foundation. Título: Born Inclusive. Agência: Marvelous. Direção: Maksim Kolyshev. Rússia, março 2020.

Este comentário é, de algum modo, injusto para com o anúncio de sensibilização Born Inclusive, da Naked Heart Foundation. Trata-se de um exemplar de marketing e publicidade e como tal deve ser avaliado. Pede ser encarado à luz da linguagem do marketing e da publicidade e não de outra linguagem, por exemplo, a linguagem externa da filosofia e da sociologia. Neste sentido, este comentário apresenta-se como uma crítica “bárbara”, uma violência simbólica, na aceção de Pierre Bourdieu. Cai na falácia de impor um sistema de relevâncias, estranho, a outro sistema de relevâncias, original, francamente distinto. Do ponto de vista do marketing e da publicidade, este anúncio, criativo, consistente, pedagógico e eficaz, resulta excelente. Acerta no alvo: a predisposição para a discriminação não nasce connosco, é fruto da socialização primária, da endoculturação. Um pressuposto que vai de encontro a Rousseau (“A natureza faz o homem feliz e bom, mas (…) a sociedade degenera-o e o torna-o miserável”: Dialogues, 1772-1776) e a Durkheim (“A sociedade encontra-se portanto, a cada nova geração, na presença de uma tábua quase rasa sobre a qual é necessário construir a novo custo”: Éducation et sociologie, 1922).

Hieronymus Bosch. Removing the Stone of Stupidity. Detail. 1475-1480.

Acontece que um anúncio, para além de orbitar na esfera do marketing e da publicidade, não deixa de ser um fenómeno social. É composto por raízes (contexto), caule (suportes), ramos (redes e canais), folhas (ações) e sementes (efeitos) sociais. Não se pode escusar a uma leitura filosófica e sociológica, por mais corrosiva e cínica que seja. No que me respeita, não me inibo de ler nas entrelinhas de qualquer comunicação, principalmente aquelas que se são grávidas de consequências, quando não de efeitos perversos subliminares que não passam pelo crivo da consciência e do raciocínio acertados e oportunos.

Blake & Blake. A fatalidade do nome

Melancolia agastada. Próximo do termo da atividade como professor universitário.
Melancolia esperançada. Há quarenta anos, no início da atividade como professor universitário. Fotógrafo: Álvaro Domingues.

Adotando a linguagem da sociometria de Jacob Levy Moreno, és uma “estrela” ou um “periférico”? Cativas ou repeles? Repara na atenção e no tempo que te dedicam.

Monet e Manet; Perry Blake e James Blake; Claude Monet e Claude Manet. Os primeiros impressionistas, os segundos eletrónicos.  A diferença que pode fazer uma simples letra. E um nome. Um nome presta-se a confusão). Baralha, mistifica e desorienta. Nos meus passeios pelo YouTube a partir da entrada Blake, troquei várias vezes o Perry pelo James., surpreendendo-me: “como é estranho, a voz e o estilo do Perry Blake mudaram expressivamente”. Até dar com o engano. A semelhança dos nomes de Monet e Manet provocou um desenlace inesperado, desmedido e trágico, memorável. O excerto “Mulher com vestido verde” do docudrama The Impressionists da BBC revela a série de equívocos desencadeados desde a  desilusão de Manet com a receção do quadro Olympia atá ao início da sua amizade com Monet, passando pelo duelo com o crítico de arte Dorante, um dos últimos e mais célebres duelos da história de França (ver vídeo 1. Existe uma versão, com menos resolução, com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=yeWmTiN4C3o; minutos 23:55 a 35:20). Luta-se e dá-se a vida por um nome. É escudo, estandarte e lança. Identitário e distintivo, o nome interpõe-se como uma marca e um sinal, um projeto, um caldo de expetativas e um mundo de possibilidades.

1. A mulher num vestido verde. Excerto do docudrama The Impressionists. BBC. 2006.

Blake não é Blake. A nacionalidade, a idade, a carreira, a popularidade e muitos outros traços pessoais separam Perry e James. Contudo, o que escrevi sobre a a música de Perry no artigo Melancolia Aveludada transparece como um letreiro que assenta a ambos: “Uma voz e uma orquestração singulares, suaves, compassadas, melódicas e melancólicas”. Convoco duas canções de James Blake: The Wilhelm Scream e I Never Learnt to Share. Recordam o Antony, dos Antony and the Johnsons.

2. James Blake. The Wilhelm Scream. James Blake. 2011.
3. James Blake. I Never Learnt To Share. James Blake. 2011. Ao vivo em Heaven, Londres.

O medo e a culpa. Covid-19

SNS 24. Não deixes o vírus entrar, usa máscara sempre que possível. Dezembro 2020.

“Jouer sur la peur c’est décrédibiliser toute information “ (Lecorps, Philippe, L’éducation par la peur, une campagne anti-tabac. Santé Publique 2002/3, Vol. 14, p. 285).

A educação pelo medo e pela culpa tem um lastro histórico imenso. A eficiência é, no entanto, duvidosa, mesmo nas sociedades medonhas dos regimes totalitários. O medo e a culpa convocam mais a emoção do que a razão. Nestes termos, a reação corre o risco de ser irracional e imprevisível. Na fase atual da pandemia, multiplicam-se anúncios que lembram a campanha antitabaco: imagens duras, pautadas pela aflição e pela contrição. Incomodam-me duas eventualidades: De tanto recorrer à imagem do mal, não o banalizamos? O que significa assustar uma comunidade assustada? Faço votos que as campanhas de prevenção da Covid-19 colham mais sucesso do que a campanha antitabaco. Selecionei, entre os menos chocantes, sete anúncios: dois portugueses e cinco espanhóis (vídeos 3, 4 e 5). Pensamento obtuso não tem conserto. Lamento!

Anunciante: SNS/DGS. Título: Cabe a cada um de nós fazê-lo parar. Portugal, novembro 2020.
Anunciante: SNS/Portal do SNS. Título: COVID-19 | Não deixes o vírus entrar – Última ceia. Portugal, dezembro 2020.
Anunciante: Comunidad de Madrid. Título: ¡Protégete, protégenos! Espanha, agosto 2020.
Anunciante: Consejería de Sanidad del gobierno de las Canarias. Título: “Una simple reunión familiar puede traerte de regalo 40 días en coma o incluso la muerte”. Espanha, Julho 2020.
Anunciante: Comunidad de Madrid. Sequência com três anúncios.

A nova normalidade

Jean-Michel Basquiat. Riding with Death. 1988.

Aprecio o estilo de comunicação da Fundação Tailandesa para a Promoção da Saúde (Thai Health Promotion Foundation). Uma pedagogia franca, impactante e grotesca, adversa aos comportamentos de risco, estúpidos e perigosos, contrários à “nova normalidade”.

A propósito do Covid-19, foi publicado, no dia 27 de novembro, o primeiro volume, Reflexões, da obra coletiva A Universidade do Minho em tempos de pandemia, editada por Manuela Martins e Eloy Rodrigues (pdf acessível no seguinte endereço:  https://doi.org/10.21814/uminho.ed.23). Participo com um pequeno texto (“COVID-19: o mensageiro da nova morte”, acessível em: https://doi.org/10.21814/uminho.ed.23.5).  

Anunciante: Thai health promotion Foundation. Título: New Normality. Agência: Leo Burnett Group Thailand. Tailândia, julho 2020.

A importância dos objetos

A importância dos objetos. Pietro Cavallini (1250 – 1330), o Romano. Adoração dos Magos. Basílica de Santa Maria in Trastevere. Pormenor.

Separados pelo confinamento, avô e neta aproximam-se graças às novas tecnologias e a um pequeno urso de peluche. Os objetos são bons meios de comunicação e comunhão. Uma jangada de afetos. Um anúncio da NOS, pela agência HAVAS Portugal.

Marca: NOS. Título: Separação. Agência: HAVAS Portugal. Direção: João Nuno Pinto. Portugal, novembro 2020.
Do Natal aos Reis. Catarina Moura, César Prata e Ariel Ninas. “Cantar de ls Reis” em mirandês. Santuário de Nª Srª da Nazaré. 4 Janeiro 2019.

O inverno do Coronavírus e os heróis do sofá

Achille Talon. Por Greg. Banda desenhada franco-belga.

O anúncio Corona Winter, do governo da Alemanha (zusammen gegen corona) sublinha que, em tempos de pandemia, para ser herói basta não sair de casa. Só os parvos não são heróis. No anúncio, falado em alemão, uma pessoa de idade recorda os tempos da pandemia. Não descobri legendas em inglês. Segue a tradução do discurso do protagonista:

“Penso que foi no inverno 2020 que todos os olhos do país se fixaram em nós. Acabava de fazer 22 anos e prosseguia estudos de engenharia em Chemnitz quando a segunda vaga começou. 22 anos…Com essa idade, quer-se festejar, estudar, encontrar pessoas, isso tudo… Sair para beber uns copos. Mas o destino tinha outros projectos para nós. Um perigo invisível ameaçava tudo em que acreditávamos. De um momento para outro, o destino do país estava nas nossas mãos. Então, agarrámos a coragem com as duas mãos e fizemos o que era esperado de nós. A única coisa a fazer. Não fizemos nada. Absolutamente nada. Tão preguiçosos como guaxinins. Dias e noites, mantínhamos os nossos rabos em casa e combatíamos a propagação do Coronavírus. O sofá era o nosso campo de batalha. A paciência, a melhor arma. Confesso que me apetece rir sozinho ao pensar neste período. Era o nosso destino. Foi assim que nos tornámos heróis. No período do Coronavírus durante o Inverno de 2020”.

Anunciante: Zusammen gegen corona. Título: Corona Winter. Alemanha, novembro 2020.

Encontrei, entretanto, no Twittter, uma versão com legendas em inglês:

Transpiração

O olfato “é o sentido desagregador e anti-social por excelência” (Simmel, Georg. 1981. “Pour une sociologie des sens”, in Sociologie et épistémologie, Paris, PUF).

Jan Brueghel I &Peter Paul Rubens. Smell. Museu do Prado. Cerca de 1617-1618.

Pode um anúncio ser reflexivo? Funcionar como um espelho? É o objetivo da maior parte dos anúncios. A mais ínfima parte do corpo humano intervém na interação social. Um nada corporal, significativo, pode decidir a relação com o outro. E com o próprio. A transpiração é um excesso de comunicação, uma ameaça ao self, tal como, noutro registo, o ato incontrolado de corar. Bem sugeria Simmel que o odor separa e afasta. Quem não se revê nas inseguranças do protagonista, nos clichés dos seus receios e impasses? Gosto deste anúncio: consegue o que pretende. Aposta nas noções, religiosas, de condenação e de salvação. Entre ambas, uma epifania: o chamamento, a revelação e a graça do desodorizante Hidrofugal.

Marca: Hidrofugal. Título: Tommy. Alemanha, 2020.

Cuvídeo

Channel 4.

Não estranhe! Pode-se ter razão por linhas travessas. Quantas campanhas não mobilizaram a retaguarda! Contra a Covid, o Cuvídeo. Dê prazer ao rabo. Sente-se no sofá, e salve o próximo. O Channel 4, uma rede de televisão britânica vocacionada para a utilidade pública, apelava, em Abril de 2020, a uma nova modalidade voluntária de confinamento. O grotesco e o sério de mãos dadas.

This is an important public safety announcement, for your arse. If you have buttocks, put them on the sofa. The longer they stay there, the quicker we’ll get through this (Channel 4).

Anunciante: Channel 4. Título: Important Safety Announcement for Your Arse #StayAtHome. Reino Unido, Abril 2020.

Preconceito pró-activo

Paula Rego. O Exílio. 1963.

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845).

Em matéria de discriminação de crianças, sabemos muito da realidade que a UNICEF nos quer ensinar. Saber é importante, mesmo quando fingimos o contrário. Mas não chega. Este “apanhado” da UNICEF é um “soco no estômago da gente”, que, como diz Michel Maffesoli, entra, sai e passa. De espanto em espanto, de palavra em palavra, o pensamento submerge.

O José Alberto enviou-me, em boa hora, este anúncio de sensibilização da UNICEF centrado no olhar (ver para crer). Enviou a versão comentada em brasileiro por Madeleine Lacsko (vídeo 2). Reproduzo, também, a versão original, parcimoniosamente despida de palavras (vídeo 1).

Anunciante. UNICEF. Título: Would you stop if you saw this little girl on the street?, Junho 2016.
UNICEF / Madeleine Lacsko. A forma como você trata uma criança depende da roupa que ela veste? Programa Radioatividade, da Rádio Jovem Pan, São Paulo, Brasil, Julho 2016.

Recolhimento responsável

A man takes a nap on the street using a protective mask in Tokyo, Japan July 16, 2020. REUTERS-Issei Kato

A publicidade é um barómetro do imaginário. Mudam os valores, mudam os anúncios. Já existiam anúncios com discursos de responsabilidade social. Agora, generalizaram-se. A publicidade reforça a esfera intimista que nunca descuidou (ver, no fim do artigo, a galeria com obras do pintor “intimista” Pierre Bonnard). Estes tempos mórbidos pedem responsabilidade social e refúgio na intimidade. Recentes, o anúncio brasileiro “Seja exemplo”, da Bradesco, e o anúncio argentino “Mientras esperamos”, da Corona, ilustram este duplo constrangimento: responsabilidade social e recolhimento na intimidade.

Marca: Bradesco. Título: Seja exemplo. Brasil, Agosto 2020.
Marca: Corona. Título: Mientras esperamos. Agência: Draftline Argentina. Direcção: Guido “Chapa” Lofiego. Argentina, Agosto 2020.

Selecção de obras de Pierre Bonnard