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A cadeira vazia e o espírito de Van Gogh

Vincent Willem van Gogh. Van Gogh Chair With Pipe. National Gallery.

And I wonder if you know
That I never understood
That although you said you’d go
Until you did
I never thought you would

(Don McLean. Empty Chair. 1971)

Don McLean. Empty Chairs. American Pie. 1ª ed. 1971.
Don Mclean. Vincent. American Pie. 1971

La esperanza caminando despacito

Hébert Franck. L’Attente.

Una soledad que no acaba

Uno sale de uno

– un día –
y se encuentra
Y sín saludarse se reconoce.

Entonces se ve:
– el alma encogida,
– arrugas en la sinceridad,
– un dolor por ahí,
acurrucado
(como un niño poeta frente a la muerte),
y la vida,
caminando despacito,
despacito,
encorvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).

Astor Piazzolla. Milonga Del Angel. 1965. Ao vivo.

Uma solidão que não acaba

Um sai de si próprio

– um dia –
e encontra-se
E sem saudar-se reconhece-se

Então vê-se:
– a alma encolhida
– rugas na sinceridade
– uma dor ao redor,
de cócoras
(como uma criança poeta face à morte),
e a vida,
caminhando devagarinho,
devagarinho,
encurvada…
(René Bascopé Aspiazu. Las Cuatro Estaciones. Ed. La Mariposa Mundial. La Paz, Bolívia. 2007).

Dizemos melhor quando não dizemos nada

Regresso à música country e ao cantor e compositor Keith Whitley. Seguem dois sucessos do álbum Don’t Close Your Eyes, lançado em 1988, um ano antes da sua morte, com 35 anos, motivada, segundo consta, por um excesso de álcool. A sua voz e as suas canções lembram Don McLean.

Keith Whitley. When You Say Nothing at All. Don’t Close Your Eyes. 1988.
Keith Whitley. Don’t Close Your Eyes. Don’t Close Your Eyes. 1988.

Eclipses

Kia. Robo Dog. 2022.

Existem fases para descarregar e fases para carregar. Em boa hora, carreguemos!

O anúncio Robo Dog, da Kia, constitui mais um exemplo da criatividade e da sensibilidade ímpares do realizador Noam Murro para humanizar máquinas e objetos. Da mais de uma dezena de anúncios de Noam Murro contemplados no Tendências do Imaginário, recoloco dois: Old Friends, para a Macy’s, e Monsters, para a Hummer.

Marca: Kia. Título: Robo Dog. Agência: David&Goliath. Direção: Noam Murro. Estados-Unidos, fevereiro 2022.
Marca: Macy’s. Título: Old Friends. Agência: BBH (New York). Direcção: Noam Murro. Estados-Unidos, novembro 2016.
Marca: Hummer. Título: Monsters. Agência: Modernista. Direção: Noam Murro. Estados-Unidos, fevereiro 2006.

Balada de amor e mortificação

Garth Brooks. If tomorrow never comes.1989.

De outra divisão da casa, chegam os ecos da canção If Tomorrow Never Comes, de Garth Brooks. Costumo arremedá-la. Não sei cantar, mas gosto de cantar. Também não sei dançar, e gosto de dançar. Gosto também de pesquisar… Pelos anos oitenta, interessei-me pela música country. Talvez me proponha a repescar uma ou outra canção de grata memória. If Tomorrow Never Comes é uma canção lamechas, ao jeito da música country. Não deixa de convocar um sentimento que não é insólito: amar e saber-se mortal. Resulta, contudo, pouco recomendável a um jejum de horas à espera de uma ecografia.

Garth Brooks. If Tomorrow Never Comes. 1989.

História de um melro que morreu por ser feliz

Pablo Picasso. Visage de la paix IV. 1950.

Um melro costuma fazer ninho no quintal. Atarefado, tem-se saído bem com os gatos. Pior destino teve “o melro” do Guerra Junqueiro, vítima da vingança do Velho Padre Cura, num extenso conto em verso que o meu avô recitava de cor. Segue a digitalização do poema “O Melro” a partir da segunda edição ilustrada do livro A Velhice do Padre Eterno (1ª edição: 1885). Segue o respetivo pdf,

Quem fala em melros, pode falar em rouxinóis. Porque a opressão e a maldade não têm pouso exclusivo. Ao melro raptaram-lhe os filhos; ao rouxinol da Cantilena de Francisco Fanhais cortaram quase tudo.

Francisco Fanhais. Cantilena. 1969. Poema de Sebastião da Gama.

Com imagens pode dizer-se muito. Com poucas imagens pode, por vezes, dizer-se ainda mais. Na curta-metragem dos bauhouse, sopra-se no medo e na esperança até que explodem como tiros e bombas. Porque as nossas asas são tão frágeis como as dos pássaros.

bauhouse. Momentum 2015 – Video Installation. 2015. Curta-metragem.

Chorar veneno

Zeca Baleiro. Vô Imbola. 1999.

Zeca Baleiro, nascido em 1966, é um compositor e cantor brasileiro. Desde 1997, editou 14 álbuns. O último, Canções d’Além-mar, de 2020, contempla, exclusivamente, músicas de cantores portugueses, de Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa a Jorge Palma e José Cid, passando, por exemplo, por José Afonso, António Variações e Rui Veloso. Seguem quatro canções de Zeca Baleiro: Bandeira; Lenha; Meu amor meu bem me ame; e Tem que acontecer. A primeira do álbum Por Onde Andará Stephen Fry? (1997) e as três restantes do álbum Vô Imbola (1999). Todas interpretadas ao vivo (álbum Líricas Ao Vivo, 2020).

Zeca Baleiro. Bandeira. Por Onde Andará Stephen Fry?. 1997 / Líricas Ao Vivo. 2020.
Zeca Baleiro. Lenha. Vô Imbola. 1999. / Líricas Ao Vivo. 2020.
Zeca Baleiro. Meu amor meu bem me ame. Vô Imbola. 1999. / Líricas Ao Vivo. 2020.
Zeca Baleiro. Tem que acontecer. Vô Imbola. 1999. / Líricas Ao Vivo. 2020.

Ainda quero acreditar

Georges Bizet.

“Ouvi um sonho” / “Ainda creio ouvir sob as palmeiras a sua voz terna e sonora como uma canção de pombos” (Georges Bizet).

Segue uma versão instrumental da ária Je Crois Entendre Encore, da ópera Les pecheurs de perles (1863), de Georges Bizet. Para três versões interpretadas por Allison Moyet, Plácido Domingo e David Gilmour, ver Ouvir Mais Uma Vez (https://tendimag.com/2021/11/29/ouvir-mais-uma-vez/).

Georges Bizet. Je Crois Entendre Encore, da ópera Les pecheurs de perles, 1863. Interpretação: New York Philharmonic Orchestra. Direção: André Kostelanetz. 1960.

Erudição e imaginação

“A erudição está longe de ser um mal: ela amplia o campo da experiência” (François Jacob, Conseils à un jeune poète suivi de Conseils à un étudiant, 1944).

Há quem entenda por bem opor o imaginativo ao erudito. Pura falácia, conversa fiada! Sem a erudição, a imaginação a pouco aspira. A descoberta de uma boa obra erudita escrita por um bom autor erudito é uma bênção para a obra imaginativa de um autor imaginativo. Encontra asas para correr e pernas para voar. Imaginação não é geração espontânea.

Um estudo dedicado às imagens de Cristo não seria o mesmo sem a consulta do livro  L’art chrétien : son développement iconographique des origines à nos jours, de Louis Bréhier, publicado pelo editor Henri Laurens (Paris, 1927). Bem-haja a Biblioteca Nacional de França por disponibilizar a versão digital de obras raras como esta.

Bibliothèque Nationale de France – François Mitterrand.

Naturalmente

Quino. Mafalda. Irresponsáveis.

À Paula Mascarenhas e ao José Neves

Empenhar-me na revisão do livro A Morte na Arte é uma prioridade, mas o Tendências do Imaginário lembra as Mouras Encantadas. Não há modo, apesar da garantia de castigo, de lhes resistir. Esta forma rápida e quase espontânea de acabar um texto mal se começa torna-se um vício. E tudo o que exige aplicação, tempo e paciência, um incómodo. São duas formas de entrega. Uma proporciona um prazer quase imediato, a outra uma vaga recompensa remota. E eu não sou nem asceta nem puritano. Com algumas saudades dos anúncios publicitários, continuo, por um tempo, a insistir na música. Costuma acompanhar-me enquanto trabalho. Volta e meia, um trecho mais atrevido cativa-me a atenção. Uma desconcentração prazerosa. Desta vez, encarei com a canção catalã Pare (1973), de Joan Manuel Serrat, nascido em Barcelona, em 1943. Um ídolo em Espanha. Trata-se de uma canção de combate, género pródigo nos anos setenta, em defesa de uma natureza natural. Segue a música e a tradução da letra em inglês.

Joan Manuel Serrat. Pare. Per Al Meu Amic. 1973

Father
Father, Tell Me,
what have they done to the river, that it no longer sings?
It slips like a dead barbel
under a handspan of white foam.

Father; That the river is no longer the river.
Father, Before the summer comes,
hide everything that is alive.

Father, Tell me,
what have they done to the forest, that now there are no trees?,
In the winter we won’t have fire,
nor in summer a place for shelter.

Father; that the forest is no longer the forest.
Father; before it darkens,
fill with life the pantry.

Without limber and without fish, father,
we will have to burn the small boat,
harvest the wheat
between the ruins, father,
and close with three bolts the house,

…and you said, father…

if there are no pine trees
there will be no pine nuts, nor worms, nor birds.
Father, where there are no flowers,
the bees will not give, nor the wax, nor the honey.

Father, that the country is no longer the country.
Father, tomorrow from the sky will rain blood.
The wind sings it crying.

Father, they are here already,
monsters of meat with worms of iron.
Father, no. Do not have fear,
and say that no, that I will wait for you.

Father, That they are killing the earth,
Father. Stop crying,
That they have declared us the war.