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Poesia e violência

Lives not knives. No more knives. 2019.

Em 2018, observa-se, em Londres, um aumento inesperado de crimes com arma branca. Não conformada com a ausência de respostas eficientes, a associação londrina Lives not Knives decide promover um anúncio pautado pela poesia: No more knives. Para o efeito, recorre à inspiração de Maya Sourie. Não é a primeira vez que a poesia é convocada como forma de sensibilização (recordo Maio de 1968). Algumas imagens são poéticas e angustiantes, por vezes, trágicas. O anúncio é notável.

Anunciante: Lives not Knives. Título: No more knives. Direcção: Carly Randall & Will Cottam. Reino Unido, Fevereiro 2019.

Música antiga

Mosteiro de Monserrat. Barcelona. Catalunha. Espanha.

Há muito homem para aquém da pós-modernidade. Outros mundos, outras narrativas, outros delírios. O homem nunca foi culturalmente raquítico. À margem das “feiras e das festas medievais” em voga, gosto da música dita antiga.

Llibre Vermell. Original. Pág. 6. Ca. 1399.

Jordi Savall, catalão, compositor, director e instrumentista de viola de gamba, é um dos expoentes da interpretação de músicas antigas originais. Criou, em 1974, com a esposa Monserrat Figueras, o Ensemble Hespèrion XXI. É uma tentação acolher a obra de Jordi Savall no Tendências do Imaginário. “Los Set Gotsx”  e “Stella Splendens” integram as dez composições, todas anónimas, compiladas no Liibre Vermeil de Monserrat, um manuscrito iluminado de finais do séc. XIV, guardado no Mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona . Não obstante a “cantilena” do poeta Sebastião da Gama e do cantor Francisco Fanhais, ainda não cortaram o bico ao rouxinol (ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/). Às vezes, faz bem sentir o outro no nosso harmónio, escapulir desta nossa maravilha de fim dos tempos.

Anónimo. Los Set Gotsx. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.
Anónimo. Stella Splendens. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.

Cansaço

Memento mori ©2017 por Valentine Lasselin-Nowak.

Ano novo, corpo velho! Arrasto-me. Um enfisema pulmonar cansa; insuficiência renal cansa; um beta bloqueador para o coração cansa; má circulação cansa; diabetes com glicémia acima de 200 cansa; um cocktail de medicamentos para a “cabeça” cansa; Os triglicerídeos nos 450 cansa. O meu corpo é um calhau da Serra de Arga. A insuficiência renal e a glicémia alta dão sede. Bebo como um danado. Sou um autotanque sem rodas.

Quem dera transplantar o cérebro noutra pessoa. Se me coubesse uma mulher, ainda ficava hermafrodita (ver Robert A. Heinlein, I will fear no evil I, 1970). Entretanto, estou com gripe. Entre mim e a gripe, existe uma atracção fatal. Não obstante as vacinas injectável e oral, consegue abraçar-me. Com gripe, arrasto-me a dobrar. A família entendeu mostrar-me, com humor, um espelho: o poema “Todos os homens são maricas quando estão com gripe”, do António Lobo Antunes, recitado pelo Pedro Lamares. Em boa hora!

António Lobo Antunes. Todos os homens são maricas quando estão com gripe”. Recitado por Pedro Lamares. Museu D. Diogo de Sousa, 2013.

“Somos pó, e ao pó voltaremos”. Então, não haverá desigualdades nem doenças. Apenas infortúnios da alma. Por enquanto, somos o que somos. Quem diria que uma canção contemporânea podia ser um belo momento mori?

Kansas. Dust in the wind. Point of known return. 1977. Ao vivo no Chile em 2006.

Pegadas e caminhos

Cresci pendurado na fronteira. Era difícil não ouvir Juan Manuel Serrat. Natural de Barcelona, os seus primeiros discos (1967 a 1969) continham canções em catalão. Em 1968, é convidado para interpretar a canção espanhola “La, la ,la” no Festival da Eurovisão. Insiste que só interpretará a canção se esta for em catalão. É substituído por Massiel que ganha o Eurofestival. Consta que o governo de Franco proibiu a emissão das canções de Joan Manuel Serrat na televisão e na rádio.

Anacronismo à parte, nas viagens ao passado esbarro com o presente! Em 1969, Joan Manuel Serrat publica um disco dedicado a Antonio Machado (Figura 1). As letras combinam versos do poeta. Pertence a este disco a canção Cantares. No presente vídeo, Juan Manuel Serrat interpreta-a ao vivo, 47 anos depois da primeira edição. A canção mais célebre resgata o seguinte poema de Antonio Machado:

“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar”.
Antonio Machado. Proverbios y Cantares (XXIX). Campos de Castilla. 1912.

Joan Manuel Serrat. Cantares.1969. Ao vivo em 2016.

Este poema é o lema de uma das obras mais notáveis da sociologia: O Método, de Edgar Morin. O autor demarca-se da epistemologia que me habituei a chamar, nas horas azedas, esquelética da razão, uma espécie de esquemática apostada em antecipar destinos e mapear percursos. Na capa da primeira edição de O Método figura a gravura Drawing Hands (1948) de M.C. Escher. Falta apenas uma leve aragem barroca para dispor as mãos em espiral. Antonio Machado, M.C. Escher, Joan Manuel Serrat e Edgar Morin compõem um quarteto significativo. Não compõem?

“Na origem, a palavra «método» significava caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Machado: Caminante no hay camino, se hace camino al andar. O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzsche sabia-o: «Os métodos vêm no fim» (O Anticristo). O regresso ao começo não é um círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência, donde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprender a aprender a aprender aprendendo. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo. Foi precisamente isto que nos disseram os romances de aprendizagem de Wilhelm Meister a Siddharta” (Edgar Morin, La Méthode, 1977. Trad. portuguesa: Publicações Europa-América, p.25).

Gata melómana

Camille Saint-Saens

Camille Saint-Saens.

Conheci uma gata meio vadia. Aparecia quando a manjedoura estava vazia. Respondia, contudo, a um chamamento: a música. Aproximava-se a ronronar. Mas não era qualquer música que a cativava. Apenas jazz e clássica. A música que segue tanto encanta a gata como engana Sansão. É uma canção de sedução traiçoeira. Mon coeur s’ouvre à ta voix, da ópera Sansão e Dalila, composta por Camille Saint-Saens, foi apresentada em 1868 a um grupo de amigos. Em tempo de rescaldo da guerra franco-prussiana, estreou em Weimar no ano de 1877. Só teve as honras do Palácio Garnier, sede da Ópera de Paris, em 1892, volvidos 24 anos.

Filippa Giordano. S’Apre Per Te Il Mio Cuor . Ópera Sansão e Dalila. De Camille Saint-Saens. 1877.

Filho da Lua

Colocaram estas fotografias no Facebook. Passaram-me despercebidas. Provêm da sessão inaugural do festival Filmes do Homem (Agosto 2018). Gosto de conversar. Umas vezes com a máscara da convicção, outras com o humor de quem ri com as próprias piadas. Restrinjo cada vez mais as conversas a assuntos e a públicos que me tocam. Apraz-me conversar, escrever, ensinar e investigar com liberdade e motivação. Um privilégio que a academia está a perder. Já a gestão e a “internacionalização”, dispenso-as. “Internacionalizo” pouco. Não sinto a falta. Prefiro não ter fronteiras.

Internacionalizemos! Hijo de la Luna (1986), da banda espanhola Mecano, ultrapassou a vintena de covers, desde os clássicos até aos góticos. Os Mecano cantam-na em espanhol e em italiano. Gosto da versão italiana. Coloco uma e outra. A letra convoca a mitologia. Uma mulher dá à luz um bebé de pele branca com olhos cinzentos. O pai, cigano, desconfia de adultério. Mata a mulher e abandona o filho no cimo de um monte. A lua, que não pode ter filhos, adopta a criança. Quando esta está contente, temos lua cheia; quando está triste, a lua encolhe-se, em quarto minguante, para melhor a embalar.

Mecano. Hijo de la Luna. Entre el Cielo e el Suelo. 1984. Vídeo musical.

Mecano. Figlio Della Luna. Video musical em italiano.

 

Bom dia, tristeza!

La Wally. Cartaz

La Wally. Cartaz.

“Bonjour tristesse” (Françoise Sagan)! A separação consta entre as mais temíveis experiências do ser humano. Não existe alma imune. Maria Callas canta a separação na ária Ebben? Ne andrò lontana, ópera La Wally Acto 1, do compositor italiano Alfredo Catalani, estreada em 1892.

Oh casa feliz da minha mãe
A Wally partirá para longe de ti, de ti
Muito longe, e talvez a ti
E talvez a ti, nunca mais regressará
Nunca mais a verás!
Nunca mais, nunca mais!
(Excerto de Ebben? Ne Andrò lontana; minha tradução).

Maria Callas. Ebben? Ne andrò lontana, La Wally Acto 1, Compositor Alfredo Catalani. 1892.

Homenagem aos professores

Este anúncio é uma magnífica homenagem aos professores. Tem a marca do planeta do Principezinho. Tive bons professores. Estão a ensinar os anjos a voar sem asas. Sinto-lhes a falta. As ideias gostam de voar, nas nuvens ou nas aulas.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Teacher Training

Anunciante: Teacher Training. Título: Sonhos. Agência: Delaney Lund Knox Warren & Partners (London). Reino Unido, 1999.

Na mão de Deus

Gustav Vigeland (1869-1943) - Man and woman (1905)

Gustav Vigeland (1869-1943) – Man and woman (1905).

Não resisto a acrescentar uma escultura de Gustave Vigeland (https://tendimag.com/2018/09/22/ate-que-a-morte-nos-separe-2/). Lembra Auguste Rodin, de quem era admirador, principalmente a escultura A Mão de Deus. Lembra, também, o soneto A Mão de Deus, de Antero de Quental (segue o original e a tradução em inglês). Para quem acredita em mãos, a mão de Deus promete um alívio infinito.

Auguste Rodin. A mão de Deus. 1896.

Auguste Rodin. A mão de Deus. 1896.

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental. Os sonetos completos de Anthero de Quental. 1886.

IN GOD’S HAND

In the right hand of God, in his right hand
My heart has found a resting-place at last.
Adown the narrow stairway I have passed
That leads us from Illusion’s magic land.

Like to the mortal flowers with which a band
Of children vainly deck them, I have cast
Away the transitory figment, and the vast
Deceit that Passion and the Ideal demand.

As a small child, upon a gloomy day.
Whose mother lifts him, smiling distantly,
And bears him, at her breast, upon her way.

Past woods and seas, o’er desert sand and sod.
Sleep thy deep sleep, O heart of mine now free.
Sleep thou forever in the hand of God!

Antero de Quental. Sonnets and poems of Anthero de Quental. University of California Press. Berkeley, California, 1922.

Mais do mesmo: canções de perda e mágoa

Existem muitas canções que lamentam o desaparecimento de um ente querido. Algumas são canções com lágrimas. Já foram publicadas no Tendências do Imaginário A Menina dos Olhos Tristes, de José Afonso (https://tendimag.com/2014/10/30/teledesejo/), A Menina Bexigosa, de Manuel Freire (https://tendimag.com/2015/12/20/a-menina-bexigosa/) e Te Recuerdo Amanda, de Victor Jara (https://tendimag.com/2017/12/16/o-coracao-da-terra-os-direitos-do-homem/). Gostaria de acrescentar três, por data de lançamento. Tears in Heaven, do Eric Clapton, talvez seja a mais pungente (após a morte, por queda do 29º andar de um prédio, do filho com dois anos de idade).

Alain Barrière. Elle était si jolie. 1963.

José Afonso. Cantar Alentejano. 1971.

Eric Clapton. Tears in Heaven. 1992. Live Crossroads 2013.