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Amor à distância

John Lewis. The man on the moon. 2015.

“A solidão desola-me; a companhia oprime-me” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego).

Inserido no artigo O Homem na Lua (https://tendimag.com/2015/11/07/o-homem-na-lua/), o anúncio Man on the Moon, da John Lewis, foi varrido por ventos adversos. Nada como recolocar o anúncio.

Marca: John Lewis. Título: Man on the Moon. Agência: Adam & Eve DDB (London). Reino Unido, Novembro 2015.

The Economist/KFF findings add to a wave of recent research showing high levels of loneliness. A recent Cigna survey revealed that nearly half of Americans always or sometimes feel alone (46%) or left out (47%). Fully 54% said they always or sometimes feel that no one knows them well. Loneliness isn’t just a U.S. phenomenon. In a nationwide survey released in October from the BBC, a third of Britons said that they often or very often feel lonely. Nearly half of Britons over 65 consider the television or a pet their main source of company. In Japan, there are more than half a million people under 40 who haven’t left their house or interacted with anyone for at least six months. In Canada, the share of solo households is now 28%. Across the European Union, it’s 34% (Millenials And The Loneliness Epidemic, Forbes: https://www.forbes.com/sites/neilhowe/2019/05/03/millennials-and-the-loneliness-epidemic/#77e649ac7676

A solidão remete para a ausência de laços sociais. Émile Durkheim assume-o no ensaio sobre o suicídio (1897). Dizer ausência é pouco. Para haver solidão, não é necessário que os laços se quebrem, basta que afrouxem. Como sublinha Zygmunt Bauman (Liquid Love, 2003), a modernidade é caracterizada pelo afrouxamento dos laços sociais. Para além de laços sociais frouxos, existem laços sociais incómodos ou deteriorados, que convém controlar. A arte social é fértil neste tipo de comportamento: por exemplo, convidar sem nunca concretizar. Vivemos rodeados por dispositivos contra a intrusão, que lembram escudos sociais.

A profusão de laços sociais não obsta à solidão. Num lar de idosos, a exposição ao outro é máxima, mas a solidão predomina. Que os laços sociais se quebrem é natural. Que os laços sociais se afrouxem faz parte da nossa modernidade líquida. Que os laços sociais sejam indesejados é um novo problema, um problema que envolve a confiança.

A nossa veia estruturalista induz-nos a focar as redes e os laços. Mas as redes e os laços não são a única realidade que comove o homem. Subsistem minudências, porventura, fortuitas, que fazem dançar a vida. Aquém e além, ocorrem pequenos milagres e pequenas epifanias que nos despertam e nos abraçam. O anúncio opera uma dupla magia: a relação à distância entre a menina e o homem na lua e a relação empática com o público. Uma centelha de amor que passa pelo ecrã. Uma palpitação electrónica.

Lição de género

Benetton. United By Half.

O espírito de missão turva a reflexividade (Albertino Gonçalves).

É insensato publicar um texto como este. Escrever expõe-nos a asneiras íntimas, sem nenhum ganho. Mas, não obstante René Descartes, a doidice está mais bem distribuída do que a razão. Insistir num acto que nos vai prejudicar é estupidez de luxo.

Em sentido lato, discriminar é distinguir. Faculdade indispensável à acção. Num sentido corrente na sociologia, discriminar é avaliar preconceituosamente o outro.

Tu seras un homme, mon fils, da Fondation Des Femmes, prima pela qualidade. Uma sensibilização bem conseguida em torno das relações de género. Merece um comentário detalhado.

Nas últimas cinco décadas, na publicidade, as imagens de género alteraram-se. A supremacia masculina, outrora ostensiva, torna-se mais discreta. O homem sujeito aproxima-se do objecto e a mulher objecto, do sujeito. A submissão feminina já não é o que era. Emerge, entretanto, um novo tipo de anúncio publicitário: a proclamação de género. A moldura das manifestações e das efemérides transita para os anúncios. Seguem dois exemplos desta “nova vaga” (ver, também, Género e Publicidade: https://tendimag.com/2019/08/23/genero-e-publicidade/). Estas mudanças não significam que a publicidade deixou de sustentar o poder masculino garantindo, por fim, a igualdade. O homem não carece aparecer para que o sexismo se insinue. As vias da comunicação são travessas e insuspeitas. Quando os objectos falam, o homem pode saborear o silêncio.

Anunciante: OSFAM GB. Título: #wolmenUnlimited. International Women’s Day. Reino Unido, Março 2017.
Marca: United Colors of Benetton. Título: United By Half. Índia, Março 2017.

O anúncio Tu Seras Un Homme Mon Fils, da Fondation des Femmes, inspira-se no poema de Rudyard Kipling És Um Homem, Se… (If…, ca 1895; ver tradução na parte final do artigo). Uma voz masculina sublinha o modo como um pai deve educar um filho.

“Se em vez de te exaltares, souberes respeitar, escutar, partilhar; se, apesar da derrota, continuas a avançar, tu serás um homem, meu filho; se souberes apoiar sem querer dominar, ser forte sem ser violento; se és capaz de encarar uma mulher sem que ela tenha a temer o teu olhar, tu serás um homem, meu filho; se lutares por todo o lado contra as desigualdades e a violência e tiveres a coragem de quebrar a incidência (?), se recusas que incomodem a tua mãe, a tua irmã ou os teus amigos, bem como todas as mulheres que cruzares na tua vida, então, nesse dia, tu serás verdadeiramente um homem, meu filho! / O assédio e a violência contra as mulheres não dizem apenas respeito às mulheres”.

Anunciante: Fondation des Femmes. Título : Tu seras un homme mon fils. França, Maio 2018.

O anúncio sensibiliza contra o assédio e a violência de que sofrem as mulheres:

“L’idée de cette campagne : adresser les hommes et “futurs hommes” sur les valeurs propices à favoriser l’égalité femmes – hommes dans la société et in fine, mettre un terme à toutes les violences faites aux femmes. Décliné du poème de Rudyard Kipling, le film met en scène des instants de vie entre pères et fils de tous âges, milieux et origines. #TuSerasUnHommeMonFils aborde l’importance de l’éducation aux plus jeunes, au cœur de l’évolution des comportements des hommes envers les femmes » (https://fondationdesfemmes.org/tu-seras-un-homme-mon-fils/).

Para que um filho se torne “verdadeiramente um homem », que posturas e valores deve o pai promover? Colocar-se no lugar do outro é um exercício de reciprocidade recomendável. Troquemos o foco: “que personalidade e que valores deve a mãe promover na relação com a filha para que esta se converta verdadeiramente numa mulher”? Qual o efeito deste desígnio? No mínimo, incómodo. Uma verdadeira mulher? Criada através da relação mãe-filha?

Nós somos animais centrados. Satisfaz-nos, às vezes, enxergar a “metade”. Cantor, homem, filho… O problema é meramente masculino? A mãe não educa os filhos? Não tem influência na respectiva personalidade? Não perfilha preconceitos, incluindo de género? A percepção do mundo por metades pode comportar consequências desastrosas. Recordo a implementação da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). “Predestinada” a mulheres, quando os homens, vítimas de violência doméstica, começaram a demandar a APAV, foi uma vergonha de Estado.

Fonte: Christine Mateus. TuSerasUnHommeMonFils : une campagne pour ne pas en faire un macho. Le Parisien ( http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php).

Este retrato da boa masculinidade convoca o binómio, polémico, protector/vítima. O que me intriga. Intriga-me, também, as qualidades do “verdadeiro homem”, que, preconizadas no anúncio, quase coincidem com os atributos associados pela população francesa a “ser homem”, segundo os resultados do inquérito online promovido pela própria Fondation des Femmes http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php). Não imagino o que esta correspondência significa. Já me perdi em demasia. Pelo caminho, dispenso a noção de “verdadeiro homem”, cujo cadastro histórico é tremendo.

És Um HOMEM, Se… (Rudyard Kiplin, tradução)
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling (ca 1895).

A oração e a prostituta

The Doors.

Acontece-me comprar discos sem os ter ouvido. Por opção. Na Fnac de Paris, podia-se ouvir os discos na loja; o mesmo na Sonolar em Braga. Mas é uma emoção descobri-los em casa. E, por vezes, uma desilusão. Por exemplo, o cd dos Air: City Reading -Tre Storie Western (2003). Poemas de Alessandro Baricco acompanhados com música dos Air. Decepção mais antiga foi o álbum An American Prayer (1978), de Jim Morrison e The Doors. Tal como no caso dos Air, poemas de Jim Morrison com música dos The Doors.

Com o tempo, uma pessoa acaba por se afeiçoar a estes patinhos feios. Quando menos esperamos, temos um cisne. Jim Morrison idealizava, antes de morrer em 1971 em Paris, publicar os seus poemas. Os parceiros da banda realizaram, de algum modo, a sua vontade. O vídeo contempla três faixas, dispersas, do álbum An American Prayer: An American Prayer; Lament; e Bird of Prey.

Jim Morrison & The Doors. An American Prayer / Lament / Bird of Prey. An American Prayer. 1978.

Ainda não me conciliei com o álbum City Reading, dos Air. Não desgosto, mas gostar é outra coisa. Talvez, a exemplo de outros, daqui a trinta anos. Os poemas do álbum estão arrumados em três partes: Bird; La Puttana Di Closingtown: Caccia All’uomo. Segue um excerto: “Prologo Per la Puttana Di Closingtown”.

Air e Alessandro Baricco. Prologo Per la Puttana Di Closingtown. City Reading. 2003.

Amor em tempo de feira

Pieter Brueghel the Younger – Return from the Fair. 1620-1630.

“Scarborough Fair” é uma balada britânica de origem medieval em que uma pessoa pede à pessoa amada proezas impossíveis. Um tema recorrente no universo dos contos. Scarborough é uma cidade que tinha, na Idade Média, uma das feiras mais importantes de Inglaterra. Segue a balada em duas versões: instrumental clássica, interpretada por Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra); e canção pop, interpretada por Simon e Garfunkel. Pode encontrar a letra e a tradução da balada neste endereço: https://pt.wikipedia.org/wiki/Scarborough_Fair .

Scarborough Fair. Interpretes: Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra). Arranjo de Jerry Schnider.
Scarborough Fair. Simon & Garfunkel. Álbum: Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966). Ao vivo em Central Park. 1981.

As flores do mal

Caim e Abel. Século XV.

Não procurem mais o meu coração, as bestas comeram-no (Charles Baudelaire. Les Fleurs du Mal. 1857).

Que besta devo adorar ? Que imagem santa atacar ? Que corações destroçarei? Que mentira devo sustentar? Em que sangue marchar ? (Arthur Rimbaud. Une Saison en enfer. 1873).

Somos filhos de Caim. O mal está arreigado na arqueologia do ser. Quem não pisou uma formiga? Quem não fez mal a uma mosca? Quem amou o próximo como a si mesmo? Não resistimos à maldade. Empolga-nos a crueldade nos cartoons, nos filmes, nos anime, nos videojogos e nas campanhas eleitorais. Os programas de informação mostram o mal e esquecem o bem. Cordeiros do demo, apascentamos a ruindade. Somos consumidores do mal.

O anúncio Ski, da Laca 5Star, brinda-nos com um cocktail do mal num cálice de expiação. “Uma explosão de sabores e texturas ». O mal sabe bem. À semelhança do anúncio ski, T-Rex, da Collective du Lait, faz parte de uma série de anúncios. Ensina que o mais fraco (tu e eu) resulta grotescamente vulnerável ao mal. Para concluir, o anúncio Dumb Ways to Die, da Metro Trains Melbourn, é uma ternura de dança macabra à moda do terceiro milénio.

O mal é uma tentação? Algo de bom deve ter! Recorrendo a línguagem suculenta de Thomas Müntzer, o monge revolucionário líder da Guerra dos Camponeses (1524-1525): o bem e o mal lembram “duas serpentes que fornicam em conjunto”. O bem e o mal dançam no mesmo baile. O mais avisado é aprender a « homeopatia do mal », a lidar com a “parte do diabo” (Michel Maffesoli). Até porque, a fazer fé na sabedoria popular, “há males que vêm por bem”.

Marca : Lacta 5Star. Título : Ski. Agência : Wieden + Kennedy (Brasil). 2018.
Marca: Collective du Lait. Título : T-Rex. Agência : DDB (Vancouver). Direcção : Rouairi Robinson. Canadá, 2005.
Marca: Metro trains. Título: Dumb ways to die. Agência: McCann-Erikson Melbourne. Austrália, 2012.

A importância dos outros

Nós somos todos o outro de alguém

São raros os anúncios com textos interessantes. Les autres, da Volkswagen, propõe uma música admirável (Walang Kamatayan, de Pedro Concepcion), imagens apropriadas e um texto invulgar, que lembra o estilo poético de Jacques Prévert.

Estou a tomar uma vacina de imunidade às coisas importantes. A vacina chama-se cinismo. Um aluno de Stanislavski deixa-se seduzir por umas peças de roupa; veste-as todos os dias; passado algum tempo, aquela roupa transforma-o num crítico (Constantin Stanislavski, A construção da personagem, 1948). No que me diz respeito, para cínico não preciso de roupa, basta acordar. Não obstante o meu cinismo, Prévert e Montand são especiais. Há coisas sem importância com grande valor. Têm o valor que lhes damos. A vida pode dignar-se murmurar, repetir, uma canção. Por exemplo, Les Feuilles Mortes (https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=kLlBOmDpn1s), escrita por Jaques Prévert, musicada por Vladimir Kosma e interpretada por Yves Montand. Na viagem para o vale dos ossos tranquilos, quero ouvir as “folhas mortas”. Segue a tradução do texto do anúncio:

Os outros. Estão por todo o lado, os outros. Mas, sobretudo, lá onde não fazem falta. À frente, os outros não avançam. Atrás, avançam demasiado. Os outros são sempre em maior número do que nós, e chegam sempre ao mesmo tempo que nós. Os outros comportam-se como se os outros não existissem. São demasiado jovens para conduzir, são demasiado velhos para conduzir. Os outros são o inferno. De qualquer modo, assim o dizem os outros. Nós somos todos o outro de alguém.

Acrescento uma canção com letra de Prévert e interpretação de Montand: Dans ma maison. Atente-se às passagens dedicadas à importância dos pés e aos equívocos da palavra pardal.

Marca: Volkswagen. Título: Les autres. Agência: DDB (Paris). Direcção: SI&AD. França, Maio 2019.
Yves Montand. Dans ma maison. Ao vivo. 1981. Poema de Jacques Prévert.

Dans ma maison (Jacques Prévert)
Dans ma maison vous viendrez
D’ailleurs ce n’est pas ma maison
Je ne sais pas à qui elle est
Je suis entré comme ça un jour
Il n’y avait personne
Seulement des piments rouges accrochés au mur blanc
Je suis resté longtemps dans cette maison
Personne n’est venu
Mais tous les jours et tous les jours
Je vous ai attendue
Je ne faisais rien
C’est-à-dire rien de sérieux
Quelquefois le matin
Je poussais des cris d’animaux
Je gueulais comme un âne
De toutes mes forces
Et cela me faisait plaisir
Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Faut être bête comme l’homme l’est si souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pieds gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
Est-ce qu’on sait ce que c’est un pinson
D’ailleurs il ne s’appelle pas réellement comme ça
C’est l’homme qui a appelé cet oiseau comme ça
Pinson pinson pinson pinson
Comme c’est curieux les noms
Martin Hugo Victor de son prénom
Bonaparte Napoléon de son prénom
Pourquoi comme ça et pas comme ça
Un troupeau de bonapartes passe dans le désert
L’empereur s’appelle Dromadaire
Il a un cheval caisse et des tiroirs de course
Au loin galope un homme qui n’a que trois prénoms
Il s’appelle Tim-Tam-Tom et n’a pas de grand nom
Un peu plus loin encore il y a n’importe qui
Beaucoup plus loin encore il y a n’importe quoi
Et puis qu’est-ce que ça peut faire tout ça
Dans ma maison tu viendras
Je pense à autre chose mais je ne pense qu’à ça
Et quand tu seras entrée dans ma maison
Tu enlèveras tous tes vêtements
Et tu resteras immobile nue debout avec ta bouche rouge
Comme les piments rouges pendus sur le mur blanc
Et puis tu te coucheras et je me coucherai près de toi
Voilà
Dans ma maison qui n’est pas ma maison tu viendras.

Poesia e violência

Lives not knives. No more knives. 2019.

Em 2018, observa-se, em Londres, um aumento inesperado de crimes com arma branca. Não conformada com a ausência de respostas eficientes, a associação londrina Lives not Knives decide promover um anúncio pautado pela poesia: No more knives. Para o efeito, recorre à inspiração de Maya Sourie. Não é a primeira vez que a poesia é convocada como forma de sensibilização (recordo Maio de 1968). Algumas imagens são poéticas e angustiantes, por vezes, trágicas. O anúncio é notável.

Anunciante: Lives not Knives. Título: No more knives. Direcção: Carly Randall & Will Cottam. Reino Unido, Fevereiro 2019.

Música antiga

Mosteiro de Monserrat. Barcelona. Catalunha. Espanha.

Há muito homem para aquém da pós-modernidade. Outros mundos, outras narrativas, outros delírios. O homem nunca foi culturalmente raquítico. À margem das “feiras e das festas medievais” em voga, gosto da música dita antiga.

Llibre Vermell. Original. Pág. 6. Ca. 1399.

Jordi Savall, catalão, compositor, director e instrumentista de viola de gamba, é um dos expoentes da interpretação de músicas antigas originais. Criou, em 1974, com a esposa Monserrat Figueras, o Ensemble Hespèrion XXI. É uma tentação acolher a obra de Jordi Savall no Tendências do Imaginário. “Los Set Gotsx”  e “Stella Splendens” integram as dez composições, todas anónimas, compiladas no Liibre Vermeil de Monserrat, um manuscrito iluminado de finais do séc. XIV, guardado no Mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona . Não obstante a “cantilena” do poeta Sebastião da Gama e do cantor Francisco Fanhais, ainda não cortaram o bico ao rouxinol (ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/). Às vezes, faz bem sentir o outro no nosso harmónio, escapulir desta nossa maravilha de fim dos tempos.

Anónimo. Los Set Gotsx. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.
Anónimo. Stella Splendens. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.

Cansaço

Memento mori ©2017 por Valentine Lasselin-Nowak.

Ano novo, corpo velho! Arrasto-me. Um enfisema pulmonar cansa; insuficiência renal cansa; um beta bloqueador para o coração cansa; má circulação cansa; diabetes com glicémia acima de 200 cansa; um cocktail de medicamentos para a “cabeça” cansa; Os triglicerídeos nos 450 cansa. O meu corpo é um calhau da Serra de Arga. A insuficiência renal e a glicémia alta dão sede. Bebo como um danado. Sou um autotanque sem rodas.

Quem dera transplantar o cérebro noutra pessoa. Se me coubesse uma mulher, ainda ficava hermafrodita (ver Robert A. Heinlein, I will fear no evil I, 1970). Entretanto, estou com gripe. Entre mim e a gripe, existe uma atracção fatal. Não obstante as vacinas injectável e oral, consegue abraçar-me. Com gripe, arrasto-me a dobrar. A família entendeu mostrar-me, com humor, um espelho: o poema “Todos os homens são maricas quando estão com gripe”, do António Lobo Antunes, recitado pelo Pedro Lamares. Em boa hora!

António Lobo Antunes. Todos os homens são maricas quando estão com gripe”. Recitado por Pedro Lamares. Museu D. Diogo de Sousa, 2013.

“Somos pó, e ao pó voltaremos”. Então, não haverá desigualdades nem doenças. Apenas infortúnios da alma. Por enquanto, somos o que somos. Quem diria que uma canção contemporânea podia ser um belo momento mori?

Kansas. Dust in the wind. Point of known return. 1977. Ao vivo no Chile em 2006.

Pegadas e caminhos

Cresci pendurado na fronteira. Era difícil não ouvir Juan Manuel Serrat. Natural de Barcelona, os seus primeiros discos (1967 a 1969) continham canções em catalão. Em 1968, é convidado para interpretar a canção espanhola “La, la ,la” no Festival da Eurovisão. Insiste que só interpretará a canção se esta for em catalão. É substituído por Massiel que ganha o Eurofestival. Consta que o governo de Franco proibiu a emissão das canções de Joan Manuel Serrat na televisão e na rádio.

Anacronismo à parte, nas viagens ao passado esbarro com o presente! Em 1969, Joan Manuel Serrat publica um disco dedicado a Antonio Machado (Figura 1). As letras combinam versos do poeta. Pertence a este disco a canção Cantares. No presente vídeo, Juan Manuel Serrat interpreta-a ao vivo, 47 anos depois da primeira edição. A canção mais célebre resgata o seguinte poema de Antonio Machado:

“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar”.
Antonio Machado. Proverbios y Cantares (XXIX). Campos de Castilla. 1912.

Joan Manuel Serrat. Cantares.1969. Ao vivo em 2016.

Este poema é o lema de uma das obras mais notáveis da sociologia: O Método, de Edgar Morin. O autor demarca-se da epistemologia que me habituei a chamar, nas horas azedas, esquelética da razão, uma espécie de esquemática apostada em antecipar destinos e mapear percursos. Na capa da primeira edição de O Método figura a gravura Drawing Hands (1948) de M.C. Escher. Falta apenas uma leve aragem barroca para dispor as mãos em espiral. Antonio Machado, M.C. Escher, Joan Manuel Serrat e Edgar Morin compõem um quarteto significativo. Não compõem?

“Na origem, a palavra «método» significava caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Machado: Caminante no hay camino, se hace camino al andar. O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzsche sabia-o: «Os métodos vêm no fim» (O Anticristo). O regresso ao começo não é um círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência, donde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprender a aprender a aprender aprendendo. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo. Foi precisamente isto que nos disseram os romances de aprendizagem de Wilhelm Meister a Siddharta” (Edgar Morin, La Méthode, 1977. Trad. portuguesa: Publicações Europa-América, p.25).