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Mãe

Agnolo Bronzino. Panciatichi Holy Family. 1541). Hands detail.

Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade

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Thomas Newman. American Beauty. Main Theme. 1999. Intérprete: Thomas Newman.

A dança de Paris

Quai de Bourbon. Paris.

O acordeão desperta as folhas mortas no cais da paixão. Ressonâncias, saudades… Ao longe, na água, o silêncio. No fundo, a memória das coisas distantes.

Como gostaria de escrever sem pintar as palavras!

Et la vie sépare ceux qui s’aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit.
Et la mer efface sur le sable,
Les pas des amants désunis.
(Jacques Prévert. Excerto de Les Feuilles Mortes. Paroles. 1945).

Richard Galliano & Tangaria Quartet. Autumn leaves. 41 Internationale Jazzwoche – Burghausen, Germany, Wackerhalle, 2010.03.12.

David Gilmour e Leonard Cohen

Leonard Cohen.

David Gilmour compôs em 2020 a canção Yes I Have Ghosts (vídeo 1) por ocasião do lançamento do áudio-livro A Theater For Dreams (2020) da esposa Polly Samson. É acompanhado pela filha Romany Gilmour (harpa e voz). Lembra Leonard Cohen. O suficiente para justificar uma pesquisa rápida. Há registo de David Gilmour a interpretar várias canções de Leonard Cohen, tais como So Long, Marianne, Fingerprints, Bird o the Wire, Hey, That’s No Way To Say Goodbye… E If It Be Your Will, cover gravado em família (vídeo 2). Não resisto a acrescentar o original de Leonard Cohen (vídeo 3). Um emigrante melgacense no Canadá ofereceu-me uma cassete de Leonard Cohen com esta canção. As coisas são relações sociais.

David Gilmour, com Romany Gilmour. Yes I Have Ghosts. Single, 2020.
David Gilmour, com Romany Gilmour. If It Be Your Will. Cover de Leonard Cohen. 2020.
Leonard Cohen. If it be your will. Various Positions. 1984. Ao vivo em 1988.

Infradotado

Leonard Cohen.

Um perito, uma opinião. Dois peritos, uma contradição. Três peritos, uma confusão (Anónimo).

Nunca me deparei com tantos peritos e especialistas como durante a epidemia. Infradotado, confesso que pouco ou nada aprendi. Valha-me o Leonard Cohen.

Leonard Cohen. Hey, That’s No Way To Say Goodbye (Live in London). Songs of Leonard Cohen. 1967.
Leonard Cohen. Sisters of mercy (Live in London). Songs of Leonard Cohen. 1967.

A quem tem o monopólio de me aturar!

A vertigem das listas

Leica. The Word Deserves Witnesses. 2021.

Listas! São famosos os inventários do poeta Jacques Prévert (em baixo: Inventaire, Paroles, 1946) e as listas intermináveis de François Rabelais (ver Gargântua, capítulo XIII). Na obra A vertigem das listas (2009), Umberto Eco releva o papel das listas ao longo da história. O anúncio The World Deserves Witnesses, da Leica, sobrepõe duas listas, uma de palavras, outra de fotografias, que, interligadas, testemunham os dois últimos séculos da história da humanidade: eventos, movimentos, sentimentos, ideias… Nem clássico, nem barroco, o anúncio The World Deserves Witness é, para além de uma peça de publicidade, uma obra estética, primorosa, inspirada, alucinante, criativa e inteligente.

Marca: Leica. Título: The World Deserves Wotnesses. Agência: TBWA Paris. Internacional, Janeiro 2021.

Inventaire
Jacques Prevert

Une pierre
deux maisons
trois ruines
quatres fossoyeurs
un jardin
des fleurs

un raton laveur

une douzaine d’huîtres un citron un pain
un rayon de soleil
une lame de fond
six musiciens
une porte avec son paillasson
un monsieur décoré de la légion d’honneur

un autre raton laveur

un sculpteur qui sculpte des napoléon
la fleur qu’on appelle souci
deux amoureux sur un grand lit
un receveur des contributions une chaise trois dindons
un ecclésiastique un furoncle
une guêpe
un rein flottant
une écurie de courses
un fils indigne deux frères dominicains trois sauterelles
un strapontin
deux filles de joie un oncle cyprien
une Mater dolorosa trois papas gâteau deux chèvres de
Monsieur Seguin
un talon Louis XV
un fauteuil Louis XVI
un buffet Henri II deux buffets Henri III trois buffets
Henri IV
un tiroir dépareillé
une pelote de ficelle deux épingles de sûreté un monsieur
âgé
une Victoire de samothrace un comptable deux aides-
comptables un homme du monde deux chirurgiens
trois végétariens
un cannibale
une expédition coloniale un cheval entier une demi-
pinte de bon sang une mouche tsé-tsé
un homard à l’américaine un jardin à la française
deux pommes à l’anglaise
un face-à-main un valet de pied un orphelin un poumon
d’acier
un jour de gloire
une semaine de bonté
un mois de marie
une année terrible
une minute de silence
une seconde d’inattention
et…

cinq ou six ratons laveurs

un petit garçon qui entre à l’école en pleurant
un petit garçon qui sort de l’école en riant
une fourmi
deux pierres à briquet
dix-sept éléphants un juge d’instruction en vacances
assis sur un pliant
un paysage avec beaucoup d’herbe verte dedans
une vache
un taureau
deux belles amours trois grandes orgues un veau
marengo
un soleil d’austerlitz
un siphon d’eau de Seltz
un vin blanc citron
un Petit Poucet un grand pardon un calvaire de pierre
une échelle de corde
deux sœoeurs latines trois dimensions douze apôtres mille
et une nuits trente-deux positions six parties du
monde cinq points cardinaux dix ans de bons et
loyaux services sept péchés capitaux deux doigts de
la main dix gouttes avant chaque repas trente jours
de prison dont quinze de cellule cinq minutes
d’entracte

et…
plusieurs ratons laveur


(Jacques Prévert, Paroles, 1946)

Com os olhos na pele

Detail of a portrait of the Dominican Cardinal and renowned biblical scholar Hugh of Saint-Cher painted by Tommaso da Modena in 1352

O que é belo? O que é feio? Quem é belo? Quem é feio? Quem passa despercebido? Quando, onde, perante que público? A beleza já não é o que era? “A beleza está nos nossos olhos” (Oscar Wilde).

“Observe a face turva
O olhar tentado e atento
Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro.”
(Elza Soares e Pitty, Na Pele, 2017)

Segue uma canção áspera, Na Pele, de Elza Soares e Pitty. Acrescento a apresentação de Elza Soares, “De que planeta veio Elza Soares”, no canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020), aluno do mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho.

Elza Soares e Pitty. Na Pele. Na Pele. 2017.
De que planeta veio Elza Soares, canal Sincopado: Música e História, por Felipe Tadeu Breier (13/12/2020).

Na Pele

Olhe dentro dos meus olhos

Olhe bem pra minha cara

Você vê que eu vivi muito

Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva

Do meu riso raso e roto

Veja essa boca muda

Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo

Dessas minhas jovens rugas

Conquistadas a duras penas

Entre aventuras e fugas

Observe a face turva

O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas

Imagine as de dentro

A vida tem sido água

Fazendo caminhos esguios

Se abrindo em veios e vales

Na pele leito de rio

Elza Soares e Pitty (2017).

Ainda bem! Maria Bethânia

Maria Bethânia

Uma amiga passou várias semanas no Brasil. Regressou fascinada com a música brasileira. Cantarolava as cassetes que me convidava a ouvir. Paris cantava brasileiro no coração de uma libanesa. Acontece-me peneirar o passado. Há coisas que fiz que agora não faria. Ainda bem que fiz!

Maria Bethânia. As Canções Que Você Fez Para Mim (Ao Vivo), “Noite Luzidia (Ao Vivo)”. Canecão, 2001.

O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

Paris. Yves Montand.

Casamento de Yves Montand e Simone Signoret, no dia 22 de dezembro de 1951, com Jacques Prévert como testemunha.

Vivi seis anos em Paris. Parte da minha juventude. Ainda me sinto parisiense. Admiro Yves Montand, ator e cantor francês memorável. Selecionei três canções. No vídeo da primeira, C’est si bon, aparece uma fotografia com Marilyn Monroe. Tiveram um caso, por ocasião do filme Vamo-nos amar (1960), de George Cukor. Arthur Miller acabou por se separar de Marilyn Monroe. A segunda canção é um hino a Paris. A terceira, Les feuilles mortes, um poema de Jacques Prévert, é uma canção especial.

Yves Montand. C’est si bon. Anos cinquenta.
Yves Montand. A Paris. 1952. Ao vivo no Olympia. 1981.
Yves Montand. Les feuilles mortes. 1949 ou 1950. Ao vivo no Olympia. 1981.

O sabor da felicidade

Monstro das Bolachas. Rua Sésamo.

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Não hesito em retomá-lo. Retomar é viver duplamente: no passado e no presente. O anúncio Biblioteca é uma ternura. Trata da felicidade que tanto perseguimos e tanto nos escapa. Um pensamento estorva-me as ideias: qual é o lugar da felicidade na televisão, mormente na informação? Nos anos sessenta, chamava-se à televisão a “caixa mágica”, uma adição, uma droga, da sociedade do consumo e da imagem. Com todas as nossas viragens e posteridades, da sociedade do consumo e da imagem ainda não saímos. A felicidade na informação televisiva joga às escondidas ou aparece passada a ferro. Manifesta-se mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Existe atração pelo medo? Compensa o drama e a tragédia? A felicidade mora ao lado. E o golo? E o hino? E a lotaria? E os festivais? E a saída nacional do “lixo”? Extraordinários efémeros. A felicidade é um sentimento. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a nossa. O anúncio Biblioteca é um sobressalto da alma. Menos pelo conteúdo, “o apetite guloso”, e mais pela forma: o apetite aguça a arte de superar limites. Nos anúncios, como em quase tudo, a forma transcende o conteúdo. Conheci a Felicidade; até tenho fotografias; era uma das figuras da minha aldeia; uma excelente pessoa; despediu-se há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.