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O feitiço da mercadoria

Cadbury's Mum's birthday

“Quem dá aos pobres empresta a deus”; “quem dá o que tem a mais não é obrigado”; “quem dá o que tem acaba a pedir”. Três provérbios, três filosofias de vida: a economia da salvação; a economia da distribuição; e a economia da perdição. Três visões distintas mas compatíveis: quem dá o que tem não é obrigado a mais, mas pode acabar a pedir.

A dádiva é um “fenómeno social total”, imprescindível à coesão e à reprodução sociais, cujos princípios e regras Marcel Mauss abordou no Ensaio sobre a dádiva (1925). A dádiva e a contradádiva geram um fluxo de comunicação e comunhão que entrelaça, interna e externamente, os grupos e as sociedades (ver Malinowski, Bronislav, Argonautas do Pacífico Ocidental, 1922).

O anúncio Mum’s Birthday, da Cadbury’s permite-me repetir uma ideia que me é cara: a compra pode não ser um ato de egoísmo ou de alienação, pode relevar de uma dádiva de si, de uma entrega pessoal e, eventualmente, de um gesto sacrificial. Com a mercadoria segue uma parte do comprador. O anúncio da Cadbury’s ilustra, primorosamente, em escassos segundos, uma realidade que escapa aos aristocratas do espírito. A criança dá amor com sacrifício pessoal. O vendedor é cúmplice: não impede o sacrifício da criança, apenas devolve, “profissionalmente”, o troco: o unicórnio, jóia prima do tesouro infantil. A mãe também entra, emocionada, no jogo: aquele chocolate sabe a amor. Receber é uma arte.

Marca: Cadbury’s. Título: Mum’s Birthday. Agência: VCCP. Direcção: Frédéric Planchon. Reino Unido, Janeiro 2018.

 

Avatar narcisista

Caravaggio. Narciso. 1594-96.

Caravaggio. Narciso. 1594-96.

“Há demasiados Narcisos no mundo, pessoas enamoradas por si mesmas (…) Cientes do seu mérito, cheios de uma ideia que lhes é cara, passam a vida a admirar-se. Que será preciso para os curar de uma loucura que parece incurável? (…) Falar-lhes com a simplicidade da verdade” (Montesquieu, Eloge de la Sincérité, 1717).

Nos tempos que correm, convém ter avatares. Tenho sete: Soneca, Dengoso, Feliz, Atchim, Mestre, Zangado e Dunga.
Hoje, Dengoso queixou-se:
“Dou palavras, ideias e abraços, dou de tudo, mas não me dou. Nem a mim me sei dar. Sou um bicho do mato, um narciso sem sementes”.
O Dengoso está a passar por uma má fase. Não sei se o leve a um psicanalista ou a um sociólogo. Retirar os espelhos não é solução.

Jacques Dutronc. Et moi, et moi, et moi. Jacques Dutronc. 1966.

Letra : Jacques Dutronc. Et moi, et moi, et moi. 1966

Sept cent millions de chinois
Et moi, et moi, et moi
Avec ma vie, mon petit chez moi
Mon mal de tête, mon poids
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Quatre vingt millions d’indonésiens
Et moi, et moi, et moi
Avec ma voiture et mon chien
Son Canigou quand il aboit
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Trois ou quatre cent millions de noirs
Et moi, et moi, et moi
Qui vais au brunissoir
Au sauna pour perdre du poids
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Trois cent millions de soviétiques
Et moi, et moi, et moi
Avec mes manies et mes tics
Dans mon p’tit lit en plumes d’oie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinquante millions de gens imparfaits
Et moi, et moi, et moi
Qui regardent Catherine Langeais
À la télévision chez moi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Neuf cent millions de crève la faim
Et moi, et moi, et moi
Avec mon régime végétarien
Et tout le whisky que je m’envoi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinq cent millions de sud américains
Et moi, et moi, et moi
Je suis tout nu dans mon bain
Avec une fille qui me nettoie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinquante millions de vietnamiens
Et moi, et moi, et moi
Le dimanche à la chasse au lapin
Avec mon fusil, je suis le roi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinq cent millards de petits martiens
Et moi, et moi, et moi
Comme un con de parisien
J’attends mon chèque de fin de mois
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie

É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).

Smartphone

Só a música pode falar da morte (André Malraux, [1933] (1946), La condition humaine, Paris, Gallimard, p. 334)

O mundo é um espanto. No anúncio Relove, da Telefónica, a técnica salva-nos da própria técnica! Já tinha saudades destas dialécticas! Um casal, que o smartphone desencontra, reencontra-se graças ao smartphone. Live more love!

Existem objectos que são, simultaneamente, pessoais e civilizacionais. Alguns dignos de acompanhar o morto no outro mundo. Por exemplo, o relógio ou a aliança. Acrescento o smartphone. O relógio para não se atrasar na travessia, o anel para amar eternamente, e o smartphone para ouvir, no silêncio escuro, Fernando Pessoa e Maria Bethânia.

Marca: Telefónica. Título: Relove. Agência: África, São Paulo. Direcção: Vellas. Brasil, Junho 2017.

Maria Bethânia. Sonho Impossível. Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo. 1975. Poema de Fernando Pessoa.

Não somos grande coisa

Há momentos em que dou por mim a pensar com o coração.

Ronsard“Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie”
(Pierre de Ronsard, Sonnets pour Hélène, 1578)

“Crois celui qui peut croire
Moi, j’ai besoin d’espoir
Sinon je ne suis rien
Ou bien si peu de chose
C’est mon amie la rose
Qui l’a dit hier matin”
(Cecile Caulier, Jacques Lacome)

Françoise Hardy. Mon amie la rose. Mon amie la rose. 1964. Na televisão em 1965.

Letra:

On est bien peu de chose
Et mon amie la rose
Me l’a dit ce matin
A l’aurore je suis née
Baptisée de rosée
Je me suis épanouie
Heureuse et amoureuse
Aux rayons du soleil
Me suis fermée la nuit
Me suis réveillée vieille

Pourtant j’étais très belle
Oui, j’étais la plus belle
Des fleurs de ton jardin

On est bien peu de chose
Et mon amie la rose
Me l’a dit ce matin
Vois le dieu qui m’a faite
Me fait courber la tête
Et je sens que je tombe
Et je sens que je tombe
Mon cœur est presque nu
J’ai le pied dans la tombe
Déjà je ne suis plus

Tu m’admirais hier
Et je serai poussière
Pour toujours demain

On est bien peu de chose
Et mon amie la rose
Est morte ce matin
La lune cette nuit
A veillé mon amie
Moi en rêve j’ai vu
Eblouissante et nue
Son âme qui dansait
Bien au-delà des nues
Et qui me souriait

Crois celui qui peut croire
Moi, j’ai besoin d’espoir
Sinon je ne suis rien

Ou bien si peu de chose
C’est mon amie la rose
Qui l’a dit hier matin

A tentação surrealista: António Pedro

01. Catálogo da Exposição António Pedro 1909 1966.

01. Catálogo da Exposição António Pedro 1909-1966.

Para variar, já fez sol em Moledo do Minho. Nada como um cigarro! Em frente, do outro lado da rua, a casa de António Pedro. Nascido em 1909, “o gigante esquecido” (Vasco Rosa, Jornal Observador, 17 de Agosto de 2016) é uma figura incontornável da arte portuguesa do século XX. De muitos modos e feitios. Foi pintor, escultor, escritor, poeta, dramaturgo, encenador, jornalista, radialista, galerista… Passou a infância em Moledo do Minho, estudou na Galiza, em Coimbra e em Lisboa. Entre 1934 e 1935, viveu em Paris, tendo frequentado o Instituto de Arte e Tecnologia da Universidade da Sorbonne. Junto com 25 artistas dos movimentos surrealista e Dada, entre os quais Joan Miró, Hans Harp, Sonia Delauney, Marcel Duchamp, Wassily Kandisnky e Francis Picabia, assinou, em 1936, o Manifeste Dimensioniste (carregar para aceder ao pdf). Em 1941, expõe a sua obra no Brasil. Entre 1944 e 1945, foi cronista e crítico de arte na BBC, em Londres.

02. António Pedro, Refoulement, 1936.

02. António Pedro, Refoulement, 1936.

Em 1933, cria a Galeria UP, a primeira a acolher em Portugal uma exposição de Helena Vieira da Silva (1935). Em 1940, participa, com dezasseis pinturas, na realização da primeira exposição surrealista em Portugal, na Casa Repe em Lisboa. Em 1947, integra o Grupo Surrealista de Lisboa.

04. António Pedro. O anjo da guarda. 1939.

04. António Pedro. O anjo da guarda. 1939.

Homem de teatro, foi director do Teatro Apolo, em Lisboa. Foi fundador e director, entre 1953 e 1962, do Teatro Experimental do Porto. Entre vários textos dramáticos, escreveu a Comédie en un acte. Viveu os últimos anos em Moledo do Minho onde faleceu no dia 17 de Agosto de 1966. Para uma apresentação mais detalhada e circunstanciada, sugiro o artigo “António Pedro Pintor”, de José-Augusto França, publicado na revista Portuguese Cultural Studies 5, Spring 2013 , bem como o vídeo António Pedro Presente! I apresentado, também, por José-Augusto França e publicado pela Companhia de Dança de Lisboa (ver vídeo 1).

05. António Pedro. Ilha do Cão. 1940. Ver vídeo 2.

05. António Pedro. Ilha do Cão. 1940. Ver vídeo 2.

Pesquisar imagens da arte portuguesa manifesta-se, muitas vezes, frustrante. Poucas estão acessíveis na Internet e com fraca resolução. Às vezes, só com a ajuda de uma lupa. Não sei se é por causa dos direitos, se é por causa dos tortos. Aposto nos tortos, mais precisamente, na aristocracia dos direitos e na irresponsabilidade dos tortos. No que respeita à obra de António Pedro, fiz o que pude, nem sempre bem. Vale a dezena de vídeos publicados pela Companhia de Dança de Lisboa.

Está fresco em Moledo. Apago o cigarro. António Pedro fumava. As andorinhas continuam a voar em bando à volta da sua casa.

António Pedro: Galeria de Imagens

Vídeo 1. ANTÓNIO PEDRO – 1909 / 1966 – Presente! ( I ). Companhia de Dança de Lisboa.

Vídeo 2. António Pedro – Óleos sobre tela, 1936 / 1946. Companhia de Dança de Lisboa.

Vídeo 3. António Pedro – Óleos sobre Tela – 1944, 1939 e 1936. Companhia de Dança de Lisboa.

Vídeo 4. “Tríptico solto de Moledo” 1943 – António Pedro. Companhia de Dança de Lisboa.

Vídeo 5. ” Paz Inquieta “- 1940 – António Pedro. Companhia de Dança de Lisboa.

Com o mundo nas mãos

Conectados. Estudiantes.O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a.

Anunciante: Movistar. Título: Conectados. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. Perú, 2010.

Gosto deste anúncio da Movistar. Já o tinha colocado há sete anos no Facebook. Hoje, a conversa é diferente. Acrescento três canções associadas à congregação de vontades: With a little help from my friends, do Joe Cocker; Canta amigo canta, do António Macedo e, porque na Itália também se canta, Insiemi, de Toto Cutugno. Todas ilustram a nossa incomensurável capacidade de sonhar em conjunto.

António Macedo. Canta amigo canta. 1974.

Toto Cuttugno. Insiemi. 1990.

Joe Cocker. With a little help from my friends. 1968.

À espera de São Valentim

the-climate-coalition

O anúncio A love song, da The Climate Coalition, é soberbo. Graças à imagem, à música e à palavra. A música é um original dos Elbow e o poema, um original (I’ve Heard Talk) de Anthony Anaxagorou. As primeiras imagens desfilam com o Blade Runner no retrovisor, nomeadamente, a inesquecível sequência final. Um relance à ficha técnica do anúncio suporta o déjà vu. A agência que produziu o anúncio,  uma curta-metragem, é a Ridley Scott Associates Films. Ridley Scott foi o realizador, entre outros, de Alien (1979), 1492 – A Conquista do Paraíso (1992), Gladiador (2000), Prometheus (2012) e, naturalmente, Blade Runner (1982).

Este ano, sugeri aos alunos de Sociologia da Arte um trabalho inovador: escolher, analisar e comparar, seja para aproximar, seja para contrastar, duas obras de géneros distintos, por exemplo pintura e publicidade. Não é difícil, basta estar atento. Neste anúncio temos, pelo menos, duas obras de géneros distintos passíveis de diálogo: a sequência final do filme Blade Runner e a sequência inicial do anúncio A Love Song. Este anúncio, um poema audiovisual, convoca, certamente, outras obras de outros géneros. A intertextualidade é profusa e vadia.

Anunciante: Climate Coalition. Título: A love song. Agência: Ridley Scott Associates Films. Direcção: Stuart Rideout. Reino Unido, Fevereiro 2017.

I’ve Heard Talk – By Anthony Anaxagorou

I’ve heard talk of a quiet violence
waiting at the water’s edge
where children learn the earth by golden shores
and gulls decorate shadows with all their height.

I’ve heard the mountains speak of their agony
a gripping smog hurting their stone –
the sparrow and the wren salvage hope from the wind
casting their song over the ears of morning,

I’ve seen the mountaineer conquer
the obstinacy of rock with the smallest
of hands, breath leaving his mouth
like an eruption of ampersands.

I’ve heard the forest’s thin call
as it’s left to shudder under its heavy load,
I remember a time it would climb
to paint the world with its green

where now will the lovers go to know each other’s palms?
How will kisses announce themselves to lips
if the path we’ve walked for so long
becomes lost to the noise we share?

I’ve seen how the willow holds its perennial lean
while cliffs frail as deceit drop to the sea.
A rainbow bought and sold for its skin
is worn like victory by another skyscraper.

Lakes still embrace shoals of fish
while icebergs melt like snow on lips.
Seasons start to run from each other
while love’s left to shiver on the edge of a leaf.

But there’s still time to rescue the tranquillity
the fragile space between parks, pitches and sea –
the cosmos in all its wonderment and us,
a blink in its starry eye.

I’ve heard of this kind of dying before
slow, white and expansive. I’ve followed
the groan and made my lungs from the trail.

We are building new rain,
We are harbouring less sight
an infant tilts his head skywards
and asks his mother what’s beyond
she takes him by the hand and says

we will shape the brilliant and new
I very much like you have been saved so many times by a view
yesterday the sun whispered into the moon’s ear
and the moon trembled, turning white with fear.

Anthony Anaxagorou

Antes que seja tarde

yemen-foto-unicef

Yemen. Foto Unicef.

Hoje é o dia do Senhor. E não fui à missa. Mas não sou má pessoa. Não sei como reparar? Talvez um artigo integralmente lusófono, com um anúncio da Unicef Brasil, uma canção dos Titãs e um poema de Miguel Torga. Hoje não é o dia do Senhor; hoje é o dia do Menino.

Anunciante: Unicef Brasil. Título: Antes que seja tarde. Agência: Isobar. Brasil, Janeiro 2017.

Titãs. Epitáfio. Álbum: A melhor banda de todos os tempos da última semana. 2001.

AVISO

Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.

Quero voltar a criança,
À meninice dos ninhos.
Quero andar pelos caminhos
Com olhos de confiança,
A quebrar a minha lança
Nos moinhos…

Miguel Torga, Diário VI, 1952.

Pobres dos pobres

depault-franceAproxima-se a feira dos santos em Cerdal, no concelho de Valença. Peregrinavamos desde Melgaço. A minha perdição eram os pericos dos santos, peras pouco maiores do que cerejas. Era um dia farto para ricos e pobres. Há mais de meio século que não como pericos. Os amigos oferecem-me, de vez em quando, livros. Melhor me oferecessem pericos.

Lançado no dia internacional para a erradicação da pobreza (17 de Outubro), o anúncio 100 years of poverty, da Depaul France, ilustra as mudanças na aparência dos pobres desde 1916. O anúncio contrapõe-se à série “100 years of Beauty” / “100 years of fashion”.  Repare-se no modo como contempla o crescimento recente dos novos pobres.

Marca: Depault France. Título: 100 years of poverty. Agência: Publicis Conseil. França, Outubro 2016.

Não resisto a colocar o poema “Os pobrezinhos”, de Guerra Junqueiro.

OS POBREZINHOS

Pobres de pobres são pobrezinhos
Almas sem lares, aves sem ninhos.

Passam em bandos, em alcateias,
Pelas herdades, pelas aldeias.

É em Novembro, rugem porcelas.
Deus nos acuda, nos livre delas!

Vem por desertos, por estivais,
Mantas aos ombros, grandes bornais,

Como farrapos, coisas sombrias,
Trapos levados nas ventanias.

Filhos de Cristo, filhos d’ Adão
Buscam no mundo côdeas de pão!

Há-os ceguinhos, em treva densa,
D’ olhos fechados desde nascença.

Há-os com feridas esburacadas,
Roxas de lírios, já gangrenadas.

Uns de voz rouca, grandes bordões
Quem sabe lá se serão ladrões!

Outros humildes, riso magoado,
Lembram Jesus que ande disfarçado.

Enjeitadinhos, rotos, sem pão,
Tremem maleitas d’ olhos no chão

Campos e vinhas! hortas com flores!
Ai, que ditosos os lavradores!

Olha fumegam tectos e lares
Fumo tão lindo! branco, nos ares!

Batem às portas, erguem-se as mães,
Choram meninos, ladram os cães.

Rezam e cantam, levam a esmola,
Vinho no bucho, pão na sacola.

Fruta da horta, caldo ou toucinho
Dão sempre os pobres a um pobrezinho.

Um que tem chagas, velho, coitado,
Quer ligaduras ou mel rosado.

Outro, promessa feita a Maria,
Deitam-lhe azeite na almotolia.

Pelos alpendres, pelos currais,
Dormem deitados como animais.

Em caravanas, em alcateias,
Vão por herdades, vão por aldeias.

Sabem cantigas, oraçõezinhas,
Contos d’ estrelas, reis e rainhas.

Choram cantando, penam rezando,
Ai, só a morte sabe até quando!

Mas no outro mundo Deus lhes prepara
Leito o mais alvo, ceia a mais rara.

Os pés doridos lhos lavarão
Santos e santas com devoção!

Para lava-los, perfumaria
Em gomil d’ouro a bacia.

E embalsamados, transfigurados,
Túnicas brancas, como em noivados,

Viverão sempre na eterna luz,
Pobres benditos, amém, Jesus!

Guerra Junqueiro