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Mãos que tremem

Georges Moustaki

Acontece tremerem-me as mãos. Não consigo beber um copo de água, nem tão pouco assinar. Entendem os médicos que é um efeito secundário de alguns medicamentos que tomo. Pressinto, não obstante, o que pode significar a doença de Parkinson. Deus nem sempre escreve direito por linhas tortas. Em algumas linhas as letras vibram.

O anúncio Shake Parkinsons Off, do Institut du Cerveau et de la Moelle Épinière, confina-se à tremura de mãos provocada por emoções fortes, concluindo com um desejo: “só as emoções deveriam fazer-nos tremer”. O anúncio não mostra mãos associadas à doença de Parkinson. Alude à doença sem a exibir, tal como Georges Moustaki fala da revolução sem a nomear. Artes da comunicação.

Segue o anúncio Share Parkinsons Off, mais duas canções de Georges Moustaki:  Sans la nommer (1974) e, por inércia, Il est trop tard (1969).

Anunciante: ICM – Institut du Cerveau et de la Moelle Épinière. Título : Shaking Parkinsons Off. Agência : Publicis Conseil (Paris). França, Abril 2018.

Georges Moustaki. Sans la nommer. Les Amis de Georges. 1974. Extrait de l’émission “Bonjour bonsoir la nuit” du 01 août 1981 (INA).

Georges Moustaki. Il est trop tard. Le Métèque. 1969.

A eloquência da velhice

Cabu. Votez Mère Denis. 1981

Cabu. Votez Mère Denis. 1981.

“Pode-se nascer velho bem como morrer jovem” ( Jean Cocteau).

“Estou velho. Mas não me preocupa nem a natureza nem a idade. Dispensava os sintomas…” (AG).

As pessoas de idade aparecem frequentemente nos anúncios publicitários. Representam mundos, experiências e valores. São associadas à tradição, à continuidade, à natureza, ao saber-fazer, à confiança, à autenticidade, ao respeito e ao carinho.

No anúncio à água Rozana, é o próprio presidente da empresa que dá a cara. “É uma água naturalmente gasosa. A natureza é perfeita”.

Marca: Rozana. Título: Pierre Papillaud. França, 2009.

O anúncio Mère Denis é um clássico da história da publicidade. A figura da Mère Denis tornou-se um ícone na França dos anos 70 e 80. Um impacto semelhante ao dos anúncios da Frize, com Pedro Tochas, em Portugal no início do milénio (ver https://tendimag.com/?s=freeze). A máquina de lavar roupa Vedette inscreve-se na continuidade do saber-fazer da Mère Denis.

Marca: Vedette. Título: La Mère Denis. Agência: Synergie Polaris. França, 1980.

Simone de Oliveira confia no Calcitin: a cantora e atriz não só confia no Calcitin, garante a autenticidade e a eficácia do produto.

Marca: Calcitrin. Título: Simone de Oliveira confia no Calcitrín. Realizado pela Marketividade. Portugal, Novembro 2017.

Na canção O Velho e a Flor, de Vinicius de Morais e Toquinho, apenas um “velhinho” soube dizer ao poeta o que era o amor.

Vinicius de Morais & Toquinho. O Velho e a Flor.

Filhos de um deus menor

En premier lieu toute prière est un acte. Elle n’est ni une pure rêverie sur le mythe, ni une pure spéculation sur le dogme, mais elle implique toujours un effort, une dépense d’énergie physique et morale en vue de produire certains effets. Même quand elle est toute mentale, qu’aucune parole n’est prononcée, que tout geste est presque aboli, elle est encore un mouvement, une attitude de l’âme (Mauss, Marcel, 1909, La prière).

Mais, par choses sacrées, il ne faut pas entendre simplement ces êtres personnels que l’on appelle des dieux ou des esprits; un rocher, un arbre, une source, un caillou, une pièce de bois, une maison en un mot une chose quelconque peut être sacrée (Durkheim, Émile, 1912, Les formes élémentaires de la vie religieuse).

O sagrado somos nós ! Todos sabemos o que é uma prece. O anúncio True Love, da True Corporation Public Co., aproxima-se de uma oração. Oremos, que a vida é um altar!

Anunciante : True Corporation Public Co. Título: True Love. Agência: GreynJ United Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Abril 2018.

Amor tranquilo

Land Rover The road

“Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon cœur d’une langueur monotone. Tout suffocant et blême, quand sonne l’heure, je me souviens des jours anciens et je pleure ; et je m’en vais au vent mauvais qui m’emporte deçà, delà, pareil à la feuille morte” (Paul Verlaine ; Poèmes saturniens, Chanson d’automne, 1866).

Gestos serenos em equilíbrio, uma beleza poética sem Adónis, nem Afrodite. Uma cumplicidade subcutânea. Como cabe tamanha delicadeza num anúncio a um carro? A harmonia e a lentidão são quebradas por um fluxo vertiginoso de memórias, numa câmera acelerada. Travessia, vertigem, aventura… Um anúncio dentro do anúncio. O Land Rover faz 75 anos. O casal ronda essa idade. No anúncio The road, o motor e o coração cruzam-se e pulsam a várias velocidades. “Uma vida juntos” num romance sobre rodas.

Marca: Land Rover. Título: The road. Produção: Kite Rock Pictures. Direcção: Fran Mendez. Estados Unidos, Março 2018.

A indiferença

Swedish Public Employment Service. Make Room. Agência Le bureau Stocholm. Direcção Bjorn Stein. Suécia, Março 2018

“A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão” (Anatole France , 1894, Le Lys Rouge).

“A sociedade da prosperidade, aquela que pretende o ser próspero, odeia todos aqueles que não alcançam aquilo que ela institui. O indivíduo desfavorecido é pois julgado e responsabilizado pela coletividade por não ter alcançado melhor lugar no seu seio.
Da mesma maneira em que a sociedade da informação penaliza o indivíduo desinformado; da mesma maneira que a sociedade tecnológica penaliza o indivíduo desprovido de técnica; da mesma maneira que a sociedade politizada penaliza o indivíduo desprovido de polítiquice.
Todos os dias se pode observar como o ricaço escorraça o mendigo com cólera…” (Georg Simmel, através de Pedro Costa).

O diferente é igual? Devemos amar os outros como a nós mesmos ou amar os outros como outros? Pode a igualdade abraçar a diferença sem a apagar? És tão igual quanto prevê a lei? E tão único quanto o teu cartão de cidadão? A expansão da mesmidade aproxima-nos da nulidade, de um deserto em que somos areia. No Make Room, do Swedish Public Employment Service, vale o anúncio, vale a causa e vale a música (de John Lennon). Na canção L’Indifférence, de Gilbert Bécaud, vale o talento e a poesia. Vale a sabedoria: “a indiferença destrói o mundo”.

Anunciante: Swedish Public Employment Service. Título: Make Room. Agência: Le bureau Stocholm. Direcção: Bjorn Stein. Suécia, Março 2018.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence. 1977.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence.

Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c’est
L’indifférence

Elle a rompu et corrompu
Même l’enfance
Un homme marche
Un homme marche, tombe, crève dans la rue
Eh bien personne ne l’a vu
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose
L’indifférence
Chez toi tu n’es qu’un inconnu
L’indifférence
Tes enfants ne te parlent plus
L’indifférence
Tes vieux n’écoutent même plus
Quand tu leur causes

Vous vous aimez et vous avez
Un lit qui danse
Mais elle guette
Elle vous guette et joue au chat à la souris
Mon jour viendra qu’elle se dit
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose

L’indifférence
Tu es cocu et tu t’en fous
L’indifférence
Elle fait ses petits dans la boue
L’indifférence
Y a plus de haine, y a plus d’amour
Y a plus grand-chose

L’indifférence
Avant qu’on en soit tous crevés
D’indifférence
Je voudrai la voir crucifier
L’indifférence
Qu’elle serait belle écartelée
L’indifférence

O sucesso do talento

HP. Faro

“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras” (Heráclito de Éfeso). Heráclito não leu o Principezinho, caso contrário saberia que a água que se afeiçoa a uma ponte não procura outra.

Alguém, porventura uma criança, tem um talento, presumivelmente por geração espontânea, um talento desconhecido. Alguém, habitualmente um professor, um padre, um assistente social ou um psicólogo, um “especialista do humano”, descobre, quase sempre acidentalmente, o talento. Os especialistas do humano costumam ser mediadores: comunicam a descoberta ao poder. O poder consagra e o público venera. Esta narrativa do sucesso é amplamente partilhada. Uma partilha ingénua.

Marca: Hewlett Packard. Título: Paro. Agência: HP Studios. Direcção: Oni Sen. Índia, Março 2018.

Música sobre a emigração

Fotografia rasgada. Metade ficava em Portugal, a outra regressaria mais tarde

Fotografia rasgada. Metade ficava em Portugal, a outra regressaria mais tarde.

Sem eira, nem beira
Sem Pátria onde albergar
Estrangeiro em terra alheia
Estranho no meu lugar
(Letra de uma canção sobre a emigração).

Um grupo de alunos propôs-se fazer um vídeo sobre a emigração. Felicito-os pela ideia e pela vontade. Quatro músicas sobre a emigração são incontornáveis: Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia; Eles (1968), de Manuel Freire; Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira; e O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.

Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia.

Eles (1968), de Manuel Freire.

Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira.

O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.

 

O feitiço da mercadoria

Cadbury's Mum's birthday

“Quem dá aos pobres empresta a deus”; “quem dá o que tem a mais não é obrigado”; “quem dá o que tem acaba a pedir”. Três provérbios, três filosofias de vida: a economia da salvação; a economia da distribuição; e a economia da perdição. Três visões distintas mas compatíveis: quem dá o que tem não é obrigado a mais, mas pode acabar a pedir.

A dádiva é um “fenómeno social total”, imprescindível à coesão e à reprodução sociais, cujos princípios e regras Marcel Mauss abordou no Ensaio sobre a dádiva (1925). A dádiva e a contradádiva geram um fluxo de comunicação e comunhão que entrelaça, interna e externamente, os grupos e as sociedades (ver Malinowski, Bronislav, Argonautas do Pacífico Ocidental, 1922).

O anúncio Mum’s Birthday, da Cadbury’s permite-me repetir uma ideia que me é cara: a compra pode não ser um ato de egoísmo ou de alienação, pode relevar de uma dádiva de si, de uma entrega pessoal e, eventualmente, de um gesto sacrificial. Com a mercadoria segue uma parte do comprador. O anúncio da Cadbury’s ilustra, primorosamente, em escassos segundos, uma realidade que escapa aos aristocratas do espírito. A criança dá amor com sacrifício pessoal. O vendedor é cúmplice: não impede o sacrifício da criança, apenas devolve, “profissionalmente”, o troco: o unicórnio, jóia prima do tesouro infantil. A mãe também entra, emocionada, no jogo: aquele chocolate sabe a amor. Receber é uma arte.

Marca: Cadbury’s. Título: Mum’s Birthday. Agência: VCCP. Direcção: Frédéric Planchon. Reino Unido, Janeiro 2018.

 

Avatar narcisista

Caravaggio. Narciso. 1594-96.

Caravaggio. Narciso. 1594-96.

“Há demasiados Narcisos no mundo, pessoas enamoradas por si mesmas (…) Cientes do seu mérito, cheios de uma ideia que lhes é cara, passam a vida a admirar-se. Que será preciso para os curar de uma loucura que parece incurável? (…) Falar-lhes com a simplicidade da verdade” (Montesquieu, Eloge de la Sincérité, 1717).

Nos tempos que correm, convém ter avatares. Tenho sete: Soneca, Dengoso, Feliz, Atchim, Mestre, Zangado e Dunga.
Hoje, Dengoso queixou-se:
“Dou palavras, ideias e abraços, dou de tudo, mas não me dou. Nem a mim me sei dar. Sou um bicho do mato, um narciso sem sementes”.
O Dengoso está a passar por uma má fase. Não sei se o leve a um psicanalista ou a um sociólogo. Retirar os espelhos não é solução.

Jacques Dutronc. Et moi, et moi, et moi. Jacques Dutronc. 1966.

Letra : Jacques Dutronc. Et moi, et moi, et moi. 1966

Sept cent millions de chinois
Et moi, et moi, et moi
Avec ma vie, mon petit chez moi
Mon mal de tête, mon poids
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Quatre vingt millions d’indonésiens
Et moi, et moi, et moi
Avec ma voiture et mon chien
Son Canigou quand il aboit
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Trois ou quatre cent millions de noirs
Et moi, et moi, et moi
Qui vais au brunissoir
Au sauna pour perdre du poids
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Trois cent millions de soviétiques
Et moi, et moi, et moi
Avec mes manies et mes tics
Dans mon p’tit lit en plumes d’oie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinquante millions de gens imparfaits
Et moi, et moi, et moi
Qui regardent Catherine Langeais
À la télévision chez moi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Neuf cent millions de crève la faim
Et moi, et moi, et moi
Avec mon régime végétarien
Et tout le whisky que je m’envoi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinq cent millions de sud américains
Et moi, et moi, et moi
Je suis tout nu dans mon bain
Avec une fille qui me nettoie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinquante millions de vietnamiens
Et moi, et moi, et moi
Le dimanche à la chasse au lapin
Avec mon fusil, je suis le roi
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
Cinq cent millards de petits martiens
Et moi, et moi, et moi
Comme un con de parisien
J’attends mon chèque de fin de mois
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie
J’y pense et puis j’oublie
C’est la vie, c’est la vie

É sempre dia de ser filho

Adriano Correia de Oliveira

Adriano Correia de Oliveira

Duas crianças, surdas ou não, encontram-se. O que dizem uma à outra? “Quem tem uma mãe tem tudo / Quem não tem mãe não tem nada”.

Seguem o anúncio mexicano Gracias Mama, da Nido, e a canção Minha Mãe, de Adriano Correia de Oliveira.

Marca: Nestlé/Nido. Título: Gracias Mama. Agência: McCann México. Direcção: Mario Muñoz. México, Maio 2017.

Adriano Correia de Oliveira. Minha Mãe. Fados de Coimbra II (EP, 1962).