Archive | mobilidade RSS for this section

A vez e a voz das crianças

Henri Rousseau – Pour fêter le bébé! 1903
Dar a mão a uma criança. Tendências do Imaginário, 26.08.2014
Ninguenização. Tendências do Imaginário, 17.12.2012
Alimentação e diálogo cultural. Tendências do Imaginário, 26.08.2018

Desilusão a conta gotas / Carta de Pierre Bourdieu

Abóboras. Por altura do regresso a Braga em 1982. Fotógrafo: Álvaro Domingues

Há dias, submetive-me a uma plataforma “administrativa”. Foi complicado provar quem era e de onde vinha. Não o fazia há décadas. Não encontrei nem diploma de doutoramento nem certidão de agregação. A maior parte dos papéis dormiam em caixotes por motivo de obras em casa e não me dispus a acordá-os.  Encontrei um certificado do doutoramento e desisti de ser agregado.

Há males que vêm por bem! Tive a fortuna de deparar com uma carta tresmalhada do Pierre Bourdieu, que anexo. Compensou, mas também ensimesmou. Não consegui evitar uma pergunta recorrente:

O que me motivou, em 1982, a regressar a Braga para marinar profissionalmente durante 39 anos numa desilusão a conta gotas?

Calhaus e areia. Aposentado. Fotógrafo: Miguel Bandeira

Convidado em 1981, resisti. Em Paris, tinha emprego, estava a fazer doutoramento e acalentava boas perspetivas.

Em 1982, acabei por seguir as pegadas de centenas de milhares de compatriotas. Mas esta resposta genérica não me satisfaz. Cada um é um caso e existem nadas que fazem grandes diferenças: os tais “efeitos borboleta”. Por exemplo, desamores lá e amizades cá.

Carta de Pierre Bourdieu a Albertino Gonçalves. 27.02.1986

*****

Manuel Freire – Pedro Só. Da banda sonora da longa-metragem de Alfredo Tropa, “Pedro Só, de 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco e música de Manuel Jorge Veloso

Os novos missionários

Os estafetas das entregas ao domicílio parecem ser os missionários do século XXI: convictos, confiáveis e expeditos. Em qualquer lugar, hora e porta.

Tesco Whoosh – Serious Delivery. Agência: BBH London. Direção: Bradley & Pablo. Junho 2026

Telemóvel e acidentes nas passadeiras

Entre 2018 e 2022, cerca de 25 000 peões foram atropelados em Portugal nesse período; dos quais aproximadamente 43 % aconteceram em passadeiras. Nesse mesmo período registaram-se 527 mortes de peões em atropelamentos (…) 3 578 atropelamentos de peões foram registados em 2025, um número 258 superior ao de 2024. Apesar desse aumento de atropelamentos totais, o número de feridos graves e de mortes diminuíram em comparação com 2024 (…) Estudos e reportagens baseados em dados da ANSR indicam que Portugal tem uma das mais altas taxas de atropelamentos de peões na Europa Ocidental, muitas vezes em passadeiras. (ChatGPT, 01.04.2026).

Dirección General de Tráfico – Pedestrians. Agência: Ogilvy Spain. Espanha, março 2026

Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo

Obras na zona industrial de Alvaredo em Melgaço. 2023. Fotografia de João Gigante
Obras na zona industrial de Alvaredo em Melgaço. 2023. Fotografia de João Gigante

Nos últimos anos, escrevi dois textos que acabaram por não ser publicados.

O primeiro, “Prado Subjetivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, de 2019, ficou congelado no prelo. Coloquei-o no dia 7 de dezembro de 2025 como peça de arquivo no Tendências do Imaginário (ver Eu, a IA e o Ninho).

O segundo, “Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo”, de 2023, entendi enterrá-lo numa gaveta digital até eventual resgate futuro. Passo a arquivá-lo, também, neste blogue. Entretanto, no artigo “Quando a esmola é grande. A industrialização do interior”, no jornal Diário do Minho de 20.02.2024, retomei a reflexão, mas com outra abrangência. Seguem ambos os textos em pdf, sem mais comentários, “para memória futura”.

Texto 1: Uma tábula rasa: a zona industrial de Alvaredo

*****

Texto 2: Quando a esmola é grande. A industrialização do interior

Jogar às cartas com o Diabo 5. Deus anda a fumar haxixe

Hieronymus Hess. Dança Macabra, c. 1845. Cópia da Dança da Morte, datada da primeira metade do séc. XV (c. 1435-1441), numa igreja de Basileia

A capacidade de resistência é espantosa, mas não evita traumas, nem desarma golpes.

Espécie de diário, o Tendências do Imaginário raramente passa uma semana sem novos artigos. Entre o 15 de Julho e o 17 de Agosto de 2021, passei quatro semanas de internamento hospitalar, com um intervalo em casa entre o 3 e o 9 de agosto.  Representa bastante tempo!

O artigo Sofrimento (09.08.2021) lembra a única recordação dos cuidados intensivos: “visões do outro mundo”, pasmadas e recorrentes, “colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício”.

Dois episódios ocorridos durante os catorze dias de cuidados continuados ficaram-me especialmente gravados na memória.

Com oito internamentos, possuo um currículo hospitalar apreciável. Algumas situações beliscaram a dignidade. Um tratamento noturno, descrito no artigo Anjo da Guarda (17.08.2021), afetou-me em particular. A motivação foi, certamente, para me proteger, sobretudo de mim mesmo, mas talvez concretizada com excesso de zelo. As circunstâncias proporcionavam-se. Em plena pandemia de COVID 19, o pessoal estava esgotado. Para complicar, fui o primeiro caso com semelhante diagnóstico no Hospital: desconhecimento gera insegurança; e insegurança, agressividade. De qualquer modo, foi traumático. O anjo que estava de guarda naquela noite bem podia inspirar um quadro da Paula Rego, com moldura de enxofre. Senti-me embarcado numa Arca de Noé.

Simon de Myle. A Arca de Noé no Monte Ararat, c, 1570

Apesar de efémeras, as relações entre doentes, visitantes, médicos, enfermeiros e auxiliares, nas enfermarias e nos quartos dos hospitais, mereciam um estudo.

Partilhei espaços e momentos com vários tipos de companheiros. Alguns diálogos resultam dignos de registo. Por exemplo, quando disse ao parceiro de quarto que “Deus andava a fumar haxixe”. Duvidava, realmente, da sageza e da clarividência divinas (artigo Raiva, 18.08.2021).

Os três próximos artigos culminam a série Jogar às cartas com o Diabo, uma revisitação ao Tendências do Imaginário entre o 3 e o 18 de agosto de 2021. Uma oportunidade para dançar com esqueletos, mas também para “arrumar sombras”. Um jeito de se limpar mergulhando no lodo.

Anónimo. As idades do homem ou a escala da vida, uma representação das diferentes etapas da vida de um casal burguês, do nascimento à morte, Final do séc. XIX

O verão de 2021 foi uma fase de inversão. Antes, sempre a piorar, depois, sempre a melhorar. Da cama para a cadeira de rodas, o andarilho, o tripé e a bengala, que quase dispenso. Endireitei e “cresci”! Como se, após ter descido intempestivamente a escada do lado direito da gravura das idades da vida, a voltasse a subir com paulatinamente. Sobram, contudo, danos irreparáveis em determinados órgãos e funções, por exemplo, ao nível dos rins. Mudaram, inclusivamente, a atitude e a personalidade, mas essa é outra história, difícil de abordar resumidamente.

Sofrimento (09.08.2021)

Colunas translúcidas esvoaçam cravadas no solo. Lembram Stonehenge. Sanguíneas, escuras, esguias, vazias e vorazes, deslizam como sombras chinesas num ritual de sacrifício. No vórtice, um corpo aberto.

Francis Bacon. Head VI. 1949.

Assombra-me a capacidade de sofrimento do ser humano. Perturba. parece não ter limites. Tão pouco o sadismo.

Alexander Borodin (1833-1187). String Quartet № 2—III. Notturno.

Anjo da guarda (17.08.2021)

Paula Rego. Anjo da Guarda. 1998.

O Tendências do Imaginário está doente. Está em estado de inércia, com as visualizações pasmadas: nem sobem nem descem.

Escuro. De olhos no céu. Atado de pés e mãos. Dor. Exposto. Um vulto aproxima-se: – O senhor é um manipulador! Um grande manipulador! Há muitos que estão no seu estado e que não são manipuladores, mas o senhor é um grande manipulador. Não devia ter rasgado a fralda. Não, não devia ter rasgado a fralda! – Foi a minha mulher ao puxá-la. – O senhor é um mentiroso, um grande mentiroso… Afasta-se. Consegui libertar três membros. Entretanto, não sei após quanto tempo, regressa. Aperta-me os pulsos, retira o telemóvel, muda a cama encharcada e as fraldas desconsoladas. Não há anjos em terra, não há anjos no céu, protegem-nos no purgatório (Diálogo inspirado nos Cadernos do Subterrâneo, de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, de 1864).

Eu não o vejo, eu não o oiço
Mas sinto sempre a sua companhia
Eu tenho um guarda que é um anjo
Que me protege de noite e de dia
(António Variações. Anjinho da Guarda. Anjo da Guarda. 1983.

Valentin de Boulogne. O Martírio de São Bartolomeu. ca. 1613–15.

Nos meses de Julho e Agosto, estive 21 dias internado no Hospital. Uma semana em cuidados intensivos. Regressado a casa, começo a reganhar, milagrosamente, as faculdades perdidas. Mas ao quinto dia, uma dor insinua-se nas costas e espalha-se, no dia seguinte, pelo abdómen. Vómitos. Mais uma corrida, no INEM, para as urgências do Hospital. Nova cirurgia: extração da vesícula biliar. Estou, desde ontem, em convalescença doméstica. Confuso. Que convalescença? Do Lítio? Da vesícula? Sinto-me um esfrangalho, aninhado como uma múmia, a tentar preservar o melhor que tenho: o sentido de humor e o sentido de beleza. Com quatro furos na barriga e os braços apontados ao Indiana Jones.

A escultura convida o gesto e a pintura assoberba o olhar, mas a música envolve-nos. A primeira música é para o período antes de tomar o ben-u-ron. A segunda, para depois.

Antes do ben-u-ron:

Vangelis. 12 O’clock. Heaven and Hell. 1975

Após o ben-uron_

Joshua Bell. Sergei Rachmaninov. Vocalise, Op 34 No 14

Raiva (18.08.2021)

“Todos os meus tormentos cingem-se a uma passagem – Do medo à esperança, da esperança à raiva” (Jean Racine, Bérénice, 1670).

Tive a sorte de ter excelentes companheiros nos quartos do Hospital. O último lamentava-se e chorava com frequência. Ao aparar a relva, uma pedra vazou-lhe um olho: – Meu Deus, MeuDeus, o que me foi acontecer. Que vai ser dos meus dois filhinhos? Valha-me Deus! Interrompi-o, com aquele jeito blasfemo: – Deus anda a fumar haxixe! (charutos, diria Serge Gainsbourg). Saiu assim: nu, bruto e abrupto. E as lágrimas cederam ao riso.

Cintila uma raiva daninha no meu olhar embaciado. Brota das entranhas. Manifesta-se de duvidosa utilidade.

Armaggedon. Buzzard. Armaggedon. 1975
Serge Gainsbourg. Dieu est un fumeur de havane. Com Catherine Deneuve. 1980

A Nova Arca de Noé

A nova Arca, com asas, ou o novo Noé, do Extremo Oriente?

Preguiças, flamingos, alpacas, pinguins e outras criaturas adoráveis ​​são as estrelas da mais recente campanha da Cathay Cargo, que realça a atenção e a zelo meticulosos que cada animal desfruta ao viajar com os serviços de Animais Vivos da Cathay Cargo. Concebida com a ajuda da agência criativa Leo Hong Kong, a campanha reinventa uma “arca” moderna – só que com asas, sem velas – para mostrar a espetacular diversidade de animais que podem viajar com a companhia aérea, bem como o cuidado personalizado que recebem em cada voo. (https://www.bestadsontv.com/ad/179410/Cathay-Live-Animal-We-Carry-Them-All-Big-And-Small).

Anunciante: Cathaty Cargo. Título: Cathay Live Animal: We Carry Them All, Big And Small. Agência: Leo Hong Kong. Direção: Brent Bonacorso. Hong Kong, junho 2025

Memorial

Existem momentos em que é muito importante recordar; nos outros, também! Agradeço à Almerinda Van Der Giezen a partilha deste dois links respeitantes ao espiritual “Wade in the Water”.

Imagem: Peter Lely. Elizabeth Murray (1626–1698)with a Black Servant. C. 1651

“Wade in the Water” é um dos espirituais afro-americanos mais conhecidos e carregados de significado histórico, cultural e religioso. A canção remonta ao século XIX e está profundamente ligada à experiência dos escravizados nos Estados Unidos e ao movimento de libertação por meio da Underground Railroad (Rede de Fuga). (…)
Interpretação religiosa:
• Faz alusão ao episódio bíblico de João 5:4, onde um anjo “agitava as águas” e quem entrasse primeiro seria curado. A ideia é que Deus está presente e ativo, oferecendo livramento e cura.
• O uso da palavra “trouble” (perturbar/agitar) sugere que algo milagroso está prestes a acontecer.
Interpretação codificada:
• Acredita-se que essa música também tinha função prática na fuga de escravizados. “Wade in the water” era um conselho literal: entrar na água para mascarar o rastro e confundir os cães farejadores dos caçadores de escravos.
• Harriet Tubman, uma das principais líderes da Underground Railroad, teria usado canções como essa para comunicar rotas e perigos de forma velada. (…)
Legado
“Wade in the Water” é mais que uma canção: é um símbolo de resistência, fé e inteligência coletiva dos povos escravizados. Faz parte de um legado musical e cultural que influenciou o gospel, o blues, o jazz e o soul, sendo até hoje cantada em contextos religiosos, educacionais e artísticos. (ChatGPT, 29/05/2025)

Wade in the Water (Spiritual) – A Cappella Academy Choir. A Capella Academy. Arranged and directed by Rob Dietz. Soloist: Shakale Davis. Video: Ryan Parma. Posted: 21/09/2016
Harris, K. & Harris, R. (1997). Wade in the Water. On Steal Away: Songs of the Underground Railroad [c.d.]. Morristown, NJ: Brooky Bear Music. (1984)

Futurando

Projeto Kawasaki Corleo

Nem mota nem automóvel: a nova invenção da Kawasaki assume-se como um cavalo-robô capaz de levar os aventureiros aos pontos mais inacessíveis do planeta. / O Corleo Concept, que mais parece saído dum filme de ficção científica, foi concebido para realçar as qualidades fun to ride definidas pela insígnia nipónica para as suas motocicletas. / Os movimentos do piloto estão sob contínua monitorização numa união perfeita entre homem e máquina; basta-lhe controlar as transferências de peso para manter a melhor postura em andamento. / A alimentar o “bicho” está um motor de 150 cm3 a hidrogénio, com a electricidade gerada a alimentar as unidades de propulsão montadas em cada uma das quatro pernas. / Soma-se um painel de instrumentos com o nível de combustível, a posição do centro de gravidade e a rota de percurso preferencial; e à noite o sistema projecta marcadores no trilho para indicar o caminho a seguir. / Apresentada na Expo 2025 que está a realizar-se na cidade japonesa de Osaca, não será para já que a Corleo Concept subirá à linha de montagem para a produção em série. (Aquela Máquina. Drive-in. Kawasaki Corleo Concept leva-o a cavalo onde mais ninguém consegue. 15-04-2025).

De lamentar que o lançamento esteja previsto, como muitas outras metas, para 2050. Seria um consolo e uma expiação fazer a última viagem sobre quatro pernas robóticas. Quem sabe! O tempo anda acelerado. Ainda é capaz de se ultrapassar.

Produto: Kawasaki CORLEO. Japão, abril 2025
Kawasaki CORLEO Concept: E se esta fosse a grande moto de trilha de 2050?

Os pés

René Magritte. Le Modèle Rouge. 1935

Et puis je jouais avec mes pieds
C’est très intelligent les pieds
Ils vous emmènent très loin
Quand vous voulez aller très loin
Et puis quand vous ne voulez pas sortir
Ils restent là ils vous tiennent compagnie
Et quand il y a de la musique ils dansent
On ne peut pas danser sans eux
Il faut être bête comme l’homme l’est souvent
Pour dire des choses aussi bêtes
Que bête comme ses pied gai comme un pinson
Le pinson n’est pas gai
Il est seulement gai quand il est gai
Et triste quand il est triste ou ni gai ni triste
(Excerto do poema Dans ma maison de Jacques Prévert. Paroles. 1946)

Marca: Bruxelles Mobilité. Título: Les pieds. Bélgica, 2021