Surrealismo grotesco


Ontem, selecionei quatro “artigos do dia” (27 de junho). Recoloquei apenas dois: “A roseira dos cravos”, de 2014, e “Pintar o campesinato: o Luttrel Psalter”, de 2016, ambos com imagens medievais. Divertido numa sunset party com os alunos de Cidadania, da Academia Sénior do Município de Braga, adiei “Matar o vício”, de 2018, e “A ceia dos pobres (eventualmente chocante)”, de 2013, para o dia seguinte. Ainda considerei colocá-los fora de horas, enquanto Portugal empatava com a Colômbia, mas sabia que arriscava provocar pesadelos…
“Matar o vício” e “A ceia dos pobres” relevam de uma espécie de surrealismo grotesco, mais próximo da conceção de Wolfgang Kayser (Das Groteske. Seine Gestaltung in Malerei und Dichtung, 1957) do que da de Mikhail Bakhtin (A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 1941).

Na versão de Wolfgang Kayser, o grotesco gera um sentimento corrosivo de estranheza, em que o mundo familiar se revela, insolitamente, ameaçador e inquietante. Sério e visceral, provoca confusão, desorientação, mal-estar e angústia. Os quadros da chamada fase negra de Francisco de Goya representam um bom exemplo.

Em Mikail Bakhtin o grotesco é, pelo contrário, carnavalesco, animado por um movimento de rebaixamento coletivo, cómico e regenerador. Embora fantástico, desconcertante e excessivo, tende a resultar afirmativo e esperançoso.
Os vários livros de François Rabelais com os gigantes Gargantua e Pantagruel como protagonistas oferecem-se, agora, como um exemplo eloquente.
Em “Matar o vício”, o ambiente dos anúncios da revista Men’s Health é fantasmático, claustrofóbico e sinistro, com a figura do duplo, o outro eu, a insinuar-se como um intruso ambíguo, perturbador e ameaçador, senão fatal.
Com “A ceia dos pobres”, transitamos da publicidade para o cinema. O filme Viridiana (1960), de Luis Buñuel, encena uma paródia da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, que frisa a blasfémia.
O filme Um Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali, destaca-se como um marco incontornável da história do cinema. Não se pode afirma que propicie boa disposição. Deveras criativo, desconcerta e impressiona, cravando-se, indelével, na memória. Um cúmulo emblemático do surrealismo grotesco ao jeito de Kayser. Não aconselhável a pessoas sensíveis.
Surrealismo grotesco, eis uma noção que pode manifestar-se interessante!
A Paixão da Roseira que dá Cravos Vermelhos

Para entender a roseira que parece dar cravos na pintura O Jardim do Paraíso, do Mestre do Alto Reno, não basta ver com o coração, como é proposto no artigo “A roseira dos cravos” (27.06.2014). Importa recorrer também à razão: as flores e os frutos vermelhos, neste caso rosas ou cravos, bem como o pintassilgo (próximo na imagem), costumam funcionar como imagens-signo que aludem à Paixão.
Imagem: Mestre do Alto Reno – O Jardim do Paraíso, 1410-20. Städel Museum. Detalhe
Chuva de notas, pingos de música

Ontem, tivemos direito a breves interlúdios de chuva. Recordaram-me Schubert, um dos compositores que mais se inspira na água. Uma amiga de uma amiga costuma dizer que Schubert lhe lembra a chuva. Já coloquei algumas obras de Schubert: Ave Maria, Impromptu In G-Flat Major, D899, Op. 90 No. 3; e Serenata D. 954. Venham mais quatro! A chuva acabou por trazer, finalmente, um artigo de raiz, apesar de parco em palavras.
Imagem: Gustave Caillebotte – L’Yerres, pluie, 1875.
Lavar na lama

“Onde há sujidade, há sistema” (Mary Douglas. 1966. Purity and Danger, Frederick A. Praeger, New York, p. 36)
Retomo o artigo desconcertante “Lama, excrementos e porcos” , de 26 de junho de 2016, revisto.
Imagem: Mary Douglas
A nostalgia dá um passeio de bicicleta

Desde 2012, escrevi, no dia 25 de junho, vários artigos que estimo dignos de releitura. Relevo, especialmente, “A Nostalgia do Invisível”, de 2018, que se disingue, sobretudo, graças à inclusão do trabalho prático “A nostalgia do invisível – Memória e imaginário”, da autoria de Vanessa Caroline de Almeida e Alcântara, aluna do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.
Imagem: Corinna Luyken. O Livro dos Erros. Ed. original, 2017. Detalhe
Não sei se a aluna é uma extensão do professor ou o professor, da aluna. Salomonicamente, diria que ambos são, como resulta agora dizer-se, agência, logo extensões recíprocas.
O conceito de “extensão do homem” costuma ser atribuído a Marshall McLuhan, mas, na linguagem de Louis Althusser, não ele foi quem o “descobriu”, “inventou-o”; propôs a respetiva construção teórica. A realidade já era observada, pelo menos, desde Aristóteles: a roda em relação aos pés; a roupa, à pele… Em 1858, Maurice Leblanc, já escrevia, no livro Voici des Ailes (66 anos antes do understanding Media: The Extensions of Man, publicado em 1964), o seguinte a propósito da bicicleta:
Um aperfeiçoamento do próprio corpo, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido (citado por Manuel Ferreira da Costa no livro A Póvoa de Varzim na Belle Époque: panorama da vida cultural e do turismo balnear, no prelo, pág. 231, que tenho a honra de prefaciar).
O 25 de junho parece ser um dia particularmente inspirador. Embora “A nostalgia do Invisível” seja o artigo que mais me sensibilizou, não resisto a acrescentar, como lembretes, mais três: “Miragem com falo à vista”, de 2012; “Epidemia de dança”, de 2013; e “Sombras”, de 2014.
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Inspirações e coincidências

Escrever artigos no blogue é um vício prazeroso, mas revê-los não deixa de ser uma alternativa, no pior dos casos, um placebo. Recuemos, pois, uma dúzia de anos [ainda estava no fruto da idade]. O triunfo das salsichas contempla quatro anúncios: um par (“Sausage” e “La Saucisse”) parece inspirado no outro (“Baleia” e “Rave Party”). Será mera coincidência?
René Magritte – La reproduction interdite, 1937
Despir ou agasalhar, eis a questão

Despir ou agasalhar? Coloco a questão a propósito da produção atual nas ciências sociais e humanas. Pouca criação e muita tradução; muita parra e pouca uva. Torna-se necessário remover tanta ganga para vislumbrar uma eventual pepitazinha. Talvez despir acessórios de moda e agasalhar com roupa interior. Menos ornamentação e mais substância…
No dia 24 de junho, de 2017 e 2020, publiquei os artigos Despir e Agasalho. Tenho o prazer de os recordar, restaurados.
Noite de S. João e São João do Churrasco


É necessário que ele cresça e que eu diminua. (O testemunho de João Batista acerca de Jesus – João 3:30)
Desgastam-se pilares seculares e projectam-se castelos de areia, versão digital! Pelos vistos, a tradição mora, agora, no futuro, de braço dado com o vazio identitário. Até dói o pensamento. (Albertino Gonçalves, 2016)
Seguem os artigos “Noite de S. João” e “São João do Churrasco” publicados no dia 23 de junho de 2016 e 2019.


