Primeiro os amigos

Jacques Brel, Léo Ferré e Georges Brassens

Existem mundos onde predominam as encostas. Os seus membros encostam-se uns aos outros formando montículos dispostos em redes de dependência pessoal. Quem não se encosta nem é encosto candidata-se ao papel de mosquito numa teia de aranha. A autonomia definha como uma quimera, um gesto raro e caro. Seguem quatro canções francesas sobre a parceria (os comparsas) e a diferença (os marginais).

George Brassens. Les copains d’abord. Les copains d’abord. 1964.
Georges Brassens. La mauvaise réputation. La mauvaise réputation. 1954.
Georges Moustaki. Le métèque. Le métèque. 1969.
Isabelle Mayereau. Difference. Isabelle Mayereau. 1978.

Pobreza: A importância das palavras

Junto o artigo “Pobreza: A importância das palavras”, publicado no jornal Diário do Minho (terça-feira, 20 de setembro de 2022, pág. 8) de que sou autor. Para escutar enquanto lê, a canção Ces gens-là, de Jacques Brel.

Jacques Brel. Ces gens-là. Ces gens-là. 1966.

Virar páginas. Bob Seger

Tantas páginas viramos contra o vento e não lhe tomamos o jeito. Amarrotamo-las e o livro nunca permanece o mesmo. Com esta seca, ou sede, de comunicação, as palavras não brotam, evaporam-se. Torna-se conveniente pedi-las emprestadas.

Bob Seger & The Silver Bullet Band. Turn The Page. Back in ’72. 1973. Bob Seger & The Silver Bullet Band, live At Cobo Hall, Detroit, 1975.
Bob Seger. Against the wind. Against the Wind. 1980. Bob Seger & The Silver Bullet Band. Live remasterized 1980.
Bob Seger. Still the same. Stranger in Town. 1978. Bob Seger & The Silver Bullet Band. Live From San Diego, ca. 1978.

Sementeira

Acabou de sair um artigo meu num jornal. Uma página inteira. De reflexão, original, algo crítico e bastante pessoal. Não é mencionado o autor. Tenho um Best of dos Barclay James Harvest de 1991. Proporciona-se. Comecemos com o Hymn, prossigamos com o Poor Man’s Moody Blues, para concluir com a canção mais antiga: Mockingbird. Já publicámos o Child of the Universe (https://tendimag.com/2021/03/22/a-crianca-e-o-mundo/).

Barclay James Harvest. Hymn. Gone to Earth. 1977. Filmed in East Berlin 1987
Barclay James Harvest. Poor Man’s Moody Blues. Gone to Earth. 1977. Music video 1978.
Barclay James Harvest. Mockingbird. Once Again. 1971.Town & Country Club, 1992

Anúncios de bolso

Com poucas imagens se ilustra muito. Publicidade vintage.

Anunciante: Bancos de alimento. Título: Palomas. Agência: McCann Erickson. Direção: Mario Garcia. Espanha 1999.

Para aceder ao segundo anúncio, carregar na imagem seguinte.

Anunciante: Journée Mondiale du Refus de la Misère. Título: Donnons la parlole aus pauvres. Agência: TBWA. França, 1998.

Estigma capilar

Fotografia de Robert Capa. Chartres, 18 de agosto de 1944. Logo após a libertação da cidade, raparam o cabelo a uma mulher francesa que teve um filho com um soldado alemão como sinal de humilhação

Proveniente da Alemanha, país que tendemos a associar alguma contenção e ponderação, o anúncio “Hans”, da empresa de cabeleireiros Headhunter, excede-se. Propõe uma paródia ousada, senão atrevida, de uma realidade sensível: as campanhas de consciencialização para a inclusão de crianças com deficiência. Num aspeto o anúncio não deixa de estar certo: os cabelos podem funcionar como estigma, contagiando e desvalorizando a pessoa no seu todo. Recorde-se que, no final da Segunda Grande Guerra, nos dias imediatos à libertação da França, a população rapou o cabelo aos “colaboracionistas” com o regime nazi, expondo-os em cortejos degradantes (ver Violência e Humilhação: https://tendimag.com/2016/01/14/violencia-e-humilhacao/).

Marca: Headhunter. Título: Hans. Agência: Philipp & keuntje. Direção: Laszlo Kadar. Alemanha, 2000.

A Leiteira, DALL-E e Vermeer

Johannes Vermeer. A Leiteira. C. 1660

Dall-E é uma nova aplicação capaz de alterar ou expandir autonomamente quadros. A Nestlé ilustra-a aplicando-a no anúncio Outpainting, com um belo efeito, à célebre pintura de Johannes Vermeer: A Leiteira (c. 1660). Maravilhas das sempre novas tecnologias!

Marca: Nestlé / La Laitière. Título: Outpainting. Agência: Ogilvy Paris. França, setembro 2022.

“Quem disse que os robôs não têm imaginação? DALL-E [bem batizado: WALL-E + Dali] representa a inteligência artificial que adquirirá certamente importância no futuro. Já tinha deslumbrado os internautas quando foi lançado ao produzir imagens de incrível precisão e beleza artística. Mas o tempo passa e as ideias avançam! DALL-E decidiu expandir seu campo de atuação, para deleite dos curiosos e das vanguardas!

Até agora, o princípio era o seguinte. Esta inteligência artificial baseia-se no estudo de milhares de obras já existentes para poder criar novas imagens a partir de instruções textuais. Os resultados, muito estéticos e coerentes, já ofereciam uma renderização digna dos melhores pintores.

Desta vez, DALL-E regressa com um recurso completamente novo que talvez abale a criação digital contemporânea. Intitulada “Outpainting”, esta funcionalidade permite adicionar elementos dentro de uma imagem. É a inteligência artificial que imaginará por si mesma os elementos a adicionar. Este poder criativo dota-a de uma grande liberdade que pode conduzir a resultados inusitados e poéticos! O ambiente inicial da obra é assim transformado ou embelezado com um novo visual. E ainda não é tudo! Pensa que as performances incríveis desta inteligência artificial se limitam a pinturas de grandes pintores? Pois não. Este recurso também deve funcionar para fotografias. Este software pode ser uma ajuda substancial de edição.” (Arts in the City, DALL-E: a inteligência artificial que pinta imagens misteriosas: https://www.arts-in-the-city.com/2022/09/08/dall-e-lintelligence-artificielle-qui-peint-des-tableaux-mysterieux/. Consultado em 17.09.2022).

Reenvio

Fw: Re: “Sem você (…) minha alegria é triste”

Maria Bethânia – As Canções Que Você Fez Para Mim. As Canções que Você Fez pra Mim. 1993. Ao Vivo, Noite Luzidia. Canecão. 2001

O jardineiro de cabelos

“O homem nasce sem dentes, sem cabelos e sem ilusões; e morre também sem dentes, sem cabelos e sem ilusões” (Alexandre Dumas).”Os cabelos brancos são os arquivos do passado” (Edgar Allan Poe); “são as flores da morte” (provérbio dinamarquês). Acrescente-se: a seara da sabedoria.
Costuma dizer-se que o homem a ser fiel a alguém, então é ao barbeiro. Volvidos três anos, consegui regressar ao meu jardineiro de cabelos preferido. E sinto-me outro. Nem arquivo, nem sabedoria; nem restaurado, nem novo. Apenas com a minha calvície a parecer a clareira de uma floresta bem cuidada.

Marca: Old Spice / Old Spice Beard Oil. Título: Nice and Tidey / Crab Beard Wash. 2018.
Nina Simone and Emil Latimer – Black Is The Color Of My True Love’s Hair. C. 1969

Melancolia e inconformismo

Léo Ferré

Existem cantores que são mais do que intérpretes. São artistas, compositores, poetas e, em particular, personalidades marcantes que dão voz e alma a uma maneira de estar no mundo. Alguns acrescentam, ainda, a cereja da rebeldia e da controvérsia: Bob Dylan, Jim Morrison, Jacques Brel, Georges Brassens, Victor Jara, Zeca Afonso… O “anarquista” Léo Ferré é um caso único. É estereofónico: num canal, solidão, melancolia, memória e desencanto; simultaneamente, no outro, inconformismo, garra, potência e renovação. Sintonizados. Um bálsamo. Uma dose certa para os momentos certos.

Engana-se quem pense que posts como este são meros monólogos digitais, pingos artificiais num ecrã para um público imaterial. Circunstanciais e dialógicos, substantivos e performativos, reação e interlocução, interpelam “outros significativos”. “apostrofados”, em condição de os decifrar e, porventura, sentir. São parte e partilha de vida. Um combustível do blogue.

O Tendências do Imaginário já contempla as canções Avec le Temps, Solitude e C’est Extra, de Léo Ferré. Acrescento La Mélancolie, La Mémoire et la Mer e Requiem.

Léo Ferré. La Mélancolie. La Mélancolie. 1964.
Léo Ferré. La mémoire et la mer. Amour Anarchie. 1970.
Léo Ferré. Requiem. Je te donne”. 1976. Ao vivo: Théâtre des Champs-Élysées. 1984.