Um par de cabeças

Postal humorístico antigo. Kirou Ado. L’âge d’or de la carte postale, Paris, Éditions André Balland. 1966.

Venez danser
Copain copain copain copain copain copain
Venez danser
Ça danse les yeux dans les seins

Jacques Brel

Segundo Bergson, o riso está associado à observação desprendida de situações e comportamentos desajeitados (Charlot), inexpressivos (Buster Keaton), desviados (Don Quixote), desastrados (Mr. Hulot) ou desregrados (Mr. Bean). Mas quando o humor é criativo, quem fica sem jeito, desconcertado, é o próprio observador, que se sente deslocado para jogos que ultrapassam a razão desprendida. Tem cócegas no cérebro.

Jacques Brel. Les paumés du petit matin. Les bourgeois. 1962.

Com a verdade me enganas

As imagens-choque dos maços de tabaco – que passaram a ser obrigatórias faz hoje três anos – não surtem efeito junto da maioria dos consumidores e a própria Direção-Geral de Saúde admite não ter estudos que confirmem o impacto desta medida. Há quem escolha os maços em função das fotografias menos chocantes, mas, apesar de ligeiras flutuações, as vendas não apontam para uma forte quebra. Este ano, há sinais que indicam mesmo uma subida. Até abril, os dados da Autoridade Tributária mostram que a indústria colocou no mercado 3,1 mil milhões de cigarros contra 2,3 mil milhões em 2018 (aumento de 31%) e 2,8 mil milhões registados em 2016, quando a medida entrou em vigor (Ana Rita Seixa e Dina Margato, “Três anos de imagens-choque não demovem consumidores de tabaco”, Jornal de Notícias, 20.05.2019).

Para o ano, se Deus quiser! Em Portugal e noutros países. No entanto, a razão e o bem estão do lado dos pregadores. O medo é uma forma de recurso pedagógico. Parece funcionar com os animais. Por que não com os fumadores? Vale, porventura, a pena enganar as pessoas com a verdade.

Duas imagens da campanha anti tabaco são acompanhadas pela seguinte mensagem: “Fumar provoca 9 em cada 10 cancros do pulmão”. Os números variam de país para país e de região para região. A Roche adianta que “a nível mundial, uma em cada quatro pessoas vítimas de um cancro do pulmão nunca fumou (fonte:  SUN S et al. Lung cancers in never smokers. A different disease. Nature Review Cancer 2007;7 :778-790). Dr. Sergio Salmeron & Pr. Jean Trédaniel apresentam um gráfico que tem o interesse de distinguir os ex-fumadores: em França, em 2010, 49,2% das mortes por cancro do pulmão foram de fumadores, 39.9% de ex-fumadores e 10.9% de não fumadores (http://www.sfrnet.org/rc/org/sfrnet/htm/Article/2013/20130715-130826-576/src/htm_fullText/fr/donn%C3%A9es%20%C3%A9pid%C3%A9miologiques%20r%C3%A9centes.pdf).

Enfim, qual é a probabilidade de morrer com um cancro do pulmão? Em Portugal, em 2010, a taxa de incidência bruta é 35.8 por 100 000, e a taxa padronizada 26.5 por 100 000 (Portugal Doenças Oncológicas em Números – 2015, Direcção-Geral da Saúde, Lisboa, 2016). Perdi horas à procura de taxas de incidência da morte por cancro do pulmão nos fumadores e nos não fumadores. Arrisco uma estimativa: cerca de 64 por 100 000 no que respeita aos fumadores e 6,2 por 100 000 para os não fumadores: 64 por 100 000 correspnde 0.064% (Hammond et al. Ann NY Acad Sci 1979; 330: 473-90; http://www.sfrnet.org/rc/org/sfrnet/htm/Article/2013/20130715-130826-576/src/htm_fullText/fr/donn%C3%A9es%20%C3%A9pid%C3%A9miologiques%20r%C3%A9centes.pdf). O assunto não justifica mais perda de tempo. Que a taxa de mortalidade do cancro do pulmão nos fumadores ronde os 64 por 100 000 assusta-me menos e informa-me mais do que “fumar provoca 9 em cada 10 cancros do pulmão”. Acho que vou adiar, por um tempo, a compra da sepultura. Tudo isto é mórbido e necrófilo. Tudo isto existe, tudo isto é triste, mas não é fado. A fumar à entrada do edifício, a maioria dos amigos e colegas acenava-me com o espantalho da morte. Não era para menos: “fumar provoca 9 em cada 10 cancros do pulmão”. Tentavam ressuscitar-me.

Pink Floyd. Have a cigar. Wish you were here. 1975.

O sismo do amor

Mordillo. Les couples. 1997

O amor ainda existe. Violento! Um amor cósmico. Magoado, o coração rasga o chão. Palpita e a terra treme. Edith Piaff e Buster Keaton, paixão e elegância. Um belo anúncio da Lacoste.

Marca: Lacoste. Título: Crocodile Inside. Agência: BETC (Paris). Direcção: Megaforce. França, Maio 2019.

Cheirinho a bebé

Ecover. L’eau de bébé. 2019.

Pierre Bourdieu sustenta que os cientistas e os artistas têm “interesse no desinteresse”. Não sou artista nem cientista. Tenho “desinteresse no interesse”. Escrevo o que quero, como quero, para quem o entender (Albertino Gonçalves).

Admiro Edgar Morin desde a adolescência. “Troquei”, criança de vinte e poucos anos, argumentos com Edgar Morin, num colóquio na Sorbonne, a propósito da Sociologia do Conhecimento, do intelectual e de Karl Mannheim (Cahiers Internationaux de Sociologie: Sociologies, vol. 71, 1981). Em Para Sair do Século XX (1981), Edgar Morin conta uma história acerca da realidade da ilusão:

A testemunha caminhava ensimesmada quando é abalada por um acidente. Um mercedes não respeita o sinal vermelho e embate num citröen “dois cavalos”. Aproxima-se e constata, contrafeita, que foi, afinal, o citröen que embateu no mercedes: a frente do citröen estava desfeita e o mercedes apresentava uma amolgadela lateral. De qualquer modo, a testemunha insiste que foi o mercedes que desrespeitou o sinal vermelho. Visto com os seus próprios olhos! Que não, afirma o dono do Mercedes! Que não, confirma o condutor do citröen.

A testemunha testemunhou. Ao observar, configura e fabula o mundo e a experiência. O mercedes bateu no citröen e desrespeitou o sinal vermelho. Uma ilusão generosa! “Temos todos tendência a ver na força um culpado e na fraqueza uma vítima inocente” (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, 1984). Compaginamos a realidade segundo os nossos valores e esquemas mentais.

Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Este episódio ilustra a reificação da consciência (Georg Lukács, História e consciência de classe, 1923; Joseph Gabel, La Fausse Conscience, 1962). A testemunha capta um mercedes a chocar com um citröen e a desrespeitar um semáforo. Um mundo animado por objectos. Quem desrespeita não é o mercedes mas o condutor. Neste relato, os condutores são apêndices dos objetos.

A propósito da percepção, Jean Cazeneuve (Les pouvoirs de la télévision, 1970) enuncia os quatro passos da recepção de uma mensagem televisiva: exposição selectiva; retenção selectiva, interpretação; e memorização. Um telespectador presta atenção a determinados programas, ignorando os demais. Nalguns casos, a influência potencial de uma emissão nem sequer começa. Por outro lado, o telespectador retém apenas uma parte do que vê; ignora a informação restante. A testemunha, da infinidade de estímulos que a rodeiam, fixa-se no choque das viaturas. Acresce que a recepção do telespectador é, intrinsecamente, configuração e atribuição de sentido. A recepção releva da “semiose social” (Eliseo Verón, Conducta, Estructura y Comunicación, 1968). A testemunha interpreta a realidade consoante a sua “maneira de agir, pensar e sentir” (Émile Durkheim, As regras do método sociológico, 1895). Por último, a memorização: pouco recordamos do que vivemos. Como diria Arthur Conan Doyle, somos, para nosso próprio bem, cangalheiros da própria experiência.

“Para mim, o cérebro humano, em sua origem, é como um sótão vazio que você pode encher com os móveis que quiser. Um tolo vai entulhá-lo com todo tipo de coisa que for encontrando pelo caminho, de tal forma que o conhecimento que poderia ser-lhe útil ficará soterrado ou, na melhor das hipóteses, tão misturado a outras coisas que não conseguirá encontrá-lo quando necessitar dele (…) É um engano pensar que o quartinho tem paredes elásticas que podem ser estendidas à vontade. Chega a hora em que, a cada acréscimo de conhecimento, você esquece algo que já sabia. É da maior importância, portanto, evitar que informações inúteis ocupem o lugar daquelas que têm utilidade” (Arthur Conan Doyle, Um estudo em vermelho, 1888).

Esta crença do Sherlock Holmes pertence àquelas que, erradas em teoria, funcionam acertadamente na prática (Vilfredo Pareto, Tratado de Sociologia Geral, 1916). Retomemos Edgar Morin:

“Todo conhecimento comporta em si mesmo o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema com duas faces do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro, a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é tão mais difícil que o erro e a ilusão não se reconhecem, minimamente, como tais (…) Nenhum dispositivo cerebral permite distinguir a alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjectivo do objectivo” (Edgar Morin, Les sept savoirs nécessaires à l’éducation, texto publicado pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura, em 1999).

Marca: Ecover. Título: L’eau de bébé. Agência: Uncommon London. Reino Unido, Abril 2019.

Este desperdício de ideias vem a propósito do anúncio britânico L’Eau de Bebé, da Ecover. A publicidade conhece o poder do sensitivo e do afectivo ancorados em mitos e arquétipos. O anúncio controla o nosso olhar. Concentra-o e perspectiva-o num equilíbrio envolvente que raia a obsessão. Uma fixação circular em torno do homem, do bebé e da embalagem de Eau de Bébé. Na parte final, a embalagem de Eau de Bebé retoma, no feminino e, eventualmente, no homossexual, as imagens precedentes com o homem e o bebé, dois momentos do mesmo ciclo.

O homem objecto lembra o belo Adónis, criado e disputado por Afrodite e Perséfone. O menino lembra Cupido e as mulheres, vestais zeladoras da virgindade e do aroma do detergente da Ecover. O ambiente é celestial. Tipo Olimpo. Tudo muito asseado: o bebé, o adulto, as vestais, os pedestais e a poção mágica:

“Let babies smell like babies. Choose Ecover Zero. A laundry liquid with zero fragrance for zero baby scent interference. It’s Allergy UK approved” (Ecover Zero).

O anúncio da Ecover focaliza, embacia, desloca e satisfaz o olhar. O Eau de Bébé é uma dádiva dos deuses, um cheirinho a criança sem fraldas nem bolsados. Tudo é higiene e amor. Até o cérebro fica mais lavado. O que a publicidade não faz por nós!

Brigada Victor Jara. Ó Menino Ó. Tamborileiro. 1979.

A passo de caracol: 800 000 visualizações.

Herri (met de) Bles (atribuído a). Detalhe do Inferno. 1595. Palácio Ducal. Veneza.

O blogue Tendências do Imaginário é um caracol sem asas. Sem institucionalização, publicidade, tribalismo ou alavanca, avança devagar colado ao chão. Acaba de ultrapassar as 800 000 visualizações. Com 302 artigos publicados e 141 243 visualizações no ano 2018. Sobressaem três países: Brasil, Portugal e Estados Unidos (ver gráfico 1). O gráfico 2 apresenta os dez artigos mais consultados em 2018. Obrigado, pela visita!

Perguntar não ofende

José de Almada Negreiros. Black and White. 1929.

“O Tango é uma tradição que se desloca. Este estado deslocado diferencia-o dos folclores fazendo dele uma cultura de viagem. Viagem dos imigrantes que escrevem o seu próprio romance, passo a passo, na cidade de Buenos Aires. Este romance é um livro aberto à estrutura destroçada. Mesmo nesta cidade, os Argentinos vivem como gente de viagem. Com um instrumento sob o braço ou uma melodia assobiada no canto dos lábios, eles põem em prática a teoria da viagem” (Nathalie Clouet : http://francoisheim.com/arpaban-tango.html).

Passar, mentalmente, pelo Rio da Prata comporta riscos. Por exemplo, o risco de conjeturar. Se “perguntar não ofende”, permito-me perguntar: se o tango canta as pessoas que se deslocam, que viajam, o fado quem canta e o que canta? A viagem dos que ficam?

Astor Piazzolla. Soledad. Astor Piazzolla & Friends. 1960.
Amália Rodrigues. Tudo isto é fado. Tudo isto é Fado. 1953/56.

A harpa e a gaita de fole

A harpa é um instrumento musical antigo. Na Suméria, no início do segundo milénio antes de Cristo, já se tocava harpa (Figura 1). No imaginário medieval, a harpa era um instrumento celestial, tocado pelos anjos (Figura 2) e pelo rei David (Figura 3), muitas vezes pintado a afinar a harpa como quem harmoniza o mundo (Figura 4). Mas o diabo toca tudo, toca todos os instrumentos, incluindo a harpa. Quando não ele, uma criatura que lhe seja próxima. Por exemplo, o burro (Ver O Burro e Harpa: https://tendimag.com/2012/11/20/o-burro-e-a-harpa/). A própria harpa pode ser símbolo do mal, como na Mesa dos Pecados Capitais (1505-1510) ou no inferno do Jardim das Delícias Terrenas (1503-1515), ambos de Hieronymus Bosch (Figura 5 e 6). A iluminura do saltério de St. Rémy esboça uma topografia da música: nas alturas, destaca-se a harpa, nas baixezas, o tambor (Figura 7). Mas o instrumento mais característico do diabo é a gaita de fole. Atente-se na sereia de Beauvais (Figura 8), na dança da morte de Pinzolo (9) ou no demónio que transforma a cabeça de um monge numa gaita de fole (Figura 10).

Xavier de Maistre é um harpista francês. Segue a sua interpretação de Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz.

Dediquei o dia a este artigo. Não parece. Mas ainda bem! Não pensei em mais nada.

Xavier de Maistre. Asturias (Leyenda), de Isaac Albéniz (1892).

Género e violência

Mortes de LGBT, por ano, no Brasil. Fonte: Grupo Gay da Bahia.

Não aprecio anúncios de autopromoção, independentemente da categoria social, inclusivamente de género. Mas incomoda-me a discriminação, frequentemente, violenta de que são vítimas os LGBT. O anúncio brasileiro Thierty-Five, da Athosgls, está bem concebido. A parte final é excelente. O cover da canção Forever Young, dos Alphaville, pelo braileiro Liniker, é notável.

“No Brasil, devido à violência e ao ódio, a expectativa de vida de pessoas trans é de apenas 35 anos, metade da expectativa da população cisgênero. Esse dado é brutal e é a mensagem entregue nesse filme para o Portal de notícias LGBTQI+ Athosgls” (Athosgls Brasil).

Marca: Athosgls Brasil. Título: Thierty-Five. Agência: Young & Rubicam. Brasil, Abril 2019.
Alphaville. Forever Young. Forever Young. 1984.

Um pouco de céu

Encounter by M.C. Escher, 1980

A liberdade é poder escolher as suas cadeias (AG).

As cadeias são compostas por laços e acasos. Algumas são circulares: passam pelo ponto de partida, à semelhança de algumas gravuras de M.C. Escher. As cadeias, nem líquidas, nem sólidas, porventura moles, estão em voga. O anúncio The Red Ball, da Mastercard, é uma cadeia galáctica, com “um pouco de céu”: Ana Ivanovic, Annika Sorenstam, Bryan Habana, Dan Carter, Lionel Messi, Neymar Jr., Valeri Kamenskyco… Por mais estrelas que convoque, o esquema deste anúncio não é novo.

Marca: Mastercard. Título: The Red Ball. Agência: McCann XBC New York. Direcção: Rodrigo Saavedra. Estados Unidos, Abril 2019.
Fleetwood Mac. The Chain. Rumours. 1977.
Mafalda Veiga. Um pouco de céu. Tatuagem. 1999.

Nocturno: uma jangada no coração

Nocturne: Blue and Silver – Chelsea 1871 James Abbott McNeill Whistler 1834-1903 Bequeathed by Miss Rachel and Miss Jean Alexander 1972 http://www.tate.org.uk/art/work/T01571

Estranha-se o afastamento de um grupo que ajudámos a criar. Deslizam as sombras por carris distintos. Culpas? Responsabilidades? Apenas a bifurcação de vontades. E a náusea da viagem. Com as vértebras a tocar um nocturno.

Frédéric Chopin. Nocturne in E-flat major, Op. 9, No. 2. Played by Vadim Chaimovich.