Fastio civilizacional

Arena de Verona. Itália

Os anfiteatros romanos preservam, passados dois milénios, a sua função: acolher espectáculos. Os músicos pop/rock têm uma predilecção por estes espaços históricos monumentais: os Pink Floyd tocaram, sem público, no anfiteatro de Pompeia em 1971; os Dire Straits no anfiteatro de Nîmes em 1992; Paul McCartney no Coliseu de Roma em 2003; Leonard Cohen no anfiteatro de Pula em 2013; os Deep Purple no anfiteatro de Verona em 2014…

Retenho três interpretações ao vivo em que predominam os instrumentos acústicos.

  • Private Investigations (Love over gold, 1982) pelos Dire Straits, no anfiteatro de Nîmes em 1992. Sobressaem os sopros e as cordas. Mark Knofler toca guitarra clássica. Private investigations adequa-se ao cantar falado de Mark Knofler.
  • So Long, Marianne (Songs of Leonard Cohen, 1967) por Leonard Cohen, com 79 anos de idade, no anfiteatro de Pula em 2013.
  • Walk This Way (Aerosmith, Toys in the Attic, 1975) por Steven Tyler, no Coliseu de Roma, num espectáculo de Andrea Bocelli em 2017. Destaque para os violoncelos.

Música em anfiteatros do Império Romano

Três canções é muita música. Hoje, sobra o gosto e falta o apetite. O século XX inventou uma máquina para preservar os alimentos e adiar o consumo: a arca congeladora. Revolucionou a pesca e a agricultura. Estas canções ouvem-se ou não. Mais uma ou menos uma múmia na Internet. Os arquivos cobrem-se com uma espécie de tédio electrónico.

Dire Straits. Private Investigations. Love over gold. 1982. Ao vivo no anfiteatro de Nîmes em 1992.
Leonard Cohen. So Long, Marianne. Songs of Leonard Cohen. 1967. Ao vivo no anfiteatro de Pula em 2013.
Steven Tyler. Walk This Way (Aerosmith, Toys in the Attic, 1975). Ao vivo no espectáculo de Andrea Micelli no Coliseu de Roma em 2017.

Esqueletos eróticos

Eizo. X-Ray Pin-up calendar. 2010. Imagem em alta resolução.

A todas e a todos que se dedicam à mui nobre arte de emagrecer.

Os esqueletos tocam música e dançam. À semelhança dos demónios. A dança dos esqueletos inspirou inúmeras obras desde a Idade Média. A Skeleton dance, em realidade aumentada, foi exibida em Bruxelas no ano de 2013:

‘Skeleton Dance’ is a streetmapping project that was first presented at Brussels Light Festival in 2013. During the three day festival, more then 85.000 people visited Brussels Light Festival. Over the past few years the project has traveled to multiple festivals around the world.

Filip Sterckx and Antoon Verbeeck. Skullmapping: https://skullmapping.com/project/skeleton-dance/

Para além de dançar e tocar música, os esqueletos também beijam, assediam, riem, lutam e fazem pose. Nem Sigmund Freud imaginou as potências eróticas dos ossos. O voyeur deixa de ver a pele e a carne, vê os ossos voluptuosos. Bem diz o povo: nós somos tão bonitos por dentro! Com uma pequena ajuda da técnica.

Ontem, dei uma conferência no Paço dos Duques, em Guimarães, sobre a honra e a lenda de Egas Moniz. Sobreaqueceram-se-me os neurónios. No rescaldo, só penso disparates. É a minha receita para descansar. Publiquei algumas imagens do X-Ray pin-up calendar no facebook em 2010, data da sua edição. Vale a pena retomá-las.

Imagens do calendário X-Ray pin-up, da Eizo. 2010.

Luxúria

Morpheus. Kia. The Truth. 2014.

Conduzir é uma tentação. Conduzir um Kia é pecado, o pecado da luxúria. Morpheus, o guia omnisciente, introduz-nos ao delírio dos sentidos e à música paranormal. Tudo no maior luxo.

The Truth – Official Kia K900 Morpheus Big Game Commercial 2014. HalfTime SuperBowl.

Filas de espera

Monoprix. La première file de l’humanité. 2019.

As filas de espera constituem um fenómeno social ao mesmo tempo simples e complexo. Inspirando-se em Georg Simmel, Raymond Boudon recorre à fila de espera para ilustrar algumas noções básicas do individualismo metodológico, designadamente a interacção, a emergência e os efeitos perversos (Raymond Boudon, La logique du social, Paris, Hachette, 1979). Perverso é, certamente, o protagonista pré-histórico do anúncio La première file de l’humanité, do Monoprix. Um egoísta sem regras e sem respeito pelos outros. Uma espécie de Mr. Bean de outra era. Carapaus de corrida.

Marca: Monoprix. Título: La première file de l’humanité. Agência : Rosapark. Direcção : Antoine Bardou-Jacquet. França, Maio 2019.
Mr. Bean. Goodnight Mister Bean. 1995. Partes 1 e 2 de 5. Direcção: John Birkin.

Qualidade e sucesso

Micah P. Hinson

Existe sucesso sem qualidade; e qualidade sem sucesso. Não é preciso ser belo para ser bom, mas ajuda. Uma vida atribulada não impede a criatividade, mas corrói a credibilidade. O norte-americano Micah P. Hinson não é um Senhor Milhões de visualizações. É original, com uma voz e um som próprios. Esteve no Theatro Circo, Em Braga, no dia 1 de Fevereiro de 2019.

Micah P. Hinsob. Beneath The Rose. Micah P. Hinson and the Gospel of Progress. 2004. Marc Riley BBC 6 Music Session 06/11/2012.

Quando um cego chora

Pieter Bruegel. A parábola dos cegos. 1568

O domingo é sagrado, dia de ansiolíticos e antidepressivos naturais. Há quem combine uns e outros. Na vida quotidiana também se entrelaçam (Norbert Elias e Eric Dunning, A busca da excitação, 1986). Por exemplo, durante um espectáculo de futebol as doses alternam-se (Albertino Gonçalves, Vertigens, 2009). Domingo é dia de compensação. Mais vale jogar à sueca em casa do que labirintar no poker de massas. Gosto de namorar o passado. O passado não para de crescer! O presente não o agarro e o futuro não o conheço. O meu passado é um contrabandista: atravessa as fronteiras do tempo. O domingo é dia de música. Música ultrapassada. Um rosário de pérolas barrocas, amuleto contra os carneiros de Panurgo (François Rabelais, Pantagruel, c. 1532). Já coloquei no Tendências do Imaginário a canção When a blind man cries, dos Deep Purple (https://tendimag.com/2015/10/01/when-a-blind-man-cries/). Uma espécie de gata borralheira para o Ritchie Blackmore, a música foi editado num single em 1972. Esperou pelos anos noventa para subir aos palcos e figurar nas antologias. A versão de 1999 de Ritchie Sambora, ex Bon Jovi, pouco difere do original. Mas o vídeo musical é pedagógico. Ensina que 1) não existem abraços electrónicos; 2) Os média podem estimular abraços; 3) Por detrás dos média, há sempre alguém; e 4) os sonhos existem e são humanos.

Só agora, concluído o texto, me apercebi, enquanto procurava um vídeo com melhor resolução, que esta curta-metragem foi escrita e realizada por um português: Nuno Rocha, para a LG Portugal. Pontes.

Richie Sambora (Deep Purple cover) – When A Blind Man Cries | LG — «Momentos». Guião e realização de Nuno Rocha. 2010.

HBAG: Homens, banais, avantajados e grotescos

Os Simpsons

No anúncio Wind/Water/Sun, da Neo-Zelandesa Meridian Energy, aparece, fugaz, um papel a voar numa praia. Lixo. Inclui, também, um cão, lancheiras, linhas de pesca, um carro e um cavalo. Podia prescindir-se do papel! A visualização no ecrã legitima, quando não valoriza, a incivilidade. Custa a aprender a lição da palhinha do Lucky Luke. As imagens querem-se, de preferência, sem vícios! Vê-los, intoxica. Erradicar o papel do anúncio é uma espécie de prevenção ecológica. “Le fournisseur d’énergies 100 % renouvelables Meridian Energy nous rappelle qu’il faut ramasser ses déchets dans un spot qui en jette !” (http://www.culturepub.fr/videos/meridian-energy-wind-water-sun/). Censura? Nem por sombras, apenas olhar lavado. Os críticos perguntam: “por que corre o protagonista?” Atrás da democracia? Se, em vez de um papel, a Meridian Energy tivesse optado por um ananás, imaginar-se-ia que o protagonista está a jogar rugby. Para além da impertinência do papel, o anúncio exibe um HBAG: um homem banal, avantajado e grotesco. Faz parte dos óculos contemporâneos. Lavagem, sim, mas com rugas.

Este anúncio lembra-me o Beach. Whatever’s Confortable, da Southern Comfort. Um pecado diferente, mais lento, mas, na mesma, um HBAG.

Marca: Meridian Energy. Título: Wind/Water/Sun. Agência: BC&F Dentsu. Direcção: Paul Middleditch. Nova-Zelândia, Maio 2019.
Marca: Southern Comfort. Título: Beach. Whatever’s Comfortable. Agência: Wieden + Kennedy, New York. Direção: Tim Godsall. EUA, Julho 2012.

Pelo sim, pelo não

Dollar Shave Club. Manifique. 2019

Homens objectos dançantes. Coreografados a preceito. Muito se tem escrito sobre a representação da mulher na publicidade. Recordo o livro Gender Advertisements, de Erving Goffman (1976). Pelo sim, pelo não, chegou o momento de estudar a representação do homem na publicidade. Com ou sem humor. Com ou sem pelos.

Marca: Dollar Shave Club. Título: Manifique, A Father’s Day Gift. Produção: Biscuit Filmworks, Revolver, Will. Direcção: The Glue Society. Estados Unidos, Junho 2019.

Beleza e libertação

Julia Roberts. Lancôme. 2018

“A beleza desperta a alma para agir” (Dante Alighieri).

Bruno Aveillan consta entre os melhores realizadores de anúncios publicitários. O Tendências do Imaginário inclui cerca de 40 anúncios com a sua assinatura. Desenvolveu um estilo próprio. Minucioso, talha os pormenores que nem diamantes. O olhar de Bruno Aveillan combina a câmara de filmar e a câmara fotográfica. Embeleza a beleza. É um operário de afrodites, com ou sem Adónis. A banda sonora é cuidada até à última nota. Há combinações memoráveis. No anúncio La vie est belle, da Lancôme, a música eleita é Diamonds, um cover de Rihanna, pelo australiano Josef Salvat, por sinal, já utilizado noutros anúncios, incluindo da Sony.

Para apreciar a mão de Bruno Aveillan, proponho um exercício: comparar o anúncio de 2018 com o anúncio da Lancôme, de 2016. Partilham o mesmo título, La vie est belle, e a mesma protagonista: Julia Roberts, embaixadora da marca desde 2009. O anúncio de 2016 foi dirigido por James Gray (realizador dos filmes Os donos da noite, 2007; Amantes, 2008; Era uma vez em Nova York, 2013; e Laços de sangue, 2013). O convite não é para hierarquizar, mas relevar as diferenças. Aos dois anúncios da Lancôme, acrescento duas interpretações ao vivo de Josef Salvat: Shoot and run e Night swim, esta mais despojada, acompanhada apenas pela guitarra eléctrica. Pertencem ao álbum Night Swim, de 2016.

Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Agência : Publicis 133. Direcção : Bruno Aveillan. França, Agosto 2018.
Marca: Lancôme. Título: La vie est belle. Direcção : James Gray. França, Fevereiro, 2016.
Josef Salvat. Shoot and Run. Night Swim. 2016. Ao vivo.
Josef Salvat. Night Swim. Night Swim. 2016. Ao vivo.

O insulto nas caixas de comentários dos jornais

Público. Bartoon. 04 de Junho de 2019

No Público de ontem, 03/06/2019, vem uma entrevista, de duas páginas inteiras, com o meu rapaz mais velho acerca das caixas de comentários dos jornais. A entrevista inspira o bartoon da edição do Público de hoje (ver imagem). Há um tempo, o meu rapaz mais velho tinha uma iniciativa e eu pensava com os meus botões: tal e qual o pai. Hoje, o meu rapaz mais velho continua a tomar iniciativas e eu penso com os meus botões: nunca serei como ele. Com o mesmo orgulho.