Humor mórbido

O século XXI também ri da morte. Ri dos mortos e dos vivos; ri dos mortos vivos e dos vivos mortos. Um humor dispensado, por vezes, pelos cangalheiros de Estado. É assombrosa a quantidade de anúncios anti tabaco a gravitar na Internet, quase todos ossos e cinzas.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos dos anúncios.

Antitabaco Snowboard

Anunciante: Anti Tabac. Título: Snowboard. Agência: FCB New York. USA, 2017.

Antitabaco Birthday

Anunciante: Anti Tabac. Título: Birthday. Agência: FCB New York. Direcção: Peter Sluzlka. USA, 2017.

Cinzas

Anunciante: Anti Tabac. Título: Pool. Agência: FCB New York. USA, 2017.

 

Riso arrepiado

Hornbach

Existem várias formas de riso: desbragado, disfarçado, cínico, sarcástico, amarelo… Rimos, por exemplo, às gargalhadas com acidentes inesperados e insensatos. Com os infortúnios do Charlot, do Pamplinas, do Bucha & Estica, dos Marx Brothers, do Monsieur Hulot, de Mr. Bean… Em contrapartida, os acidentes da Prevenção Rodoviária gelam o riso numa máscara de horror. Passamos do regozijo à aflição consoante as condições e as consequências.

A marca alemã Hornbach habituou-nos a um humor grotesco peculiar (ver o extenso mas fabuloso anúncio The Infinite House; https://tendimag.com/2012/03/15/casa-infinita/); ver também No one feels it like you: https://tendimag.com/2012/03/16/martelada/) e Crack: https://tendimag.com/2012/09/22/casa-dos-espiritos/). Os anúncios da Hornbach combinam estranhamento e familiaridade, quaresma e carnaval, delírio e razão, desalento e consolo.

No recente No Regret ocorre um acidente que não é burlesco. Suspende o nosso sentido de segurança. As expectativas normais resultam ameaçadas. Num cenário natural paradisíaco, a casa em construção desaba sobre o construtor. A aflição da criança testemunha a amplitude do desastre. Esta catástrofe não dá vontade de rir. A criança chora. O pai emerge dos escombros combalido mas a risonho. Agora, temos vontade de rir. Pai e filho riem de alívio, para restauro dos neurónios. Nós, também! “Sem remorsos”.

Em 2016, a Hornbach lança o anúncio You’re alive. Inicia com uma imagem intermitente de um homem, ora nu, ora vestido. O homem escorrega, nu, por uma encosta inóspita. Um prazer indescritível embalado num ritual sacrificial todo vertigem e dor, aventura no espírito, contusões no corpo e endorfinas no sangue. O diabo já registou este anúncio para introduzir uma nova tortura no inferno. A descida vertiginosa do herói é arrepiante. Mas eis-nos regressados ao homem vestido a cavar um enorme buraco no jardim. Pelos vistos, sonha enquanto trabalha! Realidade que nos faz rir e nos sossega. A terra continua a girar no sentido contrário aos ponteiros do relógio!

Marca: Hornbach. Título: No regrets. Agência: Heimat Czar. Direcção: Andreas Nilsson. Alemanha, Março 2017.

Marca: Hornbach. Título: You’re Alive. Do You Remenber? Agência: Heimat Partizan. Direcção: Tom Noakes. Alemanha, Março 2016.

 

O homem desfolhado

Fiat Love affair

Nos últimos tempos, a publicidade mostra-se ginecêntrica. Um efeito do Dia Internacional da Mulher?  Alguns anúncios são, no mínimo, ambíguos. Embora focados no gineceu, podem revelar-se androcentrados. Sabe-se que um anúncio de mulheres pode ser construído pelo e para o olhar dos homens (Goffman, Erving,  Gender Advertisements, 1976). Por seu turno, a promoção das mulheres pode subordinar-se a uma pauta de valores associados aos homens. O caminho para a vitória pode passar pela adopção dos modos e das metas típicos  do adversário. “Bater o outro no seu próprio terreno” (ver Goffman, Erving, Stigma, 1963).

O anúncio Love Affair, da Fiat, caracteriza-se por um humor complexo. Baralha as cartas das relações de género. Quem é predador? Ele, que se aproxima, ou ela, que controla? Quem é objecto? Ele que se despe ou ela que o incita a despir? O feitiço virou-se contra o feiticeiro, no caso dele ou no caso dela? Para “domesticar” o “macho”, a mulher precisou fazer-se homem? O anúncio não parece androcêntrico, e conservador? Predominam atitudes e valores patriarcais tais como o galanteio, o cavalheirismo, a protecção, a delicadeza, a elegância… Mas resultam caricaturados. Rimo-nos deles, e rindo, desarmámo-los.

Marca: Fiat. Título: Love Affair. Agência: Doner. USA, Março 2017.

Prazer tranquilo

pavlovsdog3

Hoje, dei aulas das 14 às 20 horas. Estou temporariamente alérgico à Sociologia. Nada como música suave. Daquelas que nos fazem sonhar dentro da memória. Há tempos coloquei um post com três videoclips dos Pavlov’Dog. Apagaram-lhes as velas! Nem se ouve, nem se vê. Retomo as canções, mas sem velas. Só uns palitos.

“Originários de St Louis (EUA), os Pavlov’s Dog publicam Pampered Menial, em 1974, e At The Sound Of The Bell, em 1975. O insucesso foi de tal ordem que a editora, a Columbia Records, recusa editar, em 1977, o terceiro disco (The Third). A banda original desfez-se. Há muitos casos como este de qualidade sem sucesso, menos, porém, do que os casos de sucesso sem qualidade”.

Pavlov’s Dog. Julia. Pampered Menial. 1974.

Pavlov’s Dog. Standing here with you. At The Sound Of The Bell. 1975.

Pavlov’s Dog. Only you. TheThird. 1977.

Contrição

skol Reposter

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
…………..
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

(Luís de Camões, Sonetos)

Há anúncios publicitários que parecem um acto de contrição. No Reposter da Skol, o máximo torna-se mínimo e o mínimo, máximo. Mudam as vontades, as imagens e as palavras, mas a gramática permanece, a gramática da alteridade estereotipada. De qualquer modo, os posters mudaram graças à arte e ao design exclusivamente femininos. Senhora do seu corpo e da sua vontade, a mulher não serve cerveja, “toma” cerveja.

Marca: Skol. Título: Reposter. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Brasil, Março 2017.

Ninho

Serra. Prado. Melgaço

Lugar da Serra. Prado. Melgaço.

Rui Táboas, amigo de infância, acaba de publicar, no blogue Tesourinhos da Escola Primária de Prado (https://www.facebook.com/groups/1383722761649439/), esta fotografia do lugar da Serra. Nasci na casa com uma fiada de três janelas, na linha da carroça. Não consigo datar a fotografia. Provavelmente ainda não tinha nascido. O muro à esquerda foi demolido ainda era criança. A casa mais baixa também foi restaurada e ampliada por essa altura. Lembro-me de trincar a língua a saltar para a areia da obra. Ainda tenho a cicatriz. Foi mesmo há muito tempo.

Sexualidades

Magnum ceremony

Uma cerimónia esplendorosa! Com este balanço, todos os passos vão dar ao altar. A “surpresa” concede mais brilho ao caminho. A homossexualidade, ver o mundo LGBT, tornou-se tema destacado da publicidade actual. Depois da Diesel (https://tendimag.com/2017/02/21/um-buraco-no-muro/), da Nike (Vídeo 2), da SJ Swedish Railways (https://wordpress.com/post/tendimag.com/31215) ou da Coca-Cola (Vídeo 3), a Magnum sustenta a diversidade da sexualidade e do amor. Ao primeiro anúncio, podia-se pensar num capricho de uma grande marca; afinal, deve ser investimento. O tema vende junto dos públicos alvo!

Marca: Magnum. Título: Ceremony. Agência: LOLA MullenLowe. Direcção: Martin Werner. Espanha, Março 2017.

Marca: Nike. Título: We believe in the power of love. Direcção: Luca Finotti. Internacional, Feveiro 2017.

Marca: Coca-Cola. Título: Pool Boy. Agência: Santo (Buenos Aires). Argentina. Março 2017.

 

Mulheres incríveis

Contrex

“Nós somos invencíveis. Nada nem ninguém nos pode parar. Não há limites àquilo que podemos realizar. Marchamos sem armadura, sem estrelas nos nossos ombros. Ninguém nos obriga, mas ninguém nos pode impedir. Porque, sim, nós somos invencíveis. Mas não o nosso corpo. Dá-lhe todos os dias os minerais de que precisa: cálcio, magnésio, Contrex. O vosso corpo é a favor!”

O anúncio “Nous sommes invencibles”, da Contrex, representa uma inovação na imagem de marca da empresa. O foco são as mulheres, mas já não se fala de “elegância”, a Meca peregrinada durante décadas. Quem se atem às palavras julga tratar-se de um anime ou de um hino de samurais. Limitar a interpretação a este tópico seria injusto. Tomar a árvore, delirante, pele floresta. As imagens apresentam-se em dissonância com as palavras: corpos esgotados e desalentados. O anúncio é um poema de palavras e imagens. A alma invencível mora num corpo vencido. Só um druida pode acudir ao desequilíbrio. Assim como a poção mágica de Panoramix dá força a Axtérix, a água de Contrex dá potência ao corpo das mulheres. Resultado: uma alma invencível em corpo inabalável.

Marca: Contrex. Título: Nous sommes invencibles. Agência: Marcel. França, Março 2017.

Diálogo ao espelho

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

A Isabel Vilela sugere-me este momento de humor português: “Não faleci nada”, dos Gato Fedorento. Apesar de recalcado e mórbido, o tema da morte presta-se ao humor. Existem limites, mas respira-se, pelo menos, enquanto não vem um corte ou uma bomba. Respira-se menos com temas de maior sensibilidade pública, tais como o nacionalismo, a religião, o género ou as conquistas da humanidade. Alguns assuntos são tão polémicos que até parece que só um lado se pode expressar.

Gato Fedorento. Série Lopes da Silva. Não faleci nada.

Uma pessoa disse o que não devia ter dito. Por ser quem é; por ser onde foi. Eis um “crime”, no sentido durkheimiano da palavra: uma “ofensa à consciência colectiva”. Como reagem as democracias mais democráticas? 1) Dão ampla publicidade ao que não devia ter sido dito e a quem o disse; 2) Punem quem disse o que disse por ter dito o que disse; e 3) Passada a purga, termina o espectáculo. Há temas tabu, não há? Um destes dias, ainda vamos usar mordaças descartáveis. Em nome dos princípios e dos valores fundamentais advogados pelos “novos bem pensantes” (Michel Maffesoli).

Os tempos não correm de feição ao respeito pelo outro e à liberdade de pensamento. O direito à diferença significa, à partida, que o outro tem direito a uma identidade e a uma idiossincrasia próprias. Uma opinião diferente não se resume a uma qualquer variação da nossa, por muito que isso nos contrarie e desagrade. O pensamento conveniente, normalmente o nosso, sempre foi o mais arreigado inimigo da liberdade de expressão. Esta nossa incapacidade para nos descentrar deve provir do pecado original. Por muito que te custe, um pensamento diferente, se é diferente, pode não ser o teu. A tua intolerância aduba a intolerância alheia, e vice-versa. Quer-me parecer que, hoje, crescem ideias profanas que se tomam por religiosas. Não gosto de apóstolos. Censurar, corrigir, sancionar ou castigar as ideias dos outros, nomeadamente aquelas que colidem com os nossos princípios e valores fundamentais, é tarefa fácil. Salazar e Franco fizeram-no muito bem. Estaline, Hitler e Mussolini fizeram-no ainda melhor. Kim Il-Sung e companhia continuam a fazê-lo, com todo o rigor. É certo que o direito de expressão não é absoluto. Existem direitos de expressão mais ou menos generosos. O mais generoso que conheço é o seguinte: eu tenho direito à opinião, e tu também tens direito à minha. Um diálogo ao espelho. O dito que foi dito é, no mínimo, uma enorme grosseria. Mas a minha opinião, aquela a que tenho direito, é apenas uma opinião. Sempre que alguém for castigado por não pensar como eu, estou a abrir mão da liberdade. Espero que quem disse o que disse não venha um dia a estar em condições de, por simetria, nos corrigir. A nós, os paladinos intermitentes da liberdade! Nada que não tenha acontecido antes. Nada que não aconteça.

No após 25 de Abril de 1974, andei metido na política. Fiz um discurso sobre este tema num comício numa antiga garagem de autocarros no lugar do Peso, em Melgaço. Portugal andava conturbado e febril. Algumas pessoas acharam o discurso deslocado. Retomei o assunto. É um risco, uma opinião atirada ao charco.

Com o mundo nas mãos

Conectados. Estudiantes.O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a.

Anunciante: Movistar. Título: Conectados. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. Perú, 2010.

Gosto deste anúncio da Movistar. Já o tinha colocado há sete anos no Facebook. Hoje, a conversa é diferente. Acrescento três canções associadas à congregação de vontades: With a little help from my friends, do Joe Cocker; Canta amigo canta, do António Macedo e, porque na Itália também se canta, Insiemi, de Toto Cutugno. Todas ilustram a nossa incomensurável capacidade de sonhar em conjunto.

António Macedo. Canta amigo canta. 1974.

Toto Cuttugno. Insiemi. 1990.

Joe Cocker. With a little help from my friends. 1968.