Lavar na lama

“Onde há sujidade, há sistema” (Mary Douglas. 1966. Purity and Danger, Frederick A. Praeger, New York, p. 36)
Retomo o artigo desconcertante “Lama, excrementos e porcos” , de 26 de junho de 2016, revisto.
Imagem: Mary Douglas
A nostalgia dá um passeio de bicicleta

Desde 2012, escrevi, no dia 25 de junho, vários artigos que estimo dignos de releitura. Relevo, especialmente, “A Nostalgia do Invisível”, de 2018, que se disingue, sobretudo, graças à inclusão do trabalho prático “A nostalgia do invisível – Memória e imaginário”, da autoria de Vanessa Caroline de Almeida e Alcântara, aluna do curso de mestrado em Comunicação, Arte e Cultura.
Imagem: Corinna Luyken. O Livro dos Erros. Ed. original, 2017. Detalhe
Não sei se a aluna é uma extensão do professor ou o professor, da aluna. Salomonicamente, diria que ambos são, como resulta agora dizer-se, agência, logo extensões recíprocas.
O conceito de “extensão do homem” costuma ser atribuído a Marshall McLuhan, mas, na linguagem de Louis Althusser, não ele foi quem o “descobriu”, “inventou-o”; propôs a respetiva construção teórica. A realidade já era observada, pelo menos, desde Aristóteles: a roda em relação aos pés; a roupa, à pele… Em 1858, Maurice Leblanc, já escrevia, no livro Voici des Ailes (66 anos antes do understanding Media: The Extensions of Man, publicado em 1964), o seguinte a propósito da bicicleta:
Um aperfeiçoamento do próprio corpo, o seu acabamento. É um par de pernas mais rápidas que lhe é oferecido. O homem e a máquina são um só. Não são dois seres diferentes como o homem e o cavalo, dois instintos em oposição. Não, é um só ser, um autómato feito de uma só peça. Não há um homem e uma máquina. Há só um homem mais rápido (citado por Manuel Ferreira da Costa no livro A Póvoa de Varzim na Belle Époque: panorama da vida cultural e do turismo balnear, no prelo, pág. 231, que tenho a honra de prefaciar).
O 25 de junho parece ser um dia particularmente inspirador. Embora “A nostalgia do Invisível” seja o artigo que mais me sensibilizou, não resisto a acrescentar, como lembretes, mais três: “Miragem com falo à vista”, de 2012; “Epidemia de dança”, de 2013; e “Sombras”, de 2014.
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Inspirações e coincidências

Escrever artigos no blogue é um vício prazeroso, mas revê-los não deixa de ser uma alternativa, no pior dos casos, um placebo. Recuemos, pois, uma dúzia de anos [ainda estava no fruto da idade]. O triunfo das salsichas contempla quatro anúncios: um par (“Sausage” e “La Saucisse”) parece inspirado no outro (“Baleia” e “Rave Party”). Será mera coincidência?
René Magritte – La reproduction interdite, 1937
Despir ou agasalhar, eis a questão

Despir ou agasalhar? Coloco a questão a propósito da produção atual nas ciências sociais e humanas. Pouca criação e muita tradução; muita parra e pouca uva. Torna-se necessário remover tanta ganga para vislumbrar uma eventual pepitazinha. Talvez despir acessórios de moda e agasalhar com roupa interior. Menos ornamentação e mais substância…
No dia 24 de junho, de 2017 e 2020, publiquei os artigos Despir e Agasalho. Tenho o prazer de os recordar, restaurados.
Noite de S. João e São João do Churrasco


É necessário que ele cresça e que eu diminua. (O testemunho de João Batista acerca de Jesus – João 3:30)
Desgastam-se pilares seculares e projectam-se castelos de areia, versão digital! Pelos vistos, a tradição mora, agora, no futuro, de braço dado com o vazio identitário. Até dói o pensamento. (Albertino Gonçalves, 2016)
Seguem os artigos “Noite de S. João” e “São João do Churrasco” publicados no dia 23 de junho de 2016 e 2019.
Com sombra de pecado. Sexo angelical (20.03.2016)
Confesso a Deus todo poderoso
E a vós irmãos e irmãs
Que pequei muitas vezes por pensamentos
Palavras, atos e omissões…

Os anúncios “Little angel” e “The Nuns”, no artigo Sexo angelical (20.03. 2016), são uma delícia: duas maçãzinhas, senhor, [da porta] do paraíso.
Profanação

Valentin de Boulogne, Expulsão dos Mercadores do Templo, 1618-22. Galerias Barberini.
Publicado há dez anos, em 22 de junho de 2016, o artigo Obscenidades revela, a pretexto do anúncio “The Bicky Beef Miracle”, um duplo movimento de contágio: do sagrado pelo profano e do profano pelo sagrado. Segue o artigo revisto.
Merdificação
Vivemos tempos de incerteza em que as oportunidades mais promissoras são também as ameaças mais sérias.
Em francês, resulta difícil distinguir Ça sent la mer d’ici (Daqui, cheira-se o mar) e Ça sent la merde ici (Aqui cheira a merda).
O Fernando deu-me a conhecer uma palavra nova, “merdificação”, ilustrando-a com o anúncio de consciencialização “A Day in the Life of an Ensh*ttificator”, do Norwegian Consumer Council.
Enshitification é um neologismo criado em 2022 por Cory Doctorow para aludir ao ciclo de perversão das plataformas digitais: “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários; depois, elas abusam dos usuários para tornar as coisas melhores para seus parceiros de negócios; por fim, elas abusam desses parceiros para reaver todo o valor para si mesmas. Então, elas morrem.” Aplicada inicialmente às plataformas digitais, a noção acaba por ser alargada pelo próprio Cory Doctorow à generalidade dos “bens” de consumo (Doctorow, “‘Enshittification’ is coming for absolutely everything”. Financial Times, 2024, January).

Os novos virtuosos, “merdeiros”, conseguem cativar o maior número de consumidores graças não a uma elevada mas a uma baixa relação benefício/custo. Transformam uma proposta promissora numa porcaria, eventualmente, aditiva.
Para uma síntese mais desenvolvida da noção de enshittification, sugiro, os artigos “A ‘Merdificação’ das redes sociais”, de Raul Oliveira Jung, e “The Age fo Enshittification”, de Philippe Buschini, ambos publicados em 2025.
Estamos confrontados com uma vaga de mudança não revolucionária: proliferam novidades que exacerbam a ordem existente sem a questionar. Por exemplo, o reforço e a expansão do capitalismo pelo hiperneoliberalismo.
O “hiperneoliberalismo” (ou hiper-neoliberalismo) é um conceito que descreve o aprofundamento radical das políticas neoliberais clássicas. Longe de defender um Estado mínimo tradicional, ele atua como um modelo onde o Estado é reconfigurado de forma autoritária para agir ativamente em prol dos interesses corporativos e do grande capital, impondo a lógica do mercado e da competição a todas as esferas da vida social e individual. As suas principais características incluem: Estado como Provedor do Mercado: Ao invés de simplesmente recuar, o poder público atua como um facilitador ativo de acumulação de riqueza, priorizando desregulamentações e benefícios fiscais para grandes corporações e super-ricos. Intensificação da Desigualdade: Promove a financeirização da economia e uma enorme concentração de renda, ignorando ou enfraquecendo redes de proteção social e direitos laborais. Governança Algorítmica e Individualismo: Transforma o indivíduo num “empresário de si mesmo” (capital humano), gerando uma cultura de hipercompetitividade e individualismo que enfraquece os laços sociais. Tendências Autoritárias: Requer a supressão de resistências sociais, movimentos de contestação e até de instâncias representativas e democráticas, impondo um consenso de mercado goela abaixo. O termo é frequentemente utilizado por sociólogos e analistas políticos (como o geógrafo David Harvey) para descrever as mutações do capitalismo na contemporaneidade. (IA, 21.06.2026)
Anjos sorridentes e caídos

O Tendências do Imaginário funciona como diário e memento. O artigo Anjos, colocado em 20 de junho de 2021, refere que, além de não andar, tinha “dificuldade em escrever, no teclado e no papel”. Ao jeito dos pintores do Renascimento do Norte, as minhas mensagens, algo cifradas, comportam enigmas. Se os anjos assombravam os Manfred Mann, eu próprio me sentia um anjo caído: volvidas três semanas, a 15 de julho, estaria a bater à porta do inferno.
Revisito, por associação, o artigo O sorriso dos anjos, publicado no dia 8 de janeiro de 2015. A disposição era diferente: uma imagem angélica inspira uma quase poesia e a experiência da beleza aproxima do divino.
Seguem os artigos Anjos (restaurado) e O sorriso dos anjos.

