Marretas e mais marretas

Por hábito, não vejo televisão. Entretenho-me bem sozinho. Mas, por artes alheias, está quase sempre ligada. Visitam-me, assiduamente, os comentadores. Irritam-me os comentadores! Iludo-me de que não preciso de quem pense por mim. Eles conhecem, porém, o futuro. Eu, não! Conhecem, pelo menos, dois terços do futuro, reputando o terço restante negligenciável. Como cada comentador se devota ao seu próprio oráculo, somos abençoados com mais futuros do que coelhos. Não se querem ideólogos, virtude que, para mim, que não sou pós-moderno, resulta, no mínimo, suspeita. Contrabalançam a míngua de ideologia com a fartura de fulanização. Não são ideólogos mas são idólatras. Falam mal de tudo e de todos, mas escondem, com mais ou menos sucesso, os seus messias e as suas promessas de paraíso neste vale de lixo e lágrimas. Sofrem de alergias ostensivas e de afinidades discretas. No xadrez mediático e político, são cavalos, rocinantes, que investem contra reis, rainhas, torres e bispos. Trazem a verdade na barriga e a o cérebro à mão. Raramente se enganam, a não ser quando o deslize se manifesta óbvio. Dispenso, contudo, esta procissão do espírito santo, este frenesim cortesão, que jorra dos palácios de Versalhes de Lisboa e do Trianon do Porto até aos confins da nossa ignorância. Entra-nos pela janela eletrónica e teima, infelizmente, em não nos sair pela porta. Mas, com tamanha visibilidade e audiência, não podem ser senão um destino nacional. Possuem o seu próprio poder, são performativos: fazem cócegas com palavras a um povo que não se cansa de se coçar. (Marretas, 06.11.2021)
Entre outubro de 2011 e dezembro de 2013, fui “cronista” no boletim ComUM online. Escrevi muitos textos, a maioria irreverentes, senão inconvenientes ou insensatos. Coloquei boa parte no Tendências do Imaginário, mas consegui aceder a apenas um. Nos demais, na página ComUM aparece a mensagem “Error 404: Nothing Found”. Acontece!
Afortunadamente, por inércia, guardo toda a tralha nos discos duros. Tenho encontrado todos os textos originais das crónicas do ComUM online. É o caso de “A Arte do Comentário”, publicado no dia 5 de março de 2013.

Vem a propósito do anúncio “A Who New Carol”, da Walmart. Todos os anos, por esta altura, começam a sair os primeiros anúncios natalícios. Alguns aguardo-os com alguma expetativa. É o caso da Walmart ou, por exemplo, a John Lewis.
Este ano, a Walmart aposta num canto de Natal pelas marionetas, sobretudo, da Rua Sésamo. Estranhei a ausência do Poupas, o cândido, e do Óscar Ferrão, o grotesco. Mas a presença assombrosa dos fantasmas dos dois marretas compensa qualquer falha.

Seguem: o anúncio recente “A Who New Carol”, da Walmart; o pdf do artigo “A Arte do Comentário”, publicado no ComUM online em 5 de março de 2013 e o artigo “Marretas”, colocado no Tendências do Imaginário em 6 de novembro de 2021.
Imaginário, 05.03.2013Download
Cerveja, amor eterno e orgasmo cerebral

O anúncio ‘O amor é eterno’ inspira-se na crença de que quando um beija-flor aparece representa o espírito de um ente querido que regressa para uma visita. Na curta-metragem, isto é representado através de um beija-flor de madeira totalmente feito à mão, inspirado na arte tradicional mexicana, que foi posteriormente animado, fotograma a fotograma, para se tornar a personagem central do filme, Carmen.
Segundo o anúncio sueco The ASMAR Ear Beer, da cerveja Norrlands Guld Ljus, a ingestão de cerveja pelos ouvidos pode propiciar orgasmos cerebrais. Assombroso! A culinária é simples: duas colheres de realismo grotesco, uma, de expressionismo; três, de surrealismo; quatro, de absurdo; e duas, de pop art. Agita-se, com inteligência e técnica. O orgasmo cerebral pela orelha está pronto a servir. Diz-se que os povos menos soalheiros têm pouco sentido de humor. Preconceitos! Entre o riso e o espanto, o desbragado e o ruminado, há muito lugar para o humor. Este anúncio, à semelhança da Coca-Cola do Fernando Pessoa, estranha-se, entranha-se e saboreia-se. Com ou sem orgasmo cerebral.








