Fantasias

Tenho afazeres, mas não me apetece cumpri-los. Ficam para depois. Não sei se esta alergia a obrigações é ónus ou bónus da idade. Entretanto, entrenho-me a ver anúncios, por exemplo da agência de publicidade francesa BETC. Nada como o sonho e a imaginação.
Imagem: Betc – Agence de Publicite, global advertising agency. BIS Publishers. 2008
“Idadismo”. Preconceito etário

Seguem dois anúncios que não abonam a favor do envelhecimento.

Raia do amor

Na próxima semana vou a Melgaço. Estou a precisar. Com esta perspetiva e as canções “Love is Not Enough” e “The Uncarved Block, do Tom Baxter, desfruto o entardecer. O compositor e cantor inglês Tom Baxter, pouco visualizado, justifica alguma curiosidade, em particular pela guitarra e pela gestão dos silêncios. Coloco apenas estas músicas para deixar a porta aberta à exploração.
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Sim, os silêncios…Magistral! E o dedilhar das cordas em suspensão, ânsia, urgência, melodia.
Quando ouvimos a parte instrumental de Love is Not Enough, sentimos o contrário. As primeiras notas, a espera, a expectativa do encontro a crescer dentro de nós, e depois, com toda a mestria, o turbilhão interior das notas em cadência de amor crescente…e quando as palavras chegam, salvam-nos? da esperança que não basta.
Em The Uncarved Block, a guitarra sobrepõe-se. Como se as palavras fossem um sussurro, como um rio que flui. Ele canta:
“Desvenda-me na página, sente os meus dedos flertando,
Tease me open on the page, feel my fingers flirt,
dei o meu melhor em uma noite como esta.
I put my best foot forward on a night like this.”
Adoro a letra, tão genuína quanto a guitarra que ele sustém.
“Devolve-me ao bloco não esculpido,
Return me to the uncarved block,
devolve-me a minha inocência
return me to my innocence
Devolve-me aos campos de cevada de ouro
Return me to the barley fields of gold”. (Minda, 07.05.2026)
Coro de bocejos. Dumb waiters

É um desconsolo terminar a leitura de um artigo muito referido sobre um tema de interesse com a impressão de não ter aprendido nada. Uma experiência deveras rotineira.
A alergia está a tornar-se fisiológica: abro a boca e fecho os olhos.
Ninguém morreu; apenas poesia
Pouco ou nada parece passar-se. Entretanto, o YouTube entende sugerir, de St. Vincent a Saint Saviour, músicas menos estreladas.
Fogo, Fumo e Cinzas

Fumar é atividade que ganha cada vez mais em ser relegada para a intimidade. Em público, acenam com a morte. O cigarro tornou-se o memento mori do século XXI: “mais um prego no caixão”; “fumar mata!”. Trata-se de uma sentença ritual bem-intencionada. Aliás, penso que se acredita que com boas intenções não se enche o inferno, mas se sobe a escada de Jacob. Apetece pedir também com amizade: “Já que vou morrer, deixem o prazer”. Mas contenho-me e agradeço com um sorriso penitente. Não me tenta incomodar os outros.
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Número e proporção de óbitos por algumas causas de morte, Portugal, 2023 e 2024 (Fonte INE)




Incontinência da violência

Se precisar da entrega ao domicílio de um volume de tabaco resulta difícil. Tenho que me deslocar, até numa cadeira de rodas, a espaços cada vez menos acessíveis. É pormenor de somenos consideração. Os missionários do bem entendem tutelar-me. Mas já a intrusão da violência, esteja onde estiver, dispensa qualquer pedido. Copiosa, insinua-se por todos os canais.
Com o anúncio / videoclip “Reward The Scars”, concluo esta incursão centrada no tema da violência. Temo enfartar! Não viro a página, apenas me disponho a saltar algumas.
A propósito, conhece o Renaud? Ainda vamos a tempo…
Vítimas da Verdade

Existem jornalistas de todos os tipos, feitios, interesses e ideologias. Esta diversidade representa um dos pilares das democracias e expõe-os como alvo a controlar ou a abater nos regimes autoritários e pelo crime organizado. O anúncio mexicano “Bullet Machine” ilustra-o de um modo original, veemente e impactante.
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Automóveis brutais

Nos anúncios “Mean Green” e “The Button”, os automóveis convocam entidades e propriedades ferozes. O skoda resulta uma besta; o volkswagem, bestial.
A fatura bélica. Almas quebradas

Presente em cerca de 900 autarquias francesas, a estátua do soldado heroico é neste anúncio subvertida. O filme revela aquilo que o monumento silencia: a ferida invisível por detrás da figura trinfante.
