Perdão

Presépio, de Orlando Correia.

Foram dias, foram anos / Foi a sorte apodrecida (Manuel Freire. “Pedro Só”. 1972. Poema de Fernando Assis Pacheco). Ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/.

Apareceu-me, de repente, um anjo que mais parecia o boneco da Michelin. Perguntou:

– Como vai a tua alma?

– A alma vai tão pequena que não vale a pena. Por amor ao próximo, convivo pouco, cada vez menos. Deslizo pelo mundo num tapete rolante. Não olho para a esquerda, não olho para a direita, pouco enxergo. Não cumpro o Pai Nosso. Tenho o motor do carinho e da tolerância encharcado. Cravou-se uma espinha na garganta da vida. Para cúmulo dos infernos, não desgosto da minha alma mesquinha! Um herói embalsamado. Que faço, meu anjo?

– Pede perdão!

Camilo Sesto. Perdoname. Donde Estes, Con Quien Estes. 1980. Ao vivo com Marta Sánchez.

"Somos os que aqui estamos"

Variação da população residente em Portugal Continental. 1960-2001 e 2001-2011. Fonte INE. Elaboração UMVI. O Interior em números.

Nas últimas décadas, o despovoamento foi monstruoso. É verdade que as migrações sempre existiram. Mas não tão desequilibradas. É difícil inverter a tendência. Despovoamento gera despovoamento: problemas de escala, de mercado, de emprego, de natalidade e de envelhecimento. A meu ver, despovoamento rima com fracasso político. Nem tudo neste País tem que ir a banhos. A intervenção política não se pode confinar à ponta da língua e à disponibilização de cuidados paliativos. Convém estancar a necrópole das aldeias de Portugal. As pessoas, essas, não desistem. Resistem à inércia de partir. Para o estrangeiro, para as cidades, para onde calha, com a promessa de uma vida melhor. Existe a tendência para imaginar a vida no interior e nas margens do País como um entorpecimento ou uma hibernação. Uma espécie de presépio. É uma ilusão ótica. Face à adversidade, as pessoas abraçam a vida, multiplicam os projetos e somam iniciativas. Pode faltar investimento de Estado, sobra vontade, criatividade e esforço humano. A metade da população que partiu não é melhor do que a metade da população que ficou.

Congratulo-me com o anúncio espanhol Yo Me Quedo, da empresa Correos Market. Porque é raro um anúncio dedicado ao despovoamento e pela aposta na sobriedade estética, por exemplo, os enquadramentos são naturais, bem como as roupas dos entrevistados.

Marca: Correos Market. Título: Yo Me Quedo. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Félix Fernández de Castro. Espanha, Dezembro 2019.

Boas festas

Pablo Picasso. Pai Natal. 1960.

Não é apenas por ludibriar os nossos fihos que os mantemos na crença do Pai Natal : o seu fervor aquece-nos, ajuda-nos a nos enganar a nós próprios e a acreditar, uma vez que eles acreditam, que um mundo de generosidade sem contrapartidas não é absolutamente incompatível com a realidade (Claude Lévi-Strauss, Tristes Tropiques, 1955).

Na infância, enviavam-se os postais de Natal por esta altura. Os correios tinham por costume engarrafar e a mensagem podia não chegar a tempo. Agora, não é preciso pressa. Na Internet, nada se engarrafa, tudo chega antes de partir. Assim vai a vida. A mensagem não vai alcançar muitas pessoas com quem sonho e vai ser lida por pessoas que ainda não comecei a sonhar. É o milagre da ultraconectividade, da técnica na era da pós-modernidade. Não impede que àquelas pessoas que contam, os “outros significativos”, continuo a ter que chegar a pé. Seja como for, sinto pressa de enviar os meus votos ao mundo. Com um fio de arte.

Badya é um dos investimentos da empresa Palm Hills Developments. Segundo os anunciantes, em Badya, “a vida imita a arte”. O anúncio é um morphing que contempla inúmeras e belas obras de arte. A empresa e o anúncio são egípcios. O menino Jesus também foi para o Egipto logo a seguir ao nascimento em Belém. Foram Jesus, Maria e José, mais a burrinha.

Há jogos com que adoro desperdiçar tempo. No anúncio Badya identifiquei os seguintes autores (quem quiser jogar às descobertas, o melhor é parar a leitura): David Hockney, Pet Mondrian, Andy Wahrol, Édouard Manet, Edward Hopper, Frida Kahlo, Paul Gauguin, Henry Rousseau, johannes Vermeer, Vincent Van Gogh, René Magritte.

Desejo-lhe boas festas, um feliz Natal e um bom Ano Novo!

Marca: Palm Hills Developments/ Badya. Título: Life imitates art. Agência: Good People Content / FP7. Direcção: Ali Ali. Egipto, Junho 2018.

O Pai Natal na publicidade. Glória e crise.

Júlia Ramalho. Presépio.

A maior mentira dos pais aos filhos não se refere à existência do pai Natal mas à promessa tácita de que as suas prendas os tornarão felizes (Laurent Gounelle, L’Homme que voulait être heureux, 2008).

Tenho andado ausente. Encalhei na Ilha de Sísifo. Perde-se tempo e não se ganha alento. Este artigo é gordo como o Pai Natal. O texto é esquelético mas os exemplos são muitos.

O Pai Natal mágico, risonho e rechonchudo, com barba branca e roupa vermelha, de trenó e na chaminé, é uma enorme fantasia da humanidade, que se espelha na publicidade. Mas tenho a impressão que cada vez menos. Perfila-se uma certa erosão.

No início de Dezembro, identifiquei 16 anúncios de Natal. Todos de grandes marcas. O Pai Natal propriamente dito aparece apenas em três: Coca-Cola, Oreo e Orange. Em outos três anúncios, Rema 1000, Bouygues e NOS, o Pai Natal resume-se a uma pessoa disfarçada. Oito anúncios (Globe Telecom, McDonald’s, Holiday, Migros, Admas Day, John Lewis, Fedex e Posten) recorrem a figuras alternativas ao Pai Natal. Por exemplo, o ET ou o dragão. Os dois anúncios restantes, da Macy’s e da Virgin, envolvem questões de género.

 Do conjunto de anúncios, só encontrei três com a presença do Pai Natal original: o anúncio positivo da Coca-Cola, marca de que o Pai Natal é “embaixador”, o anúncio da Oreo, em que o Pai Natal quase não se vê, sendo o protagonista um duende, e no anúncio dúbio da Orange em que o Pai Natal é armadilhado e capturado por um grupo de crianças.

“En el spot [de Coca-Cola] se ironiza con cariño la conducta de Papá Noel, un hombre extraño que llega de una tierra misteriosa y entra a las casas sin ser invitado, pese a lo cual las personas siempre eligen ver su bondad por encima de todo” (https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-regional-de-la-campa%C3%B1a-navide%C3%B1a-global:-santo-coca-cola-y-santa-claus-proponen-aceptar-las-diferencias).

Marca: Coca-Cola. Título: “What We Share Is Stronger”. Agência: Santo. Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, Novembro 2019.

Graças às bolachas Oreo, nasce uma amizade entre um duende e um empregado de uma loja de conveniência que culmina numa viagem no trenó do Pai Natal.

Marca: Oreo. Título: First Christmas. Agência: Martin. Estados Unidos, Novembro 2019.

O anúncio da Orange coloca o Pai Natal numa situação, no mínimo, embaraçosa. Graças às conexões electrónicas, um grupo de crianças, enfants terribles, sequestra o Pai Natal. A crise da imagem do Pai Natal começa a esboçar-se.

Marca: Orange France. Título: #AttrapezNoël – On l’a. Agência: Publicis Conseil. França, Novembro 2019.

Os três anúncios seguintes convocam o “espírito” do Pai Natal, mas o protagonista é um ser humano disfarçado. No anúncio da Rema 1000, o “pai Natal” não consegue entrar na casa inteligente, submetendo-se a uma série de infortúnios. No anúncio da Bouygues, o pai, que imita ao telemóvel o Pai Natal, é surpreendido pela própria filha. No anúncio da NOS, uma rapariga acredita que uma determinada pessoa é o Pai Natal. Esta última acaba por se disfarçar de Pai Natal. Uma “predição criadora”.

Marca: Rema 1000. Título: Crazy Santa. Agência: Try (Oslo). Direcção: Andreas Riiser. Noruega, Dezembro 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Papa Noël. Agência: BETC. Direcção: Martin Werner. França, Novembro 2019.
Marca: NOS. Título: A Descoberta. Produção: Ministério dos Filmes. Direcção: Marco Martins. Portugal, Novembro 2019.

A rosa pequenina

As Jornadas do Órgão Histórico da Oliveira (ver imagem) conduziram-me ao mural da Isabel Maria Fernandes. Encontrei uma segunda preciosidade: a Cajuina, de Caetano Veloso, numa excelente interpretação ao vivo.

Music video by Caetano Veloso performing Cajuina. (C) 2012 Universal Music Ltda

A figura do Pai Natal na publicidade. Preâmbulo.

“Ontem, um anúncio com o ET, hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?”

Hipótese: a figura do Pai Natal está a sofrer uma erosão ao nível da publicidade. Os anúncios apontam nesse sentido. De dois modos:

– Depreciação da figura do Pai Natal;

– Substituição da figura do Pai Natal por outros heróis do imaginário infantil: dragão, E.T., Ferrão, Guerra das Estrelas…

O anúncio J’ai Tant Rêvé, do Intermarché, indica, em 2017, a tendência: a imagem do Pai Natal precisa ser retocada. Tem defeitos. Está muito gordo, não cabe nas chaminés. As crianças submetem-no a uma dieta vegetariana. E resultou. O Pai Natal entrou pela chaminé e levou a alcachofra.

Marca: Intermarché. Título: J’ai tant rêvé. Agência: Romance. Direcção: Katia Lekowitz. França, Novembro 2017.

A sociedade de sucesso e a flor do lixo

Sucesso, sucesso, sucesso! Estamos condenados ao sucesso. Ser mal sucedido é uma danação. Somos, provavelmente, a sociedade mais fisgada no sucesso. Pelo menos, no micromundo a que pertenço. Próximas só as sociedades de salvação, como a medieval e a moderna. A salvação pode ser encarada como uma espécie de sucesso eterno. Mas, já nesse tempo, o sucesso era decisivo: representava um indício de salvação (Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, 1905).

Nadamos, por palavras, atos e omissões, em lixo. O sucesso e o lixo não são opostos, mas complementares: quanto mais sucesso mais lixo, quanto mais lixo mais sucesso. A nossa sociedade é um monumento ao lixo. Mas não tem o monopólio. O homem medieval, e moderno, usava socos em que enfiava o calçado para o proteger da porcaria das ruas (ver Dois dedos acima da lama: https://tendimag.com/2016/09/30/dois-dedos-acima-da-lama/). O plástico é a nossa perdição e a nossa obsessão. Convive, contudo, com outras ameaças, agora, em segundo plano: os resíduos radioativos, as marés negras, as descargas tóxicas…

O anúncio Make it real, da Square Space, transforma o lixo em arte, e o Ferrão, o monstro resmungão da Rua Sésamo, em artista. Graças a uma fotografia e à Internet, o Ferrão torna-se, num ápice, uma super estrela contrafeita. Santa Senhorinha precisou de mais tempo para calar as rãs. Em suma, uma página profissional na Internet logra prodígios. É esse, precisamente, o negócio da Square Space: disponibilizar páginas de sucesso.

Marca: Squarespace. Título: Make it real / Oscar the Grouch. Estados Unidos, Novembro 2019.

O tema da “arte do lixo” não é uma novidade (A Arte e o Lixo: https://tendimag.com/2013/09/15/7499/). Atente-se, por exemplo, nas esculturas com desperdícios de plástico do português, de renome internacional, Bordalo II (ver galeria). A expressão serve a gregos e a troianos. Para os detractores, denuncia a degradação a que chegou a arte. Para os adeptos, significa a autonomia da arte, contanto relativa e parcial. Quando se faz arte com lixo visa-se a forma e sublima-se o conteúdo. Por outro lado, o recurso ao lixo sublinha que a arte está para além da moral, da religião, da política, da economia e, como diria Pierre Bourdieu (La Distinction, 1979), do gosto bárbaro. A autonomia ergue-se como um baluarte da arte e do artista.

Ontem, um anúncio com o E.T., hoje, com o Ferrão. Será que o Pai Natal vai ter que rivalizar com os heróis infantis dos adultos?

Morrer de prazer

Carlsberg. Snowman. 1998.

Substituindo a garrafa de cerveja por um cigarro, dava um bom anúncio anti-tabaco (AG, 2010).

Publiquei o anúncio Snowman, da Carlsberg, há nove anos no Facebook. Trata-se de um conto de Natal. Uma disforia que dispõe bem. É raro um final infeliz cobrir o coração de ternura e simpatia. Haja talento, inspiração e humanidade! Snowman confronta-nos com o desejo que transcende os limites, incluindo a morte, num contexto de regeneração cósmica: a cabana congeladora, a merenda na floresta, o arroto na água. Não fosse cómico, seria trágico. O anúncio é uma delícia, com sabor a amêndoas com licor.

Anunciante: Carlsberg. Título: Snowman. Agência: Saatchi & Saatchi. Director: David Borthwick. Dinamarca,1998.

A dança dos espíritos abençoados

Gluck. Orphée et Euridice. Opéra en trois actes. 1774.

É mais fácil colocar um anúncio publicitário do que uma música clássica. Esta é, no entanto, um bom amparo contra nuvens pasmadas. Ao procurar dois excertos da ópera Orfeo ed Euridice, do compositor alemão C. W. Gluck (1714-1787), surgem tantos arranjos, versões instrumentais e interpretações que apetece arrepiar caminho. Retive uma versão para piano da “Melodia”, interpretada pela catalã Noelia Rodiles. A segunda escolha foi óbvia: a versão para flauta da “Dança dos Espíritos Abençoados”, interpretada por Jean-Pierre Rampal, um dos melhores flautistas do séc. XX.

Gluck- Sgambati melody from Orfeo ed Euridice live at the Tonhalle Düsseldorf, Feb. 2016. Piano: Noelia Rodiles.
Gluck. Dança dos Espíritos Abençoados. Ópera Orfeo ed Euridice. Flauta: Jean-Pierre Rampal.

O regresso de E.T.

Xfinity. A Holiday Reunion. 2019

Trinta e sete anos depois, um pequeno remake do filme E.T. O extraterrestre visita o amigo, e a família, conhece as novas tecnologias e repete momentos mágicos. Parte, mas deixa um portal para o coração. É uma história de Natal, “a Holiday Reunion”. Para crianças, das mais pequenas às mais crescidas (a geração E.T. ultrapassa os cinquenta anos). Uma aposta forte da marca.