Passagem

Como devem estar felizes os anjos no céu e mais pobres os homens na terra!

Antonio Corradini. Busto de uma mulher com véu (Puritas). Museo del Settecento Veneziano, Venecia. 1725.
Dimitri Shostakovitch. Piano Concerto Nº 2 In F Op-102 – Ii- Andante.

Um bolo em forma de caixão

Sidónios

“Entre as especialidades servidas nesta Casa destacam-se os célebres Sidónios (em homenagem a Sidónio Pais, morto em 1918), bolos em forma de caixão, feitos de amêndoa, açúcar e ovos” (https://olharvianadocastelo.blogspot.com/2011/03/casa-brasileira-mais-antiga-confeitaria.html). Estamos a falar da Confeitaria Brasileira, em Viana do Castelo.

Sidónio Pais em Câmara Ardente. Ilustração Portugueza (23 Dez 1918).

É assunto assente em Viana do Castelo, terra do bolo Sidónio, e em Caminha, terra do Sidónio Pais, que o nome do bolo remete para o presidente da primeira República Sidónio Pais, sepultado no Panteão Nacional, e a forma de caixão, para o seu assassinato no dia 14 de Dezembro de 1918. A memória colectiva tem destas artes: faz, caso disso, acontecer o passado.

Sempre gostei dos Sidónios. Cumpre-me respeitar um novo ritual: fazer da boca um panteão.

Mais inesperado do que o previsto

Pepsi. Encounter. 2019.

Muitos anúncios são paródias. Temas não faltam. Mais importante do que a paródia é o modo surpreendente como é rematada. É neste golpe final que reside o seu fascínio e a sua genialidade. Alguns anúncios a surpresa ultrapassa as expectativas: mostram-se mais inesperados do que o esperado.

Uma paródia dos mil e um “encontros imediatos” com extraterrestres não passa de mais uma entre muitas. Mas se, ao comando de um andróide, o extraterrestre for um peluche, tipo Gremlin, “pepsidependente”, então o anúncio arrisca-se a ficar na memória. Quando um homem mascarado de palhaço entra num banco logo acode a lenda urbana dos palhaços assassinos. Mas o palhaço dirige-se à caixa multibanco e levanta dinheiro com o cartão de crédito… O episódio condiz com as nossas expectativas? Quando aguardamos uma monstruosidade, a normalidade perturba-nos. Estes exemplos revelam que o efeito de estranhamento, eventualmente, grotesco não reside nos fenómenos em si, normais ou anormais, mas na relação que estabelecemos com esses fenómenos.

Marca: Pepsi. Título: The encounter. Agência: Goodby Silverstein & Partners. Estados Unidos, Janeiro 2019.
Marca: London Film Academy. Título: Clown. Agência: F/Nazca Saatchi & Saatchi. Reino Unido, Março 2018.

Música antiga

Mosteiro de Monserrat. Barcelona. Catalunha. Espanha.

Há muito homem para aquém da pós-modernidade. Outros mundos, outras narrativas, outros delírios. O homem nunca foi culturalmente raquítico. À margem das “feiras e das festas medievais” em voga, gosto da música dita antiga.

Llibre Vermell. Original. Pág. 6. Ca. 1399.

Jordi Savall, catalão, compositor, director e instrumentista de viola de gamba, é um dos expoentes da interpretação de músicas antigas originais. Criou, em 1974, com a esposa Monserrat Figueras, o Ensemble Hespèrion XXI. É uma tentação acolher a obra de Jordi Savall no Tendências do Imaginário. “Los Set Gotsx”  e “Stella Splendens” integram as dez composições, todas anónimas, compiladas no Liibre Vermeil de Monserrat, um manuscrito iluminado de finais do séc. XIV, guardado no Mosteiro de Montserrat, perto de Barcelona . Não obstante a “cantilena” do poeta Sebastião da Gama e do cantor Francisco Fanhais, ainda não cortaram o bico ao rouxinol (ver https://tendimag.com/2011/10/16/cronica-de-um-pais-depenado/). Às vezes, faz bem sentir o outro no nosso harmónio, escapulir desta nossa maravilha de fim dos tempos.

Anónimo. Los Set Gotsx. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.
Anónimo. Stella Splendens. Llibre Vermell de Monserrat. Interpretação: Hesperion XXI (dir. Jordi Saval) e La Cappella Reial de Catalunya.

O esplendor da carne

Claude Monet. Nature morte, le quartier de viande. 1864

Sempre admirei os sábios que dialogam teorias como quem fala do tempo. No que me respeita, ainda estou na infância do entendimento. Brinco às teorias. Não sei teorizar sem conhecer. Um pequeno pecado epistemológico. Ultrapassa-me desenrolar um novelo e voltar a enrolar outro novelo com o mesmo fio. Igual na substância, mas diferente na forma! Os fios das crianças têm na ponta um papagaio de papel: sabem se voa ou não.

Marca: McDonald’s Brasil. Título: Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon. Agência: DPZ&T. Direcção: Marcello Lima. Brasil, Janeiro 2019.

O anúncio Novos McNífico com 10 Bacons e Gran McNífico Bacon, da McDonald’s Brasil, estetiza o bacon, resgata-o da vulgaridade sem da vulgaridade o retirar. Não estará a estetização da carne associada à tentação da carne e ao ritual da sua consumição?  A estetização da carne tem um extenso lastro histórico que a McDonald’s retoma. Pintores tais como Rembrandt, Desportes, Goya, Van Gogh, Monet e Bacon dedicaram algumas pinceladas à exposição artística da carne.

Delhia de France. Três dedos de música

Delhia de France.

Estava no céu
E vi uma gaivota
Que me mergulhou no mar
Estava no mar
E vi um peixe
Que me atirou contra as rochas
Estava nas rochas
E vi um caranguejo
Que me arrastou para a areia
Estava na areia
E vi um ser humano
Que não me viu.

Os dias sucedem-se ora burocraticamente académicos e tensos, ora academicamente burocráticos e lentos. Não sobra espaço para a deriva do pensamento. Nestes tempos de coágulo mental, a música é boa companheira. Não é ciumenta e sabe ser pouco intrusiva.

Ouvi pela primeira vez a cantora alemã Delhia de France no anúncio Earth Rising, da Sony (https://tendimag.com/2019/01/05/o-nascer-da-terra/). Cativou-me.

Ontem, 7 de dezembro, a Dra. Ana Macedo concluiu, com brio, as provas de doutoramento em Estudos Culturais. Tive o gosto de ser orientador. Dedico-lhe estes três dedos de música.

Robot Koch and Savannah Jo Lack – Heart as a River (feat Delhia de France). 2016.
Delhia de France. Blank. Moirai. 2018.
Delhia de France. Waterfalls. Moirai. 2018.

O nascer da Terra

Sony Bravia. Earth Rising. 2017.

Os anúncios da Sony são fabulosos. Estranham-se para logo se entranhar com prazer. O anúncio “Earth Rising” é um exemplo fantástico. Companheirismo, travessia e deslumbramento.

Marca: Sony Bravia. Título: Earth Rising. Agência: DDB (Berlim). Direcção: Ben Tricklebank. Alemanha, 2017.

Lembro-me do que não esqueci. Sobretudo, de afectos arquivados. O anúncio “Earth Rising” traz-me à memória uma das mais antigas e originais canções dos Pink Floyd: Astronomy Domine (1967). Lembrar é, muitas vezes, desarrumar o passado. Outras, desembalsamá-lo.

Pink Floyd. Astronomy Domine. The Piper at the Gates of Dawn. 1967. Ao vivo em 1968.

Comprar o arco-íris

Apple. Color Flood. 2018

Say it with colour! Resulta mais bonito e mais tentador. Há anúncios que são autênticas explosões de cores. Por exemplo, o Balls e o  Petals Volcano, da Sony Bravia (ver https://tendimag.com/2013/11/05/erupcao-de-cores/). O anúncio Big Ad, da Carlton Draugh (https://tendimag.com/2017/11/20/epico-de-massas/), é mais parecido com o anúncio do dia, o Color Flood, do iPhone XR da Apple. Nestes dois últimos anúncios, pessoas coloridas formam, como peças de um puzzle, massas dinâmicas. Ao Color Flood, acrescento um anúncio congénere da Sony Bravia: More Brilliance More Beauty. A publicidade consta entre as actividades mais coloridas do nosso tempo. Bom dia! Bom ano! A beleza vitaliza.  

Marca: Apple. Título: Color Flood. Direcção: Rupert Sanders. Estados Unidos, Dezembro 2018.
Marca: Sony. Título: Balloons. Agência: DDB (Berlim). Alemanha, Setembro 2016.

Cansaço

Memento mori ©2017 por Valentine Lasselin-Nowak.

Ano novo, corpo velho! Arrasto-me. Um enfisema pulmonar cansa; insuficiência renal cansa; um beta bloqueador para o coração cansa; má circulação cansa; diabetes com glicémia acima de 200 cansa; um cocktail de medicamentos para a “cabeça” cansa; Os triglicerídeos nos 450 cansa. O meu corpo é um calhau da Serra de Arga. A insuficiência renal e a glicémia alta dão sede. Bebo como um danado. Sou um autotanque sem rodas.

Quem dera transplantar o cérebro noutra pessoa. Se me coubesse uma mulher, ainda ficava hermafrodita (ver Robert A. Heinlein, I will fear no evil I, 1970). Entretanto, estou com gripe. Entre mim e a gripe, existe uma atracção fatal. Não obstante as vacinas injectável e oral, consegue abraçar-me. Com gripe, arrasto-me a dobrar. A família entendeu mostrar-me, com humor, um espelho: o poema “Todos os homens são maricas quando estão com gripe”, do António Lobo Antunes, recitado pelo Pedro Lamares. Em boa hora!

António Lobo Antunes. Todos os homens são maricas quando estão com gripe”. Recitado por Pedro Lamares. Museu D. Diogo de Sousa, 2013.

“Somos pó, e ao pó voltaremos”. Então, não haverá desigualdades nem doenças. Apenas infortúnios da alma. Por enquanto, somos o que somos. Quem diria que uma canção contemporânea podia ser um belo momento mori?

Kansas. Dust in the wind. Point of known return. 1977. Ao vivo no Chile em 2006.

A vontade de beber

Ampulheta. Verão Super Bock.

Não tenho destacado devidamente a publicidade portuguesa. Parto do princípio de que os seguidores do Tendências do Imaginário já a conhecem. Um duplo erro: no ano 2018, as consultas provenientes de Portugal resumem-se a 18,8%. Tendência do Imaginário não é uma página apenas para portugueses. Oito em cada dez consultas provêm do estrangeiro. Em segundo lugar, muitos portugueses desconhecem a publicidade nacional, por não exposição, por exemplo, aos canais em que é difundida.
A Super Bock pertence às marcas consistentes e distintas da publicidade portuguesa. Frisa a excelência, contrata as melhores agências nacionais e internacionais, os anúncios caracterizam-se pelo apuro pragmático e estético da fotografia, da imagem, do ritmo, da música, do texto, do tema e do lema. São anúncios com personalidade que convocam, explicitamente, três valores: a confraternização, a amizade e a autenticidade, normalmente num ambiente festivo de exaltação colectiva, de preferência nacional, em que a linguagem corporal suplanta a palavra. O primeiro anúncio enquadra-se neste padrão. O segundo é, no meu entender, uma pequena excepção na paleta da Super Bock. Existe confraternização e amizade, mas em “segundo plano”. O primeiro plano centra-se na autenticidade na relação de um jovem casal.
Permitam-me um reparo despropositado: o início do anúncio “90 anos a fazer amigos” causa-me uma leve estranheza; o povo não me parece português. Os meus estereótipos apontam, eventualmente, para o povo irlandês. Não sei por quê. Talvez as coberturas: muitos bonés, alguns chapéus e boinas, só militares. Em suma, já não tenho olhos de ver.
A música dos anúncios da Super Bock é decisiva. Uma escolha criteriosa. Cada anúncio é acompanhado pelo correspondente vídeo musical.

Marca: Super Bock. Título: 90 anos a fazer amigos. Agência: O Escritório. Direcção: José Pedro Sousa. Portugal, Março de 2017.
Benjamin Clementine. Nemesis. At least for now. 2015.
Marca Super Bock. Título: Momentos. Produção: Ministério dos Filmes. Direcção: José Pedro. Portugal, 2008.
Brandi Carlile. The Story. The Story. 2007.