Felicidade, Fantasia e Dança

Com duas décadas de experiência em design, Kelly Boesch é pioneira em termos de linguagem visual com recurso à IA. Alcançou mais de 1,5 milhão de seguidores e 60 milhões de visualizações por mês em diversas plataformas. Encara a IA como uma interlocutora poderosa, que expande os limites da criatividade conjugando a arte humana e com a capacidade de aprendizagem da máquina.
Como o asno de Buridan no meio da ponte, hesitamos entre dois vídeos de sua autoria: “I found happiness” e “Be Kind”. Além da felicidade, o primeiro ilustra a dança e o segundo, a fantasia. Ambos duram três minutos. Com um limite máximo assumido de 4 minutos para qualquer autor, não é possível contemplar os dois.
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Etapas do método científico
A investigação é uma espiral sequencial sem fim, para quem tem o espírito muito arrumado.
O Valor da Diferença
À M

Rever-se no olhar dos outros é um consolo; não sentir o mérito reconhecido, uma desgraça. Pensei incluir os subtemas inclusão e reconhecimento no vídeo dedicado à Felicidade. Mas a duração de cerca de 1 hora já duplica o previsto. Sinal de que a participação ultrapassou as expetativas. Impõe-se filtrar e cortar. Com alguma frustração. Os três vídeos seguintes, como muitos outros, ficam, assim, de fora. Coloco-os neste último reduto. Sensibilizam!
Flor no deserto
Existem interpretações que são sucessos musicais isolados. Palpita-me ser o caso do cover pela italiana Vehlade da canção “Why Can’t We Live Together”, original de 1972 do norte-americano Timmy Thomas. Anda a soprar-me aos ouvidos há bastante tempo. Coloco-a, junto com o original, para a arquivar.
Moinhos do Coração. Regresso à Felicidade

Para o vídeo sobre a felicidade que a turma de Sociologia da Arte e do Imaginário está empenhada em produzir, a Margarida Gomes propôs o videoclip, excelente, da canção “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand, interpretada por Anne Sofie Von Otter e Brad Mehldau. Para acompanhar, sugere a frase “Felicidade são os momentos vividos e retidos”.
O vídeo recorre às técnicas frozen action e bullet time para ilustrar o modo como os acontecimentos marcantes podem ficar recordados. Na verdade, os momentos da vida não ficam congelados na memória. Esta, viva, não cessa de os alterar e ressignificar.
Michel Legrand, falecido em 2019, com 86 anos, é um dos grandes compositores e pianistas franceses. Entre muitos prémios, recebeu o Oscar de melhor banda sonora pelos filmes Summer of ’42 e Yentl. Acresce o Oscar de melhor canção original por “The Windmills of Your Mind” do filme The Thomas Crown Affair.
Não deixo passar a oportunidade para colocar três músicas do Michel Legrand: “The Windmills Of Your Mind” (1969; “Les Moulins de Mon Coeur”, original 1955), interpretada por Sinne Eeg; “Je ne pourrai vivre sans toi”, com Maurane; e “Summer of ’42”.
Transtornos trazeiros

Desviar o foco para o trazeiro não é propensão recente das artes da publicidade.
Atente-se, por exemplo, nestes dois anúncios germânicos, datados de 1999 e 2001, livremente inspirados em filmes de cowboys: “Jacuzzi”, da Casa Fiesta Chili Beans, e “Duel”, da Mey Bodywear.
Desbunda

Tradução do texto:
• É melhor limpar o cú com um ganso bem peludinho, desde que se segure a cabeça do ganso entre as pernas. E acreditem na minha honra. Porque sentem no cú uma voluptuosidade mirífica, tanto pela suavidade da penugem como pelo calor temperado do ganso, que facilmente se comunica ao intestino reto e a outros intestinos, até chegar à região do coração e do cérebro. E não pensem que a beatitude dos heróis e semideuses, que estão pelos Campos Elísios, esteja no seu asfódelo ou ambrosia, ou néctar, como dizem estas velhas piadas. Ela está (segundo a minha opinião) em que se limpam o cú com um ganso. (Excerto do capítulo XIII, do livro Gargântua, de François Rabelais, com primeira edição em 1534).
Quando o traseiro se adianta e o baixo se ergue, estamos perante alguma espécie de carnaval ou aproximam-se tempos brutescos. Para o bem e para o mal.
Alterações climáticas. Hipocrisia
Eis um anúncio da Greenpeace deveras oportuno. Em diversos tempos e escalas. Por cá e alhures.
A Eni, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo, está a utilizar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno para maquilhar a sua destruição provocada pelos combustíveis fósseis.
Não se pode proteger os desportos de Inverno enquanto um dos maiores patrocinadores dos Jogos estiver a alimentar a crise climática.
Os poluidores não devem subir ao pódio nos Jogos. É tempo de o Comité Olímpico Internacional abandonar o patrocínio do petróleo e do gás.
Ratoeira
Sugerida por Teresa Carneiro, a curta metragem de animação “Happiness”, de Steve Cutts, é fabulosa (creio ser o adjetivo mais apropriado). Como escreve a Teresa, esta miragem de felicidade pode ser encarada como resultante de uma opção viciada: “A ‘Felicidade’ dos Ratinhos retrata a forma como a maioria dos seres humanos a tenta obter, de forma errada, a todo o custo e apenas conseguem viver uma vida sem sentido – o problema”.
Mas também pode exprimir um cenário ou uma situação limite do “mal-estar” incubado numa certa civilização (Sigmund Freud), mote, aliás, de muitos filmes de ficção científica (ver o vídeo “A Verdade Que Freud Revelou Sobre a Felicidade – E Que A Sociedade Não Quer Que Você Saiba”, de Mente em Progresso, sugerido por Amélia Carmen Cardoso).

A beleza masculina na publicidade
A beleza física não é apenas um atributo do gineceu, mas também do androceu, bem como do andrógeno. A publicidade que o diga! Entre muitos outros, o anúncio “Novo Malbec Black Legend | Uma lenda sempre reconhece a outra”, da marca O Boticário, revela-se um excelente exemplo.

Beleza masculina para um produto destinado a homens?! Não é de estranhar. Ocorre o mesmo com os outros géneros. Por exemplo, belezas femininas para produtos destinados a mulheres. Homossexualidade? Nem por isso… Provavelmente, está em jogo um desígnio de projeção e, se possível, de imersão ou envolvimento Quer-se o eu a reconhecer-se, senão sentir-se, no outro.
Subsiste, porém, uma leitura alternativa, não incompatível. Algures, não sei onde, nem quando, mas há quase duas décadas, escrevi o seguinte:
Vários estudos sustentam que a maior parte das compras não se destinam ao próprio, mas a outros. Acresce que quando uma pessoa decide uma compra convoca, frequentemente, o olhar, o gosto e o interesse, de outrem. O ato de comprar encerra, assim, uma componente sacrificial. Quando alguém compra, entrega-se. A compra é uma dádiva de si, que se agudiza nos picos convencionais de generosidade como o Natal. Os anúncios prestam-se a dar uma mão!” (Compra sacrificial).
Comprador e consumidor nem sempre coincidem. Aliás, mesmo quando se compra para si pode ocorrer influência alheia, o dito espelho dos “outros significativos”. O público alvo dos anúncios pode resultar menos quem usa e mais quem interfere na escolha. Se for, por exemplo, a companheira, um toque atraente de masculinidade pode fazer a diferença.
Em termos de género, a publicidade a cosméticos e produtos de beleza tende a ser, não unívoca nem unissexo, mas multidirecional ou ambivalente.
AlmapBBDO, São Paulo. Brasil, janeiro 2026
Este anúncio é sedução pura. Com imagens surpreendentes, a imersão é fatal, inevitável. Confesso que não sabia quem ele era [o ex-jogador de futebol brasileiro Kaká], mas não importou. Mas para o homem que gosta de desporto, importa! É uma mescla de 007 com o homem comum, e ainda assim, extraordinário!
Um anúncio fantástico!
E se restar qualquer dúvida, eu fiquei seduzida. Sim, compraria para alguém.
(Almerinda Van Der Giezen, 15.02.2026)
