Ler para ser

Marca: L’Equipe. Título: Oh papa c’est toi. 2010.

Femicídio. Do idílio ao suplício

Bernini. O rapto de Proserpina. 1622.

História de um “amor” violento. Um drama que resume o que se sabe acerca de muitos casos de violência contra as mulheres.

Anunciante: Lacta & Diotima. Título: Don’t Ever Leave Me. Agência: WPP. Direção: Argyris Papadimitropoulos. Grécia, novembro 2021.

Y los niños volarán! (Crossing the purgatory bridge)

Masters of the Dark Eyes, Angels Releasing Souls from Purgatory. From a Book of Hour._The Hague, Koninklijk Bibliotheek_MS KB 76 G , fol. 171r. 1490.

El niño es bello
sólo miren sus grandes ojos marrones
podría ser Gardel
podría ser Márquez
sólo necesita un poco de ayuda para volar
Si el paisaje se cierra
otro cielo se abrirá
con sol o entre la niebla
los niños volarán

“The Child Will Fly” é uma canção de Roger Waters (com Gustavo Cerati, Shakira, Eric Clapton), gravada em 2014 para a Fundação Alas (Madrid) com o objetivo de ajudar as crianças da América Latina. O vídeo, dirigido por Diego Kaplan, foi filmado na Villa 31, na Argentina.

Roger Waters. The Child Will Fly (com Gustavo Cerati, Shakira, Eric Clapton), para a Fundação Alas. Direção do vídeo: Diego Kaplan. 2014.

Uma vida traduzida em covers

Crucifixo, pelo Maestro di Santa Chiara, ca. 1260. Santa Chiara, Assisi. Retomei a pesquisa sobre a evolução das imagens de Cristo, iniciada com um texto de 2011: As Duas Faces: Imagens de Cristo.

Aos vinte anos, ouve-se música dos 70’:

Bob Dylan. Knockin’ On Heaven’s Door. Pat Garrett & Billy The Kid. 1973.

Aos trinta, ouve-se música dos 90’:

Gun’s N’Roses. Knockin’ On Heaven’s Door. Days of Thunder. 1990.

Aos quarenta, música dos 2000’:

Roger Waters. Knockin’ On Heaven’s Door. Flickering Flame: The Solo Years Volume 1. 2002.

E aos cinquenta, música dos 2010’:

Raign. Knockin’ On Heavens Door. Knocking On Heaven’s Door – EP. 2015.

O Cristo leproso

Cristo na cruz, dito Cristo leproso, da leprosaria de Bajasse. Basílica de St Julien, Briioude (Haute-Loire).

A lepra assombrou a vida durante a Baixa Idade Média. Os leprosos eram confinados fora das coletividades. Há imagens que insistem em regressar. Acontece com o crucifixo dito do Cristo Leproso. A braços com uma nova pandemia, afigura-se-me que o nosso tempo ainda não encontrou um ícone com o alcance simbólico à altura deste Cristo Leproso.

“Existe na basílica de Saint-Julien de Brioude (Haute-Loire) uma imagem impressionante de Cristo na cruz comumente chamada o Cristo leproso. Esta obra, realizada para a capela da antiga leprosaria de Bageasse (fundada em 1161 por Odilon de Chambon), data do fim do século XIV. De tamanho maior que o natural, o Cristo é de madeira maruflada polícroma. A sua pele apresenta inúmeras alterações que, acrescentadas às inclemências do tempo, evidenciam a solidariedade do Salvador em relação a esta figura maior da pobreza que é o leproso da Idade Média (…) Segundo uma antiga lenda, um leproso ter-se-ia deitado sobre esta cruz implorando a cura e a doença se transferiu para a imagem esculpida. Independentemente do grau de historicidade desta lenda e da vontade do artista, este Cristo tornou-se conhecido por todos como o Cristo leproso” (Arnaud Montoux. Contempler Le « Christ lépreux » de Brioude: https://www.la-croix.com/Journal/Le-Christ-lepreux-Brioude-2018-02-10-1100912646).

No livro Pandémies – Des Origines à la Covid-19 (publicado em Abril pela editora Perrin, Patrick Berche escreve:

“Para separar os leprosos da comunidade, era necessário fazer o diagnóstico para distinguir a lepra das restantes numerosas infeções cutâneas tão frequentes naquele tempo. Os doentes suspeitos tinham que ser examinados por um júri, primeiro, eclesiástico, em seguida, médico, junto com os miseráveis. No séc. XIII, atribui-se uma importância decisiva aos sintomas neurológicos iniciais (insensibilidade, paralisias…). Na realidade, o isolamento não era absoluto. Os miseráveis não eram afastados à força. Eram advertidos daquilo que lhes era proibido, a que chamavam “defenses”: obrigação de dar o sinal e proibição de entrar nas igrejas e nas casas. Podiam circular pelo país desde que evitassem os centros urbanos. Fora da leprosaria, deviam trazer os seus atributos: a capa com capuz com um pedaço de tecido vermelho no peito, as luvas, o chocalho de madeira (“flabel”) para se fazer anunciar, a tigela para as esmolas, o bastão para não tocar em nada diretamente. As regras de sequestração foram aplicadas severamente nos séculos XII e XIII, sendo aliviadas no século XIV. Existiam leprosos errantes, muitas vezes expulsos da sua localidade de origem ou de um lazareto, oficialmente por motivo de distúrbios e insubordinação. Vagabundeavam, à procura de santuários com santos curadores. Encontravam-se frequentemente nas entradas das cidades, mendigando para sobreviver. Algumas vezes, grupos invadiam as cidades e instalavam-se na praça pública, no meio da multidão, onde a mendicidade era mais lucrativa mas onde, em contrapartida, as atitudes de rejeição eram as mais vivas.
Na Idade Média tal como na Antiguidade, pensava-se que a lepra era uma punição divina que afetava a alma e o corpo na sequência de um pecado. Apesar da sua exclusão do mundo, a atitude face aos leprosos permanecia ambígua. Temia-se o leproso que provoca repulsa e que é considerado um pária, à semelhança dos hereges e dos Judeus. É impuro e deve expiar as suas faltas. Ao mesmo tempo, é, de certo modo, uma dádiva de Deus. Tinha sido “distinguido”, sobremodo porque contraiu, por vezes, a doença por ocasião de uma peregrinação ao Oriente. Não é a imagem viva do Cristo sofredor? Isto é recordado pela parábola de rico malvado e do pobre Lázaro. Representou-se, inclusivamente, Cristo na cruz como leproso, símbolo da redenção dos homens. Visível na basílica de Saint Julien de Brioude (Haute-Loire), este “Cristo leproso” é um grande crucifixo em madeira maruflada polícroma, datada de finais do século XIV e proveniente da capela da antiga leprosaria de Bajasse (Vieille-Brioude). Segundo a lenda, um leproso ter-se-ia deitado sobre a estátua implorando a cura: a doença ter-se-ia transferido para a estátua, uma espantosa metáfora do contágio da lepra” (Patrick Berche, livro Pandémies – Des Origines à la Covid-19).

Cristo Leproso. Brioude. Detalhe.

Aproveito para lembrar dois episódios da religião cristão. Cristo cura dez leprosos, mas apenas um regressa para lhe agradecer. São Francisco sente-se impelido a abraçar um leproso, que, afinal, era uma encarnação de Cristo. O Cristo leproso condiz com a postura franciscana que vigorava na Idade Média.

Oportunismo simbólico

Se existem Big Ads, o anúncio Sustainability da Mercedes-Benz é candidato. Vento, quase só vento, visível pelos seus efeitos, sob múltiplas formas. O vento permanece um tópico forte do nosso imaginário. Existem três tendências que se afirmam na publicidade atual: a energia, a ecologia e a música “eletronizada”. Destacam-se as três no anúncio. Mas a marca principal reside no sentido de oportunidade: a sobreposição da estrela da Mercedes e da ventoinha da eólica. Ao anúncio, acrescento a interpretação da canção Come Together, dos Beatles, por Lauren O’Connell.

Marca: Mercedes-Benz. Título: Sustainability Initiatives from Mercedes-Benz. Agência: Publicis Emil, Berlin. Direção: Nicolai Fuglsig. Alemanha, março 2021.
Lauren O’Connell. Come Together. Come Together. 2021

Ouvir mais uma vez

OuvNão me importo de ouvir uma, duas, três vezes a canção Je crois entendre encore, da ópera Les Pêcheurs de Perles (1863), de Georges Bizet. A primeira, interpretada por Allison Moyet; a segunda, por Plácido Domingo; e a terceira, por David Gilmour, acompanhado ao violoncelo por Caroline Dale.

Allison Moyet. Je Crois Entendre Encore. Voice. 2004.
Plácido Domingo. Je Crois Entendre Encore. 80 Great Arias. 2021.
David Gilmour. Je Crois Entendre Encore. Live At Pompeii 2017. DVD.

A BBC em Lamas de Mouro e Pomares (Melgaço)

Discovering Portuguese. BBC.

ENCONTREI! Encontrei, finalmente, imagens das filmagens da BBC, no início de setembro de 1987, dedicadas à pastorícia em Lamas de Mouro e à feira de gado cavalar e muar, em Pomares. Integram o terceiro episódio da série Discovering Portuguese, dedicada ao ensino da língua portuguesa. As sequências são poucas e breves.

Cumpriu-me, a pedido de Mário Alves, ser o anfitrião: selecionar e contatar previamente as pessoas, escolher as atividades, os locais e os percursos. Veio uma equipa com uma dezena de profissionais. Cada pessoa entrevistava assinava os direitos e recebia uma quantia em dinheiro. Durante as filmagens, só atrapalhei. No episódio da passagem do gado na ponte de Lamas de Mouro, coloquei-me do outro lado a distância, aparentemente, mais que prudente. Mesmo assim, as cabras e as ovelhas, ao ver-me, estacaram. Nem para a frente, nem para trás. Foi preciso recuá-las e voltar a filmar. A manhã foi suficiente para acabar o trabalho. Almoçámos no restaurante Mané, em Monção. Durante a viagem, a Roberta Fox, apresentadora no vídeo, fez-me companhia no meu carocha 1500 cor-de-laranja, que tinha o vício, para além da gasolina, de, sempre que travava, guinar para a direita. A carta de condução ainda estava fresca. E ela estava com pressa. À tarde, iam filmar a festa de Nª Senhora da Bonança, em Vila Praia de Âncora. Acredito que esta viagem foi a maior aflição da sua estadia em Portugal.

Logo no início do vídeo, aparece a passagem do gado na ponte de Lamas e a feira do gado em Pomares, e, a partir do minuto 19’, a reunião do gado proveniente de várias cortes, característica da vezeira, e a entrevista à pastora. É pouco, mas sempre é uma ponta por onde se pode pegar para tentar aceder a outras partes então gravadas.

Este documentário não vale apenas pela presença de Lamas de Mouro e Pomares. Vale também pelas imagens de outras terras do Norte de Portugal e pelos testemunhos, entre outros, de José Saramago, após a publicação da Jangada de Pedra (1986), e Mário Soares.

BBC Discovering Portuguese 03. By Alan Freeland, Terry Doyle (Editor). BBC, 1987.

Reinvenção

O que foi bem dito, mesmo que esquecido, será repetido. Não me lembro qual foi o otimista que disse isto, mas alguém foi. Esta sentença aplica-se aos anúncios seguintes: o primeiro criou, o segundo retoma. Retoma duas maneiras paradigmáticas de estar no mundo: a reta e a curva. Segue em frente ou vai dar uma curva. O clássico e o barroco.

Marca: Citroen C-Crosser. Título: The New Road. Agência: H paris. Produção: Cosa. França, 2007.
Marca: Alpine. Título: Go Straight. Agência: Havas. Diretor criativo: Stéphane Gaubert. França, Abril 2021.

Um meio entre nada e tudo

Um anúncio magnífico, original na forma e no conteúdo, promovido por uma empresa francesa de navios de cruzeiro.

Anunciante: PONANT. Título: The North Pole, The South Pole, And You. Agência: Fred & Farid Los Angeles. Direção: ACCIDENT. Estados-Unidos, Novembro 2021.

Que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada: um meio entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender os extremos, o fim das coisas e o seu princípio estão para ele invencivelmente ocultos num segredo impenetrável; igualmente incapaz de ver o nada de onde foi tirado e o infinito que o absorve (Pascal, Pensamentos).

“Não sei quem me pôs no mundo nem o que é o mundo, nem mesmo o que sou. Estou numa ignorância terrível de todas as coisas. Não sei o que é o meu corpo, nem o que são os meus sentidos, nem o que é a minha alma, e até esta parte do meu ser que pensa o que eu digo, refletindo sobre tudo e sobre si própria, não se conhece melhor do que o resto. Vejo-me encerrado nestes medonhos espaços do universo e me sinto ligado a um canto da vasta extensão, sem saber porque fui colocado aqui e não em outra parte, nem porque o pouco tempo que me é dado para viver me foi conferido neste período de preferência a outro de toda a eternidade que me precedeu e de toda a que me segue.
“Só vejo o infinito em toda parte, encerrando-me como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante que não volta.
“Tudo o que sei é que devo morrer breve. O que, porém, mais ignoro é essa morte que não posso evitar.
“Assim como não sei de onde venho, também não sei para onde vou Sei, apenas, que, ao sair deste mundo, cairei para sempre no nada ou nas mãos de um Deus irritado, sem saber em qual dessas duas situações deverei ficar eternamente. Eis a minha condição, cheia de miséria, de fraqueza, de obscuridade (Blaise Pascal, Pensamentos).