Gesto

Compaixão Tailândia

“O coração tem suas razões, que a razão não conhece: sabe-se isso em mil coisas” (Blaise Pascal, Pensamentos).

Boa parte das curta-metragens orientais, nomeadamente os anúncios publicitários, partilham algumas características. São aforismos que desassossegam a sonolência humana. Nevrálgicos e emotivos, são lentos; um adagio de imagens em movimento.

O homem é um animal que ri, que fala e que pensa. O humor, a palavra e a ideia. Pois, nas curta-metragens orientais, o homem é, antes de mais, um animal de gestos. Gestos que resgatam a vida. No mundo da experiência, o mal existe e o bem persiste. Um pequeno gesto faz a diferença.

O vídeo tailandês Compaixão, dirigido por Thanonchai Sornsriwichai (Tor), afina-se por este diapasão: um instante, um contacto, um gesto, uma vida!

Anunciante: True Move H. Título: Compassion. Agência: Ogilvy & Mather. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai (Tor). Produção: Phenomena Bangkok. Tailândia, Abril 2015.

Sevdaliza

Sevdaliza

Uma descoberta que nos cativa é uma janela aberta para o prazer. Conheci a música de Svdaliza na página de facebook da Helena Amaro: https://www.facebook.com/helena.amaro.12.

Sevdaliza é uma cantora de origem iraniana residente na Holanda. Prevê-se o lançamento do seu primeiro LP, ISON, no próximo dia 26 de Abril. Entretanto, publicou vários EPs. A canção “Human” foi editada em 2016 como single e como vídeo musical; “Hubris” foi publicada como single em 2017. Ambas integram o LP ISON.

Sevdaliza. Human. Dir. Emmanuel Adjei. 2016.

Sevdaliza. Hubris. 2017.

A mulher real

Dove. Mulher Real.A publicidade da Dove (Unilever) distingue-se pela recusa da imagem estereotipada da mulher cuidadora ou sexy. Esta rejeição depressa se transformou numa causa e numa campanha rumo a uma nova definição da mulher. O anúncio Image_Hack Case Study compila e contrasta imagens de “mulheres belas” e imagens de “mulheres reais”. Muitas “mulheres reais” apresentam-se numa pose “assumida” e “robusta”, por vezes, “guerreira”. Há poucas décadas, dir-se-ia, com sobranceria machista, uma pose masculina. Imagens semelhantes foram propagadas em vários regimes do século XX. Até nos selos as estampavam! Sexy women? Observe uma “mulher bela” e uma “mulher real”; é difícil separar as águas: os caminhos da sexualidade são insondáveis.

A Dove pretende trabalhar em rede, sobretudo com empresas e agências de publicidade: todos são poucos para espalhar a palavra. A Dove não abraçou apenas uma missão, encontrou um filão. Afigura-se-me que está a montar um dispositivo, do qual, tão cedo não sairá. Um dispositivo disciplinar. Um dispositivo que disciplina o olhar através de uma di-visão da realidade centrada na figura da “mulher real”. As campanhas da Dove lembram, até certo ponto, as campanhas da Benetton, embora menos abrangentes, porque confinadas às relações de género, mais precisamente, à representação da mulher.

Dove. Mulher Real 2

Para um comentário alargado do anúncio Image_Hack Case Study, ver http://www.adweek.com/creativity/how-dove-is-hacking-photography-to-change-the-way-advertising-depicts-women/.

Marca: Dove. Título: Image_Hack Case Study. Agência: Mindshare, Denmark. Director criativo: Kenneth Kaadtmann. Dinamarca, Abril 2017.

O aguilhão da inteligência

AbelhaConcentração! Muita concentração… O teste é manhoso. Na sala, nem um murmúrio. Apenas o zumbido de uma abelha, que pousa no ombro. Veio para ficar. Longos minutos, pele contra patas, braços contra asas. Estaremos perante uma nova técnica de alavancagem de testes? Algo como um aguilhão à inteligência? Vinte garantido. Esta experiência, recente e verídica, lembra o anúncio, antigo, da companhia de seguros Centraal Beheer, protagonizado por um funâmbulo e uma abelha.

Marca: Central Beheer. Título: Wasp. Agência: Result/DDB. Direcção: Paul Vos. Holanda, 1999.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

A resposta está no fundo

NBFF

A resposta, meu amigo, não está no vento, está no fundo! Perto do museu de cera dos esqueletos. Tu, que vagueias à deriva, não desperdices garrafas. A resposta está no fundo, junto ao cemitério da ambição humana.

Bob Dylan escreveu, em 1962, a canção “Blowing in the wind”, publicada em 1963 no álbum Free Wheelin’. No mesmo ano, surge uma versão cantada pelos Peter, Paul & Mary. Um prémio Nobel dispensa uma micro divulgação; Peter, Paul & Mary talvez sim, talvez não.

Marca: 2017 NBFF. Título: Go Deeper. Agência: RPA. Direcção: Jed Hathaway. USA, Abril 2017.

Peter, Paul & Mary. Blowing in the wind. In the Wind. 1963. Ao vivo em 1965.

Surreal: o homem piano

banff-centre-things-you-cant-unthink-600-70113

Encontrei no sapatinho das maravilhas este anúncio do Banff Center for Arts and Creativity, do Canadá. Estranho e delirante, vibra nos meus sentidos com uma invulgar ternura surreal. Discute-se nas redes sociais se é ou não arte. Afirma-se mais original, criativo e impactante do que muita arte que tive o privilégio de observar. Mas, se é ou não arte, que o ponderem os juízes da estética. Lembra-me arte. Arte da melhor! Por exemplo, Hieronymus Bosch (ver https://tendimag.com/2016/12/19/hieronymus-bosch-death-metal/) ou François Desprez (ver https://tendimag.com/2012/04/21/criaturas-pantagruelicas-1/).

A lembrança é amiga da vadiagem do espírito. Lembrei-me dos Ban (Irreal Social, Surrealizar, 1988). Conquistaram um apreciável sucesso nacional no final dos anos oitenta. É um grupo com música identificável. Uma das qualidades para ser digno de memória. No Tendências do Imaginário, os visitantes portugueses estão em minoria. Não admira. O blogue fala do mundo em língua portuguesa. Podia falar de Portugal, ou do mundo, em língua estrangeira. Sempre seria mais friendly! Seja como for, Portugal, embora nem sempre pareça, faz parte do mundo. Venham os Ban! Pim-Pam-Pum!

Marca: Banff Center. Título: Things you can’t unthink. Agência: Cossette Toronto. Direcção: Rodrigo García Saiz. Canadá, Abril 2017.

Hieronymus Bosch. Jardim das Delícias. Instrumentos musicais.

Jardim das Delícias inferno 4Minolta DSCJardim das Delícias Inferno 6Jardim das delícias 7

Hieronymus Bosch. Jardim das delícias. Inferno. Detalhes. 1503-1504.

François Desprez. Songes Drolatiques. Homens instrumentos musicais.

F19F21Les songes drolatiques de Pantagruel ...

François Desprez. Songes Drolatiques. 1565.

Ban, Irreal Social, Surrealizar, 1988.

Por um nome

Reggiani

Serge Reggiani

Acaba de sair o anúncio “El nacimiento de un nombre”, da revista Hahora Mamá. É longo, lento e fala ao coração. Confrontada com costume de atribuir o nome das bisavós às bebés, a bisavó Haydée muda o nome para Matilda, o nome por todos desejado. Pela duração, pela lentidão e pelo enredo, “El nacimiento de un nombre” lembra alguns anúncios orientais. Certo é que a imaginação dos publicitários não tem limites.

A canção francesa tem particular apetência pelo tema da velhice e do envelhecimento. Retenho a Sarah de Serge Reggiani (Album nº2, 1967).

Marca : Ahora Mama. Título : El nacimiento de un nombre. Agência: Ogilvy & Mather Argentina. Direcção: Los Clan. Argentina, Abril 2’017.

Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

Labirinto de cegos

The Blind Leading the Blind, Pieter Brueghel the Elder, 1568.

Pieter Brughel. O Cego Conduzindo Cegos. 1568

Jean_Martin,_Les_Aveugles,_1937,_huile_sur_toile,_Lyon,_musée_des_Beaux-Arts

Jean Martin. Os Cegos. 1937. Lyon, Musée des Beaux Arts.

Há anúncios orientais, como este da Top Charoen Optical, que me ultrapassam. Que ligação existe entre quatro ladrões pitosgas e um banco de esperma? Uma empresa óptica. Nada como o absurdo para converter um deficiente visual. O disgusto pede óculos. O resto é imaginação desinibida. Apenas uma perplexidade: por quê o esperma como figura da desgraça?

Este anúncio tailandês lembra-me algumas obras de arte. Com mais de quatro séculos, o quadro de Pieter Brueghel, “um grupo de cegos conduzido por um cego” (1568), permanece actual. O quadro de Jean Martin, “os cegos” (1937; Lyon, Musée des Beaux Arts), condiz com a arte da desventura característica do Período entre as Duas Guerras Mundiais.

Marca: Top Charoen Optical. Título: The Bank. Agência: J. Walter Thompson Bangkok. Tailândia, 2003.

A pauta e as teclas

glenn-gould-spiller-bach-klaverkoncert-nr-1-5-nr-7-2-cd-sony

É rara a junção de três génios da música: a introdução de Leonard Bernstein, a composição de Bach e a interpretação de Glenn Gould. Não sabia que as pautas no tempo de Bach davam tanto lugar à interpretação. É interessante presenciar o início da carreira de Glenn Gould e da sua dedicação à obra de Bach. Pode não se gostar, mas não se deve subestimar.

Glenn Gould e Leonard Bernstein: J. S. Bach, Concerto para piano nº 1 em Ré Menor (BMW 1052).