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Androides

RC Cola. Band. Filipinas. 2021.

L’homme qui veut dominer ses semblables suscite la machine androïde. Il abdique alors devant elle et lui délègue son humanité. Il cherche à construire la machine à penser, rêvant de pouvoir construire la machine à vouloir, la machine à vivre pour rester derrière elle sans angoisse, libéré de tout danger, exempt de tout sentiment de faiblesse, et triomphant médiatement par ce qu’il a inventé. Or, dans ce cas, la machine devenue selon l’imagination ce double de l’homme qu’est le robot, dépourvu d’intériorité, représente de façon bien évidente et inévitable un être purement mythique imaginaire. » (Simondon, Gilbert. 1958. Du mode d’existence des objets techniques. Paris, Éditions Aubier-Montaigne, p. 10).

O Extremo-Oriente habituou-nos a anúncios absurdos e hilariantes. Pela imagem e pela narrativa. O anúncio filipino Band, da RC Cola, é um bom exemplo deste género de grotesco. Os androides, fruto de uma imaginação desinibida, asseveram-se, simultaneamente, desconcertantes, ávidos e cordiais.

Marca: RC Cola. Título: Band. Agência: GIGIL. Direção: Marius Talampas. Filipinas, janeiro 2021.

O medo e a culpa. Covid-19

SNS 24. Não deixes o vírus entrar, usa máscara sempre que possível. Dezembro 2020.

“Jouer sur la peur c’est décrédibiliser toute information “ (Lecorps, Philippe, L’éducation par la peur, une campagne anti-tabac. Santé Publique 2002/3, Vol. 14, p. 285).

A educação pelo medo e pela culpa tem um lastro histórico imenso. A eficiência é, no entanto, duvidosa, mesmo nas sociedades medonhas dos regimes totalitários. O medo e a culpa convocam mais a emoção do que a razão. Nestes termos, a reação corre o risco de ser irracional e imprevisível. Na fase atual da pandemia, multiplicam-se anúncios que lembram a campanha antitabaco: imagens duras, pautadas pela aflição e pela contrição. Incomodam-me duas eventualidades: De tanto recorrer à imagem do mal, não o banalizamos? O que significa assustar uma comunidade assustada? Faço votos que as campanhas de prevenção da Covid-19 colham mais sucesso do que a campanha antitabaco. Selecionei, entre os menos chocantes, sete anúncios: dois portugueses e cinco espanhóis (vídeos 3, 4 e 5). Pensamento obtuso não tem conserto. Lamento!

Anunciante: SNS/DGS. Título: Cabe a cada um de nós fazê-lo parar. Portugal, novembro 2020.
Anunciante: SNS/Portal do SNS. Título: COVID-19 | Não deixes o vírus entrar – Última ceia. Portugal, dezembro 2020.
Anunciante: Comunidad de Madrid. Título: ¡Protégete, protégenos! Espanha, agosto 2020.
Anunciante: Consejería de Sanidad del gobierno de las Canarias. Título: “Una simple reunión familiar puede traerte de regalo 40 días en coma o incluso la muerte”. Espanha, Julho 2020.
Anunciante: Comunidad de Madrid. Sequência com três anúncios.

O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

GUIMARÃES JAZZ 2020

GUIMARÃES JAZZ 2020

Apesar da pandemia, ocorreu, de 12 a 22 de novembro de 2020, a 29ª Edição do Guimarães Jazz. Os obstáculos requerem engenho e inovação. Recorrendo sobretudo a músicos portugueses e estrangeiros a residir em Portugal, o Festival assumiu

um olhar mais alargado do que o habitual sobre o panorama musical nacional, catalisando novas colaborações e suscitando diferentes aproximações artísticas. Apesar das limitações impostas pelas contingências, o Guimarães Jazz mantém-se fiel à sua identidade, sustentada no ecletismo e numa grande abertura estilística e geracional” (Ivo Martins).

A proximidade de um festival com a qualidade e a originalidade do Guimarães Jazz é uma bênção. Apetece acreditar que a cultura está ao nosso alcance. “Pula e avança como uma bola colorida ” (António Gedeão, Pedra Filosofal).

GUIMARAES JAZZ 2020 | Aftermovie. A Oficina. 2020.

Exaltação coletiva

A Alemanha é país de boa música. Mesmo quando o pop britânico dominava os tops, a Alemanha patenteava músicos e bandas de vulto. Recordo o Klaus Schulze, os Tangerine Dream, os Kraftwerk, os Can, os Nektar ou os Triumvirat. Na atualidade, a música alemã atravessa um bom momento. Algumas bandas inspiram-se na música medieval ou na fantasia. Notável é a interação com o público. Nada de novo, mas sempre surpreendente. Todos juntos, todos mobilizados. Um corpo coletivo uníssono num espetáculo total. Retenho três bandas: os Schandmaul; os Corvus Corax; e os Blind Guardian.

Schandmaul. Dein Anblick. Narrenkönig. 2002. Live aus der Kölner Lanxess Arena, 2018.
Corvus Corax. Platerspiel. Tritonus. 1995. Live in Berlin 2008.
Blind Guardian. Mirror, Mirror. Nightfall in Middle-Earth. 1998. Official Live Video.

Publicidade do mundo

Giorgio Armani. 2020.

Existe “música do mundo”, “cinema do mundo”, “literatura do mundo”; há espaço para uma “publicidade do mundo”? O anúncio My Way, da Giorgio Armani, parece enveredar por esse trilho. Há mais casos. De qualquer modo, o mundo Armani é infalivelmente bonito. Sem discriminação de género.

Marca: Giorgio Armani. Título; My Way. Direcção: Hunter & Gatti. Setembro 2020.

O mundo na mão (extended version)

Folk Meeting : Odetta, Joan Baez, Maria Carta, Amália Rodrigues (Musica sì e I lunedì del Sistina). Concerto de inícios dos anos setenta editado em 2013.

“Sopra, sopra, vento hibernal, não és tão desapiedado quanto a humana ingratidão” (William Shakespeare. Como vos agradar. 1623).
“ Bendita a hora que o esqueci por ser ingrato / E deitei fora as cinzas do seu retrato” (Amália Rodrigues: Só à noitinha).

Discriminação, exclusão, dominação, exploração são flagelos da humanidade. Preocupo-me, sobretudo, com a injustiça. Não poupa vivos nem mortos. “Personally, I can’t believe she’s not more well-known than she is” (https://www.youtube.com/watch?v=GOk2M6C9dck).

Estamos a falar de Odetta (1930-2008), compositora, cantora e activista social norte-americana. Talentosa, original e influente. No início dos anos setenta, cantou com Amália Rodrigues, Joan Baez e Maria Carta no Teatro Sistina, em Roma. He´s got the whole world in his hand (1957) foi uma das canções interpretadas. Acrescento duas: Hit or Miss (1970) e Another Man Done Gone (1956).

Ao original, o público preferiu o cover. Acontece! O Tendências do Imaginário sonha despertar a memória adormecida. Por um mundo maior.

Não resisto a recolocar dois anúncios com músicas de Odetta.

Odetta. He’s got the whole world in his hand. At the Gate of Horn. 1957. Ao vivo em 1993.
Odetta. Hit or Miss. Odetta Sings, 1970.
Odetta. Another Man gone Done. Odetta Sings Ballads and Blues. 1956.
Marca: Adidas. Título: Carry. Agência: TBWA\CHIAT\DAY, USA, San Francisco, Direção: Chuck McBride. EUA, 2004.
Marca: Southern Comfort. Título: Beach. Whatever’s Comfortable. Agência: Wieden + Kennedy, New York. Direção: Tim Godsall. EUA, Julho 2012.

Desencontro no elevador

Bianco. The Lift. 2019.

As cenas filmadas em elevadores são frequentes na publicidade. No cinema, também. Mas o anúncio The lift, da dinamarquesa Bianco, distingue-se. Em primeiro lugar, é extenso: quatro minutos e meio. É preciso tempo para que nada aconteça. Em segundo lugar, ao contrário da maioria dos anúncios, a Bianco não aposta na linguagem corporal. Os corpos são inexpressivos, mas pensantes. Duas múmias legendadas. O desfecho justifica o provérbio: para iniciar uma relação, analisa menos e comunica mais.

Marca: Bianco. Título: The lift. Agência: & Co. Direcção: Daniel Kragh-Jacobsen. Dinamarca, Março 2019.

Antes de colocar um anúncio, costumo conferir se não o publiquei anteriormente. Neste caso, esperei pela conclusão do artigo: o anúncio The Lift já tinha sido colocado (https://tendimag.com/2019/04/15/o-primeiro-passo/). O blogue cresce e a memória encolhe. Mas uma repetição é mais do que uma repetição. Conjunturais e volúveis, os comentários diferem. Um é romântico, atento às personagens; o outro é cínico, centrado no formato. Polifonias.

O anúncio dinamarquês The Lift, da Bianco, revela-se inteligente, criativo, original, minimalista, lento e convincente. A interacção no elevador peca por incomunicação verbal e não verbal. Desejo sem iniciativa, sentimento sem risco, corpos sem contacto. “Amor que arde sem se ver”. Convenha-se que a interpelação do outro, seja qual for a orientação sexual, é cada vez mais problemática. E, no entanto, a menina até perdeu o emprego por excesso de utilização do elevador. Feitos um para o outro e faltou-lhes uma acendalha. Aperta-nos este nosso cerco interior, sem janela nem tranca, que nos separa de quem nos atrai! (AG, 14 Abril 2019).

Portas

Intermarché. Je désire être avec vous. 2020.

É virtude da publicidade estar em cima do acontecimento. Ontem, o confinamento; hoje, o desconfinamento. O símbolo do confinamento é a porta que se fecha; o símbolo do desconfinamento é a porta que se abre. Que se abre ao outro. A imagem da porta está omnipresente neste duplo anúncio do Intermarché. Mas são, agora, portas prestes a abrir-se. O anúncio “Je désire être avec vous” é a promessa do desconfinamento, o cortejo do fim da ausência, cujos detalhes se alinham a rigor, incluindo a voz de Nina Simone. Há anúncios que não precisam dizer muito para dizer mais. Sentimo-nos bem quando vemos a classe passear no ecrã.

Avec vous, Intermarché l’a été tout au long de cette crise, dans ces moments difficiles. Nous serons ravis d’être à nouveau avec vous pour un très bon moment cette fois, en vous aidant à préparer le meilleur des dîners avec ceux qui vous ont tant manque (https://www.youtube.com/watch?v=NL9K5BQPTXA).

Marca: Intermarché. Título: Je désire être avec vous. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Maio 2020.

Dar é criar

Para Deus Todo-Poderoso, o que conta não é quanto damos, mas quanto amor colocamos na dádiva (Madre Teresa).

O amor faz-nos descobrir capacidades desconhecidas, faz-nos ir muito além de nós para nos aproximarmos dos outros, daqueles de quem gostamos e de quem cuidamos. Assim rezam os dois anúncios da Teva: um homem de idade descobre o talento de cabeleireiro ao pentear a mulher doente; uma filha aprende a dançar para proporcionar momentos de felicidade ao pai. Damos o que somos e o que podemos ser. Dar é criar. Dar é ser maior. É ser maior do que aquilo que somos.

Marca: Teva. Título: Hairspray. Agência: VCCP. Direcção: John Turner. Reino Unido, Janeiro 2020.
Marca: Teva. Título: Best Foot Forward. Agência: VCCP. Direcção: John Turner, Reino Unido, Janeiro 2020.