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O sabor da felicidade

Monstro das Bolachas. Rua Sésamo.

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Não hesito em retomá-lo. Retomar é viver duplamente: no passado e no presente. O anúncio Biblioteca é uma ternura. Trata da felicidade que tanto perseguimos e tanto nos escapa. Um pensamento estorva-me as ideias: qual é o lugar da felicidade na televisão, mormente na informação? Nos anos sessenta, chamava-se à televisão a “caixa mágica”, uma adição, uma droga, da sociedade do consumo e da imagem. Com todas as nossas viragens e posteridades, da sociedade do consumo e da imagem ainda não saímos. A felicidade na informação televisiva joga às escondidas ou aparece passada a ferro. Manifesta-se mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Existe atração pelo medo? Compensa o drama e a tragédia? A felicidade mora ao lado. E o golo? E o hino? E a lotaria? E os festivais? E a saída nacional do “lixo”? Extraordinários efémeros. A felicidade é um sentimento. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a nossa. O anúncio Biblioteca é um sobressalto da alma. Menos pelo conteúdo, “o apetite guloso”, e mais pela forma: o apetite aguça a arte de superar limites. Nos anúncios, como em quase tudo, a forma transcende o conteúdo. Conheci a Felicidade; até tenho fotografias; era uma das figuras da minha aldeia; uma excelente pessoa; despediu-se há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.

O avião de Carlos Paredes

Airbus da TAP Air Portugal com o nome de Carlos Paredes,

Há notícias felizes: a TAP batizou, em 2019, um avião, um Airbus novo, com o nome de Carlos Paredes. Anos antes, Carlos Paredes tinha gravado um álbum em homenagem à TAP: Asas Sobre o Mundo (1989). Seguem o vídeo de homenagem da TAP e duas músicas de Carlos Paredes: Verdes Anos e Medley: Coimbra e o Mondego.

TAP homenageia o mestre da guitarra portuguesa, Carlos Paredes. 2019.
Carlos Paredes. Canção Verdes Anos. Guitarra Portuguesa. 1967.
Carlos Paredes. Medley: Coimbra e o Mondego. Espelho de Sons. 1987.

Entre duas águas

Paco de Lucia.

A cabeça na almofada e o corpo na jangada. A cama é um rio. Água, duas águas, águas turvas, águas mil. O mesmo, o outro, os outros a nadar no mesmo. Metecos ( méta significa, em grego, “no meio de, entre, com”). Todos somos metecos. Vogamos, dentro e fora, em águas incertas.

Luzia é uma música, um monumento musical, que Paco de Lucia dedica à mãe, Luzia Gomes, portuguesa de Castro Marim. Entre dos aguas é o título de um dos grandes e mais antigos sucessos de Paco de Lucia. Estava a faltar música flamenga no Tendências do Imaginário.

Paco de Lucia (e Banda). Luzia. Luzia. 1998. Ao vivo no Festival Leverkusener Jazztage, em Leverkusen, Novembro 2013.
Paco de Lucia. Entre dos aguas. Fuente Y Caudal. 1973. Extraído do documentário La Búsqueda (2014).

Como um bom cão

Paula Rego. The Good Dog, Anos noventa.

Quando gosto de uma pessoa, espero por ela. Pode vir, pode não vir, pode não vir nunca. Mas eu espero por ela. Like a good dog (AG).

Quando escrevo gosto de ouvir a música das letras. Agora estão a tocar uma folia. Estou a escrever um texto que me traz afastado do Tendências do Imaginário. Muito trabalhoso e pouco original. Não respira, engasga-se. Não vou conseguir vendê-lo nem pela metade o preço. Tem uma coisa boa: as letras tocam a música The Robots, dos kraftwerk (1978) interpretada pelos Balanescu Quartet (Possessed 1992).

Balanescu Quartet. The Robots. Possessed, 1992. Cover de Kraftwerk, The Robots, 1978.

Desejo

Giorgio Armani.

Desejo e leveza. Cor e movimento. A atriz Cate Blanchett, vencedora de um óscar. Um cover de klaus Nomi. Um anúncio que é um regalo.

Marca: Giorgio Armani. Título: Sì. Direcção: Fleur Fortuné. Janeiro 2019.
Klaus Nomi. You don´t own me. Klaus Nomi. 1981.

O feitiço dos números

Conde de Kontarr. Rua Sésamo.

O anúncio Enfrentemos el cambio, da Ford, encanta-nos com o feitiço das estatísticas. Os números funcionam como estímulo e argumento. Parecem a hóstia da “pós-modernidade”. Marcam a dança da ilusão. A propósito do fascínio pelos números, Pitirim A. Sorokin falava em quantofrenia (Fads and Foibles in Modern Sociology and Related Sciences, 1956). De qualquer modo, a agência BBDO Argenina oferece-nos um anúncio bem concebido e bem realizado. Até o automóvel cai de para-quedas no fim do anúncio. Uma arte de embalar.

Marca: Ford. Título: Enfrentemos el cambio. Agência: BBDO ARGENTINA / ENERGY BBDO. Argentina, Setembro 2020.

Masculinidades. Toxicidades.

O homem oscila entre o mole e o duro, percorrendo toda a escala de Mohs. Depende dos momentos e das perspectivas. Os anúncios We Believe: The Best Men Can Be, da Gillette, e What is a man? A response to Gillette, da Egard Watches, constituem casos ilustrativos. O primeiro compraz-se com o lado negativo do homem, o segundo, com o lado positivo. Que lhes preste! Afigura-se-me que a ambos falta ironia, a faculdade de estar dentro e de estar fora, de falar sabendo que se pode estar calado.

Marca: Gillette. Título: We Believe: The Best Men Can Be. Estados-Unidos, Janeiro 2019.
Marca: Egard Watches. Título: What is a man? A response to Gillette. Estados-Unidos, Janeiro 2019.

Magia e exuberância

Phtoshop. 2020.

Várias camadas, com muitas cores e feitios, mais movimento, arabescos, metamorfoses e fantasias. O mundo esplendoroso do Phtoshop.

Marca: Adobe/Photoshop. Título: Take a fantastic voyage with Photoshop. Agência: 72andSunny, Los Angeles. Direcção: Bardou-Jacquet. Estados-Unidos, Agosto 2020.

Babe e Camille Saint-Saens

Babe.

O cinema anda de braço dado com a música. Tommy, Laranja Mecânica, Blade Runner, Titanic… No filme Babe (1995), a música, adaptada, é de Camille Saint-Saens. Segue a música do filme (If I Had Words) e o original de Saint-Saens, dirigido por Myung-Whun Chung. Não admira que tenha fascinado Stanley Kubrick.

If I Had Words (Saint-Saëns Symphony No.3) – Babe – Piano
Saint-Saens – Symphonie n°3 avec orgue – dir: Myung-Whun Chung.

Ternura

René Magritte. Os amantes. 1928.

Dois computadores avariados. O fixo e o portátil. Uma orfandade eletrónica? Nem por isso. Existe vida para além do ecrã. A música, por exemplo. E sentimentos frescos. A ternura, por exemplo. Segue La Tendresse, de Daniel Guichard.

Daniel Guichard. La Tendresse. La Tendresse. 1973. Ao vivo em Lille, em 2015.