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Nós somos imagens que passam

Cartaz do Cinematógrafo Lumières. Na Exposição de Estocolmo. Suécia. Por Carl August Olausson. 1897.

Cartaz do Cinematógrafo Lumière. Na Exposição de Estocolmo. Suécia. Por Carl August Olausson. 1897.

No anúncio Hunt, da Telefónica, meio mundo anda a ecranizar a outra metade. Na verdade, andamos a ecranizar-nos uns aos outros. Nada escapa: nem a sapatilha aerodinâmica, nem o cabelo inteligente. Ecranizamo-nos pela frente, ecranizamo-nos por trás. É uma partilha compulsiva de imagens de si e do outro, numa ecranização global. Somos, em termos de imagens, uns arroseurs arrosés. A geração do pós-anonimato ou, se se preferir, da pós-intimidade. Nous sommes les enfants des Lumière(s). “Nós somos imagens que passam, num mundo transformado em ecrã”. O que me irrita, solenemente!

Anunciante: Telefonica Movistar & Motorola.Título: Hunt. Agência: McCann Erickson Madrid. Espanha, Fev. 2010.

Les frères Lumière. L’Arroseur arrosé. 1895.

Por quem tocam os sinos?

Umberto Boccioni. Pianist and Listener, 1908.

Umberto Boccioni. Pianist and Listener, 1908.

A McDonald’s publicou um anúncio ousado, demasiado ousado. Estou admirado! Uma criança caminha com a mãe e procura encontrar pontes de identificação com o pai, falecido. Só o consegue no McDonald’s. A indignação das associações não se fez esperar. Estou admiradíssimo! As associações? As novas guardiãs da opinião? Algumas de tão puritanas lembram-me confrarias. A McDonald’s devia ter juízo! A morte é um assunto tabu. A morte? Duvido. Ando com os bolsos carregados de cemitérios em jeito de publicidade anti-tabaco. Mas o luto, é outra coisa. O luto, naturalmente. Já não há respeito! “Tristeza! Passamos metade da vida à espera daqueles que amaremos e a outra metade a deixar os que amamos” (Victor Hugo, Tas de pierres, 1901). Insistimos em exorcizar os mesmos demónios. Já aborrece! Alguém ouviu falar do luto da inteligência? Pelo sim, pelo não, com a preventiva água benta, segue o anúncio Dead Dad, da McDonald’s. Para memória futura. A McDonald’s já pediu desculpa e palpita-me que o anúncio vai ser retirado de circulação. Indignação, auto da fé e cinzas.

Marca: McDonald’s. Título: Dead Dad. Agência: Leo Burnett (London). Reino Unido, Maio 2017.

Umberto Boccioni. Luto. 1910.

Umberto Boccioni. Luto. 1910.

O museu, a porta e a ponte

Nelson Leirner. A Pacavoa (2010) Madeira e lona com jabuti empalhado. Bienal de São Paulo

Nelson Leirner. A Pacavoa (2010) Madeira e lona com jabuti empalhado. Bienal de São Paulo

A porta abre e fecha; separa. A ponte liga; une. A ponte e a porta unem e separam mundos. A partir desta metáfora, Georg Simmel escreveu um dos textos mais brilhantes da Sociologia: “Brücke und Tür” (1909) in Das Individuum und die Freiheit, Berlin, Wagenbach, 1984, p. 7-11). Pois, da porta e da ponte vai tratar este artigo.

As aplicações cognitivas implementadas graças ao Watson, da IBM, prometem revelar-se úteis nos museus, aumentando a interacção com as obras e a satisfação dos visitantes. O anúncio brasileiro The Voice of Art / With Watson ilustra estas potencialidades que acalentam a esperança de uma maior afluência aos museus.

Marca: IBM Brasil. Título: The Voice of Art / With Watson. Agência: Ogilvy São Paulo. Direcção: Alexandre Charro e Leandro HBL. Brasil, Abril 2017.

Há meio século, Pierre Bourdieu  (com Alain Darbel e a colaboração de Dominique Schnapper, L’Amour de l’Art: Les musées d’art européens et leur public, Paris, Ed. de Minuit, 1966) registava a controvérsia em torno da organização dos museus e da sua relação com o público. Os herdeiros da cultura legítima, principais clientes dos museus, resistiam ao aumento da informação nos acessos, nas salas e junto às obras, encarada como uma intrusão. Informação que os “bárbaros”, os excluídos da cultura legítima e da linguagem da arte, agradeciam como bússola de navegação num ambiente estranho.

O engenho The Voice of Art, com o Watson, parece vocacionado para a divulgação e dessacralização da arte. Neste sentido, assevera-se útil, sobretudo, para quem, “bárbaro”, carece de intérprete. Por outro lado, é intrusivo. O que acontece ao silêncio, condição de contemplação, quando os visitante não param de falar para uma máquina, ao jeito de um telemóvel? Imagine-se a cacofonia produzida pelas pessoas munidas com este engenho frente à Mona Lisa!

A pressão sobre os museus no sentido do crescimento do número de visitantes e do aumento da sustentabilidade tem-se acentuado. Congeminam-se iniciativas e ensaiam-se soluções. Criam-se lojas. Perversamente muitos visitantes demoram-se mais na compra de recordações do que na exposição propriamente dita). Abrem-se restaurantes. Em Braga, existem, pelo menos, dois: no museu D. Diogo de Sousa e no Mosteiro de Tibães. Promovem-se eventos. Aposta-se nos serviços educativos. Pretende-se erguer pontes sustentadas.

Quem visita os museus?

Gráfico 1. Bourdieu. Frequência dos museus

Pierre Bourdieu, Alain Darbel e Dominique Schnapper realizaram inquéritos, nos anos sessenta, sobre a frequência dos museus em vários países europeus. Segundo os resultados obtidos, observa-se uma clara diferenciação consoante as habilitações literárias (ver Gráfico 1; carregar para aumentar). A probabilidade de ir a um museu no período de um ano sobe, sistematicamente, de 2,3% no caso dos entrevistados com o “primeiro ciclo do ensino básico” para 80,1% nos entrevistados com “estudos superiores”. Um abismo sem pontes.

Desde os anos sessenta, a visita a museus expandiu-se em todos os níveis de escolaridade, mas as desigualdades não desapareceram. Verificou-se uma espécie de translação das diversas posições. Com o Miguel Bandeira, a Rita Ribeiro, o José Machado, o Esser Jorge Silva, a Luísa Fernandes e o Samuel Silva, empreendemos , no âmbito da avaliação de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, um inquérito a uma amostra, por quotas, de 756 residentes no concelho de Guimarães. Os resultados expressos no Gráfico 2 são distintos dos apresentados no Gráfico 1: não se trata de saber se o entrevistado foi ou não, durante o ano de referência, a um museu, mas se foi, pelo menos uma vez na vida, a um determinado museu. Retenho as respostas relativas a quatro espaços museológicos. Do mais ao menos “visitado”: o Paço dos Duques (86,3%), a Citânia de Briteiros (67,1%), o Museu Alberto Sampaio (66,2%) e o Museu Martins Sarmento (62,9%).

Guimarães. Visita a espaços museológicos por escolaridade

Desenham-se vários perfis: por um lado, o Museu Alberto Sampaio e o Museu Martins Sarmento. As respostas dispõem-se segundo uma escada típica do efeito da escolaridade: num primeiro degrau, as pessoas que não completaram o 1º ciclo do ensino básico (26%); segue-se um patamar, com as pessoas que completaram o 1º, o 2º e o 3º ciclos do ensino básico (entre 47 e 64%); por último, o cume é ocupado pelas pessoas que completaram o secundário e o ensino superior (acima de 77%). As habilitações literárias influenciam a frequência destes museus; quanto mais elevada for a escolaridade, maior a probabilidade de visita.

Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento

Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Guimarães.

Na Citânia de Briteiros, a diferenciação segundo as habilitações literárias esbate-se: o V de Cramer é baixo (0,15; p<0,005). Exceptuando os diplomados pelo ensino superior (82%), os restantes níveis de escolaridade situam-se num mesmo patamar (entre 60 e 68%). Não se trata de uma encosta, mas de um planalto. A diferenciação segundo a escolaridade resulta pouco expressiva.

Com uma afluência elevada, o Paço dos Duques ocupa uma posição intermédia: nem encosta, nem planalto. Ressalvando os inquiridos que não completaram o 1º ciclo do ensino básico, os demais situam-se no “último andar”, acima de 78%. Neste patamar, esboça-se, contudo, uma escada que lembra, embora com degraus menos pronunciados, os museus Alberto Sampaio e Martins Sarmento.

O Paço dos Duques antes do restauro. Foi utilizado como Quartel Militar entre 1807 e 1935

O Paço dos Duques antes do restauro. Foi utilizado como Quartel Militar entre 1807 e 1935.

Paço dos Duques de Bragança. Guimarães.

Paço dos Duques de Bragança. Guimarães.

Os museus Alberto Sampaio e Martins Sarmento são espaços clássicos, com uma colecção histórica valiosa. O Museu Alberto Sampaio teve, em 2016, 89 000 visitantes.

Construído no século XV, o Paço dos Duques foi restaurado durante o Estado Novo, no âmbito de uma política que visava a adesão popular e a catequese pela “história”. Em 2016, ultrapassou os 700 000 visitantes, destacando-se como um dos museus mais visitados do País.

A Citânia de Briteiros é um caso à parte. Trata-se de um sítio arqueológico ímpar, ao ar livre, procurado por diversos motivos, alguns laterais, tais como o recreio, o namoro e a festa de São Romão.

Capela de São Romão na Citânia de Briteiros. Guimarães.

Capela de São Romão na Citânia de Briteiros. Guimarães.

Arrisquemos alguns apontamentos.

As escolas desempenham um papel crucial na descoberta dos museus. Aponta nesse sentido a baixa percentagem de visitantes sem o 1º ciclo do ensino completo, valor muito aquém do patamar composto pelos três ciclos do ensino básico. Acontece nos museus Alberto Sampaio e Francisco Sarmento, bem como no Paço dos Duques. As escolas propiciam o primeiro passo, que é, segundo o provérbio, o mais difícil.

Não convém subestimar as malhas da identidade. Um espaço museológico do qual “fazemos parte”, que é nosso, não tem portas. A Citânia de Briteiros aproxima-se desta abertura. Por outro lado, um espaço museológico que faz parte de nós, que nos define, é um símbolo que, mais ou menos imaginário, compõe a nossa identidade. Situado na Colina Sagrada, o Paço dos Duques aproxima-se deste tipo de alquimia semiótica.

Museu Alberto Sampaio. Claustro.

Museu Alberto Sampaio. Claustro.

Cerca de um terço dos vimaranenses nunca visitou o Museu Alberto Sampaio (33,6%) nem o Museu Martins Sarmento (37,1%). Representa um enorme caudal de público potencial! Cativá-lo é uma tentação. Mas, em termos de crescimento do número de visitas, o que fazer? Apostar nos excluídos, nos herdeiros ou nos convertidos? O que é mais fácil? Convencer alguém que já foi três vezes ao museu a ir uma quarta ou aquele que nunca foi ao museu a decidir-se pela primeira vez? A resposta não é óbvia, até porque os museus assumem outras funções sociais e culturais para além da mera contabilização das visitas.

Nelson Leirner. O Porco. 1966.

Nelson Leirner. O Porco. 1966.

Retomemos o anúncio. Uma mulher confessa: “Eu gosto de arte, mas eu nunca tive a oportunidade de ir a um museu. Não é um ambiente que fala comigo!” Este testemunho é “arte”, foi fabricado para o anúncio: “Não é um ambiente que fala comigo” é uma frase nevrálgica. De qualquer modo, somos revisitados pelo dilema da porta e da ponte.

A equipa responsável pela avaliação do impacto de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura promoveu 21 inquéritos a outros tantos eventos. No conjunto, foram entrevistadas 7 365 pessoas (ver Guimarães 2012, Impactos Económicos e Sociais, Relatório final, p. 111). Separando os eventos ao ar livre (44,8% dos entrevistados) dos eventos em recinto coberto (55,2% dos entrevistados), obtém-se o seguinte gráfico.

Espaços dos eventos

Apenas um em cada cinco inquiridos com o ensino básico assistiu a eventos em recinto coberto (20,2% e 21,1%). Esta proporção sobe para um terço nos inquiridos com o ensino secundário (33,5%) e para quase metade nos inquiridos com o ensino superior (45,2%). Parte destas diferenças pode ser imputada a outros factores: os eventos em recinto coberto podem não ser iguais aos eventos ao ar livre. Uns têm portas, os outros praças e ruas. Mesmo ao nível dos eventos culturais, a porta constitui um meio de divisão do mundo.

Os museus têm portas que abrem e fecham. Abrem para os eleitos e fecham-se para os excluídos. As portas dos museus delimitam mundos; o mundo natural da vida quotidiana e o mundo extraordinário do património preservado. Fossem os dois lados idênticos e não haveria necessidade de portas. Nem de portas, nem de pontes! Mas não são idênticos, permanecem significativamente diferentes. Uma pessoa que nunca foi a um museu, como a entrevistada do anúncio, pressente que, para além daquela porta, lá dentro, está “um mundo que não fala para ela”, um mundo que não é o dela, que pertence a outros. Aventurar-se, forçar a porta num assomo de boa vontade, pode traduzir-se num misto de desorientação e ansiedade, compensado, porventura, por alguns sobressaltos de humor nervoso, eventualmente deslocado.

No que respeita aos museus e aos eventos culturais, a porta faz diferença. Consoante os casos, as portas ora estão mais abertas, ora estão mais fechadas.

Pedra Formosa da Citânia de Briteiros. Museu da Cultura Castreja. Sociedade Martins Sarmento.

Pedra Formosa da Citânia de Briteiros. Museu da Cultura Castreja. Sociedade Martins Sarmento.

No anúncio Voice of Art, o aplicativo Watson, uma vez ajustado ao museu, é apresentado como um facilitador da interacção entre os visitantes e as obras de arte. A relação com a arte ganha, sem dúvida, em ser melhorada. Mas, neste caso, o prodígio acontece dentro do museu. Pode, naturalmente, sobrevir um efeito de contágio no exterior. Até é concebível que as pessoas passem a ir ao museu menos pela colecção e mais pelo aparelho técnico de interacção com as obras. Nada que não aconteça: há museus cuja atracção reside mais na arquitectura do edifício do que nas obras expostas.

O anúncio não se confina à interacção com a arte. “No Brasil mais de 72% nunca estiveram num museu (…) Uma dessas possibilidades é que ele quer interagir mais com as obras (…) Mais brasileiros no museu”! Transitamos de uma interacção facilitadora da interpretação das obras no interior do museu para o impacto no seu exterior. Uma relação mais amigável com as obras pode cativar, efectivamente, novos visitantes. Será suficiente?

Nelson Leirner. Da série Cem Monas. 2012.

Nelson Leirner. Da série Cem Monas. 2012.

Se os museus pretendem alargar o seu público importa, logicamente, abrir as portas. Sair do museu e ensaiar iniciativas no exterior. Este anúncio é um bom exemplo de projecção fora de portas. Muitos museus já trabalham debruçados sobre o exterior. Tentam construir pontes. Mas os “excluídos” não são fáceis de converter. Continua a faltar o essencial: o “amor pela arte”, gostar da experiência facultada pela visita ao museu. De preferência, reconhecer e apreciar, com os códigos apropriados, o valor das obras. Caso contrário, as obras permanecem incomodamente enigmáticas. Resistem à aproximação.

“A obra de arte considerada enquanto bem simbólico não existe como tal a não ser para quem detenha os meios de apropriar-se dela, ou seja, de decifrá-la (Bourdieu et al [1966], O Amor pela Arte, São Paulo, EDUSP, 2007, p. 71).

Para a aristocracia da cultura, esta conversa é um disparate. As obras de arte possuem uma aura que a todos atinge e só alguns sentem. Mas, que seria do delírio de Don Quixote sem o realismo de Sancho Pança? Estamos perante atitudes e comportamentos que remetem para competências e disposições profundas, desenvolvidas desde a infância, que não se alteram por obra e graça de um aparelho técnico, uma loja, um restaurante, um programa de eventos ou uma campanha publicitária. A mão direita pode estar cheia de boas intenções e a esquerda cheia de nada, vazia de resultados. Mesmo assim, convém construir e sonhar pontes. Sem esquecer que, nos nossos dias, não são as acessibilidades, incluindo o custo económico, que afastam as pessoas dos museus. Para se ir a um museu, é preciso estar interessado.

Pavor eterno

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890 ( ano de sua morte).

Vincent Van Gogh. No limiar da eternidade. 1890.

Ao escrever o artigo Não me esqueças, ocorreram-me dois anúncios portugueses que abordam, também, a doença de Alzheimer: First Date, da Alzheimer Portugal e Alzheimer, do Instituto de Apoio à Criança. Este último segue uma fórmula conhecida: embarca-se num rio, a doença de Alzheimer, e desagua-se noutro estuário, os maus tratos a crianças. Comparado com o anúncio Forget Me Not, da Thai Life Insurance, o anúncio do Instituto de Apoio à Criança apresenta-se mais cerebral: reforça a razão em detrimento do coração, perdendo alguma imersão e emoção. Mas o conceito é brilhante: a dor e o medo, decorrentes dos maus tratos sofridos na infância, são eternos. Nem uma doença como a de Alzheimer consegue apagá-los da memória!

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

Edvard Munch. Ansiedade. 1894.

O anúncio do Instituto de Apoio à Criança corre um risco. Cruza imagens de dois sofrimentos: a doença de Alzheimer e os maus tratos às crianças. Não é, porém, líquido que duas imagens, ou duas emoções, se somem. Podem potenciar-se, adicionar-se, reduzir-se ou anular-se. Em criança, um livro dedicado às técnicas de judo ensinava que, durante a queda, importava bater com o braço no chão, gerando, assim, duas fontes de dor que se atrofiam mutuamente, numa espécie de engarrafamento neuronal. Por último, quando se juntam duas imagens, arrisca-se um eclipse: uma imagem pode sobrepor-se à outra.

Anunciante: Instituto de Apoio à Criança. Título: Alzheimer. Agência: Leo Burnett Lisboa. Direcção: Carlos Manga Jr. Portugal, 2006.

Publicidade antidroga

Rodrigo. O preço da droga. Expresso. 2011.

Rodrigo. O preço da droga. Expresso. 2011.

“Acontece a realidade mais relevante ser aquela que não existe” (Albertino Gonçalves).

Consultei duas bases de anúncios publicitários e comprovei o que já sabia: os anúncios antidroga tenderam a desaparecer, nos últimos anos, do mapa europeu. Mantêm-se noutros países tais como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil ou as Filipinas.

Em matéria de prevenção, são pouco aceitáveis o descuido e a arbitrariedade. O que justifica o vazio? Tudo se passa como se a Europa sofresse, simultaneamente, de uma diarreia anti-tabaco e de uma obstipação antidroga. As políticas e o consumo de droga não são o meu jardim. A minha ignorância na matéria excede o pico do monte Everest. Não resisto, contudo, a arriscar algumas conjecturas:

Será que o consumo de droga está, para falar como os bombeiros, controlado? Acreditar em semelhante cenário padece de um excesso de optimismo.

Chegou-se à conclusão que as campanhas publicitárias antidroga são contraproducentes? Contribuem, eventualmente, para o crescimento, e não para a diminuição, do fenómeno? Algo como deitar pouca água em muito fogo. Existem vários estudos, incluindo de sociólogos, que denunciam esta suposta perversidade da publicidade antidroga.

Enveredou o combate ao consumo da droga por outros caminhos, tais como acções de proximidade nas escolas? Em 2011, em Portugal, na população escolar, “entre 4,4% (13 anos) a 24,9% (18 anos) já consumiram substâncias ilícitas” (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, Sinopse Estatística: Portugal 2014, 2016, p. 5).

Prende-se com descriminalização do consumo de droga? A descriminalização e a reprovação pública (publicitária) são dissonantes, ver contraditórias? O efeito preventivo da descriminalização (em Portugal, em 2001) suplanta o da publicidade? O nosso foco é a Europa. Em 2015, em 29 países europeus, apenas 9 despenalizaram o consumo de droga (Secretariado Nacional de Políticas sobre Drogas, Levantamento sobre legislação de drogas nas Américas e na Europa, Junho 2015).

Será que as campanhas antidroga, eventualmente chocantes, se manifestam avessas à publicidade no ecrã? Mais chocantes do que as campanhas de prevenção rodoviária, contra o álcool ou contra o tabaco? Não me parece que as imagens da droga sejam agora mais chocantes do que há dez anos. Acresce que, hoje, tudo pode ser servido ao público desde que convenientemente embalado.

A droga é tabu? Afigura-se-me que, desde os anos sessenta, os tabus têm vindo a aumentar. Não creio, porém, que os tabus face à droga se mostrem hoje mais e maiores do que no início do século.

Em suma, desconheço o motivo por que a publicidade antidroga se terá tornado, recentemente, mais discreta. Para esta conclusão, escusava ter teclado tanto.

Vêm estas impertinências a propósito do anúncio The Power of You, do realizador tailandês Thanonchai Sornsriwichai. Tendências do Imaginário inclui cinco dos seus vídeos. Considero-os adágios de imaginação sensível. Neste anúncio, um jovem rompe com a droga. Corre sem parar, ultrapassando obstáculos objectivos e subjectivos. Ressurge o tópico da corrida como desprendimento e libertação, bem como o tópico da transformação e da salvação pelo despojamento.

Marca: ONCB – Office of the Narcotics Control Board. Título: The Power of You. Produção: Phenomena Company Limited. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai (Tor). Tailândia, 2015.

A mulher real

Dove. Mulher Real.A publicidade da Dove (Unilever) distingue-se pela recusa da imagem estereotipada da mulher cuidadora ou sexy. Esta rejeição depressa se transformou numa causa e numa campanha rumo a uma nova definição da mulher. O anúncio Image_Hack Case Study compila e contrasta imagens de “mulheres belas” e imagens de “mulheres reais”. Muitas “mulheres reais” apresentam-se numa pose “assumida” e “robusta”, por vezes, “guerreira”. Há poucas décadas, dir-se-ia, com sobranceria machista, uma pose masculina. Imagens semelhantes foram propagadas em vários regimes do século XX. Até nos selos as estampavam! Sexy women? Observe uma “mulher bela” e uma “mulher real”; é difícil separar as águas: os caminhos da sexualidade são insondáveis.

A Dove pretende trabalhar em rede, sobretudo com empresas e agências de publicidade: todos são poucos para espalhar a palavra. A Dove não abraçou apenas uma missão, encontrou um filão. Afigura-se-me que está a montar um dispositivo, do qual, tão cedo não sairá. Um dispositivo disciplinar. Um dispositivo que disciplina o olhar através de uma di-visão da realidade centrada na figura da “mulher real”. As campanhas da Dove lembram, até certo ponto, as campanhas da Benetton, embora menos abrangentes, porque confinadas às relações de género, mais precisamente, à representação da mulher.

Dove. Mulher Real 2

Para um comentário alargado do anúncio Image_Hack Case Study, ver http://www.adweek.com/creativity/how-dove-is-hacking-photography-to-change-the-way-advertising-depicts-women/.

Marca: Dove. Título: Image_Hack Case Study. Agência: Mindshare, Denmark. Director criativo: Kenneth Kaadtmann. Dinamarca, Abril 2017.

Mergulho inglório

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Mergulhar vestido numa piscina para resgatar um boneco de peluche talvez seja humano. Ter caprichos é, com certeza, humano. Dos 0 aos 150 anos. A cadeia de hotéis Sheraton mima, pelos vistos, os clientes, mesmo aqueles que atiram outros objectos em vez de bonecos para a piscina.

Marca: Sherato, Título: We dive in and go beyond. Agência: Venables Bel & Partners San Francisco. USA, Abril 2017.

Proporcionou-se ver um telejornal. Crise da Síria, atentados contra os coptas no Egipto, cerimónia em memória do atentado na Suécia, funeral do polícia morto no atentado de Londres, tiroteio numa escola nos Estados Unidos e… um jovem convidou uma actriz para a festa dos finalistas. Ela agradece, mas não pode, está ausente. A comunicação é um circo ou sou eu o palhaço?

Um mundo melhor

coca-cola-razones-para-creer

Acordei bem-disposto! Hoje, não vou ao trabalho; o trabalho vem ter comigo. A esta hora, já bebi uma coca-cola. Tenho muitos pecados: beber “água suja do capitalismo” não é o pior. O anúncio Choir, da Coca-cola, é animador. Um hino com causas. O mundo está cheio de causas. Anda causado. Nada a ver com a míngua dos anos oitenta, tão órfãos de mobilização social. Ainda recordo a preocupação responsável: “os jovens não têm causas”! Agora, há causas para tudo e para todos. Muitas causas diabolizam os outros, incham e rebentam. Tanta causa inquieta-me! Quando os homens são demasiado bons, abrem-se as bocas dos infernos. Não conheço causas que não sejam boas para quem as advoga; mas também conheço causas cujas consequências são uma tragédia para a humanidade. Bem-aventurados aqueles que acreditam num mundo melhor!

Marca: Coca-cola. Título: Choir. Agência: Santo (Buenos Aires). Direcção: Pucho Mentasti. Argentina, 2011.

Até o bom pode ser efémero

00. Projecto de cartaz que não foi cartaz. Marta Barbosa.

Projecto de cartaz que não foi cartaz. Marta Barbosa.

O III Encontro Minho-Galiza já pertence ao passado. As coisas boas também partem. Perduram, no entanto, na memória dos presentes e na imaginação dos ausentes. O Encontro foi fantástico, do início ao fim. Tomiño e Goián receberam-nos de braços abertos. O auditório era grande, confortável e bem equipado. Houve música e palavras. Uma centelha de diálogo e humanidade acendeu o Encontro, dando azo a momentos de comunhão irrepetíveis. Houve música para todos os gostos: Banda da Escola de Música de Tomiño, Ricardo Almeida (gaita de fole), Pedro Abrunhosa (cantor e compositor português), Ses (cantora e compositora galega) e Joaquim Fidalgo (acordeão). Pedro Abrunhosa entusiasmou-se, e entusiasmou-nos. As comunicações dos painéis testemunharam, dialogaram e agradaram. Tendemos a separar saber e prazer, um engano que nos traz desinteressados. No dia 1 de Abril de 2017, o saber e o prazer dançaram até se cansar. Por obra, talvez, da proximidade do rio Minho, um dos rios que, segundo Orlando Ribeiro, unem mais do que separam.

A organização do Encontro resultou de uma parceria entre o Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, o Centro de Estudos Galegos e o Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, todos da Universidade do Minho. Para não diluir os créditos em etiquetas amplas, quem, na realidade, concebeu e se empenhou na organização do III Encontro Minho-Galiza foram:

– Fernando Groba (CEG-ILCH);
– Helena Pires (MCAC/CECS-ICS);
– Francisco Abrunhosa (MCAC-ICS);
– Adriana Silvério (MCAC-ICS);
– Albertino Gonçalves (MCAC/CECS-ICS).

Os eventos científicos converteram-se ao benschmarking e entenderam por bem tirar fotografias como nos casamentos. Uma boa prática. Segue uma galeria com fotografias quase todas da autoria de Francisco Abrunhosa.

Galeria de imagens

Diálogo ao espelho

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

A Isabel Vilela sugere-me este momento de humor português: “Não faleci nada”, dos Gato Fedorento. Apesar de recalcado e mórbido, o tema da morte presta-se ao humor. Existem limites, mas respira-se, pelo menos, enquanto não vem um corte ou uma bomba. Respira-se menos com temas de maior sensibilidade pública, tais como o nacionalismo, a religião, o género ou as conquistas da humanidade. Alguns assuntos são tão polémicos que até parece que só um lado se pode expressar.

Gato Fedorento. Série Lopes da Silva. Não faleci nada.

Uma pessoa disse o que não devia ter dito. Por ser quem é; por ser onde foi. Eis um “crime”, no sentido durkheimiano da palavra: uma “ofensa à consciência colectiva”. Como reagem as democracias mais democráticas? 1) Dão ampla publicidade ao que não devia ter sido dito e a quem o disse; 2) Punem quem disse o que disse por ter dito o que disse; e 3) Passada a purga, termina o espectáculo. Há temas tabu, não há? Um destes dias, ainda vamos usar mordaças descartáveis. Em nome dos princípios e dos valores fundamentais advogados pelos “novos bem pensantes” (Michel Maffesoli).

Os tempos não correm de feição ao respeito pelo outro e à liberdade de pensamento. O direito à diferença significa, à partida, que o outro tem direito a uma identidade e a uma idiossincrasia próprias. Uma opinião diferente não se resume a uma qualquer variação da nossa, por muito que isso nos contrarie e desagrade. O pensamento conveniente, normalmente o nosso, sempre foi o mais arreigado inimigo da liberdade de expressão. Esta nossa incapacidade para nos descentrar deve provir do pecado original. Por muito que te custe, um pensamento diferente, se é diferente, pode não ser o teu. A tua intolerância aduba a intolerância alheia, e vice-versa. Quer-me parecer que, hoje, crescem ideias profanas que se tomam por religiosas. Não gosto de apóstolos. Censurar, corrigir, sancionar ou castigar as ideias dos outros, nomeadamente aquelas que colidem com os nossos princípios e valores fundamentais, é tarefa fácil. Salazar e Franco fizeram-no muito bem. Estaline, Hitler e Mussolini fizeram-no ainda melhor. Kim Il-Sung e companhia continuam a fazê-lo, com todo o rigor. É certo que o direito de expressão não é absoluto. Existem direitos de expressão mais ou menos generosos. O mais generoso que conheço é o seguinte: eu tenho direito à opinião, e tu também tens direito à minha. Um diálogo ao espelho. O dito que foi dito é, no mínimo, uma enorme grosseria. Mas a minha opinião, aquela a que tenho direito, é apenas uma opinião. Sempre que alguém for castigado por não pensar como eu, estou a abrir mão da liberdade. Espero que quem disse o que disse não venha um dia a estar em condições de, por simetria, nos corrigir. A nós, os paladinos intermitentes da liberdade! Nada que não tenha acontecido antes. Nada que não aconteça.

No após 25 de Abril de 1974, andei metido na política. Fiz um discurso sobre este tema num comício numa antiga garagem de autocarros no lugar do Peso, em Melgaço. Portugal andava conturbado e febril. Algumas pessoas acharam o discurso deslocado. Retomei o assunto. É um risco, uma opinião atirada ao charco.