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Arca de Noé

1. Yuuki Morita. Thinking Man. 2019.

“Esta manhã, ocorreu-me, pela primeira vez, a ideia de que meu corpo, este fiel companheiro, este amigo mais seguro, mais meu conhecido do que a minha alma, não é senão um monstro manhoso, que acabará por devorar seu próprio dono. Paz… Gosto do meu corpo, serviu-me muito e bem” (Marguerite Yourcenar, Memoires d’hadrien, 1951).

“O inferno somos nós”. Não me lembro quem escreveu este disparate, mas é um exagero! Importa aliviar a auto-flagelação. Olhar o espelho pelo canto do olho. Na verdade, somos apenas um ninho de monstros (imagem 2) ou um bestiário ambulante (imagem 1). Por outras palavras mais vantajosas: somos uma arca de Noé sonhadora.

Fernando e Albertino

2. Francisco de Goya. O sonho da razão produz monstros. 1797–1799.

Pandemónio

Otto Dix. War cripples. 1920.

“Quando morrer vou para o paraíso porque já tive o meu tempo de inferno” (Stephen King, Rose Madder, 1995).

Na Idade Média, o inferno morava ao lado. Os seres humanos viviam rodeados de demónios, bruxas e possessos. Sentia-se o bafo de Satanás. Mas, por temíveis que fossem as incursões do diabo, o inferno pertencia a outro mundo. Normalmente, à direita nos painéis de Hieronymus Bosch; em baixo, também à direita, nas pinturas do juízo final.

Ott Dix. Skat players. 1920

Quando Jean-Paul Sartre afirma que “o inferno são os outros” altera a geografia do mal. O inferno está perto, está à nossa volta. Os quadros e as gravuras de Francisco de Goya já o evidenciavam. Há mais de dois séculos! Sejamos, porém, mais radicais. Basta um sobressalto de reflexividade: o inferno não são apenas os outros; o inferno somos nós. Os demónios, também. As pinturas de Otto Dix exprimem esta condição. Andamos todos estropiados porque nos estropiamos uns aos outros.

Otto Dix. Pagerstrasse. 1920.

Dar é criar

Para Deus Todo-Poderoso, o que conta não é quanto damos, mas quanto amor colocamos na dádiva (Madre Teresa).

O amor faz-nos descobrir capacidades desconhecidas, faz-nos ir muito além de nós para nos aproximarmos dos outros, daqueles de quem gostamos e de quem cuidamos. Assim rezam os dois anúncios da Teva: um homem de idade descobre o talento de cabeleireiro ao pentear a mulher doente; uma filha aprende a dançar para proporcionar momentos de felicidade ao pai. Damos o que somos e o que podemos ser. Dar é criar. Dar é ser maior. É ser maior do que aquilo que somos.

Marca: Teva. Título: Hairspray. Agência: VCCP. Direcção: John Turner. Reino Unido, Janeiro 2020.
Marca: Teva. Título: Best Foot Forward. Agência: VCCP. Direcção: John Turner, Reino Unido, Janeiro 2020.

O perfume e o hálito

O Tendências do Imaginário dedicou uma série de artigos a anúncios de perfumes. Lugares mágicos, modelos extra belos e fragâncias sedutoras. Importa dissentir!

O ser humano dá sentido a tudo, e tudo avalia. A começar pelo corpo. É de entendimento comum que existem fenómenos corporais que são bons e outros que são maus. O que sai do corpo tende a ser desagradável: a transpiração, a urina, os excrementos, a mucosidade, a cera, o cuspo, o hálito…  Existem, porém, excepções: o parto, a lágrima e a palavra. A alimentação e a respiração são bons exemplos desta dualidade: os alimentos são bons, mas o arroto e vómito são maus; inspirar é bom, expirar, nem por isso. Desçamos, pois, da alteza dos perfumes para a baixeza do corpo.

No anúncio tailandês, da Dentiste, o mau hálito ameaça a interacção humana. Entre modulações e repetições, durante seis minutos, os contratempos do mau hálito são ridicularizados. Com imaginação e desenvoltura. Bizarro, disse bizarro? Estranho. A percepção do corpo dos orientais difere, porventura, da nossa.

Marca: Dentiste. Título: Hálito. Agência: Lobster & Co. (Tailândia). Direcção: Thanonchai Sornsrriwichcha. Tailândia, Fevereiro 2020.

Caído do céu

Thierry Mugler. Alien. Alexandrina Turcan.

Novo perfume, nova heterotopia. Um templo rodeado por sete torres em forma de frasco. No interior, uma sacerdotisa, banhada pela luz de um eclipse, ganha vida. Das alturas, desce uma embalagem, em levitação incandescente, do perfume Alien, de Thierry Mugler. Fantástico? Alienígena? Divino? Guerra das Estrelas ou Espírito Santo?

Marca: Thierry Mugler. Título: Alien. Direcção: Floria Sigismondi. 2014.

O violino, o génio e o virtuoso

Niccolò Paganini

Niccolò Paganini (1782-1840), o “violinista demoníaco”, compositor e intérprete, é considerado por muitos “o melhor violinista de todos os tempos”. Culmina uma tradição de séculos de violino italiano: Marini, Corelli, Vivaldi, Tartini… O russo Leonid Kogan (1924-1982) foi um dos melhores violinistas do século XX. Assistir, contanto em vídeo, a Leonid Kogan a interpretar Niccolò Paganini é um privilégio. Nel cor più non mi sento é uma composição de Paganini particularmente difícil de interpretar.

Albertino e Fernando

Paganini. Nel cor più non mi sento. 1821. Interpretação de: Leonid Kogan.

Sensualidade aumentada

Hugo Boss. The Scent Private Accord. 2018.

The Scent Private Accord, da Hugo Boss, confirma a propensão dos anúncios de perfumes para espaços diferentes e requintados. Lugares outros! A singularidade do auditório é explorada de uma forma magistral. “A atracção irresistível” propiciada pelo perfume ocorre durante uma experiência partilhada de realidade aumentada. O perfume The Scent Private Accord releva de uma “sensualidade aumentada”. Um anúncio com classe e com uma estética aprimorada.

O anúncio foi filmado no Baku Media Center, em Baku, no Azerbaijão.

Marca: Hugo Boss. Título: The Scent Private Accord. Direcção: Drake Doremus. 2018.

Parfum Luxe

Os seres humanos gostam de luxar, de fazer e ter mais do que o suficiente. Os anúncios de perfumes apreciam os momentos e os lugares de luxo, tais como palácios e eventos nobres. A Dior “adora” o palácio de Versalhes. Shakespeare escreveu que os barcos egípcios cheiravam a água de rosas; por este andar, a Galerie Des Glaces vai mergulhar em Secret Garden. Nos 3 minutos e 40 segundos do anúncio, retive apenas a arte de correr da modelo Daria Strokous. Como gostava de correr com tamanha leveza! Como uma vela a deslizar em pavimento de seda.

Marca: Dior. Título: Secret Garden – Versailles. Direcção: Inez van Lamsweerde & Vinoodh Matadin. 2012.

Parfum Femme

Margot Robbie. Chanel.

Perfume! Fragrância, emanação, libertação… A “esfera aromática” é uma extensão da “esfera pessoal” (G. Simmel). O odor é tão íntimo quanto intrusivo. Envolvente, a seu alcance, nada escapa. Perfume, flor; flor, beleza; perfume beleza. Ninguém aposta tanto na estética como a indústria dos perfumes. Expressão, volubilidade, mulher. flor, beleza, libertação; seis palavras para dizer um anúncio.

Marca: Chanel. Título: Gabrielle Chanel Essence. Direcção: Nick Knight. Agosto 2019.

Brincar com coisas sérias

Omiri.

O projeto Omiri, dado a misturas e remisturas desinibidas, vai ao All Music Fest, em Melgaço, no dia 6 de Março.

“Omiri é, acima de tudo, remix, a cultura do século XXI, ao misturar num só espectáculo práticas musicais já esquecidas, tornando-as permeáveis e acessíveis à cultura dos nossos dias, isto é, sincronizando formas e músicas da nossa tradição rural com a linguagem da cultura urbana” (http://amusicaportuguesaagostardelapropria.org/projetos/omiri/).

Brinquemos! A brincar também se inventa.

Omiri. Fado em Picadinho. Baile Electrónico. 2017.
Omiri. Repasseado.Dentro da Matriz. 2010.