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O pranto na era dos media

Elton John / DianaO artigo anterior, Dobras de sofrimento, aflorou a figura do pranteador e da carpideira ao longo dos séculos . De túmulo em túmulo; de cemitério em cemitério. Proporciona-se acrescentar um caso recente e excepcional de lamentação pública: a interpretação da canção Candle in the Wind/Goodbye England’s Rose por Elton John durante o funeral da Princesa Diana.

Elton John – Candle in the Wind/Goodbye England’s Rose – Princess Diana’s Funeral 1997.

Dobras de sofrimento

Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB

01. Mourning women in the tomb of Vizier Ramose, Amarna period. Photo VB.

Existem várias formas de lamentar a morte. Desde a encenação dramática da dor (Figura 1) até ao recolhimento íntimo do sofrimento. Nas figuras 2 a 7, o manto e o véu cobrem quase todo o corpo, incluindo o rosto. Mas se ocultam a dor, também a manifestam. A intensidade do sofrimento imprime-se, precisamente, nas dobras, nas muitas dobras, dos mantos e dos véus. Configuram uma espécie de sismógrafos da agonia. Antes de Bernini, no túmulo de Filipe o Audaz, e depois de Bernini, nas esculturas dos cemitérios europeus, os mantos choram por si.

 

 

De pequenino se torce o destino

Marca: Barbie. Título: The Dream Gap Project. Agência: BBDO San Francisco. Direcção: Karen Cunningham. Estados Unidos, Outubro 2018.

O anúncio The Dream Gap Project, da Barbie, está a ser um sucesso. Merecido. Meninas de tenra idade são as únicas protagonistas. Estou convencido que não existe melhor embaixador para a publicidade do que as crianças. Numa sequência de imagens notável, desempenham o seu papel de um modo brilhante. O objectivo, a igualdade de género desde a infância, é alcançado de uma forma magistral e cristalina.

As mensagens prestam-se a várias interpretações. Será que neste anúncio se enxerta um segundo discurso, uma espécie de “currículo oculto”? Uma vez que o anúncio interpela, principalmente, os pais, permitam que me expresse em conformidade: as nossas filhas precisam de sonhar que podem ser “presidentes, cientistas, astronautas, grandes pensadoras, engenheiras, presidentes de empresas”? Precisam de “ver mulheres brilhantes a ser brilhantes, e ver como chegaram onde estão”? É este o mundo que desejamos para nós e para as nossas filhas? As nossas filhas devem ser galgos a correr atrás das elites? É essa a nossa ideia de felicidade e de realização pessoal?

Choca a discriminação de que são vítimas as meninas: “três vezes menos provável receberem um brinquedo ligado às ciências”; pior, “duas vezes mais provável os pais pesquisarem “o meu filho é sobredotado?” do que “a minha filha é sobredotada”. Há, porém, males que vêm por bem. Na maioria dos casos, quando os pais estimam que o filho é sobredotado, o “privilégio” torna-se num suplício para os filhos e para os professores. É verdade que pode propiciar-se uma predição criadora: o filho, considerado sobredotado, acaba, na prática, por corresponder às expectativas. Mas, na maioria dos casos, a etiqueta de sobredotado converte-se num doloroso equívoco.

 

Embaixadores e semideuses

“A dúvida nasce do espírito, a fé é filha da alma” (John Peti-Senn, Les bluettes et boutades, 1846).

É antiga a história do burro e da cenoura. Hoje, a tendência é para substituir a cenoura por um “embaixador”, uma espécie de semideus contemporâneo. Vilfredo Pareto (Tratado de Sociologia Geral, 1916) classificava como acção não-lógica a tendência para seguir a opinião de uma pessoa célebre mas em domínios afastados do assunto. Por exemplo, um músico ou um político para resolver um problema de saúde. Na publicidade, abundam os anúncios que recorrem à figura do embaixador. Em muitos casos, o embaixador não tem, logicamente, quase nada a ver com o assunto; mas, não logicamente, tem quase tudo a ver. Herança da cenoura? Prodígios da fé? Convém lembrar uma máxima da Sociologia: não é porque uma ideia é falsa que ela perde eficácia.

Marca: The Allstate Foundation: Purple Purse. Título: Invisible Weapon. Agência: Leo Burnett (Chicago). Estados Unidos, Outubro 2018.

Grotesco de estimação

Thanonchai Sornsriwichai

Thanonchai Sornsriwichai

Thanonchai Sornsriwichai é um brilhante realizador de publicidade tailandês, cujos anúncios tendem para um grotesco ímpar. Conciliam delírio e ternura, a exemplo do Shrek. Recordo o primeiro anúncio de Thanonchai Sornsriwichai a que acedi: King Kong, para a Ford Ranger. Estreado em Dezembro de 2004, ganhou vários prémios, incluindo o Leão de Ouro do Festival de Cannes. O Tendências do Imaginário contém uma dúzia de anúncios de Thanonchai Sornsriwichai, incluindo o King Kong, que integrou a selecção de anúncios da instalação Emoções Confortáveis, na exposição Vertigens do Barroco  (Mosteiro de Tibães, 2007). Não resisto à tentação de o recolocar. Mas acrescento um novo: Tummy, da LMN (2012). Desconcertante. Mágico e violento: a barriga tem forma de cabaça e é perfurada por uma flecha. É arte de Thanonchai Sornsriwichai dar vontade de rir com desgraças insólitas. Estranhamentos agradáveis. “Os deuses devem estar loucos”.

Marca: Ford Ranger. Título: King Kong. Agência: J. Walter Thompson. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, 2005.

Marca: LMN. Título: Tummy. Agência: Creativeland Asia. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Índia, 2012.

Liberdade digital

Quando um poder alheio me invade o quintal, fico zangado. Asseguram que a Internet é uma infinita liberdade rumo ao paraíso da igualdade. Como são felizes aqueles que acreditam! Atrás, ao lado, dentro ou em cima de uma rede social, de uma plataforma ou de um algoritmo estão seres humanos, feitos do mesmo barro que nós. Prepotentes, omnipotentes, omnividentes e omniscientes, são deuses ocultos. Num ápice, apoderam-se da tua conta, da tua página, do teu blogue… Armados com regras e protocolos, censuram, retificam, bloqueiam, removem. Estes poderes do mundo digital fazem de nós o resto de nada. Um grão de areia na praia da Figueira da Foz.

A que propósito vem a praia da Figueira da Foz? Este fim-de-semana, o Facebook “encerrou”, sem aviso, mais de 2 000 artigos da minha página pessoal e bloqueou as ligações ao blogue Tendências do Imaginário. Uma autêntica purga. Qual o motivo? “Spam”! Componho os artigos no Tendências do Imaginário e partilho-os na página do Facebook. Uma rotina com, pelo menos, oito anos. Levou tempo a descobrir o “spam”! Isto dói.

Muitas das músicas dos Pink Floyd são de revolta e resistência. Hoje, apetece-me ouvir o álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos primeiros álbuns no momento de viragem para a maturidade.

Gosto dos Pink Floyd, sobretudo do álbum Meddle (1971), que conserva alguma frescura dos álbuns anteriores sem ceder ainda à maturidade dos seguintes. Quando estou zangado, costumo ouvir a primeira faixa, “One of these days”, e a terceira, “Fearless”. Nos dias de indignação, os Pink Floyd oferecem-se como um bálsamo estimulante.

Carregar nas imagens para aceder aos vídeos.

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director's Cut).

Pink Floyd. One of these days. Meddle. 1971. Video extracted from the DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut).

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Pink Floyd. Fearless. Meddle. 1971

Pressa

The Charge of the Lancers (1915), by Umberto Boccioni

The Charge of the Lancers (1915), by Umberto Boccioni.

A nossa sociedade não tem grandes narrativas, mas tem grandes nomes. Por exemplo, sociedade da slow food, da slow fashion e do slow thinking. E tem o reverso: sociedade do zapping, da velocidade e da aceleração. Tudo devidamente globalizado. Até o Oriente, dado à meditação e à paz do corpo, cede às virtudes da pressa.

Marca: K Bank. Título: Long. Agência: Ogilvy & Mather Thailand. Direcção: Thanonchai  Sornsriwichai. Tailândia, 2010.

Marca: Srisawad Transport Loan. Título: Truck. Agência de produção: Phenomena Bangkok. Direcção: Thanonchai  Sornsriwichai. Tailândia, 2011.

Novas sensações

Royal opera house

A técnica dá a mão à estética. Ocorrem-me, por exemplo, as serigrafias de Andy Warhol. As novas tecnologias audiovisuais permitem ver a realidade como ninguém, pelo seus próprios meios, alguma vez viu. É o caso dos movimentos de dança no anúncio Feel Something New, da Royal Opera House, de Londres.

Marca: Royal Opera House. Título: Feel Something New. Agência: Atomic London. Inglaterra, Setembro 2018.

“Atomic’s striking new campaign and visual identity for the revamped Royal Opera House captures ballet and opera stars with a radical new technique to stunning effect. Captured over an intense three day shoot with photographer Giles Revell, we used a revolutionary technique to capture the shape and colour of movement, blurring the lines between the moving and still image.”

Galeria de imagens: Marey & Muybridge

Esta “técnica revolucionária” “com efeito deslumbrante” lembra inventos e obras de há mais de um século. Em primeiro lugar, a cronofotografia de Etienne-Jules Marey (ca. 1882) e de Eadweard Muybridge, inventor do zoopraxiscópio. Ambos pretendiam estudar a “máquina animal” (ver galeria de imagens Marey e Muybridge; pode consultar, também, Fotografar o movimento do corpo). Lembra, em segundo lugar, os artistas futuristas, com a sua obsessão pelo movimento e pela velocidade (ver galeria de imagens; pode consultar, também, Pneus olímpicos / Futurismo).

Galeria: Futuristas

É uma tentação e um dever colocar algumas barbas brancas nas novíssimas tecnologias!

 

As mil faces da discriminação

Ravi shankar

Ravi Shankar

A discriminação tem a pele dura, seja o motivo a raça, a religião, o género ou a estratificação social. A denúncia da discriminação tem aumentado na publicidade, mas, sem diversidade e sem complexidade, lembra um catálogo com poucas e interessadas páginas. O anúncio indiano Shree Ganesh Apnepan Ka singulariza-se: por um lado, não caricatura as diferenças e, por outro, manifesta rara sensibilidade ao nível da interacção humana. Mas a discriminação não se resolve com chás. É uma realidade enraizada, com vários tronco,s que se firmam em vários terrenos. Neste aspecto, o anúncio falha: sugere que a descriminação, unidireccional, radica apenas na figura do hindu. Deus escreve direito por linhas tortas? Escreve direito por linhas direitas? O mais avisado é acreditar que Deus não escreve direito. E pronto! Provocação à parte, gosto do colorido dos filmes indianos.

Marca: Brooke Bond Red Label. Título:  Shree Ganesh Apnepan Ka. Agência: Geometry Emcompas. Índia, Setembro 2018.

Com a cítara por perto, Ravi Shankar é uma lenda da música indiana e mundial. Pai de Norah Jones, tocou no Woodstock, compôs e tocou, entre outros, com George Harrison e Yehudi Menuhin. Compôs um disco, Passages, com Philip Glass. Depois de muito hesitar, optei pela faixa 4: Ragas in Minor Scale.

Ravi Shankar & Philip Glass. Ragas in Minor Scale. Passages. 1990.

O quarto escuro

Charles Aznavour

Charles Aznavour.

Persistimos nos velhos tópicos do imaginário. Por exemplo, a oposição entre a luz e as trevas. A luz é luminosa e as trevas, tenebrosas. Por outro lado, os monstros querem-se vazios, como os fantasmas translúcidos, e sem forma, instáveis, como o Alien no filme The Thing (1982), de Carpenter. Os monstros são avessos à luz, que os degrada ou destrói, como é o caso de vampiros e mortos-vivos. Dão-se melhor nas trevas. No “quarto escuro”, não vemos os monstros, imaginámo-los, o que é terrível. Os monstros desconhecidos podem ser medonhos; os monstros reconhecidos podem ser adoráveis, como os monstros da Rua Sésamo.

No anúncio tailandês Picnic para as lâmpadas Sylvania, a iluminação, a claridade, banaliza os monstros. Mas tudo muda quando a corrente eléctrica ou as lâmpadas falham!

Marca: Sylvania. Título: Picnic. Agência: JEH United Bangkok. Direcção: Thanonchai SORNSRIWICHAI. Tailândia, 2008.

Enquanto escrevia, morreu um monstro, um “monstro sagrado” da canção francesa. O Tendências do Imaginário já contempla algumas canções de Charles Aznavour, incluindo La Bohème. Chegou a vez de Non, je n’ai rien oublié.

Charles Aznavour. Non, je n’ai rien oublié. 1971. Ao vivo em Paris, Palais des Congrès. 1991.