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O amor da arte

Lexus-NX-The-Art-Of-Standing-Out-Advert

“A arte é o caminho mais curto do homem ao homem” (André Malraux, 1949, Psychologie de art: La création artistique, Genève, Editions Albert Skira)

Um anúncio com arte assinado pela Lexus. É raro surpreender obras de arte tão bem incorporadas num vídeo. Uma pequena galeria com quadros de Vermeer, Mondrian, Van Gogh, Seurat, Hopper e escultura de Koons. Nada como o bom gosto. Diga-o com flores? Diga-o com arte. A Lexus deixa-se afagar pela aura da arte.

Marca: Lexus. Título: The art of standing out. Agência: Chi & Partners. Direcção: NE-O. Europa, Novembro 2017.

Filhos da madrugada

Reli o artigo As idades da vida , que consta entre aqueles que vou publicar em livro. Não termina em rabo de peixe porque termina em rabo cortado. Escrever sobre as idades da vida na Idade Média, na Idade Moderna e despachar a Idade Contemporânea não faz sentido. Tentei compor a falha com dois artigos (O eclipse da velhice e Pró-actividade), mas não é a mesma coisa. Fiz colagens e acrescentos. Resultou este texto que vai ser enxertado na parte final do artigo As idades da vida. De todos os artigos do livro, é o que comporta mais vídeos. É difícil não recorrer ao audiovisual para discorrer sobre o imaginário contemporâneo. Começo com um provérbio curioso que, 2 500 anos depois de Esopo, nos faz pensar sobre pressas e vagares:

“O primeiro pássaro pega a minhoca, mas o segundo rato fica com o queijo” (Provérbio).

O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem à mesma altura até à morte. A Idade Moderna altera esta representação do percurso da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo. Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e pujante, o direito é sofrido e frágil…

Hans von Marées. Die Lebensalter, 1877-8. Alte Nationalglerie, Berlin.

11. Hans von Marées. As Idades, 1877-8.

No mundo contemporâneo, continuamos a nascer, crescer, envelhecer e morrer. Muda, porém, a experiência e a representação do percurso da vida. Em Portugal, a esperança de vida rondava, em 1950, os 56 anos; em 2015, ascende aos 81 anos (fontes: OCDE, 1988, Le vieillissement social: conséquences pour la politique sociale, Paris; e INE, PORDATA). O “entardecer da vida” (Leandro, Maria Engrácia, “Assumir o entardecer da vida: novas atitudes se impõem”, Cadernos do Noroeste, Vol. 4, Nº 6-7, pp. 359-367) alonga-se. Nunca houve tantos idosos nas sociedades ocidentais. Em Portugal, em 1971, 28,5% da população era jovem e 9,7%, idosa; em 2016, 14,1% da população é jovem e 20,9% idosa (INE, PORDATA). Durante este período, a população idosa duplicou. Em 1960, havia 27,3 idosos por cem jovens; em 2016, são 143,9 (Fonte: INE, PORDATA). E no entanto… Estamos em vias de descobrir um teorema novo: existem populações que quanto maiores são menos se enxergam.

A representação das idades da vida na arte contemporânea não é unívoca. A disposição das figuras no quadro As Idades (1877-8), de Hans von Marées, lembra Hans Baldung (As idades da vida, Figura 6) e Bartolomeus Anglicus (As idades da vida, Figura 8). Mas o idoso não está nem à altura dos adultos, nem a um passo da sepultura. Curva-se junto das crianças como que a fechar um ciclo. Gustav Klimt aglomera as idades da vida num único bloco humano (Figura 11) exposto à morte (Figura 12). As idades distinguem-se, não se isolam nem se alinham.

A contemporaneidade é a era do audiovisual, que inclui a publicidade, um meio massivo de comunicação.

O anúncio Champagne (2002), da Xbox, propõe uma paródia absurda da representação moderna das idades da vida: a trajectória alucinante de um ser humanodesde o ventre materno até à sepultura. Enquanto se desloca, envelhece.

Vídeo 1. Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. Reino Unido, 2002.

Os objectos falam (https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Deixar os objectos falar foi um desafio na publicidade dos anos setenta. Recorde-se o controverso anúncio “Bouteille Phalique”, da Perrier, estreado em 1976: uma mão feminina afaga uma garrafa que cresce lentamente até sair um jorro de água gazificada (https://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Anos antes, em 1970, a Guinness lança o anúncio Ages of Man. Num tapete rolante, desfilam, primeiro, um biberão, em seguida, uma garrafa com leite, uma garrafa de refrigerante, uma caneca e, por último, um copo com cerveja Guinness. A cada recipiente corresponde um grupo etário com acompanhamento sonoro a condizer. No último recipiente, surge a mão de um jovem adulto. As “idades do homem” do anúncio da Guinness resumem-se à primeira metade do percurso da vida: o lado solar. Não há sinal nem de velhice nem de último brinde.

Vídeo 2. Marca: Guinness. Título: Ages of man. Reino Unido, 1970.

No anúncio Evolution (2006), da Renault, uma criança gatinha para a rua. Cresce à medida que muda de cenário. Na parte final, após uma espécie de Parkour, transforma-se, quase adulto, num automóvel. O percurso de vida é, mais uma vez, suspenso a meio, longe da velhice.

Vídeo 3. Marca: Renault Clio. Título: Evolution. Agência: Publicis Brussels. Direcção: Style War. Bélgica, Março 2006.

Em meados de Outubro de 2017, saíram dois anúncios que versam sobre as idades da vida.

O anúncio português Como lavar roupa com melhores resultados, da Ariel, inicia com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher que corre e dá lugar a uma atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Uma ascensão sem queda num guião assoberbado pelo amanhecer da vida.

Vídeo 4. Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

No anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait, do Wall Street Journal, a referência às idades da vida é evidente. Começa com um nascimento, “antes do tempo”, num táxi. O bebé cresce, por etapas, a um ritmo vertiginoso. A cada etapa é associada uma actividade: mamar, andar, explorar, jogar, namorar, estudar, trabalhar, investir… A curva termina na juventude adulta. O anúncio desenha a sua própria teoria: uma escada que só sobe até ficar sem degraus. Configura um elogio da aceleração, da conquista, da pró-actividade e da juventude empreendedora. Um anúncio que sabe o que pretende: Don’t wait for opportunity. Create it. Get the news, tools and insight you need to get ahead—because good things come to those who don’t wait (Wall Street Journal).

Vídeo 5. Marca: Wall Street Journal. Título: Good Things Come to Those Who Don’t Wait. Agência: The&Partnership.USA, Direcção: Ellen Kuras. Outubro 2017.

Vídeo 6. Marca: Guinness. Título: Surfers – Good Things Come to Those Who Wait. Agência: Abbott Mead Vickers. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 1999.

O mundo é uma Hidra e um Janus. Muitas cabeças com muitas faces. O anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait dialoga com o anúncio Surfers – Good Things Come to Those Who Wait, da Guinness, considerado um dos melhores anúncios britânicos de sempre. A pressa de futuro e a espera do momento.A maioria destes anúncios tende a suspender ou eclipsar o  envelhecimento. As figuras 14 e 15 ilustram este jogo de sombras. Na imensidão da Internet, mal surgiu a primeira imagem com as idades da vida (Figura 14), logo outra a recompõe (Figura 15). A cada segmento etário a sua luz: solar na juventude, lunar na velhice.

Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

14. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Idades da Vida

15. Idades da Vida

Não sabemos que envelhecemos? Que a morte nos aguarda? Saber, sabemos, mas o que sabemos nem sempre é o que nos orienta. Saber que nos espera a morte não nos impede de viver segundo outras verdades. O fumador conhece os malefícios do tabaco, nem por isso deixa de fumar. Na vida, o saber vale muito; o desejo e a vontade, também.

Valoriza-se a alvorada; desvaloriza-se o crepúsculo. O homem contemporâneo não se quer “ser para a morte” (Martin Heidegger) mas filho da madrugada. Importa “agarrar a vida”, não a deixar fugir. “Viva a viva” é nome de filme, de canção, de barco, de hotel… É lema de uma visão do mundo. Viva a vida, morra a morte! O ser humano é um animal que se ilude. Nenhuma sociedade anterior se empenhou tanto no afastamento e no encobrimento da morte. Cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, 1975. Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil). Isolam-se os cemitérios, aumenta “a solidão dos moribundos” (Elias, Norbert, A solidão dos moribundos,1972). Reduzem-se ou eliminam-se os sinais de luto. Da morte, conhecemos cada vez mais uma máscara, a máscara do carnaval dos vivos, como o Halloween, e a máscara dos media, como a saga Twilight. A máscara faz ecrã, encobre como um véu (Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes, 1980). Mesmo quando sentimos a foice a passar rente, insistimos em acreditar na lonjura da morte. O homem é propenso a acções não lógicas (Pareto, Vilfredo, 1916, Tratado de Sociologia). Reduzir a luz que incide sobre as últimas etapas da vida humana parece ser um vício das sociedades contemporâneas. Apagar a luz não adormece a morte. Desperta os fantasmas ( (Thomas, Louis-Vincent, 1979, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot).

Para analisar um texto ou uma imagem importa ver o que lá está e o que lá não está. Também importa levantar, de vez em quando, o olhar para não esquecer o mundo.

Acentuar a juventude e a vida em detrimento da velhice e da morte releva de um imaginário, de uma encenação e de uma pragmática bastante influentes na sociedade actual. Não deixa, contudo, de ser uma perspectiva entre outras.

Apesar das tendências em contrário, a maioria dos idosos ainda é acompanhada na vida e na morte. Cuidamos dos vivos e dos mortos e a interacção entre gerações é uma realidade. As pessoas vão ao cemitério cuidar das sepulturas, rezar pelos mortos e estar com os vivos. Em muitas freguesias, o cemitério afirma-se como um dos principais locais de encontro. A necrologia é a parte mais consultada nos jornais regionais. Há concelhos com menos de 10 000 habitantes em que morre uma pessoa dia sim, dia não. Resulta difícil ignorar a morte.

Associada à psicanálise, a noção de analisador diz respeito a uma fonte de informação que nos dá acesso à natureza do todo. Não precisa de ser geral, nem tão pouco notória. Há alguns anos, numa freguesia portuguesa, o jardim de infância e a morgue coexistiam paredes a meias. Este caso, excepcional, revela até onde pode ir a proximidade entre a “comunidade dos vivos” e a “comunidade dos mortos”. “Um caso particular do possível” (Gaston Bachelard).

 

 

 

O carnaval dos alimentos

 

Seattle Skyline Chocolate Postcard. Dilletante Chocolates. Fundada em 1976

Seattle Skyline Chocolate Postcard. Dilletante Chocolates. Fundada em 1976

 

No dia 25 de Outubro de 2017, o V&A Museum of Childhood, de Londres, promoveu um evento delicioso. Organizou um banquete digno das fantasias infantis: nuvens com sabor a ananás, bolhas de ar feitas com vegetais e muitas outras surpresas, tais como embalagens, cartazes e postais comestíveis.

O postal comestível não é novidade. Existem empresas especializadas, como, por exemplo, a marselhesa Cracocarte. Abordo o tema dos postais comestíveis num capítulo de um livro em que colaborei (Postais Ilustrados: Textura e Sensibilidade, in Martins, Moisés de Lemos & Oliveira Madalena, Postal a Postal, Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, 2011. pp. 109-119)

“Visão, tato, audição e olfato. Falta o paladar. Assim como não há “tele-olfato”, também não há “tele-paladar”, nem e-cards comestíveis. Mas há, em contrapartida, bilhetes postais muito saborosos. Postais com uma face em chocolate ou bombom podem ser encomendados pela internet. Para crianças e para adultos. Por exemplo, as cracocartes propostas pelo site http://www.bonbonsgourmands.fr custam 3,60 euros, pesam 12gr., medem 17x12cm., o lado da imagem é comestível e no verso pode redigir-se uma mensagem. Em Portugal, o Festival Internacional de Óbidos propôs “um produto inovador e no mínimo original: bilhetes postais com chocolate”, conforme menciona Madalena Oliveira no post de 12 de março de 2009.

O bilhete postal tem marcado a nossa relação com a imagem e com o mundo, estendendo a sua influência a várias atividades, tais como a arte, a publicidade e, até, a pastelaria. Se o postal ilustrado se cobre de calorias, os bolos (de aniversário, de primeira comunhão e de casamento) adoptam, cada vez mais, o formato do bilhete postal. “As coisas mimosas ao paladar”sempre se prestaram à reciprocidade.

“O postal ilustrado tem duas faces – a frente e o verso. E é um objeto tátil, com uma textura e uma memória, entre o mesmo e o outro, o longínquo e o próximo”, conforme anota Moisés de Lemos Martins no post de 25 de abril de 2010. Textura e sensibilidade. Em papel, ou noutra matéria qualquer, o postal ilustrado é uma paleta de sentidos: de significados, de sensações e de sentimentos. A sua textura alberga um “não-sei-quê” (Jankélévitch, 1980) que franqueia a personalização e um “quase-nada” onde cabe o infinito. Do mais vulgar ao mais criativo, no postal ilustrado também mora o ser humano” (pp. 117-118).

Anunciante: V&A Museum of Childhood. Título: Edible Exhibition. Agência: AMV BBDO (London). Reino Unido, Outubro 2017.

“Parents of kids who are fussy eaters will know: the best way to get them to try new foods is to spark their interest in it. So, to get kids playing with their fruit and vegetables, London’s V&A Museum of Childhood held an “Edible Exhibition” last weekend in a collaboration with agency AMV BBDO, foodie creative company Bompas & Parr and illustrator at Blink Art, Rob Flowers.

At a free food workshop earlier this year, over 100 children were given the chance to use their imagination and invent their ultimate food fantasies. Six winning designs were then selected and turned into reality with the help of Bompas & Parr. They included glow-in-the-dark ice cream made from carrots, edible bubbles made from broccoli and cucumber and a “parsnip tornado.”

Rob Flowers helped bring the “Edible Exhibition” to life with a series of posters and invitations for AMV BBDO that were also entirely edible. Every aspect of the printing process, from edible paper to the multi-flavored inks, was custom-made for the exhibition in collaboration with Bompas & Parr. The posters went on display at the museum and visitors could take away postcards to eat for themselves.

The exhibit took over a year to create, according to Neil Clarke, copywriter at AMV BBDO who came up with the idea alongside his creative partner, art director Jay Phillips. “There was a lot of trial and error. But it was an amazing experience, and we all felt like kids again making it” (Editors).

Do tamanho do coração

 

Pfizer. Graffiti

Publiquei este anúncio no Facebook em 2011. Republico-o, com maior resolução, no Tendências do Imaginário. Não o vou cobrir com palavras. A grandeza, das coisas e das almas, tornou-se um valor discreto na nossa sociedade. A contracorrente, o graffiti deste anúncio é quase do tamanho do coração.

Marca: Pfizer. Título: Graffiti. Agência: Zig. Direcção: John Mastromonaco. Canadá, 2008.

Coisa ruim

Blood normal

O anúncio Blood normal, da Libresse/Bodyform, é uma pedra no charco da publicidade de consciencialização. Contra o tabu da menstruação, com uma rara qualidade de orquestração simbólica, sensual e sentimental (vídeo 1). Remeto o comentário do anúncio para o artigo Não, a menstruação não é um líquido azul, de Paula Cosme Pinto no Expresso de 20/10/2017. Um manifesto a partir de outro manifesto.

Se o sangue é vermelho, por que o pintam de verde e azul? Por que se oculta com tanto empenho o sangue menstrual?

A nossa sociedade sofre de hemofobia. Século após século, passou-se do espectáculo do sangue, nos coliseus e nas praças de execução pública, ao desmaio à simples vista de uma gota. Para uma marca, mostrar sangue comporta riscos. Pode afastar clientes em vez de os cativar. Opta-se pelo eufemismo, pela alegoria, pela metáfora ou, simplesmente, pela omissão. Mas o anúncio Blood normal não aborda apenas o sangue, incide sobre um tipo específico, o sangue menstrual, uma realidade natural que, desde as primeiras sociedades, provoca transtorno e receio, senão pavor, mormente no homem. O fluxo menstrual é associado à poluição, à magia negra e ao sobrenatural. Noutros termos, a “coisa ruim”.

Quase todas as excreções, secreções e outras exportações corporais são vergonhosas e resguardadas dos sentidos: a mucosidade, a saliva, o suor, o vómito, a urina e os excrementos. Saem do corpo e ao corpo não regressam.

Salvaguardadas as devidas distâncias, vislumbra-se, ao nível da publicidade, uma certa homologia entre o sangue menstrual e as necessidades do bebé. O xixi e o cocó são como o Godot da peça de Samuel Beckett, nunca aparecem! Quando se alude ao xixi, ou este se escondeu (vídeo 2) ou foi absorvido pela fralda. À semelhança do fluxo menstrual, o xixi veste-se de verde ou azul. Nunca cor de xixi! A presença do cocó ou do xixi é indiciada por pistas indirectas: o cheiro, os trejeitos faciais, os sinais de desconforto… A censura dos excrementos e das excreções na publicidade tende a ser bífida: verbaliza  sem visualizar.

Associar os anúncios a tampões e pensos higiénicos aos anúncios a fraldas é promíscuo e deselegante. Admito-o! Não obstante, o pensamento não é um desfile de cerimónia.

Hoje, permito-me abusar da incorporação de vídeos. Quatro! Para além do Blood Normal, da Libresse, Onde está o xixi?, da Dodot, uma versão da busca do xixi fantasma, bem como Baby faces (ready when you’re not), da Aldi, e Pampers wipes pooface, da Pampers, duas “versões” do mesmo tema: a expressão facial do “alívio” pueril.

Marca: Libresse. Título: Blood Normal. Agência: AMV BBDO. Direcção: Daniel Wolfe. Internacional, Outubro 2017.

Marca: Dodot. Título: Onde está o xixi?, Agência: Y&R MAD. Portugal / Espanha, Junho 2017.

Marca: Aldi. Título: Baby faces (ready when you’re not). Agência: BMF (sydney). Direcção: Scott Pickett. Austrália, 2012.

Marca: Pampers. Título: Pampers wipes pooface. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Reino Unido, 2015.

O eclipse da velhice

Karthik - Goolgle +. Idades da Vida

01. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Acabo de reescrever um artigo sobre a representação das idades da vida na Idade Média e na Idade Moderna (https://tendimag.com/2016/12/23/as-idades-da-vida/). O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem, à mesma altura, até à morte (ver figura 2).

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02. Bartholomeus Anglicus,. The six ages of man. Livre des propriétés des choses. 1480

A Idade Moderna altera esta representação da curva da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo (ver figura 3). Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e forte, o direito é sofrido e fraco…

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03. As idades do homem. Impressão: Vosthem. Final do séc. XVI

Concentrar-se num segmento etário é uma tentação para a publicidade, que namora a elipse do envelhecimento. A publicidade banha-se na fonte da juventude.

O anúncio português Ariel apresenta A começa com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher a correr que acaba por se transformar numa atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Para a embaixadora da marca, a atleta de alta competição Patrícia Mamona, os melhores resultados estão garantidos. Uma ascensão sem queda (figura 4).

As idades da vida

04. Fragmento das idades da vida

A vida é caprichosa: quanto mais se aponta, menos se acerta. Absorto com um hipotético efeito secundário ao nível da representação das idades, por pouco não esqueço o essencial. O anúncio da Ariel está bem concebido e bem realizado. É um bom anúncio. Foi apenas abordado por uma memória fresca  num comentário lateral que não lhe faz justiça, mas que produz, paradoxalmente, conhecimento. Coincidências e manhas da razão! Gosto de vários pormenores do anúncio:  a mesma criança a gatinhar e a dar os primeiros passos; a “metamorfose” da mulher antes do triplo salto e, insista-se, um guião votado ao amanhecer da vida.

Antes de virar a página, dois apontamentos. Primeiro, “a representação da velhice na publicidade” dava um bom tema de dissertação. Segundo, a observação não se reduz a “ver” o que “lá está”, importa “ver” o que “lá não está”. A realidade também se quer imaginada.

Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

O dilema da testemunha

Burger king

Bullying Jr., da Burger King, é mais um anúncio-causa promovido por uma marca. Não deixa, porém, de ser interessante. O bullying envolve, pelo menos, três tipos de actores: quem o pratica, quem o sofre e quem o tolera. Neste anúncio, testemunhas de uma agressão a uma criança, nove em cada dez pessoas incomodam-se, mas não intervêm. Reagem, porém, perante um hamburger maltratado. O que significa este comportamento? Não sei, mas pode arriscar-se um palpite.

Um espectador compulsivo de uma situação de bullying depara-se com uma situação de duplo vínculo: intervém, expõe-se à violência, logo à justiça; não intervém, permite a violência, logo incorre em não assistência a pessoa em perigo. Subsistem mais opções: a tentativa diplomática e a comunicação às autoridades.

“Preso por ter cão, preso por não ter”. Em que assenta este dilema das testemunhas de bullying?  O cidadão moderno não tem direito ao uso da violência. Nem sequer a uma agressão verbal. Pode configurar um crime. Retomando Max Weber, o Estado detém o monopólio da violência legítima. Os fora da lei detêm o monopólio da violência ilegítima. Entre ambos, posiciona-se o cidadão domesticado, sem qualquer direito à violência, seja ela legítima ou ilegítima. Segundo Norbert Elias, o processo de esvaziamento do uso da violência por parte do cidadão remonta, pelo menos, à Idade Média. Este processo ainda continua.

O anúncio da Burger King coloca uma segunda questão: será, na nossa sociedade, mais razoável proteger os objectos do que proteger as pessoas? Todo o anúncio aponta nesse sentido.

Marca: Burber King. Título: Bullying Jr. Agência: David. Reino Unido. Outubro 2017.

Aborrecimento empreendedor

Wavo

Honoré de Balzac observa que o aborrecimento “nasceu num dia da Universidade(1844, Un début dans la vie). Trata-se, naturalmente, da Universidade do século XIX. Julien Green acrescenta que “o aborrecimento é uma das faces da morte” (Journal, 1922-1998, Plon). Vêm estas citações a propósito dos anúncios Helium Suit e Garbage Slide, da Wavo, dos Emirados Árabes Unidos: o “aborrecimento é perigoso”, sobretudo quando é empreendedor.

Marca: Wavo. Título: Boredom is dangerous: Helium Suit. Agência: Mifitis. Emirados Árabes Unidos, Outubro 2017.

Marca: Wavo. Título: Boredon is dangerous: Garbage Slide. Agência: Mifitis. Emirados Árabes Unidos, Outubro 2017.

Amor a três

O anúncio Beach, da BMW, é um concentrado de humor absurdo. Apresenta o trio do costume: o homem, a mulher e o carro, num amor a três. Ao volante, o homem; a reboque, a mulher. Entre ambos, o beijo. Um beijo trepidante, com perfume a maresia. Assim pode começar uma moda: a moda do beijo radical.

Acrescento uma imagem humorística bem gizada. Insólita e desproporcionada. Nem por isso deixa de inquietar o pensamento. Nesta viragem das universidades para a investigação e a internacionalização, que lugar sobra para os estudantes?

Marca: BMW. Título: Beach. Agência: KBS. Direcção: Pretty Bird. USA, Outubro 2017.

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

 

Olhos magoados

Screen eyes

Em relação às novas tecnologias, agradecia mais humor e menos sentença. O anúncio Screen Eyes, da Optex, é bem-vindo. Prevê-se o aumento de artigos complementares dos tablets, do tipo hands-free, selfie stick, headphones ou irritated eye spray. Escrevi headphones? Escrever em inglês sabe tão bem. Em português, escreveria auscultadores, mas headphones tem outra classe. Traduzindo à letra, uns headphones são uns fones da cabeça; com mais rigor, são uns transmissores electrónicos de som da cabeça. Em português, diz-se auscultadores, aparelhos de som para ouvir pelos ouvidos. Parece-me mais sensato.

Marca: Optrex. Título: Screen Eyes. Agência: Havas (London). Direcção: Owen Harris. Reino Unido, Outubro 2017