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Escrutinadores e agitadores

Teresa de Sousa, do Público, jornalista desde 1977, que admiro, escreveu hoje uma “Newsletter exclusiva para assinantes”. Venho dizendo, aproximativamente, o mesmo, embora com parcas palavras, voluntariamente, algo enigmáticas. Sem autorização para reproduzir o artigo, remeto para a fonte: https://www.publico.pt/2023/01/24/newsletter/mundo-hoje. Teresa de Sousa começa por interpelar o leitor com um conjunto de interrogações:

Caro leitor, cara leitora, não sei se já lhe passou pela cabeça admitir que algo de errado se passa neste país quando, todos os dias, surge na imprensa mais um “caso” sobre um membro do Governo que, de um modo ou de outro, afecta a sua imagem e a sua credibilidade, dominando quase totalmente o debate público. Teremos o pior Governo do mundo? Os governantes são corruptos? Não há mais nada a acontecer no país? A quem interessa esta situação? A mim, estas dúvidas colocam-se todos os dias. Por isso, decidi partilhá-las consigo ((https://www.publico.pt/2023/01/24/newsletter/mundo-hoje)).

Inteligência Artificial, Machine Learning e composição musical

Pedro Costa, doutorado em Sociologia, investigador do CECS – Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, acaba de publicar o artigo A Inteligência Artificial e Seus Herdeiros no blogue Margens (https://tendimag.com/?p=55533). Um ensaio sobre a Inteligência Artificial, o Machine Learning e o futuro da criatividade, designadamente no que respeita à música. Pertinente, oportuno, bem escrito, fundamentado e criteriosamente ilustrado, trata-se de um texto raro, subtil e ousado. Aproveito para acrescentar quatro vídeos excelentes relativos a outras tantas músicas emblemáticas da relação entre o homem, a máquina e as emoções: The Robots (1978), dos Kraftwerk; Wellcome To The Machine (1975), dos Pink Floyd; All Is Full Of Love (1997), da Bjork; e How Does It Make You Feel (2001), dos Air.

Kraftwerk. The Robots. Die Mensch-Maschine. 1978. Ao vivo na Casa da Música (Porto), 20.04.2015
Pink Floyd. Wellcome To The Machine. Wish You Were Here. 1975 / Animação por Maxime Tiberghien, Sylvain Favre & Maxime Hacquard, 2019
Bjork. All Is Full Of Love. 1997. Vídeo musical realizado por Chris Cunningham, 1999
Air. How Does It Make You Feel. 10 000 Hz Legend. 2001

A lupa e o telescópio. O tango das escalas

Giuseppe Arcimboldo. Vertumnus (1591) e Flora (c. 1589). Montagem.

“Lorsqu’on change d’échelle les phénomènes changent non seulement de grandeur mais aussi de nature / Quando se muda de escala os fenómenos mudam não só de dimensão mas também de natureza” (Olivier Dollfus, L’espace géographique, Paris, P.U.F., 1970, p. 22)

Importa cruzar escalas: observar de perto, para sentir, senão partilhar, o que as pessoas fazem; e com algum recuo, para saber, senão estranhar, o que se está a fazer.

Procissão, de Jean Villaret, e Amsterdam, de Jacques Brell, possuem a virtude de oscilar entre o pormenor e o conjunto, o ato e o resultado, os participantes e uma realidade coletiva, a procissão, os marinheiros e a cidade, Amsterdão. São, certamente, diferentes, mas a diferença não constitui, necessariamente, um problema.

Procissão (1956), poema de António Lopes Ribeiro, declamado por João Villaret. RTP, década de 50.
Jacques Brel. Amsterdam. 1964. ORTF, 10/11/1966.

Tenros e ternos

Tenros e ternos, eis um anagrama adequado a estes dois anúncios franceses da McDonald’s, o venerável Le Vélo e o recente Les Amis. Uma ternura comercial, sobre rodas e em conserva.

Marca: McDonald’s. Título: Le vélo. Agência: BDDP. França, 1993
Marca: McDonald’s. Título: Les amis. Agência: TBWA Paris. Direção: Martin Werner. França, junho 2017.

Clara-Jumi Kang. Violinista sul-coreana

Não convém confundir popularidade com populismo, nem populismo com totalitarismo, embora, por vezes, se deem as mãos. Atravessamos momentos em que o que pode ser é. E o que parece, também. Este atalho no entendimento não deixa de comportar riscos no que respeita à justeza dos comportamentos e dos pensamentos.

Este é um artigo com rabo na boca. Com origem e destino em casa. A violinista Clara-Jumi Kang, figura célebre da Coreia do Sul, interpreta Meditation, da ópera Thais (1894), de Jules Massenet, e Primavera, das Quatro Estações de Buenos Aires (1969), de Astor Piazzolla. É acompanhada, respetivamente, pela Orquestra Filarmónica de Seul e pela orquestra de câmara Sejong Soloists, ambas sul-coreanas. Um lote à feição do Fernando, apreciador de culturas orientais, e da Conceição, incondicional do Astor Piazzolla.

Clara-Jumi Kang. Meditation, da ópera Thais (1894), de Jules Massenet. Com a Orquestra Filarmónica de Seul, Seoul Arts Center, 06.04.2018
Clara-Jumi Kang. Primavera. Quatro Estações de Buenos Aires (1969), de Astor Piazzola. Com a orquestra de câmara Sejong Soloists. Tchaikovsky Concert Hall, 19.03.2018

Inflação, poder de compra e desigualdades sociais

Evolução do poder de Compra. França, 2015 a 2022. Fonte: Xerfi Canal, 19.01.2023

O Xerfi Canal (https://www.xerficanal.com/) é uma “revista online sobre o mundo da economia, a estratégia e a gestão das empresas”. Publica diariamente um comentário temático conciso e claro, hoje, 19.01.2023, dedicado à evolução recente da relação entre a inflação, o poder de compra e os rendimentos. O foco é a França, mas estou em crer que a análise é extensível aos demais países da União Europeia, incluindo Portugal. Partilho o vídeo, em francês, seguido por uma tradução livre e algo apressada.

Alexandre Mirlicourtois. Un pouvoir d’achat en chute libre? La réalité des chiffres. Xerfi Canal. 19.01.2023

“Sondagem após sondagem, o poder de compra ocupa o primeiro lugar nas preocupações dos franceses. Isso não tem nada de surpreendente uma vez que há meses que os agregados domésticos evidenciam uma degradação clara da sua situação financeira e não aguardam nenhuma melhoria a curto prazo. Os dados do INSEE [equivalente francês do INE] comprovam-no. É verdade que o rendimento real dos franceses embora ameaçado não sofre uma quebra expressiva. Convém equacioná-lo por unidade de consumo de modo a contemplar o fato de, por um lado, se repartir por um número crescente de habitantes e, por outro, de a vida em comum permitir, graças a economias de escala, reduzir determinadas despesas tais como as do alojamento. A evolução da dimensão dos agregados domésticos possui também alguma importância.

Sob esta luz, a tendência resulta menos favorável: o poder de compra baixou 0,6% no ano passado, o que não é muito. Recuando um pouco no tempo, o poder de compra por unidade de consumo mantém-se acima do nível anterior à crise e, recuando ainda mais, o refluxo de 2022 não tem comparação com o registado entre 2011 e 2013. A estatística é, mais uma vez, posta à prova pela experiência da vida quotidiana e surge desfasada da realidade vivida por muitos cidadãos.

Para explicar este hiato, importa reconsiderar o fator atual que mais pesa sobre o rendimento: a descolagem dos preços no consumo. Trata-se de uma inflação geradora de desigualdades profundas. A progressão dos preços não é homogénea e incide, nos dois últimos anos, num núcleo principal, a energia, e num núcleo secundário, a alimentação. Por seu turno, os aumentos dos preços dos produtos manufaturados e dos serviços têm revelado maior contenção. Acontece que a exposição dos agregados domésticos, bastante elevada e muito concentrada, varia significativamente consoante o respetivo nível de vida, devido à estrutura do consumo acentuadamente diferenciada.

A fatura energética é um dos elementos inerentes ao alojamento. Para os mais desfavorecidos representa acima de 6% das suas despesas totais contra menos de 4% no topo da escala. O mesmo sucede no que respeita à despesa alimentar cujo peso diminui à medida que o nível de vida aumenta. A situação pode resumir-se da seguinte forma: a baixo nível de vida, preços altos; a nível de vida alto, preços baixos. Acresce uma amplificação conforme se seja rural ou urbano, por causa da progressão dos preços dos carburantes. Não existe, portanto, apenas um mas vários poderes de compra consoante o grau de exposição ao lote dos consumos mais inflacionistas.

Mas este não é o único fator de desigualdade. Subsiste outro mais importante associado à parte do rendimento consagrada ao consumo, logo diretamente impactada pela subida dos preços: 20% dos agregados domésticos mais modestos gastam mais de 97% dos seus rendimentos contra menos de 72% dos mais favorecidos, uma diferença de 26 pontos. Dito de outro modo, a quase integralidade do rendimento dos mais pobres é alocada às despesas quotidianas; em contrapartida, os mais favorecidos conseguem poupar cerca de 30%. O impacto é duplo. Primeiro, os franceses do topo conseguem manter o seu nível de despesas modificando a sua dosagem entre consumo e poupança; segundo, uma proporção dos seus rendimentos é parcialmente preservada pela evolução da remuneração das suas poupanças. Ocorre o contrário quando nos posicionamos no baixo da escala: quando os rendimentos não acompanham até à vírgula, ou quase, a evolução dos preços do respetivo cabaz, torna-se então necessário efetuar cortes claros nas despesas quotidianas porque não existe, ou existe muito pouca, gordura para ajustamento. Apenas um euro em cada três de despesas comprimíveis para estes; um euro em dois para os outros.

Em suma, para uma parte crescente da população rematar o fim do mês acaba por ser impossível sem recurso ao crédito renovável, também chamado crédito permanente ou revolving, modalidade de pagamento, uma espécie de reserva, geralmente associada a um cartão de crédito, cada vez mais mobilizada pelos agrupamentos domésticos para as suas compras correntes, cujas pendências estão em forte crescimento, embora partam de uma base baixa. A outra solução consiste no recurso às contas a descoberto, tendência manifesta no aumento explosivo da curva das contas correntes de débitos que já ultrapassam os 10 bilhões de euros e representam mais de 5% do conjunto dos créditos ao consumo, alcançando o nível mais alto dos últimos 20 anos. Constituem, porém, práticas onerosas que comportam um peso acrescido no orçamento dos agregados domésticos mais modestos. O sobre endividamento, que não parou de recuar desde meados dos anos 2010, corre seriamente o risco, neste contexto, de regressar em força nos próximos meses, apesar de um poder de compra, em aparência, em estado de Resistência.” (Alexandre Mirlicourtois. Un pouvoir d’achat en chute libre? La réalité des chiffres. Xerfi Canal. 19.01.2023: https://wordpress.com/post/tendimag.com/55467. Consultado em 19.01.2023.

Momentos mui raros

Raros o forno, o pão e a gargalhada. Em boa companhia e sabedoria. Depois da tenda com chouriço, do pão com chocolate e da sopa de batata, só faltou queimar as calorias com uma dança ao jeito, por exemplo, do Grupo Etnográfico da Casa do Povo de Melgaço ou com uma música da Brigada Victor Jara.

Malhão. Pelo Grupo Etnográfico Da Casa do Povo de Melgaço | Festa do Alvarinho 2022
Brigada Victor Jara. Arriba Monte. Por Sendas, Montes e Vales. 2000

A Origem de Tudo

Show Rural Coopavel. A Origem de Tudo. Brasil, 2023

O anúncio brasileiro A Origem de Tudo, para a exposição Show Rural Coopavel, ilustra à saciedade um provérbio elementar: “Tudo vem da terra e a ela retorna” [eventualmente, intragável].

Aconselho o artigo Atribulações das Almas: https://margens.blog/2023/01/15/atribulacoes-das-almas-em-transito/

Anunciante: Show Rural Coopavel. Título: A Origem de Tudo. Agência: Fosbury. Brasil, janeiro 2023

Identidade, alteridade e virtualidade

René Magritte, Decalcomania, 1966,

A publicidade pode ser instrutiva. Acontece com os anúncios “New Dawn”, da Hyundai, e “Un-Australia”, da Meat & Livestock Australia, que ilustram duas noções elementares das ciências sociais, que passo a resumir.

O valor de uma palavra provém do carácter distintivo dos seus usos virtuais. Simplificando, uma palavra vale quando permite dizer algo que as outras palavras não conseguem (a partir de F. Saussure, Cours de Linguistique Générale, 1916).
A identidade não remete para uma essência mas decorre da relação com os outros, com a alteridade. Simplificando, somos o que somos menos pelas semelhanças e mais pelas diferenças (a partir de C. Lévi-Strauss, L’ Identité, 1977).

Marca: Hyundai. Título: New Dawn. Agência: Innocean UK. Direção: Jeroen Mol. Reino Unido, Reino Unido, janeiro 2023
Marca: Meat & Livestock Australia. Título: Un-Australia. Agência: The Monkeys. Direção: Yianni Warnock. Austrália, janeiro 2023

Translucidez

“Demasiada luz ofusca” (Blaise Pascal)

Storytel’s 1984 / 2022 sounds like 1984. B-Reel Stockholm. Suécia, agosto 2022

Esta breve e ligeira reflexão foi estimulada pela leitura do texto “Quando vigiado se torna vigilante”, de Pedro Rodrigues Costa, e por dois anúncios. No meu caso, os anúncios publicitários revelam-se, muitas vezes, fontes de inspiração. Os anúncios “Data Auction”, da Apple, e “Storytel’s 1954″, da agência B-Reel Stockholm, são acompanhados pelo vídeo musical ” Every Breath You Take”, dos Police.

Vivemos numa sociedade da informação, para utilizar a noção adotada, entre outros, por Alain Touraine (La Société post-industrielle, 1969) e Daniel Bell (The coming of post-industrial society, 1973). A informação ter-se-ia tornado recurso preponderante, cuja produção, posse e circulação passaria a marcar a configuração e a vida das sociedades contemporâneas. Este alcance exponenciou-se com o incremento das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação). A informação representa um poder cuja distribuição é desigual, não só em termos de posse e acessibilidade, mas também em termos de meios, modos e possibilidades de uso e mobilização. Desigualdade que parece não diminuir com o aumento da informação. Com a tendência para a generalização da vigilância, o abuso do escrutínio e o desígnio de transparência, todos passamos a vigilantes vigiados e validadores validados. Esta banalização da vigilância, caraterística dos regimes totalitários, insinua-se como uma ameaça aos regimes democráticos. Se uma sociedade totalmente transparente, sem privacidade e com escrutínio absoluto, não se assevera possível, perfila-se, não obstante, como limite para o qual propendem os totalitarismos. Constitui, aliás, sua vocação.

Marca: Apple. Título: Data Auction. Produção: Smuggler. Direção: Ivan Zacharias. Estados-Unidos, maio 2022
Título: Storytel’s 1984 / 2022 sounds like 1984. Agência: B-Reel Stockholm. Suécia, agosto 2022
The Police. Every Breath You Take (Official Video). 1983