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A democracia morre no escuro

O Washington Post faz 140 anos. “O conhecimento empodera-nos. O conhecimento ajuda-nos a decidir. O conhecimento mantém-nos livres”. E o jornalismo empodera-se a si próprio. Bob Woodward e Carl Bernstein, protagonistas no caso Watergate (1972-1974) eram jornalistas do Washington Post.

Marca: Washington Post. Título: Democracy dies in darkness. Estados Unidos, Fevereiro de 2019.

Eram tempos de protesto, e de canções de protesto; em 1967, os Buffalo Springfield lançam a canção For What it’s Worth que alude à repressão de uma manifestação de jovens ocorrida em Novembro de 1966 em Nova Iorque:
“There’s something happening here
What it is ain’t exactly clear
There’s a man with a gun over there
Telling me I got to beware “

Buffalo Springfield. For What It’s Worth. Buffalo Springfield. 1967.

Saco de batatas

A jornalista Paula Telo Alves cita o Tendências do Imaginário no editorial de O Contacto, Jornal do Luxemburgo, intitulado Sinais de Fumo, a propósito do projecto do governo luxemburguês no sentido de tornar obrigatória a instalação de detectores de fumo em todas as casas, incluindo as privadas. Para aceder ao artigo de Paula Telo Alves, carregar na seguinte imagem.

Esqueleto fumador.

No ano 2018, 18,8% das visitas ao Tendências do Imaginário provêm de Portugal; menos de metade do Brasil, 44,4%, e o mesmo que os Estados-Unidos, 18,6%. Relativizando, em Portugal, 26 visitas por 10 000 habitantes, e no Brasil, 3 por 10 000 habitantes. Confesso que já não sei para quem escrevo.

Cabe aos fumadores uma pesada sobrecarga fiscal. Não é segredo. No entanto, entre os fumadores não predominam as classes médias nem as classes altas. As classes populares estão sobre-representadas. O imposto sobre o tabaco é tudo menos solidário. Configura um imposto focado, por que só atinge um segmento da população, e um “imposto cego e injusto porque afecta os contribuintes de igual forma, apesar das disparidades dos rendimentos disponíveis”. É uma solução de recurso que colide com o princípio da progressividade fiscal. Pagam os mais pobres para todos. Duvido que esta equação seja constitucional. Mas deve ser. Os grandes textos como a constituição costumam ser poliglotas. Uma pessoa faz uma pergunta numa língua e a resposta vem noutra.

Em muitos países, a legislação e a propaganda anti-tabaco parecem desafiar as liberdades e garantias constitucionais. Sustenta-se que é para proteger os não-fumadores, vítimas do fumo intrusivo. Este argumento da discriminação de alguns para proteger os outros é antigo. Há noventa anos, protegia-se a raça. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a Inquisição “salvou” muitos heréticos de si mesmos. O homem permanece feito da mesma massa. Os nichos da intolerância e do totalitarismo são fáceis de construir. A privacidade tem-se manifestado, historicamente, a principal presa do totalitarismo. Totalitarismo e privacidade são antagónicos. 

Creio nos interpretes da constituição mais do que o turista inglês acredita na limpeza das ruas do Porto. 

 

“Um inglês descia a avenida dos Aliados. Depara-se com um imprevisto no passeio. Observa e pensa:

  • Isto parece cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva toca na anomalia.
  • Isto é mole como cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva extrai uma amostra que aproxima do nariz:
  • Isto cheira a cocó, mas cocó no Porto não pode ser
  • Aproxima a ponta do guarda-chuva e prova.
  • É mesmo cocó, ainda bem que não pisei.

Aflige-me que tantas organizações governamentais, para-governamentais e não-governamentais se empenhem sistemática e ostensivamente em associar o fumador, acima de dois milhões de pessoas em Portugal, à morte, ao morrer e ao morto. Além de mórbido é macabro. Se esta propensão não é uma afronta à dignidade dos cidadãos, então qual é o significado constitucional de dignidade? Como é possível que um Estado democrático divulgue “ameaças de morte” aos seus cidadãos por “crime de fumo”? Como é possível que as campanhas anti-tabaco se resumam, essencialmente, a ameaças de morte? Será que existem responsáveis que acreditam que o mundo é um videojogo?

O cigarro e a morte
O cigarro, a cinza, o fumo e a morte.

Tantas organizações anti-tabaco e nenhuma pró-fumador! Este desequilíbrio desassossega-me: O que impede os fumadores de se mobilizar através de organizações e associações? A resposta mais sensata encontro-a num apontamento de Karl Marx acerca dos camponeses:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo (…). Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas de elas constituem uma aldeia e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852).

Pulverizados enquanto massa, os fumadores portugueses constituem, tal como os camponeses de Karl Marx, um saco de dois milhões de batatas. 

O fumador suicida ou o cigarro mortal

O hambúrguer de Andy Warhol

Burger King. Andy Warhol. 1981/2019.

O banquete é uma actividade cultural pródiga em símbolos. Ver uma celebridade comer só, sem mais ninguém, pode ser uma concelebração: um comensal comido por milhares de olhos. Por exemplo, Salvador Dali a comer chocolate da marca Lanvin (1968: ver https://tendimag.com/2012/06/21/o-artista-vai-a-publicidade-salvador-dali/) e Andy Warhol a ingerir um hambúrguer da Burger king em cerca de cinco minutos (1981). Há repastos que se reciclam. A Burger King retoma a performance de Andy Warhol e coloca-a no Super Bowl de 2019. A história repete-se, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852). A história “repete-se” em espiral. Resgatar celebridades é uma tentação. Mas o original e a cópia não coincidem. Andy Warhol faleceu em 1987. No anúncio de 1981, um vivo come um hambúrguer ; em 2019, não deixa de ser um morto a comer um hambúrguer. Não é a mesma coisa, pois não? Os média são antropófagos ou necrófilos? Mergulham num tempo confuso, onde tudo se baralha. “O morto agarra o vivo” (Karl Marx, prefácio à primeira edição do Livro I do Capital, 1867) e o vivo agarra o morto.

Seguem os dois anúncios da Burger King com Andy Warhol. O atual, #EatLikeAndy, e o de 1981, Andy Warhol eating a hamburger. Excetuando o título e o texto, são iguais!

Marca: Burger King. Título: Eat Like Andy. Agência: David Miami. Estados Unidos, Fevereiro 2019.
Burger King. Andy Warhol eating a hamburger. 1981.

O máximo no mínimo

Apple. The Bucket. 2019,

Muitos anúncios do Extremo Oriente são longos, acima de cinco minutos, lentos, de escassa acção, e moralmente elevados, debruçam-se sobre valores essenciais da vida. A história, os actores e a moral bem podiam limitar-se a menos tempo e a menos imagens. Mas não seria a mesma coisa. Não há maneira alternativa de sentir “o sabor da casa e o sabor da terra”. Sem pressa. Há culturas que colocam o mínimo no máximo. O antropólogo Marshall Sahlins estuda esta sabedoria em vários povos e culturas (Stone Age Economics, Chicago, 1972). A sabedoria dos ocidentais é diferente. Consiste em colocar o máximo no mínimo. Somos os apóstolos da compressão e do exorcismo do vazio. Até a morte, que, segundo Epicuro, não é nada para nós, recheamos de rituais e fantasmas.

A morte não é nada para nós (Epicuro)
“Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente: ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal”  (Epicuro, Carta sobre a felicidade – a Meneceu, São Paulo, Editora UNESP, 2002, pp. 27-31).

Marca: Apple. Título: The Bucket. Agência: TBWA. Direcção: Jia Zhangke. China, Janeiro 2019.

Comida pornográfica. Anúncio censurado

Devour. Food Porn. 2019

As línguas evoluem graças a dinâmicas internas, externas e entrelaçadas. O surgimento de uma nova palavra ou de uma nova sintaxe é natural. Mas há casos estranhos. Por exemplo, o termo “adição” para designar a dependência à droga, ao álcool, ao jogo, ao sexo, à Internet… Na língua inglesa, “addiction” significa “an inability to stop doing or using something, especially something harmful: drug addiction” (Cambridge Dictionary). Na língua portuguesa, adição é sinónimo de soma. “Addiction”, em inglês, e adição, em português, não possuem, como diria Ferdinand Saussure, o mesmo valor. O inglês contempla o adjectivo addicted: “unable to stop taking drugs, or doing something as a habit”. E o português? Adicionado? Adido? Aditado? Talvez, adicto. As línguas evoluem para cima, para baixo, por dentro e por fora. O português e, pelos vistos, o francês evoluem muito de fora para dentro, por enxertos e injecções importados via marítima. No anúncio Porn Food, da Devour, as legendas em francês convocam, inicialmente, o termo tradicional accro (preso); acaba, todavia, com a palavra addiction (dependência). Não é um problema português, nem francês, mas uma atitude própria de “lorpalândias”. Habilidades de jornalistas? De professores? De cientistas? De artistas? De políticos? De tradutores? Há quem sinta dificuldades em se exprimir em português. Não desfazendo, uns barbarian addicts. Cá com os meus tamanquinhos, só quando me faltarem as palavras é que vou pescar estrangeirismos. À “adição” e ao “adicto”, prefiro dependência, dependente, vício, viciado, vicioso e viciar.

Porn Food é um anúncio cuidado. Não é por menos, paga uma fortuna para passar nos intervalos do Super Bowl. Trata-se de uma paródia dos estereótipos sobre as dependências recorrendo ao próprio produto. Uma ironia arriscada. Por sinal, durante o Super Bowl passa, não esta versão longa, mas, segundo a Adweek, uma versão de 30 segundos sem a palavra Porn; ou, segundo notícia mais recente do Observador, nem sequer essa miniatura. Liminarmente censurado! Assim anda o mundo: aqui, adita-se, lá, subtrai-se.

“Devour created two versions of its Super Bowl spot, a longer spot that uses the word “porn” and a shorter version that doesn’t, since the word “porn” isn’t supposed to be uttered during a Big Game spot. The Kraft-Heinz brand released the longer version of the ad earlier this month. Today, the company has unveiled the shorter 30-second spot that will run during the third quarter of the Super Bowl” (Adweek, 31.01.2019: https://www.adweek.com/brand-marketing/heres-the-30-second-censored-version-of-devours-food-porn-super-bowl-spot/).
“Vieram a público dois anúncios criados para o Super Bowl banidos pela CBS. Um fala do uso medicinal da canábis, outro de “food porn”. Nunca vão ver a luz do dia no Big Game (…)A tradição de eliminar anúncios de cariz sexual também se manteve na edição número 53 do Big Game. No passado, já aconteceu com as publicidades criadas por páginas como o site pornográfico PornHub, o site de encontros online Man Crunch ou com a Bud Light, uma versão mais leve das famosas cervejas Budweiser. Este ano não foi excepção e a CBS baniu uma publicidade chamada “Food Porn” criada pela Devour, uma marca de comida congelada (Observador, 02.02.2019: https://observador.pt/2019/02/02/canabis-e-food-porn-os-dois-anuncios-banidos-do-super-bowl-deste-ano/).

Marca: Devour. Título: Food Porn. Agência: David Miami. Estados Unidos. Janeiro 2019.

Anime

Mike Diva. Japanese Donald Trump Commercial. 2016.

Os manga e os anime constam entre os produtos culturalmente ancorados, neste caso de origem japonesa, cuja difusão cresceu e se globalizou a um ritmo impressionante. Povoam o mundo gráfico e audiovisual, designadamente a Internet. Não adquirem, porém, uma presença correspondente nas universidades e noutros templos do conhecimento.

O Tendências do Imaginário dedicou poucos artigos aos manga e aos anime. É tempo de recuperar, com a ajuda de um especialista: o meu rapaz mais novo. Seguem dois vídeos. O primeiro, dirigido por Mike Diva, é uma paródia viral centrada na figura de Donald Trump, porventura o mais mediático e o mais globalizado dos presidentes norte-americanos. O segundo vídeo, da Mercedes Benz, atarda-se, seis minutos, numa perseguição automóvel fantástica e alucinante.

Direcção: Mike Diva. Tema: Japanese Donald Trump Commercial. 2016.
Marca: Mercedes Benz. Título: NEXT A-Class. Produção: Hakuhodo, AOI Pro., Production I.G. Direcção: Mizuho Nishikubo. Japão, Novembro 2012.

Humilhados e ofendidos. Os labirintos da liberdade.

Hoje, temos manga. Um anúncio japonês da Nissin: Hungry to win. Nasceu polémico devido às razões do costume. Neste caso parece que é a claridade que incomoda. Creio que foi retirado de circulação. Em quase todas páginas que consultei, o vídeo não está acessível. No que respeita a recursos e especialistas de censura, estamos ao mais alto nível da história da humanidade. Perturba-me sempre a proibição em nome de valores.

O anúncio é uma homenagem a The Prince of Tennis, manga e anime do início de milénio, criado por Takeshi Konomi. Abre, como muitos filmes de aventuras, com a interrupção do lazer prazeroso dos heróis. Nyudō Mifūne, o treinador da série The Prince of Tennis obriga-os a treinar para o Grand Slam. Nos courts, mas também em situações inóspitas: saltar com cangurus, correr na água em Sidney ou escalar cascatas com crocodilos à espera. O anúncio termina com as metamorfoses e as saudações do costume.

Para aceder ao vídeo do anúncio, carregar na imagem seguinte.

Marca: Nissin. Título: Hungry to win. Japão, 2019.

Soube, entretanto, qual é, especificamente, o abuso civilizacional cometido pelo anúncio da Nissin).

After an initial apology earlier this week, Nissin has pulled its animated Cup Noodle ads featuring tennis player Naomi Osaka. The company had received international backlash for Osaka’s depiction in the advertisements as a much lighter-skinned version of herself.
Osaka, who is half-Haitian and half-Japanese, appeared in the ads as an anime character along with fellow tennis player Kei Nishikori. Nissin’s ads showed a pale version of Osaka with less textured hair.
Osaka herself has not commented on her depiction in the ads. Nissin Foods received approval from her management agency IMG Japan but it was revealed that the agency’s U.S. counterpart did not confer prior to the approval. Nissin pulled the ads from YouTube and the “Hungry to Win” campaign site. Images were also purged from Cup Noodle’s Twitter page.
Notably, Prince of Tennis creator Takeshi Konomi’s artwork depicting Osaka and Nishikori was also removed from the campaign website. (Anime News Network: https://www.animenewsnetwork.com/interest/2019-01-23/nissin-pulls-cup-noodle-prince-of-tennis-ads-after-white-washing-controversy/.142453).

A Sagração da Primavera

Sagração da Primavera

Sentir-se a afogar é terrível. Só ou em grupo, num barco ou numa instituição. E quando o naufrágio envolve uma superorganização? Afunda hierarquicamente, por etapas, com relatório de autoavaliação, despacho e autorização superior. Pior quando se esbraceja. Como os bailarinos da Sagração da Primavera, de Ígor Stravinsky (coreografia de Nijinsky). A estreia, em 1913, foi um dos maiores insucessos da história da música. Segue um excerto; a dança, propriamente dita, começa no minuto 3:20.

Stravinsky. Rite of Spring. Introduction, Augurs of Spring and Ritual of Abduction. Nijinsky 1913 edit. Joffrey Ballet, 1987.

Pois bebamos!

Conhece os Corvus Corax? Nem é tarde, nem é cedo. Originários da Alemanha de Leste, dedicam-se à música neomedieval, com instrumentos da época. Desde a fundação em 1989, publicaram cerca de 25 álbuns. Os concertos ao vivo proporcionam uma encenação entre o barroco e o grotesco, ao gosto de muitos intérpretes germânicos, tais como Klaus Nomi e Nina Hagen. Seguem duas músicas: a primeira, Mille Anni Passi Sunt, numa versão de estúdio, a segunda, Ergo Bibamus (Pois bebamos), ao vivo.

Corvus Corax – Mille Anni Passi Sunt. Mille Anni Passi Sunt. 2000.
Corvus Corax – Ergo Bibamus. Cantus Buranus. 2005. Ao vivo em Munique.

A Procissão da Burrinha

Procissão de Nossa Senhora da Burrinha – Braga,

“Vá até onde puder ver; quando lá chegar poderá ver ainda mais longe” (Goethe). Ver longe é uma vontade e um privilégio. Assim o estima Goethe mais as resmas de anões montados nos ombros dos gigantes. Gosto de ver as maravilhas onde elas estão: ora perto, ora longe. Richard Hoggart quase não teve que sair de casa para escrever The Uses of Literacy. Aspects of Working-Class Life with Special Reference to Publications and Entertainments (1957), um clássico da Sociologia. Quando enxergo maravilhas longe, fico encantado; quando ignoro maravilhas perto, não me perdoo.

Procissão da Burrinha. Braga TV.

A Procissão da Burrinha, na freguesia de S. Victor, em Braga, não podia ser mais próxima. Desde 1992, o número de figurantes, participantes, assistentes e turistas não para de crescer. Um sucesso que é um misto de religião oficial e religiosidade popular. A origem remonta aos anos 1870. Conheceu, entretanto, altos e baixos. Teve longos períodos de interrupção. Os motivos, os quadros e os figurantes mudaram ao longo do tempo. Outrora, em Julho, a procissão era dedicada às dores de Nossa Senhora, agora, inserida na Semana Santa, versa sobre o “Cortejo Bíblico Vós sereis o meu povo”. Até o SNI, órgão de propaganda do Estado Novo, pugnou, nos anos sessenta, pela renovação da Procissão da Burrinha. Ressalve-se, porém, que a partir do momento em que a imagem de Nossa Senhora do Egipto (a Senhora da Burrinha) se juntou, na procissão, à imagem de Nossa Senhora das Angústias, o núcleo duro permaneceu intacto: Nossa Senhora montada numa “jumentinha”, com o menino Jesus ao colo e São José a conduzir. Acrescenta-se um pormenor raro: Nossa Senhora porta um chapéu. Para se resguardar da inclemência solar durante a “fugida” para o Egipto? Por uma contingência local: quem organizava a procissão era a Irmandade de S. Tiago. “Esta corporação era constituída essencialmente pelos fabricantes de chapéus, os sombreireiros, que chegou a ser o mais importante ofício praticado na cidade de Braga” (Ferreira, Rui, 2007, Procissão da Burrinha, Braga, Junta de Freguesia de S. Victor). Nem tudo o que é divino cai dos céus.

Milhares nas ruas de Braga para aclamar a Procissão da Burrinha. Braga TV.

A imagem de Nossa Senhora, com chapéu, montada, o menino ao colo, avança numa burrinha conduzida por S. José (um figurante). Este é o coração da procissão. Rodeado e acompanhado por um mar de gente. Acontece estar perto o que não se encontra longe!

Preserve-se o nome “Nossa Senhora da Burrinha”, mais eloquente do que “Nossa Senhora das Angústias” ou “Nossa Senhora do Chapéu!

Procissão da Burrinha. Braga. Press Minho.

As informações constantes neste artigo provêm do livro Procissão da Burrinha, da autoria de Rui Ferreira. Apoia-se, ainda, num estudo, de que fui tutor, protagonizado por um grupo de alunos do curso de licenciatura em Sociologia da Universidade do Minho: Memória e Significado: O Caso da “Procissão da Burrinha”, por Ana Pereira, Ana Tavares, Daniela Pereira, Eduardo Mó e José Sendão.
A burrinha da procissão lembra o jumentinho do poema A moleirinha, de Guerra Junqueiro (Os Simples, 1892). A mesma humildade, quase a mesma divindade. “Quando a virgem pura foi para o Egipto, / Com certeza ia num burrico assim”.


Guerra Junqueiro. A Moleirinha.


Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!…

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa…
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume…
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume…

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata…
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d’outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus…

Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!…
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar…

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d’astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d’oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!