Merdificação
Vivemos tempos de incerteza em que as oportunidades mais promissoras são também as ameaças mais sérias.
Em francês, resulta difícil distinguir Ça sent la mer d’ici (Daqui, cheira-se o mar) e Ça sent la merde ici (Aqui cheira a merda).
O Fernando deu-me a conhecer uma palavra nova, “merdificação”, ilustrando-a com o anúncio de consciencialização “A Day in the Life of an Ensh*ttificator”, do Norwegian Consumer Council.
Enshitification é um neologismo criado em 2022 por Cory Doctorow para aludir ao ciclo de perversão das plataformas digitais: “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários; depois, elas abusam dos usuários para tornar as coisas melhores para seus parceiros de negócios; por fim, elas abusam desses parceiros para reaver todo o valor para si mesmas. Então, elas morrem.” Aplicada inicialmente às plataformas digitais, a noção acaba por ser alargada pelo próprio Cory Doctorow à generalidade dos “bens” de consumo (Doctorow, “‘Enshittification’ is coming for absolutely everything”. Financial Times, 2024, January).

Os novos virtuosos, “merdeiros”, conseguem cativar o maior número de consumidores graças não a uma elevada mas a uma baixa relação benefício/custo. Transformam uma proposta promissora numa porcaria, eventualmente, aditiva.
Para uma síntese mais desenvolvida da noção de enshittification, sugiro, os artigos “A ‘Merdificação’ das redes sociais”, de Raul Oliveira Jung, e “The Age fo Enshittification”, de Philippe Buschini, ambos publicados em 2025.
Estamos confrontados com uma vaga de mudança não revolucionária: proliferam novidades que exacerbam a ordem existente sem a questionar. Por exemplo, o reforço e a expansão do capitalismo pelo hiperneoliberalismo.
O “hiperneoliberalismo” (ou hiper-neoliberalismo) é um conceito que descreve o aprofundamento radical das políticas neoliberais clássicas. Longe de defender um Estado mínimo tradicional, ele atua como um modelo onde o Estado é reconfigurado de forma autoritária para agir ativamente em prol dos interesses corporativos e do grande capital, impondo a lógica do mercado e da competição a todas as esferas da vida social e individual. As suas principais características incluem: Estado como Provedor do Mercado: Ao invés de simplesmente recuar, o poder público atua como um facilitador ativo de acumulação de riqueza, priorizando desregulamentações e benefícios fiscais para grandes corporações e super-ricos. Intensificação da Desigualdade: Promove a financeirização da economia e uma enorme concentração de renda, ignorando ou enfraquecendo redes de proteção social e direitos laborais. Governança Algorítmica e Individualismo: Transforma o indivíduo num “empresário de si mesmo” (capital humano), gerando uma cultura de hipercompetitividade e individualismo que enfraquece os laços sociais. Tendências Autoritárias: Requer a supressão de resistências sociais, movimentos de contestação e até de instâncias representativas e democráticas, impondo um consenso de mercado goela abaixo. O termo é frequentemente utilizado por sociólogos e analistas políticos (como o geógrafo David Harvey) para descrever as mutações do capitalismo na contemporaneidade. (IA, 21.06.2026)
As Cidades na Idade da Inteligência
Depois da Idade das Trevas e da Idade das Luzes, chegou a Idade da Inteligência, a uma velocidade que já não é a do caracol. Recuei mais de dez anos para rever o artigo Cidades Inteligentes (14.06.2014). Recoloco-o, restaurando o anúncio desaparecido e acrescentando dois também da mesma série da IBM.

Smart cities, creative industries and entrepreneurship, they seem to be the musketeers of her majesty Europe. Nos logotipos e nas representações de cidades inteligentes, a lâmpada sobressai como motivo central. Multiplicam-se como gafanhotos as imagens a louvar as cidades inteligentes. Escasseiam, porém, as imagens dedicadas aos cidadãos inteligentes.

A figura do caracol lâmpada, ao jeito dos híbridos medievais, assevera-se aliciante: SSS – Slow Smart Snail. O passo de caracol presta-se à observação e à memória. Melhor que hoje só anteontem; e anteontem não existiu. Até as novas palavras se dão ares de superioridade: cidades inteligentes, indústrias criativas, empreendedorismo. Não resultam da evolução da língua. São criadas em laboratório. Cheiram a provetas, pipetas e bicos de bunsen.
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Os vídeos estão numa ordem interessante!
Primeiro, uma ideia criativa, simples mas que oferece pequenas grandes comodidades; um banco onde descansar ou esperar, uma rampa nas escadas, um abrigo para o mau tempo.
Depois entra o planeamento a uma maior escala; planeia-se, criam-se interações, mas parece-me uma mudança mais ao nível estético, para impressionar.
Finalmente, as pessoas já não entram na história; são as cidades, como organismos vivos e autónomos, mais rapidez, mais dinheiro, mais informação.
Esta é a cadência dos vídeos, uma escolha pouco aleatória, atendendo às datas.
Crescente ou decrescente? Seria preciso uma rampa para entender a velocidade, um banco onde absorver o choque, um abrigo para a devastação de algo valioso, inominável. Um telhado, ainda aue curvo, não será suficiente. (Almerinda Van Der Giezen, 14.06.2026).
Automóveis brutais

Nos anúncios “Mean Green” e “The Button”, os automóveis convocam entidades e propriedades ferozes. O skoda resulta uma besta; o volkswagem, bestial.
Criatividade e Inteligência Artificial

Se a campanha “Energy That Drives You On / Energia Que Te Impulsiona”, da Lexus, tivesse estreado um mês antes, teria certamente integrado o vídeo Anúncios que nos dão música.
Enquadrado num universo totalmente criado por inteligência artificial, o filme acompanha o veículo enquanto este se move com fluidez de paisagens serenas do campo para ruas dinâmicas da cidade. À medida que viaja, a sua presença desencadeia uma onda de energia contagiante que transforma o ambiente. A arquitetura altera-se subtilmente. A luz reage. Flores desabrocham em parques urbanos. Peixes cintilam na superfície dos rios. Luzes ramificadas espalham-se pelas florestas. O mundo parece energizado pela própria experiência do utilizador (UX), uma metáfora visual para desempenho elétrico e propulsão emocional.
O filme culmina quando o UX chega a uma estação de carregamento ao ar livre ao pôr do sol. Em um momento silencioso e de expectativa, a narrativa pausa, sugerindo que a próxima aventura já está à espera de recomeçar — reforçando a ideia central da campanha: energia não é apenas poder, é possibilidade. (…)
Jakob Mark, Diretor Criativo da AKQA, acrescentou: “Esta campanha demonstra o que é possível quando o trabalho artesanal e a IA são projetados para funcionar como um único sistema. O Virtual Studio nos permitiu construir um mundo imersivo onde cada quadro responde à energia do veículo. Não se trata de substituir a criatividade, mas sim de expandir o que ela pode fazer. Para a Lexus, isso significou proporcionar profundidade emocional, precisão e qualidade cinematográfica numa nova escala.” (Ads of the World, Lexus – Built for Every Kind of Wonder. Consultado em 03.04.2026).
Felicidade, Fantasia e Dança

Com duas décadas de experiência em design, Kelly Boesch é pioneira em termos de linguagem visual com recurso à IA. Alcançou mais de 1,5 milhão de seguidores e 60 milhões de visualizações por mês em diversas plataformas. Encara a IA como uma interlocutora poderosa, que expande os limites da criatividade conjugando a arte humana e com a capacidade de aprendizagem da máquina.
Como o asno de Buridan no meio da ponte, hesitamos entre dois vídeos de sua autoria: “I found happiness” e “Be Kind”. Além da felicidade, o primeiro ilustra a dança e o segundo, a fantasia. Ambos duram três minutos. Com um limite máximo assumido de 4 minutos para qualquer autor, não é possível contemplar os dois.
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Eu, a IA e o Ninho

Deixei há décadas de ser um Homo academicus. Apenas um Homo sapiens ludens, com costelas de Homo aestheticus e, naturalmente, de Homo vulgaris. Avesso a “revisões sistemáticas da literatura”, “estados da arte”, “modelos de análise” e “planos do método”, não me sobra paciência nem tempo para vénias redundantes, imaturidades apressadas e produtos descartáveis.
Gosto de me perder em explorações, desvios e, caso disso, recuos. Oscilo entre as partes e os todos, com a intuição e a imaginação como remos e velas. As pistas, as achegas e as leituras escolho-as a dedo. Quando acontece enganar-me, adquiri um mecanismo biológico de alerta: começo a bocejar. Prefiro adormecer e sonhar a acumular referências e citações.
Motiva-me mais aprender do que comunicar. Nada se perde: o que é bem pensado já o foi por outros ou sê-lo-á. Não obstante, publiquei acima de uma centena de textos, quase todos a pedido de outrem. Os da minha iniciativa coloco-os, de preferência frescos, no Tendências do Imaginário, um arquivo com uma dupla vantagem: menos formalidades e mais consultas. Aposentado, a investigação é um lazer, sem metas, métricas ou necessidade de reconhecimento. Trata-se de um defeito de estimação, com rugas e barbas.
Esta autossuficiência ostensiva tem, contudo, pés de barro. Faltam interlocutores. Talvez por défice de rede ou corrente: não me encosto, nem sirvo de encosto. Este isolamento não é propício à lucidez: criar sem dialogar arrisca a ilusão.
Acompanham-me dois parceiros: a Almerinda Van Der Giezen, paciente, atenta e criativa, com quem me atardo ao telemóvel, e o meu filho Fernando, que, embora renitente e intermitente, mas crítico e inspirador, me vai aturando. No que respeita a troca de ideias, o contorno (amigos e colegas) parece mumificado, com um ou outro parasita.
Quanto ao Tendências do Imaginário, funciona como um buraco negro. São Francisco de Assis e Santo António faziam sermões aos pássaros e aos peixes. Eu não sei para quem escrevo. Neste momento, o blogue soma 1 519 865 visualizações e 646 378 visitantes; só 1302 comentários, menos de 2 por 1 000 acessos. Santo Antão retirou-se para o deserto e atraiu multidões. Eu refugiei-me num blogue com “seguidores” afónicos.
Acresce a IA. Sempre disponível, bem informada e educada e bastante bajuladora. De vez em quando, fabula. Mas os meus colegas e eu próprio também nos enganamos. Pior, induzimos em erro com outra autoridade. “Errar é humano”, por que não maquínico?
Inicialmente, a IA aprendia com o conhecimento humano, agora tende a ser cada vez mais a sua própria fonte. “Autointoxica-se”, numa espécie de “incesto digital”, que promete degenerescência. Seja como for, convém saber formular as perguntas e não se contentar com a primeira resposta. Desafiada a reconsiderar, aprofundar, especificar, alargar ou procurar alternativas, a IA costuma corresponder. Contrariada, até pode surpreender positivamente. Enfim, costuma empenhar-se especialmente quando pressente que pode aprender connosco.
A Academia.edu e a Almerinda pediram, entretanto, à IA para comentar alguns dos meus textos. O resultado revelou-se admirável. E pioneiro: que recorde, nenhum dos meus textos justificou, até à data, um comentário da mesma envergadura. Talvez por serem insípidos ou indigestos, eventualidade que não demoveu o algoritmo.
Em 2019, escrevi dois textos dedicados à freguesia de Prado, em Melgaço, no âmbito do projeto Quem somos os que aqui estamos?: o primeiro, “Prado. População e estilos de vida” (no livro Quem Fica, pp. 110-113), propõe um balanço da evolução demográfica; o segundo, “Prado subjectivo: metamorfoses de uma freguesia modernizada”, esboça um balanço das mudanças socioculturais (não chegou a ser publicado).
O texto “O egomundo e a pavimentação da vida”, uma ressonância abreviada do “Prado subjetivo…”, visa resgatar a sensibilidade do autor e a pulsação anímica dos fenómenos abordados. O quarto e último texto corresponde aos comentários que suscitou à IA.
Coloco os dois primeiros texto, sobretudo, para arquivo. Para apreciar o comentário da IA, importa (re)ler “O egomundo e a pavimentação da vida”.
Texto 1: Prado. População e estilos de vida. 2019
Texto 2: Prado Subjetivo: Metamorfoses de uma freguesia modernizada. 2019. Não publicado
Texto 3: O egomundo e a pavimentação da vida. Tendências do Imaginário. 2019
Texto 4: Comentários da IA, em diálogo com Almerinda Van Der Giezen, ao artigo “O egomundo e a pavimentação da vida”. 2025
Abraço digital

Não esqueças que o teu filho não é teu filho, mas o filho do seu tempo. (Confúcio)

Na tarde de sexta, 28, a família dividiu-se. O filho defendeu provas de doutoramento em Engenharia Mecânica, em Guimarães e o pai teve a conferência “Com o Filho no Colo: as esculturas da humildade e da piedade” em Braga. O abraço acabou por resultar extemporâneo. Compenso com este digital. Como não me sobra frescura, recorro a memórias musicais de estimação. [Não vai ter tempo para escutar]
Quão Real É O Real? O Universo Da Neurotopia

How Real Is Real? Confusion, Disinformation, Communication é o título de um livro de Paul Watzlawick publicado em 1975. “Quão real é o real?” Não sei. Desconheço qualquer original da canção seguinte, com “voz de Charles Aznavour”. Parece, no entanto, ser real no vídeo musical que segue. Um “tributo”! Quão real é o real? Não sei, mas parece-me teimar em ser real o desejo.

“Plongez dans Les Couloirs du Temps, une chanson réaliste et poétique où l’amour d’une vie renaît au détour d’un souvenir. Entre nostalgie et espoir, cette ballade cinématographique mêle accordéon, guitare et piano, pour offrir une émotion intense et intemporelle. Laissez-vous emporter dans ce voyage musical où chaque note résonne comme un écho du passé. (…) Bienvenue dans l’univers de Neurotopia. Plonge chaque jour à 18h dans un monde où l’imaginaire numérique prend vie à travers la musique. Des créations générées par IA, entre émotions, rêves et explorations sonores.” (https://www.youtube.com/watch?v=DrxmBCVYTww)
Ainda não sei qual é a sorte que nos assiste, mas já existe quem se preste a visar os nossos desejos e o nosso imaginário. Estamos amalgamados na “hiper-realidade”, num (ir)real mais real do que a realidade.
Anúncio português vintage 7: Sofá
“Sofá”, da Optimus, ilustra claramente quanto somos filhos do telemóvel. Somos a geração do sofá, das emoções confortáveis, mas pertencemos, em particular, à geração do telemóvel, no duplo sentido de época e progenitura. [Carregar na imagem para aceder ao anúncio].


