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O Clube Pepsi-Cola.

O anúncio Vending Machine, da Pepsi, é uma paródia do filme Clube dos Poetas Mortos (1989). No final do anúncio ocorre, à boa maneira das paródias, um deslocamento, que subverte o original: a solidariedade oferece-se às avessas; e os membros do novo clube não bebem poesia, mas Pepsi-Cola.

Carregar na imagem para aceder ao anúncio.

Pepsi. Vending Machine. 2000.

Marca: Pepsi-Cola. Título: Vending Machine. Agência: CLM & BBDO. Direcção: Kinka Usher. França, 2000.

Peregrinos

Caminho para Santiago. Oporto Discovery Tours.

Passam tantos peregrinos a caminho de Santiago! Vejo-os da varanda enquanto fumo um estúpido cigarro. Homens, mulheres, jovens e velhos, magros e gordos, altos e baixos, portugueses e estrangeiros. Sós ou acompanhados, com ou sem bordão, irradiam ânimo e vontade. Até parece que o homem foi feito para andar. E não vão a banhos! Seguem as setas amarelas, uma espécie de GPS em escala real. Sou céptico de estaca, mas muito me aprazeria afirmar que tenho fé nestes homens de fé. Mas não posso: as maiores guerras, as maiores perseguições e os maiores disparates da humanidade foram conduzidos por homens a transbordar de fé. E por descrentes, também. Tudo o que é humano tem sangue de besta.

RotasPortuguesas

Rotas para Santiago de Compostela

O que move estes pés sofridos? A fé no Santo, naturalmente. A troca com o Santo, também. Promessas e penitências. O sacrifício pessoal pela generosidade divina. Cumpre-se promessa por si, mas também por outrem e para outros. O caminho de Santiago é, assim, sacrificial na plena acepção da palavra: sofre-se não tanto por si e mais pelos outros. A humanidade não precisa de altar para ser generosa. Existem, contudo, outros motivos, mais profanos, para tamanha dedicação: a saúde e a beleza, hoje confundidas com a magreza; e o resgate de si numa espécie de peregrinação interior ou de eremitagem ambulante.

Um destes dias, não resisto ao vício. Pego em quatro cadeiras e vou entrevistar peregrinos na rua. Por enquanto, entretenho-me com um documentário do tempo de Salazar. Encontrei-o no portal RTP Arquivos: Caminhos Portugueses de Santiago, de 1965, realizado por Adriano Nazareth. Constitui um bom exemplo da retórica do Estado Novo.

O vídeo é quase monopolizado por imagens de monumentos da rota de Santiago: Igrejas, capelas, castelos e pontes. De preferência, românicos ou góticos. De Lisboa até Santiago. Mencionam-se os reis, as rainhas e outros peregrinos ilustres, como o tio de Nuno Alvares Pereira. E o povo, os caminheiros? O povo aparece figurado, como manda a propaganda, em desenhos estilizados. As tais figurinhas de presépio de que falava o Conde de Aurora no Roteiro da Ribeira Lima (1929). E o comentário? Imagem a imagem, palavra a palavra, oferece-se como uma catequese, ou uma gesta, que convoca harmoniosamente religião e história. Carregar na imagem para aceder ao documentário.

Caminhos de Santiago. RTP

Caminhos Portugueses de Santiago. Realizador: Adriano Nazareth. 1965. RTP Arquivos.

Por hoje já ruminei quanto baste. Mas não me despeço sem um desafio. Veja o documentário; percorra, em seguida, alguns vídeos na Internet respeitantes à peregrinação a Santiago. Que diferença de foco! Uma última sugestão: o filme Fátima, de João Canijo (2017). Decididamente, na humanidade não há figuras de presépio!

Fátima de João Canijo. Portugal, 2017.

Nós somos imagens que passam

Cartaz do Cinematógrafo Lumières. Na Exposição de Estocolmo. Suécia. Por Carl August Olausson. 1897.

Cartaz do Cinematógrafo Lumière. Na Exposição de Estocolmo. Suécia. Por Carl August Olausson. 1897.

No anúncio Hunt, da Telefónica, meio mundo anda a ecranizar a outra metade. Na verdade, andamos a ecranizar-nos uns aos outros. Nada escapa: nem a sapatilha aerodinâmica, nem o cabelo inteligente. Ecranizamo-nos pela frente, ecranizamo-nos por trás. É uma partilha compulsiva de imagens de si e do outro, numa ecranização global. Somos, em termos de imagens, uns arroseurs arrosés. A geração do pós-anonimato ou, se se preferir, da pós-intimidade. Nous sommes les enfants des Lumière(s). “Nós somos imagens que passam, num mundo transformado em ecrã”. O que me irrita, solenemente!

Anunciante: Telefonica Movistar & Motorola.Título: Hunt. Agência: McCann Erickson Madrid. Espanha, Fev. 2010.

Les frères Lumière. L’Arroseur arrosé. 1895.

Originalidade aplicada

NosferatuO Brasil é uma potência do audiovisual. A originalidade desfruta de boas condições. Encontrei em iniciativas brasileiras uma qualidade relativamente rara que denomino originalidade aplicada. Quando uma inspiração não se reduz a um fogo-de-artifício, mas se traduz por uma pragmática consequente, estamos próximos da originalidade aplicada.

Há meio século, coloriam-se os filmes a preto e branco. Lembro-me do Jour de fête, de Jacques Tati (1949). A Getty Images Brasil propôs-se não colorir mas sonorizar o filme mudo Nosferatu (1922). Um projecto e uma obra únicos! O resultado compensa. Segue o trailer (pode aceder ao filme Nosferatu sonoro completo no endereço: http://www.nonsilentfilm.com/en/).

Anunciante: Getty Images Brasil. Título: The Non Silent Film. Agência: Almap BBDO Brasil. Brasil, Abril 2017.

Horror pedagógico

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Hans Von Gesdorff. Field book of surgery. The wounded man. Strasburg. 1528.

De temps en temps, les Français me dépassent ! Hoje, vesti-me de crítico, como o actor de  Stanislavski (A Construção da Personagem, ca. 1930). Revejo o anúncio Déja-vu 2, da Agence de la Biomédecine, e percebo cada vez menos. Trata-se de uma paródia dos filmes de terror de série B. Uma paródia obtusa de um género obtuso. De noite, na floresta, uma jovem expansiva e ingénua afasta-se do grupo e é vítima de uma série de facadas e machadadas desferidas por um serial killer. O público-alvo do anúncio são os jovens entre os 15 e os 25 anos, grupo suposto aterrorizar-se ou gozar com o anúncio. O assunto é, contudo, sério: a doação de órgãos e tecidos:

Dans le contexte de l’évolution de la réglementation sur le don d’organes et de tissus, l’Agence de la biomédecine renouvelle une prise de parole à destination des jeunes. Une prise de parole qui a pour objectif de continuer à les sensibiliser sur le sujet du don d’organes et de tissus, mais aussi à les informer sur la loi en vigueur, notamment concernant le principe méconnu du consentement présumé et les modalités d’expression du refus » (Agence de la Biomédecine).

Afigura-se-me que estamos perante um anúncio de consciencialização que aposta na circulação, porventura, numa “epidemia” viral. A extensidade sobrepõe-se à intensidade, l’effet au sujet. Esta opção é vulgar na publicidade de consciencialização. Propagar é o objectivo! E o disgusto é um bom mensageiro.

Para terminar, um pergunta tão mesquinha quanto perversa: naquele corpo feminino, coberto de golpes, sobra algum órgão apto para doação? Et voilà!

Anunciante: Agence de la Biomédecine. Título : Déjà-vu 2. Agência : DDB Paris. Direcção: Steve Rogers. França, Novembro 2016.

Preguiça neuronal

the-beekeeperNão se excedam a ensinar
Quero aprender
Não desenrolem mapas
Quero perder-me
Tanta gravidade
Impede-me de saltar
O caminho é caminhada
E o destino ainda não é nada
Apetece-me dançar uma valsa
Abraçado à estupidez
Que bate leve, levemente
Como quem chama por mim (AG)

Eleni Karaindrou notabilizou-se com o disco Eternity and a Day (1998). To Vals Tou Gamou, do disco The Beekeeper / O Melissokomos, foi editado muito antes, em 1986.

Eleni Karaindrou. To Vals Tou Gamou. The Beekeeper / O Melissokomos. 1986.

Van Gogh animado

loving-vincentO meu rapaz mais novo volta a desafiar-me com o trailer do tão aguardado filme Loving Vincent. Trata-se de uma obra com financiamento coletivo a partir da plataforma Kicstarter. Dedicado a Vincent Van Gogh, é o primeiro filme de animação com pintura a óleo. Doze pinturas por segundo, a cargo de uma centena de pintores especializados. Confesso que não imaginava um filme de animação com o traço de Van Gogh. Em boa hora! Uma iniciativa extraordinária da Breakthru Films, vencedora de um óscar. Assim se saltam limites. Junto o trailer acompanhado pelo behind the scenes. Página do filme: http://lovingvincent.com/.

Loving Vincent. Trailer. Breakthru Films. Directores: Dorota Kobiela & Hugh Welchan.

Loving Vincent. Behind the scenes.

Paródia de uma utopia

Este artigo é do meu rapaz mais novo, o Fernando. Importa assegurar o futuro do blogue.

paprika

“Até as senhoras da corte dançaram ao ritmo das flautas e tambores dos sapos. O remoinho de papel reciclado era uma vista para se ver, como gráficos de computadores! … O frigorífico e a caixa de correio vão liderar o caminho… Caminhem juntos em frente, eu sou o derradeiro governador” (Paprika, 2006).

O tema do filme de animação Paprika, dirigido por Satoshi Kon em 2006, incide sobre o alcance dos sonhos.

A um dado momento, ocorre uma invasão, com a forma de uma parada de vários objectos. O sonho do consumismo. Quem é o sonhador desta parada? Não se sabe. Cada um entra na parada e integra-se como se fosse o seu sonho, cada um é o “derradeiro governador”, um individuo consumido pelo consumismo. O sonho que não é de ninguém mas de todos.

“Pergunto-me aonde se dirigia a parada. Sinto que estava mesmo perto de controlar o mundo.” Os participantes na parada sentem uma promessa, uma recompensa final. Contudo, esta é uma parada sem fim, uma viagem em espiral, crescendo aos círculos.

No final, a parada invade o mundo real. As pessoas vão-se transformando em objectos. O individuo vale o que possui.

Os anúncios e a própria internet não são mais do que formas de sonho. Um sonho que se aloja no subconsciente. Um jogo em que a realidade afeta os sonhos que, por sua vez, afetam a realidade, uma realidade onírica.

Reencontram-se muitas figuras e situações do filme Paprika no filme Inception lançado quatro anos depois, nomeadamente a interpenetração entre sonho e realidade.

Paprika.Satoshi Kon. Japão. 2006. Excerto.

 

Filmes do Homem. Melgaço, 2 a 7 de Agosto

filmesdohomem

Existem, sempre, bons motivos para visitar Melgaço. Os Filmes do Homem 2016, Festival Internacional de Documentário de Melgaço, é um motivo muito especial. Decorre de 02 a 07 de Agosto, em várias localidades do concelho. Para aceder ao catálogo, carregar numa imagem ou no seguinte endereço: http://www.filmesdohomem.pt/doc/FDH2016.pdf.

Filmes do Homem. Projecção junto à Torre de Menagem. Melgaço, Agosto 2016.

Filmes do Homem. Projecção junto à Torre de Menagem. Melgaço, Agosto 2016.

A Árvore dos Tamancos

A Árvore dos Tamancos é um belíssimo filme italiano-francês realizado por Ermanno Oldi em 1978.

A árvore dos tamancos“The life inside a farm in Italy at the beginning of the century. Many poor country families live there, and the owner pays them by their productivity. One of the families has a very clever child. They decide to send him to school instead of make him help them, although this represents a great sacrifice. The boy has to wake up very early and walk several miles to get to the school. One day the boy’s shoes break when returning home, but they do not have money to buy other. What can they do?” (IMDB). A música do filme é de Johann Sebastian Bach.

 

A Árvore dos Tamancos. Banda sonora. Johann Sebastian Bach. 1978.