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Estar comigo é outra coisa

Eugène Delacroix – Saint Mary Magdalene at the Foot of the Cross . 1829.

A série bíblica do Renault Clio lembra o filme Jesus Cristo Superstar (1973), uma ópera-rock com música de Andrew Lloyd Weber. Destaco a canção I Don’t Know How To Love Him, interpretada por Yvonne Elliman. Gosto de misturar memórias, num encadeamento estranho com voltas que recusam repetir-se. Yvonne Elliman lembra-me a canção Both Sides Now (1969), de Joni Mitchell. “Does anybody here remember Joni Mitchell?” Frequentemente, as obras são cobertas por várias camadas de sedimentos. Como invejo quem desenterrou, das cinzas, a cidade de Pompeia e, dos escombros acumulados, a Domus Aurea. Quando escavo o mundo, descubro-me; quando me descubro, escavo o mundo. Uma mútua arqueologia. Quando estou comigo, apraz-me acreditar que não estou em má companhia.

Yvonne Elliman. I Don’t Know How To Love Him. Banda sonora de Jesus Cristo Superstar. 1973. Ao vivo.
Joni Mitchell. Both Sides Now. Clowds. 1969.

Anúncios do coração

O anúncio The Desert Cowboys, da Skoda, é uma paródia dos westerns de Sergio Leone. É deveras gratificante ver realizadores investir em pormenores em que poucas pessoas reparam: o anúncio foi rodado no Deserto de Almeria, em Espanha, à semelhança do filme Era Uma Vez no Oeste (1968). Parafraseando Shakespeare, um pormenor, um pormenor, o meu reino por um pormenor! O anúncio aborda o isolamento e a desertificação. Uma realidade premente. Pelos vistos, a Skoda pode ajudar a encurtar distâncias. Os “anúncios do coração” estão na moda. Nem sempre foi assim. Esta irmandade da salvação é recente. Empenhado e esmerado, o anúncio cumpre o que promete.

Marca: Skoda. Título: The Desert Cowboys. Agência: Proximity. Direcção: Paco Caballero. Espanha, Julho 2017.

Quem diz Sergio Leone diz Ennio Morricone, retomado na música do anúncio. Segue uma versão orquestrada da música do filme Era uma vez no Oeste, dirigida pelo próprio compositor. Goste-se ou não. O gosto está em vias de libertação: da vanguarda ou da retaguarda? Das elites ou das massas? A presumida “indústria cultural” não se consubstanciou na desqualificação da criação cultural. Antes pelo contrário, a criação cultural de qualidade parece tender, ao arrepio das hierarquias e dos nichos, a ser inclusiva. O “inacesso” aos bens culturais já não é o que era. Sem barbarização do gosto, nem democratização da cultura. Uma falácia tangível.

Ennio Morricone. Tema do filme Era uma vez no oeste. 1968. Concerto em Verona, 2002, dirigido pelo próprio Morricone.

A solidão das massas e a agressão introvertida

Francisco de Goya. Procissão de flagelantes. Entre 1812 e 1819.

Francisco de Goya. Procissão de flagelantes. Entre 1812 e 1819.

La sujecion se hace cada vez mas hermetica Y no quiere la comunicacion. Lo contrario del hermetismo es la apertura, pero la mayorfa de las veces lo demoniaco no se expresa, sino que estalla solo de modo atavico. Y no en palabras; su manifestacion mas simple y frecuente, una manifestacion creadora de monstruosidades, no es ni siquiera, como podna pensarse por razon de la interioridad, individual, ni tiene lugar en torno a tales personas singulares, sino que es arrebato de las masas, si bien un arrebato provocado, en la mayoria de los casos, por estas mismas personas. Es un arrebato que va desde el frenesi de las bacantes, de los berserker, hasta los pogromos de los cruzados y hasta la agresion invertida de los flagelantes, desde la embriaguez de la batalla hasta el terror bianco. En todo ello lo demoniaco no hace uso de la comunicacion, ni siquiera cuando penetra en la masa, cuando se hace colectivo. El viejo hermetismo se conserva, mas bien, en su estallido colectivo; lo que aparece como comunicacion es solo contagio, y en el fondo se encuentra la misma soledad como masa. La no-revelacion de lo herme’tico responde en el arrebato demoníco de la masa a la ausencia fundamental de entendimiento, critica, autocontrol y juicio” (Bloch, Ernst, El Princípio Esperanza, 1954. Madrid, Editorial Trotta, 2007, Vol. III, p. 78.)

Segundo o meu rapaz mais novo, os Monty Python têm um humor actual. Como argumento, envia-me vários excertos, entre os quais o episódio da caça à bruxa no filme Em Busca do Cálice Sagrado (1975).

Tenho o vício de visitar os clássicos. São os clássicos, a cerveja e o tabaco. Pensaram as mesmas coisas que nós pensamos. Com mais serenidade. Com tanta velocidade, o cérebro, hoje, estampa-se. Para Ernst Bloch, a submissão contemporânea é  hermética e avessa à comunicação. Não aposta na pessoa e a na subjectividade mas no arrebatamento  colectivo. A explosão colectiva não convoca a comunicação mas o contágio. “A solidão das massas” (Hannah Arendt, As origens do totalitarismo, 1951) é caracterizada pela “ausência fundamental de entendimento, crítica, autocontrole e julgamento”. Assim sucede com os flagelantes e os “caçadores de bruxas”. Nos primeiros, o ritmo, o coro e a “agressão introvertida” exilam a reflexividade e a originalidade. Outrora como agora. Nos segundos, o arrebatamento da besta colectiva nem sequer precisa da intervenção do diabo para julgar e matar a bela feiticeira (ver A cadeira de patinhar). Comparar é uma tentação. No presente, também existem colectivos semelhantes: a praxe, as claques, os concertos musicais, os deputados durante a votação do orçamento e, não sei porquê, os coletes amarelos, tão diferentes dos coletes salva-vidas.

O humor dos Monty Python persiste porque é único. Numa cascata de absurdos, atropelam-se duas formas de grotesco: o cómico regenerador e o sinistro corrosivo. As nossas bocas abrem-se de riso e fecham-se de desconforto. Neste exercício de maxilares, os neurónios escaldam e gelam quase ao mesmo tempo.

Monty Python. Em busca do cálice sagrado. 1975

Extremos

Vangelis in 1974

Vangelis em 1974

Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.

Autodestruição

Roland Topor. Liberté d'expression. Amnestia Internacional. 1977

01. Roland Topor. Liberté d’expression. Amnestia Internacional. 1977.

Hoje apetece-me conversar. Uma pausa na escrita solitária. Não sei se reparaste na gravura do Roland Topor no artigo anterior (Com uma pequena ajuda da morte)… Nem sequer viste o artigo. É natural. Não queres dar uma espreitadela? Eu fico aqui à espera. Não te apetece? Também não se perde nada.

Viste o filme O Tambor? É daqueles filmes de culto em que saímos da sala de cinema indispostos. Curiosamente, Roland Topor desenhou um dos cartazes do filme.

THE TIN DRUM French Movie Poster

02. Roland Topor. O Tambor. Cartaz francês do filme. 1979

Roland Topor pertence ao rol de artistas cuja obra é mais famosa do que o autor. Em 1977, desenhou um cartaz, contra a censura, para a Amnistia Internacional. O desenho de Roland Topor é um ícone do imaginário do último meio século. Cerca de dez anos mais tarde, o desenho preenche a parede de um prédio em Maastricht.

Mural by Ronald Topor, 1988, located at Tongersestraat, Maastricht, The Netherlands.

03.Mural por Ronald Topor. Maastricht. 1988.

Parte da obra surrealista de Roland Topor é considerada “autodestrutiva”. Poucos traços e muita corrosão, à semelhança dos desenhos seguintes.

Para ter uma noção do que pode ser uma obra autodestrutiva, sintoniza o teu cérebro com o meu. Recorda a gravura Mãos desenhando (1948), de M.C. Escher. Agora, imagina comigo! As mãos de Escher, em vez de se desenharem mutuamente, estão a apagar-se uma à outra! Isto é autodestruição.

M.C. Escher. Mãos. 1948.

07. M.C. Escher. Mãos. 1948.

Soube-me bem imaginar contigo. Imaginação criadora sobre a autodestruição.

A utilidade dos bebés

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Matthias Stom. The Adoration of the Shepherds. 1635-1640.

Eles não sabem, nem sonham
que o sonho comanda a vida
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
(António Gedeão, Pedra Filosofal, excerto, Movimento Perpétuo, 1956).

Deitei-me misantropo, acordei filantropo. Tudo é, agora, amor e água fresca. Carrinhos com bebés, mulheres grávidas e namorados de mãos dadas. Bom augúrio para a natalidade. O anúncio argentino Anti-Mangazo, do Santander Rio, ensina-nos que os bebés são úteis! Revelam-se bons escudos de protecção contra a cobiça alheia.

Marca: Santander Rio. Título Anti-Mangazo. Agência: Santo. Direcção: Diego Kaplan. Argentina, Agosto 2018.

Uma ressonância: a publicidade sonha; o sonho comanda a vida; mas a vida ultrapassa o sonho. No anúncio Anti-Mangazo, a criança é instrumentalizada como estorvo à pedinchice. Na realidade, muitas crianças são instrumentalizadas como suporte às redes organizadas de pedinchice. Embora “a vida seja um sonho um pouco menos inconstante” (Blaise Pascal, Pensamentos, 1670), convém aterrar, de vez em quando.

Green Windows / José Cid. 20 anos. 1973. Com com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Por falar em crianças, nos anos setenta, a secção de discos das grandes superfícies de Paris contemplavam apenas duas escolhas de música portuguesa: Amália Rodrigues e os 20 anos, de José Cid. Segue a canção, acompanhada com imagens do filme Aniki Bobó (1942), de Manoel de Oliveira.

Filmes do Homem / A cumplicidade dos objetos

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

Filmes do Homem. Identidade, Memória, Fronteira.. 2018. Catálogo.

De 30 de Julho a 5 de Agosto, ocorre, em Melgaço, o Festival Filmes do Homem, organizado pela Câmara Municipal e pela associação Ao Norte. “Um evento de referência no território nacional e internacional”. Além do cinema, o Festival contempla outras actividades, tais como a fotografia. Articula-se, entre outras entidades, com o Museu do Cinema, o Espaço Memória e Fronteira, a Torre da Menagem, a Casa da Cultura, a Porta de Lamas e o Museu de Castro Laboreiro.

Melgaço, um dos municípios mais envelhecidos do País, insiste em ser dinâmico e ambicioso. Colaboro com os Filmes do Homem desde a origem. Nos últimos anos, foi incluída uma exposição de fotografia. O Álvaro Domingues  e eu próprio temos escrito os textos para os catálogos. No dia 30 de Julho, pelas 19:30, na Casa da Cultura, vão ser lançadas publicações com as fotografias e os textos correspondentes a três exposições.

Para aceder ao pdf do Catálogo dos Filmes do Homem, de 2018, carregar na imagem acima ou no seguinte endereço: file:///C:/Users/Utilizador/Downloads/Cat%C3%A1logo%20Filmes%20do%20Homem.pdf

Para aceder ao pdf do texto “A cumplicidade dos objectos”, carregar na imagem abaixo (uma mulher a preparar a terra) ou no seguinte endereço: Albertino Gonçalves. A cumplicidade dos objectos. Exposição Pedra e Pele, de João Gigante. Filmes do Homem 2018.

A amanhar a terra. Exposição a Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

A amanhar a terra. Exposição A Pedra e a Pele. João Gigante. Filmes do Homem, 2018.

Ler também cansa

Ennio Morricone

Ennio Morricone

Ler, ler, ler… Não o que apetece, mas o que se impõe. Prefiro ouvir, por exemplo, Ennio Morricone, uma arca sem fundo, onde se encontra, normalmente, a emoção que se procura. Fez 88 anos. Em 2016, ganhou o Óscar pela banda sonora do filme Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, que inclui a música Ester. Ennio Morricone dirige, em 2007, a música Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, na praça de São Marcos, em Veneza. Um espectáculo como só os italianos! O diálogo entre os instrumentos de sopro é simples mas sublime.

Ennio Morricone . Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo. Concerto em Veneza. 10.11.2007.

Ennio Morricone. Ester. Os Oito Odiados. 2016.

Olhares Lugares. Cinema e fotografia

JR. Palais de Tokyo. Paris.

01. JR. Palais de Tokyo. Paris.

02. JR. Panthéon. Paris

02. JR. Panthéon. Paris.

Agnès Varda é uma cineasta e fotógrafa belga, residente em Paris, empenhada na intervenção social e no movimento feminista. Na sua filmografia, constam, como realizadora, mais de 40 filmes, desde 1955. Recebeu o Oscar Honorário em 2017, o César Honorário em 2001; o Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim; e o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1985.

JR (de Jean René) é um fotógrafo e muralista francês, de origem tunisina, que se dedica à arte de rua. Lembrando o grafite, procede à colagem de grandes fotografias, normalmente em preto e branco, nos espaços públicos. Apresenta-se como “photograffeur” votado, tal como Agnès Varda, à intervenção social.

03. JR. Women Are Heroes in the Favela, Kibera Slum , Kenya

03. JR. Women Are Heroes in the Favela, Kibera Slum , Kenya.

Agnès Varda anda pelos 89 anos de idade, JR pelos 34. Podiam ser avó e neto. Não obstante, uniram-se para realizar, em 2017, o filme Olhares Lugares. Qual é o espanto? Na sociedade, o cruzamento mobilizador das diferenças é uma banalidade extrema. Em contrapartida, esbater as diferenças, igualizar, é delírio totalitário.

Obrigado, Adélia!

Trailer do filme Olhares Lugares. Realização: Agnès Varda & JR. 2017.

Alquimia digital

Guerra das estrelas

Em colaboração com o Fernando.

Pode citar-se uma obra própria sem incorrer em autofagia. Acontece no anúncio Become More Powerful, de Dante Ariola, para a Electronic Arts Inc. Na primeira parte, que dura 70 segundos, as personagens desvanecem-se deixando para trás a roupa e os objectos. Trata-se de uma alusão à luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi no filme Star Wars: Episode IV A New Hope. Obi-Wan desaparece deixando a roupa. Esta espécie de despojamento é frequente nas experiências místicas, significando uma maior exposição à alteridade e, eventualmente, à divindade. As personagens desaparecidas readquirem vida na segunda parte do anúncio (50 segundos). Entram no mundo fantástico da Guerra das Estrelas. O mergulho é alucinante. Paira uma sensação de imaterialidade. Troca-se de pele, de corpo e de alma. Algo como uma transubstanciação com transfiguração. Somos nós e não somos nós. Uma espantosa alquimia do ego. Na Idade Média, os gamers seriam, provavelmente, suspeitos de santidade: são propensos a êxtases! Mas a imersão e o alheamento são temporários, cedendo lugar à banalidade do indivíduo e do real. Há sempre uma âncora, um punhado de roupa, à nossa espera!

Neste artigo, ainda não desconversei o suficiente. Faltam umas linhas. Será o gamer o monge da pós-modernidade? O monge precisa de uma célula recatada, o gamer de um casulo electrónico; um debruça-se sobre manuscritos, o outro, sobre ecrãs; aquele medita, este concentra-se; o primeiro pertence a ordens, o segundo a tribos. Ambos se expõem a visões. Os monges foram úteis ao longo da história. Quanto aos gamers, para além do divertimento, importa promover um Quizz sobre o assunto na Internet. Palpita-me que os videojogos são pedagógicos. Aliás, na nossa sociedade, tudo tende a ser pedagógico. Até a mais inenarrável boçalidade. Foram necessário séculos e milénios para chegar à sociedade aprendiz. Nem Michel Foucault nos acode. Este parágrafo é da minha exclusiva responsabilidade.

Marca: Electronic Arts Inc. Título: Become More Powerful. Agência: Heat. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Novembro 2015.

Luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi, no filme Star Wars: Episode IV A New HopeI, 1977.