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Festival para Gente Sentada

Acalmia em Moledo. Fotografia de Fernando Gonçalves

Acalmia em Moledo. Fotografia de Fernando Gonçalves. 2018.

As férias terminaram, mas Moledo continua. Não me lembro de ver tantos carrinhos de bebé, tantas mulheres grávidas, tantas pessoas com cão e, sobretudo, tamanha afluência de carros a banhos. Moledo, no verão, está a mudar, a mudar no sentido inverso. Não estranhava ver nas redondezas de Moledo o Sufjan Stevens, cantor e compositor norte-americano, nascido em 1975. Tenho dois cd de Sufjan Stevens: Seven Swans (2004) e Illinoise (2005). Adquiri-os por altura da sua participação no Festival para Gente Sentada, em Braga, em 2004, no mesmo ano que Devendra Banhart. As três músicas seleccionadas pertencem ao disco Seven Swans.

Sufjan Stevens. We Won’t Need Legs to Stand. Seven Swans. 2004.

Sufjan Stevens. A good man is hard to find. Seven Swans. 2004.

Sufjan Stevens. Seven Swans. Seven Swans. 2004.

Biomecanóides e robots

Motorola

O meu rapaz mais novo está, há longos meses, a construir a perna de um robot. Fiquei a conhecer a complexidade dos nossos parceiros de um futuro que começou há décadas. O telemóvel é uma extensão biomecanóide? O anúncio Expedition, da Morotorola Droid, não tem dúvidas. Biomecanóides e robots não são uma ficção, cruzamo-nos com eles todos os dias. Seguem um excelente anúncio de Noam Murro e um clássico dos Kraftwerk.

Marca: Motorola. Título: Expedition. Agência: Mcgarrybowen (New York). Direcção:  Noam Murro. Estados Unidos, 2010.

Kraftwerk. The Robots. The Man Machine. 1978.

Reflexos

Apple

Hoje é Dia da Mulher. No anúncio, da Apple, uma mulher descobre  a  faculdade de alterar o espaço. E dança, não para de dançar. Só ou consigo mesma. Abre, simultaneamente, as janelas do espírito. E continua a dançar. A música e as imagens são notáveis. Eva? Maria? Madalena? Não, Alice, Super-Alice! O realizador é Spike Jonze. Ganhou o Óscar para o melhor roteiro original com o filme Her, de 2004. Foi considerado, com Chris Cunningham e Michel Gondry, um dos melhores realizadores de vídeos musicais. Cantora e bailarina, FKA Twigs enche o ecrã.

Acrescento três músicas de Francis Lai, dos filmes Un Homme et une Femme (1966), Love Story (1970 e Bilitis (1977).

Francis Lai, 124 Miles an Hour. Un Home et une Femme.1966.

Francis Lai. Theme from Love Story (Finale). Love Story. 1970.

Francis Lai. L’arbre. Bilitis. 1977.

Marca: Apple. Título: Welcome Home. Direcção: Spike Jonze. Estados Unidos, Março de 2018.

 

Ecologia do Espírito

Quino

Quino

A originalidade é uma raridade. Um descuido dos deuses. Tanta criação antes de nós. Esta dificuldade em ser original sobressai, curiosamente, no universo da magia e da fantasia. Por isso, há tanta reciclagem da Alice, da Capuchinho Vermelho e da Cinderela. E do Pinóquio, do Peter Pan e do Aladino. A imaginação não é tão infinita quanto nos apressamos a acreditar. Daqui não advém mal ao mundo. As ideias coçadas podem ser brilhantes. São artes e manhas da “ecologia do espírito”. Nos anúncios Choose  Go, da Nike, e Rewind City, da Orange, a repetição dos gestos concorre para a mudança desejada.

Marca: Nike. Título: Choose Go. Agência: Must Be Something. Direcção: Edgar Wright. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Marca: Orange. Titulo: Rewind City. Agência: Publicis Conseil, Paris. Direção: Ringan Ledwidge. França, Maio 2008.

Azul celeste e vermelho fogo

“O moribundo está recostado, rodeado pelos seus amigos e parentes. Seguem-se os rituais bem conhecidos. Mas sucede algo que perturba a simplicidade da cerimónia e que os assistentes não vêem; um espectáculo reservado apenas ao moribundo, que, por acréscimo, o contempla com um pouco de inquietação e muita indiferença. A habitação foi invadida por seres sobrenaturais que se apinham na cabeceira do jazente. De um lado, a Trindade, a Virgem e toda a corte celestial; do outro, Satanás e o exército dos demónios monstruosos. A grande concentração que nos séculos XII e XIII tinha lugar no fim dos tempos ocorre, a partir de agora, no século XV, na habitação do enfermo (…) Deus e a sua corte estão ali para constatar como o moribundo se vai comportar no momento da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro e que vai determinar a sua sorte na eternidade. A dita prova consiste numa última tentação. O moribundo verá a sua vida inteira tal como está contida no livro, e será tentado, tanto pelo desespero das suas faltas como pela vanglória das suas boas acções, bem como pelo amor apaixonado das coisas e dos seres. A sua atitude, no resplendor desse momento fugitivo, apagará de um só golpe todos os pecados da sua vida se afasta a tentação ou, pelo contrário, anulará todas as suas boas acções se não lhe resiste. A última prova tomou o lugar do Juízo Final” (Ariès, Philippe, Historia de la muerte en Occidente, Barcelona, Cadernos Crema, 2000,  pp. 48 e 49).

Ars moriendi, Provence 15th century.

Ars Moriendi. Provença. Século XV.

Este descrição assenta que nem um sapatinho de cristal no anúncio Final Breath, da Audi, com a ressalva de que Philippe Ariès aborda a “arte de morrer” nos séculos XV e XVI. Parentes e amigos rodeiam o moribundo. Invisíveis, as forças celestiais e infernais disputam a sua alma. Submetido a uma prova, o moribundo vê desfilar o livro da vida. Um automóvel Audi insinua-se como última tentação. Para onde vai alma? Para o vermelho fogo, a cor do carro, a cor dos demónios. Even a life lived to its absolute fullest isn’t immune to the stopping power of the all-new 2018 Audi.

A morte e o morrer tornaram-se tema corrente na publicidade. Neste caso, estamos perante uma citação, ou uma paródia, com referência implícita. Um excelente anúncio.

Marca: Audi. Título: Final Breath. Agência: Venables Bell & Partners. Direcção: Martin de Thurah. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

O mistério do cocó de gato

Catspiracy

Robots há muitos! Por exemplo, aqueles que servem para roubar o cocó dos gatos. Se os ovos da galinha eram de ouro, o cocó de gato não lhes fica atrás. Os seres humanos extorquem os excrementos dos gatos para os armazenar na lua e apaziguar os seus antepassados extraterrestres. Os gatos são vítimas de um roubo, com recurso a alta tecnologia, que os priva das suas preciosidades naturais.

O anúncio Catspiracy 2.0, da Petsafe, domina a arte do humor e da narrativa. É uma paródia dupla: das teorias da conspiração e dos documentários de cordel.

Marca: Petsafe. Título: Catspiracy 2.0. Agência: Humanaut. Direcção: David Littlejohn. Estados Unidos, Janeiro 2018.

O robot que ri

Sprint Evelyn

“A guerra interior da razão contra as paixões fez com que os que quiseram ter a paz se dividissem em duas seitas: uns quiseram renunciar às paixões e tornar-se deuses; outros quiseram renunciar à razão e tornar-se brutos. Mas, não o conseguiram nem uns nem outros; e a razão, ficando sempre, acusa a baixeza e a injustiça das paixões e perturba o repouso dos que a elas se abandonam; e as paixões estão sempre vivas nos que querem renunciar a elas” (Pascal, Blaise, 1670, Pensamentos).

O homem é um ser racional? Talvez menos do que nos aprestamos a acreditar. Os grandes clássicos da sociologia duvidam. Atente-se nas “acções racionais com relação a valores”, nas “acções afectivas” e nas “acções tradicionais”, de Max Weber (1864-1920); ou nas “acções não lógicas”, de Vilfredo Pareto (1848-1923). Acrescente-se que, ao arrepio de G.W.F. Hegel (1770-1831), um fenómeno pode ter sentido sem ser racional.

O anúncio Evelyn, da Sprint, mais do que uma paródia, aproxima-se de um cúmulo da racionalidade. O próprio anúncio é racional, como a maioria dos anúncios. O objetivo é um efeito São Paulo: a conversão dos espectadores da Veryson para a Sprint. O meio é eficaz: uma paródia de uma “escolha racional”, ou seja, da emergência de uma decisão inteligente.

Os robots são os protagonistas do anúncio. Eles e nós, que nos identificamos com o cientista. A exemplo da Evelyn, são capazes de aprender. E de dar instruções. Creio que já existem máquinas capazes de aprender e de instruir. Configuram, de algum modo, um efeito de realidade.

Para além de aprender e instruir, os robots têm sentido de humor. Entramos no cerne do anúncio. Os robots riem! Riem do cientista, com o qual nos identificamos. Riem de nós, os tansos que ainda não mudaram para a Sprint. Embora não pareça, o anúncio apela ao sonho, um sonho embalado pela razão.

A identificação é um processo complexo, nada linear. Podemos identificar-nos com o cientista e, ao mesmo tempo, com os robots. Uma identificação dupla. Somos propensos à identificação com animais, cartoons, bebés e robots. Os robots riem-se de nós; e nós com eles.

Marca: Sprint. Título: Evelyn. Agência: Droga 5. Estados Unidos, Fevereiro 2018.

Alquimia digital

Guerra das estrelas

Em colaboração com o Fernando.

Pode citar-se uma obra própria sem incorrer em autofagia. Acontece no anúncio Become More Powerful, de Dante Ariola, para a Electronic Arts Inc. Na primeira parte, que dura 70 segundos, as personagens desvanecem-se deixando para trás a roupa e os objectos. Trata-se de uma alusão à luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi no filme Star Wars: Episode IV A New Hope. Obi-Wan desaparece deixando a roupa. Esta espécie de despojamento é frequente nas experiências místicas, significando uma maior exposição à alteridade e, eventualmente, à divindade. As personagens desaparecidas readquirem vida na segunda parte do anúncio (50 segundos). Entram no mundo fantástico da Guerra das Estrelas. O mergulho é alucinante. Paira uma sensação de imaterialidade. Troca-se de pele, de corpo e de alma. Algo como uma transubstanciação com transfiguração. Somos nós e não somos nós. Uma espantosa alquimia do ego. Na Idade Média, os gamers seriam, provavelmente, suspeitos de santidade: são propensos a êxtases! Mas a imersão e o alheamento são temporários, cedendo lugar à banalidade do indivíduo e do real. Há sempre uma âncora, um punhado de roupa, à nossa espera!

Neste artigo, ainda não desconversei o suficiente. Faltam umas linhas. Será o gamer o monge da pós-modernidade? O monge precisa de uma célula recatada, o gamer de um casulo electrónico; um debruça-se sobre manuscritos, o outro, sobre ecrãs; aquele medita, este concentra-se; o primeiro pertence a ordens, o segundo a tribos. Ambos se expõem a visões. Os monges foram úteis ao longo da história. Quanto aos gamers, para além do divertimento, importa promover um Quizz sobre o assunto na Internet. Palpita-me que os videojogos são pedagógicos. Aliás, na nossa sociedade, tudo tende a ser pedagógico. Até a mais inenarrável boçalidade. Foram necessário séculos e milénios para chegar à sociedade aprendiz. Nem Michel Foucault nos acode. Este parágrafo é da minha exclusiva responsabilidade.

Marca: Electronic Arts Inc. Título: Become More Powerful. Agência: Heat. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Novembro 2015.

Luta entre Darth Vader e Obi-Wan Kenobi, no filme Star Wars: Episode IV A New HopeI, 1977.

 

A guerra dos drones

Audi Guerra dos Drones

A inspiração, a alusão, a paródia ou o diálogo entre obras de arte e de cultura são fenómenos correntes. As obras interagem umas com as outras, por distantes que estejam no espaço e no tempo. Não há, aliás, obras silenciosas, mudas. A este intercâmbio, Julia Kristeva chamou intertextualidade (1969, Sèméiotikè, Paris, Seuil). A intertextualidade não diminui as obras, é uma qualidade que as pode valorizar.

O anúncio The Drones, da Audi, transborda de intertextualidade. É um pastiche do Filme Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, um clássico da história do cinema. Produzido pela The Mill e dirigido por Dante Ariola, o anúncio logra o seu objetivo: destacar o automóvel como último refúgio. O anúncio The Drones expressa a ambivalência da técnica: os drones, como os pássaros do filme, representam uma ameaça; o automóvel, a exemplo do filme, oferece-se como uma salvação.

Seguem o anúncio The Drones, da Audi, e um excerto do filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

Marca: Audi. Título: The Drones. Agência: Venables Bell + Partners. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Março 2015.

Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, Excerto. 1963.

Inspiração

Chicago

Chicago

Quando estou com gripe, tusso as palavras. Espalham-se sem nexo. A audição, essa, escapa imune. Escrevo menos e escuto mais. Recorro à prateleira dos vinis. Afigura-se-me que a memória auditiva suplanta a memória visual. Do passado, trauteio músicas mas não pincelo imagens. Massajem-se, portanto, os tímpanos.

Três canções melodiosas dos norte-americanos Chicago, uma das grandes bandas dos anos sessenta e setenta.

Chicago. Colour of my world. 1970

Chicago. If you leave me now. Chicago X. 1976

Chicago. Hard to say I am sorry. Chicago 16. 1982.