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Amor a três

O anúncio Beach, da BMW, é um concentrado de humor absurdo. Apresenta o trio do costume: o homem, a mulher e o carro, num amor a três. Ao volante, o homem; a reboque, a mulher. Entre ambos, o beijo. Um beijo trepidante, com perfume a maresia. Assim pode começar uma moda: a moda do beijo radical.

Acrescento uma imagem humorística bem gizada. Insólita e desproporcionada. Nem por isso deixa de inquietar o pensamento. Nesta viragem das universidades para a investigação e a internacionalização, que lugar sobra para os estudantes?

Marca: BMW. Título: Beach. Agência: KBS. Direcção: Pretty Bird. USA, Outubro 2017.

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

Slavery. Not Much Has Changed. Eatliver.com

 

Publicidade consagrada

Canal Digital

O crescimento de anúncios consagrados a causas públicas é exponencial. Hoje, dia 1 de Outubro, na página Culturpub , seis dos dez novos anúncios são dedicados a causas:

Outros anúncios:

  • Um hambúrger salva uma criança: Icelandic boy, da Chicken Licken (África do Sul);
  • Um Audi defende-se de condutores palhaços, Clowns, da Audi (UK);
  • Uma mama espacial aleita crianças: Spaceship, da Rakunoh Mother, Japão;
  • Uma carreira desportiva original, History is history, da Gatorade (USA).

Com ou sem causas, não há anúncio que não seja interessado. Alguns têm, inclusivamente, “interesse no desinteresse” (Bourdieu, Pierre, 1976, “Le champ scientifique”, Actes de la recherche en sciences sociales  Année 1976  Volume 2  Numéro 2  pp. 88-104). Muitos não são interessantes. Importa, actualizar as ferramentas de análise dos anúncios publicitários.

Dos seis anúncios “consagrados”, destaco três:

  • I Got This, pela exibição da miséria humana, com laivos de desrespeito e, até, sarcasmo para com as vítimas a resgatar. Lembra, pelo modo e pela música, o anúncio Unsweetened Truth, da America Legacy Foundation/Truth.
  • Love, pela exibição eufórica do amor (homossexual) consubstanciado num beijo inesperado entre dois homens num santuário da masculinidade (um estádio de futebol).
  • When you get home centra-se na relação entre um polícia e uma criança vítima de um acidente rodoviário.

Marca: Face the Music and Recovery Unplugged. Título: I got this. Agência: Ari Merkin. Direcção: Jared Knecht. USA, Setembro 2017.

Marca: Canal Digital. Título: Love. Agência: Try, Oslo. Direcção: Martin Werner. Noruega, Setembro 2017.

Road safety

Marca: Road Safety. Título: When you get home. Produção: 25FPS Amsterdam. Direcção: Ben Brand. Setembro 2017. Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

O ADN da sobrevivência

San Diego Zoo

Os símbolos da morte têm um impacto contundente. No anúncio Let’s turn things around, do San Diego Zoo, a ampulheta alerta para os riscos de extinção de espécies animais, mas também para a possibilidade de reversão. Socorrendo-se da tecnologia do ADN, o San Diego Zoo luta pela sobrevivência de espécies ameaçadas tais como o rinoceronte branco e a girafa. O material genético, nomeadamente o ADN, é uma linguagem, a nova palavra, ou o novo grito, da criação.

Marca: San Diego Zoo. Título: Let’s turn things around. Agência: Epsílon Chicago. USA, Setembro 2017.

Sexualidade avançada

Auguste Rodin. Mains enlacées. 1908

Auguste Rodin. Mains enlacées. 1908

Sinal de senilidade, repito-me sem parar. A publicidade é omnívora. No limite, tudo pode ser publicitado. No limite, todo anúncio pode ser consumido. Seja qual for o tema e o propósito. Até o que não existe é anunciável, noticiável e profetizável. Por outro lado, tudo, logo nada, pode ser censurado. Não é bem assim! Nada é bem assim… Retomemos a ingenuidade do pensamento lapidar.

Há muito tempo que a humanidade entrou na era da universalização da mercadoria, mercadoria que ostenta as artes mágicas da cadeira de Karl Marx:

Auguste Rodin. Study of a hand, 20th century.

Auguste Rodin. Study of a hand, 20th century.

“Ela não só se mantém com os pés no chão, mas põe-se de cabeça para baixo diante de todas as outras mercadorias, e em sua cabeça de madeira nascem minhocas
que nos assombram muito mais do que se ela começasse a dançar por vontade própria” Marx, Karl, 1867, O Capital, Livro I, Secção I, Capítulo 1).

A mercadoria e o consumidor nunca mais pararam de dançar.

Estou a travar as palavras porque o anúncio da PornHub, Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65, reveste-se de alguma delicadeza. Aceleremos: se a introdução à sexualidade é importante para as crianças nas escolas, não é menos importante a pós-graduação em sexualidade dos idosos. Uma nova generosidade anda no vento. Nova, não por ser interessada e estratégica. A generosidade sempre foi interessada e estratégica. Nova, porque assumidamente interessada e estratégica. Uma generosidade egoísta. Uma espécie de neo altruísmo com embalagem pós-moderna. Ressalve-se, enfim, que nem tudo é novo na novidade. Por exemplo, a figura do “missionário do sexo” é antiga.

Gostava, um dia, de conhecer a distribuição por sexo e idade dos clientes do guia da “universidade sénior” da PornHub. Os desígnios da publicidade são insondáveis.

Marca: PornHub. Título: Old School: a Complete Guide to Safe Sex after 65. Agência: Officer & Gentleman. Direcção: David Triviño. Estados Unidos, Julho 2017.

 

 

Despasmar o prazer

Dune. Elements. 2017.

Estética orquestral num anúncio da Dior votado à sedução. Sem parasitar atributos alheios. “Je suis comme je suis, je plais à qui je plais” (Jacques Prévert). What else? A dança do corpo nas cordas de um violoncelo; o âmbar de um tempo humano e divino. Entre dois mundos, o cósmico e o feminino, e quatro elementos: o vento, a areia, o fogo, a água. E um perfume: Dune.

“A woman embodies the dune, created in the low chamber of an hourglass. After breaking free, she is able to control the Elements. This piece is a dreamlike journey from the sands of the dune to the waters of the ocean”.

Marca: Dior Dune. Título: Elements. Agência: Art Center College of Design. Direcção: Ignacio Sepúlveda. Estados Unidos, Junho 2017.

Houve tempos em que me revia no poema de Jacques Prévert. Hoje, infelizmente, só com um capacete de realidade aumentada. Seguem o anúncio Elements, da Dior, e o poema Je Suis Comme Je Suis, de Jacques Prévert, em francês e em português (tradução de Priscila Junglos). Não resisto a intercalar um vídeo musical com uma versão heavy Metal do poema de Prévert, pela banda Spike. O poema Je suis comme je suis foi interpretado, entre outros, por Juliette Greco (1952) e Wende Snigder (2004). Opto pela banda francesa de Salles-Sur-Hers (Carcassonne ):  o guitarrista é empregado municipal e bombeiro; o baixo, marceneiro; o bateria, “encarregado de negócios”. A música destoa da volúpia reinante, mas nada como uma dissonância para despasmar o prazer. Em vésperas de aniversário, acodem-me as originalidades da existência. O resto são inércias e formulários biográficos. Gosto de uma vertente da globalização. Não tanto a internacionalização, até um tomate bem calibrado se internacionaliza, mas o acesso ao local: a um lugar recôndito, com 695 residentes, e a uma banda de música, com 19 409 visualizações no You Tube. Como não a encaro como uma plataforma para alpinistas de rankings, a Internet agrada-me.

Spike. Je suis comme je suis. (J. Prévert / Spike). 2016.

Jacques Prévert. Je Suis Comme Je Suis. Paroles. 1946.

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j’ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
Je suis faite pour plaire
Et n’y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m’est arrivé
Oui j’ai aimé quelqu’un
Oui quelqu’un m’a aimé
Comme les enfants qui s’aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer…
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n’y puis rien changer.

Jacques Prévert: Eu sou como eu sou

Eu sou como eu sou
Eu sou feita assim
Quando eu tenho voltade de rir
Sim, eu gargalho
Eu gosto de quem me gosta
Lá isso é culpa minha
Se não é o mesmo
Que eu gosto a cada vez
Eu sou como eu sou
Eu sou feita assim
O quê você quer além disso
O quê você quer de mim
Eu sou feita para agradar
E nada nisso posso mudar
Meus saltos são muito altos
Minha silhueta muito empinada
Meus seios são duros demais
E em meus olhos muitas olheiras
E depois, e daí
O quê isto tem a ver com você
Eu sou como eu sou
Eu agrado a quem eu agrado
O quê isto tem a ver com você
O quê aconteceu comigo
Sim, eu amei alguém
Sim, alguém me amou
Como as crianças que se amam
Simplesmente sabem amar
Amar amar…
Por que me questionar
Eu estou aqui para lhe agradar
E nada nisso posso mudar.

(Tradução de Priscila Junglos: http://triunfecomofrances.blogspot.pt/2012/11/je-suis-comme-je-suis-de-jacques-prevert.html).

Natureza de bolso

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Perante estes momentos, que dizer? Que são bonitos e imponentes. Pressente-se a mão de Deus. Sentimo-nos infinitamente pequenos. E o rabo do Diabo, O Fausto tecnológico, consegue vislumbrá-lo? Somos suficientemente grandes para enfiar uma paisagem numa patela electrónica. Uma natureza de bolso! Andamos no mundo como quem come azeitonas: mastigamos a aparência e deitamos fora o caroço.

Marca: Apple iPhone. Título: Earth – Shot  on a iPhone. USA, Junho 2017.

Imagens da música

Pandora. Sounds like you. 2017.Com uma dúzia de capas de discos faz-se um anúncio e escolhe-se música: The Rolling Stones, The Doors, The Cure, Nirvana… O anúncio Sounds like you foi dirigido por Michel Gondry para a Pandora. Acrescento o vídeo The Man Who Sold The World, na versão dos Nirvana. Quantas capas ficaram de fora neste anúncio? Por exemplo, a capa de The Man Who Sold The World (1970) de David Bowie.

Marca: Pandora. Título: Sounds like you. Direcção: Michel Gondry. USA, Maio 2017.

Nirvana. The Man Who Sold The World. MTV Unplugged. 1994.

Absurdo ternurento

Kia

Os heróis ecologistas não têm a vida fácil, arriscam acidentes insólitos. Mas Melissa viaja segura num Kia. Os acidentes do anúncio Hero’s Journey são catástrofes absurdas, tão absurdas que se tornam risíveis. O anúncio do Kia Niro lembra os cartoons. Por exemplo, o Bip Bip (The road runner), de Chuck Jones ou A corrida mais louca do mundo (Wacky races) e Tom e Jerry, ambos criados por William Hanna e Joseph Barbera. Opto pelo absurdo ternurento de Tex Avery: Drag-a-long Droopy (1954).

Marca: Kia. Título: Hero’s Journey. Agência: David&Goliath. Direcção: Matthijs Van Heijningen. USA, Fevereiro 2017.

Tex Avery. Drag-a-long Droopy. 1954.

Cordão umbilical

Skittles-Umbilical-Cord-Mother_s-DayO anúncio Umbelical Cord, da Skittles, é candidato ao cúmulo do grotesco. Desde os primeiros segundos, pressente-se o ridículo. O riso vem, engasga e congela.

Trata-se de uma nova espécie de absurdo: o estranhamento confortável. Após o choque do cordão umbilical, o riso descongela, alambica-se, confiante de que, afinal, de sério nada aconteceu.

Do que se foram lembrar para o Dia da Mãe! Do cordão umbilical!

PS: Soube que este anúncio também está a ser retirado de circulação. O que vale é que isso não significa, provavelmente, nada. Caso contrário, estaria a crescer, nas barbas da Pós-modernidade, uma nova “polícia dos costumes” (police des moeurs).

Marca: Skittles. Título: Umbelical Cord. Agência: DDB Chicago. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. USA, Maio 2017.

Dentes caninos

 

GreeniesApetece-me desconversar. Os anúncios requerem atenção. Entrevi, distraído, o British Teeth, da Greenies, e retive o seguinte: Se não quer ter british teeth, como os seis exemplares exibidos, se aspira a uma dentadura completa, brilhante e alinhada por dentro e por fora, por cima e por baixo, converta-se à comida para cão. Faz bem aos animais, incluindo o burro, cujos dentes mordem como uma faca quente em manteiga fria. Revi o anúncio e fiquei com outra impressão: se deseja diferenciar-se do seu cão, dê-lhe Greenies. Advirá um contraste dental. Se não quiser parecer-se com o seu cão, coma e ria como ele. Em suma, um excelente anúncio, desenvolto e criativo.

Marca: Greenies. Título: British Teeth. Agência Adam & Eve DDB (London).  Direcção: Sam Hibbard. USA, Janeiro 2017.

Vem a despropósito A Salty Dog (um lobo do mar) dos Procol Harum. Tocaram em Cascais em 1973. Em maré de albergue espanhol, acrescente-se A Whiter Shade of Pale, o maior sucesso da banda. Na discoteca ou no baile, quando tocava A Whiter Shade of Pale, todos, raparigas e rapazes, ficávamos mais atraentes.

Procol Harum. A Salty Dog. Live German TV. 1971.

Procol Harum. A Whiter Shade of Pale. 1967. Filme de promoção.