Poder e debilidade do riso

Todas as sociedades têm alvos predilectos de riso colectivo. Na nossa, as “loiras” funcionam como pára-raios da toxicidade humorística socialmente aceite. Estou à espera do primeiro anúncio censurado por atentar contra o bom nome das “loiras”. É só para rir! Mas o riso não é inócuo. “O riso é um prazer maligno” (Nietzsche). A única piada que não agride é aquela que se destina a outrem. Enfim, o riso não presta vassalagem à razão, o que deixa mais indefesas as vítimas. No limite, contra o riso não há argumentos. (Loiras sem malte).
Mas esta potência do riso pode também ser sinal de debilidade. Atente-se nos anúncios “Chips” e “Eggs” no artigo Loiras sem malte (18.08.2014).
À maneira do sociólogo. Os públicos da arte


No âmbito da avaliação de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, coordenei dezenas de inquéritos locais. Muitos dos resultados permanecem por explorar.
Segue uma breve reflexão caraterística do sociólogo que cada vez me esforço menos por parecer.
Credo da Técnica

Estamos atualmente na fase de evolução histórica de eliminação de tudo o que não é técnico (Jacques Ellul).
Será que um destes dias o monte de Santa Tecla se chamará monte de Santa Técnica?
Dois pequenos cupidos ou vinte dedos pueris

Os anúncios “Ten Little Fingers” (Nas mãos de uma criança, 17.07.2013) e “Is Mankind?” (Revolução Digital, 17.07.2015) conseguem uma combinação rara de singeleza e encanto. Com dedos de bebés. Das mãos e dos pés. Quando penso em mãos, acodem-me Miguel Ângelo, Albrecht Dürer, Auguste Rodin e, agora, Bruno Aveillan. Quanto aos pezinhos, do anúncio da Airbnb, cito o comentário da iSpot:
No anúncio da nova campanha global da Airbnb, vemos um bebé a dar os seus adoráveis passinhos com as pernas arqueadas pelo corredor da sua casa, até à porta da frente. À medida que ele percorre esse caminho, ouvimos a voz off a fazer-nos perguntas reveladoras, como se o ser humano é bondoso e se nós somos boas pessoas. À medida que o bebé se aproxima da porta com janela e é envolvido por uma luz mais intensa, somos encorajados a sair para o mundo e a descobrir as respostas por nós próprios. Somos convidados a ir, ver e descobrir até que ponto a humanidade pode ser amável” (https://www.ispot.tv/ad/7vs6/airbnb-is-mankind. Consultado em 17.07.2026).
Pássaros de aço

“Em tempo de exultação da leveza, o peso e a robustez não se intimidam. Dá-me um extremo e mostro-te o outro. Uma barra tem dois extremos. Dobrada, os extremos tocam-se. O mundo anda assim, dobrado, com as distâncias a dançar tango (…) Estes quatro anúncios a automóveis vêm a talhe de foice: apostam no valor da robustez, com a leveza na lapela.” Aos pássaros de aço, de “O peso das coisas” (2016), acrescento “O Pássaro de Fogo” (excerto), conduzido pelo próprio Stravinsky.
O fumeiro e a cesta dos pregos

Outrora, brincava-se com o fumo; hoje, exorciza-se. Da inspiração para a expiração. “Na publicidade dos anos sessenta, os cigarros faziam bem à saúde e o fumador era um homem de sucesso (…) Nos anos 2 000, o tabaco é um veneno e o fumador, um cadáver em potência.”
Imagem: Biblioteca Escolar do Agrupamento de Sande, 2015
Recoloco dois artigos a este título exemplares: “Consolo tóxico”, de 2020, e “Arcanjos e anjos da guarda”, de 2015.




