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Imagens da música

Pandora. Sounds like you. 2017.Com uma dúzia de capas de discos faz-se um anúncio e escolhe-se música: The Rolling Stones, The Doors, The Cure, Nirvana… O anúncio Sounds like you foi dirigido por Michel Gondry para a Pandora. Acrescento o vídeo The Man Who Sold The World, na versão dos Nirvana. Quantas capas ficaram de fora neste anúncio? Por exemplo, a capa de The Man Who Sold The World (1970) de David Bowie.

Marca: Pandora. Título: Sounds like you. Direcção: Michel Gondry. USA, Maio 2017.

Nirvana. The Man Who Sold The World. MTV Unplugged. 1994.

Absurdo ternurento

Kia

Os heróis ecologistas não têm a vida fácil, arriscam acidentes insólitos. Mas Melissa viaja segura num Kia. Os acidentes do anúncio Hero’s Journey são catástrofes absurdas, tão absurdas que se tornam risíveis. O anúncio do Kia Niro lembra os cartoons. Por exemplo, o Bip Bip (The road runner), de Chuck Jones ou A corrida mais louca do mundo (Wacky races) e Tom e Jerry, ambos criados por William Hanna e Joseph Barbera. Opto pelo absurdo ternurento de Tex Avery: Drag-a-long Droopy (1954).

Marca: Kia. Título: Hero’s Journey. Agência: David&Goliath. Direcção: Matthijs Van Heijningen. USA, Fevereiro 2017.

Tex Avery. Drag-a-long Droopy. 1954.

Cordão umbilical

Skittles-Umbilical-Cord-Mother_s-DayO anúncio Umbelical Cord, da Skittles, é candidato ao cúmulo do grotesco. Desde os primeiros segundos, pressente-se o ridículo. O riso vem, engasga e congela.

Trata-se de uma nova espécie de absurdo: o estranhamento confortável. Após o choque do cordão umbilical, o riso descongela, alambica-se, confiante de que, afinal, de sério nada aconteceu.

Do que se foram lembrar para o Dia da Mãe! Do cordão umbilical!

PS: Soube que este anúncio também está a ser retirado de circulação. O que vale é que isso não significa, provavelmente, nada. Caso contrário, estaria a crescer, nas barbas da Pós-modernidade, uma nova “polícia dos costumes” (police des moeurs).

Marca: Skittles. Título: Umbelical Cord. Agência: DDB Chicago. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz. USA, Maio 2017.

Dentes caninos

 

GreeniesApetece-me desconversar. Os anúncios requerem atenção. Entrevi, distraído, o British Teeth, da Greenies, e retive o seguinte: Se não quer ter british teeth, como os seis exemplares exibidos, se aspira a uma dentadura completa, brilhante e alinhada por dentro e por fora, por cima e por baixo, converta-se à comida para cão. Faz bem aos animais, incluindo o burro, cujos dentes mordem como uma faca quente em manteiga fria. Revi o anúncio e fiquei com outra impressão: se deseja diferenciar-se do seu cão, dê-lhe Greenies. Advirá um contraste dental. Se não quiser parecer-se com o seu cão, coma e ria como ele. Em suma, um excelente anúncio, desenvolto e criativo.

Marca: Greenies. Título: British Teeth. Agência Adam & Eve DDB (London).  Direcção: Sam Hibbard. USA, Janeiro 2017.

Vem a despropósito A Salty Dog (um lobo do mar) dos Procol Harum. Tocaram em Cascais em 1973. Em maré de albergue espanhol, acrescente-se A Whiter Shade of Pale, o maior sucesso da banda. Na discoteca ou no baile, quando tocava A Whiter Shade of Pale, todos, raparigas e rapazes, ficávamos mais atraentes.

Procol Harum. A Salty Dog. Live German TV. 1971.

Procol Harum. A Whiter Shade of Pale. 1967. Filme de promoção.

Por ora, ainda nos deixam morrer

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Os novos sábios sabem tudo; eu nem sequer sei o que sei.

Os fumadores podem respirar: aguardam mais imposto mas menos publicidade. Na roda dos inimigos públicos, é a vez do açúcar e dos refrigerantes. Tudo indica que os impostos sobre o tabaco e os refrigerantes se fundamentam na ciência. A velha máxima de Henri Poincaré, “de julgamentos de facto não se pode derivar julgamentos de valor”, é suplantada pela máxima “contra factos não há argumentos”. Retocando Habermas, estamos confrontados com a “política como ciência e técnica”.

Caricatura de Celeste Semanas

Caricatura de Celeste Semanas.

O Artigo 104º.4 da Constituição da República Portuguesa afirma o seguinte: “A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo”. O Artigo 104º.1 menciona “a diminuição das desigualdades” e o princípio da “progressividade” dos impostos. Em Portugal, as classes baixas consomem tantos refrigerantes e mais tabaco do que as classes altas. Nestes dois impostos, não se vislumbra nem progressividade fiscal, nem sobrecarga dos consumos de luxo, apenas necessidade de Estado. Num país com uma elevada desigualdade de rendimentos, o imposto sobre o tabaco e sobre os refrigerantes penaliza, ao contrário do IVA, do IUC ou do IMI, as classes baixas. Meio século após o “imposto do isqueiro”, adivinha-se um imposto sobre a pastilha elástica (tem açúcar e provoca aerofagia). Sem desconversar, há impostos piores. Com tamanha sabedoria política, técnica e científica a cuidar da nossa saúde, a eternidade está por um fio. Por ora, ainda nos deixam morrer.

Anunciante: Center for Science in the Public Interest. Título: The Real Bears. Agência: Colorado. Direcção: Lucas Zanotto. USA, 2012.

Crepúsculo

Lucky Luke. O cow-boy solitário.

Morris. Lucky Luke. O cow-boy solitário.

“Crepúsculo: Símbolo intimamente ligado à ideia do Ocidente, o lugar em que o sol declina, se apaga e morre. Exprime o fim de um ciclo e, por conseguinte, a preparação de uma renovação. As grandes proezas mitológicas, prelúdio de uma revolução cósmica, social ou moral, tiveram o seu desfecho no decurso de uma viagem para Oeste: Perseu procurando matar a Górgona, Hércules o monstro do Jardim das Hespérides, Apolo levantando voo junto dos Hiperbóreos, etc.

O crepúsculo é uma imagem espácio-temporal: o instante suspenso. O espaço e o tempo vão emborcar ao mesmo tempo num outro mundo e noutra noite. Mas esta morte do Um é anunciadora do outro: um novo espaço e um novo tempo sucederão aos antigos. A marcha para Oeste é a marcha rumo ao futuro, mas mediante transformações tenebrosas. Para além da noite, aguardam novas auroras.

O crepúsculo reveste também, por si, e simboliza a beleza nostálgica de um declínio e do passado. É a imagem e a hora da melancolia e da nostalgia” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire des Symboles, Paris, Ed. Robert Laffont, 1969, p. 311-312).

Marca: Sumol. Título: Fruit Bubbles. Agência: Brandia Central (Lisboa). Portugal, 2009.

O crepúsculo e a melancolia constituem tópicos marcantes da criação cultural e artística.  Não há como escolher. Segue um anúncio português da Sumol, uma meia dúzia de pinturas e dois vídeos musicais. Por último,  uma brincadeira desmiolada: a lenda da criação da Luz Eléctrica.

Galeria de imagens: Impressões crepusculares.

“A marcha para Oeste é a marcha para o futuro”. A expressão inglesa go west é, contudo, uma espécie de busto com duas faces. Pode ser uma bússola apontada para uma terra prometida. A expressão está historicamente associada à colonização, para Oeste, dos Estados Unidos. Go West é título de filmes de Buster Keaton (1925) e dos Marx Brothers (1940), bem como da canção dos Village People (1978), retomada pelos Pet Shop Boys (1993). O significado corrente da expessão go west na língua inglesa é, porém, o oposto: ir para Oeste é ser destruído ou morto.

Pet Shop Boys. Go West. 1993.

Lenda da Criação da Luz Eléctrica

Crepúsculo e Aurora gostavam um do outro. Mas a noite e o dia não os deixavam namorar. Rogaram ao sol e à lua, mas nada. O sol e a lua não paravam de rodar.  Um dia, a lua e o sol cansaram-se de tanta volta. Estacionaram um frente ao outro. Foi o mais longo e escuro eclipse de sempre. Nem se via um pirilampo. Crepúsculo e Aurora aproveitaram para se encontrar, não sei se ao meio-dia se à meia-noite. Desta união, nasceu a Luz Eléctrica, que brilha quando quer, seja noite, seja dia.

Anne Dudley. Moments in love. A Different Light. 2001.

O coro dos sapos

Plague of frogs, Pamplona Bible, Navarre 1197 (Amiens, Bibliothèque municipale, ms. 108, fol. 42v

Praga de sapos. Bíblia de Pamplona. Navarra. 1197.

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Songes drolatiques de Pantagruel, François Desprez, Paris, 1564.

Não tenho particular apreço pelos sapos. Nem para beijar, nem para engolir. Mas gosto de os ver no ecrã. Quem não tem saudades do Cocas?

A Budweiser apostou na figura do sapo, desde os anúncios Frogs e Tongue lashing frogs, ambos de 1995, até ao anúncio Bud Light Frogs, de Maio 2017.

No imaginário ocidental, o sapo é um símbolo crepuscular, associado à lua, à água, à terra e, por vezes, à bruxaria, ao diabo e à morte.

Marca: Bud Light. Título: Bud Light Frogs. Agência: Mcgarrybowen. Reino Unido, Maio 2017.

Marca: Budweiser. Título: Tongue lashing frogs. Agência: DDB Needham. USA, 1995.

Marca: Budweiser. Título: Frogs. Agência: D’Arcy Masius Benton & Bowles. USA, 1995.

O charme da disforia

Xbox. Birth of a spartan. 2010.

O anúncio Birth Of A Spartan, para o Halo: Reach, da Xbox, mergulha-nos no mundo da ficção científica. Pouco agradável, provoca emoções fortes. Familiariza-nos com o estranho, com a hibridez. Familiariza-nos com nós próprios, cada vez mais híbridos, cada vez mais estranhos.

Exército com 8 000 guerreiros perto de Xi'an na China. Séc. III aC.

Exército com 8 000 guerreiros perto de Xi’an na China. Séc. III aC.

O anúncio lembra os guerreiros de terracota desenterrados na China em 1974: um exército, datado do século III aC, com 8.000 soldados, 130 carruagens com cavalos e 150 cavalos de cavalaria. O espartano do anúncio tem um corpo humano mas comporta-se como um robot. Cada um dos 8 000 soldados de Xi’an tem cara própria. Não parece, no entanto, ter vontade própria. Este anúncio é de 2010, onde nos pretendia levar Noam Murro, o realizador? Aos nossos recalcamentos? Aos nossos fantasmas?

Marca: Halo: Reach / Xbox. Título: Birth of a Spartan. Agência: TwofifteenMcann San Francisco. Direcção: Noam Murro. USA, 2010.

We are all monsters!

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Beinecke MS 287. Hours, Use of Rome. End of the 15th century (Flanders).

Os monstros sofrem. Não conseguem relaxar. Os media, a alcofa da inteligência contemporânea, estão atulhados de falhas. Quando chove é uma lástima. Nem o balouço soporífero do comboio consola a Múmia, a Morte, o Lobisomem e o Cientista Maluco, figuras emblemáticas do cinema dos anos vinte e trinta do século passado. Somos monstros num dia de chuva. Híbridos, variáveis, ocos por dentro e vazios por fora, mas absorventes. Anúncio original com caracterização apurada e  humor hilariante.

Marca: Spectrum. Título: Monsters: Train. Agência: O Positive. Direcção: David Shane. USA, Abril 2017.

Post scriptum:

A frase “todos somos monstros” provocou alguma estranheza. Não é denotativa: nem tudo é literal no mundo da escrita. É verdade que peca por se embrulhar fluxo grotesco do texto. Mas é um pecado menor. Somos nós quem cria os monstros. São ficções, ou fantasmas, do nosso imaginário. Quando reais costumam ser humanos. Se não criamos os monstros à nossa imagem, enxertamos-lhes características que nos são próprias. Por exemplo, a hibridez e a volubilidade (ver Zygmunt Bauman e, cinquenta anos antes, Mikhail Bakhtin); o vazio e a sofreguidão, consubstanciados na tendência para a absorção omnívora. Acresce que os monstros do anúncio, extravagâncias imaginadas, se comportam como humanos. Para desanuviar as sombras,  os monstros deixaram, entretanto, de se cingir ao susto e à exorbitância para se tornar adoráveis, no cinema, nos videojogos, na publicidade… São muitos os exemplos, assinalo apenas três: o E.T., o Yoda e o Shrek.  A comunicação humana raramente é literal ou linear. Costuma ser polissémica, polifónica e orquestral. As frases mais marcantes da humanidade não são nem lineares, nem literais. Tão pouco são incongruentes ou caóticas. Há quem aspire a outras performances: “Fazer coisas com palavras”, diria J. L. Austin (1962). A frase “o inferno são os outros”, de Jean-Paul Sartre, não é literal, nem é abstrusa; destaca-se, porém, na história das ideias do século XX. “O inferno são os outros” é parecido com “nós somos monstros”, muda apenas o sujeito e a conjugação verbal.

 

A resposta está no fundo

NBFF

A resposta, meu amigo, não está no vento, está no fundo! Perto do museu de cera dos esqueletos. Tu, que vagueias à deriva, não desperdices garrafas. A resposta está no fundo, junto ao cemitério da ambição humana.

Bob Dylan escreveu, em 1962, a canção “Blowing in the wind”, publicada em 1963 no álbum Free Wheelin’. No mesmo ano, surge uma versão cantada pelos Peter, Paul & Mary. Um prémio Nobel dispensa uma micro divulgação; Peter, Paul & Mary talvez sim, talvez não.

Marca: 2017 NBFF. Título: Go Deeper. Agência: RPA. Direcção: Jed Hathaway. USA, Abril 2017.

Peter, Paul & Mary. Blowing in the wind. In the Wind. 1963. Ao vivo em 1965.