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O Rei da Marcha

Zonophon 033. John Philipp Sousa. The Corcoran Cadets March. 1890

Zonophon 033. John Philip Sousa. The Corcoran Cadets March. 1890

A equipa do Centro de Estudos Comunicação e Sociedade dedicada ao estudo dos postais ilustrados (http://postaisilustrados.blogspot.pt/) prepara uma nova publicação. Mais uma oportunidade para descobertas. À cata de postais sonoros do início do século XX, deparei com um postal com música de John Philip Sousa (1854-1935): The Corcoran Cadets March, 1890 (vídeo 2). “Rei das marchas”, filho de português, john Philip Sousa é o autor da marcha nacional dos Estados-Unidos (vídeo 1). Pelos vistos, tenho um espírito torto. À procura de alhos (postais sonoros), encontro bugalhos (um compositor). Como invejo aqueles que procurando alhos e encontram alhos. Estão sempre a ensacar alhos!

Vídeo 1. John Philip Sousa.  Marcha The Stars and Stripes Forever. 1897.

Vídeo 2. John Philip Sousa. Marcha The Corcoran Cadets March, 1890.

Aqui há gato!

Mainzer & Kunzli. Dressed Cats Postcards. Smoking Cats. Início anos 1950.

No tempo em que os gatos fumavam. Mainzer & Kunzli. Dressed Cats Postcards. Smoking Cats. Início anos 1950.

Há anúncios de sensibilização contra o consumo do tabaco que  não são contra os fumadores. Pretendem ajudá-los. Há anúncios de sensibilização que têm sentido de humor, com ou sem gatos. Há anúncios de sensibilização em que as palavras, embora resumidas, não são cortantes. Este anúncio, Only cats have nine lives, é um exemplo. Uma paródia das compilações vídeo que circulam na Internet que lembra que nove vidas, só os gatos. Nove ou sete? Sete, na maior parte do continente europeu, nove, nos países anglo-saxónicos. E os gatos portugueses, quantas vidas têm? Os fumadores, esses, só têm uma vida! E os outros? Ambos têm uma vida e nenhuma eterna.

Anunciante: Quit. Título: Only cats have nine lives. Agência: Iris. UK, Dezembro 2013.

Skating in the Past

Very Old School. Nomad Skateboards

Este belíssimo anúncio a preto e branco da Nomad Skateboards propõe-nos um regresso ao passado, há um século atrás, para nos colocar a seguinte questão: se, em 1911, o homem concebeu o modelo do átomo e já voava em dirigíveis Zeppelin por que motivo esperou tanto tempo para colocar quatro rodas numa prancha?

Marca: Nomad Skateboards. Título: Very OLd School. . Agência: Lola Lowe Madrid. Espanha, Agosto 2012.

A ilusão: Da iluminura ao postal ilustrado

No postal publicado pela Catarina Miranda, colega de equipa de investigação, publicado no blogue Postais Ilustrados (http://postaisilustrados.blogspot.pt/, 14 de Outubro), a página do Commercio do Minho é enrugada pelos “dous rasgões irregulares” que parecem irromper da superfície do postal (ver figura).

Postal ilustrado do Commercio do Minho, circulado em 1903

Postais com relevo já circulavam no início do séc. XX. Atente-se, por exemplo, neste Mappa do Coração, postado em 1914 a bordo do navio Congo. Mas não, a ideia não era fazer um postal com relevo mas um postal que proporcionasse a sensação de uma terceira dimensão. Mais ou menos como algumas imagens medievais. Recordo três que tinha ciosamente reservadas para um texto que nunca mais acaba sobre a desgravitação (ausência ou distorção da gravidade) nas iluminuras medievais e nos media actuais.

Mappa do Coracao. Postal com relevo. Postado a bordo do navio Congo, em 1904

O livro de horas de Gian Galiazzo Visconti, duque de Milão, foi feito no final do séc. XIV por dois ilustradores: Giovannino dei Grassi e, após a sua morte, Belbello da Pavia. Está depositado na Biblioteca Nacional de Florença.  Concentrêmo-nos na seguinte página (L’eterno e gli eremiti):

Visconti Hours. L’eterno e gli eremiti. Finais séc. XIV

Parte da imagem condiz com o esquem visual a a que estamos habituados: as torres e os veados “pesam” no sentido do fundo da página. Mas o recorte com a divindade e com os demónios lembra os rasgões do postal do Commercio do Minho; em relação à superfície da página, sobressai, por um lado, o arco com os raios de fogo e afunda-se, por outro, o círculo reservado à divindade. Os insectos, por sua vez, desempenham um papel deveras curioso. A disposição, aliada à minúcia da pintura, dá a impressão que os insectos  transitam sobre a página fora da imagem. Em suma, numa parte da imagem o eixo de gravidade remete, normalmente, para o fundo de página e noutra parte o eixo de gravidade remete, deliberadamente, para a superfície da página.

Os ilustradores da Idade Média eram exímios na criação de ilusões. Algumas artes foram sucessivamente apuradas. É o caso das seguintes imagens do Da Costa Hours, um livro de horas português, concluído cerca de 1515, da autoria de  Simon Bening. Vendido a estrangeiros em finais do século XIX, destaca-se como um dos manuscritos mais preciosos da Morgan Library, de Nova Iorque.

Da Costa Hours, São Jerónimo em Penitência, ca 1515

Neste livro de horas, “São Jerónimo em penitência” é emoldurado por flores que dão a impressão de terem sido pousadas sobre a imagem. Mais complexa resulta a disposição das flores no fundo da página: nascem na imagem para logo (sobres)sair dela. Registe-se, por último, que, volvido um século, aparece, na parte inferior da página, uma abelha a assumir a função das moscas do Livro de Horas de Visconti.

Da Costa Hours. Flagelação de Cristo. Cerca 1515

Os recursos para obter um efeito de relevo abundavam na Idade Média. Na “Flagelação de Cristo”, no Livro de Horas de Da Costa, as voltas dos colares apelam a uma focagem tacteante que dificulta qualquer veleidade de achatamento da imagem. O colar vermelho, pendurado na própria moldura da cena da flagelação, parece oscilar para dentro e para fora da imagem.

O que têm os livros de horas a ver com os postais ilustrados? Muito pouco. Uns são de devoção, os outros nem por isso. Os livros de horas eram caríssimos, os postais são acessíveis. Os livros de horas eram bens familiares de luxo transmitidos ciosamente de geração em geração, facto que explica terem sobrevivido milhares de exemplares. Mas há algumas características que os aproximam. Destinam-se ao prazer do olhar, bem como à intimidade do toque. São portáteis e para uso individual, senão privado. São praticamente do mesmo tamanho. Partilham, também, alguns traços de estilo. Por último, ambos surgem em momentos excepcionais de explosão social da imagem: por volta do século XIV e finais do século XIX.

Aqui há gato!

Há anúncios que incluem postais ilustrados, há outros que neles se inspiram. Um bombeiro salva um gatinho. Ambos ficam com calor e com sede. Eis uma história breve que lembra uma sequência de postais ilustrados. Porquê? Talvez pelo enquadramento. Talvez pela pose. Talvez pela estática. Talvez pela estética. Talvez pela presença do gatinho. Desde os primórdios dos postais ilustrados que os gatos constam entre os motivos mais prezados. Não direi tanto dos bombeiros, embora alguns apareçam, acalorados, em alguns postais ilustrados contemporâneos.

Marca: Sauza Tequila. Título: Fireman And Kitten Amazingness. Agência: Euro Rscg. Direção: Matt Lenski. EUA, Maio 2012.