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Como peixes na rede

Oito olhos vêem mais que dois?

Há tanto petisco falso na Internet! Os peixes mordem o isco aos milhões. E quanto mais mordem mais atraente se torna o isco. Quem duvida de uma ligação com mais de 20 milhões de visualizações?

No endereço https://www.youtube.com/watch?v=a0hFZPvanMs, encontra-se um vídeo intitulado Frédéric Chopin – Spring Waltz. Contabiliza 6 750 616 visualizações. Não é um caso isolado. Os fakes são virais. Chopin não compôs nenhuma Valsa de Primavera. A música do vídeo é Mariage d’Amour, composta, em 1978, pelo francês Paul de Senneville, e interpretada por Richard Clayderman (https://www.youtube.com/watch?v=1ej1SI4BRv8) e George Davidson (https://www.youtube.com/watch?v=gKmnb8RpX1E).

A página https://www.youtube.com/watch?v=-ywL_zokELE ostenta o título Adagio – Johann Sebastian Bach. Em letras pequenas, precisa: “Τhis version is made by Élise Robineau – Concerto en re mineur BWV974 – Adagio d’après Marcello – Piano & Cello”. A versão de Élise Robineau substitui o oboé pelo violoncelo. Informa, porém, que o adagio de Bach provém do adagio de O Concerto em ré menor para oboé, cordas e baixo contínuo de Marcello. De Marcello? Será Benedetto Marcello, o compositor veneziano que criticou Antonio Vivaldi? Não, o irmão Alessandro. O Concerto para Oboé em ré menor, e respectivo adagio, foi composto por Alessandro Marcello. Até prova do contrário. Estou convencido que o adagio do Concerto em ré menor para oboé resulta mais atribuído, na Internet, a Bach ou ao Benedetto Marcello do que ao seu autor Alessandro Marcello.

Estou a selecionar algumas músicas de Frédéric Chopin. Se contemplasse a pretensa “Spring Waltz” estava a servir gato por lebre e a fazer figura de parvo. Colocar conteúdos na Internet requer algum sentido de responsabilidade, por exemplo, verificar antes de partilhar.

Quarenta mil olhos vêem mais que dois? Naturalmente, mas depende de quem e do quê. Gosto do arranjo de Élise Robineau do adagio de Bach / Alessandro Marcello para piano e violoncelo. Integra a banda sonora do filme Je te mangerais (2009).

Adagio – Johann Sebastian Bach. Concerto en re mineur BWV974 – Adagio d’après Marcello – Piano & Cello”. Version de Élise Robineau. Mais de 27 milhões de visualizações.

Um mandamento novo

Jean Michel Folon. Aguarela sem título.

As pessoas de diferentes culturas não só falam diferentes linguagens como, facto possivelmente mais importante, habitam diferentes mundos sensoriais (Hall, Edward T., 2003, La Dimensión Oculta, Buenos Aires, Siglo XXI, ed. original 1966 , p. 8).

O Covid-19 criou um mandamento novo: afastai-vos uns dos outros. Apela a um socialização responsável. A publicidade aderiu à sensibilização. Seguem dois anúncios da Heineken em que a cerveja rima com convívio desaproximado.

Marca Heineken. Título: Back to the bars. Agência: Publicis Italy. Direcção: Nicolai Fugisig. Itália, Julho 2020.
Marca: Heineken. Título: Ode to close. Agência: Publicis Italy. Itália, Abril 2020.

Portas que não fecham

René Magritte. La Victoire. 1938-1939.

Há portas a que não convém bater. Nunca mais se fecham. O rio Minho também é uma fronteira que não separa. Existem culturas que nos trazem cativos. Alice é uma cantora italiana que iniciou a actividade nos anos setenta. Ganhou o Festival de Sanremo em 1981. A canção Prospettiva Newskij convoca o bailado, a música e o cinema: Nijinsky, Stravinsky e Eisenstein.

Insisto em colocar obras transalpinas que o Tendências do Imaginário ostensivamente ignora. Cultura boa, só salgada. Dos mares e dos oceanos. Melhor do que cultura salgada, só o bacalhau. É difícil apregoar a diferença a quem tem a cabeça cheia do mesmo. Conhece-se mal a cultura italiana. E depois? Um dia será como a nossa…

Alice. Prospettiva Newskij. Gioielli rubati. 1985.

Leve, levemente

Peppino Gagliardi

O tempo passa, mas não para

Nos anos sessenta, as baladas italianas apoderavam-se da rádio. Dar o que as pessoas gostam é um reforço. Dar-lhes o que desconhecem, uma promessa, habitualmente perdida. O siciliano Peppino Gagliardi alcançou vários sucessos. Por exemplo, Che vuole questa musica stasera … (1967) e Sempre… Sempre (1971).

Peppino Gaglardi, Che vole questa musica stasera… Single, 1967.
Peppino Gagliardi, Sempre… Sempre. Single, 1971.

Viver para a vida. Ennio Morricone

Ennio Morricone

Faleceu Ennio Morricone. Obrigado pelo prazer! “Como devem estar felizes os anjos”.

Ennio Morricone. Gabriel’Oboe. A Missão. 1986. Interpretação de Henrik Chaim Goldschmidt,
The Faroe Islands Philharmonic Orchestra, 10.01.2009,

Maria, Amália e Manolo

Maria Carta (1934-1994), compositora, cantora e atriz italiana, tinha afinidades com Amália Rodrigues (1920-1999). Em 1972, realizaram um recital no Teatro Sistina, em Roma. Cada uma interpretou 18 canções.

A canção Sa Disisperada integra o reportório de Maria Carta. Uma música tradicional de Logaduro, dedicada à emigração, à velhice, à solidão e ao sofrimento. A Itália foi, como Portugal, um país de emigração. Sa Disispirada lembra, pelo cantar e pelo tema, muitas canções portuguesas. Traduzo, livremente, os últimos versos:

Levantem voo como as andorinhas,
voltem,
também estou em sofrimento.
Aqui o sol é esplêndido e o céu é límpido,
mas sentimos a vossa falta,
vós sois as verdadeiras jóias.

Maria Carta. Sa Disisperada (1970?)

Do reportório de Amália Rodrigues constam vários êxitos (Casa da Mariquinhas, É ou não é, Cana Verde, Malhão ou Coimbra). Quatro canções são de origem espanhola e uma, italiana. No corpo, retomado no bis final, destaca-se El Porompompero, rumba composta em 1960 por Juan Solano Pedrero, celebrizada pela voz de Manolo Escobar.

Itália, Espanha e Portugal são países com um profundo traço de união, cinzelado, entre outras dimensões, pela religião. Max Weber nunca duvidou desta identidade dos países do sul no quadro europeu. Itália, Espanha, Portugal, três BIG: Big History, Big Culture and Big Art. PIG or not PIG, we are BIG.

Amália Rodrigues. El Porompompero (Bis finale). Ao vivo, Teatro Sistina, Roma, 1972

O trovador

Angelo Branduardi.

Compositor, cantor, multi-instrumentista, “trovador”, Angelo Branduardi destaca-se como um dos artistas mais emblemáticos da Itália contemporânea. Nos anos setenta, obteve um franco sucesso em França. Algumas das suas canções são em língua francesa. É o caso de uma das canções selecionadas (La demoiselle). O intercâmbio entre a Itália e a França não é de menosprezar. A este propósito, Jean Cocteau graceja: “os italianos são franceses com bom humor”. Já coloquei várias músicas do Angelo Branduardi: La Luna; Alla Fiera Dell’ Est; La Pulce D’Acqua; Ballo in fa diesis minore; e Si può fare. Coloquei ainda a música  Nelle Palludi di Venezia, com Teresa Salgueiro (ver https://tendimag.com/2015/04/24/a-passo-de-caranguejo-a-cancao-da-morte/). Seria estranho neste ciclo do Tendências do Imaginário dedicado à Itália ignorar Angelo Branduardi. Tem mais de vinte álbuns publicados. Dá para retirar mais três canções: Gli Alberi Sono Alti (1975); La Demoiselle (1979) e Confessioni di un malandrino (1980). É demasiado. A maior parte das pessoas não vai gostar. Mas os outros vão consolar-se.

Angelo Branduardi.Gli Alberi Sono Alti. La Luna. 1975.
Angelo Branduardi. La Demoiselle. Ballo in fa diesis minore. 1979.
Angelo Branduardi. Confessioni di un malandrino. Gulliver, la luna e altri disegni. 1980.

Incompreendido

Incompreso, de Luigi Comencini. 1966.

A Itália é um santuário do cinema. Os anos cinquenta e sessenta foram gloriosos. Sobressaem o neorrealismo e a comédia. O filme Incompreso (Quando o amor é cruel, em Portugal), de Luici Comencini (1966), não é neorrealista nem cómico. Após a morte da mãe, o pai pede ao filho mais velho (Andrea) para manter segredo perante o irmão mais novo (Milo), bem como para o proteger. Acontece que, dos dois irmãos, o mais frágil é o mais velho. A situação agrava-se culminando na morte de Andrea. É um filme sobre o luto, a vulnerabilidade humana, a solidão e a incomunicação entre gerações (pai e filho). O filme é um melodrama denso e opressivo. Um misto de olhar psicológico e microssociológico. O Incompreendido é um filme marcante. Vi-o com o Marino Trancoso, um amigo jesuíta colombiano, que fez doutoramento com Claude Bremond. Faleceu há anos. Um dos principais anfiteatros de Bogotá tem o seu nome. Tanto olho para trás que fiquei com a cabeça torta e o pescoço dorido.

Consultei a Wikipedia a propósito do cinema italiano. Propõe uma lista com os trinta “principais directores”. Não contempla o Luigi Comencini. Tenho um gosto depravado; não acerto nos valores consagrados. Resolvi aceder à versão em inglês. Nos primeiros lugares, aparecem Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Ettore Scola, Sergio Leone e, em oitava posição, Luigi Comencini. Na Wikipedia portuguesa ocorreu, algures, um lapso.

Segue o filme completo, original, com legendas em inglês.

Incompreso (Vita col figlio) – Misunderstood (1966). Realizador: Luigi Comencini. Legendas em inglês.

Nuvens azuis. Ludovico Einaudi

Ludovico Einaudi

Franceses, espanhóis, portugueses e italianos, somos latinos. Quase PIG, não fosse a Grécia grega e a França, galo. Estranhamos o distanciamento social. Nada como um abraço, uma mão nas costas, outra no ombro, eventualmente, um encosto. Gosto-me latino. Ou, eventualmente, galego celta.

Países com línguas românicas na Europa

O que tem isto a ver com o Ludovico Einaudi? Nada, conversa fiada. A conversa fiada é primordial na socialização e na comunicação humanas. Erving Goffmann sublinhou esta importância na tese de doutoramento On Cooling the Mark Out, nas ilhas Shetland, defendida em 1952, sob a orientação de Gregory Bateson (Goffman, 1981; Goffman, 1988).

É provável que quem goste de Ezio Bosso, Philip Glass e Yann Tiersen, goste também de Ludovico Einaudi. O Daniel Noversa partilhou, no Facebook, o álbum Seven Days Walking // Day Three, de Ludovico Einaudi. Já publiquei a música Passaggio (Le Onde, 1996; ver https://tendimag.com/2018/05/23/o-espirito-de-erasmo/). Hoje, acrescento Nuvole bianche (2004), Primavera (2006) e Divenire (2006).

Ludovico Einaudi. Nuvole bianche. Una Mattina. 2004.
Ludovico Einaudi. Primavera. Divenire. 2006.
Ludovico Einaudi. Divenire. Divenire. 2006. The Royal Albert Hall Concert, 2010.

Referências Bibliográficas:

GOFFMAN, Erving (1981). Forms of Talk, Philadelphia: University of Pennsylvania Press.

GOFFMAN, Erving (1988). Les moments et leurs hommes, Textes recueillis et présentés par Yves Winkin, Paris: Seuil/Minuit.

À espera do inimigo

Paolo Conte.

Num texto publicado no Facebook, no dia 2 de Junho, José Miguel Braga escreve:

“Qualquer bocadinho de sono me serve. Puseram-me de sentinela e o inimigo pode aparecer por ali, está a ver, meu coronel, detrás daqueles montes, é por onde se diz que virá a invasão. Quem diria que ainda vinha dormir uma noite ao “Deserto dos Tártaros”! Leiam, leiam, é um belo livro do Dino Buzzati.”

Nos anos setenta, uma amiga italiana ofereceu-me o Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, publicado em 1940.

Retribuí com Un amore, do mesmo autor, publicado em 1963.

Dino Buzzati é um dos grandes escritores do século XX. Não há mapa mental que o apague.

Acarinho a cultura italiana. Um quase nada esquecido deixa-me bem-aventurado.

Paolo Conte é um veterano da canção italiana. À semelhança de Jacques Brel, Edith Piaff ou Sérgio Godinho, reconhece-se uma música antes de ela começar. O Tendências do Imaginário já contempla duas canções de Paolo Conte: Via Con Me e Sparring Partner. Acrescento Azzurro.

Paolo Conte. Azzurro. L’album di… Paolo Conte. 1988.