Tag Archive | Itália

Transparências

johann-sebastian-bach---mini-biography

Johann Sebastian Bach (1685-1750).

A brincadeira não tem idade. Apetece uma bricolagem. Um videozinho. Ando com duas músicas do Bach no ouvido. Gostava de encontrar imagens para as acompanhar. Acudiu-me substituir a banda sonora de anúncios em slow motion. Fantásticos! Não ganhavam nada com a música de Bach, nem esta com os anúncios. Uma dupla estragação. Entretanto, ocorreram-me as imagens das esculturas veladas de Antonio Corradini (1688-1752) e de Giuseppe Sanmartino (1720-1793). O último capítulo do livro A morte na Arte é sobre as esculturas veladas. Comecei há quatro meses e já escrevi 20 linhas! Mas as músicas de Bach, versão piano, não batiam certo com as imagens, demasiado sedosas e pungentes para as teclas de um minueto. Acabei por optar pelo que não queria: uma das obras mais célebres de Bach: a Ária na corda sol. As voltas que uma bricolagem não dá!

Segue o videozinho, parco em comentários, mais as duas músicas de Bach.

Transparências. Esculturas  Veladas. Albertino Gonçalves, 2018.

J. S. Bach. Jesu, joy of man’s desiring.

J. S. Bach. Anna Magdalena Notenbuch: Minuet in G major, BWV Anh 114.

O superpoder do homem banal

 

Gigliola

Gigliola Cinquetti

Os artigos anteriores pecam por excesso de pretensão intelectualóide. Costuma curar-se com uma pitada de humor, se possível, brejeiro, acompanhada por um dedo de música ligeira. É um excelente oxigenante cerebral.

O anúncio Power of the Crunch, da Doritos, convoca a magia e o superpoder. Como a poção mágica do Asterix ou os espinafres do Popeye. Uma dentada num dorito e o maravilhoso acontece. Uma “mulher objeto” fica toda despida, excepto a lingerie; a caixa do multibanco tem uma disenteria de dinheiro; o polícia fica reduzido a um macaco. O que passa pela cabeça de um homem quando come um dorito? O mesmo de sempre: sexo, dinheiro e poder! Apenas falta a desmancha-prazeres do costume: a morte num autocarro. Mas, para uma vida de prazer, a morte é pequeno estorvo.

Marca: Doritos. Título: Power of the crunch. Direcção: Eric Heimbold. Estados Unidos, Janeiro 2009.

“Sexo, dinheiro e poder”. Não resisto a recordar a canção espanhola “Salud, dinero y amor”. A saúde, a padroeira do século, no lugar do poder! A versão original data de 1967 e é interpretada por Cristina y los Stop (https://www.youtube.com/watch?v=q6VapvI_uv0). Opto pela interpretação de Gigliola Cinquetti (1968), tão fresca e tão bonita! Não é a primeira vez que coloco uma canção de Gigliola Cinquetti; aproveito para acrescentar a canção Dio come ti amo, de 1966.

Gigliola Cinquetti y El Trío Los Panchos. Salud, Dinero y Amor. 1968.

Gigliola Cinquetti. Dio, Come Ti Amo. Filme Dio, Come Ti Amo. 1966.

Opera Prima

Claudio Monteverdi. L'Orfeo. Folheto. 1609.

Claudio Monteverdi. L’Orfeo. Folheto. 1609.

A alegoria, a fábula e o virtuosismo pautam a música barroca. La Poule (1728), de Jean-Philippe Rameau e Le Coucou (1735), de Louis-Claude Daquin são alegorias transbordantes de virtuosismo para divertimento palaciano (ouvir em Com um burro às costas: música com humor). Boa parte da música barroca foi composta para patronos (reis, nobres, clérigos e burgueses empregadores”). Assim acontece com L’ Orfeo (1607), de Claudio Monteverdi, obra que, segundo os entendidos, inaugurou o género “ópera”. Monteverdi chamou-lhe:

favola in musica, isto é, uma história fantasiosa (afinal, estamos a lidar com o mito de Orfeu) envolvida em música. Ela estreou a 24 de fevereiro de 1607, no Palácio Ducal de Mântua, numa performance privada para o duque Vincenzo Gonzaga, empregador de Monteverdi, acontecendo a estreia pública dias depois” (Bernardo Mariano, O Orfeo de Monteverdi, a ópera que fundou a ópera, hoje no CCB, Diário de Notícias, 16 de Setembro de 2017).

Para uma abordagem original do mundo da ópera, recomendo a obra de Philippe-Joseph Salazar: Idéologies de l’opéra, Paris, Presses Universitaires de France, 1980).

Segue um excerto da ópera L’Orfeo, sob a direcção de Jordi Savall.

Claudio Monteverdi. L’ Orfeo. La Capella Reial de Catalunya. Direcção: Jordi Savall. Gran Teatre del Liceu Barcelona. Excerto: abertura.

Uma história batida

Wind bee

O anúncio The Bee, da Wind Mobile, conta uma história batida: uma criança socorre um animal, afeiçoam-se, mas o animal acaba por libertado para junto dos seus. Neste caso, a escolha do animal faz diferença. A abelha é caracterizada por um processo de comunicação particularmente desenvolvido: chegadas à colmeia são capazes de transmitir às outras, com exactidão, o local onde existe comida. Muito aquém, porém, da linguagem humana. Emil Benveniste (1952, “Communication animale et langage humain”, in Problèmes de linguistique générale T1, Paris, Gallimard) conclui que a comunicação das abelhas, embora notável, está longe das potencialidades da linguagem humana. Falta, por exemplo, a “dupla articulação” (Martinet, André, 1965. Linguistique synchronique, Paris, PUF). Moral da história: o discurso académico nem sempre ajuda a comunicação.

Marca: Wind Mobile. Título: The Bee. Agência: Ogilvy & Mather Milan. Direcção: Giuseppe Capotondi. Itália, Setembro 2017.

Entre gerações

Dad Wind

Às vezes, vale a pena apostar quatro minutos. Há jogos em que só perde quem não dá. Dar, pelo menos, quatro minutos. Aprecio tanto este anúncio que o republico. Pela narrativa, pela imagem, pelo realizador, Giuseppe Capotondi, pela música, To build an home, dos The Cinematic Orchestra, e pelo país, a Itália.

Marca: Wind Mobile. Título: Papà. Agência: Ogilvy & Mather Milan. Direcção: Giuseppe Capotondi. Itália, Setembro 2014.

A canção da morte a passo de caranguejo

Igreja de São Virgílio. Pinzolo. Itália

Figura 01. Igreja de São Virgílio. Pinzolo. Itália

Figura 02. O Baile da Morte na Igreja de São Virgílio. Postal ilustrado. 1903

Figura 02. O Baile da Morte na Igreja de São Virgílio. Postal ilustrado. 1903

O vídeo O Desconcerto do Mundo inicia com imagens de danças macabras acompanhadas pela canção Ballo in Fa diesis Minore (Sono Io la Morte, 1977) de Angelo Branduardi, cuja letra corresponde aos ditos da dança macabra de Pinzolo (Itália, 1539), dança situada na Igreja de São Virgílio, na fachada que confina com o cemitério (ver Figura 1). No início do século XX, o cemitério estendia-se até à igreja (ver, na Figura 2, bilhete postal datado de 1903).

Pela localização, junto ao cemitério, a dança macabra de Pínzolo lembra a dança macabra do Cemitério dos Inocentes, em Paris, a primeira dança macabra de que há conhecimento: os frescos percorriam os muros interiores do cemitério, por cima dos ossários (ver Transi 3: Viver com os mortos). Segue canção de Angelo Branduardi, com tradução dos versos iniciais.

Angelo Branduardi. Ballo in fa diesis minore. Versão original: La pulce d’Acqua. 1977.

Tradução dos primeiros versos da canção Sono Io la morte, de Angelo Branduardi

Tradução dos versos inicio da canção Ballo in fa diesis minore, de Angelo Branduardi

Descobrir é “coisa corrente”. “De sábios e tolos todos temos um pouco”. Intrigou-me, por exemplo, a afinidade entre alguns autores surrealistas (Salvador Dali, Giorgio de Chirico e M.C. Escher) e vários artistas do séc. XV a XVII, tais como Lorenz Stoer, François Desprez, Wenzel Jamnitzer e Giovanni Battista Braccelli (ver: Arquitectura de paisagem na geometria maneirista: Lorenz Stoer ; Criaturas pantagruélicas 1 ; Criaturas pantagruélicas 3 ; Perspectivas: Wenzel Jamnitzer e M. C. Escher ; Braccelli. À maneira surrealista ).

Estas duas “descobertas”, versos da “canção da morte” e influência do maneirismo no surrealismo, são, de facto, descobertas da pólvora. De algum modo, já se sabia!

Figura 03. Início da dança macabra de Pínzolo. Músicos e primeiros versos

Figura 03. Início da dança macabra de Pínzolo. Músicos e primeiros versos

Qual o interesse em descobrir o descoberto? A felicidade e o treino: descobrir é uma experiência grata e uma competência que ganha em ser cultivada. “o acaso só toca os espíritos bem preparados” (Joseph Pasteur). O episódio da letra da canção de Angelo Branduardi deve muito ao acaso, acaso que só toca, contudo, à minoria que lê os versos das danças da morte. “Preparar bem o espírito” não se resume à promoção de estudos exploratórios e à revisão da literatura”. Requer mergulho na realidade e capacidade de discernimento dos “fenómenos anómalos, relevantes e estratégicos” (Merton, Robert K., 1968 [1949], Social structure and social theory, New York, The Free Press, 158).

O risco de descobrir a pólvora tende a diminuir quando o tema da investigação é menos concorrido e mais circunscrito.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Escolhíamos imagens para o livro sobre as Festas d’Agonia (Martins, Moisés, Gonçalves, Albertino & Pires, Helena, 2000, A Romaria da Srª da Agonia, Grupo Recreativo e Cultural dos Trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo), quando deparei como uma fotografia com um aeroplano. Em letras muito pequenas, enxergava-se o nome: Quo Vadis. Desde 1913, os programas das festas e os jornais locais anunciam, ano após ano, a exibição de um aeroplano. O cartaz de 1913 “representa uma figura de Zé P’reira, assentando num bombo, admirando basbaquemente, um aero plano que cruza o espaço” (Aurora do Lima, 16.07.1913). Mas foi preciso aguardar pelo ano de 1918 para ver um aeroplano a sobrevoar, durante as festas, Viana do Castelo. O aeroplano chamava-se Quo Vadis… Por mesquinhas que sejam, estas micro descobertas despertam o investigador e a investigação. Podem, ainda, contribuir para o património e a memória locais.

A micro descoberta não programada requer competência, treino e disponibilidade, tanto de tempo como de espírito. Investir em quase nada é uma aventura ousada.

Para o “livrinho” A Idade de Ouro do Postal Ilustrado em Viana do Castelo, recorri à pesquisa na Internet, designadamente páginas de leilão e blogues especializados. A determinada altura, deparo-me com um postal ilustrado, datado de 31 de Agosto de 1911, com a mensagem escrita inesperadamente incompleta. Uma curiosidade. Passei em frente. Alguns dias mais tarde, surge um postal ilustrado com o mesmo emissor e a mesma destinatária, do mesmo dia e com mensagem incompleta, ambos numerados. Coleccionador de selos e leitor de romances policiais, não resisti a prestar atenção este caso anedótico. A missão consistia em descobrir o maior número possível dos doze postais enviados (“mando daqui doze bilhetes postais para assim teres a certeza que vão todos ao destino”) por um visitante de Viana do Castelo a Magdalena Manzoni, de Torres Vedras. Consegui encontrar dez, todos na Internet (ver Galeria de imagens). Faltam o 2 e o 5. Valeu a pena? Não sei, mas ainda me sinto orgulhoso. Não deixa de ser um bom indicador da paixão pelos postais ilustrados no início do século XX.

Galeria de Imagens: Postais enviados por um visitante de Viana do Castelo em 1911

Aprecio as fábulas de La Fontaine: a Lebre e a Tartaruga, o Leão e o Mosquito, a Cigarra e a Formiga, o Lobo e o Cordeiro… Por que não o Galgo e o Caranguejo?

A Passo de Caranguejo é uma obra de Umberto Eco (2007, Difel). Segundo o autor, o mundo está a retroceder: regressa à guerra quente, retoma os fundamentalismos… O caranguejo do Umberto Eco anda para trás. Aqueles que conheço tendem a andar para o lado. O galgo corre para a frente sem tirar os olhos do isco e sem sair um milímetro da pista. Na estrada, o galgo acelera nas rectas sem abrandar nas curvas rumo à meta. O caranguejo não resiste a desvios, perde-se em atalhos e demora-se em inutilidades. O caranguejo sabe o que quer, mas relativiza os objectivos. É um “flâneur” (ver Benjamin, Walter, 2012, El Paris de Baudelaire, Buenos Aires, Eterna cadencia Editora). O galgo é racional; o caranguejo, romântico. O galgo aprecia problemas e protocolos; o caranguejo, enigmas e travessias. O cúmulo do galgo é saber os resultados antes de começar a investigação. O cúmulo do caranguejo é acreditar que para ser investigador basta existir. O sociólogo Paul F. Lazarsfeld (ver a colectânea On Social Research and Its Language, The University of Chicago Press, 1993) aproxima-se do tipo ideal do galgo; Georg Simmel (ver a colectânea La tragédie de la culture, Paris, Editions Rivages, 1988), do tipo ideal do caranguejo. Galgo ou caranguejo? Já fui galgo, caranguejo e híbrido. “No estado em que as coisas chegaram”, estou em crer que ser caranguejo dá mais prazer e ser galgo mais poder. Para a frente, para trás ou para o lado, a cada um andar a seu contento. Mais do que formas de estar no ofício de sociólogo, o galgo e o caranguejo são formas de estar na vida.

Exorcismos

O mal só pode ser vencido por outro mal (Sartre, Jean Paul, Les Mouches, 1943)

  1. A Fuga dos demónios

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

Há muitos anos, fiz uma comunicação sobre São Bento no Mosteiro de Tibães. São Bento é um santo milagreiro mas rigoroso. Segundo a crença popular, antes de se fazer uma promessa a São Bento, importa pensar duas vezes. Promessa a São Bento é para cumprir. A par de São Bartolomeu, Santo Antão ou São Francisco, São Bento é um dos grandes santos exorcistas, dos mais temidos pelo diabo. Desafiado pelo diabo várias vezes em vida, São Bento não é meigo com os endemoninhados. Empunha a cruz e arreia-lhes umas pauladas (figura 2) ou umas bofetadas (figura 3). Não há demónio que resista. A assistência, de provecta idade, ouviu, ponderou e deu um desconto.

02 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

02. Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído pelo demónio (à direita). Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

No imaginário medieval, os demónios são expulsos pela boca, lembrando morcegos e répteis voadores envoltos em fumaça. A este nível, não se verifica diferença maior, salvo um ou outro detalhe, entre os exorcismos de Jesus Cristo (figuras 1 e 5) e os dos santos (figuras 2 e 6). As bruxas, seres próximos do diabo, destacam-se na primeira fila dos possessos.

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

À semelhança de São Bartolomeu, mas mil anos depois, São Francisco retoma a figura do exorcismo colectivo. Ao entrar numa cidade, afugentava todos os demónios (figura 4).

 

Não são apenas os demónios que saem pela boca. A fazer fé nas gravuras das Ars Moriendi, no momento do último suspiro, a alma liberta-se do corpo pela boca. Nas figuras 9 e 10, a alma de um moribundo é acolhida, sob a forma de uma criança, ora por um anjo, o Anjo da Morte, ora por um demónio.

 

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é o órgão cósmico por excelência. A boca é um local de passagem entre vários mundos, sagrados e profanos. Nunca se sabe o que escondem as goelas de Grandgosier, Gargantua ou Pantagruel.

2. Esqueletos vampiros

O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivs. Importa proteger-se.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII

Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vidas terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos.

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

Em Drawsko, na Polónia, num cemitério datado dos séculos XVII e XVIII, foram encontrados, no meio de 285 sepulturas, seis esqueletos de vampiros:

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

“Destes seis indivíduos, cinco foram enterrados com uma foice colocada à volta da garganta ou do abdómen, destinada a cortar a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair do túmulo (…). Dois indivíduos também tinham pedras grandes posicionadas sob o queixo, provavelmente como uma medida preventiva para evitar que o indivíduo mordesse outros (…) ou para bloquear a garganta de modo a que o indivíduo não pudesse alimentar-se dos vivos (…). Curiosamente, essas sepulturas não se encontram segregadas no cemitério, foram colocadas no meio das sepulturas não-desviantes” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

Os vampiros do cemitério de Drawsko não apresentam diferenças significativas quanto à idade e ao sexo, e provêm da comunidade local. A hipótese de serem vítimas de epidemias de cólera não encontra fundamentação empírica suficiente. Mas, para além das vítimas da cólera, existem outras categorias pessoas candidatas a vampiros.

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

“Um texto alemão de 1898, “Zeitschrift des Vereins fur Volkskunde”, descreve as antigas crenças na região segundo as quais os vampiros podiam manifestar-se como seres malévolos, vítimas de suicídios, bruxas ou possessos. Segundo a “Mythologie du Vampire en Roumanie” de Adrein Cremene, entre os romanis, qualquer pessoa sem um dedo, com um apêndice semelhante ao de um animal ou uma aparência horrível, era encarado como “alguém que está morto”, enquanto que na Rússia quem falasse sozinho, consigo próprio, era suspeito de possuir a natureza de um vampiro (Pirate Vampire Dug Up in Bulgaria; http://www.smithsonianmag.com/smart-news/pirate-vampire-dug-up-in-bulgaria-131708166/).

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi decepada e colocada ntre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi separada e colocada entre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

No cemitério de Drawsko, foram desenterradas três sepulturas com medalhas. Duas de S. Bento, com a respectiva cruz. O exorcismo e a protecção contra o mal prosseguem após a morte, no outro mundo. Em 116 sepulturas, mais de um terço (36%) do total de sepulturas escavadas, descobriram-se moedas passíveis de funcionar, na outra vida, como amuletos contra o mal:

“As moedas (…) representam uma importante apotropaia colocada junto aos mortos, e foram concebidas ​​para proteger o corpo de espíritos malignos (…). Às vezes, eram simplesmente colocadas sobre ou perto do corpo, mas muitas dessas moedas foram colocadas sob a língua, não só para evitar que um espírito malicioso entre no corpo através da boca, mas também para proporcionar aos mortos-vivos algo para morder de modo a dissuadi-los de se alimentar dos vivos” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Sec XIII

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Séc XIII

A potência atribuída ao mal sobrenatural é de tal índole que todo o exorcismo é pouco. Corre-se, apenas, o risco de combater o mal com uma maldade ainda maior. É desolador, mas humano. E “nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio).

Para mais informação, sugiro o documentário da National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002: https://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_Ihttps://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_I.

National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002

O vídeo musical Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin fecha o artigo com chave sinistra.

Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin.

Entre gerações

paolo-conteConheces Paolo Conte? Um cantor italiano. Deve rondar os oitenta anos. Tu e eu não somos da mesma geração. A diferença que a idade faz! Tenho os bolsos cheios de anos e tu, cheios de vida. Tu não conheces o que eu conheço e eu não conheço o que tu conheces. E a sociologia continua a subestimar o efeito das gerações.

Paolo Conte é um cantor jazz inconfundível. Não é o Seal, nem o Pedro Abrunhosa, creio, contudo, que és capaz de gostar. Mais ou menos folhas mortas, as gerações comunicam e aprendem umas com as outras.

Via Con Me é uma canção de Paolo Conte de 1981. O vídeo resulta de uma montagem de sequências de três filmes com Fred Astaire e Ginger Rogers. Sparring Partner é uma canção de 1993. Via Com Me é a canção mais célebre de Paolo Conte. Não obstante, prefiro a segunda, de que contemplo duas versões: uma interpretada ao vivo na Arena di Verona, em 2005, a outra, uma gravação de estúdio, de 1993. São diferentes. O piano não engana.

Paolo Conte. Via Con Me. Álbum Paris Milonga. 1981.

Paolo Conte: Sparring Partner. Álbum Tournée. 1993. Ao vivo na Arena di Verona. 2005.

Paolo Conte: Sparring Partner. Álbum Tournée. 1993.

Afinidades geoeconómicas

Portugal, Espanha, Itália e Grécia

Não bebo vinho, nem vou às putas. Lamento! Mas gosto da Grécia, da Itália, da Espanha e de Portugal. Temos muitas afinidades e, agora, nomeada comum. Quanto aos demais países europeus, nenhuma fobia de estimação. Se estivesse em condições de criar uma banda, baptizava-a, abreviando, Pigs, por extenso, Pigs in Shit. Entretanto, gosto da música dos quatro países.

Adriano Correia de Oliveira. Lira. Cantigas Portuguesas. 1980.

Patxi Andión. Me está doliendo una pena. Palabra por Palabra. 1972.

Riccardo Cocciante. Bella senz’anima. Anima. 1974.

Eleni Karaindrou. Eternity Theme. Eternity and a day. 1999.

Com o mundo nas mãos

Conectados. Estudiantes.O contacto, a conexão, entre pessoas capacita, gera sinergia. Torna possível o improvável. Neste anúncio, brilhante, o mundo aproxima-se da figura de um mosaico ou de um puzzle em que as diferentes peças apenas se sobrepõem sem se confundir, mesmo assim o suficiente para completar a acção. As situações e as pessoas interagem de um modo inacabado e imperfeito, mas eficaz. Namoram-se sem se anular, como um beijo de Gustav Klimt. O anúncio multiplica os sinais desta reserva e incompletude. Somos com os outros, conseguimos com os outros, mas não somos os outros, para o bem todos. O ruído preserva a identidade. A unicidade ameaça-a.

Anunciante: Movistar. Título: Conectados. Agência: Young & Rubicam Perú; Directora de Produção: Julieta Kropivka. Perú, 2010.

Gosto deste anúncio da Movistar. Já o tinha colocado há sete anos no Facebook. Hoje, a conversa é diferente. Acrescento três canções associadas à congregação de vontades: With a little help from my friends, do Joe Cocker; Canta amigo canta, do António Macedo e, porque na Itália também se canta, Insiemi, de Toto Cutugno. Todas ilustram a nossa incomensurável capacidade de sonhar em conjunto.

António Macedo. Canta amigo canta. 1974.

Toto Cuttugno. Insiemi. 1990.

Joe Cocker. With a little help from my friends. 1968.