Archive | Dezembro 2024

Inspiração pioneira

Uma pessoa, “Anonymous”, reagiu ao artigo Poesia audiovisual, que inclui o anúncio Two Worlds, da Sony, tendo a gentileza de partilhar o link da multipremiada curta-metragem “Nuit Blanche”, de Arev Manoukian. De 2009, precede dois anos Two Worlds, de 2011, que certamente inspira. Autêntica obra de arte, não só precede como não desmerece, antes pelo contrário, a vários níveis: estética, narrativa, ritmo e interpretação.
Sinto-me contente e grato. Aprender por si pode ser aliciante, mas, como regra, arrisca tornar-se monótono, senão melancólico.

Nuit Blanche. Realizador: Arev Manoukian. Atores: Michael Goughlan e Megan Lindley. Curta-metragem. 2009. Link alternativo: https://arev.ca/project/nuit-blanche/

Poesia audiovisual

De poesia em poesia: da “política” de Léo Ferré para a “comercial” da Sony, declamada por Leonard Cohen.

Marca: Sony. Título: Two Worlds. Agência: Grey (London). UK, 2011

Sem deus nem soberano

Com os anos, vêm rugas, taras e entorses. Prefiro os promotores (de preferência, discretos) aos defensores (em particular, ostensivos) de causas e direitos. Hipermediatizados, em todo o lado e nenhum, cativa-nos a empatia remota, e a solidariedade retórica. Dedicada a Louis Blanqui, a canção Ni dieu ni maître, de Léo Ferré, ilustra tangencialmente estas impertinentes impressões. Seguem as versões de 1965 e 1973.

Léo Ferré – Ni dieu ni maître. Single, 1965
Léo Ferré – Ni dieu ni maître. Et… Basta!, 1973
Ni dieu ni maître
Léo Ferré
Nem deus nem mestre
Léo Ferré
La cigarette sans cravate
Qu’on fume à l’aube démocrate
Et le remords des cous-de-jatte
Avec la peur qui tend la patte
Le ministère de ce prêtre
Et la pitié à la fenêtre
Et le client qui n’a peut-être
Ni dieu ni maître
Le fardeau blême qu’on emballe
Comme un paquet vers les étoiles
Qui tombent froides sur la dalle
Et cette rose sans pétales
Cet avocat à la serviette
Cette aube qui met la voilette
Pour des larmes qui n’ont peut-être
Ni dieu ni maître
Ces bois que l’on dit de justice
Et qui poussent dans les supplices
Et pour meubler le sacrifice
Avec le sapin de service
Cette procédure qui guette
Ceux que la société rejette
Sous prétexte qu’ils n’ont peut-être
Ni dieu ni maître
Cette parole d’Évangile
Qui fait plier les imbéciles
Et qui met dans l’horreur civile
De la noblesse et puis du style
Ce cri qui n’a pas la rosette
Cette parole de prophète
Je la revendique et vous souhaite
Ni dieu ni maître
Ni dieu ni maître
(Pas vrai, mec?)
O cigarro sem gravata
Que se fuma na alvorada democrata
E o remorso dos amputados
Com o medo a estender a pata
O ministério do padre
E a piedade na janela
E o cliente que talvez não tenha
Nem deus, nem mestre
O fardo pálido que é embrulhado
Como um pacote para as estrelas
Que caem frias sobre a laje
E esta rosa sem pétalas
Este advogado com pasta
Essa alvorada que coloca o véu
Por lágrimas que talvez não tenham
Nem deus, nem mestre
Estes bosques ditos de justiça
E que crescem nos suplícios
E para mobilar o sacrifício
Com o pinheiro de plantão
Este procedimento que espreita
Aqueles que a sociedade rejeita
Pretextando que talvez não tenham
Nem deus, nem mestre
Esta a palavra de Evangelho
Que consegue dobrar os imbecis
E que infunde no horror civil
Nobreza e, também, estilo
Este grito que não tem roseta
Esta palavra de profeta
Reivindico-a e desejo-vos
Nem deus, nem mestre
Nem deus, nem mestre
(Não é verdade, pá?)

Cenas

Fotografia de Álvaro Domingues. Habituei-me a chamá-la A Catedral

Entretive-me a procurar anúncios da Sony nos ficheiros do computador. Encontrei algumas relíquias. Dedico estes dois, com sequências de cenas quase fotográficas, ao Álvaro Domingues e à Almerinda Van Der Giezen. Lembranças do Natal, lembranças de sempre.

Imagem: Fotografia de Almerinda Van Der Giezen. Chamo-lhe Ofélia ou Rosa sobre Azul

Marca: Sony HD. Título: Beauty. Agência: Y&R, Singapore. Direção: Sam Tootal, 2010
Marca: Sony. Título: Soundville. Agência: Fallon London. Direção: Juan Cabral. UK, 2009

Isaac Albéniz

Isaac Albéniz (1860-1909), compositor e pianista que revitalizou a música tradicional espanhola, não parou de viajar e mudar de residência. Dedicou os movimentos da Suite Española Nº1, para piano, a várias regiões entre as quais Granada, Sevilha e Astúrias. Habituámo-nos a ouvi-los dedilhados na guitarra. Seguem, respetivamente, as interpretações de Adam del Monte, Gohar Vardanyan e Julia Lange.

Isaac Albéniz – Granada. Suite Española Nº1, 1886. Versão guitarra interpretada por Adam del Monte, 2013
Isaac Albéniz – Sevilha. Suite Española Nº1, 1886. Versão guitarra interpretada por Gohar Vardanyan, colocada em 2013
Isaac Albéniz – Asturias. Suite Española Nº1, 1886. Versão guitarra interpretada por Julia Lange, 2016

Estrela d’Alva

A Estrela d’Alva está particularmente brilhante. A privacidade e a liberdade parecem em quarto minguante. Mais exposição e controlo e menos expressão e tolerância. Em nome de direitos, negócios, costumes e ideais. Sopram ventos de sonolência confortável. Dorme meu menino, mas cuida da Estrela d’Alva. Não a deixes murchar!

Zeca Afonso – Canção de Embalar. Cantares do Andarilho, 1968

Boas festas

Oficina de Hans Thoman. Adoração dos Magos. ca. 1515–20. The Metropolitan Museum of Art

Com um conjunto escultórico do século XVI, um coro de embalar e uma canção ao Pai Natal, desejo-vos Bom Natal e Feliz Ano Novo.

Compositor Kim Arnensen. Interpretação: Kantorei of Kansas City. Condução: Chris Munce. Igreja Católica de São Pedro, no Kansas, 20.12.2015
Tino Rossi – Petit Papa Noël, 1946

Matraquilhos

Acontece-me abusar do Tendências do Imaginário como uma espécie de diário onde me atrevo a colocar trivialidades. Ontem, após demasiados anos de jejum, voltei a jogar matraquilhos. Sem a velocidade nem a destreza de outrora. Soube mesmo assim a reconquista, não menos importante do que proferir uma conferência. Na loja do meu avô, havia matraquilhos. Pequeno, colocavam-me sobre um caixote para chegar aos varões. Na realidade, cresci a jogar matraquilhos, não a dar conferências.

A jogar matraquilhos com o Mingos. 22 de dezembro de 2024. Filmado por Fernando Gonçalves

O carnaval dos animais

Ando obcecado com a escrita de um artigo intitulado “A espada, a cruz e o cálice”. Apeteceu-me desligar, dedicar todos os sentidos à música. Divertida, como o Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns. “O compositor não permitiu que a obra fosse publicada em vida, pois temia que ela arruinasse sua reputação de ‘compositor sério’ (…) a obra foi publicada apenas após a sua morte (com exceção do movimento O Cisne que por ter caráter mais sério foi publicado ainda em vida” (Wikipedia).

Camille Saint-Saëns – Marcha do Leão. Carnaval dos Animais, 1886
Camille Saint-Saëns – Galinhas e Galos. O Carnaval dos Animais, 1886
Camille Saint-Saëns – O Elefante. Carnaval dos Animais, 1886
Camille Saint-Saëns – Aquário. Carnaval dos Animais, 1886
Camille Saint-Saëns – Aviário. Carnaval dos Animais, 1886
Camille Saint-Saëns – O Cisne. Carnaval dos Animais, 1886

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Camille Saint-Saëns – Carnaval dos Animais, 1886

O resto pode ficar para depois

Pare, veja e oiça! Só isso. O resto pode ficar para depois. Estas coisas desaparecem depressa do radar.

Anunciante: Papaya. Título: Swing. Agência: You’re the Goods. Produção: MJZ. Direção: Nicolai Fuglsig. USA, dezembro 2024
James Blake – The First Time Ever I Saw Your Face. Covers, 2020