Archive | Novembro 2019

Deserdados do futuro

Polorum regina. Llibre Vermell de Monserrat. Iluminura. Séc. XIV.

Reservei a música medieval Polorum Regina para cartão de boas festas. Mas não consigo guardar nada para o futuro. Colide com a minha identidade: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. Sou uma aberração. Se não consigo guardar o futuro, tão pouco acerto no presente. As datas baralham-se. O meu calendário é de borracha: estica, encolhe e dobra. Polícrono (Edward T. Hall), não me dou com a agenda. Nunca usei. O que me prega partidas. Um dia, vou de Braga a Melgaço para a inauguração do Espaço Memória e Fronteira. Encontrei apenas alguns trabalhadores. A inauguração era na semana seguinte. Noutra ocasião, fui à inauguração de uma exposição na Casa Museu de Monção. À porta, apenas o funcionário: Então Senhor Professor o que o traz por cá? Era, também, na semana seguinte. Já aconteceu preparar-me para dar aula num feriado. Isto é o pão nosso de cada dia, mas continuo sem agenda e pouca memória. Não tem piada, mas é o meu lado Peter Pan, “a criança que nunca cresceu”. Acabei uns textos para o livro que, se não acelero, vai ser póstumo. Insiste em não se fazer sozinho. A publicação desses textos é uma tentação. Aposto que sairão um dia, antes da hora, nem que seja numa rotunda.

Mosteiro de Monserrat. Espanha.

A música Polorum Regina integra uma compilação de canções, o Llibre Vermell, do final do séc. XIV, guardada no Mosteiro de Monserrat, perto de Barcelona. É com respeito e admiração que imagino os peregrinos a cantar a Nossa Senhora: “Antes do parto, virgem fecundada por Deus, sempre permaneceste inviolada, estrela matutina absolve-nos”. Gente rude que não teve o privilégio de conhecer a civilização e a racionalização do Ocidente, nem a modernidade, a pós-modernidade, a hipermodernidade, a sobremodernidade, a modernidade tardia, a globalização, o pós-colonialismo, a sociedade de massas, a sociedade de consumo e a sociedade digital. Com a aceleração, depressa seremos pós-virtuais. E, no entanto, “os deserdados do futuro” mostram-se estranha e magistralmente humanos. Encaro-os com consideração e ternura. Deixo a ironia e o cinismo para os meus conterrâneos estacionados à porta do amanhã. Resquícios meus de um romantismo retrógrado.

Existem muitas interpretações da canção Polorum Regina. Algumas lembram mais um concerto do que uma canção de peregrinos. Outras são cantadas por uma única voz; atrevo-me imaginar os peregrinos a cantar em coro. Optei pela interpretação do Ensemble Obsidienne.

Obsidienne, ensemble vocal et instrumental. Polorum Regina. Livre Vermeil de Monserrat. Séc. XIV.

Bálsamo para sofridos

Maria Bethânia

Ando devagar porque já tive pressa.

Esqueci o pensamento na cadeira do dentista. Quatro anestesias! Muita mecânica. Tive direito a óculos de realidade virtual, por causa do laser. Ainda dói a área intervencionada. Estou melhor? Espero. Valha a Maria Bethânia, um bálsamo para os sofridos.

Maria Bethânia. Tocando em Frente. 1990. Programa da TV Pantanal.
Maria Bethânia. As Canções Que Você Fez Para Mim. Noite Luzidia. Ao vivo. Canecão. 2001.

A Cavatina pedagógica

Crianças Pensantes. Charlie Brown.

Logo, espera-me uma aula. Preparo-me. Rascunho apontamentos, que não vou utilizar, e ouço música, que passa ao lado. Música que me inspire a lograr que os alunos gostem de alguma coisa. O firmamento dos gostos mudou. Não basta que uma maçã seja boa, é preciso que haja vontade de a trincar. Consola-me pressentir que a Bruxa Malvada não faria melhor. A música de hoje é a Cavatina, composta por Stanley Myers, em 1970. Ficou célebre pela versão do filme The Deer Hunter (1978) e pela interpretação de John Williams. Desta vez, temos um duo: Manuel Barrueco e, curiosamente, Steve Morse, do último Deep Purple.

Manuel Barrueco & Steve Morse. Catavina. Nilon & Steel. 2001. Compositor: Stanley Myers (1970).

A vaidade dos mortos vivos

Se é sensível a imagens de horror, dispense. Não perde nada de essencial.

Chamé. The Walking Undead. 2019

Os anúncios têm as suas épocas. Se, na altura apropriada, alguns são estranhos esperados, fora de época são estranhos de estranhar. Encontrei o anúncio tailandês The Walking Undead, da Chamé, com o atraso de um mês. Foi publicado em Outubro, em plena febre do Halloween. Um grupo de mortos vivos persegue uma mulher por causa da beleza da sua pele. O assédio, que lembra o Thriller de Michael Jackson, termina com os mortos vivos a beber um sumo “milagroso” que os favorece fisicamente. Mesmo durante o Halloween, não é habitual uma marca apostar nos mortos vivos como embaixadores. Mas revela-se cada vez mais frequente o recurso ao grotesco para significar o bom, bem e o belo. A publicidade oriental tem sido pioneira nesta arte de baralhar “o sublime e o grotesco” (Victor Hugo).

A publicidade conhece variações sazonais. O que é próprio no Halloween, não o é no Natal, no Dia Internacional da Mulher ou no campeonato do mundo de futebol. Não mudam apenas os temas e as figuras: o Zombie, o Pai Natal, a mulher heroína e os divinos da bola. Muda, também, a moral, a forma e o modo. Se nos Santos, ou nos fiéis defuntos, se celebra a morte, no Natal celebra-se a vida. Não parece mas é uma grande diferença. Gostava que alguém abraçasse um projecto de dissertação no âmbito das variações sazonais da publicidade. Invocar a versatilidade humana, é um ato de fé; sondar as suas manifestações concretas, um ato de ciência.

Marca: Chamé. Título: The Walking Undead. Agência: GREYnJ United Bangkok: Direcção: Rong Soralamp. Tailândia, Outubro 2019.
Michael Jackson. Thriller. Thriller. 1982 (Official Video).

Memórias de um subvivente

Gastão. Walt Disney.

Já se respira o espírito do Natal! Sempre caloroso. Amor para dar e defeitos para corrigir. Como nos livros de Charles Dickens ou nos anúncios da Lotaria Espanhola.

Quem tem uma vida meio vazia, com a memória folgada, consegue lembrar-se de minudências. Há meio século, a lotaria de Natal animava as pessoas. Comprar o bilhete inteiro e repartir as cautelas era um ritual. Cada um podia adquirir várias cautelas e pertencer a vários grupos. Na aldeia, junto à fronteira, tínhamos lotaria a dobrar. A lotaria espanhola, mormente a dos Reis, congregava tantos devotos quanto a nacional. Na Páscoa, repartiam-se os trabalhos da lavoura, no Natal reparte-se a sorte, em pequenas doses, palpáveis, de esperança. Por um tempo, o milagre anda à solta.

Anunciante: Spanish Christmas Lottery. Título: Pilar. Agência: BBDO Punto (Madrid). Direcção: Rafael López Saubidet. Espanha, Novembro 2019.
Anunciante: Spanish Christmas Lottery. Título: Ramón. Agência: BBDO Punto (Madrid). Direcção: Rafael López Saubidet. Espanha, Novembro 2019.

As potencialidades sonoras dos sapos

Os sapos comem a lua durante o eclipse e são animais de estimação das bruxas. São o lado feio da beleza. As rainhas malvadas são tranformadas em sapos e os sapos, em príncipes. No escuro e na água, os sapos coaxam alto e bom som, com efeitos sonoros especiais. Os anúncios que valorizam o som são, normalmente, criativos, envolventes e, por vezes, aterradores. Graças ao anúncio Can You Solve The Mystery?, do Australian Museum, sempre que ouvir um carro ou uma motorizada a passar na estrada, fico na dúvida se não será um sapo.

Marca: Australian Museum. Título: Can You Solve The Mystery? Agência: 303 MullenLowe. Austrália, Novembro 2019.
O coachar do sapo cururu (Rhinella jimi). Mais de 2 milhões de visualizações.

Das raízes às formas

Fernando Nobre. Pormenor de escultura. 2009.

Tenho um amigo escultor: o Fernando Nobre. Fui orientador da sua Tese de mestrado em Escultura (Das raízes às formas; 2009) pela Faculdade de Belas Artes, da Universidade do Porto. Desafiou-me, recentemente, para escrever o texto do catálogo da Exposição que inaugurou em Agosto de 2019 em Miranda. Seguem algumas fotografias de obras incluídas, em 2009, na tese de escultura, bem como o texto para o catálogo de 2019.

Berço de pedras (Miguel Torga)

Albertino Gonçalves

Pedra, ferro, madeira e terra. Sagrado, energia, sabedoria e vida. Estas são as fontes e a substância da escultura de Fenando Nobre. Confessam as suas origens: o “reino maravilhoso”, a freguesia de Sendim e a família. Touros, máscaras, troncos… Combinações felizes de materiais usualmente desencontrados: pás, ferraduras, pregos e relhas assentes em granito; aros de pipas abraçados por peças de madeira. Lembram pessoas e lugares resgatados pela magia do cinzel. Trata-se de uma obra árdua e interminável, apanágio de quem está sempre perto do que lhe escapa. Entrelaçam-se as saudades das raízes, a ansiedade urbana e a travessia pessoal. A escultura de Fernando Nobre ultrapassa a mera conceptualização. Aposta, religiosamente, no trabalho físico de apropriação e metamorfose dos materiais. Nada é linear. Tudo é dobra e rugosidade: gestos, batidas, sulcos, cortes, perfurações… Mente, corpo e identidade. É obra original, pessoal, orgulhosamente sofrida e acabada. Que contam as suas esculturas? Que testemunham? Trás-os-Montes, Miranda do Douro, a agricultura, o artesanato, a infância… O afastamento, o desassossego e a inquietação: o Porto tão perto e as raízes tão longe! As obras são, contudo, universais. Quem as observa confronta-se com a eterna interpelação humana. Carnaval à parte, as máscaras somos nós, os touros representam a potência e a violência e cada rasgo lavrado na escultura, um diálogo com o mundo.

Todos temos alguma vocação. Por chamamento ou por dedicação. Fernando Nobre herdou a vocação de artista. O pai esculpia pequenas peças de madeira. Fernando Nobre seguiu-lhe os passos. A inspiração paterna manifesta-se tão marcante que o próprio irmão abraçou igual destino: transformar a matéria em arte. Pressente-se na pedra, na madeira e no ferro o toque do menino a acompanhar as mãos do pai. Simplicidade, franqueza, vontade e dignidade.

A vida avança graças a conjugações improváveis: o altar de pedra, a espada de ferro, a tábua do conhecimento e o húmus da terra; o sagrado, a energia, a sabedoria e a fecundidade, que se disputam e confluem na escultura de Fernando Nobre. Obras abertas, humanas, em que o coração e a razão dão as mãos. A exposição de Fernando Nobre conduz-nos para além do Marão. Para além das fronteiras. Transitamos, deslumbrados, para o outro lado de nós mesmos.

Amar perdidamente

Mercedes Benz. Eternal Love. 2019.

Ver um anúncio como quem bebe um licor: devagar e até à última gota. O Eternal Love, da Mercedes Benz, é extenso, atarda-se na viagem. Palavra a palavra, imagem a imagem, desdobram-se memórias da avó e insinua-se um pressentimento. Quando tudo se demora, corre-se o risco de desligar a atenção. Vale a empatia com o avô. Vale também a curiosidade. O desfecho faz-se esperar dois minutos, a duração de quatro anúncios normais. A música ajuda. A noiva, a avó, vem num Mercedes. Afinal, a eternidade é a eternidade do amor. Não há despedida mas continuação renovada.

Marca: Mercedes Benz. Título: Eternal Love. Agência: Inhouse. Direcção: Dorian & Daniel. Alemanha, Novembro 2019.

O bigode no Dia Internacional do Homem

No dia 19 de Novembro, comemorou-se o Dia Internacional do Homem. Tal como nos últimos vinte anos, não dei pela ocorrência. Nem sabia que existia! Continuaria ignorante não fosse a publicidade, sempre atenta às efemérides.

“Noviembre es el mes del hombre celebrando su día culmen el día 19, Día Mundial del Hombre. Y es el mes donde el bigote toma protagonismo para apoyar a todos esos hombres enfermos de cáncer de próstata con el movimiento #Movember (…)
Gillette vuelve con esta campaña para reivindicar una masculinidad inclusiva, centrándose ahora en un momento clave. La Pubertad, etapa en la que empieza a construirse el hombre que cada uno será en el futuro (…)
La campaña gira entorno a un divertido spot protagonizado por niños que utilizan una canción, a modo de himno (…) Va haciendo que poco a poco éstos se sientan orgullosos de su primer “bigotillo” (https://lapublicidad.net/bigotillo-adolescente-campana-gillette/).

Visto e revisto o anúncio, não vislumbro a ligação ao cancro da próstata. Lembro, em contrapartida, o filme O Clube dos Poetas Mortos (1990). E retenho o mote: “Hay qué ser muy hombre para empezar a ser tú”.

A Gillette pugna por renovar a imagem do homem. Oposta à “masculinidade tóxica”, a “masculinidade inclusiva” é uma expressão chave da campanha. Não a conhecia. Ando distraído. Há palavras como “inclusão” que se tornam intelectualmente angélicas. Resisto. Quero estar onde desejo estar: dentro ou fora. Incluir é, muitas vezes, obrigar a entrar e não deixar sair. Milhões de pessoas morreram de inclusão. Não é boa medicina apagar a memória das palavras, por muito que nos levem ao céu.

Marca: Gillette. Título: A Moustache. Agência: Proximity. Espanha, Novembro 2019.

French Kiss: A minha língua, a tua língua

Auguste Rodin. O Beijo. 1882.

Num texto português de meia dúzia de linhas, surgem as palavras: smart city, start up, ranking, call e paper. Todas as gerações têm direito às suas palavras-chave. Smart city, start up, ranking, call e paper são chavões apreciativos. Parece que o português não tem palavras para os fenómenos do presente com futuro reluzente. Caem bem palavras de outros horizontes, outras peritagens e outros poderes.
Smart city. Não é o mesmo que “cidade inteligente”. É reduzir o valor (no sentido de Saussure) da expressão inglesa que significa, também, esperteza, requinte, capacidade… Cidade esperta? O melhor é seguir viagem.
Start up. Por que não “empresa emergente”? Perdia-se a ligação à bolha tecnológica. E start up vibra com ressonâncias ascendentes: wake up; make up; pin up
Ranking? Ordenação, classificação, hierarquia, posição, nível… O português tem demasiadas palavras para dizer uma operação tão simples. Se antes pecava por defeito, agora peca por excesso.
Call. A palavra inglesa possui uma aura religiosa mais ampla e acentuada do que a palavra portuguesa “chamada”. Convoca a vocação e o chamamento, ambos pressupostos nos encontros científicos. Por sua vez, convite é, porventura, demasiado cortês.
Paper. Nada a dizer. Apenas a dissonância introduzida pelos papers electrónicos. Abençoadas as palavras que têm a sina de dizer mais do que aquilo que dizem.

Gustav Klimt. O Beijo. Detalhe. 1907-1908.

Traduzir palavras do inglês para o português é tarefa difícil. O inverso, também. Talvez o French Kiss possa ajudar.

Smart city, start up, ranking, call e paper são palavras que assumem o sentido que lhes vamos concedendo. São smart words. Smart, mesmo Smart, é o carro. Very Smart!

Assim como o Smart tem mais lugares onde estacionar, a tua língua é melhor que a minha. O mesmo texto escrito em duas línguas diferentes não tem o mesmo alcance, melhor, o mesmo impacto. A língua é poder, bem como enpowerment. Palavra de blogger.

Ocasionalmente, apetece pintar meias verdades: o fraco tende a agarrar-se ao forte.

Marca: Smart. Título : Perfect City. Agência : Contrapunto. Direcção: Hugo Menduiña. Espanha, 2016.