O Camelo e o Ganso-das-neves

Um pé no mundo latino, outro no anglo-saxónico, andamos escachados “sem alternativa em que nos firmar”. O álbum The Snow Goose, dos Camel, saiu no dia 15 de Abril de 1975. Vivia Portugal um período acelerado e conturbado, mas atento ao que se passava no mundo. The Snow Goose foi mais uma pedrada no charco. As rádios passavam-no e repassavam-no, não se inibindo de o passar na íntegra, sem interrupções. O vídeo contempla as três primeiras faixas do álbum. Ao vivo, quase quarenta anos após a edição original, impressiona a serenidade e a qualidade da interpretação. Muitos lembram-se destas músicas; outros ficam a lembrar-se; os demais não lhe sentirão a falta.
Virar costas a Castela

Virar costas à latinidade não traz bom vento. Insensatez de Estado, cenoura do povo e oportunismo do resto.
Conhece Angelo Branduardi? Não? E a Billie Eilish? A cereja no bolo do terceiro milénio é a avaliação assente na ignorância electronicamente ruidosa. O Angelo Branduardi é uma espécie de José Afonso da Itália. Ao prestar-lhe atenção, paramos, por um momento, de coçar o mainstream. Boiar na corrente é cómodo, mas nada pessoal. Sem cabeça, coração e estômago, com raízes gastas, sob uma tempestade de gadgets e emblemas, arriscamos o excesso semiótico e o distúrbio gastro-identitário.
Viramos costas à latinidade com o freio nos dentes. Afigura-se estúpido desvalorizar o que somos.
O murmúrio e o grito

As questões de identidade constituem uma fonte incansável e delicada de discursos. A publicidade não se faz rogada. A propósito, por exemplo, de brinquedos, do cancro da mama ou da assunção de género. Pode significar-se uma identidade discretamente, em modo quase confidencial. Dispensa-se gritar ou arranhar sensibilidades. Há anúncios que transpiram subtileza, outros sopram trombetas num filme mudo.
Para aceder ao anúncio seguinte, carregar na imagem.

Bem-estar animal

« Na produção de ovos, as galinhas poedeiras são sistematicamente abatidas por volta dos 18 meses, idade a partir da qual se tornam menos produtivas, logo menos rentáveis, quando podem viver, em média, 6 anos (…) A start-up compromete-se a alimentá-las, alojá-las, cuidar delas, durante toda a sua vida graças à venda dos ovos Poulehouse” (Poulehouse).
O anúncio L’Oeuf qui ne tue pas la poule, da Poulehouse, é uma iniciativa ética e estética notável. Um belo gesto, uma bela história e uma bela animação. Confesso não conhecer nenhum criador de galinhas que espere pela sua morte natural. Aguarda-se pelo direito à vida e à reforma dos frangos.
Há animais felizes. “A Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA” (Alto Minho TV). Têm música ambiente, massagens, espaços diversificados… Cabras descontraídas dão mais e melhor leite.
“As cerca de 400 cabras são massajadas e ouvem música relaxante, num autêntico ‘parque anti- stress’. O agradecimento é uma média diária de 250 litros de leite de qualidade, que originam seis variedades de queijo” (Alto Minho TV).
Tão feliz que ele era!

Em passeio pasmado pelos vinis deprimidos, encontrei a canção “Lucky Man”, dos Emerson Lake & Palmer. “Tão feliz que o homem foi”! Quem? Pantagruel? Tarzan? O rei Salomão? São Francisco de Assis? Os ELP dão a entender que sabem quem foi “esse homem de sorte”. Compunham, nos anos setenta, uma banda tecnologicamente avançada. Lembro-me de trautear a canção Lucky Man (1970).
Urinar para a lua

Percorri mil imagens do Pieter Brueghel sem me aperceber dos Doze Provérbios. Quem se aventura sem guia corre o risco de passar ao lado do essencial. Mas tenho os meus rapazes. O mais velho desencantou no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, os ditos Doze Provérbios, de Pieter Brueghel. “Figuras com legenda”. Por exemplo, no quarto fragmento, o homem está sentado entre duas cadeiras, ou seja, não consegue decidir-se; em baixo, no oitavo fragmento, o homem não consegue ver o reflexo do sol na água, ou seja, inveja outras pessoas.

Concluído entre 1558 e 1560, os Doze Provérbios ganham em ser confrontados com os Provérbios Flamengos, obra concluída pela mesma altura, em 1559. Pelo menos, onze dos Doze provérbios constam entre os 112 Provérbios Flamengos.

Carregar na tabela para melhor visualização.


Incomoda-me esta ignorância vetusta. “O homem a urinar para a lua” é uma falha no meu repertório. Não conhecia os Doze Provérbios, nem tão pouco relevei tão estranha figura nos Provérbios Flamengos. Faltava, confesso, no meu imaginário um homem a urinar para a lua.
Importa festejar. Com música, naturalmente. Existem muitas canções dedicadas à lua e aos lunáticos: Moon River (Audrey Hepburn), Harvest Moon (Neil Young), Brain Damage (Pink Floyd), La Luna (Angelo Branduardi), Moonlight Shadow (Mike Oldfield), Blue Moon (Elvis Priesley), mas, sentimentalmente, opto pela Sonata ao Luar, de Beethoven. Consta entre as músicas que o meu rapaz mais velho mais gosta de tocar. Coloco a versão completa: o terceiro movimento é o meu preferido. Interpretação da ucraniana Valentina Lisitsa
João e Albertino
Técnica e criatividade há sessenta anos

Existem pessoas lindas que dão humanidade ao mundo, pessoas belas que fazem do mundo um palco, pessoas boas que fazem o bem sem olhar a quem e pessoas criativas que fazem anúncios lindos, belos e bons. Existem, ainda, belezas mascaradas numa paródia de Sergio Leone. Entre o anúncio Pure Beauté, da Monsavon (1955), e o anúncio Very Irresistible L’Eau en Rose, da Givenchy (2014), distam 59 anos. Duração suficiente para esboçar uma ideia da evolução da técnica e da criatividade na publicidade.
Quando a fotografia é boa
Quando a fotografia e o tema valem a pena, temos um espectáculo a dobrar. Seguem três fotografias de Castro Laboreiro: a primeira, panorâmica, contempla a vila; as restantes incidem sobre a mesma paisagem: as cascatas do rio Laboreiro, com e sem neve. De fazer inveja aos cenários do Senhor dos Anéis.



Música para acordar

Música para quem acorda sem vontade de se levantar.

