Arquivo | horror RSS for this section

Pedagogia de choque

SAAQ. Stunt piéton

Do ponto de vista do cidadão moderno, os atropelamentos são inadmissíveis. Demasiada imprudência, distracção e morte. A publicidade destaca-se como um dos principais meios de prevenção. Há várias formas de dissuadir o peão imprevidente: acidentes tecnicamente estetizados ou dramatizados; mortos faladores; desespero dos pais das vítimas; anjos salvadores… Predominam os anúncios que chocam e assustam. É o caso do Stunt piétons, da canadiana SAAQ (Société de l’Assurance Automobile du Québec). O anúncio recorre ao choque e ao susto. O desvio é o caminho mais avisado. Os acidentes e as vítimas, reduzidas a esqueletos, reconhecem-se no ecrã de um aparato técnico. A simulação de uma realidade pode ter mais impacto do que a própria realidade.

A pedagogia do choque e do medo não é apanágio dos regimes e das instituições totalitárias. Mais ou menos eficaz, configura um discurso do poder. A pedagogia do choque e do medo esmera-se, mas, muitas vezes, sem grandes resultados. Por exemplo, contra o tabaco ou o álcool. Tudo indica que a pedagogia do choque e do medo também é apanágio das sociedades democráticas. A prudência não está associada ao medo? O medo não sensibiliza?

Marca: SAAQ. Título: Stunt piétons. Agência: Lg2. Direcção: Olivier Labonté Lemoyne. Canadá, Novembro 2018.

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

O mau e o maligno

Jean-Jacques Annaud

Jean-Jacques Annaud

Pessoalizar é verbo vedeta na viragem do milénio. Pessoaliza-se quase tudo, “e quase tudo não é demais” (ver Paulo Gonzo, Dei-te quase tudo; https://www.youtube.com/watch?v=kYPdeZCA6d0). O ser humano derrete-se, fragmenta-se e pessoaliza-se. Parece incongruente, mas não é. No que me respeita, aplico-me a pessoalizar o dicionário, a começar pelas palavras maldade e malignidade.

A Ford acaba de lançar, na Argentina, uma série de anúncios dedicados ao Ford Ka. Lembra os anúncios, controversos, de 2004, ao Ford Sport Ka (ver https://tendimag.com/2012/05/17/amizade-sobre-rodas/). Os anúncios de 2004, mais do que malignidade, expressam maldade. Quem fecha o tejadilho ou levanta o capot visa fazer mal ao gato e à pomba. Os dois anúncios actuais da série Super-Features revelam menos maldade e mais malignidade. Os zombies e os dinossauros não são bons nem maus, são malignos, é essa a sua condição, independentemente da vontade.

Les Vautours, excelente anúncio hitchcockiano de Jean-Jacques Annaud, é uma relíquia dos anos oitenta que se presta ao jogo da distinção entre maldade e malignidade. Os abutres são maus ou malignos? O condutor que dá o golpe de misericórdia ao carro é mau ou maligno? E o anúncio, no seu conjunto, é mau, maligno ou presunçoso? E este artigo? É maneirista.

Marca: Ford Ka. Título: Super-features. Dinosaur. Agência: GTB Argentina. Direcção: Bicolas Kasakoff. Argentina, Outubro 2018.

Marca: Ford Ka. Título: Super-features. Zombies. Agência: GTB Argentina. Direcção: Bicolas Kasakoff. Argentina, Outubro 2018.

Marca: Hertz. Título: Les vautours. Direcção: Jean-Jacques Annaud. França, Março 1984.

Diálogo

Condenações

Sou pelos Direitos do Homem e pela dignidade humana. Sou contra o fanatismo e as ideias que matam. O anúncio Condenações, da CBN, é pedagógico e oportuno, mas o mundo das ideias não é um mundo a preto e branco.

Marca: CBN. Título: Condenações. Agência: Energy BBDO. Direcção: NOBRE. Brasil, Outubro 2018.

O quarto escuro

Charles Aznavour

Charles Aznavour.

Persistimos nos velhos tópicos do imaginário. Por exemplo, a oposição entre a luz e as trevas. A luz é luminosa e as trevas, tenebrosas. Por outro lado, os monstros querem-se vazios, como os fantasmas translúcidos, e sem forma, instáveis, como o Alien no filme The Thing (1982), de Carpenter. Os monstros são avessos à luz, que os degrada ou destrói, como é o caso de vampiros e mortos-vivos. Dão-se melhor nas trevas. No “quarto escuro”, não vemos os monstros, imaginámo-los, o que é terrível. Os monstros desconhecidos podem ser medonhos; os monstros reconhecidos podem ser adoráveis, como os monstros da Rua Sésamo.

No anúncio tailandês Picnic para as lâmpadas Sylvania, a iluminação, a claridade, banaliza os monstros. Mas tudo muda quando a corrente eléctrica ou as lâmpadas falham!

Marca: Sylvania. Título: Picnic. Agência: JEH United Bangkok. Direcção: Thanonchai SORNSRIWICHAI. Tailândia, 2008.

Enquanto escrevia, morreu um monstro, um “monstro sagrado” da canção francesa. O Tendências do Imaginário já contempla algumas canções de Charles Aznavour, incluindo La Bohème. Chegou a vez de Non, je n’ai rien oublié.

Charles Aznavour. Non, je n’ai rien oublié. 1971. Ao vivo em Paris, Palais des Congrès. 1991.

Filhos do Apocalipse

00. gothic-dystopian-postapocalyptic-surreal-paintings-zdzisław-beksinski-4

Zdzislaw Beksinski

Em Portugal, no 15 de Agosto, dia da Assunção de Nossa Senhora, ocorre uma espécie de inflamação da humanidade. Gente por todo o lado. Uma espécie de solstício de verão no calendário social. Um clímax da efervescência colectiva, votada ao esmorecimento dos próximos meses. É dia de festas; não é dia de trevas. Mas é de trevas que vou falar.

No último artigo, A Sereia Académica (https://tendimag.com/2018/08/13/a-sereia-academica/), figura uma pintura de HR Giger. Quem vê HR Giger, recorda Zdzislaw Beksinski (1929-2005), um dos principais, senão o principal, artista polaco contemporâneo. Classificou-se a si próprio, numa primeira fase, como barroco e, em seguida, como gótico. Não obstante, é um expoente da arte grotesca, o mais estranho e visceral que se pode conceber. As suas obras, além de desconcertantes, são tenebrosas. Na sua pintura, o morrer sobrepõe-se à morte, num mundo moribundo, sem remissão. Um mundo em que nem sequer a morte redime. As figuras, simultaneamente mortas e vivas, são amálgamas, fluídas e deformadas, de carne, ossos, ramificações e excrescências. O ser humano supera os objectos e as máquinas porque, para além da obsolescência, tem a sina de morrer, de ir morrendo. Passe a incongruência, está condenado a sobreviver, a penar, aquém e além, antes e depois da morte. A dilaceração estende-se aos animais e aos objectos: catedrais e prédios em ruínas; carcaças de carros, autocarros e tanques de guerra; cemitérios de objectos no calvário.

Zdzislaw Beksinski faleceu em 2005, esfaqueado até à morte por um vizinho a quem negou um empréstimo de cerca de 100 dólares. Foi um artista prolixo. A página da Wikiart inclui 707 obras. Beksinski fez questão em não dar título às suas obras, bem como resistiu ao mínimo contributo para a respectiva interpretação. A maior parte das suas obras não está datada. Segue meia centena de pinturas desordenadas e sem título. Um excesso de imagens arrepiantes, passíveis de gelar o riso do próprio diabo. Apesar do incómodo, vale a pena uma visita.

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

Sinais do tempo 1: Panmediatização

Don Addis. Media spoonfeeding

Don Addis. Media spoonfeeding.

Marca: Du. Título: Post Wisely – First Story. Agência:  Leo Burnett (Dubai). Emirados Árabes Unidos, Fevereiro 2018.

Ódio

Francisco Goya. Fusilamiento en un campo militar. Ca. 1808-1810

Francisco Goya. Fusilamiento en un campo militar. Ca. 1808-1810. Poucos artistas retrataram o ódio como Goya. Uma estética do desespero.

“In time we hate that which we often fear” (William Shakespeare, Antony and Cleopatra, Acto I, Cena III, 1606).

O ódio existe? As “sociedades cândidas” quase proscreveram a palavra. Calamos mais o ódio do que o diabo ou a morte. No entanto, o ódio dilacera e armadilha a humanidade. Será uma palavra tabu, daquelas que encarnam o mal? Afortunadamente existe a publicidade. Preocupada com as marcas, dispensa o proselitismo político e moral. Confesso que desconfio dos discursos desinteressados. Prefiro os discursos “com interesse”.

Ódio é uma palavra que nos abala e nos ressoa nas entranhas, como o anúncio Hate is so 2018, da Bianco, ou a canção Hate Me, dos Blue October.

Marca: Bianco Footwear. Título: Hate is so 2018. Agência: & Co. Direcção: Alexander Topsoe. Dinamarca, Fevereiro 2018.

Blue October. Hate me. Foiled. 2006. Ao vivo, 2015.

 

A guerra dos drones

Audi Guerra dos Drones

A inspiração, a alusão, a paródia ou o diálogo entre obras de arte e de cultura são fenómenos correntes. As obras interagem umas com as outras, por distantes que estejam no espaço e no tempo. Não há, aliás, obras silenciosas, mudas. A este intercâmbio, Julia Kristeva chamou intertextualidade (1969, Sèméiotikè, Paris, Seuil). A intertextualidade não diminui as obras, é uma qualidade que as pode valorizar.

O anúncio The Drones, da Audi, transborda de intertextualidade. É um pastiche do Filme Os Pássaros (1963), de Alfred Hitchcock, um clássico da história do cinema. Produzido pela The Mill e dirigido por Dante Ariola, o anúncio logra o seu objetivo: destacar o automóvel como último refúgio. O anúncio The Drones expressa a ambivalência da técnica: os drones, como os pássaros do filme, representam uma ameaça; o automóvel, a exemplo do filme, oferece-se como uma salvação.

Seguem o anúncio The Drones, da Audi, e um excerto do filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

Marca: Audi. Título: The Drones. Agência: Venables Bell + Partners. Direcção: Dante Ariola. Estados Unidos, Março 2015.

Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, Excerto. 1963.