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15º Aniversário do Tendências do Imaginário

Orgão da igreja do mosteiro de Tibães. Detalhe

Este blogue completa hoje 15 anos. Atendendo aquilo que ao que o tempo representa na Internet, é um ancião, maneira simpática de dizer velho. Para comemorar, coloco o primeiro artigo, “Macabro, mas não tanto!”, publicado no dia 30 de agosto de 2011. Não é, porém, o meu primeiro post. Administrei anteriormente um outro blogspot com início anterior a 2008.

Macabro, mas não tanto! Tendências do Imaginário, 30.08.2011

Arte indigesta

Tenho alguns pequenos princípios de estimação. Por exemplo, ofereço o que gosto, não o que gosta necessariamente quem recebe. Partilhar uma parte de mim, não dele. Faço-o sem qualquer intenção de converter. Não tenho costela de missionário.

O público do Tendências do Imaginário mostra menos aptência pelos artigos dedicados à arte. Pelo menos, imediatamente. Preferem música e publicidade.

Hoje, nos artigos Dar à luz na “idade das trevas” e Varas há muitas, a arte veio ao de cima. O resultado não surpreende: quebra nas visualizações. Pois insisto, como quem não nota, correndo o risco de exasperar.

A obra Zdzislaw Beksinski é francamente indigesta. Não se presta nem para aperitivo, nem para digestivo, nem para refeição. Perturbadora, estranha-se e volta a estranhar-se. Deixei a publicação do respetivo artigo, Filhos do Apocalipse, para esta hora, entre o jantar e a ceia.

Zdzislaw Beksinski (1929-2005) [é] um dos principais, senão o principal, artista polaco contemporâneo. Classificou-se a si próprio, numa primeira fase, como barroco e, em seguida, como gótico. Não obstante, é um expoente da arte grotesca, o mais estranho e visceral que se pode conceber. As suas obras, além de desconcertantes, são tenebrosas. Na sua pintura, o morrer sobrepõe-se à morte, num mundo moribundo, sem remissão. Um mundo em que nem sequer a morte redime. As figuras, simultaneamente mortas e vivas, são amálgamas, fluídas e deformadas, de carne, ossos, ramificações e excrescências.

Anexo, também, o artigo Greve da escrita, de 2016, para tentar desanuviar um pouco. É certo que a pintura “Dustheads”, do Jean-Michel Basquiat, não ajuda a desvanecer, mas as canções e a voz de Lizz Wright são capazes de fazer milagres.

Filhos do Apocalipse. Tendências do Imaginário, 16.08.2018
Greve da escrita. Tendências do Imaginário, 16.08.2016

Gárgulas obscenas

Parador de Santiago de Compostela, Hostal dos Reis Católicos. Edifício construído em 1509

Acontece investir mais num artigo. É o caso de Gárgulas Impúdicas, de 10 de agosto de 2014, revisto posteriormente em 23 de novembro de 2021.

Em 2017, decidi elaborar uma antologia, intitulada A Morte na Arte, com uma trintena de artigos do Tendências do Imaginário. Embora tenha revisto uma boa parte, com as vicissitudes da vida, acabei por suspender o projeto. Sinto, contudo, o dever de o reassumir.

O artigo que recoloco é o revisto: Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte. O link para o artigo de 2014 é https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/

Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte), 23.11.2021

Ter o Diabo no Corpo

Pedro Abrunhosa e Bandemónio. Momento, 2002

No imaginário medieval, os demónios eram expulsos pela boca. Pareciam morcegos ou répteis voadores envoltos em fumo.
Entre os santos exorcistas, dois sobressaem: São Bento e São Francisco. São Bento não era meigo com os endemoninhados. Arreava-lhes umas bofetadas e umas pauladas.
Mil anos depois, São Francisco retoma o exorcismo colectivo característico de São Bartolomeu. Cidade onde este santo entrasse, não demorava demónio. (A Fuga dos Demónios, 08.08.2014)

Em 8 de agosto de 2014, escrevi o artigo A Fuga dos Demónios. Três anos volvidos, retomei-o no artigo Exorcismos, de 15 de agosto de 2017, acrescentando-lhe outro texto: Esqueletos vampiros. Recoloco o artigo Exorcismos, mais completo, acompanhando-o com duas canções do Pedro Abrunhosa: “Diabo no corpo” e “Momento”, ambas de 2002.

Pedro Abrunhosa, Os Bandemónio – Diabo No Corpo. Momentos, 2002
Pedro Abrunhosa, Os Bandemónio – Momento. Momento, 2002

Negro escuro. Goya

Acontece-me, embora raramente, produzir um ou outro artigo mais sério e encorpado. Afundo-me. É o caso de A cor do abismo, colocado em 20 de julho de 2017, e Um silêncio de morte: Goya, ambos dedicados a Francisco de Goya, artista que muito aprecio. Convém digeri-los sentado, de preferência, com bom audiovisual. Não forçosamente hoje, mas quando se proporcionar.

Imagem: Cartaz de Os fantasmas de Goya. De Miloš Forman, 2006

Chamar a música

Sara Tavares – Chamar a Música. Festival da Canção 1994

A par da imagem e do pensamento, a música constitui, desde o início, uma das apostas do blogue Tendências do Imaginário. Embora crucial, o principal critério de seleção não é nem o meu gosto nem o dos seguidores. O intuito decisivo consiste em mostrar a imensa diversidade de músicas notáveis (não necessariamente notórias) independentemente do género ou da proveniência. Espelha a insatisfação com as paradas, os intérpretes e os críticos que nos são servidos pela comunicação social predominante.

As músicas dos artigos The earth is my grave (de 17 de julho de 2014) e Vozes (de 17 de julho de 2019) são bastante diferentes. Identifico-me com o cantor norte-americano Don McLean e aprecio o compositor belga Nicholas Lens.

Males do Mundo

Supertramp – Crisis? What Crisis? 1975

No Tendências do Imaginário, existem, na década de 2010, nove artigos de 16 de julho com interesse: Apelo (2012); Idolatria (2012); Chove na natalidade (2014); Sisifite (2015); Havemos de ir a Viana (2016); Sociedade de choque (2017); Umbilicados, narcisistas e egoístas (2018); e Simplesmente só (2019).

Pensei publicar hoje dois “pacotes”: 1) Miopia umbilical, com os artigos Umbilicados, narcisistas e egoistas(2018), a que acrescentava Avatar Narcisista (10.12.2017) e Nota de rodapé (26.11.2016); 2) Solidões, com os artigos Simplesmente só (2019), a que acrescentava A solidão como companheira (19.11.2016) e Aspirar a solidão (21.02.2021).

Desisto do pacote Solidões. Fica para o ano. Substituo-o por outro pacote, Males do mundo, com os artigos Apelo (16.07.2012) e Sociedade de choque (16.07.2017). Não só porque condiz mais com a “miopia umbilical”. mas, sobretudo, porque ao procurar uma versão com melhor resolução da sequência de abertura, com direção da NoBrain, do filme Huit, só o encontrei na minha própria página do YouTube. Precise-se que o filme Huit teve a participação de oito realizadores, entre os quais Jane Campion, Gus Van Sant e Wim Wenders. Nestas circunstâncias, descarreguei a referida sequência de abertura, salvaguardando-a em triplicado: no disco duro, na página do YouTube e no Tendências.

Segue o pacote Males do Mundo com dois artigos, Apelo (2012) e Sociedade de Choque, com dois vídeos veras impressionantes: “Huit (2009) e “Article 13 – L’horreur ne prend jamais de vacances” (2017).

Transcendência do humano

Felix Nussbaum – Prisioneiro, 1940

Convém não esquecer.

Des-graças

Francisco de Goya – Duelo a garrotazos, 1820 – 1823. Museu do Prado

Continuo pouco criativo. Nem sequer adianto um prefácio urgente. Entretenho-me a repescar “artigos do dia”, com dificuldade de amostragem. As flores do mal, de 2019, encerra um isco que me assombra: a ambivalência do mal. Adiciono, a preceito, a curta-metragem disfórica The Gloaming (14 minutos), extraída do artigo Descontrolo, de 2012.

The Gloaming. Curta-metragem dirigida por Nobrain e produzida por Autour de Minuit. França, 2010

Surrealismo grotesco

Durante a sunset party da Academia Sénior do Município de Braga. Fraião, 27.06.2026. Fotografia de Maria Afonso

Ontem, selecionei quatro “artigos do dia” (27 de junho). Recoloquei apenas dois: “A roseira dos cravos”, de 2014, e “Pintar o campesinato: o Luttrel Psalter”, de 2016, ambos com imagens medievais. Divertido numa sunset party com os alunos de Cidadania, da Academia Sénior do Município de Braga, adiei “Matar o vício”, de 2018, e “A ceia dos pobres (eventualmente chocante)”, de 2013, para o dia seguinte. Ainda considerei colocá-los fora de horas, enquanto Portugal empatava com a Colômbia, mas sabia que arriscava provocar pesadelos…

“Matar o vício” e “A ceia dos pobres” relevam de uma espécie de surrealismo grotesco, mais próximo da conceção de Wolfgang Kayser (Das Groteske. Seine Gestaltung in Malerei und Dichtung, 1957) do que da de Mikhail Bakhtin (A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 1941).

Na versão de Wolfgang Kayser, o grotesco gera um sentimento corrosivo de estranheza, em que o mundo familiar se revela, insolitamente, ameaçador e inquietante. Sério e visceral, provoca confusão, desorientação, mal-estar e angústia. Os quadros da chamada fase negra de Francisco de Goya representam um bom exemplo.

Em Mikail Bakhtin o grotesco é, pelo contrário, carnavalesco, animado por um movimento de rebaixamento coletivo, cómico e regenerador. Embora fantástico, desconcertante e excessivo, tende a resultar afirmativo e esperançoso.

Os vários livros de François Rabelais com os gigantes Gargantua e Pantagruel como protagonistas oferecem-se, agora, como um exemplo eloquente.

Em “Matar o vício”, o ambiente dos anúncios da revista Men’s Health é fantasmático, claustrofóbico e sinistro, com a figura do duplo, o outro eu, a insinuar-se como um intruso ambíguo, perturbador e ameaçador, senão fatal.

Com “A ceia dos pobres”, transitamos da publicidade para o cinema. O filme Viridiana (1960), de Luis Buñuel, encena uma paródia da Última Ceia, de Leonardo da Vinci, que frisa a blasfémia.

O filme Um Cão Andaluz (1928), de Luis Buñuel e Salvador Dali, destaca-se como um marco incontornável da história do cinema. Não se pode afirmar que propicie boa disposição. Deveras criativo, desconcerta e impressiona, cravando-se, indelével, na memória. Um cúmulo emblemático do surrealismo grotesco ao jeito de Kayser. Não aconselhável a pessoas sensíveis.

Surrealismo grotesco, eis uma noção que pode manifestar-se interessante!