Archive | Agosto 2019

Quadros de uma exposição

Viktor Hartmann. Il Vecchio Castello – The Old Castle .

Costumo propor aos alunos de Sociologia da Arte como trabalho prático abordar a relação entre, pelo menos, dois autores, correntes ou obras de géneros distintos. Todos os anos recebo, sobretudo na licenciatura em música, pelo menos um trabalho sobre a suite Quadros de uma exposição (1874), de Modest Mussorgsky (1839-1881), composição inspirada numa mostra póstuma de pinturas do amigo arquitecto e pintor Viktor Hartmann (1834-1873). A exposição foi inaugurada em São Petersburgo em Fevereiro de 1874, um ano após a sua morte. Impressionado, Mussorgsky escolheu dez desenhos e compôs, a título de homenagem, a série para piano Quadros de uma exposição, com uma música por quadro.

A maioria dos desenhos desapareceu. Mesmo assim, foi possível recuperar sete dos dez desenhos escolhidos por Mussorgsky (ver galeria de imagens; a numeração das imagens condiz com a numeração dos episódios da suite Quadros de uma exposição).

O que exige mais tempo na criação de um artigo costuma ser a selecção dos vídeos, das imagens e, sobretudo, das músicas. O caminho é longo e sinuoso. Encontrar uma obra, eleger um excerto e escolher uma interpretação constitui um desafio. No caso de Mussorgsky, antes de reter o episódio, O Castelo Velho, impôs-se ouvir a composição no seu conjunto. A eleição da orquestra, e do director, exigiu a audição de cerca de uma dúzia de interpretações. Frequentemente, as interpretações retidas apresentam um número reduzido de visualizações (neste caso, 15 343 e 1 338). Atravessa-se a floresta para encontrar a árvore. Por último, aguarda-nos a indecisão. A relevância das diferenças mínimas. Como o burro de Buridan (1300-1358), hesito, no meio da ponte, entre duas interpretações: da Escola Filarmónica de Moscovo, mais clássica, e da Orquestra Antonio Vivaldi, mais solta. Aprecio, nesta última, o destaque atribuído ao saxofone.

Modest Mussorgsky, Pictures at an Exhibition, Promenade 2, Old Castle. Moscow Philharmonic Orchestra. Maestro Yuri Botnari.
Modest Mussorgsky – The Old Castle” (Il Vecchio Castello) from “Pictures at an Exhibition”. Orchestra Antonio Vivaldi. Dir. Lorenzo Passerini.

Um toque de beleza

Gisele Bündchen.

Por que motivo não existe uma sociologia da beleza? A sociologia engloba tantas especialidades: o corpo, a moda, o lazer, o desporto, o quotidiano, a família, o género, a educação, a arte, a cultura, o poder, as desigualdades, o envelhecimento, a comunicação, as minorias… E não sobra um lugar para uma sociologia da beleza. É verdade que se deram alguns passos. Por exemplo, a “estética do feio” (Rosenkranz, Karl, 1853, Aesthetik des Hässlichen, Koenigsberg,  Gebrüder Bornträger) ou as histórias da beleza e do feio de Umberto Eco (Eco Umberto, 2004, História da Beleza, Lisboa, Difel; Eco, Umberto, 2007, História do Feio, Lisboa, Difel). Existem, naturalmente, mais autores a abordar o tema da beleza. No entanto, nem Rosenkranz nem Eco são sociólogos. Mas podiam sê-lo! É este “podiam sê-lo” que faz da sociologia uma das ciências mais abertas e abrangentes. Não obstante, a fundação de uma especialidade requer alguma institucionalização e massa crítica.

Marca: Marisa. Título: Encontro. Agência: Africa. Direcção: Ivan Abujamra. Brasil, Agosto 2019.

Sinto a falta de uma sociologia da beleza. Ajudaria a perceber, por exemplo, o anúncio Encontro, da empresa brasileira Marisa, estreado há três dias (dia 12 de Agosto). Tanta beleza! Só beleza. Com preguiça mental, deduzo que aquela roupa exibida pelos modelos se destina a mulheres igualmente belas. Será que a beleza das modelos influencia a escolha das pessoas? Por toque de beleza? Um “não-sei-quê” que faz a diferença? Por magia? A beleza é dúctil como o ouro.

Existem anúncios com pessoas normais, sem beleza estereotipada; e marcas dedicadas a clientes avantajados. Somos, contudo, a época histórica mais intolerante à obesidade. Uma sociedade particularmente propensa a intolerâncias quotidianas mesquinhas.

Sinto mesmo a falta de uma sociologia da beleza. Para compreender este ilusionismo social. A beleza distingue e rende. Como os capitais económico, social, cultural e simbólico, o “capital estético” discrimina e compensa. A beleza produz efeitos insuspeitos.

Os contos dos Charles Perrault e dos Irmãos Grimm são, por vezes, grotescos e assustadores. Como os quadros do artista contemporâneo Johann Heinrich Füssli. Por exemplo, O pesadelo (1802).

Uma sociologia da beleza permitiria não só ler a realidade, como a mascarar e transformar. Fazer, aproximadamente, o que se conseguiu com a velhice. Antes havia velhos, agora não. São seniores, pessoas de idade, menos jovens… Podia congeminar-se o mesmo com a fealdade. Acabar com a categoria dos feios. Não há feios, apenas menos bonitos. E os bonitos passam a ser menos menos bonitos. Segundo as leis de Morgan, está correcto: menos menos bonitos dá mais bonitos.

Anne Anderson (1874-1931). A bela e o monstro.

Sonho com uma nova “viragem”. A viragem estético-linguístico-cultural. Esta desdiferenciação simbólica já foi anunciada pelos Irmãos Grimm, no conto O Príncipe Sapo (1810), e por Gabrielle-Suzanne Barbot, no conto A Bela e o Monstro (1740). No primeiro conto, o sapo, atirado contra a parede, transforma-se num príncipe belo; no segundo conto, graças ao amor, o monstro transforma-se num belo príncipe. Em suma, por amor ou por nojo, o monstro e o sapo, respectivamente, transformaram-se numa espécie de modelos da Hugo Boss. Com modelos começou o artigo, com modelos termina. Os modelos das agências, os modelos das marcas, os nossos modelos.

A oração e a prostituta

The Doors.

Acontece-me comprar discos sem os ter ouvido. Por opção. Na Fnac de Paris, podia-se ouvir os discos na loja; o mesmo na Sonolar em Braga. Mas é uma emoção descobri-los em casa. E, por vezes, uma desilusão. Por exemplo, o cd dos Air: City Reading -Tre Storie Western (2003). Poemas de Alessandro Baricco acompanhados com música dos Air. Decepção mais antiga foi o álbum An American Prayer (1978), de Jim Morrison e The Doors. Tal como no caso dos Air, poemas de Jim Morrison com música dos The Doors.

Com o tempo, uma pessoa acaba por se afeiçoar a estes patinhos feios. Quando menos esperamos, temos um cisne. Jim Morrison idealizava, antes de morrer em 1971 em Paris, publicar os seus poemas. Os parceiros da banda realizaram, de algum modo, a sua vontade. O vídeo contempla três faixas, dispersas, do álbum An American Prayer: An American Prayer; Lament; e Bird of Prey.

Jim Morrison & The Doors. An American Prayer / Lament / Bird of Prey. An American Prayer. 1978.

Ainda não me conciliei com o álbum City Reading, dos Air. Não desgosto, mas gostar é outra coisa. Talvez, a exemplo de outros, daqui a trinta anos. Os poemas do álbum estão arrumados em três partes: Bird; La Puttana Di Closingtown: Caccia All’uomo. Segue um excerto: “Prologo Per la Puttana Di Closingtown”.

Air e Alessandro Baricco. Prologo Per la Puttana Di Closingtown. City Reading. 2003.

Estupidez global

Mapa da ecorregião amazônica definida pelo WWF. Imagem de satélite da NASA.

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez (Fernando Pessoa, Fragmentos de uma Autobiografia, Joinville . SC, Clube de Autores, 2017, p. 132).

O Facebook tem a gentileza de me recordar artigos antigos. Com o tempo, anúncios como o Life, da Sociedade de Amigos da Amazónia, tornam-se raros, tendem a sair de circulação, incluindo a Internet.

Segundo Carlo Cipolla, de um estúpido pode-se esperar tudo, até a adopção de comportamentos que claramente o prejudicam. O estúpido é, assim, imprevisível, o que o torna particularmente perigoso, para si e para os outros. Este anúncio mostra-nos que de normais e de estúpidos todos temos um pouco.

Anunciante: Sociedade de Amigos da Amazónia. Título: Life. Agência: Matosgrey. Direcção: Fernando Sanches. Brasil, Abril 2009.

Um bar do outro mundo

Lega double face mask , D.R.CONGO. Old collection – Catawiki.

No além, existe um bar frequentado por mortos célebres, entre os quais Shakespeare, John Lennon, Frida Kahlo, a Princesa Diana, Che Guevara e Steve Jobs. Numa espécie de sessão de grupo, cada cliente revela a causa da sua morte. Chega a vez de um jovem, que, embaraçado, confessa que morreu “texting”, a teclar no telemóvel. “Estúpido”! Exclamam, em conjunto, os outros clientes. O vício é tão terrível que o jovem, mesmo morto, continua agarrado ao telemóvel. O anúncio The Afterlife Bar, da Transport Accident Comission, é criativo, consistente e incisivo. A realizadora tem 20 anos de idade.

Pelos vistos, o telemóvel nasceu com uma semente do mal. Socorre-nos o exorcismo mediático dos pecados e das ameaças que rondam os incautos. Mas o exorcismo coexiste com a celebração. O telemóvel é o maior maná, a maior pérola técnica, da história da humanidade. É acessível, mágico, adorado, disponível e fácil de consumir. Colmatou abismos, egoístas, lúdicos e comunicacionais, antes insuspeitos. Oferece-se, no entanto, como uma máscara bifacial: perfeito no geral, perigoso no particular; benéfico, por princípio, maléfico, por consequência.

Oportuno, o anúncio Netflix, da Bouygues Telecom, aponta soluções para contrariar o vício do telemóvel. A bateria e a televisão, por exemplo. O vídeo, que dura 90 segundos, assume-se como um jogo: contém 20 referências as séries Netflix. Enfim, existem pormenores que sensibilizam: Bella Ciao, uma das canções mais emblemáticas da resistência italiana durante a Segunda Grande Guerra.

Marca: Transport Accident Commission Victoria. Título: The Afterlife Bar. Agência: Taboo. Direcção: Alyssa De Leo. Austrália, Agosto de 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Netflix. Agência: BETC Paris. Direcção: Adrien Armanet. França, Julho 2019.

Coroa de louros

Nike. Never stop winning. 2019

O futebol já não é o que era. Nunca foi! As mulheres jogam, treinam e sonham. No futebol, como no resto, aspiram ser as melhores.

Uma equipa feminina de futebol, a selecção americana, venceu o campeonato do mundo de futebol feminino de 2019. O sentido de oportunidade da Nike e a categoria da agência Wieden + Kennedy resultaram numa campanha de publicidade que alia visão, drama e emoção. Never stop winning estreou no dia 7 de Julho, dia da vitória da selecção americana.

Acrescento dois anúncios da Nike, do mesmo teor, publicados antes da edição do campeonato do mundo de futebol feminino (7 de Junho a 7 de Julho, em França): Dream with us (12 de Maio) e Dream further (1 de Junho). Estes hinos e chamamentos da Nike são excessivos, quase sagrados. Por feitio e por memória, dispenso as exaltações colectivas. Se visionar apenas um anúncio, Capta o essencial do dispositivo da campanha.

Marca: Nike. Título: Never stop winning. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, Julho 2019.
Marca: Nike. Título: Dream Further. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, Junho 2019.
Marca: Nike. Título: Dream with us. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, Maio 2019.

O egomundo e a pavimentação da vida

Figura 1. Lugar da Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues.

Este artigo é estúpido. Levanta problemas que não existem.

Acreditei inventar uma nova palavra, por sinal, óbvia: egomundo. Mas em Coimbra, uma empresa tem esse nome. Egomundo é o antípoda do mundo colectivo. Remete para a experiência, a memória e o sentido da vida de cada pessoa. É um cúmulo de subjectividade. Uma perspectiva subjectiva de um ponto de vista subjectivo. Nada de consensos, tribalismos ou projectos sociais. Sem retóricas religiosas, científicas e técnicas, o mundo gira em torno do egocentro.

Tenho-me deslocado com alguma frequência à minha terra. No limiar do tempo e do espaço, deixo os olhos e a memória pastar. Demando os sítios onde costumava jogar ao espeto e ao pião. Alcatrão, cimento ou empedrado. Em centenas de metros em redor, é materialmente impossível jogar ao espeto ou ao pião. Terra, só nos campos. Não sendo terra batida não dá para jogar. O cimento e o alcatrão conquistaram tudo. Mesmo nas povoações, a estrada não tem valetas. Não cresce uma única planta. Na Serra, local de convívio público da freguesia, a maré negra e cinza cobriu tudo, até trepou os degraus do cruzeiro. Estar sentado no passeio proporciona o conforto de uma lagartixa numa eira de basalto. O ar aquece de baixo para cima. Assim o impõem o trânsito e a velocidade. Não admira que as estradas se alarguem até ao último milímetro. Os carros também se alongam: um Volkswagen carocha media 1.54 metros de largura; o Golf mede 1.799. Dois Golf que se cruzam, carecem de mais 1.03 metros de estrada. Na minha freguesia, tudo quanto é estrada, caminho ou largo foi asfaltado ou cimentado. Na minha infância, apenas a estrada nacional era asfaltada.

Figura 2. Terreiro. Prado. Melgaço. Fotografia de Álvaro Domingues. Público, 28/07/2019: “Terreiro”.

O Terreiro era o “campo de futebol” mais à mão. Ficava no caminho da escola e da catequese. Térreo, era um regalo para o jogo da bola. O cruzeiro delimitava uma baliza e uma pedra a par de um pilar das escadas da Igreja, outra. Primeiro, empedraram-no, para mal dos nossos joelhos e cotovelos. Acabaram por o asfaltar e cimentar nas bordas. Porquê tamanha intemperança pavimentar? À velocidade e à circulação, temos que acrescentar um outro cavaleiro do asfalto: o estacionamento. A terceira aresta do triângulo rodoviário: velocidade, circulação e estacionamento. Asfaltou-se todo o terreiro para facilitar o estacionamento, o repouso do motor. O asfalto e o cimento são materiais invasivos. Alastram e grassam. Acontece-lhes engordar. Na minha casa de infância, para entrar na loja convinha subir um degrau; agora, convém descer.

O alcatrão tem muitas virtudes. Quando o sol queimava, fazia esferas com o alcatrão derretido. Não davam, porém, para “jogar aos berlindes”. O pavimento da estrada era perfeito para andar de patins. Com pouca gravilha, areia e cascalho, ficava polido, quase sem atrito. Os dois quilómetros sempre a descer até às termas do Peso eram uma tentação. Dei quedas dignas do cinema mudo.

A minha freguesia, para além de terra, também tem água. Muita água, a condizer com o nome: Prado. Em criança, via-se e ouvia-se cantar a água por todo lado. Agora, nem se vê, nem se ouve; adivinha-se. Dava jeito uma vara de detecção de água subterrânea. Tudo quanto é rego ou poço foi encanado ou tapado, sobretudo, com cimento. A minha casa de infância era contornada por cursos de água em três frentes. A cerca de 70 metros, a levada proveniente do ribeiro dividia-se em três regos: um prosseguia para o lugar da Corredoura; outro passava por debaixo do caminho e, após uma pequena cascata, por baixo da estrada rumo à Serra; o terceiro mergulhava uns quatro metros num “tubo” de granito e reemergia do outro lado da estrada a uma altura de quatro metros noutro “tubo” de granito rumo à Quinta dos Governadores. Tudo foi encanado e tapado, salvo uma dezena de metros destinados a uma espécie de arremedo de lavadouro público. Já não se enxergam nem girinos cabeçudos, nem “alfaiates”. Nestes cursos de água, refresquei os pés no Verão, pilotei barcos, uns de casca de pinheiro, outros de madeira, com mastros de cana e velas de plástico. Fitava, quase hipnotizado, a água corrente à cata de uma truta. Tudo tapado! Até a “arquitectura granítica dos vasos comunicantes” foi cimentada. Para quê? Para alargar a curva. A uns sete metros da entrada da casa, do outro lado da estrada, na base de um muro alto de saibro, uma mina de água, cuja entrada escondia cristais de quartzo ferruginoso. Ali, colocávamos a refrescar as garrafas de bebidas. Munidos com uma lanterna, arriscávamos explorar a mina. Às vezes, éramos obrigados a parar: o tecto da mina tinha desabado. Nestas circunstâncias, subia ao campo que se situava por cima da mina. Lá estava um buraco enorme provocado por um aluimento de terras. Como medida segurança, a entrada da mina foi cimentada.

Figura 3. Casa de infância. Serra. Prado. Melgaço. Fotografia de Gonçalo Dias. Público 28/07/2019: Micro-retrato de um país “corrente de ar” pela vida de duas freguesias.

A terra e a água, esta terra e esta água, fazem parte da nossa memória e identidade. Por que motivo se enterra a água e tapa a terra? Não é, decerto, para evitar acidentes, a exemplo do sacristão que, durante o compasso, caiu com a cruz num curso de água que atravessava o caminho ou da mulher que se afogou num rego. É verdade que se ganham centímetros nas estradas e, porventura, eficácia na distribuição da água.

A expansão do asfalto aumentou a velocidade e reforçou a segurança dos automóveis. E a insegurança dos peões. Sem passeios, existem bermas onde ninguém ousa andar. Na curva da Serra, uma motorizada partiu uma perna a uma pessoa e um idoso foi atropelado mortalmente por um automóvel. Ambos caminhavam pela berma. Um motão entrou pela loja dentro!

Acessibilidade, velocidade, expansão, segurança e eficácia são trunfos do baralho da modernidade materialista (o presente inclinado para o futuro). Mas há mais. Desviando o olhar do espaço público para o espaço privado, constata-se que, junto às moradias, quase todo o solo está pavimentado. Com pedra, mármore, mosaicos, cimento e outros pavimentos. Nada de lama, poças, erva ou bicharada. Tudo asseado e de fácil manutenção. Alguém imagina quanto custa cuidar de um relvado ou de um canteiro de flores? Dar vida à vida dá trabalho. Acrescentam-se, assim, mais duas vantagens a favor da pavimentação: a higiene e a facilidade de manutenção.

A pavimentação da terra e a canalização da água conheceram um franco crescimento nas últimas décadas nos espaços públicos e privados. Autoestradas, caminhos, praças, recintos, nada escapou. Há quem diga que é uma das conquistas de Abril! Seria interessante ter acesso a fotografias de satélite com a evolução da pavimentação em Portugal.

Figura 4. Árvores crescem na pedra. Moledo do Minho. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Pavimenta-se quase tudo. Cobre-se a terra, a pedra e a água. Por enquanto, não se colocam tectos no céu, apenas fios de electricidade onde se enredam os papagaios de papel (ver figura 2). Esta pavimentação do mundo impede a vida, apesar da ilusão do crescimento de árvores na pedra, no cimento ou do alcatrão (ver figura 4).

Esta é a nossa ecologia. Embalsamadores da natureza envolvente, que autoridade nos resta para protestar contra deflorestação da Amazónia, o aquecimento global ou a plastificação do oceano Pacífico?

A pretexto do Terreiro, em Prado, Álvaro Domingues escreve:

“Contrariamente à lentidão do tempo longo no passado pré-moderno, os localismos só sobrevivem na velocidade rápida exigida pela sua franca exposição a tudo o que vindo de onde vier, mexe e circula” (Terreiro, Público, 28 de Julho de 2019: https://www.publico.pt/2019/07/28/opiniao/ensaio/terreiro-1881329).

Prado está inclinado para a frente. É um cata-vento de oportunidades que cavalga na crista dos limites.

E o meu egomundo, cúmulo de subjectividade, como anda? Introspectivo, nostálgico e birrento. Como o Angelus Novus (1920), de Paul Klee, avança às arrecuas com os olhos postos nas ruínas. Anda com vontade de não chegar. “Y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se há de volver a pisar (…) Todo passa y todo queda, pero lo nuestro es passar, passar haciendo caminos, / caminos sobre la mar” (Antonio Machado, Proverbios y cantares, XXIX / XLIV, Campos de Castilla, 1912).

O anúncio Release Me, da Saab, também é um poema: de vitalidade e liberdade. Podia tê-lo colocado no início do artigo.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007.

Antonio Machado. Proverbios y cantares.
XXIX
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
XLIV
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar

Moledo psicadélico

Está a decorrer em Moledo do Minho o festival Sonic Blast, dedicado ao rock psicadélico e ao “stoner rock”. Ontem choveu. As notas chegavam molhadas. Gosto dos nomes das bandas: Graveyard; Earthless; Lucifer. Até às tantas da madrugada, não consigo ouvir outra música. Os Camel são uma banda que a tribo tem em boa conta. Seguem duas músicas: Rhayader goes to town, do álbum The Snow Goose (1975), o maior sucesso da banda, e Mystic Queen, do primeiro álbum (Camel, 1973).

Camel. Rhayader goes to town. The Snow Goose. 1975.
Camel. Mystic Queen. Camel. 1973.

A rosa do pensamento

Ten Herbs. The Leap. Julho 2019.

O anúncio The Leap, da libanesa Ten Herbs, aborda um tema delicado. Assumimos o corpo, mas não todo. Persistem partes e funções que só são dizíveis graças a metáforas, sublimações e eufemismos. É o caso do aparelho digestivo. Se a alimentação se descobriu arte, a arte de comer, defecar releva de um vanguardismo deslocado, a arte de chocar. Se os anúncios da Benetton se celebrizaram por dizer o chique com choque, os anúncios, como o The Leap, dizem o choque com uma linguagem chique.

Marca: Ten Herbs. Título: The Leap. Agência: JWT (Beyrouth). Direcção: Mohamed El Zayat. Líbano, Julho 2019.

The Leap lembra os duelos finais dos filmes de Sergio Leone: Por um punhado de dólares (1964) e Era uma vez no Oeste (1969). Cada personagem espera, sem sair da sua posição, o desenlace. O alívio ou a morte.

Gosto que uma realidade me lembre outra. A propósito e a despropósito. Sem genealogia, algoritmo, função, ética ou poética. A lembrança, a associação de ideias, é um pouco como a rosa de Angelus Silesius: “A rosa é sem por quê. Floresce porque floresce”.

The final duel of Once upon a time in the West by Sergio Leone (soundtrack by Ennio Morricone). 1969.
The Good The Bad and the Ugly Finale, by Sergio Leone (soundtrack by Ennio Morricone). 1964.

Amor em tempo de feira

Pieter Brueghel the Younger – Return from the Fair. 1620-1630.

“Scarborough Fair” é uma balada britânica de origem medieval em que uma pessoa pede à pessoa amada proezas impossíveis. Um tema recorrente no universo dos contos. Scarborough é uma cidade que tinha, na Idade Média, uma das feiras mais importantes de Inglaterra. Segue a balada em duas versões: instrumental clássica, interpretada por Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra); e canção pop, interpretada por Simon e Garfunkel. Pode encontrar a letra e a tradução da balada neste endereço: https://pt.wikipedia.org/wiki/Scarborough_Fair .

Scarborough Fair. Interpretes: Anna Comellas (violoncelo) e Rosalind Beall (guitarra). Arranjo de Jerry Schnider.
Scarborough Fair. Simon & Garfunkel. Álbum: Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966). Ao vivo em Central Park. 1981.