As idades da vida

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1. Bartolomeus Anglicus. As seis idades do homem. Livre des propriétés des choses. 1480.

Para Pierre Bourdieu, “a juventude é apenas uma palavra”, ou seja, uma construção social arbitrária e, por acréscimo, polémica (Questions de Sociologie, Editions de Minuit, 1984). Anos antes, Philippe Ariès surpreendia os leitores ao afirmar que no Antigo Regime a infância e a juventude eram categorias praticamente inexistentes:

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2. Bartolomeus Anglicus. As três idades da vida. Le livre des propriétés des choses. 1480.

A sociedade do Antigo Regime “via mal a criança, e pior ainda o adolescente. A duração da infância era reduzida a seu período mais frágil, enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada aos adultos, e partilhava de seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antes da Idade Média e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas de hoje” (Historia Social da Criança e da Família, Rio de Janeiro, Editora Ganabara, 1978, 1ª ed. 1973, p.10).

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3. Bartolomeus Anglicus. As quatro idades de um gentil homem. Le livre des propriétés des choses. 1480.

Muitos anos antes, no início do século XX, Vilfredo Pareto pergunta quando começa a riqueza e quando chega a velhice. Ou seja, a partir de que valor uma pessoa se torna rica e a partir de que idade uma pessoa passa a velho? A Idade Média corrobora esta relatividade. A classificação das fases da vida é tudo menos consensual. Multiplicam-se as propostas. Consoante os autores e as abordagens, assim as idades da vida são três, quatro, sete ou, ainda, cinco ou seis. Recorro a uma longa passagem do livro Uma História do Corpo na Idade Média, de Jacques Le Goff e Nicolas Truong (Lisboa, Teorema, 2005, pp. 79-81):

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4. Hans Baldung. As idades e a morte, c. 1540.

“As idades da vida na Idade Média relevam de um verdadeiro saber herdado da Antiguidade que o cristianismo irá interpretar num sentido muito mais escatológico, orientando a vida do homem para a história da salvação. Como salienta Agostino Paravicini Bagliani, “a cultura medieval acolheu todos os grandes esquemas das idades da vida que tinham sido desenvolvidos pelos antigos, nomeadamente os que se baseavam nos números 3, 4 e 7”.

O número 3 é o proposto por Aristóteles que, na Retórica, considera que a vida é composta por três fases: crescimento, estabilidade e declínio. Um arco biológico em que a idade adulta é o topo: “Todas as qualidades úteis que a juventude e a velhice tem separadamente, a maturidade possui-as juntas; mas em relação aos excessos e defeitos fica-se pela meia e conveniente medida” (…)

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5. Hans Baldung (1485-1545). Três idades da mulher e a morte. 1510.

O número 4, o mais importante na Idade Média, provém do filósofo grego Pitágoras que, segundo Diógenes Laertes, “divide a vida do homem em quatro partes, concedendo a cada parte vinte anos”. A estes quatro segmentos correspondem os quatro humores descritos na medicina de Hipócrates: a criança é húmida e quente, o jovem quente e seco, o homem adulto seco e frio, o velho é frio e húmido (…) [Esta repartição da vida em quatro fases não era apenas biológica, mas cósmica. Correspondia aos quatro elementos e às quatro estações, sendo o homem encarado como um microcosmos.] (…)

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6. Hans Baldung. As sete idades da mulher. Início do séc. XVI.

O número 7 é igualmente herança grega, retomada por Isidoro de Sevilha, que distingue o período que vai do nascimento aos sete anos (infantia), dos sete aos catorze anos (pueritia), dos catorze aos vinte e oito anos (adulescentia), dos vinte oito aos cinquenta anos (juventus), dos cinquenta aos sessenta anos (gravitas), depois dos sessenta (senectus) e para além disso com a palavra senium que corresponde à senilidade.

Quanto às cinco e seis idades da vida, são um legado dos Padres da Igreja. A Idade Média inventa apenas as doze idades da vida (…) A Idade Média conserva portanto o biologismo dos Antigos, mas ultrapassa-o ou atenua-o através de uma releitura simbólica. Os cristãos já não falam do declínio, mas de jornada contínua para o reino de Deus. Segundo Agostinho, o velho é mesmo considerado um novo homem que se prepara para a vida eterna.”

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7. Hans Baldung (1485-1545). A marcha da morte / as idades da mulher.

Os esquemas medievais relativos às idades da vida não eram encarados de um modo rígido. Um mesmo artista podia contemplar na sua obra esquemas distintos. Hans Baldung tem quadros com três (Figuras 4 e 5), cinco (Figura 7) e sete (Figura 6) idades da vida; por seu turno, Bartolomeu Anglicus fez gravuras com três (Figura 2), quatro (Figura 3), seis (Figura 1) e sete (Figura 11) idades da vida.

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8. As idades do homem. Impresso por De Vosthem. Finais do séc. XVI.

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9. Anónimo. O percurso de vida do homem nas suas diferentes idades. Séc. XIX.

A propensão medieval para não encarar a velhice como um declínio carece ponderação. A maioria das representações das idades da vida adopta a figura do “arco biológico”: ascensão até à idade adulta, descida, em seguida, até à morte. Discreto, quando não ausente, durante a Idade Média, o arco biológico será mais realçado nos séculos seguintes (Figuras 8 e 9). Fazendo um desvio pela contemporaneidade, o anúncio Champanhe, da Xbox, brinda-nos com uma viagem expedita de um ser humano desde o ventre materno até à sepultura (ver vídeo).

10. Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. UK, 2002.

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11. Bartolomeus Anglicus. As sete idades do homem. 1510.

Algumas imagens medievais incluem a morte ou, como preferem alguns historiadores, o morto, enquanto corpo em decomposição. A imagem do cadáver em putrefacção é característica da Idade Média (e dos nossos tempos repletos de mortos vivos). Retomaremos o assunto em artigo próprio.

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12. Giorgione. As três idades da vida. 1501-1502.

Em jeito de apêndice. As imagens das idades da vida não se confinaram à Idade Média. É um tema de todos os tempos. A título de exemplo, seguem dois quadros de Gustav Klimt.

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Gustav Klimt. As três idades da Mulher. 1950.

1 Ticket für 2 Museen: „Wien 1900“-Highlights in MAK und LEOPOLD MUSEUM

Gustav Klimt. A morte e a vida. 1915.

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