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Ressurreição digital

Joaquin Oliver, de origem venezuelana, foi uma das dezassete vítimas de um tiroteio indiscriminado numa escola de Parkland, na Florida, em 2018 Tinha 17 anos de idade. A campanha The Unfinished Votes é apoiada pela Change the Ref, instituição que “visa formar futuros líderes, facultando aos jovens as ferramentas de que necessitam para introduzir mudanças em questões críticas que afetam a nação, por meio de educação, conversação e ativismo”. No anúncio, aparecem os pais de Joaquin Oliver, bem como o próprio Joaquin, regressado à vida por artes digitais. Criticam a política relativa às armas e apelam ao voto.

Estranho, muito estranho. Nenhum anúncio me provocou tamanha estranheza.

Anunciante: Change the Ref. Título: Unfinished Votes. Agência: McCann Health NY / Lightfarm Studios. Estados-Unidos, Outubro 2020.

O luxo do subterrâneo

Janis Joplin.

Uma realidade puxa outra, que entra sem pedir licença. A associação espontânea é um dos processos mentais que menos controlamos. Ana Popovic lembrou-me Janis Joplin. Por quê? À partida, não sei. Talvez o blues feminino. Talvez a raiva de cantar. Não sei! Lembrou, e isso é que interessa. Não se trata de uma comparação. É uma centelha na bonança. Um relâmpago de sentido. Tudo me lembra alguma coisa. O luxo do subterrâneo.

Janis Joplin. Ball and Chain. Cheap Thrills. 1968. Ao vivo em Monterey (1968).

Ana Popovic

Ana Popovic.

De vez em quando, faz bem uma pessoa desviar-se. Para as margens do mainstream, dos estereótipos e do gosto sedentário. É reparador extraviar-se longe do centro. Ana Popovic nasceu em Belgrado, na Sérvia, fez carreira na Holanda e acabou por fixar residência nos Estados-Unidos. É vocalista e guitarrista, com muita garra. Segue a interpretação ao vivo de Blues for M.

Ana Popovic. Blues for M. Blind for Love. 2009. Ao vivo em Don Odells Legends studio.

Por outro lado

Red Hot Chili Peppers. Otherside. 1999.

Ando há cinco meses com uma espécie de rinite. As ideias não saem arejadas. De tromboflebite em tromboflebite, também não têm pernas para andar. Com as ideias entupidas e sentadas, pasta-se e pasma-se na memória. O vídeo musical Otherside, dos Red Hot Chili Peppers, é fantástico. Selecionei-o para projeção na exposição Vertigens do Barroco, que teve lugar em 2007 no Mosteiro de Tibães (ver https://tendimag.com/2015/06/10/vertigens-do-barroco/). O vídeo Otherside ultrapassa 500 milhões de visualizações na Internet! Não resisto a estender os outros lugares ao Break On Through (To The Other Side), dos The Doors.

Red Hot Chili Peppers. The Otherside. Californication, 1999.
The Doors. Break On Through (To The Other Side. The Doors. 1967.

Dividir o ecrã, aproximar os contrários

Nike. You can’t stop us. 2020.

John Ferreira, amigo de juventude, envia-me o anúncio You can’t stop us, da Nike (vídeo 1). Um split screen impecável, com um enorme sucesso. A marca Nike e a agência Wieden + kennedy costumam rondar a perfeição. Têm um quase nada que produz um não sei quê ofuscante. Proclama-se, por exemplo, que “o anúncio da Nike une os contrários”. Nos outros anúncios congéneres são os contrários que se unem? Lembro um anúncio muito expressivo que culmina com a interposição de um braço para defesa de uma bola. Está algures no Tendências do Imaginário, mas não o encontro. Em 2007, já se faziam anúncios com split screen. É o caso do anúncio francês Double Energie, da Total (vídeo 2). Noutro domínio, o vídeo musical Go Up, de Cassius, com direcção de Alex Courtès, revela-se, porventura, mais ousado e mais criativo (vídeo 3). Nenhum destes vídeos atingirá os 58 milhões de visualizações entretanto ultrapassados pelo anúncio da Nike. Às vezes, parece que quando há fogo-de-artifício hegemónico, o resto do mundo pode apagar-se.

Marca: Nike. Título: You can’t stop us. Agência: Wieden + Kennedy. Estados-Unidos, Setembro 2020.
Marca: Total. Título: Double énergie. França, 2007.
Cassius. Go up. Ft. Cat Power + Pharrell Williams. Directed by Alex Courtès. Production by DIVISION. 2017.

Sem salvação

Em tempo de epidemia, as empresas sofrem. O anúncio Survive, do facebook, é um requiem ao Coogan’s, pub irlandês da Broadway (ver acima carta de despedida). Um pub acolhedor, que lembra o bar da série Cheers (ver vídeo 2). O facebook encara a falência do Coogan’s como uma perda coletiva, expressa num memorial de três minutos e meio. O facebook parece estar de luto.

Marca: Facebook. Título: Survive – Coogan’s. Agência: Droga 5, New York. Direção: Miles Jay. Estados-Unidos, Setembro 2020.
Intro song to the tv show Cheers ( 1983-1992); Where everybody knows your name, by Gary Portnoy (1982).

Celebração

Tik Tok. Celebrating you.

Euforia, disforia; disforia, euforia. A sociedade parece bipolar (temerosa, temerária; temerária, temerosa). Mas bipolares são as pessoas.

O anúncio Celebrating You é sentimental: amai-vos uns aos outros, e às novas tecnologias! O anúncio é “um hino à marca”, um hino “politicamente correto”. Convoca as vedetas do aplicativo TiK Tok, mais as figuras do friso ideológico hegemónico atual (em termos de etnia, género, geração, religião, cultura). Tudo muito conciso. Uma espécie de compressão do amor. “Congratulations and jubilations / I want the world to know I’m happy as can be” (Cliff Richards, Congratulations, 1968).

Marca: Tik Tok. Título: Celebrating You. Agência: Known. Estados-Unidos, Agosto 2020.
Cliff Richards, Congratulations (Eurovision Song Contest 1968).

Wilco, de Chicago

Wilco é um grupo rock alternativo de Chicago. Ganhou dois Grammy Awards pelo álbum A Ghost is Born (1994). Lembram os Spain (ver https://tendimag.com/2012/02/05/spain-im-still-free/). Ouvi Wilco todo o dia. Duvido, porém, que a selecção das canções seja a melhor.

Wilco. Before us. Ode to joy. 2019.
Wilco. How to fight loneliness. Summerteeth. 1999.
Wilco – At Least That’s What You Said. A ghost is born. 1994. Ao vivo em Barcelona em 2014.

Pelo lado de fora

Pintura japonesa

Guardo as músicas de que gosto numa pasta chamada “À espera”. Algumas esperam décadas. É o caso da canção Walk on the Wild Side, de Lou Reed, que dedico ao meu rapaz mais novo.

Lou Reed. Walk on the Wild Side. Transformer. 1972.

Regressão

Chairs. Photography. Black & White.

Olho para um lado, cadeiras vazias. Para o outro, mais cadeiras vazias. As cadeiras em que gostava de me sentar ao colo.

Don McLean. Empty chairs. American Pie. 1971.
Léo Ferré. Avec le temps. Avec le Temps. 1972.