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Amor em tempo de confinamento

Mordillo

Canta o amor e namora a felicidade! A música é performativa.

Marca AT&T. Título: A Little Love. Agência: BBDO LA. Direção: Peter Thwaites. USA, janeiro 2021.
James Brown. I Got You (I Feel Good). 1965.

Falar com as imagens

Busto da República

Há católicos que falam com as imagens dos santos. Mais, afigura-se-lhes que estes lhes respondem. Em casa, tenho um busto da República original. Herança de meu avô. Acontece-me falar com ela. Às vezes, tento dialogar. Perdeu o cocuruto. Não tem vida fácil. Gostava muito de lhe dedicar uma canção. Mas não sei cantar. Peço a outros. Por exemplo aos The Who.

The Who. I’am Free. Tommy. 1969. Ao vivo em Kilburn, em 1977.

As imagens interpelam-nos, o busto da República interpela-nos. Num século, perdeu o cocuruto. É vulnerável. A república é vulnerável.

Washington. 06.01.2021.

Agarrar o vento e sentar-se ao sol

Giulio Parigi. O espelho de Arquimedes. 1599-1600.

Cativar o sol e o vento é arte antiga. Arquimedes engenhou, durante o cerco romano a Siracusa, um espelho côncavo cujos raios solares incendiaram os barcos inimigos. O vento soprava nas velas romanas e o sol grego queimava os cascos.

O anúncio The Collectors, da Energy Upgrade California, propõe múltiplas formas, efetivas ou poéticas, de capturar o vento e o sol. Brilhante e original. Belas imagens, bom ritmo, boa música. Um oásis de prazer nas dunas da Internet! Sejam louvadas as energias eólica e solar!

Marca: Energy Update California. Título: The Collectors. Produção: The Corner Shop. Direção: Peter Thwaites. Estados-Unidos, novembro 2020.

As moscas e os pescoços de borracha

Geoge Grosz. O Eclipse do Sol. 1926.

Em convalescença, rendo-me ao apelo da televisão. Uma massagem à cabeça! Afigura-se-me que embarco num país de moscas, moscas que zumbem, pousam e remexem nos “assuntos”. Somos um país de moscas? Quero acreditar que não. Por um lado, Portugal não cabe no ecrã. Há muito País para além do ecrã. Por outro lado, a minha medicação pode provocar alucinações. O ecrã das moscas é, provavelmente, um delírio pessoal. Acresce que a leitura dos media requer literacia. No que respeita à televisão, faltam-me as skills necessárias. Sou incompetente em moscas e em televisão. Os pescoços de borracha (rubberneckers) são moscas especializadas em mapear a informação. Seguem duas músicas: Rubberneckin’, de Elvis Presley; e Rubbernecker, de Murray Head. Duas relíquias. As cirurgias têm efeitos insólitos. Uns ficam doridos, outros combalidos, outros mimados, eu torno-me bilioso. Uma mosca execrável que não despega do ecrã. Dêem-me um desconto.

Elvis Presley – Rubberneckin’ – From “Change Of Habit” – 1969.
Murray Head. Rubbernecker. Between Us. 1979.

Um milhão de visualizações

As recordações são as nossas forças (Victor Hugo).

René Magritte. Golconda. 1953.

Existem números e números. Por exemplo, os números redondos, especialmente aqueles que coincidem com o acréscimo de um dígito: uma dezena, uma centena, um milhar, um milhão… Mas existem outros. Alguns parecem deter uma espécie de hegemonia simbólica. Por exemplo, o número três. Afirma-se decisivo na visão tripartida do mundo dos indo-europeus (Georges Dumézil. 1968. Mythe et épopée – L’Idéologie des trois fonctions dans les épopées des peuples Indo-européens. Paris: Gallimard ). Georg Simmel sustenta que a tríade representa, mais do que a díade,  a equação efetiva da sociedade (Soziologie, 1908). Destaco a Santíssima Trindade, as três ordens feudais, os três poderes da organização política, os três porquinhos, os três mosqueteiros que, afinal, eram quatro… Enfim, a conta que Deus fez.

Mas regressemos aos números redondos. O Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar um milhão de visualizações. A comemoração é arbitrária. Certo é que esperei uma década por este momento. Vou colocar os Queen, abrir uma cerveja e acender um cigarro. E agradecer as visitas.

Tabela 1. Visualizações do Tendências do Imaginário por país. 07.12.2020.

Um milhão (1 000 028) de visualizações; 331 670 visitas. Três visualizações por visita. Cinco países concentram mais de quatro quintos (83%) das visualizações: Brasil, 40%; Portugal, 24%; Estados-Unidos, 8%; Espanha, 7%; e França, 4% (ver Tabela 1). Mas a componente mais excessiva do Tendências do Imaginário reside nos artigos: 3 267.  Quase um artigo por dia (0.95). No topo das visualizações, destacam-se, curiosamente, os mais extensos e densos, porventura, os mais originais (ver tabela 2).

Tabela 2.Artigos do Tendências do Imaginário mais visualizados.07.12.2020.

O que começou como capricho transformou-se num vício. Nos últimos dez anos, artigo a artigo, o Tendências do Imaginário tornou-se o blogue do meu envelhecimento. O inverno do meu ensimesmamento.

Escrever no Tendências do Imaginário é uma experiência estranha, senão perversa: o autor escreve para centenas de pessoas que, literalmente, desconhece. Uma massa incógnita. A tentação é de o escritor e o leitor se confundirem, com a mediação numérica e abstrata do “público”. Um excesso de solidão e de reflexividade. Um excesso de ilusão. Eremitério digital.

Podia escolher um anúncio, um vídeo ou uma imagem marcante do Tendências do Imaginário para assinalar o momento. Interessa, porém, prosseguir caminho, embora com os olhos no retrovisor. Acender velas na memória. A vela de hoje é Judy Collins. Duas canções: Send in the clowns e, com Leonard Cohen, Suzanne. Nem tudo são rosas: o pai de Judy Collins era cego e o filho único suicidou-se. Acendo velas na memória, com os olhos cansados, cansados do fogo-de-artifício pós-moderno. Vou festejar! Com o rato, o teclado e o caixote do lixo. Uma orgia biomecanóide.

Judy Collins. Send in the Clowns. Judith. 1975. Ao vivo em 1976.
Judy Collins & Leonard Cohen. Suzanne. Ao vivo em 1976.

Dinossauros sem cauda

J.J. Cale. Naturally. 1972

J.J. Cale, falecido em 2013, é um compositor, vocalista e guitarrista norte-americano cuja carreira começou em 1958. O primeiro álbum, A Trip Down The Sunset Strip, foi lançado em 1966. Pioneiro do Tulsa Sound, J.J. Cale é um dinossauro. Um dinossauro cuja cauda ninguém enxerga. Algumas das suas músicas brilharam nos covers de Eric Clapton (Cocaine ou After midnight) ou dos Lynyrd Skynyrd (Call me the breeze ou I got the same old blues). A Cocaine original não desmerce a reinterpretação do Eric Clapton. Assim com existem dinossauros com e sem cauda, também existem dinossauros ora com amplificadores, ora sem amplificadores. Comprova-o uma pesquisa na Internet: uns têm links, vídeos e alta resolução, outros originalidade e inspiração. O Tendências do Imaginário já contempla três músicas de J.J. Cale: Cocaine (https://tendimag.com/2014/01/12/saudades-caseiras/), Call me the breeze e Magnolia (https://tendimag.com/2015/12/19/a-sanita-e-a-cocaina/). Acrescento Crying e After midnight (ao vivo com Eric Clapton).

J.J. Cale. Crying. Okie. 1974.
J.J. Cale e Eric Clapton. After Midnigh. Naturally. 1972 . Live at Crossroads Guitar Festival, Dallas, TX, 2004.

Descubra as diferenças

Cartoon Illustration of Spot the Differences Educational Activity Game for Children with Insects Animal Characters Group

O mundo e o seu mistério nunca se refazem, não existe modelo que baste copiar (René Magritte).

Saiu um anúncio com a assinatura de Dan Brown: No Less Lethal, da Rubber Bullets. Balas perfuram e destroem vários objetos. Praticamente o mesmo perfil que um anúncio de 2007: Stop the bullet Kill the gun, da Choice FM. Descubra as diferenças.

Marca: Rubber Bullets. Título: No Less Lethal. Agência: Austin, Wunderman Thompson. Direcção: Dan Brown. Estados-Unidos, Novembro 2020.
Marca: Choice FM. Título: Stop the bullet Kill the gun. Agência: Amv BBDO London. Direção: Malcolm Venville, Sean de Sparengo. UK, 2007.

Deus é um distraído

Deus é um distraído. Não sei para onde estava a olhar quando me criou.

Cristo Pantocrator. Cúpula da Igreja de Dormition. Daphni. Grécia. 1080-1100.

O anúncio You love Black culture, but do you love me, da Apple’s Beats by Dre, não é um anúncio qualquer. Gravita em torno de um vício racista: gosta-se da cultura negra, mas não se gosta dos negros. O que se aplica a outras etnias e culturas. Várias personalidades negras dão o corpo e a voz a este refrão. Um anúncio com impacto.

Marca: Apple’s Beats by Dre. Título: You love Black culture, but do you love me. Agência:
Translation. Direcção: Melina Matsoukas. Estados-Unidos, Novembro 2020.
Nina Simone. Don’t let me be misunderstood. Broadway – Blues – Ballads. 1964.

Com o coração

Princepezinho.

Gosto da Lizz Wright, em particular do álbum The Orchard (2008).Um dos álbuns “recentes” que mais me cativou. Interpretações ao vivo impecáveis. O Tendências do Imaginário já contempla duas canções, por sinal, as mais populares, Coming Home e I Idolize You (https://tendimag.com/2016/08/16/greve-da-escrita/). Seguem mais duas: Speak Your Heart e Hit The Ground.

Lizz Wright. Speak Your Heart. The Orchard. 2008.
Lizz Wright. Hit The Ground. The Orchard. 2008.

Sem máscara

Máscara Reutilizável personalizada.

No meu tempo de criança, os livros eram raros. Circulavam de casa em casa. Os crimes do Máscara Negra era um livro, em vários volumes, de grande sucesso (Richmont, Oscar. 1926. Lisboa: Typ. Henrique Torres). Trazia a aldeia aterrorizada. Era costume ler-se pela noite dentro. Uma amiga da família vivia numa casa em que as escadas do interior tinham um alçapão entre o primeiro e o segundo piso. A leitura dos crimes do Máscara Negra assustou-a de tal modo que, em fuga, deu com a cabeça no alçapão.

O anúncio norte-americano You’re Freaking us out, da One Medical, é uma paródia dos filmes de terror. A ameaça não é, agora, o Máscara Negra mas a Desmascarada.

Marca: One Medical. Título: You’re Freaking us out. Agência: Goodby Silverstein & Partners and barrettSF. Direcção: Jeff goodby & jamie Barrett. Estados-Unidos, Outubro 2020.