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No limite: The Kills I

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“A morte não é acontecimento da vida. Não se vive a morte. / Se por eternidade não se entender a duração infinita do tempo mas a atemporalidade, vive eternamente quem vive no presente. / Nossa vida está privada de fim como nosso campo visual, de limite” (Ludwig Wittgenstein. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p. 127).

Mudar de música ajuda a mudar de atitude. Tive São João em casa. Quatro em cada cinco jovens admitiram não ter ouvido falar dos The Kills. Este e o próximo posts ser-lhes-ão dedicados. Seguem, por enquanto, duas versões mais despojadas e mais raras, com menos punch e batida do que o duo nos habituou.

The Kills. The Last Goodbye. Blood Pressures. 2011. Live David Letterman chat show, 2012.
The Kills. Wait. Keep on Your Mean Side. 2003. ‘Echo Home – Non-Electric EP’ released 2017.

E a vida continua

Gustav Klimt. Hope, II. 1907-1908.

Ainda não consigo dançar estas músicas, mas falta pouco. Entretanto, dá para revigorar. Bom ano! Grandes voos e boas aterragens.

Pavlov’s Dog. Song Dance. Pampered Menial. 1975. Ao vivo: House Broken, 2015.
Focus. Hocus Pocus. Moving Waves. Ao vivo: NBC´s Midnight Special, 1973.
Creedence Clearwater Revival. I Heard It Through The Grapevine. Cosmo’s Factory. 1970. Ao vivo.
Armageddon. Buzzard. Armageddon. 1975.

Um meio entre nada e tudo

Um anúncio magnífico, original na forma e no conteúdo, promovido por uma empresa francesa de navios de cruzeiro.

Anunciante: PONANT. Título: The North Pole, The South Pole, And You. Agência: Fred & Farid Los Angeles. Direção: ACCIDENT. Estados-Unidos, Novembro 2021.

Que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada: um meio entre nada e tudo. Infinitamente afastado de compreender os extremos, o fim das coisas e o seu princípio estão para ele invencivelmente ocultos num segredo impenetrável; igualmente incapaz de ver o nada de onde foi tirado e o infinito que o absorve (Pascal, Pensamentos).

“Não sei quem me pôs no mundo nem o que é o mundo, nem mesmo o que sou. Estou numa ignorância terrível de todas as coisas. Não sei o que é o meu corpo, nem o que são os meus sentidos, nem o que é a minha alma, e até esta parte do meu ser que pensa o que eu digo, refletindo sobre tudo e sobre si própria, não se conhece melhor do que o resto. Vejo-me encerrado nestes medonhos espaços do universo e me sinto ligado a um canto da vasta extensão, sem saber porque fui colocado aqui e não em outra parte, nem porque o pouco tempo que me é dado para viver me foi conferido neste período de preferência a outro de toda a eternidade que me precedeu e de toda a que me segue.
“Só vejo o infinito em toda parte, encerrando-me como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante que não volta.
“Tudo o que sei é que devo morrer breve. O que, porém, mais ignoro é essa morte que não posso evitar.
“Assim como não sei de onde venho, também não sei para onde vou Sei, apenas, que, ao sair deste mundo, cairei para sempre no nada ou nas mãos de um Deus irritado, sem saber em qual dessas duas situações deverei ficar eternamente. Eis a minha condição, cheia de miséria, de fraqueza, de obscuridade (Blaise Pascal, Pensamentos).

Ryuichi Sakamoto

Não é quando temos força que precisamos ser fortes.

Ryuichi Sakamoto é um músico, compositor, produtor e ator japonês radicado em Tóquio e em Nova Iorque. Colaborou com Rodrigo Leão.

Ryuichi Sakamoto. Put your hands up. Ryuichi Sakamoto: Playing The Piano 2009 Japan.

Ryuichi Sakamoto. energy flow. BTTB 20th Anniversary release. 1999.

Rodrigo Leão. Rosa. Cinema. 2006. Com Rosa Passos e Ryuichi Sakamoto.

Calexico e Gisela João

Gisela João.

Nas horas perdidas, costumo pesquisar publicações recentes de músicos de que perdi o rasto. Chegou a vez dos Calexico, uma banda do sudoeste americano caracterizada por uma postura de fronteira. Cruzam géneros, culturas, línguas e intérpretes. Num álbum recente, Seasonal Shift (2020), convocam o “fado”, com a participação Gisela João (Barcelos):

  1. “Tanta Tristeza” (feat. Gisela João)
    At the end of every year we tend to look back at what we’ve done or where we’ve gone. There is a lot of reflecting and a lot of celebrating, too. But it’s in that reflecting and remembering that matches beautifully with the winter layers we burrow ourselves in. Musically I had no idea when I mapped out these chords on my piano that instead I would be recording them on my nylon guitar that goes on every tour with me. On my guitar, whose nickname is “Manny,” there is an image of Portuguese Fado singer Amália Rodrigues. She is my patron saint of the minor blues and the path that leads from my musical door to the heart of the world.
    I recorded this tune late at night, and while listening upon playback Sergio suggested I sing a few Spanish lines of his that dealt with saying goodbye to a friend who had tragically died. They became the chorus, but still the song had no verses and finally I asked our friend Raúl to help translate some verses into Portuguese and see if Gisela João would be willing to collaborate. When we heard her vocals come back and placed in with the song, I knew this was a full-circle kind of moment. The song came about in the most unusual way, and it showed me to remember to trust the process and not worry about anything else. Keep following the heart of the musical idea that is there in front of you (Joey Burns: https://floodmagazine.com/83244/calexico-seasonal-shift-track-by-track/).

Segue a canção “Tanta tristeza”, dos Calexico, com Gisela João. Acrescento Crystal Frontier (Hot Rail, 2000) na versão original e na versão acústica, por sinal, bastante diferentes.

Calexico (Feat Gisela João). Tanta Tristeza. Seasonal Shift. 2020.
Calexico. Crystal Frontier. Hot Rail. 2000. Versão original.
Calexico. Crystal Frontier. Hot Rail. 2000. Versão acústica.

Mãos de tesouras

Cadillac. ScissorHandsFree. 2021.

O anúncio Super Bowl ScissorHandsFree, da Cadillac, inspira-se, assumidamente, na figura do Eduardo Mãos de Tesoura, de Tim Burton (1990). O novo Mãos de Tesoura é, seja qual for o contexto, um desastre. Ressalve-se o All-Electric Cadillac LYRIQ, um automóvel sem mãos. Mais uma fábula.

Marca: Cadillac. Título: ScissorHandsFree. Agência: Leo Burnet Detroit. Direção: David Shane. USA, Fevereiro 2021.

O diabo apaixonado. A mulher e o diabo

Jacques Le Grant. – Le livre des bonnes moeurs. XVe siècle. Musée Condé de Chantilly.

No imaginário cristão, o diabo seduz, preferencialmente, a mulher. Tudo indica que está mais exposta à tentação demoníaca. O destino começa no início: foi Satanás, Arimane, sob a figura de serpente, quem tentou a primeira mulher e esta, o primeiro homem. O Martelo das Feiticeiras (Heinrich Kraemer & James Sprengerm, 2004, O Martelo das Feiticeirass, Rio de Janeiro, Editora Rosa dos Ventos, 1ª edição 1486) assegura existir um “maior número de mulheres supersticiosas do que de homens” (p. 114). “Por serem mais fracas na mente e no corpo, não surpreende que se entreguem com mais frequência aos atos de bruxaria” (p. 113). São mais crédulas, socorrem-se mais de poderes maléficos e passam a palavra, prestam-se ao contágio. Com estas e outras sentenças,

“Só em 1485, apenas no distrito de Worms, 85 feiticeiras foram entregues às chamas. Em Genebra, em Basileia, em Hamburgo, em Ratisbona, em Viena, e em muitas outras cidades, ocorreram execuções do mesmo género. Em Hamburgo, entre outros, queimou-se vivo um médico que salvou uma mulher em trabalho de parto abandonada pela parteira. No ano 1523, em Itália, após uma bula contra a feitiçaria aprovada pelo papa Adriano VI, só a diocese de Como assistiu à queima de cem bruxas” (Albert Réville. Histoire du Diable, ses origines, sa grandeur et sa décadence, à propos d’un récent ouvrage allemand. Revue des Deux Mondes, Paris, 2e période, tome 85, 1870, pp. 101-134: III).

Francisco Goya. El Aquelarre. 1797–1798.

“Passaram anos e anos / Sobre esta roda da vida, / Farinha que foi moída, / Vai-se a ver são desenganos” (Fernando Assis Pacheco, Pedro Só). Passaram anos e anos e o imaginário mudou. O Martelo das Feiticeiras tornou-se símbolo de um pesadelo histórico. No anúncio Match Made in Hell, o diabo não só seduz como é seduzido. Por intermédio de uma agência de encontros, Match, o diabo e a donzela envolveram-se num namoro aprazível. Um par, à partida, improvável, uma nova forma de amor. Já no século XVIII, se discorria sobre a figura do “diabo apaixonado” (Cazotte, Jacques, Le diable Amoureux, Paris, 1772; traduzido para português por Camilo Castelo Branco; na imagem, capa da edição de 1845, da autoria de Edouard de Beaumont).

Marca: Match. Título: Match Made in Hell. Agência: Maximum Effort. Direção: Ryan Reynolds. Estados-Unidos, Dezembro 2020.

ADN e relações internacionais

México. Fronteira. Muro.

Como sublinhava Claude Lévi-Strauss (L’Identité, 1977), a identidade forja-se face aos outros. Frequentemente, é conflitual (Georges Balandier, Sens et Puissance, 1971). A relação entre o México e os Estados-Unidos tem sido problemática. Os anúncios da AeroMexico comprovam-no. Quando os teus vizinhos são preconceituosos, aproxima-os e dá-lhes um desconto (vídeo1). Quando são uma ameaça, firma posição e denuncia (vídeo 2). Dois anúncios geniais.

Marca: AeroMexico. Título: “Descuentos de ADN, no hay fronteras entre nosotros”. Agência: Ogilvy Colombia y Ogilvy México. México, Janeiro 2019.
Marca: AeroMexico. Título: Fronteras. Agência: Ogilvy & Mather Mexico. Edição: David Arruga. México, 2016.

Masculinidades. Toxicidades.

O homem oscila entre o mole e o duro, percorrendo toda a escala de Mohs. Depende dos momentos e das perspectivas. Os anúncios We Believe: The Best Men Can Be, da Gillette, e What is a man? A response to Gillette, da Egard Watches, constituem casos ilustrativos. O primeiro compraz-se com o lado negativo do homem, o segundo, com o lado positivo. Que lhes preste! Afigura-se-me que a ambos falta ironia, a faculdade de estar dentro e de estar fora, de falar sabendo que se pode estar calado.

Marca: Gillette. Título: We Believe: The Best Men Can Be. Estados-Unidos, Janeiro 2019.
Marca: Egard Watches. Título: What is a man? A response to Gillette. Estados-Unidos, Janeiro 2019.

Maçã electrónica. A publicidade é uma arma

A Apple é um gigante com apetite gigantesco. O que é polémico e gera conflitos. Por exemplo, a “revolta dos 30%” da Epic Games, empresa exímia em lucros, tão chinesa como se fosse chinesa. Em causa está a partilha dos lucros. O anúncio Nineteen Eighty-Fortnite é uma reacção à reacção da Apple: Epic Games has defied the App Store Monopoly. In retaliation, Apple is blocking Fortnite from a billion devices. Visit https://fn.gg/freefortnite and join the fight to stop 2020 from becoming “1984”. Uma paródia de um dos anúncios mais icónicos da Apple: 1984 (ver https://tendimag.com/2017/10/30/o-martelo-da-revolta/). Trata-se de uma boa paródia passível de lograr os efeitos desejados: denegrir e combater a Apple recorrendo aos seus próprios argumentos. A paródia como estilo pode ser hilariante, crítica, popular e, por vezes, criativa. Não costuma ser muito subtil. A publicidade, à semelhança da cantiga de José Mário Branco, é uma arma.

Marca: Epic Games / Fortnite. Título: Nineteen Eighty-Fortnite. Agosto 2020.
José Mário Branco. A cantiga é uma arma. Ao vivo. Paris, 1973. Dir. Dominique Dante.