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Os anjos também emigram

Marta Carvalho

Marta Carvalho participou no vídeo musical Talk It Out, de Neil Avery & Nigel Planer, estreado ontem, dia 10 de Outubro, por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental 2019. Marta interpreta o papel de uma espécie de anjo que ajuda um homem desesperado.

Marta foi aluna do Mestrado em Comunicação, Arte e Cultura, da Universidade do Minho. Atriz experiente, partiu, há alguns anos, para Inglaterra, onde prossegue uma carreira notável.

Não é de lamentar que os portugueses emigrem em busca do sucesso. Pior seria mantê-los pasmados na sua terra natal. Assuma-se a verdade: quem parte não vai para o inferno, e, por estes lados, ainda não saímos do purgatório. Portugal é um bom país: cheio de oportunidades para quem se aproveita; o melhor do mundo para quem gosta.

Talk It Out – Neil Avery & Nigel Planer. Diretor: Don McVey. Atores: Marta Carvalho & Eric Colvin. 10 de Outubro de 2019.

Esperança e resignação

Hope is Power. The Guardian. 2019

Gosto do anúncio Hope is Power, do The Guardian. Uma alegoria bem lapidada. Dispersão ao mínimo e saturação ao máximo: a aflição de uma borboleta fechada dentro de casa, que não baixa as asas. E o vidro quebra-se, num instante milagroso de libertação. Um anúncio sem palavras (as borboletas não falam), excepto o laconismo das duas frases escritas no final do anúncio: Change is possible; Hope is power. Neste tipo de anúncio, a banda sonora é crucial. Revela-se uma excelente escolha a música, despojada, Nothing Changes, de Anaïs Michell, do álbum Hadestown (2010). A duração da canção (0:51) “combina” com a duração do anúncio (1:00).

Marca: The Guardian. Título: Hope is Power. Agência: Uncommon London. Direcção: James Marsh. Reino Unido, Setembro 2019.

O anúncio Hope is Power lembra o anúncio Release Me (2007), da Saab. Vitalista e mais turbulento, Release Me versa sobre os mesmos tópicos: o encarceramento e a vontade de libertação. Retomo-o.

Marca: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007. Música: Oh Laura.

Quando a causa é justa…

Edekas neue Schock Kampagne Baby in Plastik. 2019

“Le dégoût et les soucis naquirent de l’abondance” (Píndaro, poeta grego).

A causa ecologista destaca-se como uma das maiores causas da história da humanidade. Pelo alcance e pela mobilização. As grandes causas convocam tanto a nossa bondade como a nossa maldade. A elevação e o disgusto. A causa ecologista cresce na publicidade. Se a causa é boa, o resto pode ser reciclável. Uma espécie de efeito PETA.

No anúncio alemão Unverpackt, da cadeia de supermercados Edeka, uma mulher em trabalho de parto dá à luz um boneco envolto em plástico. Na realidade, está a ter um pesadelo provocado pelo homem a abrir uma embalagem plástica com fruta. Existem imensos diabos. Nunca os contei. Plástico é o mais recente.

Marca: Edeka. Título: Unverpackt. Agência: Virus. Direcção: Robert Maciejewski. Alemanha, Setembro 2019.

Não me ajudes!

Mr. Músculo. 2019.

As palavras pesam! Ignora-o quem nunca falou. Os enunciados, “em condições de felicidade”, são performativos (J. L. Austin, How to Do Things with Words, 1962) e legitimam o portador do ceptro (Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, 1982). As palavras são fontes de poder (Mikhail Bakhtin, Marxismo e Filosofia da Linguagem, 1929).

O anúncio argentino No me ayudes, compartamos, pode não ser um prodígio, mas apresenta duas virtudes:

Releva a perversidade das palavras, incluindo as mais misericordiosas. Ajudar pode significar dominar: ajudo-te na tua obrigação, que, pressupostamente, não compartilho.

Por outro lado, descentra o olhar, deslocando-o para o lar, para a família e para vida privada. Não é nas universidades, na ciência, na arte, na música, na moda, no desporto, na administração pública, nos transportes, na justiça, na comunicação social, na política… que a desigualdade de género mais dói. A mulher no seio da família, no lar, parece ser a gata borralheira da nossa sociedade e dos movimentos sociais que a caracterizam. É irónico que seja uma marca de detergente a levantar o tapete.

Marca: SC Johnson / Mr. Músculo. Título: No me ayudes. Argentina, Setembro 2019.

Suicídio

Émile Durkheim

Na Irlanda, os suicídios não interessam a ninguém, as pessoas não querem falar nisso. Receiam que uma simples menção no jornal inspire mais dez mortes similares. É uma epidemia silenciosa. Cada geração tem o seu tabú (Dermot Bolger, A Second Life, 1994).

Esta curta-metragem espanhola, dedicada ao suicídio, intitula-se Émile em homenagem ao sociólogo Émile Durkheim (O suicídio, 1897). “Um assunto espinhoso e tabú”. O vídeo convoca uma crença várias vezes abordada no Tendências do Imaginário: no momento da morte, o moribundo revê num instante toda a sua vida. Mas, pelos vistos, o suicídio não é uma porta, não é uma promessa. Segue a nota de informação que acompanha o anúncio:

Émile (the name of the campaign is a tribute to Émile Durkheim, a pioneer in social research with his work: “Le suicide”) is a campaign to show people who are thinking about killing themselves that it is worth living. It is a campaign that makes people reflect. And he does it through a content, a short film that tells a story that deals with two fundamental themes through the main character. The first is his situation: he lives in Costa Rica, the happiest country in the world, in a luxury house, with a great car, because he has succeeded in his career, but still he is not happy and wants to commit suicide. The second is his age, with more than 40 years, it may seem that his life is no longer able to change. But it can, it can always. And that is the importance of the message, on the one hand it shows you that there is always time for things to change and improve. On the other hand that although from outside it is not understood many people who do not expect it, maybe thinking about commit suicide and you have to realize. And all this is done in a different way, speaking of what is usually said that before we die, you see your life before your eyes like flashes, but if you commit suicide, everything is different. A message of hope on a hard and taboo subject (https://www.adsoftheworld.com/media/film/emile).

Título: Émile. Agência: Jorge M. Rodrigo Ad Studio, Sevilla, Spain. Realizador: Jorge M. Rodrigo. Espanha, Setembro 2019.

Lição de género

Benetton. United By Half.

O espírito de missão turva a reflexividade (Albertino Gonçalves).

É insensato publicar um texto como este. Escrever expõe-nos a asneiras íntimas, sem nenhum ganho. Mas, não obstante René Descartes, a doidice está mais bem distribuída do que a razão. Insistir num acto que nos vai prejudicar é estupidez de luxo.

Em sentido lato, discriminar é distinguir. Faculdade indispensável à acção. Num sentido corrente na sociologia, discriminar é avaliar preconceituosamente o outro.

Tu seras un homme, mon fils, da Fondation Des Femmes, prima pela qualidade. Uma sensibilização bem conseguida em torno das relações de género. Merece um comentário detalhado.

Nas últimas cinco décadas, na publicidade, as imagens de género alteraram-se. A supremacia masculina, outrora ostensiva, torna-se mais discreta. O homem sujeito aproxima-se do objecto e a mulher objecto, do sujeito. A submissão feminina já não é o que era. Emerge, entretanto, um novo tipo de anúncio publicitário: a proclamação de género. A moldura das manifestações e das efemérides transita para os anúncios. Seguem dois exemplos desta “nova vaga” (ver, também, Género e Publicidade: https://tendimag.com/2019/08/23/genero-e-publicidade/). Estas mudanças não significam que a publicidade deixou de sustentar o poder masculino garantindo, por fim, a igualdade. O homem não carece aparecer para que o sexismo se insinue. As vias da comunicação são travessas e insuspeitas. Quando os objectos falam, o homem pode saborear o silêncio.

Anunciante: OSFAM GB. Título: #wolmenUnlimited. International Women’s Day. Reino Unido, Março 2017.
Marca: United Colors of Benetton. Título: United By Half. Índia, Março 2017.

O anúncio Tu Seras Un Homme Mon Fils, da Fondation des Femmes, inspira-se no poema de Rudyard Kipling És Um Homem, Se… (If…, ca 1895; ver tradução na parte final do artigo). Uma voz masculina sublinha o modo como um pai deve educar um filho.

“Se em vez de te exaltares, souberes respeitar, escutar, partilhar; se, apesar da derrota, continuas a avançar, tu serás um homem, meu filho; se souberes apoiar sem querer dominar, ser forte sem ser violento; se és capaz de encarar uma mulher sem que ela tenha a temer o teu olhar, tu serás um homem, meu filho; se lutares por todo o lado contra as desigualdades e a violência e tiveres a coragem de quebrar a incidência (?), se recusas que incomodem a tua mãe, a tua irmã ou os teus amigos, bem como todas as mulheres que cruzares na tua vida, então, nesse dia, tu serás verdadeiramente um homem, meu filho! / O assédio e a violência contra as mulheres não dizem apenas respeito às mulheres”.

Anunciante: Fondation des Femmes. Título : Tu seras un homme mon fils. França, Maio 2018.

O anúncio sensibiliza contra o assédio e a violência de que sofrem as mulheres:

“L’idée de cette campagne : adresser les hommes et “futurs hommes” sur les valeurs propices à favoriser l’égalité femmes – hommes dans la société et in fine, mettre un terme à toutes les violences faites aux femmes. Décliné du poème de Rudyard Kipling, le film met en scène des instants de vie entre pères et fils de tous âges, milieux et origines. #TuSerasUnHommeMonFils aborde l’importance de l’éducation aux plus jeunes, au cœur de l’évolution des comportements des hommes envers les femmes » (https://fondationdesfemmes.org/tu-seras-un-homme-mon-fils/).

Para que um filho se torne “verdadeiramente um homem », que posturas e valores deve o pai promover? Colocar-se no lugar do outro é um exercício de reciprocidade recomendável. Troquemos o foco: “que personalidade e que valores deve a mãe promover na relação com a filha para que esta se converta verdadeiramente numa mulher”? Qual o efeito deste desígnio? No mínimo, incómodo. Uma verdadeira mulher? Criada através da relação mãe-filha?

Nós somos animais centrados. Satisfaz-nos, às vezes, enxergar a “metade”. Cantor, homem, filho… O problema é meramente masculino? A mãe não educa os filhos? Não tem influência na respectiva personalidade? Não perfilha preconceitos, incluindo de género? A percepção do mundo por metades pode comportar consequências desastrosas. Recordo a implementação da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). “Predestinada” a mulheres, quando os homens, vítimas de violência doméstica, começaram a demandar a APAV, foi uma vergonha de Estado.

Fonte: Christine Mateus. TuSerasUnHommeMonFils : une campagne pour ne pas en faire un macho. Le Parisien ( http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php).

Este retrato da boa masculinidade convoca o binómio, polémico, protector/vítima. O que me intriga. Intriga-me, também, as qualidades do “verdadeiro homem”, que, preconizadas no anúncio, quase coincidem com os atributos associados pela população francesa a “ser homem”, segundo os resultados do inquérito online promovido pela própria Fondation des Femmes http://www.leparisien.fr/societe/tuserasunhommemonfils-une-campagne-pour-ne-pas-en-faire-un-macho-29-05-2018-7742571.php). Não imagino o que esta correspondência significa. Já me perdi em demasia. Pelo caminho, dispenso a noção de “verdadeiro homem”, cujo cadastro histórico é tremendo.

És Um HOMEM, Se… (Rudyard Kiplin, tradução)
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando te ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe
E não receies que te o tomem,
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling (ca 1895).

O rabo do diabo

Sem para-quedas. De 24 a 28 de Junho as escolas municipais trabalharam com os alunos o tema de Combate ao uso de drogas. Prefeitura Municipal de Campo Magro.

Vós, que sois os ministros do nosso bem, livrai-nos de todo o mal! Da violência, do sexo, do álcool, do tabaco, da droga, da obesidade, dos maus pensamentos, do chupa-chupa e do sorvete. Um rosário de imagens feridas de prazer nefasto. Uma mesa mais pesada do que a mesa dos sete pecados mortais de Hieronymus Bosch. Quer-me parecer que a árvore do mal mais do que da ciência é do prazer. Deus não condenou Adão e Eva à ignorância mas ao sacrifício. Mais Eva do que Adão. Filhos de Adão, Filhas de Eva é o título de um livro João de Pina Cabral (1989). Somos todos filhos de Eva.

Galeria: Mal-aventurados

Pensei acompanhar este rosário de doze imagens com um requiem, funesto, ou com uma valsa, vital: o Lux aeterna (Requiem for a Dream), de Clint Mansell (https://www.youtube.com/watch?v=CZMuDbaXbC8); ou Sylvia, Intermezzo and Slow Waltz, de Leo Delibes (https://www.youtube.com/watch?v=rmOdU0o8Ke8). Como somos todos belas pessoas, escolhi Beautiful People, de Marilyn Manson.

Marilyn Manson. Beautiful People, Antichrist Superstar. 1996.

Género e publicidade

Figura 1. Adidas. Hat-trick para la historia. 2019.

Uma jornalista pediu-me a opinião sobre o protagonismo actual da figura da mulher e das minorias, designadamente nos media. Por exemplo, o próximo filme da saga 007, cujo protagonismo é atribuído a uma mulher negra. Este é um assunto que, para evitar contratempos, costumo esquivar.

O protagonismo das mulheres não é novidade, nem nos filmes, nem nos videojogos. Recordo, por exemplo, Lara Croft. Esgotada, a fórmula da saga 007 requer uma “refundação”.

A publicidade é um barómetro das mudanças de valores. É abrangente, com ancoragem nas dinâmicas sociais. O cinema, em contrapartida, é mais lento, mais denso, mais profundo, mais complexo e possui outros desígnios.

A fazer fé na publicidade, a figura da mulher está a passar por uma fase ostensiva. Muitos anúncios falam de mulheres, incluem mulheres e promovem, explicitamente, as mulheres.

Para ilustração, escolho, entre muitos, três anúncios.

Vídeo 1. Marca: Adidas. Título: Hat-trick para la historia. Agência: VMLY&R Argentina. Direcção: Facundo Españon. Argentina, 21 de Agosto de 2019.

O anúncio argentino Hat-trick para la historia, da Adidas, resgata o episódio de uma futebolista que, no mundial de 1971, marcou quatro golos à selecção feminina da Inglaterra. O anúncio propõe a criação, a 21 de Agosto, do “Dia da Futebolista em Argentina”. Convém referir que já existe o Dia do Futebolista em Argentina, a 14 de Maio. A justificação é semelhante: comemora um golo da vitória da Argentina contra a Inglaterra em 1953. Existe, ainda, o Dia do Treinador de Futebol a 13 de Novembro. O Hat-trick para la historia, da Adidas, lembra o anúncio da Nike publicado no passado mês de Julho (ver vídeo 3).

Vídeo 2. Marca: Laboratorios Roemmers / Sertal Fem. Título: No existen. Agência: ADN Comunicación. Direcção: Dario Sabina. Argentina, 14 de Agosto de 2019.

Publicado há uma semana, o anúncio argentino No existen, da Sertal Fem (vídeo 2), empenha-se em rebater estereótipos de género: “não existe roupa de mulher, nem um estilo de mulher, não existem desportos de mulher (…) nem os hobbies de mulher, mas existem, isso sim, coisas que são só nossas; por isso, para o odor menstrual existe Sertal Fem”. Não existem diferenças, salvo as diferenças.

Vídeo 3. Marca: Nike. Título: Never stop winning. Agência: Wieder + Kennedy (Portland). Estados Unidos, 7 de Julho de 2019.

O anúncio Never stop winning, da Nike, é um hino à mulher. Uma apoteose. Retomo o vídeo e o comentário do artigo Coroa de Louros:

“O futebol já não é o que era. Nunca foi! As mulheres jogam, treinam e sonham. No futebol, como no resto, aspiram ser as melhores.
Uma equipa feminina de futebol, a selecção americana, venceu o campeonato do mundo de futebol feminino de 2019. O sentido de oportunidade da Nike e a categoria da agência Wieden + Kennedy resultaram numa campanha de publicidade que alia visão, drama e emoção. Never stop winning estreou no dia 7 de Julho, dia da vitória da selecção americana.
Acrescento dois anúncios da Nike, do mesmo teor, publicados antes da edição do campeonato do mundo de futebol feminino (7 de Junho a 7 de Julho, em França): Dream with us (12 de Maio) e Dream further (1 de Junho). Estes hinos e chamamentos da Nike são excessivos, quase sagrados” (https://tendimag.com/2019/08/12/coroa-de-louros/).

Desconheço a política relativa ao género e às minorias das marcas Nike e Adidas. O mesmo para as agências Wieden + Kennedy e VMLY&R. À partida, o que lhes interessa é a promoção da marca junto do público. Sintonizar a bússola da sensibilidade colectiva. É verdade que, após décadas de mobilização, o género e as minorias estão na crista da onda. Mas a crista não é a onda e a onda não é o mar.

A Nike é omnívora em termos de causas sociais. Afirma-se como um expoente de “responsabilidade social”. O que não a impede de assinar anúncios com algum acento na virilidade. Creio ser o caso do anúncio Couldn’t Be Less Nice (Canadá, 2017).

O anúncio Couldn’t Be Less Nice, da Nike, convoca a violência, com os estereótipos do costume: a oscilação entre simpatia e agressividade; a figura do violento bom vizinho e amigo dos animais; e a profecia do vencido de que a força está do lado do inferno. O protagonista é uma versão do Alex, o vilão (sexista) do Laranja Mecânica (1971). A própria música do anúncio convoca a banda sonora do filme. A abertura de O Barbeiro de Sevilha (1816), de Gioachino Rossini, condiz com a abertura de La Gazza Ladra (1817) e a abertura de Guillaume Tell (1829), do mesmo compositor, incluídas no filme Laranja Mecânica ( https://tendimag.com/2018/01/22/o-lado-feio/ ).

Tudo indica que este anúncio da Nike foi retirado de circulação. No Tendências do Imaginário, deixou de estar acessível. Reproduzo-o neste artigo graças ao site Culturpub. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem. Também pode aceder neste endereço: http://www.culturepub.fr/videos/nike-couldn-t-be-less-nice/.

Vídeo 4. Nice. Couldn’t Be More Nice. 2017.

Estupidez global

Mapa da ecorregião amazônica definida pelo WWF. Imagem de satélite da NASA.

Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez (Fernando Pessoa, Fragmentos de uma Autobiografia, Joinville . SC, Clube de Autores, 2017, p. 132).

O Facebook tem a gentileza de me recordar artigos antigos. Com o tempo, anúncios como o Life, da Sociedade de Amigos da Amazónia, tornam-se raros, tendem a sair de circulação, incluindo a Internet.

Segundo Carlo Cipolla, de um estúpido pode-se esperar tudo, até a adopção de comportamentos que claramente o prejudicam. O estúpido é, assim, imprevisível, o que o torna particularmente perigoso, para si e para os outros. Este anúncio mostra-nos que de normais e de estúpidos todos temos um pouco.

Anunciante: Sociedade de Amigos da Amazónia. Título: Life. Agência: Matosgrey. Direcção: Fernando Sanches. Brasil, Abril 2009.

Um bar do outro mundo

Lega double face mask , D.R.CONGO. Old collection – Catawiki.

No além, existe um bar frequentado por mortos célebres, entre os quais Shakespeare, John Lennon, Frida Kahlo, a Princesa Diana, Che Guevara e Steve Jobs. Numa espécie de sessão de grupo, cada cliente revela a causa da sua morte. Chega a vez de um jovem, que, embaraçado, confessa que morreu “texting”, a teclar no telemóvel. “Estúpido”! Exclamam, em conjunto, os outros clientes. O vício é tão terrível que o jovem, mesmo morto, continua agarrado ao telemóvel. O anúncio The Afterlife Bar, da Transport Accident Comission, é criativo, consistente e incisivo. A realizadora tem 20 anos de idade.

Pelos vistos, o telemóvel nasceu com uma semente do mal. Socorre-nos o exorcismo mediático dos pecados e das ameaças que rondam os incautos. Mas o exorcismo coexiste com a celebração. O telemóvel é o maior maná, a maior pérola técnica, da história da humanidade. É acessível, mágico, adorado, disponível e fácil de consumir. Colmatou abismos, egoístas, lúdicos e comunicacionais, antes insuspeitos. Oferece-se, no entanto, como uma máscara bifacial: perfeito no geral, perigoso no particular; benéfico, por princípio, maléfico, por consequência.

Oportuno, o anúncio Netflix, da Bouygues Telecom, aponta soluções para contrariar o vício do telemóvel. A bateria e a televisão, por exemplo. O vídeo, que dura 90 segundos, assume-se como um jogo: contém 20 referências as séries Netflix. Enfim, existem pormenores que sensibilizam: Bella Ciao, uma das canções mais emblemáticas da resistência italiana durante a Segunda Grande Guerra.

Marca: Transport Accident Commission Victoria. Título: The Afterlife Bar. Agência: Taboo. Direcção: Alyssa De Leo. Austrália, Agosto de 2019.
Marca: Bouygues Telecom. Título: Netflix. Agência: BETC Paris. Direcção: Adrien Armanet. França, Julho 2019.