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Demasiado velho para sonhar

Pântano da Peneda. Sem água. Fotografia de Makca. Wililoc

Há notícias funestas que ameaçam as identidades das pessoas e dos lugares. Em má hora alguém se lembrou de minerar o território do Fojo junto ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. A causa é a extracção do lítio e outras substâncias. A consequência é a perfuração do Fojo, com explosões e químicos à mistura. É difícil imaginar pior cenário. São lugares que resistiram a desafios de milhões de anos. Sossega-me acreditar que em Portugal se gosta do País. Gostam as pessoas, os animais e até os políticos. Tenho fé que a caravana, como outras, acabará por passar. O Fojo faz parte do “reino maravilhoso” que Miguel Torga pressente quando sobe rumo a Castro Laboreiro. É enorme o que está em risco: o ser, o estar, o sentir e o prazer das fragas, das águas, dos vales, das plantas, dos animais e, naturalmente, dos homens. Homens estúpidos que optam pelo que os prejudica. Que protegem a natureza com palavras e protocolos. O pior é que a minha geração está “demasiado velha para sonhar”.

Marca: Wildlife Conservation Film Festival. Título: Dream. Agência: DDB (New York). Direcção. Estados Unidos, 2016.

Nada daquilo que mostra o anúncio Dream, da WCFF, devia acontecer. E, no entanto, está a chegar ao fim… Junto a canção When I Grow Too Old To Dream, interpretada por Nicki Parrot, com Rossano Sportiello.

Nicki Parrot, com Rossano Sportiello. When I Grow Too Old To Dream @ Arborsjazz. 2011.

Poluição plástica

Contra a poluição, só temos palavras?

Desflorestação, extinção de espécies, maus tratos a animais, derrame de crude, desertificação, alterações climáticas, aquecimento global, degelo, poluição do ar, efeito estufa, acidentes nucleares, proliferação de plásticos nos oceanos, eis alguns dos problemas que nos apoquentam. Na esfera pública, os temas ecológicos sucedem-se ao estilo de natação mariposa. Ora emergem, ora submergem. Ora uns, ora outros. A poluição plástica dos oceanos é um tema emergente que tem inspirado anúncios notáveis. Por exemplo, os anúncios The Plastic Ocean (2018) e Pollution de Avril (2019), da associação Sea Shepherd.

Anunciante: Sea Shepherd. Título: The Plastic Ocean. Agência: Fred & Farid (New York). Estados-Unidos, Abril 2018.
Anunciante: Sea Shepherd. Título: Pollution de Avril. Agência: Azilis. Direcção: When We Were Kids. França, Abril 2019.

Peixinhos pós-modernos

Gansos

A publicidade é descaradamente intrusiva. Ubíqua e omnívora, ninguém lhe escapa. Interpela sem pedir licença. Até a consciência dispensa. E expande-se! Apoderou-se, num ápice, da Internet. Intromete-se. Chegamos ao cúmulo de pagar para a evitar. O YouTube é um exemplo. Ao abrir um vídeo, somos agraciados com um mínimo de cinco segundos publicitários. Até em casa, o “último reduto”, a publicidade se insinua. A publicidade é o nosso molho quotidiano. Com a agravante de nos conhecer bem, demasiado bem. Somos uns “peixinhos pós-modernos” (ver vídeo 1). Gansos e tansos. Os anúncios Les Oies e Le Tombeau, da France Televisions Publicité, ilustram, breves como cartoons, a omnipresença absurda da publicidade (ver vídeos 2 e 3).

Marca: Renault Clio. Título : Le Pêcheur. Agência: Publicis Conseil (Paris). Direcção: Eben Mears. França, 2007.
Marca: France Télévisions Publicité. Título: Les Oies. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: Gabriel Malaprade. França, Março 2019.
Marca: France Télévisions Publicité. Título: Le Tombeau. Agência: Altmann + Pacreau. Direcção: Gabriel Malaprade. França, Março 2019.

Anúncios do coração

O anúncio The Desert Cowboys, da Skoda, é uma paródia dos westerns de Sergio Leone. É deveras gratificante ver realizadores investir em pormenores em que poucas pessoas reparam: o anúncio foi rodado no Deserto de Almeria, em Espanha, à semelhança do filme Era Uma Vez no Oeste (1968). Parafraseando Shakespeare, um pormenor, um pormenor, o meu reino por um pormenor! O anúncio aborda o isolamento e a desertificação. Uma realidade premente. Pelos vistos, a Skoda pode ajudar a encurtar distâncias. Os “anúncios do coração” estão na moda. Nem sempre foi assim. Esta irmandade da salvação é recente. Empenhado e esmerado, o anúncio cumpre o que promete.

Marca: Skoda. Título: The Desert Cowboys. Agência: Proximity. Direcção: Paco Caballero. Espanha, Julho 2017.

Quem diz Sergio Leone diz Ennio Morricone, retomado na música do anúncio. Segue uma versão orquestrada da música do filme Era uma vez no Oeste, dirigida pelo próprio compositor. Goste-se ou não. O gosto está em vias de libertação: da vanguarda ou da retaguarda? Das elites ou das massas? A presumida “indústria cultural” não se consubstanciou na desqualificação da criação cultural. Antes pelo contrário, a criação cultural de qualidade parece tender, ao arrepio das hierarquias e dos nichos, a ser inclusiva. O “inacesso” aos bens culturais já não é o que era. Sem barbarização do gosto, nem democratização da cultura. Uma falácia tangível.

Ennio Morricone. Tema do filme Era uma vez no oeste. 1968. Concerto em Verona, 2002, dirigido pelo próprio Morricone.

Mudam-se as vontades, mudam-se os nomes

Elan.

“Women want mediocre men, and men are working hard to become as mediocre as possible” (Margaret Mead).

As palavras andam numa autêntica roleta russa. Rotuladas e estigmatizadas, esfregam-se como quem lava o mundo. Participo num evento internacional que alterou o nome por suspeita de machismo. Continha a palavra “homem” (ser humano). O novo título é tão asséptico que nem um elefante o memoriza. Perde a realidade, vence a ideologia.

A palavra é performativa, muda montanhas e rasga oceanos. Uma palavra a mais ou a menos cava um abismo, mormente se for apontada com o dedo em riste, indexada. Entendo, porém, que não se muda uma língua palavra a palavra. Uma língua, dizia Ferdinand de Saussure (Curso de Linguística Geral, 1916), comporta uma visão do mundo. Várias visões do mundo, acrescenta Mikhail Bakhtin (Marxismo e a Filosofia da Linguagem, 1929). Embora “aconteçam coisas com palavras” (John L. Austin, Quando Dizer é Fazer, 1962), o essencial do efeito linguístico é estrutural. Não se combate a ideologia de uma língua a esconjurar palavras.

Tantas certezas têm a virtude de me converter no burro de Buridan, estacado no meio da ponte sem saber para onde se virar. Um burro, mas um burro velho avesso a cenouras, censuras e catequeses. Um asno que dispensa que lhe ensinem como escrever, dizer ou pensar. O anúncio, excelente, The Unbias Botton, da ElaN Languages, configura uma página de censura e tradução? Parece, mas provavelmente não.

Na verdade, o meu comentário é redutor e ligeiro. O que está em causa não é alfinetar esta ou aquela palavra mas lançar acendalhas na fogueira da luta contra a dominação de género. Sustentar o contrário não é apaziguar mas atear a fogueira com aguardente. Há situações como esta, simbolicamente densas, que nos conduzem a uma situação de duplo vínculo, a uma dilaceração sem saída.

Marca: ElaN. Título: The Unbias Botton. Holanda, Março 2019.

Acima da igualdade

Sprite. The Pole. 2019.

À partida, sou indiscriminadamente contra todas as discriminações, positivas ou negativas, mormente as fomentadas pelo Estado. Parece não saber o que é discriminação e não discriminação, logo não saber não discriminar. O anúncio The Pole, da Sprite, é criativo, pelo tema e pelo modo: a centralidade da barra, a “deslocação de papéis” e o comentário machista em voz off. Registe-se, por último, o bailado em torno da barra. Sublime!

Marca: Sprite. Título: The Pole. Agência: Santo (Buenos Aires). Direcção: Jo Roy. Argentina, Março 2019.

A idade e a solidão

ONG Grandes Amigos. Familias hinchables. 2019.

“A mais terrível pobreza é a solidão e o sentimento de não se ser amado” (Madre Tereza de Calcutá).

A solidão não escolhe idades, mas não as escolhe por igual. A solidão escolhe, sobretudo, a velhice. Está-se só em casa ou na sala comum de uma residência sénior. A presença do outro não basta, importa partilhar laços. Não existem laços suplentes nem famílias insufláveis. E, como sugere Zygmunt Bauman, na modernidade líquida os laços tendem a afrouxar.

No dia 3 de Março, vai ser lançado na televisão o anúncio espanhol Familias Hinchables da ONG Grandes Amigos:

Mayte Sancho, investigadora en gerontología social y presidenta de Grandes Amigos, ha comentado como “Familias Hinchables” visibiliza que la solución a la soledad no deseada de las personas mayores pasa por regenerar los lazos afectivos (https://www.reasonwhy.es/actualidad/campana-familias-hinchables-soledad-mayores).

Para acompanhar, acrescento uma música em italiano, Solitudine, por um cantor brasileiro: Renato Russo.

Anunciante: ONG Grandes Amigos. Título: Familias Hichables. Agência: El Ruso de Rocky. Direcção: Günther. Espanha, Fevereiro 2019.
Renato Russo. La solitudine. Equilíbrio distante. 1995.

As mulheres são o máximo

Nike. Dream Crazier. 2019

As mulheres são o máximo, seja essa a sua vontade. No desporto como no resto. Ilustra-o a Nike em Dream Crazier, um anúncio enérgico. Têm crescido exponencialmente os anúncios promotores da mulher. E os homens, não há publicidade que os exalte? Porventura sem as trompetes da Nike, mas com uma mensagem mais ou menos implícita e subliminar. Num registo humorístico e invertido, o homem é mergulhado no ridículo do corpo e da mente. Porque não é o máximo quem quer! Milenar, a dominação masculina escreve torto por linhas tortas. Perversamente, como no lento e pasmado anúncio da Linx, em que, com os cocos na mão e a lâmina em riste, um homem investe contra os pelos da desgraça. Em suma, a epopeia da mulher vencedora versus a farsa do homem depilado. Joana d’Arc e Don Quixote.

Marca: Nike. Título: Dream Crazier. Agência: Wiecem + Kennedy (Portland). Direcção: Kim Gehrig. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Marca: Linx. Título: The Balls. Agência: 72andSunny (Amsterdam). Holanda, Fevereiro 2019.

Sem título

Mais rápido do que a sombra. McDonald’s. Lucky Luke. BETC Paris. França.

A peste medieval foi terrível. Mas não tinha culpados. Inventaram-se. O tabaco tem os seus pecadores. Quem acredita que este género de anúncio retrata a realidade, abstenha-se de aumentar os impostos sobre o tabaco ou de publicar centenas de anúncios de mau agoiro. Se esta é a sua fé, deve proibir o tabaco. Basta de prognósticos fúnebres, exorcize-se o mal pela raiz! E, reduzido o fumo a cinzas, retire-se a palhinha da boca de Lucky Luke.

Anunciante: Wyoming Department Health. Título: Dear Mom. Agência: Warehouse 21. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Poesia e violência

Lives not knives. No more knives. 2019.

Em 2018, observa-se, em Londres, um aumento inesperado de crimes com arma branca. Não conformada com a ausência de respostas eficientes, a associação londrina Lives not Knives decide promover um anúncio pautado pela poesia: No more knives. Para o efeito, recorre à inspiração de Maya Sourie. Não é a primeira vez que a poesia é convocada como forma de sensibilização (recordo Maio de 1968). Algumas imagens são poéticas e angustiantes, por vezes, trágicas. O anúncio é notável.

Anunciante: Lives not Knives. Título: No more knives. Direcção: Carly Randall & Will Cottam. Reino Unido, Fevereiro 2019.