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A plastificação da inteligência

Le vent l’emportera
Tout disparaîtra
Le vent nous portera
(Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001)

A plastificação dos oceanos inspira a publicidade. O anúncio espanhol da CREA, Sin Contaminación, e o anúncio Ocean of the Future, da Greenpeace, são disfóricos. Traçam um retrato cinzento da nossa irresponsabilidade. Para o anúncio Sin Contaminación, não estamos apenas a intoxicar o ambiente, intoxicámo-nos a nós próprios.

Sin contaminación

Marca: CREA. Título: Sin Contaminación. Espanha, Junho 2018.

Marca: Greenpeace. Título: Ocean of the Future. Agência: Ogilvy & Mather (London). Reino Unido, Abril 2018.

A fatrasia, estilo típico da Idade Média, alinha frases sem nexo. Mistura alhos com bugalhos num discurso sem sentido aparente. Gosto da fatrasia. Prefiro a paella ao puré. Por quê acrescentar o vídeo musical Le Vent Nous Portera, dos Noir Désir? Passa-se numa praia. É disfórico e estranho, um “bouquet de nerfs”. É percorrido por um sentimento de ameaça, sem como nem quando. Se isto não é suficiente para justificar o vídeo musical, acrescento que gosto dos Noir Désir! Gostar é o melhor passaporte para qualquer lugar e qualquer viagem.

Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001.

Muitos anúncios do Tendências do Imaginário são filhos da pressa e do desperdício. O anúncio Sin Contaminación, consistente e original, merecia um comentário mais circunstanciado. O mesmo vale para o vídeo Le Vent Nous Portera, um filme subtil, um bom exemplar da canção francesa, com uma letra que se emancipa da estética do belo. Ando sobreocupado a perder tempo. A minha escrita parece o inverso de uma sopa de pedra: um calhou no fundo de um pote sem sombra de acompanhamento. Sem empratamento, sem decoração que disfarce e eufemize o mundo. Surpreendo-me, às vezes, a pintar cenários insensatos: com o vento actual, preocupa-me a plastificação dos oceanos, mas não me preocupa menos a plastificação da inteligência.

Chuva dissolvente

Habitat-1

Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

O discurso do morto

it+can+wait6

A publicidade é omnívora: tudo serve desde que se preste. Nestes anúncios da AT&T, companhia americana de telecomunicações, os mortos são convocados para sensibilizar os vivos. Que os mortos falam é coisa em que se acredita. Comprovam-no as mesas falantes. Não dançam? Não comem? Não bebem? Não aparecem? Então por que não haviam de falar?

No anúncio The Face of Distracted Driving / It Can Wait, inteiramo-nos como Caleb e Forrest encaravam a sua vida e que aparência teriam caso não tivesse ocorrido o acidente, por uso indevido do telemóvel, que os vitimou.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Caleb. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

Marca: AT&T. Título: The Face of Distracted Driving / It Can Wait: Forrest. Agência: BBDO New York. Direcção: Errol Morris. Estados Unidos, Maio 2018.

A Geração de Interior / The Indoor Generation

VeluxEstamos tramados! Não há nada que a gente faça que não faça mal. Tudo faz mal! Não é erro de Descartes, é erro de Deus. No futuro, o pânico será o medo de ser, o medo da ameaça de existir. O nosso futuro será a Panfobia.

O anúncio The Indoor Generation é promovido pelo grupo económico Velux especializado em janelas para telhados. Ve significa vento e lux, luz. O anúncio alerta para a necessidade de bem iluminar e bem arejar as casas.

We spend 90% of our life indoors. We have become The Indoor Generation and it is affecting our health and wellbeing (Velux).

Um excelente anúncio de sensibilização que não mendiga causas, inspira-se, com inteligência, na sua própria área de actividade.

Marca: Velux. Título: The Indoor Generation. Agência: &co./NOA. Direcção: Martin de Thurah. Dinamarca, Maio 2018.

Maquilhagem invisível

Jequiti

A fada madrinha transformou Cinderela. Nem sequer as irmãs a reconheceram. O rei, acreditando-se magnificamente vestido, desfilou nu. O rei perdu a realeza, Cinderela adquiriu-a. Estes dois contos são arquétipos da humanidade.

O anúncio brasileiro Invisible Make Up, da JEQUITI, é rebuscado. Trata-se de uma encenação. Duas mulheres, convictas de estar maquilhadas a preceito, logram um bom desempenho numa entrevista de emprego. Mas, tal como o rei acreditava trajar roupas fabulosas, elas não estavam maquilhadas. Se maquilhagem houve, foi do espírito.

Este anúncio apresenta-se estranho. Lembra um anúncio a um refrigerante cujo lema é: se tiver sede, não beba! Para brilhar pode dispensar a maquilhagem. Um hara-kiri publicitário? Parece, mas não é. Não é, aliás, o primeiro a arriscar esta fórmula. Começa como um anúncio de sensibilização convocando dois tópicos maiores: o género e o desemprego. Termina com a seguinte sentença: “This wasn’t a makeover to hide something. It was to show something”. A maquilhagem não deve ocultar mas revelar a pessoa. A confiança e a naturalidade sobrepõe-se à máscara e ao artifício. Se pretende assumir-se e revelar-se, abraçar a sua personalidade, a JAQUETI está à sua espera, está ao seu dispor: “You only need yourself. But if you need us, we are here”.

Marca: JEQUITI . Título: Invisible Make Up. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Georgia Guerra-Peixe. Brasil, Maio 2018.

O feitiço tecnológico

McDonald's Timeless

Se a publicidade fosse uma biblioteca, o tema das relações de género ocuparia várias estantes pejadas com livros de salmos e sermões. Mais pequena, mas em crescimento, aparece a estante da adição às novas tecnologias, cheia com livros de responsos e esconjuros. O anúncio Timeless, da McDonald’s, mostra quanto um pai tem que ser inventivo para cativar a atenção dos filhos, embruxados crónicos pelos telemóveis, tablets, videojogos & Cia. Deste anúncio depreende-se que para resgatar os filhos, o pai deve “tornar-se” criança, regredindo, com os filhos, até à sua própria infância. Esta fórmula é recorrente. A desintoxicação resulta cada vez mais fantástica. Uma boa parte dos anúncios sobre a cidadania e a qualidade de vida são promovidos por grandes marcas, incluindo a McDonald’s, que, nas alturas, tanto se preocupam com as nossas vidas. Tanto interesse comove qualquer um.

Marca: McDonald’s.Título: Timeless. Agência: DDB New Zealand. Direcção: Matt Devine. Nova Zelândia, Maio 2018.

A herança de Sísifo

Alzheimer

No anúncio português Amor, da AHDPA, um homem maquilha-se. Treina para maquilhar a mulher, doente de Alzheimer, no aniversário que reúne a família. A mulher adere com agrado. O anúncio centra-se nos pequenos gestos. São gestos que constroem o triângulo humano: olhar a beleza; sorrir com prazer; e amar com o coração. Estética, humor e amor. A doença de Alzheimer é alarmante e temível. Se uma despedida magoa, o alheamento quotidiano aproxima-se do castigo de Sísifo.

Excelente anúncio da agência Havas. Pela sensibilidade. Não é fácil abordar o tema. Requer criatividade, tacto e consciência dos limites.

Anunciante: AHDPA – Associação Humanitária dos Doentes de Parkinson e Alzheimer. Título: Amor. Agência: Havas. Direcção: Leone Niel e Gui Branquinho. Portugal, Abril 2018.

Fobias

TyC Sports 2018

O canal de televisão argentino TyC Sports destaca-se pelos anúncios politicamente ousados. Em 2016, visou, por ocasião da Copa América, a xenofobia de Donald Trump. Nas vésperas do Campeonato do Mundo de Futebol, na Rússia, no próximo Junho, lança um anúncio que visa, agora, a homofobia de Vladimir Putin. Os anúncios assumem a paixão do futebol como uma paixão de homens entre homens, paixão que ronda uma espécie de erotismo tribal masculino. Ser homem é partilhar, paroxisticamente, emoções com carga corporal. As objecções ao anúncio Putin contribuíram, entretanto, para a sua retirada da Internet.

Marca: TyC Sports. Título: Putin. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2018.

Marca: TyC Sports. Título: Trump. Agência: Mercado McCann. Argentina, Maio 2016.

Humanização técnica

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A Samsung disponibiliza uma aplicação que fala por nós, corrigindo-nos, quando comunicamos com pessoas que sofrem de depressão. Quando a inteligência artificial se revela mais sensível do que a inteligência humano, o caso é grave.

“People with depressions are sensitive and can be prone to specific words or phase. Even with good intentions, sometimes people say things that do more harm than good.   PREDICT TO PREVENT, a predictive text keyboard that can prevent tragedy from depression. By suggesting right choices of words instead of ones that can potentially hurt those people with depression around you, to prevent the unintentional damage. Predict to Prevent is compatible with every messaging application. The keyboard is available in English and Thai.”

Marca: Samsung. Título: Predict to prevent. Agência: BBDO Bangkok. Tailândia, Abril 2018.

Mãos que tremem

Georges Moustaki

Acontece tremerem-me as mãos. Não consigo beber um copo de água, nem tão pouco assinar. Entendem os médicos que é um efeito secundário de alguns medicamentos que tomo. Pressinto, não obstante, o que pode significar a doença de Parkinson. Deus nem sempre escreve direito por linhas tortas. Em algumas linhas as letras vibram.

O anúncio Shake Parkinsons Off, do Institut du Cerveau et de la Moelle Épinière, confina-se à tremura de mãos provocada por emoções fortes, concluindo com um desejo: “só as emoções deveriam fazer-nos tremer”. O anúncio não mostra mãos associadas à doença de Parkinson. Alude à doença sem a exibir, tal como Georges Moustaki fala da revolução sem a nomear. Artes da comunicação.

Segue o anúncio Share Parkinsons Off, mais duas canções de Georges Moustaki:  Sans la nommer (1974) e, por inércia, Il est trop tard (1969).

Anunciante: ICM – Institut du Cerveau et de la Moelle Épinière. Título : Shaking Parkinsons Off. Agência : Publicis Conseil (Paris). França, Abril 2018.

Georges Moustaki. Sans la nommer. Les Amis de Georges. 1974. Extrait de l’émission “Bonjour bonsoir la nuit” du 01 août 1981 (INA).

Georges Moustaki. Il est trop tard. Le Métèque. 1969.