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Estética de género

Gustav Klimt. Retrato de Adele Bloch-Bauer. 1907.

A Dove preza a valorização estética das belezas menos belas (vídeo 1). Seria equilibrado incluir, nesta equação cosmética, os homens? Não são, a priori, elegíveis? O milagre é apenas feminino? Na verdade, existe uma linha masculina de produtos Dove. Numa amostra de cinquenta anúncios Dove, uma meia dúzia contempla homens. Quais são os tópicos? A notícia da gravidez (vídeo 2), a feminização da masculinidade (vídeo 3), um pintor de mulheres (vídeo 4), momentos paternos (vídeo 5)… Não há beleza masculina alternativa? A beleza dos “feios, porcos e maus”? O valor da beleza conjuga-se, sobretudo, no feminino. A igualdade é fatalmente desigual. Acontece-me ficar confuso: todas as mulheres são belas, umas mais que outras, mas aquelas que são menos belas são as mais belas de todas. A Dove não desconhece o poder da beleza, relativiza-o.

Marca: Dove. Título: It’ on Us. Agência: LOLA Mullen Lowe Madrid. Direção: Lourens Van Rensburg. Espanha, março 2021.
Marca: Dove. Título: First Fatherhood moments. Estados-Unidos, junho 2015.
Marca: Dove. Título: Slow. Agência: Ogilvy & Mather (Brasil). Direção: Carlão Busatto. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Real Beauty Sketches. Agência: Ogilvy (São Paulo). Direção: John x Carey. Brasil, 2013.
Marca: Dove. Título: Calls for dads. Estados-Unidos, 2014.

Gravidez e carreira profissional

Paula Rego. Pregnant Rabbit Telling Her Parents.1982.

Uma primeira leitura do anúncio A Career-Limiting Move separou-me os fusíveis. Nossa Senhora das Candeias! Só a repetição até à última letra acendeu a inteligência. Afinal, o significado deste stop motion é óbvio:

Anna Mantzaris directs a funny and important stop motion piece for Global Women New Zealand, in time for International Women’s Day 2021. Anna uses her signature style with humour and imperfect characters, to raise awareness of the “Motherhood Penalty” that significantly impacts women in the workplace in New Zealand. The short shows there is almost nothing a woman can do in the workplace that is more career-limiting than having a baby (http://www.passion-pictures.com/uk/animation-studios/project/global-women/).

Como pode uma mulher condenar a carreira profissional? Cortar a gravata ao patrão? Criar o caos no escritório? Surripiar uma bolacha ao patrão e regurgitá-la? Nem pensar! Fatal, mesmo, é engravidar. Talvez cortar o equivalente simbólico da gravata.

Anunciante: Global Women. Título: A Career-Limiting Move. Agência: Saatchi & Saatchi NZ. Direção Anna Mantzaris. Nova-Zelândia, março 2021.

Maternidade desportiva

Nike. The toughest athletes. 2021.

Guerreiros e atletas. Espartanos. Olímpicos. Semideuses e ídolos. Desde a Antiguidade, que a proeza exalta os seres humanos. Pela obra e pela devoção. À semelhança dos pódios gregos, muitos anúncios publicitários parecem escaparates elitistas de heroínas e heróis. No anúncio The Toughest Athletes, da Nike, as mulheres atletas, mães ou grávidas, são fortes e resistentes. O segredo provém do uso de roupas desportivas Nike. No contexto atual da natalidade, este anúncio é oportuno.

“Dados do Instituto Nacional de Estatística dão conta de que, em 2020, houve menos 2,6% nascimentos e mais 10,2% óbitos do que em 2019. Em 2020, nasceram menos bebés em Portugal e o número de óbitos cresceu muito, o que fez com que o saldo natural do país (a diferença entre o número de nados-vivos e de óbitos) continuasse negativo, pelo 12.º ano consecutivo, e em valores superiores aos anteriores. Os dados, ainda preliminares, são do Instituto Nacional de Estatística (INE) e foram revelados esta terça-feira (Morremos mais e houve menos nascimentos: saldo natural em Portugal cada vez mais negativo. Público, 16 de março de 2021: https://www.publico.pt/2021/03/16/sociedade/noticia/morremos-menos-nascimentos-saldo-natural-portugal-negativo-1954621).

Marca: Nike. Título: The Toughest Athletes. Agência:Wieden+Kennedy London. Reino Unido, março 2021.

Espelho de aumento

Master of the Coronation of the Virgin. De mulieribus claris, Marcia, circa 1403.

“Não aprecio anúncios de promoção a categorias sociais. A discriminação positiva é discriminação”, de raça, etnia, nacionalidade, religião, política, profissão, estatuto, saúde, conhecimento, estética, desporto, idade e, neste caso, género. Por apreciáveis que sejam, não aprecio. Mas não censuro. Como escreve Norman Rush (2015), “a discriminação positiva é uma expressão curiosa. É a desigualdade ao serviço da igualdade” (Corps subtils, Paris: Rivages). Não é menos verdade que a sociedade não é uma folha de papel milimétrico onde se traçam riscos de boa vontade. A sociedade, incluindo o universo feminino, é rugosa, diferenciada e imprevisível. As dobras da desigualdade não são fáceis de engomar. O critério predominante de seleção de anúncios do Tendências do Imaginário não é o tema, o dilema ou a ideologia, mas a qualidade. O anúncio First of Many — Women’s History Month 2021, da Google, é excelente, ressuma qualidade, da primeira até à última imagem. Imagens de uma elite.

Marca: Google. Título: First of Many – Women’s History Month. Estados-Unidos, maio 2021.

Mulheres no poder

Posthumous painted portrait of Cleopatra VII of Egypt, from Herculaneum, Italy. 1st century AD.

A Maria Beatriz, pioneira da Sociologia em Portugal, partilhou este vídeo sobre o protagonismo político de mulheres. Por princípio, não aprecio publicidade promotora de uma categoria social. A discriminação positiva é discriminação. Mas, para além da massagem, o vídeo The women are coming proporciona uma aprendizagem. Não imaginava!

British Columbia Women’s Institute. Women are coming. Janeiro 2021.

Os Farrangalheiros

Farrangalheiros. Entrudo. Castro Laboreiro. Melgaço.

Faço parte de uma equipa que está a estudar os Farrangalheiros de Castro Laboreiro. Segue uma série precoce de apontamentos. Ainda estamos no início da investigação. Mas os apontamentos não servem apenas para registar o que foi feito mas também para antever o que falta fazer. Abrem janelas.

“Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal. Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça.
A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.
Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves (…) Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes.
Miguel Torga. Portugal. 1950.

É costume encarar Castro Laboreiro como uma povoação isolada, num extremo do País, cercada pela Espanha. Com acessos difíceis até meados do século XX. Em verdade, não é uma população isolada. Outrora, a maioria dos homens migrava sazonalmente para o Douro, para as Beiras ou para a Galiza. A partir da Segunda Guerra, a emigração castreja para a Europa foi pioneira. Outras atividades contribuíram para a abertura de Castro Laboreiro. Por exemplo, a mineração do volfrâmio e o contrabando, que mobilizou homens e mulheres. Castro Laboreiro não é o fim do mundo. É, antes pelo contrário, “princípio do mundo” (Manoel de Oliveira, Viagem ao princípio do mundo, 1997). Quem se encontra com um castrejo, arrisca-se a conversar com um cidadão do mundo. Num recanto nas alturas, o cosmopolitismo prevalece. A saída massiva dos homens constrange as mulheres a substituir os pais e os maridos ausentes. Cumpre-lhes a responsabilidade do governo da casa, das propriedades, dos animais, dos pais e dos filhos. Conservam e criam o mundo, ao nível económico, social e cultural.

Castro Laboreiro localiza-se na serra da Peneda. A aldeia do Curral do Gonçalo ergue-se a 1 166 metros de altitude. Esta inscrição geográfica não isola, nem repele. Cedendo à poesia, aproxima do céu. Castro Laboreiro é rico em tradições antigas e originais. Os Farrangalheiros (esfarrapados) do Entrudo representam um exemplo.

Traje. Entrudo. Farrangalheiro. Mulher. Castro Laboreiro.

O entrudo castrejo (entroido na língua local), que inclui os Farrangalheiros, é um ritual carnavalesco comunitário. Não há memória da sua origem. As mulheres solteiras destacam-se como os principais protagonistas. Vestem um traje específico (ver fotografias). O saiote vermelho pertence à roupa interior, que, retirada a saia escura, fica, por um tempo, exposta. Na cabeça, os “garruços” são enfeitados com fitas coloridas. A cobrir a face, um bordado de renda serve como máscara. É feito pelas próprias portadoras. Como calçado, umas socas; na mão, um pau, um animal ou outro elemento provocador. Excetuando o “lenço franjon, todas as participantes usam o mesmo traje. Percorrem, neste preparo, os largos, os caminhos e as casas, a “meter-se” com as pessoas, achincalhando-as com humor. O ritual culmina, no último dia, terça-feira, com a queima do Entrudo. Um boneco de palha envolto em roupas velhas é queimado em local alto para ser visto ao longe pelos lugares vizinhos.

“A  palavra Entrudo provém do latim introitus, que significa «acto de entrar, entrada, acesso, introdução, começo». Nos textos medievais, aparecem registados os termos entruido e entroydo. Mais tarde, o termo apresenta a grafia com i: Intrudo. O Entrudo começou por designar a noite de terça-feira, que era a entrada da Quaresma; depois a própria terça-feira e, finalmente, os três dias que precedem imediatamente a entrada da Quaresma” (Ciberdúvidas da língua portuguesa: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/entrudo-novamente/26236).

O Entrudo é uma passagem, uma transição entre dois mundos, entre dois tempos. O antes e o depois. O interior e o exterior. O Entrudo despede-se do Inverno, do “velho”, rumo à Primavera. Para trás fica a escassez, o sono dos campos e a hibernação social. O Entrudo é um prenúncio, que se projeta para além da Quaresma. Crescem os dias, amanha-se a terra e rasgam-se os horizontes. O colorido exuberante dos “garruços” ofusca a escuridão invernal. Nesta perspetiva, o Entrudo é uma premonição mágica. Os rituais querem-se promessa. O banquete, por exemplo, é uma antecipação da abundância. Simula-se agora para garantir depois. Sobre as cinzas do passado, semeia-se o futuro.

Existe uma mudança cíclica na vida de Castro Laboreiro. Provavelmente, não se prende com o Entrudo. Não resisto, porém, a mencioná-la. Trata-se da “transumância”. Em muitas aldeias, os castrejos passavam o Inverno nas inverneiras, situadas nos vales, para onde descem no início do Outono. Em março, por altura do Entrudo, subiam, pessoas, animais e mobília, para as brandas, no planalto. A proximidade da data do Entrudo e da deslocação para as brandas resume-se, presumo, a uma mera coincidência. Não obstante, convém verificar.

O Entrudo encena e regenera a comunidade. Momentos como o banquete ou a queima do Entrudo propiciam uma comunhão emocional. O rebaixamento e a crítica revitalizam a sociedade numa espécie de caldo reparador. O mal é denunciado e Judas queimado. A fogueira é ambivalente: queima, ilumina e aquece. O fogo dizima mas também purifica. Ilumina a noite. A fogueira ameaça mas também aquece e redime o corpo, a alma e a comunidade. À volta da fogueira, a sociedade expõe-se e recompõe-se. A potência simbólica do fogo é universal (Bachelard, Gaston, La Psychanalyse du Feu, 1938; Durand, Gilbert, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, 1960).

“Queimas, há muitas! Do Judas, da velha, do velho, das bruxas, dos hereges, das fitas… Queima-se o frio no São Martinho e a noite no São João. Queima-se o galo em Barcelos. Tudo se queima, tudo se regenera, tudo se purifica. Queimamos tudo, queimamos tudo, e quase não deixamos nada. Mas as cinzas não são cinzas, não; são sementes, sementes da nossa condição” (Gonçalves, Albertino, A queima dos vampiros, https://tendimag.com/2019/05/25/a-queima-dos-vampiros/).

“Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (Gonçalves, Albertino, A bênção escatológica num mundo às avessas”. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado, https://tendimag.com/2017/12/14/a-bencao-escatologica-num-mundo-as-avessas-os-servicos-da-tarde-na-festa-de-sao-joao-de-sobrado/).

Nos Farrangalheiros do Entrudo castrejo, a participação feminina está confinada às mulheres solteiras. A roupa interior, o saiote vermelho, é exibida. Um pano de renda protege o rosto. Se fosse psicanalista, ao jeito de Sigmund Freud ou de Carl Jung, avançaria que são símbolos de fecundidade, ver de sexualidade. Os bailes e os animais transportados podem ser incluídos nesta leitura. É costume associar-se as manifestações carnavalescas à desordem, ao convívio, à liberdade, à crítica, à igualdade, à utopia e à folia. Na realidade, a fecundidade e a sexualidade rivalizam com estes tópicos (Bakhtin, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais, S. Paulo, Editora Hucitec, 1987). De Roma ao Brasil, passando pela Idade Média, a sexualidade palpita na experiência carnavalesca.

Numa sociedade pendurada no presente e omnívora, Castro Laboreiro guarda memórias e segredos.

Um buraco na água. Julien Clerc.

M.C. Escher. Rippled Surface, March 1950.

Sinto falta! Sinto falta! Sinto a tua falta, mulher! Quero a quem não quer. Um buraco na água. É estúpido querer quem não quer. Como é estúpida a estupidez!

Julien Clerc. Femmes je vous aime. Femmes, indiscrétion, blasphème. 1982. Ao vivo: Le Grand Studio RTL, 2016 (?).

As malhas do género

Libresse. #wombstories. 2020.

Três anúncios excelentes,

Tem vindo a crescer o número de anúncios dedicados ao género. Abrangem todas a categorias: transgénero, homossexual, lésbica, heterossexual… A maioria propõe anúncios de promoção. Existem, no entanto, anúncios que, embora centrados no género, não visam a promoção de uma categoria, mas a exposição da sua condição,  sem visar uma “vantagem competitiva”. Parece ser o caso do anúncio Womb Stories, da Libresse. “Histórias de úteros”, com dores e prazer, amor e horror, que revelam uma relação contraditória com corpo e a mente. O anúncio é impactante. A combinação de sequências filmadas e de animação funciona magistralmente.

“And yet the same research found that half of women feel society wants them to keep silent about their experiences, while half of women felt staying silent about their issues damaged their mental health. This leads to a damaging silence around a range of difficult and sensitive issues that women face every day. The physical concern may be treated, but the emotional dimension is often left unheard and overlooked” (https://www.lbbonline.com/news/libresse-tells-a-wombstory-no-ad-has-told-before-in-latest-taboo-busting-ad).

Marca: Libresse. Título: #wombstories. Agência: AMV BBDO. Direcção: Natasha Braier. Reino Unido, Julho 2020.

O anúncio #ShareTheLoad, da Ariel, adopta um discurso feminista num país, a Índia, patriarcal. Teve um impacto mediático e social considerável. Ganhou vários prémios. Trata-se de um anúncio que promove, assumidamente, a condição feminina.

Marca: Ariel. Título: #ShareTheLoad. Agência: BBDO India. Índia, Fevereiro 2016.

O anúncio Francesca, da Diesel, é um misto de exposição de uma condição e promoção de uma categoria.

“No mês do orgulho LGBTQI+, a DIESEL apresenta seu novo filme “Francesca”, dirigido por Francois Rousselet e realizado com o Conselho da Diversity, associação italiana comprometida com a promoção da inclusão social.
O filme criado pela Publicis Itália mostra cenas de uma jovem transgênera e sua jornada durante o processo de transição de gênero. Vemos Francesca, que nasceu menino, se transformar em uma linda mulher, enquanto acompanhamos seu cotidiano, as descobertas dos elementos que compõem o universo feminino e sua relação com a fé, que a leva a buscar a vida em um convento” (https://www.youtube.com/watch?v=535_479z-hM).

Marca: Diesel. Título: Francesca. Agência: Publicis (Itália). Direcção: François Rousselet. Internacional, Junho 2020.

Comportar-se como uma mulher

Girls, Girls, Girls Magazine. Be a lady, they said. 2020.

A revista Girls, Girls, Girls Magazine publicou um excelente anúncio feminista com um discurso contundente:  Be a Lady,  They said (2017), com texto de Camille Rainville e interpretação de Cynthia Nixon (da série Sex and the City).

Que se pede a uma mulher? Um sacrifício eterno? A esquizofrenia do duplo vínculo? Que seja a mesma e o contrário, eventualmente tudo e nada: Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Retenho dois traços do anúncio, de algum modo, ressonantes.

 A primeira metade do anúncio, cerca de minuto e meio, é dedicada aos cuidados do corpo. Obsessão de quem para quem? Li algures, há muitos anos, que, no que respeita à apresentação si, o espelho das mulheres seria mais feminino do que masculino. Importaria mais a reacção de outras mulheres do que dos homens. Verdade?

A maternidade é abordada em meia dúzia de frases curtas: “um dia serás uma boa esposa (…) dá-lhe filhos / tu não queres filhos / mais tarde ou mais cedo, eles virão / tu mudarás de opinião”. Trata-se de um discurso abonatório da maternidade? O que é ser mulher? Não sei, nem em concreto, nem em definido! A maternidade é uma relação de poder? Um desejo transplantado? Uma injunção bíblica? A maternidade parece ser o nó cego da nova humanidade.

Também não sei o que é ser homem. Seria oportuno um anúncio homólogo centrado, agora, no mote “tu serás um homem, meu filho”. Talvez resultasse esclarecedor.

Marca: Girl Girl Girl Magazine. Título: Be a lady, they said. Direcção: Paul Mclean. Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Be a lady, they said
By Camille Rainville


Be a lady they said. Your skirt is too short. Your shirt is too low. Your pants are too tight. Don’t show so much skin. Don’t show your thighs. Don’t show your breasts. Don’t show your midriff. Don’t show your cleavage. Don’t show your underwear. Don’t show your shoulders. Cover up. Leave something to the imagination. Dress modestly. Don’t be a temptress. Men can’t control themselves. Men have needs. You look frumpy. Loosen up. Show some skin. Look sexy. Look hot. Don’t be so provocative. You’re asking for it. Wear black. Wear heels. You’re too dressed up. You’re too dressed down. Don’t wear those sweatpants; you look like you’ve let yourself go.

Be a lady they said. Don’t be too fat. Don’t be too thin. Don’t be too large. Don’t be too small. Eat up. Slim down. Stop eating so much. Don’t eat too fast. Order a salad. Don’t eat carbs. Skip dessert. You need to lose weight. Fit into that dress. Go on a diet. Watch what you eat. Eat celery. Chew gum. Drink lots of water. You have to fit into those jeans. God, you look like a skeleton. Why don’t you just eat? You look emaciated. You look sick. Eat a burger. Men like women with some meat on their bones. Be small. Be light. Be little. Be petite. Be feminine. Be a size zero. Be a double zero. Be nothing. Be less than nothing.

Be a lady they said. Remove your body hair. Shave your legs. Shave your armpits. Shave your bikini line. Wax your face. Wax your arms. Wax your eyebrows. Get rid of your mustache. Bleach this. Bleach that. Lighten your skin. Tan your skin. Eradicate your scars. Cover your stretch marks. Tighten your abs. Plump your lips. Botox your wrinkles. Lift your face. Tuck your tummy. Thin your thighs. Tone your calves. Perk up your boobs. Look natural. Be yourself. Be genuine. Be confident. You’re trying too hard. You look overdone. Men don’t like girls who try too hard.

Be a lady they said. Wear makeup. Prime your face. Conceal your blemishes. Contour your nose. Highlight your cheekbones. Line your lids. Fill in your brows. Lengthen your lashes. Color your lips. Powder, blush, bronze, highlight. Your hair is too short. Your hair is too long. Your ends are split. Highlight your hair. Your roots are showing. Dye your hair. Not blue, that looks unnatural. You’re going grey. You look so old. Look young. Look youthful. Look ageless. Don’t get old. Women don’t get old. Old is ugly. Men don’t like ugly.

Be a lady they said. Save yourself. Be pure. Be virginal. Don’t talk about sex. Don’t flirt. Don’t be a skank. Don’t be a whore. Don’t sleep around. Don’t lose your dignity. Don’t have sex with too many men. Don’t give yourself away. Men don’t like sluts. Don’t be a prude. Don’t be so up tight. Have a little fun. Smile more. Pleasure men. Be experienced. Be sexual. Be innocent. Be dirty. Be virginal. Be sexy. Be the cool girl. Don’t be like the other girls.

Be a lady they said. Don’t talk too loud. Don’t talk too much. Don’t take up space. Don’t sit like that. Don’t stand like that. Don’t be intimidating. Why are you so miserable? Don’t be a bitch. Don’t be so bossy. Don’t be assertive. Don’t overact. Don’t be so emotional. Don’t cry. Don’t yell. Don’t swear. Be passive. Be obedient. Endure the pain. Be pleasing. Don’t complain. Let him down easy. Boost his ego. Make him fall for you. Men want what they can’t have. Don’t give yourself away. Make him work for it. Men love the chase. Fold his clothes. Cook his dinner. Keep him happy. That’s a woman’s job. You’ll make a good wife some day. Take his last name. You hyphenated your name? Crazy feminist. Give him children. You don’t want children? You will some day. You’ll change your mind.

Be a lady they said. Don’t get raped. Protect yourself. Don’t drink too much. Don’t walk alone. Don’t go out too late. Don’t dress like that. Don’t show too much. Don’t get drunk. Don’t leave your drink. Have a buddy. Walk where it is well lit. Stay in the safe neighborhoods. Tell someone where you’re going. Bring pepper spray. Buy a rape whistle. Hold your keys like a weapon. Take a self-defense course. Check your trunk. Lock your doors. Don’t go out alone. Don’t make eye contact. Don’t bat your eyelashes. Don’t look easy. Don’t attract attention. Don’t work late. Don’t crack dirty jokes. Don’t smile at strangers. Don’t go out at night. Don’t trust anyone. Don’t say yes. Don’t say no.

Just “be a lady” they said.

Parfum Femme

Margot Robbie. Chanel.

Perfume! Fragrância, emanação, libertação… A “esfera aromática” é uma extensão da “esfera pessoal” (G. Simmel). O odor é tão íntimo quanto intrusivo. Envolvente, a seu alcance, nada escapa. Perfume, flor; flor, beleza; perfume beleza. Ninguém aposta tanto na estética como a indústria dos perfumes. Expressão, volubilidade, mulher. flor, beleza, libertação; seis palavras para dizer um anúncio.

Marca: Chanel. Título: Gabrielle Chanel Essence. Direcção: Nick Knight. Agosto 2019.