Mangueira

Aguardei pelas 22 horas para recolocar o artigo Sugestão (21.07.2018). Não perguntem o motivo que a resposta pode ser delicada. Configura um exemplo de “fetichismo alegórico” (ver O robot emocionado). À primeira vista, o anúncio Aquarium “não tem ponta por onde se peque”.
O busílis está na sugestão: a mangueira, “nó de sentido”, presta-se a interpretações dúbias. No fim, insinua-se a palavra “sex”, que nãos costuma ser invocada em vão. Pelo sim, pelo não, o anúncio ressurge fora de horas, embora para sempre. Lobo bem vestido parece um cordeiro.
Marcadores e post its

Os marcadores são úteis para relevar detalhes que arriscam permanecer diluídos. Por exemplo, as mulheres notáveis nas fotografias coletivas da campanha “Highlight the Remarkable”, da Stabilo Boss (artigo Mulheres protagonistas, colocado em 10 de julho de 2018).
Por seu turno, os post its prestam-se ao registo de pequenos apontamentos, tais como as lições de “civilidade pueril” publicadas por Erasmo de Roterdão em 1530 (artigo Boas maneiras: os conselhos de Erasmo, colocado em 10 de julho de 2019).
Imagem: Sonia Delaunay – Figurino para “La danseuse aux disques”, 1923
Língua e visão do mundo

As palavras são decisivas. Segundo Ferdinand de Saussure (Cours de linguistique génerale, 1916), a língua organiza a perceção e a experiência humanas; fornece os quadros conceptuais, os sistemas de diferenças e valores, através dos quais pensamos e interpretamos. A existência ou falta de palavras distintivas para dizer uma dada realidade influencia o modo como a apreendemos e expressamos. O anúncio “Always”, no artigo “No princípio, era a palavra”, representa um bom exemplo.
A dádiva da Memória. De filho para pai
Gratidão: não ver a prenda, mas quem a oferece (anónimo).
Todos os anos, próximo do Natal, a rede britânica de lojas John lewis faz questão de lançar um anúncio marcado pelo espírito de partilha e generosidade. Convoca quase sempre a família e recorre frequentemente à fantasia. “Where Love Lives” prescinde da fantasia e concentra-se na relação entre gerações, designadamente entre filho e pai.
Memória puxa memória. O tempo, suposto linear, contorce-se. E o início, o passado, e o fim, o presente, abraçam-se.
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Prenda cortesã precursora

Concluído em 1405, o Livro da Cidade das Damas (Le Livre de la Cité des Dames) foi escrito, em prosa, por uma mulher, Christine de Pisan, em defesa das mulheres, Uma obra pioneira “antimisógin”. Foi ainda autora do Livro das Três Virtudes (Le Livre des Trois Vertus), de 1405, e do livro de poesia Le Ditié de Jehanne d’Arc, de 1429.
“Cristhine de Pisan (1365.1431) é considerada como uma das primeiras mulheres escritoras em França. Viúva e mãe de família aos 25 anos, escolheu a escrita para ganhar a sua vida. Tornou-se poetisa de corte, oferecendo-lhe alguns senhores a sua proteção, a exemplo do duque de Borgonha ou do duque de Orléans. Mas foi também autora de livros de pendor político e moral, e dirigiu uma oficina de copistas.
No Le Livre de la Cité des dames, de 1405, promove uma análise crítica da sociedade a par de soluções para sair da crise do século XV. Christine de Pisan inclui-se a si mesma na narrativa: consternada pelas divisões que dilaceram a França, decide construir uma “Cidade das damas” onde as mulheres ilustres dariam o exemplo. Personagens alegóricas exclusivamente femininas, tais como a Dama Razão, a Dama Retidão e, ainda, a Dama Justiça [Dame Justice] ajudam-na a educar as mulheres de todas as idades e condições sociais” (Le Livre de la Cité des dames de Christine de Pisan, Passerelle[s ] – Bibliothèque Nationale de France).

Citação de Christine de Pisan:
Se fosse o costume mandar jovens meninas para a escola e ali ensiná-las toda sorte de diferentes matérias, assim como se faz com jovens meninos, elas entenderiam e aprenderiam as dificuldades de todas as artes e ciências com tanta facilidade quanto os meninos. […] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional (Christine de Pizan, Livro da Cidade das Damas. Manuscrito original: 1405).

Inteligência artificial e (des)igualdade de género
Ao João

Ao permitir o resgate do protagonismo feminino historicamente invisibilizado, o recurso à Inteligência Artificial pode revelar-se uma aposta de marketing e publicidade oportuna. A inserção do retrato da astrónoma Amélie Le Français de La Lande no rótulo de uma nova proposta de vinho da Adega Dante Robino, o Grand Dante Cabernet Franc, leva a agência argentina TombrasNiña a socorrer-se não só da pesquisa histórica mas também da Inteligência Artificial Generativa.
Todas las etiquetas de Gran Dante habían sido diseñadas con cuadros de reconocidos astrónomos como elemento principal. Durante el proceso de trabajo, se descubrió que, a lo largo de la historia, se había invisibilizado el trabajo de las astrónomas y su enorme aporte al entendimiento del universo y el cosmos. Tanto es así, que incluso habían escrito libros que fueron firmados por hombres para que pudieran ser publicados y salir a la luz.
“Decidimos tomar cartas en el asunto y, luego de un extenso trabajo de estudio e investigación en conjunto con la agencia, elegimos a Amélie Le Français de La Lande como protagonista. Entre sus numerosos aportes, calculó las tablas de horarios navales que permitían a los marinos determinar su posición en el mar, calculando la altura del Sol y las estrellas”, comentó Inés Mastrogiacomo, de Bodega Dante Robino.
Martín Bernasconi y Artur Monteiro Ziguratt, head of art y headof IA de TombrasNiña respectivamente, comentaron: “La utilización de IA Generativa fue fundamental, pero también tuvimos que llevar a cabo un profundo análisis de la época para lograr una representación fidedigna de Amélie y su entorno en términos arquitectónicos, de vestimenta, peinados y otros detalles. Una vez más, vemos el potencial de las nuevas tecnologías combinadas con la estrategia y la creatividad”. (Adlatina, Preestreno: TombrasNiña y Dante Robino visibilizan a las mujeres en la ciencia: https://www.adlatina.com/publicidad/preestreno-tombrasnina-y-dante-robino-visibilizan-a-las-mujeres-en-la-ciencia).
A amamentação através do tempo. II – Primeiro milénio pagão

Com tempo para semear, acrescento um novo episódio à história ilustrada da amamentação, desta vez, com imagens pagãs, não cristãs, do primeiro milénio.
Nos primeiros séculos da era cristã, predominam as figuras “pagãs” celtas, galo-romanas e do culto a Ísis, então no auge. As obras, sobreviventes, com a Virgem Maria resultam raras até finais do milénio, principalmente no continente europeu.
Imagem: Estela funerária De Medinet el-Fayumséc. Egito. Séc. IV ou V d.C.Talvez uma das primeiras virgens do leite (Galakotrophousa) coptas. Museum fürByzantinische Kunst. Berlim
As Deusas-mães, ou Matronas, de origem celta e galo-romana conheceram uma divulgação considerável durante este período (Figuras 2.01; e 2.07 a 2.15). Estatuetas de terracota, frequentemente com menos de um palmo, eram reproduzidas com recurso a moldes (Figuras 2.12 a 2.14). Ísis, entretanto, romanizou-se, passando a exibir túnicas e mantos ao estilo greco-romano (Figuras 2.02; 2.03; 2.16; e 2.17). Acrescem alguns relevos com uma mãe e um bebé em estelas de túmulos de crianças (Figuras 2.04 a 2.06).
Colocadas em altares domésticos, santuários e sepulturas, estas imagens, associadas à proteção das crianças, à maternidade, à terra, às fontes, à fecundidade e à abundância, não só precedem como prefiguram as dedicadas posteriormente à Virgem Maria.
Segue uma galeria com menos de dúzia e meia de imagens. Permitam-me, todavia, uma confidência: excecionais, são exemplares deveras difíceis de encontrar e identificar, inclusivamente na Internet. Trata-se de uma tarefa que requer algum engenho e muita paciência. Só mesmo para quem se interessa por coisas que não lembram ao diabo!
Galeria 2. Imagens pagãs do primeiro milénio da era cristã

















Pensadoras

O artigo “Cristo ensimesmado” (https://tendimag.com/2024/03/18/recaida-no-vicio-das-imagens/) peca por omissão. Arrisca sugerir que entre as figuras que antecedem O Pensador, de Auguste Rodin, só existem homens. Nada mais falso. Existem muitas (imagens de) pensadoras.




Se no masculino se destaca Cristo, entre as mulheres sobressaem Penélope, apoquentada pela demora de Ulisses, e Maria Madalena, figura maior da hagiografia cristã, nem Eva, nem Virgem, que, retirada em penitência no deserto, se entrega à meditação.









Não obstante os casos exemplares de Penélope e Maria Madalena, a figura cuja pose mais se aproxima da do Pensador de Rodin parece-me ser a alegoria da Escultura, de Valerio Cioli (1529–1599), no túmulo de Michelangelo, concluído por volta de 1574. Só falta despi-la!



Períodos de insónia

A menstruação revela-se como um dos principais pretextos, materiais e simbólicos, da dominação masculina. A este respeito, falta percorrer um longo e espinhoso caminho, mormente ao nível do imaginário. A Libresse, Bodyform no Reino Unido, tem ousado alguns passos. No anúncio Blood Normal (2017), é a primeira marca a assumir o vermelho do fluxo menstrual, rompendo com a tradição, sublimada, em azul ou verde: “periods are normal. Showing them should be too” (ver Coisa Ruim: https://tendimag.com/2017/10/26/coisa-ruim/). No ano seguinte, 2018, o esplêndido, desinibido e divertido anúncio Viva la Vulva empenha-se na valorização estética da genitália feminina (ver Vulvas e Pirilaus: https://tendimag.com/2018/12/04/vulvas-e-pirilaus/).
O anúncio #Periodsomnia, uma peça de “arte digital” impressionante, prossegue a campanha, “que visa erradicar tabus e vergonha em torno das experiências íntimas das mulheres”, agora com incidência empática nas consequências quotidianas da menstruação, designadamente ao nível da qualidade do sono: “Uma nova pesquisa conduzida pela Libresse revela que, em média, as mulheres perdem 5 meses de sono ao longo da vida devido ao desconforto, à ansiedade e ao medo noturnos durante o período”. Trata-se de mais um caso de uma iniciativa de sensibilização motivada por um interesse próprio bem interpretado. Registe-se, por último, a tendência para o recurso a dados estatísticos para sustentar as mensagens de consciencialização.














































