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O Novo País das Maravilhas

Al!ce, by MIMAGIE, 2026

Os artigos A Teia e Extensões do Homem, de 28 de setembro de 2014, desafiam-me, mas não me são estranhos. Consigo enxergá-los. Em contrapartida, a curta-metragem Al!ce não me é estranha, mas ultrapassa-me. Não logro alcançar as potencialidades de tantas artes e possibilidades. Não “alicia” ser arrastado por uma enxurrada de afluentes sem leito nem estuário antecipáveis. Tamanha maravilha confunde-me.

A Teia, 28.09.2014
Extensões do homem, 28.09.2014
Al!CE SHORT FILM by MIMAGIE, posted 16/09/2026. Produced by mimagie studio, with a screenplay by Daria Sherstobitova and directed by Miguel Ivanov

AL1ICE: Uma fábula cômica surreal sobre uma Alice moderna que ensaia inspirar um filme de IA para uma competição. Consoante a produção se desenrola, a linha entre a vida real, o processo de filmagem e o País das Maravilhas começa a dissolver-se. Estruturado como uma narrativa recursiva, a curta-metragem trata o País das Maravilhas não como uma adaptação, mas como um ciclo de retroalimentação cultural, onde a ficção do século XIX, a produção de imagens contemporânea e a mitologia do cinema começam a se influenciar mutuamente. Produzido pelo estúdio MIMAGIE, com roteiro de Daria Sherstobitova e direção de Miguel Ivanov, Al!CE foi originalmente desenvolvido para a competição Higgsfield. O trabalho combinou desenvolvimento de roteiro e argumento, seleção de elenco, figurino e design de locação, planeamento de storyboard, pré-visualização, geração de vídeo, edição, preparação de diálogos, música e design de som. O processo visual central começou com o texto. Rostos e figurinos gerados tornaram-se referências para composições cénicas; essas composições, por sua vez, guiaram a geração de vídeo. Ilustrações de Tenniel, em domínio público, serviram de inspiração para poses e arranjos selecionados. As imagens foram editadas e tiveram suas cores corrigidas no Photoshop antes de ser preparadas para o Seedance, enquanto as músicas foram desenvolvidas com o Suno. Todas as vozes foram criadas nos laboratórios elevel. Os locais foram construídos como ambientes gerados, com atenção à geografia, ângulos reversos e iluminação consistente. O tratamento guiou a atuação, o movimento da camara e a revisão ao longo de todo o processo.

Imagine Dragons – Mad World (Gary Jules cover). Evolve, 2017. 1Live Session. Posted 28.06.2017

Soturnos e noturnos

The Chateau of Neuchatel at dusk, with Jura mountains beyond (1866) by John Ruskin
Um corpo que se perde, 21.09.2012
Suicídio, 20.09.2019
Noturnos, 15.06.2021

Barbárie

Make love not scars. Beauty tips by Reshma – How to get perfect red lips. Ogilvy & Matter. Índia, Agosto 2015
Desfiguração. Tendências do Imaginário, 05.09.2015

Amigos do peito

Berlei – Boob Balls. The Monkeys. Austrália, 2018
A felicidade dos seios. Tendências do Imaginário, 04.09.2017
Berlei – Boob Balls. Agência: The Monkeys. Austrália, 2018

Chuva carnal

Jean Michel Basquiat. Fallen Angel. 1981
Verticalidade. Tendências do Imaginário, 03.09.2019

Nazismo e antitabagismo

German anti-smoking campaign poster, ca. 1940
Antitabagismos. Uma nota histórica parcelar. Tendências do Imaginário, 26.08.2026

Mangueira

Aguardei pelas 22 horas para recolocar o artigo Sugestão (21.07.2018). Não perguntem o motivo que a resposta pode ser delicada. Configura um exemplo de “fetichismo alegórico” (ver O robot emocionado). À primeira vista, o anúncio Aquarium “não tem ponta por onde se peque”.

O busílis está na sugestão: a mangueira, “nó de sentido”, presta-se a interpretações dúbias. No fim, insinua-se a palavra “sex”, que nãos costuma ser invocada em vão. Pelo sim, pelo não, o anúncio ressurge fora de horas, embora para sempre. Lobo bem vestido parece um cordeiro.

Marcadores e post its

Os marcadores são úteis para relevar detalhes que arriscam permanecer diluídos. Por exemplo, as mulheres notáveis nas fotografias coletivas da campanha “Highlight the Remarkable”, da Stabilo Boss (artigo Mulheres protagonistas, colocado em 10 de julho de 2018).

Por seu turno, os post its prestam-se ao registo de pequenos apontamentos, tais como as lições de “civilidade pueril” publicadas por Erasmo de Roterdão em 1530 (artigo Boas maneiras: os conselhos de Erasmo, colocado em 10 de julho de 2019).

Imagem: Sonia Delaunay – Figurino para “La danseuse aux disques”, 1923

Língua e visão do mundo

As palavras são decisivas. Segundo Ferdinand de Saussure (Cours de linguistique génerale, 1916), a língua organiza a perceção e a experiência humanas; fornece os quadros conceptuais, os sistemas de diferenças e valores, através dos quais pensamos e interpretamos. A existência ou falta de palavras distintivas para dizer uma dada realidade influencia o modo como a apreendemos e expressamos. O anúncio “Always”, no artigo “No princípio, era a palavra”, representa um bom exemplo.

A dádiva da Memória. De filho para pai

Gratidão: não ver a prenda, mas quem a oferece (anónimo).

Todos os anos, próximo do Natal, a rede britânica de lojas John lewis faz questão de lançar um anúncio marcado pelo espírito de partilha e generosidade. Convoca quase sempre a família e recorre frequentemente à fantasia. “Where Love Lives” prescinde da fantasia e concentra-se na relação entre gerações, designadamente entre filho e pai.

Memória puxa memória. O tempo, suposto linear, contorce-se. E o início, o passado, e o fim, o presente, abraçam-se.

Anunciante: John Lewis. Título: Where Love Lives. Agência: Saatchi & Saatchi (London). Direção: Jonathan Alric. Reino Unido, novembro 2025

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Prenda cortesã precursora

Mestre do Livro da Cidade das Damas. Christine de Pisan apresentando o seu livro à rainha de França, Isabel de Baviera. Detalhe de miniatura iluminada de The Book of the Quen, ca. 1410-1414. British Library

Concluído em 1405, o Livro da Cidade das Damas (Le Livre de la Cité des Dames) foi escrito, em prosa, por uma mulher, Christine de Pisan, em defesa das mulheres, Uma obra pioneira “antimisógin”. Foi ainda autora do Livro das Três Virtudes (Le Livre des Trois Vertus), de 1405, e do livro de poesia Le Ditié de Jehanne d’Arc, de 1429.

“Cristhine de Pisan (1365.1431) é considerada como uma das primeiras mulheres escritoras em França. Viúva e mãe de família aos 25 anos, escolheu a escrita para ganhar a sua vida. Tornou-se poetisa de corte, oferecendo-lhe alguns senhores a sua proteção, a exemplo do duque de Borgonha ou do duque de Orléans. Mas foi também autora de livros de pendor político e moral, e dirigiu uma oficina de copistas.

No Le Livre de la Cité des dames, de 1405, promove uma análise crítica da sociedade a par de soluções para sair da crise do século XV. Christine de Pisan inclui-se a si mesma na narrativa: consternada pelas divisões que dilaceram a França, decide construir uma “Cidade das damas” onde as mulheres ilustres dariam o exemplo. Personagens alegóricas exclusivamente femininas, tais como a Dama Razão, a Dama Retidão e, ainda, a Dama Justiça [Dame Justice] ajudam-na a educar as mulheres de todas as idades e condições sociais” (Le Livre de la Cité des dames de Christine de Pisan, Passerelle[s ] – Bibliothèque Nationale de France).

Mestre de Margarida de York. Christine de Pisan e as três Damas (Razão, Retidão e Justiça). Christine de Pisan, Livre de la Cité des Dames. 1405. Bibliothèque Nationale de France

Citação de Christine de Pisan:

Se fosse o costume mandar jovens meninas para a escola e ali ensiná-las toda sorte de diferentes matérias, assim como se faz com jovens meninos, elas entenderiam e aprenderiam as dificuldades de todas as artes e ciências com tanta facilidade quanto os meninos. […] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional (Christine de Pizan, Livro da Cidade das Damas. Manuscrito original: 1405).