Archive | Fevereiro 2015

Realismo grotesco

Ambrogio Bergognone, Detail of the polyptych with St. Peter Martyr and a Kneeling Donor, Musée du Louvre, Paris, ca. 1494.

Ambrogio Bergognone, Detail of the polyptych with St. Peter Martyr and a Kneeling Donor, Musée du Louvre, Paris, ca. 1494.

Acontece-me deixar cair borrões de tinta na escrita. Frases pingadas, plasmadas, sem antes nem depois. Por exemplo: “Os medievais recorriam ao realismo extremo para dizer o sagrado” (Dar corda ao desejo). Como se pode escrever uma frase abrupta e isolada como esta?

Mikhail Bakhtin criou a noção de realismo grotesco para caracterizar um leque extenso de actividades culturais da Idade Média e do Renascimento: linguagem, literatura, pintura, música, festas, teatro, usos do corpo, gastronomia, jogos, religião, humor… Os fenómenos, reais ou imaginários, são retratados com um efeito de verosimilhança impressionante, incluindo os pormenores. Este efeito de realidade consegue conviver com um efeito de estranheza, grotesco ou macabro. O artigo que dedicámos a São Bartolomeu, esfolado vivo (A festa de São Bartolomeu de Cavez), constitui um bom exemplo de realismo grotesco. Acrescente-se São Pedro Mártir e Orígenes de Alexandria.

Taddeo Crivelli (Italiano, activo entre  1451 e 1479). São Pedro Mártir.

Taddeo Crivelli (Italiano, activo entre 1451 e 1479). São Pedro Mártir.

São Pedro Mártir (Pedro de Verona, ca. 1205-1252), dominicano, pregou contra os heréticos, nomeadamente os cátaros. O Papa Gregório IX nomeou-o, em 1234, Inquisidor Geral para o Norte de Itália e o Papa Inocêncio IV, em 1251, Inquisidor da Lombardia.

Gentile da Fabriano. Polittico di Valle Romita - Il martirio di S. Pietro.C. 1400.

Gentile da Fabriano. Polittico di Valle Romita – Il martirio di S. Pietro.C. 1400.

Em 1252, no regresso a Milão, foi mortalmente atingido com um golpe de machado na cabeça. Ferido, escreveu com o próprio sangue a palavra: credo. Como é representado este Santo? Durante a emboscada ou noutro contexto, com o machado, ou equivalente, cravado na cabeça. Realismo insólito ou macabro.

Origen. Roman de la Rose, France, 15th century. Bodleian, MS. Douce 195, fol. 122v

Orígenes de Alexandria (185-254) é um teólogo cristão com obra apreciável. Segundo Eusébio de Cesareia (263-339), Orígenes autocastrou-se, inspirado nos versículos do evangelho de São Mateus: “Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite” (Mateus 19:12). Algumas imagens de Orígenes centram-se, precisamente, no acto de castração. Muitas iluminuras medievais retratam explicitamente actos de castração.

Origen Castrating Himself before a Nun. Roman de la Rose, ca 1380. British Library

Origen Castrating Himself before a Nun. Roman de la Rose, ca 1380. British Library

A Idade Média não detém o exclusivo do realismo grotesco. Os nossos tempos também são férteis na suspensão estranha mas precisa da experiência familiar. No domínio da arte, da comunicação social, da Internet…

O Fumeiro da Razão

Este anúncio da Three Mobile assume que o rugby tem uma ética e uma estética próprias. Uma virilidade cavalheiresca. O rinoceronte, as borboletas e as chamas dorsais constituem soluções de comunicação originais. Festivo, hipnótico, purificador, o fogo aquece os ânimos. As fogueiras de São João e de São Martinho, as velas das procissões, os isqueiros dos concertos, os carros incendiados nos protestos de rua, os sopradores de fogo e a pirotecnia galvanizam a efervescência colectiva.

Marca: Three Mobile. Título: All it Takes is Everything. Agência: Boys and Girls. Direcção: Brett Foraker. Irlanda, Fevereiro 2015.

O fogo era arte dos saltimbancos medievais e magia na forja do ferreiro. A iluminura Le Bal des Ardants, que antecipa o anúncio, remonta ao séc. XV. O fogo fascina-nos. De pirófilo e pirómano, todos temos um pouco. “O inferno são os outros”? O inferno somos nós, está dentro de nós. As memórias mais indeléveis estão gravadas a fogo: a “menina de Napalm” da guerra do Vietname; a imolação do monge tibetano e do estudante de Praga; as torres gémeas em chamas.

Le bal des ardants. British Library MS Harley 4380, folio 1, 15th Century.

Le bal des ardants. British Library MS Harley 4380, folio 1, 15th Century.

O fogo é purificador. Tudo apodrece na água, na terra e no ar; nada apodrece no fogo. “Tu és pó e ao pó retornarás”. O fogo é um atalho da carne rumo à poeira. Atesta-o a cruzada contra os cátaros, bem como a Santíssima Inquisição, esse extenso fumeiro da razão. Cinzas são salvação na óptica dos detergentes do espírito que continuam a punir pelo fogo.

Ken Russel é um realizador excessivo. Barroco, a declinar para o grotesco, assinou, entre outros, os filmes Mahler, Delírio Fantástico (1974), e Tommy (1975), ópera-rock com os The Who. Este excerto de Os Diabos (1971) é violento, completamente avesso a almas sensíveis. Certo é que, volvidos quarenta anos, continua, à semelhança do Laranja Mecânica ou do Exorcista, a faiscar na nossa memória.

Ken Russel. The Devils. 1971. Excerto.

Doenças raras

Dompé

Costumo ser céptico face à publicidade de consciencialização que se dá ares de apostolado do bem. Este anúncio da empresa farmacêutica Dompé é um caso à parte. Nem grandes causas, nem grandes públicos, nos antípodas dos exorcismos do tabaco, da droga ou do álcool, dos horrores dos acidentes rodoviários, das comiserações da exclusão social, das virtudes da contracepção ou das cruzadas para a salvação do planeta. Este anúncio alerta para uma realidade ínfima: doenças raras descuidadas, eventualmente, sem cura. Mas o anúncio é magnífico. Um hino à vida. Um corpo masculino, despojado, verdadeiro traço-de-união cósmico, relembra as potencialidades do nu masculino na comunicação estética. O anúncio despede-se de um modo notável. Estamos mais que habituados a inversões finais. Mas esta, para além de inesperada, é abrupta. Uma dobra suspensa no abismo da indiferença. “Ser um animal, e raro, é importante. Mas eu sou apenas um homem, com uma doença rara e ser raro como eu significa ser ignorado”.

Marca: Dompé. Título: The Rarest Ones. Agência: Saatchi & Saatchi Italia – Roma. Direção: Roberto Saku Cinardi. Itália, Fevereiro 2015.

Dar corda ao desejo

Chanel Bruno Aveillan

Bruno Aveillan tem a arte de envolver os corpos numa estética de meticulosa volúpia. Charlotte Siepora, bailarina contemporânea, evolui em três elementos que se misturam: o ar, o líquido branco e a luz. Mais os diamantes! O corpo, em movimento, ora se eleva, ora se arrasta, ora se abandona. Os medievais recorriam ao realismo extremo para dizer o sagrado. Bruno Aveillan recorre à extrema sensualidade para embalar o sublime nas “asas do desejo”. Este anúncio lembra, por momentos, o genial Dolce Vita, que recomendo.

J12 White – Chanel. Bruno Aveillan. 2014.

Mercúrios

asics-campagne-its-a-big-world-go-run-it-9

Fotografia de Jules Michelet por Félix Nadar.

Jules Michelet, por Félix Nadar.

Nós, independentemente do que tenhamos perdido, pedíamos algo mais do que lágrimas à solidão, algo mais do que o bálsamo que adoça os corações magoados. Procurávamos um tónico para caminhar sempre em frente, uma gota das nascentes inesgotáveis, uma força nova, e asas.
(Jules Michelet, L’Oiseau, 1ª ed. 1856, Paris, Librairie Hachette e Cie, 1908, p. 5).

Neste anúncio da ASICS, It’s a big world. Go run it, bandos de mercúrios rasteiros correm com asas nos pés.

Marca: ASICS. Título: It’s a big world. Go run it. Agência: 180 Amsterdam. Direcção: Chris Sargent. Holanda, Fevereiro 2015.

Chocolate dançado

Pieter Bruegel. A Parábola dos Cegos. 1568.

Pieter Bruegel. A Parábola dos Cegos. 1568.

Baccara, Abba, Blondie, quem resiste à música, ao ritmo e à melodia? Um toque de boa disposição que se entranha mas não se estranha. O bailado das cadeiras de rodas é fantástico! Enrola-nos e levanta-nos do chão. Como é possível tanta mordida de prazer sem receio de perder o paraíso? Este anúncio da Cadbury soma pormenores de requinte. Por exemplo, a diversidade étnica não ostensiva, mas atenta, ou o recurso discreto, embora eficiente, à comunicação corporal. Este anúncio é tão agradável que quase nos faz esquecer que, por cá, continuamos a dançar atrelados como os cegos de Bruegel.

Marca: Cadbury. Título: 7 Flavours of Keith. Agência: Fallon (London). Direcção: Rob Leggatt. UK, Fevereiro 2015.

 

Acima das possibilidades

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

Rafael Bordalo Pinheiro. Zé Povinho, in O António Maria. 1880.

“Os Portugueses viviam acima das suas possibilidades”. Eis um mote que tresanda. Que portugueses viviam acima das suas possibilidades? Os meus colegas, os meus vizinhos e os meus amigos, não! Quem continua, afinal, a viver em Portugal acima das possibilidades? Os portugueses? Tal como na Quinta dos Animais, a amnésia é amiga dos porcos. Tudo indica que em 2008 eclodiu uma das maiores crises do sector financeiro de que há memória. Consta que as empresas financeiras viviam acima das suas possibilidades. Inventavam riqueza! Mas, para cá do Marão mandam os que cá estão. Deste lado marítimo, dessa crise só espuma! BPN, BES, empréstimos de milhares de milhões para consolidar bancos, tudo isto são ciscos em olhos mal-intencionados, a proteger com a banha de cobra dos timoneiros nacionais. Quem presta ouvidos até parece que Nossa Senhora volta a cantar o fado. No estrangeiro, viveu-se uma crise financeira colossal; pelos vistos, em Portugal, viveu-se e continua a viver-se uma crise de sobre consumo! Milton Friedman deve dar voltas no caixão!

“Os portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro”. Outro mote que tresanda. Ainda ontem o ouvi na televisão. Que portugueses pensavam que iam viver à custa do estrangeiro? Os meus colegas, os meus amigos e os meus vizinhos, não! De um lado, vive uma modesta reformada; do outro, um casal com uma única reforma. Será que deliram com o maná estrangeiro? Era, aliás, necessária uma boa dose de cegueira para não sentir que a economia portuguesa patinava desde o início do milénio. Quem pensava que ia viver à custa do estrangeiro? Eventualmente, aqueles que açambarcaram os fundos provenientes da União Europeia. São portugueses mas não são os portugueses. A ortografia, a gramática e a sintaxe dão jeito e fazem alguma diferença.

Os portugueses não viviam acima das suas possibilidades. Os portugueses não pensavam viver à custa do estrangeiro. Neste momento, os portugueses vivem abaixo das suas possibilidades. Para viver segundo as suas possibilidades, emigram! E não vão viver à custa do estrangeiro. Peço aos timoneiros da causa pública que resistam a este tipo de chavões. Para salvar, não é preciso ofender.

Hoje sou grego!

Desenho de Leal da Câmara. Miau, nº 13, de 14 de Abril de 1916.

Desenho de Leal da Câmara. Miau, nº 13, de 14 de Abril de 1916.

Este desenho de Leal da Câmara, de 1916, garante que os homens não se medem aos palmos. Se calhar, medem-se aos euros. Volvido um século, o gigante não precisa de se expor. Basta adestrar uns tantos lusitanos para dar cabo do Zé Povinho. Estou doente há vários dias. Daí esta disposição daninha. Quando adoeço fico sem unto para as botas dos maiorais. Acresce não tolerar aos políticos que me façam sentir vergonha por ser português. Hoje, sou grego!

Jesus Cristo Superstar

jesus-marketing-meeting-1one-production

Um excelente anúncio, bem concebido, bem realizado e bem humorado, pela e para a companhia de produção canadiana 1One Production, que opta por um tema original: Jesus Cristo reúne com os apóstolos para promover a sua imagem de marca.

Marca: 1One Production. Título: Jésus. Agência: Lg2. Produção: 1One Production. Direção: Pierre Dalpe. Canadá, Fevereiro 2015.

Segundo Mikhail Bakhtin, nada escapa ao riso grotesco, nem o político, nem o sagrado. Acrescente-se que também nada escapa à publicidade. Nada? Talvez os símbolos que mordem… Não é o caso do papa nem de Jesus Cristo. Este anúncio é ousado? Ousado seria, certamente, há quatro séculos atrás, a braços com a Inquisição! Longe de mim censurar o anúncio. Mas, embora não crente, arranha-me alguns valores. Hoje, repito, é fácil parodiar Jesus Cristo, inclusivamente estupidificá-lo e, por tabela, estupidificar alguns de nós. Alguma ousadia exigiria, porém, parodiar outras figuras religiosas. A publicidade ri-se de tudo? Não, tem tabus e escapa-lhe metade do globo. A estupidez de Cristo foi pregar o amor, estupidez que persiste 2 000 anos depois.

Cristo vende e alguém anda a vender Cristo, por uns dinheiros. Mas não é Judas. Guerra Junqueiro enganou-se ao pensar que só os parasitas da Igreja vendiam a imagem de Jesus.

Leal da Câmara. A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.

Leal da Câmara. A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro.

Volta e meia, ensimesma-nos a remover sedimentos. Não gostamos, por isso, que os pisem. A Velhice do Padre Eterno era um dos livros predilectos de meu tio. Meu avô recitava de cor o poema O Melro (18 páginas). Gente com qualidade. Possuo a edição da Livraria Lello & Irmão de 1926, ilustrada por Leal da Câmara. Digitalizei a imagem correspondente ao poema Parasitas. Guerra Junqueiro, “vencido da vida”, era um patriota. Incomodava-o a crise económica, mas, sobretudo, a crise da dignidade. Subscrevo, com os olhos postos na actualidade.

PARASITAS

No meio d’uma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima d’um jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hypocritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos taes ciganos;
Deram esmola até mendigos quasi nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz.
Que andaes pelo universo há mil e tantos annos
Exhibindo, explorando o corpo de Jesus.

Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, 1885.

Tolos e burros

Sem hipóteses e sem metas também se faz caminho. Descobre-se e aprende-se. Com hipóteses e com metas muitas vezes só se descobre o que já se sabe. Deparei com este livro sobre a festa dos loucos numa travessia movida a curiosidade. Gosto mais de encontrar um búzio adormecido num charco do que uma ilha com GPS. O autor é Mr. Du Tilliot, o título Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous (Lausanne e Geneva, 1741). Interesso-me pela festa dos loucos, que foi popular durante a Idade Média e desapareceu por volta do século XVII. Li muitas descrições da Festa dos Loucos, mas nenhuma de um autor do século XVIII.

The Festival of Fools. after 1570. After Pieter Bruegel.

The Festival of Fools. after 1570. After Pieter Bruegel.

“Elegia-se nas Igrejas Catedrais um Bispo ou um Arcebispo dos Loucos, e a sua eleição era confirmada por muitas bobices ridículas que serviam de consagração, em seguida promoviam-no a oficial pontífice, para dar a benção pública loucamente ao povo, transportando a Mitra, a Cruz e, mesmo, a cruz arquiepiscopal. Mas as Igrejas Isentas, ou que recebem imediatamente da Santa Sede, elegiam um Papa dos Loucos (unum Papam fetuorum) a quem também se dava, com grande derisão, os ornamentos do papado, de modo a que pudesse agir e oficiar solenemente como o Santo Padre.

Os Pontífices e as Dignidades desta espécie eram assistidos por um clero também licencioso. Viam-se os Clérigos e os Padres fazer na Festa uma mistura horrorosa de loucuras e impiedades durante o serviço Divino ao qual só assistiam, nesse dia, com roupas de Mascarada e Comédia. Uns estavam mascarados, ou com as caras manchadas, que metiam medo ou que faziam rir, outros com roupas de mulheres ou de pantomimos, como os atores de Teatro. Dançavam no coro e cantavam canções obscenas. Os diáconos e os subdiáconos entregavam-se ao prazer de comer chouriços e salsichas no Altar, debaixo do nariz do padre oficiante: jogavam às cartas e aos dados: colocavam no Incensário pedaços de calçado velho para dar a respirar um mau odor. Após a missa, cada um corria, saltava e dançava pela igreja com tanta impudência que alguns não tinham vergonha de se entregar a extremas indecências, e de se despojar completamente: em seguida faziam-se conduzir pelas ruas em tonéis cheios de imundícies, tomando prazer em arremessá-las à populaça que acudia à sua volta. Paravam e faziam com os seus corpos movimentos e posturas lascivas, que acompanhavam com palavras impúdicas. Os mais libertinos dentre os Seculares misturavam-se no meio do clero, para assumir também algumas personagens de loucos em trajes eclesiásticos, de Monges e Religiosas” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, 1741, pp. 5-6).

After Pieter Bruegel the Elder. Feast of Fools. After 1570.

After Pieter Bruegel the Elder. Feast of Fools. After 1570.

“Mas não era só nas Catedrais e nas Colegiadas que se fazia a festa dos loucos. Esta impiedade acontecia, inclusivamente, nos Mosteiros dos Monges e das Religiosas. Ficamos a conhecer pela queixa que Nandé escreveu a Gallendi em 1645 , sobre os costumes abusivos que se praticam em Aix, no dia do Corpo de Deus durante a procissão do Santo Sacramento, que em determinados Mosteiros de Provence se celebra  a festa dos Inocentes com Cerimónias tão impertinentes e tão loucas, como se faziam outrora as solenidades aos falsos Deuses. O exemplo que avança comprova-o. Nunca, diz ele, os Pagãos solenizaram com tanta extravagância as suas festas cheias de superstições e de erros como se soleniza a festa dos Inocentes em Antibes entre os Cordeliers. Nem os Religiosos Padres, nem os Guardas vão ao Coro nesse dia. Os irmãos Laicos, os Irmãos-Corta-Couve, que fazem o peditório, aqueles que trabalham na cozinha, os ajudantes de cozinha, os que tratam dos jardins, tomam o seu lugar na Igreja e dizem que vão produzir um ofício conveniente a tal festa, uma vez que são os loucos e os furiosos, e dizendo-o assim o fazem. Vestem ornamentos sacerdotais, todos despedaçados, e virados do avesso. Seguram nas suas mãos livros virados ao contrário, lidos de frente para trás, fazendo de conta que os leem com óculos a que retiraram os vidros, e aos quais adaptaram cascas de laranja, o que os torna disformes, e tão horríveis, que é preciso ver para crer, sobretudo que, após terem soprado nos incensários que abanam nas mãos por derisão, a cinza cobre a cabeça de uns e outros. Nestes atavios não cantam nem Hinos, nem Salmos, nem Missas correntes; mas resmungam determinadas palavras confusas, e dão gritos tão loucos, tão desagradáveis e tão discordantes, como uma vara de porcos a grunhir: de tal modo que as bestas brutas não celebrariam pior o ofício do dia. Porque mais valeria, efetivamente, trazer as bestas brutas para a Igreja, para louvar o Criador ao seu jeito, e seria, certamente, uma santa prática a seguir, do que aguentar estas pessoas que gozando Deus, com semelhantes louvores, são mais loucos e mais insensatos do que os animais mais insensatos e mais loucos” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous 1741, pp. 19-20).

Estes relatos apontam para a Festa dos Loucos como um momento catártico pautado pela confusão e pela inversão. O episódio dos livros lidos e virados do avesso é sintomático. A festa dos loucos encerra, no entanto, outras dimensões que foram evidenciadas por Mikhail Bakhtine: a experiência da liberdade através do mergulho num caos revitalizador e da turbulência colectiva utópica.

Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Tenho-me interessado mais pela Festa do Burro do que pela Festa dos Loucos. São congéneres e há quem as confunda. No entanto, o burro que entra na Igreja montado por uma bela donzela, uma alusão à fuga para o Egipto, é apanágio da Festa do Burro. Bem como o burro montado ao contrário pelo arcebispo “faz de conta”. Por acréscimo, a missa centra-se toda na figura do burro. Cânticos zurrados culminam com o público a bramir no fim da missa. Mas ainda não é desta vez que me proponho falar da Festa do Burro.

O Clemencic Consort publicou, em 1985, uma excelente colectânea com cânticos da missa do burro. Selecionei a Kyrie Asini – Litanie. Uma pérola que não devia partilhar, mas quem chegou a este ponto do artigo merece recompensa. Como falso consolo, atentem que mais seca do que o ler foi traduzi-lo do francês arcaico.