Archive | Holanda RSS for this section

A reincidência do grotesco

A publicidade parece desinibir-se, revisitando uma vocação excêntrica algo esmorecida. Seguem 4 anúncios exemplares: uma metamorfose (Bing your saturday to live), uma disformidade (Chocolate Like Nobody’s Watching), uma paródia (Beers To Come True) e uma alegoria (Care You Can Count On).

Marca: Skoda. Título: Bring Your Saturday to Life. Agência: Selmore Amsterdam. Direção: Joe Vanhoutteghem. Países Baixos, maio 2025
Marca: Toblerone. Titulo: Chocolate Like Nobody’s Watching. Agência: LePub. Direção: Martin Werner. Itália, abril 2025
Marca: Balter Brewing Co. Títulos: Beers do come true. Agência: ATime&Place. Austrália, maio 2025
Marca: Allianz. Título: Care You Can Count On. Agência: Howatson+Company. Direção: Michael Gracey. Austrália, maio 2025

Uma longa caminhada

LONE (Project). Ferdinand Bakker e Michel van Dijk

A collaboration between two former bandmates. A duo which decided to go solo. After their band Alquin stopped performing, Michel van Dijk and Ferdinand Bakker decided to make their own album, just titled LONE. They embarked on a quest of musical experimentation, a search for the stories and references that inspired them both. It was at these crossroads of mutual inspiration that their journey became most interesting, resulting in six more albums. Their new album is appropriately titled “We came a long way” (release 4-25-25). (http://www.loneproject.nl/).

A banda neerlandesa Alquin conheceu dois períodos de atividade: 1971-1977 e 2003-2012. O seu rock progressivo lembra os Camel, com a ressalva de terem lançado o primeiro álbum, Marks (1972), um ano antes dos Camel (1973) [escutar a faixa “Oriental Journey”].  

Após a dissolução da banda, Michel van Dijk e Ferdinand Bakker, criaram o duo Lone (Project). Desde 2013, lançaram 7 álbuns; o mais recente, com mais de 70 anos de idade, We came a long way, no passado dia 25 de abril. Existe pouca informação a seu respeito acessível na Intenet. Regra geral, o número de visualizações dos vídeos resulta ínfimo. Os Lone vêm de longe, mas, provavelmente, não irão tão longe quanto mereceriam.

Tenta-me, às vezes, prestar atenção a “menoridades” aparentes. O percurso do duo Lone recoloca-me uma pergunta que me inquieta: o que contribui para a notoriedade de um autor ou de uma obra? O que vale, portanto, o (in)sucesso?

Dada a “invisibilidade”, retive cinco canções dos Lone: “We came a long way” (2025); “Like a Mountain” (2025); “Wait for me” (2023); “Let it rain on me” (2020); e “The lighthouse” (2020). Acresce “Oriental Journey” (1972), dos Alquin.

LONE (Project) – We came a long way. We came a long way. 2025
LONE (Project) – Like a mountain. We came a long way. 2025
LONE (Project) – Wait for me. Isolated heroes. 2023
LONE (Project) – Let it rain on me. Let it rain on me. 2020
LONE (Project) – The Lighthouse. Let it rain on me. 2020. Live at ‘De Boerderij’ dec 2020

*****

Alquin – Oriental Journey. Marks. 1972

O radar com brinco de ouro

Existem músicas com mais de cinquenta anos que o nosso corpo ainda se recorda. É o caso de “Radar Love” (1973), dos neerlandeses Golden Earring, ativos entre 1961 e 2021.

Golden Earring – Radar Love. Moontan. 1973

Fragâncias do Inferno

De Adriano Celentano para Sharon Kovacs. Do verso para o reverso, do segundo para o terceiro milénio, do luminoso para o sombrio, de Itália para Holanda. A música e as letras tornam-se mais tensas, pesadas e disfóricas. Estranha-se e custa a entranhar, mas acaba-se por saborear, senão venerar, como se aprecia o molho de alho ou o sumo de limão bem feitos.

Kovacs & Till Lindemann – Child Of Sin (Official Video). Child of Sin, 2023
Kovacs – My Love (Official Video). EP, 2014. Shades of Black, 2015
Kovacs – The Devil You Know (Official Video). Shades of Black, 2015
Kovacs & Metropole Orkest – Night of the Nights. Shades of Black, 2015. Metropole Session in Muziekcentrum van de Omroep, Hilversum, 2017
Kovacs – Cheap Smell (Live at Wisseloord). Cheap Smell, 2018

A vela apagada

Importa combinar visão panorâmica e sentido do detalhe (Edgar Morin, La Métamorphose de Plozevet : Commune de France, 1967)

Nota: A resolução das imagens é bastante aceitável. Carregar nelas para as aumentar.

Deixei, propositadamente, para mais tarde a análise das três pinturas com a Anunciação atribuídas a Robert Campin e à sua oficina. Duas incluem a já mencionada miniatura do Menino Jesus com a cruz, mas justificam as três uma atenção especial.

Subestimado demasiado tempo pela História da Arte, Robert Campin (nascido em 1375 e falecido em 1444, em Tournai, na Bélgica, conhecido também como Mestre de Flémalle) é hoje considerado como “o primeiro grande pintor flamengo”, pioneiro da Escola de Flandres e, com Jan van Eyck, do Renascimento do Norte.

Afrescos de Masaccio e Fra Angelico

Introduziu um realismo, que frisa o naturalismo, minucioso e detalhado, com figuras humanas expressivas. As suas obras rivalizam com as dos primeiros artistas do Renascimento Italiano. Compare-se “A Santíssima Trindade” (c. 1428) e “O Pagamento do Tributo” (c. 1425), de Masaccio, ou “A Anunciação” (c. 1425-26), de Fra Angelico, dois dos primeiros artistas do Renascimento Italiano, com “A Missa de São Gregório” (1415), “O Noivado da Virgem” (1420-30) e a “Anunciação” de Bruxelas (1415-25), da sua autoria.

Robert Campi: “A Missa de São Gregório” e “O Noivado da Virgem”

Robert Campin consta ainda entre os primeiros artistas a utilizar a pintura a óleo, em vez da têmpera. Presumivelmente, antes de Jan van Eyck. A nova técnica melhora a duração, o realismo, a profundidade, o brilho e a gradação das cores.

Protagonista político, encabeçou, em 1423, uma revolta de artesãos contra a o poder aristocrático, tendo desempenhado vários cargos de governo e administração até 1428. Este envolvimento valeu-lhe uma punição em 1429 com “multa, obrigação de fazer uma peregrinação a Saint-Gilles en Provence e interdição de exercer qualquer função pública”. Em 1432, acusado de adultério, é condenado a exilar-se de Tournai. Este “estado de desgraça” junto do poder contribuiu para o “apagamento” de que foi vítima durante quase cinco séculos.

Com alguma preguiça, para a apresentação das três pinturas da Anunciação atribuídas a Robert Campin, vamo-nos socorrer da descrição facultada pelos museus onde estão expostas.

“A Anunciação” do Museu do Prado

Robert Campin (Oficina). A Anunciação. Óleo. Ca. 1420-25. Museu do Prado

A pintura representa a Anunciação segundo o relato de São Lucas (1:26–38). O Arcanjo Gabriel, enviado por Deus, visita Maria para anunciar que será a mãe de Jesus. A conceção é simbolizada pelos raios, que emanam do topo da composição, onde Deus Pai aparece iluminado e rodeado por uma corte de anjos, e se estendem até Maria. Alguns dos elementos iconográficos habituais da Anunciação, como a pomba do Espírito Santo, estão ausentes, mas outros estão incluídos, por exemplo, o lírio num vaso em primeiro plano à direita. Maria, reclinada nas almofadas de um banco, está absorta na leitura das sagradas escrituras e ainda não sentiu a presença do anjo.

Apesar da solenidade do espaço eclesiástico onde se desenrola a cena, o banco, o livro e, sobretudo, o armário aberto conferem-lhe uma certa atmosfera quotidiana privada. A Virgem usa um volumoso manto azul que se estende artificialmente sobre o chão em numerosas dobras e contém uma inscrição indecifrável na borda. O anjo traz na mão direita um bastão e veste uma capa de chuva vermelha de orla larga com decoração em volutas de motivos vegetalistas e letras alternadas, mais estreita e simples na bainha (…)  O anjo também possuía um halo de raios, agora bastante desgastados, que era representado numa perspetiva oblíqua e não frontal, de acordo com a sua posição. A cena sucede numa espécie de átrio ou entrada de uma igreja gótica de desenho impossível que não parece representar um tipo particular (…)

Em 1985, o catálogo [do museu] reconheceu a identificação do Mestre de Flémalle como Robert Campin, e atribuiu o painel a este último, assinalando expressamente, como acontecia desde 1933, que não havia unanimidade quanto à sua atribuição. Recordou novamente as diferenças de qualidade com o Noivado [ver imagem info)], assinalando a possibilidade de ter sido um dos primeiros trabalhos executados em colaboração com um assistente (…). apesar de manifestar conhecimento de algumas das principais criações do Mestre de Flémalle e tentar imitar alguns dos seus pontos fortes, como o equilíbrio composicional, a obtenção de uma perspetiva correta e o uso eficaz do simbolismo arquitetónico, esta Anunciação não alcança a criatividade requintada encontrada nas melhores obras do mestre. O estilo de pintura também é muito diferente. Esta pintura pode, portanto, ser atribuída a um seu seguidor e datada de alguns anos depois de o mestre ter produzido as suas principais obras. (Museo del Prado, A Anunciação: https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/the-annunciation/52a6820f-892a-4796-b99e-d631ef17e96a; consultado em 12.01.2025).

“A Anunciação” dos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica

Robert Campin (Master of Flémalle). A Anunciação. Óleo. 1415-25. Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica. Bruxelas. Talvez o original do exposto no Metropolitan Museum of Art (MET)

Nesta obra, a Anunciação ocorre num interior de classe média, algo inteiramente novo na arte da época. Até então, a cena era retratada dentro ou no pórtico de uma igreja. Seguindo a tradição, o Arcanjo Gabriel entra na sala pela esquerda. Em sinal de humildade, a Virgem Maria está sentada num piso de ladrilhos encostada a um banco comprido. A borda de seu casaco é decorada com uma inscrição, outra inovação adicionada pelo Mestre de Flémalle. O texto parece ser inspirado na Salve Regine, um hino medieval popular [ver o vídeo no final deste artigo]. Os gestos da Virgem Maria mostram sua aceitação: a mão direita apoiada em seu estômago e os olhos castamente abaixados. Nos joelhos de Maria e na mesa está um livro aberto. Este motivo pode inspirar-se num tratado sobre a verdadeira devoção de por volta de 1400, segundo o qual a Virgem estava a meditar nas Sagradas Escrituras quando Gabriel entrou na sala. Os livros também indicam que ela é detentora da sabedoria divina. (…) As janelas podem representar profetas que previram a vinda do Messias. Outros objetos aparentemente comuns da vida cotidiana possuem um significado mais profundo. A pequena escova perto da lareira simboliza a purificação da mancha do pecado e o lírio branco (…) a virgindade de Maria. (…) Os lustres e as velas representam a Virgem e Cristo; o fato de não estarem acesos sugerem que a conceção já ocorreu. A escultura em madeira representando São Cristóvão levando o Menino Jesus através do rio é um detalhe curioso. O motivo é um bom exemplo das inconsistências cronológicas frequentemente encontradas em pinturas dos primitivos flamengos. Como a cena principal retrata a Anunciação, o Messias claramente ainda não nasceu. (Roel Slachmuylders in ‘Musée d’Art Ancien. Oeuvres choisies’: https://artsandculture.google.com/asset/the-annunciation-master-of-fl%C3%A9malle-robert-campin/qQFSi4Q3kb6IsQ?hl=en; consultado em 12.01.2025).

Tríptico com a Anunciação. Retábulo de Mérode (MET)

Atribuído a Robert Campin e sua oficina. Tríptico com a Anunciação. Retábulo de Mérode. Óleo. Ca, 1427-1432. Metropolitan Museum of Art (MET)

Acabado de entrar na sala, o anjo Gabriel está prestes a dizer à Virgem Maria que ela será a mãe de Jesus. Os raios dourados que entram pelo óculo esquerdo carregam uma figura em miniatura com uma cruz. Na ala direita, José, que é noivo da Virgem, trabalha em sua carpintaria, fazendo furos numa tábua (…) Na ala esquerda, o doador ajoelhado parece testemunhar a cena central pela porta aberta. Sua esposa ajoelha-se atrás dele, e um mensageiro da cidade aguarda no portão do jardim. Os proprietários teriam comprado o tríptico para usar em orações privadas (…).

Entre as pinturas neerlandesas antigas mais célebres, sobretudo pela observação detalhada, riqueza da imagens e excelente condição — este tríptico pertence a um conjunto de pinturas associadas à oficina de Tournai de Robert Campin (ca. 1375–1444), às vezes chamado de Mestre de Flémalle. Documentos indicam que ele contratou pelo menos dois assistentes, o jovem Rogier van der Weyden (ca. 1400–1464) e Jacques Daret (ca. 1404–1468). Evidências estilísticas e técnicas sugerem que o retábulo foi executado por fases. A Anunciação, que se inspira numa composição da oficina um pouco anterior, não decorre provavelmente de uma encomenda. O comprador encomendou posteriormente os painéis laterais, que parecem ter sido pintadas por dois artistas. Ainda mais tarde, na década de 1430, presumivelmente após o casamento do comprador, os retratos de sua esposa e do mensageiro foram adicionados. As janelas do painel central, originalmente cobertas com folhas de ouro, foram pintadas com um céu azul, e os escudos heráldicos foram adicionados posteriormente. (The Metropolitan Museum of Art, Annunciation Triptych (Merode Altarpiece: https://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/56.70).

Chegados a este ponto, convém acrescentar alguns comentários, a não ser para legitimar a autoria do artigo.

Três pinturas antigas com a Anunciação

Como foi avançado na descrição do Museu do Prado, Robert Campin inovou, ao nível da forma, no equilíbrio composicional, nos volumes, na profundidade e na perspetiva.No que respeita ao conteúdo, o livro, da sabedoria, e o lírio, da pureza, mantêm-se uma constante, mas alguns motivos característicos de obras mais antigas (ver três exemplos acima) nem sempre são contemplados, pelo menos de um modo imediato e direto: a pomba, o menino e a cruz, na Anunciação do Museu do Prado; e o Deus Pai, os raios de luz, o menino, a cruz e a pomba, na Anunciação do Museu de Bruxelas. Por seu turno, o tríptico da Anunciação do Metropolitan Museum of Art (MET) inclui a miniatura com o menino a carregar a cruz, mas não explicita nem o Deus Pai, nem os raios de luz, nem a pomba.

As pinturas da oficina de Robert Campin distinguem-se das precedentes, antes de mais, pela riqueza, profusão e minúcia dos detalhes. Trata-se de um atributo, e contributo, do Renascimento do Norte, fonte de um realismo até então inédito, cujo auge naturalista é alcançado por Jan van Eyck (ver, por exemplo, ao lado, o detalhe do Adão do Retábulo de Ghent, de 1432).

Reconhecer que o realismo aumenta não significa que o investimento no simbólica diminua. Pode até intensificar-se e tornar-se mais profundo, oferecendo-se mais diversificado, inesperado, rebuscado e, porventura, dissimulado.

Sob este prisma mais fino, a obra de Robert Campin, além de deslocar a cena para um interior doméstico, inova também em termos de conteúdo.

Na Anunciação dos Museus Reais das Belas-Artes da Bélgica, a pomba do Espírito Santo não ressalta à vista. Mas deteta-se pelo menos duas vezes. Desviando o olhar, repara-se numa pomba pintada no vaso com os lírios; concentrando-o, divisa-se na janela vertical do lado esquerdo o vulto de uma pomba, acima de uma roseira. A pomba lá está (ou estava, caso tenham ocorrido alterações).

Se, para além da vista, abusar da objetividade, delirar um pouco, então os reflexos da manga do braço direito da Virgem dão a impressão de esboçar uma pomba. Passa-se, assim, da ausência à multiplicidade. Fabulações? Recorde-se, porém, que na arte, tal como na publicidade, um motivo pode gerar os efeitos desejados sem ser identificado pelos destinatários, sem assomar à consciência. Os artistas já o sabiam e aplicavam há mais de quinhentos anos.

Este preciosismo mesquinho na observação das imagens eletrónicas cansa e magoa a vista, ao ponto de obrigar a uma espécie de jejum digital, a suspensão temporária mas frequente do recurso ao computador.

Na mesa, um candelabro com uma vela apagada. Acesa, a vela significa a presença e a luz de Cristo. No caso da Anunciação, a sua chegada como “luz do mundo”. A chama também pode ser associada ao Espírito Santo no momento da Encarnação. Apagada, a vela sugere uma presença divina imaterial e impercetível. A vela apagada parece indicar que a conceção está consumada, ao jeito da Virgem Maria, discreta e humildemente.

Não se observa nenhuma miniatura com o Menino Jesus em voo picado. Em contrapartida, aparece transportado por São Cristóvão numa pequena escultura em madeira, descentrada, por cima da lareira. Não desencantei vestígios alusivos à cruz. A não ser que… A não ser que se tome a sério o requinte de criatividade do simbolismo de Robert Campin, em particular, e dos artistas do Renascimento do Norte, em geral.

O motivo de São Cristóvão com o Menino Jesus no ombro remete para a ideia da cruz. Cristóvão (do grego Christophoros, “aquele que carrega Cristo”), “ao carregar o Menino Jesus, está simbolicamente a carregar a cruz de Cristo, cruz que representa o sacrifício e o apelo para seguir Cristo mesmo na adversidade (…) Assim como Cristo carregou a cruz para redimir os pecados da humanidade, São Cristóvão carrega Cristo, que por sua vez carrega o peso do mundo”. A cruz é o fardo redentor por excelência.

Tríptico com a Anunciação. Retábulo de Mérode. Ca. 1427-1432. Metropolitan Museum of Art. Detalhe

No Tríptico da Anunciação, ou Retábulo de Mérode, do Metropolitan Museum of Art, a miniatura com o menino Jesus a carregar a cruz destaca-se,  junto às claraboias, no canto superior esquerdo, habitualmente reservado ao Deus Pai irradiante.

Sobre a mesa, um castiçal com uma única vela, ainda fumegante, acusando o efeito do “sopro divino”. A conceção pelo Espírito Santo acaba de se consumar.

Na Anunciação de Bruxelas, descobriam-se pombas, mas não cruzes. Em contrapartida, na Anunciação do tríptico do MET, descobrem-se cruzes, mas não pombas.

Na Anunciação de Bruxelas, descobrem-se pombas, mas não cruzes. Em contrapartida, na Anunciação do tríptico do MET, descobrem-se cruzes, mas não pombas.
Embora a jarra pareça a mesma em ambas as pinturas, uma pequena rotação, no tríptico, resulta suficiente para impedir uma identificação cabal; estará lá, mas oculta quanto baste. A exemplo da vela fumegante, o pintor alude à pomba, mas cuida de a encobrir.

O motivo da cruz aparece na miniatura, mas também, com boa vontade, no painel do lado direito, com São José a trabalhar como carpinteiro [repare-se que os tempos insistem em baralhar-se: Maria e José compartilham o mesmo espaço, vivem juntos, apesar de o casamento seja posterior à Anunciação]. As ferramentas na mesa estão, propositada e artificialmente, dispostas de feição a compor três cruzes, as cruzes do Calvário, de Cristo e dos dois ladrões.

O corpo fala! Na generalidade das pinturas da Anunciação, a postura da Virgem, especialmente das mãos, tende a partilhar significados convencionais. A mão erguida e aberta com a palma para a frente exprime surpresa; as mãos cruzadas sobre o peito, aceitação; a mão direita pousada no peito junto ao coração, congratulação. (Crono)logica mas nem sempre efetivamente, a sucessão, por fases, seria: palma da mão levantada, surpresa pela interpelação; mãos cruzadas, aceitação do desígnio divino; e mão direita junto ao coração, congratulação pela bem-aventurança.

O corpo fala. A posição das mãos nas pinturas com a Anunciação

A pintura do museu do Prado não contempla nenhuma destas alternativas. Absorta na leitura de um livro envolto numa toalha branca, símbolo de pureza, a Virgem “ainda não sentiu a presença do anjo”. A Anunciação está prestes a começar.

Na Anunciação dos Museus Reais de Bruxelas, a vela apagada sugere que a conceção já foi consumada. Maria volta a estar concentrada na leitura, mas com a mão direita sobre o peito, congratula-se pela bem-aventurança. Embora o Arcanjo Gabriel esteja retratado, a interação com manifesta-se concluída. A Anunciação já aconteceu.

No tríptico do Metropolitan Museum of Art, a fase propriamente dita da Anunciação parece concluída. A vela fumegante, os raios de luz e o Menino Jesus a caminho sugerem que a descida do Espírito Santo e a conceção estão em curso, senão já consumadas.

Adotando numa perspetiva policrónica (Edward T. Hall, A Linguagem silenciosa, 1ª ed. 1959), com justaposição e cruzamento de espaços e tempos, pode admitir-se que os episódios retratados nas pinturas do Prado e do MET resultam baralhados, ao ponto de a postura da Virgem, absorta na leitura e sem interagir com o Arcanjo, tanto poder sugerir que a Anunciação, propriamente dita, ainda não começou ou já terminou.

Portanto e em suma, a César o que é de César, a Campin o que é de Campin.

Despeço-me com um convite à escuta do hino medieval Salve Regina e um desafio para acender ou apagar a vela.

Patrick Lenk. Salve Regina. Salve Regina Monastic (Chant of the Mystics). 2019

Carrancudo, barbudo e com a vista cansada.

Prometi não cortar a barba antes de terminar este artigo. Sem lhe ver o fim, fiquei cada vez mais obcecado e apressado. Decidi colocar uma versão sem revisão. Tomar-me-ia demasiado tempo.

Sobram dois aspetos positivos: desisti convictamente de deixar crescer a barba e experimentei, pela primeira vez, esticar os pelos do bigode.

Amanhã, será outro dia. Preciso preparar-me para a apresentação do Boletim Cultural de Melgaço no próximo sábado.

O Presidente e o Emigrante

Marcelo Rebelo de Sousa e João Gonçalves. Holanda. 09.12.2024

Ecologia do espírito

É um consolo ouvir a neerlandesa Mei-Ian (e o paquistanês Ali Pervez Mehd) com o chilrear dos pássaros e o murmúrio do mar como único fundo. Acresce uma sensação de estar bem consigo mesmo (nem por isso com o mundo). Uma prioridade que vinga há décadas. O resto… o resto pode passar, pode esperar. Misticismo, religiosidade ou ética singela? Uma espécie de “ecologia do espírito”, que nada tem a ver com egoísmos ou altruísmos.

Gregory Bateson. Steps to an Ecology of Mind. 1ª ed. 1972

Mei-Ian – Song for a Pure Heart. In Light. 2023
Mei-lan – Eternal Soul ( with Ali Pervez Mehdi). Eternal. 2021

A Inteligência Artificial pode fazer desaparecer o encanto

Coloco este artigo da revista EM (Erasmus Magazine), de 20 de fevereiro, não porque está dedicado ao João, mas pelo seu teor e estilo. Trata-se de um texto da academia que tem a arte de abordar um dos seus membros não como um exemplar mas como uma pessoa. Privilegia a subjetividade, a singularidade e a idiossincrasia. Quem é o João, que episódios tem para contar, com quem se relaciona, quais são os seus gostos?

A escrita é simples e empática. Não cede ao protocolar e ao universal. Não normaliza. O investigador da Inteligência Artificial surge, antes de mais, como um ser humano.

O artigo interessa também pelo modo como contrasta com o retrato do mundo académico que esboço em A melancolia académica na viragem do milénio. Ilustra como este se circunscreve apenas a um recanto, a uma versão. A melancolia do mundo académico está acessível no seguinte endereço: https://margens.blog/2024/02/23/a-melancolia-academica-na-viragem-do-milenio/

Tradução (quase automática)

IA PODE FAZER DESAPARECER O ENCANTO, PENSA JOÃO GONÇALVES

Quando estudante em Portugal, João Gonçalves jogou Go – “uma espécie de xadrez da Ásia, mas mais complicado”. Até que os computadores derrotaram os grandes mestres. O livro The Master of Go, do autor japonês Yasunari Kawabata, fez Gonçalves perceber que o jogo, no que lhe tocava, havia perdido o mistério com o advento da IA. Em sua pesquisa, ele agora espera tornar a IA mais humana.

João Gonçalves tropeçou no jogo Go quando pesquisou jogos de tabuleiro complexos no Google. Ele gostava de xadrez, mas a forma como os profissionais o jogavam – “competitivos e rápidos” – tirou-lhe o encanto do jogo. Ele queria algo novo e encontrou online: Go –– ‘uma espécie de xadrez da Ásia, mas mais complicado’. Gonçalves mergulhou e se aprimorou no jogo junto com o irmão.

Go é um jogo de tabuleiro para dois jogadores com pedras brancas e pretas. O tabuleiro consiste em 19 por 19 linhas. Um jogador pode colocar uma pedra em cada interseção do tabuleiro. O objetivo é delimitar um território circundando áreas no tabuleiro com pedras da sua cor. O jogo termina quando nenhum dos jogadores quer fazer outra jogada.

Amadores magistrais

Não muito tempo depois, a Coreia do Sul quis tornar o jogo mais conhecido em todo o mundo. E aconteceu que, ainda estudante de 20 anos, Gonçalves voou para Seul com o irmão, quatro anos mais novo, para representar Portugal num campeonato de Go pago e organizado pela Coreia do Sul. “Depois de chegar à capital, seguimos para uma pequena vila que abrigou um dos grandes nomes do desporto. Foi a nossa primeira ida a Ásia e ficámos totalmente impressionados com a cultura tão diferente de Portugal.”

Numa aldeia rodeada de campos de arroz, os melhores amadores do mundo reuniram-se para jogar contra os grandes profissionais. As pranchas foram montadas lado a lado e Gonçalves enfrentou cinco vezes um grande mestre. Durante os jogos, ele bebia chá com arroz e – como é habitual em Go – cada jogador tinha uma hora para pensar. “Eu andava entre os campos de arroz pensando no meu próximo passo. Foi uma cultura totalmente nova para mim, mas assim que o jogo começou fiquei totalmente focado nisso.”

É a estrada que conta, não o destino

Gonçalves não venceu uma única partida. “Claro que não”, como ele disse, mas de qualquer maneira não é isso que o Go significa para ele. O objetivo é demarcar um território maior que o adversário. Se nenhum dos jogadores quiser fazer outra jogada, o jogo termina. Para Gonçalves, o que torna o Go tão fascinante é a forma como você joga. “É uma questão de refletir. Se eu quiser muito de uma vez, perderei, mas se for muito cauteloso, também não terei sucesso.”

Segundo Gonçalves, o Go perdeu a glória em 2016, quando os computadores venceram o melhor jogador do mundo da época. Inicialmente, Gonçalves não percebeu que este encontro tinha mudado a sua perspetiva do jogo. Foi apenas quando leu o livro O Mestre do Go, de Yasunari Kawabata, que recebeu como presente de sua esposa, que percebeu que ele descrevia o que estava vivenciando. “A mística esfumou-se. Um computador agora pode dizer qual movimento é bom e qual não é. Não se trata mais de uma bela jogada ou de como a sua forma de jogar é determinada por quem você é.”

The Master of Go é uma história fictícia baseada em um jogo real de Go em 1938, em que um antigo mestre do jogo competiu contra um talento emergente. O mestre representou a tradição e a antiga conceção do Go como processo criativo, enquanto a nova geração abordou o jogo de tabuleiro de forma competitiva e racional. Gonçalves dobrou a folha para marcar a página onde o autor descreve como as diferentes perspetivas se chocaram: “A batalha só era travada para vencer, e não havia margem para lembrar a dignidade e o perfume do Go como arte”.

Os professores são velhos mestres

Gonçalves também encontra paralelismos no livro com o advento do ChatGPT na educação. “Talvez eu seja o velho mestre que ensina da forma tradicional, enquanto o ChatGPT representa a nova geração, a geração do pragmatismo e da eficiência.” Ele vê claramente como a IA pode ajudar a educação: “Se um aluno tímido tem medo de discutir a sua proposta de pesquisa com um colega de classe, ele pode conversar com o ChatGPT”. Mas ele diz que algo também se perde: a interação e o processo. “Podemos focar no resultado final, mas é no caminho que você aprende a entender a si mesmo e ao assunto. Isso é essencial.”

Gonçalves recebeu uma bolsa Veni pela sua investigação para tornar a IA mais humana. Ele combina as competências de um cientista da computação e de um cientista de media: ele percebe a tecnologia por trás da IA ​​e fala a linguagem das ciências sociais. “Quero trabalhar com a Meta e o Google para desenvolver um algoritmo que modere o ódio online de uma forma mais humana. Sim, sou um idealista. Através da pesquisa, quero mudar o mundo.”

*****

Número de livros por ano: 4

Gênero favorito: ficção científica, fantasia, detetives

Motivação principal: escapismo

Último livro lido: “O livro de fantasia do meu irmão, The Old Mage’s Gamble. Fui um dos seus primeiros leitores. Foi um prazer ler o livro, mas faltava alguma coisa. De repente, percebi que só havia pessoas e nenhum animal na história. Não estava certo. Meu irmão então mudou a história. Agora existem animais em seu mundo de fantasia.”

João Gonçalves é professor auxiliar na Escola Erasmus de História, Cultura e Comunicação. Depois de estudar Estudos de Comunicação em Portugal, trabalhou durante dois anos como jornalista num jornal. Para seu doutorado, ele pesquisou discurso de ódio online e desenvolveu pessoalmente um algoritmo para analisar seus próprios dados com mais rapidez.

Prémio NWO 2023

“Cientista holandês de topo” recebe prémio NWO 2023. E se fosse português?

Tradução:

Três importantes cientistas holandeses sobre o próximo ano: ‘Quero fazer a diferença no mundo’

O que Lisa, João e Athina têm em comum? Eles são jovens, cheios de talento e estão radiantes com o prémio NWO 2023 que lhes foi atribuído no mês passado e que torna possível a sua própria investigação científica. Não admira que estejam ansiosos por um fantástico 2024. Athina Vidaki investiga a ‘matéria escura’ do nosso ADN, João Gonçalves quer limitar os riscos da inteligência artificial e Lisa Kohl desenvolve criptografia que pode suportar computadores quânticos.

A cada um a sorte que merece?

Cada um escolhe a sua sorte, tem o futuro predestinado ou, ao jeito das tragédias gregas, abraça o seu destino? Eis algumas perguntas que um simples anúncio publicitário consegue suscitar.

Marca: Dutch State Lottery. Título: Believe in Luck. Agência: TBWANEBOKO. Países Baixos, dezembro 2023