Archive | Junho 2018

As férias e a natalidade

Spies travel

O artigo Fecundidade (https://tendimag.com/2018/06/20/fecundidade-2/) aguçou-me a curiosidade para os anúncios dedicados à natalidade. Consultei, com as entradas Natalidade e Fertilidade, duas bases de anúncios: Culturepub e Ads of the world. Resultado: uma meia dúzia de anúncios, alguns de questionável qualidade. Pelos vistos, o assunto não é relevante. Em cada acto sexual, 200 a 500 milhões de espermatozóides procuram o óvulo. Não é por falta de espermatozóides e de óvulos que os bebés não nascem. Estamos a falar de heterossexualidade. Ora, o prefixo hetero não está na moda. Nem nos organismos de governo, nem nas organizações não-governamentais, nem nas empresas altamente responsáveis. Os bebés, antes de nascer, não têm voz, nem votam, nem pertencem a grupos de pressão. É forçoso admitir que, na publicidade, o marcador dos bebés se resume às fraldas. A pesquisa vale o que vale, aponta, no entanto, para uma inexplicável negligência. Entretanto, a agência de viagens Spies Rejser descobriu que as férias são amigas da natalidade.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Denmark. Dinamarca, Março 2014.

Marca: Spies Travel. Título: Do it for Mom. Agência: Robert/Boisen & Like-Minded. Direcção: Niels Norlov. Dinamarca, Setembro 2015.

Fecundidade

First Time

Este anúncio é vertiginoso. A música e a imagem entrelaçam-se a um ritmo alucinante. Neste anúncio barroco e orgiástico, retenho, a contra-ciclo, o pezinho do bebé. Pelos vistos, os orgasmos também podem ser produtivos. Na realidade, há cada vez mais garrafas de champagne e cada vez menos crianças.

Marca: Moët & Chandon. Título: First Time. Agência: Ogilvy (Paris). Direcção: Manu Cossu. França, Junho 2018.

Canteiros do prazer: pleasuredomes

Festa do Alvarinho

Festa do Alvarinho e do Fumeiro. Melgaço.

Dizem os sábios que Portugal é um anfiteatro virado para o mar. Quem der uma volta ao país fica impressionado com a profusão de palcos e cenografias. Não há modo de ignorar a multiplicação de toldos, estrados, pistas, equipamentos, decorações, iluminações, letreiros e cartazes, tudo pronto a servir. Não há vila que não aspire ser uma Meca do espectáculo. Os eventos parecem cogumelos. Circulam de terra em terra, como os circos. Repetem-se, copiam-se e vingam. Em alguns casos, promovem-se produtos e recursos locais. Noutros, os palcos são ninhos para cucos forasteiros. Alguns revitalizam, por um tempo, sociedades envelhecidas, com atracções para os jovens. Portugal abraçou uma vocação: jardinar prazeres nos canteiros do rectângulo. Tanta “arte efémera”! Tanta « busca de excitação » ! Tanto “orgiasmo colectivo” (Beauchard, Jacques, 1985, La Puissance des Foules, Paris, Presses Universitaires de France). Welcome to the Pleasuredome!

Frankie Goes To Hollywood. Welcome to the Pleasuredome. Wellcome to the Pleasuredome. 1984.

 

Potentes, prepotentes e impotentes

Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

01. Francisco Goya. Now One, Now Another, Los Caprichos plate 77 (1799)

Há pouco tempo, olhava-se em redor, só se viam prédios em construção. Agora, olha-se em redor, só se vêem hierarquias. Zelo do Homo Hierarchicus (Dumont, Louis, 1966). A igualdade é folha caída. Rankings, concursos, orgânicas, burocracias, protocolos, paradas… A cada um as suas asas de cera, mais o seu ninho de poder. Parafraseando Francis Bacon, o poder, a exemplo da aranha, tece a teia com a sua própria substância, quem nela cai raramente se levanta. Quanto mais resiste, mais se enreda.

 

A plastificação da inteligência

Le vent l’emportera
Tout disparaîtra
Le vent nous portera
(Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001)

A plastificação dos oceanos inspira a publicidade. O anúncio espanhol da CREA, Sin Contaminación, e o anúncio Ocean of the Future, da Greenpeace, são disfóricos. Traçam um retrato cinzento da nossa irresponsabilidade. Para o anúncio Sin Contaminación, não estamos apenas a intoxicar o ambiente, intoxicámo-nos a nós próprios.

Sin contaminación

Marca: CREA. Título: Sin Contaminación. Espanha, Junho 2018.

Marca: Greenpeace. Título: Ocean of the Future. Agência: Ogilvy & Mather (London). Reino Unido, Abril 2018.

A fatrasia, estilo típico da Idade Média, alinha frases sem nexo. Mistura alhos com bugalhos num discurso sem sentido aparente. Gosto da fatrasia. Prefiro a paella ao puré. Por quê acrescentar o vídeo musical Le Vent Nous Portera, dos Noir Désir? Passa-se numa praia. É disfórico e estranho, um “bouquet de nerfs”. É percorrido por um sentimento de ameaça, sem como nem quando. Se isto não é suficiente para justificar o vídeo musical, acrescento que gosto dos Noir Désir! Gostar é o melhor passaporte para qualquer lugar e qualquer viagem.

Noir Désir, Le Vent Nous Portera. Des visages des figures. 2001.

Muitos anúncios do Tendências do Imaginário são filhos da pressa e do desperdício. O anúncio Sin Contaminación, consistente e original, merecia um comentário mais circunstanciado. O mesmo vale para o vídeo Le Vent Nous Portera, um filme subtil, um bom exemplar da canção francesa, com uma letra que se emancipa da estética do belo. Ando sobreocupado a perder tempo. A minha escrita parece o inverso de uma sopa de pedra: um calhou no fundo de um pote sem sombra de acompanhamento. Sem empratamento, sem decoração que disfarce e eufemize o mundo. Surpreendo-me, às vezes, a pintar cenários insensatos: com o vento actual, preocupa-me a plastificação dos oceanos, mas não me preocupa menos a plastificação da inteligência.

A sobrevivência da paz

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Acabado de sair, este anúncio é impressionante. Uma obra de arte.

Con dirección del ganador del Oscar Armando Bo, escrita por Carlos Bayala y Richard Flintham, de New London Agency, y con música de Brian Eno, Strange Animal es una metáfora de los últimos 50 años de la historia colombiana.

En el cortometraje se ve a una paloma luchar por la vida. La representación más simple de la lucha de Colombia en su búsqueda de la paz. Sola y desesperadamente tratando de respirar, en medio de la jungla colombiana, la paloma está limitada, parece casi muerta. Lo que sigue es su viaje, doloroso pero edificante (http://www.adlatina.com/publicidad/%E2%80%9Cstrange-animal%E2%80%9D-lo-nuevo-de-armando-bo-y-new)

Título: Stange Animal. Agência: Rebolucion, Anonymous Content e New London. Direcção: Armando Bo. Junho 2018.

Chuva dissolvente

Habitat-1

Admiro a inteligência que serve o próximo, a perspicácia de quem resolve problemas. Este anúncio brasileiro aproxima-se da genialidade generosa. Avança com uma forma de reduzir a incidência das doenças associadas aos mosquitos: Dengue, Zica, Febre Amarela e Chicungunya. A Habitat Brasil cola cartazes nos locais onde a reprodução dos mosquitos é mais provável. Os cartazes são “pôsteres [de papel de arroz] educativos que se dissolvem na chuva e liberam um poderoso larvicida que mata as larvas do mosquito na água”. Mais engenhoso do que o ovo de Colombo, e muito mais útil.

Anunciante: Habitat para a Humanidade Brasil. Título: O Poster Dissolvente. Agência: BETC São Paulo. Direcção: Vilão. Brasil, Junho 2018.

Acrescento um zumbido clássico.

Nikolai Rimsky-Korsakov. The Flight of the Bumblebee. Berliner Philharmoniker.

Funcionários do espírito

O mais avisado é não escrever nada. Acrescentar apenas uma ilustração.

Quino. Monotonia

Quino. Monotonia.

O festim dos macacos

Ver a realidade através de frases é ser intelectual? Prefiro vê-la pelos teus olhos.

Jan Brueghel o Velho. O festim dos macacos. 1621. Foto Fernando

01. Jan Brueghel o Velho. Festim dos macacos. 1621. Foto Fernando.

O meu rapaz mais novo está de visita ao meu rapaz mais velho. Na Casa de Rubens, em Antuérpia, descobriu o Festim dos Macacos, de Jan Brueghel o Velho (c. 1621). Enviou-mo. É uma alegoria da vaidade humana.

Jan Brueghel the Elder. Festim de Macacos. 1620's

02. Jan Brueghel o Velho. Alegoria da vaidade. Festim de Macacos. C. 1621.

Os macacos estavam em voga nos séculos XVI e XVII. Na pintura (Figura 3) e nas festas. Nas procissões do Corpo de Deus, a espécie mais prezada era o bugio (não confundir com os bugíos do São João de Sobrado).

David_Teniers_(II)_-_Smoking_and_drinking_monkeys.C. 1660

03. David Terniers (II). Macacos a beber e a fumar. C. 1660.

Há imagens que me apetece ouvir. A singerie de Jan Brueghel o Velho lembra-me algumas composições dedicadas a animais:

La Fête de l’Ane. Música medieval. Clemencic Consort.
Jean-Philippe Rameau. La Poule. 1728.
Louis-Claude Daquin. Le Coucou. 1735.
Nikolai Rimsky-Korsakov. Flight of the Bumblebee. 1899-1900.
Camille Saint-Saens. O Carnaval dos Animais. 1887…

Mas decidi-me por Dimitri Shostakovich, menos pelos macacos e mais pelo festim.

Dimitri Shostakovich.  Taiti Trot (Tahiti Trot), Op. 16. 1927.

Dimitri Shostakovich. Jazz Suite No. 2- VI. Waltz 2.opus. 1938.

A arte de limpar o rabo

Fundação de Serralves. Exposição O Olho do cú. 2006

Fundação de Serralves. Exposição O Olho do cú. 2006.

Escatologia: “utilização ou gosto por expressões ou assuntos relacionados a fezes ou obscenidades” (Dicionário Priberam).

Volta e meia, a escatologia vem ao de cima (ver Política e Escatologia). O anúncio Le Papier, da revista francesa So Foot, é minimalista e escatológico. No domínio da escatologia, a França tem os seus pergaminhos. Nas páginas de François Rabelais, Gargantua escreve ao pai como logrou inventar o melhor modo de limpar o rabo. Pelo meio, elimina dezenas de soluções (ver Obscenidade). Em França, a palavra merde é de uso corrente e, em determinadas circunstâncias, dá sorte. Enfim, se existe palavra gaulesa que percorreu o mundo foi toilettes. A moral do anúncio Le Papier ofusca La Fontaine: na falta de papel higiénico, mais vale rasgar uma fotografia de família do que uma folha da revista So Foot.

Marca: So Foot. Título: Le Papier. Agência: BETC. Direcção: Hafid f. Benamar. França, Junho 2018.