Archive | Dezembro 2018

A vontade de beber

Ampulheta. Verão Super Bock.

Não tenho destacado devidamente a publicidade portuguesa. Parto do princípio de que os seguidores do Tendências do Imaginário já a conhecem. Um duplo erro: no ano 2018, as consultas provenientes de Portugal resumem-se a 18,8%. Tendência do Imaginário não é uma página apenas para portugueses. Oito em cada dez consultas provêm do estrangeiro. Em segundo lugar, muitos portugueses desconhecem a publicidade nacional, por não exposição, por exemplo, aos canais em que é difundida.
A Super Bock pertence às marcas consistentes e distintas da publicidade portuguesa. Frisa a excelência, contrata as melhores agências nacionais e internacionais, os anúncios caracterizam-se pelo apuro pragmático e estético da fotografia, da imagem, do ritmo, da música, do texto, do tema e do lema. São anúncios com personalidade que convocam, explicitamente, três valores: a confraternização, a amizade e a autenticidade, normalmente num ambiente festivo de exaltação colectiva, de preferência nacional, em que a linguagem corporal suplanta a palavra. O primeiro anúncio enquadra-se neste padrão. O segundo é, no meu entender, uma pequena excepção na paleta da Super Bock. Existe confraternização e amizade, mas em “segundo plano”. O primeiro plano centra-se na autenticidade na relação de um jovem casal.
Permitam-me um reparo despropositado: o início do anúncio “90 anos a fazer amigos” causa-me uma leve estranheza; o povo não me parece português. Os meus estereótipos apontam, eventualmente, para o povo irlandês. Não sei por quê. Talvez as coberturas: muitos bonés, alguns chapéus e boinas, só militares. Em suma, já não tenho olhos de ver.
A música dos anúncios da Super Bock é decisiva. Uma escolha criteriosa. Cada anúncio é acompanhado pelo correspondente vídeo musical.

Marca: Super Bock. Título: 90 anos a fazer amigos. Agência: O Escritório. Direcção: José Pedro Sousa. Portugal, Março de 2017.
Benjamin Clementine. Nemesis. At least for now. 2015.
Marca Super Bock. Título: Momentos. Produção: Ministério dos Filmes. Direcção: José Pedro. Portugal, 2008.
Brandi Carlile. The Story. The Story. 2007.

Sem sombras

Rodolphe-Théophile Bosshard. L’accordeoniste aveugle. 1923. A figura do acordeonista cego, eventualmente pedinte, faz parte do nosso imaginário.

Há mais de uma centena de músicos cegos célebres (ver um inventário em https://en.wikipedia.org/wiki/Category:Blind_musicians). Ray Charles, Stevie Wonder, José Feliciano e Andrea Bocelli constituem alguns exemplos. É admirável, mas sem pasmar. Como diria Vilfredo Pareto, o cego ouve e fala. Mais espantoso é um surdo compor uma sinfonia. Ou talvez não! Cego mesmo cego é o “que não vê com o coração”.

Cego não é invisual, invisual é aquilo que não se vê; invisual não é quem não vê. Assim como um cego não é um invisual, um velho não é um idoso, um sénior ou um terceiro idoso. Um velho é um velho! Os trapos são trapos! Irritam-me os reformadores de palavras empenhados em enfeitar artificialmente a língua.

Deu-me para colocar duas músicas com intérpretes cegos. De preferência, em dueto, para observar a interacção no palco. Optei por José Feliciano e Andrea Bocelli. José Feliciano fez, em 1968, um cover da canção Light my fire, dos Doors. Canta com Minnie Riperton um novo cover (1979). Pares não faltam a Andrea Bocelli. Hesitei entre a canção Time to say goodbye, com Sarah Brightman, e Dare to live, com Laura Pausini. Seja Laura Pausini.

Andrea Bocelli & Laura Pausini. Dare to live. Ao vivo no Teatro Del Silenzio. Itália, 2007.

Para aceder ao vídeo com o José Feliciano e a Minnie Riperton, carregar na imagem seguinte ou neste link: https://www.youtube.com/watch?v=RMttEWdVj7k.

José Feliciano & Minnie Riperton. Light my fire. Do álbum Minnie, de Minnie Riperton, publicado em 1979.

Beleza interior

Beleza interior. René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

Alguém disse que era bonito por dentro. A beleza interior costuma “compensar” a falta de beleza exterior. A beleza interior não é acessível às endoscopias, colonoscopias e outras “viagens ao interior do corpo”. Não é palpável. Assim como a música não se vê mas ouve-se, a beleza interior não se vê mas verbaliza-se. Como bons católicos, todos temos um anjo da guarda, a graça e beleza interior. Este parágrafo pretende ser um longo mot d’esprit.
O humor, o riso e o mot d’esprit eram apreciados nas cortes dos séculos XVII e XVIII. Havia profissionais para o efeito: os bobos. E muitos amadores. Algumas pessoas ficaram célebres pela qualidade dos seus mots d’esprit. Além dos mots d’esprit, os nobres prezavam os banquetes, a arte efémera, a música, a dança e a água de rosas.
Luigi Boccherini foi compositor e violoncelista. Nasceu em Itália em 1743 mas veio para Espanha, para a corte de Carlos III, com cerca de 26 anos. Permanecerá em Espanha até à morte (1805). O seguinte episódio ilustra o nível de autonomia de um compositor no século XVIII. Carlos III mostra desagrado por uma passagem de uma composição. Molestado pela intrusão, Boccherini, em vez de eliminar, dobrou a passagem. Carlos III despediu-o.
Boccherini produziu uma obra considerável, designadamente quartetos e quintetos para cordas. A influência da música espanhola é óbvia. À semelhança de Antonio Vivaldi, acabou a vida na miséria e a sua obra foi menosprezada durante dois séculos, tendo sido “redescoberta” nos anos trinta. Vale a pena “assistir” a dois excertos, um fandango e um minueto, de música clássica para cordas, com acompanhamento de castanholas.

Luigi Boccherini. Fandango. The Carmina Quartet plays the fourth movement (“Fandango”) from Boccherini’s Guitar Quintet G. 448 in D Major. With Rolf Lislevand, guitar and Nina Corti, castanets”.
Luigi Boccherini. “Minuet from the String Quintet in E Major, Op 11 No 5, performed by the Camerata Eduard Toldrà. Barcelona, on the 28th of February 2016. Dance and Choreography by Belen Cabanes”.

Maldade por maldade

Tomás Santa Rosa (1909-1956)

A maldade e a estupidez existem? Insistem” (inspirado em Marcel Camus).

Pergunta retórica: pode uma pessoa boa ser má? Desde que se convença que está a fazer uma bondade. As maldades por bondade são as mais temíveis. Maldade por maldade, prefiro uma maldade que não tenha que louvar.

Tomás Santa Rosa, stage design for the Mancenilha ballet, 1953.

O pintor brasileiro Tomás Santa Rosa (1909-1956) não tem qualquer culpa neste relambório. Entendi, simplesmente, colocar dois quadros seus. Apetece-me também colocar, sem razão, um minuto da conversa de Jacques Brel sobre a estupidez, a maior alavanca da maldade. Vale a pena ouvir um dos melhores cantores do século XX. Pode aceder à canção L’Air De La Bêtise no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=zR52xwAC7jM.


Extrait : Jacques Brel, interviewé par Henry Lemaire, printemps 1971
Réalisation : Marc Lobet – Via YouTube.

Misericórdia

Algures na fronteira da Hungria.

No dia 21 de Março de 2017, uma embarcação sai da Líbia rumo à Europa. Naufraga no Mediterrâneo. Centenas de sobreviventes são resgatados pelo barco Aquarius. No barco, uma mulher grávida de oito meses e meio dá à luz uma menina, baptizada Mercy (misericórdia). A canção Mercy (Eurovisão 2018), do duo Madame Monsieur, centra-se neste episódio, que se ergue como um símbolo de esperança sob fundo de tragédia. Mas existem outros símbolos. Por exemplo, o corpo de um menino que deu à costa. A esperança renasce e submerge. Renasce da destruição e sucumbe à destruição. Fé, esperança e caridade são as três virtudes teologais. Espera-se de um cristão que partilhe a fé, promova a esperança e pratique a caridade. A canção Mercy é filha da esperança. Tem a virtude de focar as centenas de milhares de migrantes que chegam a bom porto. Outros não resistem à travessia ou perdem, paradoxalmente, a esperança chegados ao destino, enrolados em interesses, ideologias e arame farpado.

Madame Monsieur. Mercy. Álbum: Vu d’ici. 2018.

A canção Mercy Street, de Peter Gabriel pouco ou nada tem a ver com a canção Mercy do duo Madame Monsieur. Uma acentua a esperança, outra, a melancolia, uma esperança submersa, soturna e refractada. Três rios desaguam no estuário do desespero: eros, tanatos e culpa. Nenhum resolvido. Os outros de Peter Gabriel somos nós.

Peter Gabriel. Mercy Street. Àlbum: So. 1986.

Sem palavras

O anúncio italiano Every people matters, da ONG Emergency, é uma história sem palavras fácil de entender. Um refugiado vende rosas. Ninguém compra. À porta de um restaurante, inteira-se que um cliente é vítima de um ataque cardíaco. Consegue socorrê-lo. Será médico? É um ser à parte, ora desvalorizado, ora ignorado. Não há migrações sem consequências. É possível aproveitá-las, mas é mais fácil deixá-las degradar.
Dizem que o Natal é todos os dias. Nunca acaba. Não há festa tão elástica. Abre semanas antes com a incontinência das compras, acaba semanas depois sem dinheiro para os saldos. Prefiro o São João. Seis meses antes do Natal, começa e acaba de um dia para o outro, sem tempo para dívidas. Comparadas com a lareira do Natal, as fogueiras de São João ardem mais em menos tempo.

Anunciante: Emergency. Título: Every person matters. Agência: Ogilvy & Mather (Milan). Direcção: Gigi Piola. Itália, Janeiro 2018.

Pegadas e caminhos

Cresci pendurado na fronteira. Era difícil não ouvir Juan Manuel Serrat. Natural de Barcelona, os seus primeiros discos (1967 a 1969) continham canções em catalão. Em 1968, é convidado para interpretar a canção espanhola “La, la ,la” no Festival da Eurovisão. Insiste que só interpretará a canção se esta for em catalão. É substituído por Massiel que ganha o Eurofestival. Consta que o governo de Franco proibiu a emissão das canções de Joan Manuel Serrat na televisão e na rádio.

Anacronismo à parte, nas viagens ao passado esbarro com o presente! Em 1969, Joan Manuel Serrat publica um disco dedicado a Antonio Machado (Figura 1). As letras combinam versos do poeta. Pertence a este disco a canção Cantares. No presente vídeo, Juan Manuel Serrat interpreta-a ao vivo, 47 anos depois da primeira edição. A canção mais célebre resgata o seguinte poema de Antonio Machado:

“Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar”.
Antonio Machado. Proverbios y Cantares (XXIX). Campos de Castilla. 1912.

Joan Manuel Serrat. Cantares.1969. Ao vivo em 2016.

Este poema é o lema de uma das obras mais notáveis da sociologia: O Método, de Edgar Morin. O autor demarca-se da epistemologia que me habituei a chamar, nas horas azedas, esquelética da razão, uma espécie de esquemática apostada em antecipar destinos e mapear percursos. Na capa da primeira edição de O Método figura a gravura Drawing Hands (1948) de M.C. Escher. Falta apenas uma leve aragem barroca para dispor as mãos em espiral. Antonio Machado, M.C. Escher, Joan Manuel Serrat e Edgar Morin compõem um quarteto significativo. Não compõem?

“Na origem, a palavra «método» significava caminho. Aqui temos de aceitar caminhar sem caminho, fazer o caminho no caminhar. O que dizia Machado: Caminante no hay camino, se hace camino al andar. O método só pode formar-se durante a investigação; só pode desprender-se e formular-se depois, no momento em que o termo se torna um novo ponto de partida, desta vez dotado de método. Nietzsche sabia-o: «Os métodos vêm no fim» (O Anticristo). O regresso ao começo não é um círculo vicioso se a viagem, como hoje a palavra trip indica, significa experiência, donde se volta mudado. Então, talvez tenhamos podido aprender a aprender a aprender aprendendo. Então, o círculo terá podido transformar-se numa espiral onde o regresso ao começo é, precisamente, aquilo que afasta do começo. Foi precisamente isto que nos disseram os romances de aprendizagem de Wilhelm Meister a Siddharta” (Edgar Morin, La Méthode, 1977. Trad. portuguesa: Publicações Europa-América, p.25).

Justino e os manequins

Em Espanha, a lotaria é um ritual natalício. É costume adquirir-se um bilhete no Natal ou nos Reis, ocasiões em que a sorte parece ser mais amiga. Este anúncio da Lotería de Navidad foi considerado um dos melhores do ano 2015. Um conto de Natal memorável em torno de um homem tranquilo que, apesar do isolamento, gosta de comunicar com objectos e com pessoas. Chama-se Justino, o guarda nocturno de uma fábrica de manequins.

Marca: Lotería de Navidad. Título: Justino. Agência: Leo Burnett Madrid. Direcção: Juan García-Escudero. Espanha, 2015.

“Justino es un guardia de seguridad que trabaja de noche en una fábrica de maniquíes. Todos los días suena su despertador a las 22.00 horas, coge el autobús y acude al trabajo en una fábrica de maniquíes. No ve a sus compañeros y trabaja en soledad. Pero Justino no está solo. Los maniquíes son los compañeros que le faltan y su medio de comunicación para interactuar con los trabajadores de día.
Llega la Navidad y Justino les va dejando mensajes a través de esos maniquíesque cobran vida de la mano de este peculiar vigilante. Y como en cualquier lugar de trabajo se cuelga la lista para participar en el Sorteo de Navidad. David, Delia, Lucas, Valentina… La mayoría juega, pero Justino no se da cuenta. Está más pendiente de dejar una sorpresa a Carmen por su cumpleaños o fabricar un gran árbol de Navidad construido con maniquíes.
El día de la Lotería, Justino se vuelve a despertar a las 22.00, vuelve al mismo autobús de todos los días, sube en el mismo ascensor de siempre, pero cuando se abre la puerta le espera uno de sus maniquíes con un décimo en la mano. Justino lo recoge, sonríe y se descorcha una botella. A Justino se le olvidó, pero a sus compañeros no, igual que él no se olvidaba de ellos”.
“Este ‘claim’ sigue siendo el mensaje principal de la campaña porque evoca y transmite la bondad, generosidad y la grandeza de los pequeños detalles”, ha afirmado Inmaculada García, presidenta de Loterías y Apuestas del Estado durante la presentación (El Mundo 01/12/2015: https://www.elmundo.es/sociedad/2015/11/16/5649b5ce46163f0c1f8b45cf.html).

A lua de Natal

Adoração dos Reis Magos, Retábulo da Sé de Viseu, Vasco Fernandes (act. 1501-1542) e Francisco Henriques (act. 1500-1518).
Barry & Beth Hall. Journey of the Magi, do album: A Feast Of Songs – Holiday Music From The Middle Ages. 2002.

Nasceu o menino. Há tanto tempo! O quadro Adoração dos Reis Magos, do início do século XVI (Retábulo da Sé de Viseu, no Museu Grão Vasco, por Vasco Fernandes e Francisco Henriques) é o único que contempla um “quarto rei mago”: um chefe índio com oferendas para o menino Jesus. Vivia-se o rescaldo da descoberta do Brasil. O quadro testemunha uma capacidade de adicionar o outro, por sinal, no domínio do sagrado.
A música, alusiva à viagem dos réis, é singela (dura menos de dois minutos) mas encantadora.
A lareira, o fogo, aquece os seres humanos. Aquece os corações; aquece os fígados. Os corações, para o amor e os fígados, para a violência. A par do nascimento do menino, ocorreu o massacre dos inocentes e a fuga de Maria, José e o Menino, ainda enfaixado, para o Egipto, o seu refúgio. Os contemporâneos de Herodes não podem aprender connosco, aprendamos nós com eles!
Feliz Natal e um excelente Ano Novo.

Fino, compacto e absorvente

O anúncio vietnamita Mỏng manh mạnh mẽ, da Laurier LSSG, é uma paródia da saga 007. Uma paródia criativa. É verdade que todas as paródias são criativas, mas umas são mais criativas do que outras. Não temos um herói mas uma heroína, muita acção, uma caricatura das tecnologias digitais, um vilão e o inevitável gadget multifunções: um penso higiénico fino, compacto e absorvente.

Marca: Laurier Super Slimguard. Título: Slim but strong. Agência: Dinosaur. Vietname, Agosto 2018.