Archive | Dezembro 2018

A solidão das massas e a agressão introvertida

Francisco de Goya. Procissão de flagelantes. Entre 1812 e 1819.

Francisco de Goya. Procissão de flagelantes. Entre 1812 e 1819.

La sujecion se hace cada vez mas hermetica Y no quiere la comunicacion. Lo contrario del hermetismo es la apertura, pero la mayorfa de las veces lo demoniaco no se expresa, sino que estalla solo de modo atavico. Y no en palabras; su manifestacion mas simple y frecuente, una manifestacion creadora de monstruosidades, no es ni siquiera, como podna pensarse por razon de la interioridad, individual, ni tiene lugar en torno a tales personas singulares, sino que es arrebato de las masas, si bien un arrebato provocado, en la mayoria de los casos, por estas mismas personas. Es un arrebato que va desde el frenesi de las bacantes, de los berserker, hasta los pogromos de los cruzados y hasta la agresion invertida de los flagelantes, desde la embriaguez de la batalla hasta el terror bianco. En todo ello lo demoniaco no hace uso de la comunicacion, ni siquiera cuando penetra en la masa, cuando se hace colectivo. El viejo hermetismo se conserva, mas bien, en su estallido colectivo; lo que aparece como comunicacion es solo contagio, y en el fondo se encuentra la misma soledad como masa. La no-revelacion de lo herme’tico responde en el arrebato demoníco de la masa a la ausencia fundamental de entendimiento, critica, autocontrol y juicio” (Bloch, Ernst, El Princípio Esperanza, 1954. Madrid, Editorial Trotta, 2007, Vol. III, p. 78.)

Segundo o meu rapaz mais novo, os Monty Python têm um humor actual. Como argumento, envia-me vários excertos, entre os quais o episódio da caça à bruxa no filme Em Busca do Cálice Sagrado (1975).

Tenho o vício de visitar os clássicos. São os clássicos, a cerveja e o tabaco. Pensaram as mesmas coisas que nós pensamos. Com mais serenidade. Com tanta velocidade, o cérebro, hoje, estampa-se. Para Ernst Bloch, a submissão contemporânea é  hermética e avessa à comunicação. Não aposta na pessoa e a na subjectividade mas no arrebatamento  colectivo. A explosão colectiva não convoca a comunicação mas o contágio. “A solidão das massas” (Hannah Arendt, As origens do totalitarismo, 1951) é caracterizada pela “ausência fundamental de entendimento, crítica, autocontrole e julgamento”. Assim sucede com os flagelantes e os “caçadores de bruxas”. Nos primeiros, o ritmo, o coro e a “agressão introvertida” exilam a reflexividade e a originalidade. Outrora como agora. Nos segundos, o arrebatamento da besta colectiva nem sequer precisa da intervenção do diabo para julgar e matar a bela feiticeira (ver A cadeira de patinhar). Comparar é uma tentação. No presente, também existem colectivos semelhantes: a praxe, as claques, os concertos musicais, os deputados durante a votação do orçamento e, não sei porquê, os coletes amarelos, tão diferentes dos coletes salva-vidas.

O humor dos Monty Python persiste porque é único. Numa cascata de absurdos, atropelam-se duas formas de grotesco: o cómico regenerador e o sinistro corrosivo. As nossas bocas abrem-se de riso e fecham-se de desconforto. Neste exercício de maxilares, os neurónios escaldam e gelam quase ao mesmo tempo.

Monty Python. Em busca do cálice sagrado. 1975

Os condenados da terra

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

“Não faz muito tempo a terra tinha dois biliões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilião e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado” (Jean-Paul Sartre, Prefácio, Franz Fanon, Os Condenados da Terra, 1961).

Quando não se vive e não se está morto, recorda-se.

Existe um anúncio que me marcou profundamente e não consigo encontrar: da Unicef, sobre a fome em África e com a música Twelve o’clock do Vangelis (Heaven and Hell, 1975). Tornou-se uma obsessão. Passava, há mais de 30 anos, na televisão francesa na hora de jantar. O apetite encolhia-se perante o cortejo de imagens de desnutrição extrema acompanhado por um lamento do outro mundo.

Não sei se encontrei o anúncio, mas nunca estive tão perto. A memória audiovisual é vaga, muito vaga. O anúncio Don, da Unicef, corresponde na música e em algumas imagens, mas data de 1985. Regressei de França em 1982. Talvez seja uma sequência ou talvez o tenha visto numa das então muitas viagens a França.

O vídeo Africa Hunger aproxima-se bastante do dito anúncio. Tem imagens terríveis de desnutrição e música do Vangelis, embora diferente e mais recente: Rachel’s song (Blade Runner, 1994). Nem sequer é um anúncio, a não ser o da nossa irresponsabilidade. Para Paul Virilio, a realidade acelerou a uma velocidade nunca vista, mas nem tudo acelerou, há realidades que mudam demasiado devagar.

Anunciante: Unicef. Título: Don. Agência: Opus. França, 1985. Música Twelve o’clock, Heaven and Hell, 1975.

MarK Van Doich. Africa Hunger. 2009. Música: Vangelis. Rachel’s song. Album: Blade Runner. 1994.

Miserere.

Hoje, fui ao Mosteiro de Tibães. Vi cogumelos brancos, amarelos, castanhos e vermelhos com pintas brancas. Não é que os cogumelos cantam! Hoje, voltei do Mosteiro de Tibães com os cogumelos nos olhos e o Miserere de Allegri nos ouvidos.

Cogumelos no Mosteiro de Tibães. 2018.

Gregorio Allegri. Miserere. 1638. Interpretação: The Choir of Claire College, Cambridge, Timothy Brown. 1995.

A besta humana

SemioticaEspacoTibaes

Está convidado!

A Cruz Vermelha, fundada em 1864, é a mais respeitável das instituições de solidariedade. Tem uma presença no terreno única. O primeiro anúncio, The one gift Santa can´t deliver, aborda o abandono de crianças durante os conflitos, as migrações e as catástrofes naturais. O segundo anúncio, Ce père va-t-il sauver sa fille?, oferece-se como uma ficção que se revela realidade: a destruição das condições mínimas de vida das populações.

Eneko

Eneko.

Todos os anúncios são construídos e comportam um coeficiente de fantasia. O primeiro anúncio recorre à figura do Pai Natal, uma boa opção para a narrativa, mas também um amaciador da realidade. O segundo anúncio lembra as tragédias, os dramas e o suspense dos filmes e das séries televisivas mas são uma dura realidade. Ambos convocam crianças. Constituem dois anúncios pungentes de “sofrimento à distância” (Luc Boltanski, La souffrance à distance, 1994). O segundo mais do que o primeiro.

Anunciante: International Committee of Red Cross. (IRCR). Título: The one gift Santa can´t deliver. Agência: adam&eve DDB. Direcção: Gary Freedman. Reino Unido, Novembro 2018.

Anunciante: International Committee of Red Cross. (IRCR). Título: Ce père va-t-il sauver sa fille? Agência : Sra Rushmore. Direcção : James Rouse. Maio 2018.

Vulvas e pirilaus

Libresse

Pelo conteúdo do anúncio No Jobs For C*cks, da associação Oh You Women, os pirilaus, usurpadores, desfrutam de algum protagonismo. Pergunto-me o que aconteceria se o anúncio fosse invertido? Uma indignação?

Marca: Oh You Women. Título: No Jobs For C*cks. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Maio 2018.

Na publicidade, além de pirilaus, temos vulvas. O anúncio Viva la Vulva, da Libresse, consiste numa música cantada por vulvas. Muitas vulvas. Se o anúncio No Jobs For C*cks é um protesto, o anúncio Viva la Vulva é uma celebração. Goste-se ou não!

Marca: Libresse. Título: Viva la Vulva. Agência: AMV BBDO. Direcção: Kim Gehrig. Reino Unido, Novembro 2018.

Pauzinhos

Descarga de uma carraca portuguesa. Pannels attributed to Kano Naizen, 1570-1616 (detail)

Descarga de uma embarcação portuguesa. Biombos atribuídos a Kano Naizen, 1570-1616 (detail). Museu Nacional de Arte Antiga.

Na semana passada eclodiu um imbróglio internáutico. Um anúncio e um desfile da Dolce & Gabbana foram boicotados. Um excerto de uma notícia do Público Online narra os acontecimentos. Cinjo-me a acrescentar alguns apontamentos.

  • O sentido de humor parece não ser universal. Se quiser fazer humor, assegure-se que domina a arte. Existem cordas muito sensíveis em que convém não tocar, a não ser com luvas de seda estilizadas. Na actualidade, duas dessas cordas são o sexismo e o racismo.
  • A Internet é um espaço de poder, um lugar onde pontificam vontades hierarquizadas. Apesar de a Internet ser imaterial, há pessoas que pesam mais do que outras. Por exemplo, a indignação das celebridades Zhang Ziyi, Li Bingbing e Wang junkai surte tanto efeito que até é notícia mundial. A universalidade e a igualdade da Internet são um logro.
  • É possível retirar, de um momento para o outro e à escala global, conteúdos da Internet. Revela-se, deste modo, difícil aceder aos anúncios boicotados. Precise-se que o cidadão comum não tem quase nada de seu na Internet. Num ápice, podem desaparecer-lhe conteúdos, por exemplo, do seu blogue ou das suas páginas nas redes sociais.
  • Os responsáveis pela marca italiana pediram desculpa à China. Intrometeu-se uma mensagem polémica de Stefano Gabbana que este garante ser falsa. Alguém teria pirateado a sua conta de Instagram. Verdade ou mentira, que alguém aceda a uma conta e fale em nosso nome é um risco real. Esta situação é mais complexa do que o boato tradicional. Os procedimentos de partilha e adulteração do boato são conhecidos (ver Edgar Morin, La rumeur de Orléans, 1969). Contudo, neles não consta esta usurpação ou este aluguer da identidade alheia. Daqui se depreende que a Internet pode ser uma árvore de enganos e um jogo de máscaras.
  • As proibições e os boicotes a anúncios podem resultar numa espécie de maná para as marcas. No caso do anúncio da Dolce & Gabbana, duvido. Notoriedade, já a conquistou. Falta saber o que acontece à imagem.

Os anúncios boicotados da Dolce & Gabbana, com uma chinesa a comer comida italiana com pauzinhos, são difíceis de encontrar. Foram sistematicamente “apagados”. Encontrei uma cópia que passo a colocar. Não sei por quanto tempo.

Dolce & Gabbana. Anúncios a um desfile em Shangai. Novembro 2018.

Notícia no Público Online:

“Dolce & Gabbana cancela desfile em Shanghai por causa de um anúncio que envolve pauzinhos

A Dolce & Gabbana cancelou nesta quarta-feira um desfile de moda nem Shanghai, depois de uma polémica online em torno de um dos seus anúncios. Em causa está um anúncio onde uma mulher chinesa luta para conseguir comer pizza ou esparguete com pauzinhos. Os chineses não gostaram.

A controvérsia foi o tópico número um na plataforma Weibo, com mais de 120 milhões de leituras, já que celebridades, incluindo Zhang Ziyi, estrela de cinema de Memórias de uma Geisha, publicaram comentários críticos à marca. Celebridades, como a actriz Li Bingbing e a cantora Wang Junkai, disseram que boicotariam o desfile da marca italiana.

Alguns dos que viram os anúncios, ao todo são três, ficaram incomodados com o que consideram o tom paternalista do narrador, oferecendo lições sobre como comer com pauzinhos. Além disso, uma alegada troca de mensagens de Stefano Gabbana surgiu nas redes sociais que viriam a confirmar que o designer é racista. Este veio desmentir na sua conta de Instagram.

“Lamentamos o impacto e o prejuízo que essas observações falsas tiveram sobre a China e o povo chinês”, disse a marca de moda de luxo italiana, num pedido de desculpas online em chinês no Weibo, acrescentando que a conta do Instagram de Gabbana foi pirateada”.

(Público Online. https://www.publico.pt/2018/11/21/culto/noticia/dolce-gabbana-cancela-desfile-shanghai-criticas-anuncio-envolve-pauzinhos-1851859 (Reuters  21/11/2018). Acedido02/12/2018)

O efeito Piazzolla

Tango

Quando somos difíceis de aturar, cumpre-nos, ao menos, conhecer os gostos de quem nos suporta. Bastam três notas de Piazzolla para que nos promovam de castigo de Deus a caso especial digno de atenção. Como o gato.

Astor Piazzola interpreta “Adios Nonino” con la Sinfónica “Cologne Radio Orchestra” de Alemania. Extraído del documental “Astor Piazzolla: The Next Tango”.

Astor Piazzola. Libertango. Chamber orchestra and chorus of the Staatskapelle Berlin. Berlin Philharmonic hall. 2014.

Astor Piazzolla. Oblivion. Interpretação de Hauser. Arena Zagreb. Zagreb Philharmonic Orchestra. 2012.

Sarajevo

Max Richter.  Fotografia: Eric Weiss.

March 2012, Berlin. Max Richter. Fotografia: Eric Weiss.

Não me apetece trabalhar. Já dura há alguns dias. A preguiça, ao contrário da pasmaceira, ganha em ser confortada. Com música, por exemplo. A preguiça é uma pastagem generosa. Só o ignora quem nunca ruminou. Manhas da pós-inteligência. Trata-se de uma preguiça caprichosa. Não me impede, por exemplo, de teclar vigorosamente sem parar nas vírgulas. Mas não faço nada do que devo. Algo como uma greve da alma.

A filmagem do Sarajevo de Max Richter não é perfeita. Foi, no entanto, o melhor vídeo de interpretação ao vivo que encontrei.

Max Richter. Sarajevo. memoryhouse. 2002. Ao vivo, com Grace Davidson: 2016.