Maria Madalena: O Corpo e a Alma

“A razão nunca superou totalmente a imaginação, mas o contrário é corrente” (Blaise Pascal, Pensamentos). E quando a razão imagina? Quando sonha, segundo Goya, produz monstros. E quando imagina?

Levou semanas esta visita a Maria Madalena. Muito ficou por ver.

Giovanni Bellini. Maria Magdalena.1490.

Giovanni Bellini. Maria Magdalena.1490.

Maria Madalena consta entre as figuras mais fascinantes do Novo Testamento. Ambivalente e controversa, a imagem de Madalena sofre várias transfigurações ao longo dos séculos:
Companheira de Cristo, “apóstola dos apóstolos”, nos primeiros tempos da cristandade;
Santa pecadora perdoada por Cristo, a partir do século IV;
– Santa pecadora penitente, no fim do primeiro milénio;
– Santa penitente, “bela de corpo e bela de alma”, a partir do século XV.

Os evangelhos mencionam Maria Madalena em três episódios marcantes da vida de Jesus Cristo: a crucifixão, o sepultamento e a ressurreição.

Statue de Marie-Madeleine d'Écouis (Eure), Église Notre-Dame, 1311-1313

Statue de Marie-Madeleine d’Écouis (Eure), Église Notre-Dame, 1311-1313

Evangelho segundo Marcos. Capítulo 15

37  E Jesus, dando um grande brado, expirou.
38  E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.
39  E o centurião, que estava defronte dele, vendo que assim clamando expirara, disse: Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.
40  E também ali estavam algumas mulheres, olhando de longe, entre as quais também Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé;
41  As quais também o seguiam, e o serviam, quando estava na Galileia; e muitas outras, que tinham subido com ele a Jerusalém.
42  E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado,
43  Chegou José de Arimateia, senador honrado, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus.
44  E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido.
45  E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José;
46  O qual comprara um lençol fino, e, tirando-o da cruz, o envolveu nele, e o depositou num sepulcro lavrado numa rocha; e revolveu uma pedra para a porta do sepulcro.
47  E Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o punham.

Donatello. The Penitent Mary Magdalene 1425 Cathedral Museum, Florence. Detail.

Donatello. The Penitent Mary Magdalene 1425 Cathedral Museum, Florence. Detail.

Evangelho segundo Marcos. Capítulo 16.

1  E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo.
2  E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol.
3  E diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?
4  E, olhando, viram que já a pedra estava revolvida; e era ela muito grande.
5  E, entrando no sepulcro, viram um jovem assentado à direita, vestido de uma roupa comprida, branca; e ficaram espantadas.
6  Ele, porém, disse-lhes: Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não está aqui; eis aqui o lugar onde o puseram.
7  Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse.
8  E, saindo elas apressadamente, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e nada diziam a ninguém porque temiam.
9  E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios.
10  E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando.

Colijn de Coter,The Mourning Mary Magdalene (1500 - 1504) detail.

Colijn de Coter,The Mourning Mary Magdalene (1500 – 1504) detail.

Evangelho segundo João. Capítulo 20.

11 Maria Madalena tinha ficado perto da entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, ela se abaixou, olhou para dentro
12 e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus. Um estava na cabeceira, e o outro, nos pés.
13 Os anjos perguntaram: -Mulher, por que você está chorando? Ela respondeu: -Levaram embora o meu Senhor, e eu não sei onde o puseram!
14 Depois de dizer isso, ela virou para trás e viu Jesus ali de pé, mas não o reconheceu.

“Noli Me Tangere” by Fra Angelico, c. 1440.

“Noli Me Tangere” by Fra Angelico, c. 1440.

15 Então Jesus perguntou: -Mulher, por que você está chorando? Quem é que você está procurando? Ela pensou que ele era o jardineiro e por isso respondeu: -Se o senhor o tirou daqui, diga onde o colocou, e eu irei buscá-lo.
16 -Maria! -disse Jesus. Ela virou e respondeu em hebraico: -“Rabôni!” (Esta palavra quer dizer “Mestre”.)
17 Jesus disse: -Não me segure, pois ainda não subi para o meu Pai. Vá se encontrar com os meus irmãos e diga a eles que eu vou subir para aquele que é o meu Pai e o Pai deles, o meu Deus e o Deus deles.
18 Então Maria Madalena foi e disse aos discípulos de Jesus: -Eu vi o Senhor! E contou o que Jesus lhe tinha dito.

Anónimo italiano. Madalena. Séc. XVI.

Anónimo italiano. Madalena. Séc. XVI.

Segundo as escrituras, Maria Madalena é a discípula mais próxima de Jesus Cristo. Acompanha-o no Calvário; observa o sepultamento; dispõe-se a preparar o seu corpo. É a primeira pessoa a ver Cristo ressuscitado e a primeira a dar a boa nova (“primeira apóstola”). Entre as mulheres, o seu nome surge em primeiro lugar (a guia das seguidoras de Jesus). Retenha-se, ainda, o reparo de Marcos: Jesus tinha expulsado sete demónios de Maria Madalena. Sete demónios, tantos quanto os pecados capitais. Maria Madalena terá levado, antes de se converter a Jesus, uma vida de vício e pecado.

Enfim, não identificada, a pecadora da casa de Simão (Evangelho de Lucas), que molha os pés de Cristo com lágrimas e os enxuga com os próprios cabelos, será, alguns séculos mais tarde, associada, pela Igreja, a Maria Madalena.

Evangelho segundo Lucas. Capítulo 7.

36 Convidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa.
37 E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento;
38 e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento.
39 Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora.
40 Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Diz, Mestre.
41 Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta.
42 Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais?
43 Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem.
44 E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos.
45 Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés.
46 Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés.
47 Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.
48 Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados.
49 Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este que até perdoa pecados?
50 Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.

Rubens Pieter Paul - Feast in the House of Simon the Pharisee. 1618-20.

Rubens Pieter Paul – Feast in the House of Simon the Pharisee. 1618-20.

A associação, controversa, de Maria Madalena à pecadora de Lucas acaba por afetar a sua imagem. Consta que, naquele tempo, só as mulheres de má vida traziam o cabelo solto em público. A prostituição seria um dos sete demónios de Maria Madalena.

O Evangelho, apócrifo, de Maria (Madalena), retrata a santa como companheira, confidente e intérprete de Jesus Cristo, e com algum ascendente sobre os discípulos. Atente-se neste pedido de Pedro a Maria (Madalena): “Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos”. Em consonância, Hipólito, Bispo de Roma (170-235 D.C), classifica Maria Madalena como a “Apóstola dos Apóstolos”.

Perugino. Saint Mary Magdalene. Circa 1500-1502.

Perugino. Saint Mary Magdalene. Circa 1500-1502.

Que destino reserva a Igreja à companheira de Jesus, a “Apóstola dos Apóstolos”?

Bartolomeo di Giovanni. Sainte Marie-Madeleine. XV siècle.

Bartolomeo di Giovanni. Sainte Marie-Madeleine. XV siècle.

O Papa Gregório, o Grande (540-604 D.C.), acrescenta uma primeira interpretação decisiva. Num sermão, apresenta Maria Madalena como a prostituta que se arrependeu, e por isso foi salva. Esta imagem consolida-se com a fusão de três figuras do Novo Testamento: Maria Madalena, Maria de Betânia e a prostituta arrependida de Lucas. Para o Papa Gregório, o Grande, as três são uma única. Duas chamavam-se Maria e as três possuíam vasos com unguento.

“Se ela foi até o sepulcro para ungir o corpo do Senhor; se em João e Mateus está escrito que a mulher que ungira Jesus durante a ida a Betânia seria lembrada por ungi-lo, preparando-o para a morte futura; e se a mulher que lhe lavara os pés em Lucas também O ungira, então todas são a mesma pessoa: Maria Madalena era também Maria de Betânia e era a prostituta do texto de Lucas” (Sociedade das Ciências Antigas, Santa Maria Madalena, a Companheira do Salvador, http://www.sca.org.br/news/134/58/Santa-Maria-Madalena.html).

A imagem de Maria Madalena começa a pender para o lado do pecado e da penitência. O vaso com unguento será o seu principal símbolo. Maria Madalena afasta-se da Virgem Maria rumo a Eva.

Gregor Erhart. Maria Madalena. 1510. Museu do Louvre.

Gregor Erhart. Maria Madalena. 1510. Museu do Louvre.

No segundo quartel do século XI, “descobre-se” em Vézelay, no sul de França, o “santíssimo corpo da bem-aventurada Maria Madalena”. Como explicar semelhante fenómeno? “Impunham-se, pelo menos, duas explicações: qual foi a vida de Maria Madalena após a ressurreição de Cristo? Como é que o corpo de Maria Madalena veio da Judeia para a Gália?” (Duby, Georges, As damas do século XII, Companhia de Bolso, 2013). Os sermões vão encarregar-se de dar resposta:

Elevation of Mary Magdalene with angels raising her. SS Johns Cathedral. Toorun, 14th century. Detail.

Elevation of Mary Magdalene with angels raising her. SS Johns Cathedral. Toorun, 14th century. Detail.

““Após a ascensão do Salvador, movida por uma afeição ardente pelo Senhor e pela tristeza que sentia após sua morte”, Maria Madalena “nunca mais quis ver um homem nem um ser humano com seus olhos”; “retirou-se durante trinta anos no deserto, ignorada por todos, jamais comendo alimento humano nem bebendo. A cada uma das horas canônicas, os anjos do Senhor vinham do céu e a conduziam no ar a fim de que ela rezasse em companhia deles.” Um dia, um padre percebeu anjos que esvoaçavam acima de uma caverna fechada. Ele se aproximou e chamou. Sem se mostrar, Madalena se fez conhecer e lhe explicou o milagre. Pediu-lhe que lhe trouxesse roupas, pois “não podia aparecer nua entre os homens”. Ele retornou, e conduziu-a à igreja onde celebrou a missa. Ela expirou ali, após ter comungado o corpo e o sangue de Jesus Cristo [uma morte santa segundo o ideal medieval: anunciada, preparada, deitada e sacramentada]. “Por seus santos méritos, grandes maravilhas se produziam junto de seu sepulcro.” Na época em que Geoffroi se empenhava em fazer admitir que esse sepulcro se achava na abadia da qual era o encarregado, uma outra vida de Maria Madalena circulava, a que os historiadores chamam apostólica. Pretendia que Madalena, após o Pentecostes, tinha viajado por mar em companhia de Maximino, um dos 72 discípulos. Desembarcando em Marselha, os dois se puseram a pregar, a evangelizar a região de Aix. Morta Maria Madalena, Maximino lhe fez belos funerais e colocou seu corpo num sarcófago de mármore que mostrava, esculpida numa de suas faces, a cena da refeição na casa de Simão. Era possível conjugar essa segunda lenda com a primeira, situando o deserto de que esta falava nas montanhas provençais, na Sainte-Baume” (Duby, Georges, As damas do século XII, Companhia de Bolso, 2013).

Lucas Moser. The Magdalene Altar. St. Mary Magdalene Church, Tiefenbronn, 1432. Em cima, na casa de Simão. À esqueda, a viagem para França. À direita, a última comunhão de Madalena.

Lucas Moser. The Magdalene Altar. St. Mary Magdalene Church, Tiefenbronn, 1432. Em cima, na casa de Simão. À esqueda, a viagem para França. À direita, a última comunhão de Madalena.

Enxertam-se duas lendas na biografia de Maria Madalena. A vida depois de Cristo e a travessia de Galileia até França. A vida de eremita é decalcada de Maria do Egipto (344-421), prostituta convertida que se retirou em penitência no deserto. As imagens das duas santas são tão próximas que, por vezes, só os três pães, de Maria do Egipto, e o vaso com unguento, de Maria Madalena, as distinguem.

Hairy Mary of Egypt. Missal and book of hours, Lombardy, ca. 1385-1390.

Hairy Mary of Egypt. Missal and book of hours, Lombardy, ca. 1385-1390.

Ressalve-se que, no sermão analisado por Georges Duby, são dois os motivos que levam Maria Madalena a retirar-se do mundo: o amor a Jesus Cristo e a fuga ao contato humano: “movida por uma afeição ardente pelo Senhor e pela tristeza que sentia após sua morte, nunca mais quis ver um homem nem um ser humano com seus olhos”. Não se alude à vida de eremita como expiação dos pecados até à morte. Mas não será necessário aguardar muito tempo.

Ascensão de Maria Madalena. Fresco da Capela de St Erige, Auron. França. Séc. XV,

Ascensão de Maria Madalena. Fresco da Capela de St Erige, Auron. França. Séc. XV,

No início do século XII, Geoffroi de Vendôme escreve sobre Maria Madalena: “Pecadora famosa, depois gloriosa pregadora (…) mais por meio das lágrimas do que das palavras”.

“A mulher que Geoffroi mostra como exemplo é antes de tudo a que foi habitada pelos sete demônios, ou seja, pela totalidade dos vícios. Pecadora — a palavra retorna catorze vezes nesse curto texto —, peccatrix, mas também accusatrix, consciente de suas faltas e confessando-as, prostrada aos pés do mestre. (…) Submissa como devem ser sempre as mulheres, Maria Madalena só foi plenamente redimida após ter feito penitência. Interpretando à sua maneira a vida eremítica, Geoffroi afirma que, após a Ascensão, ela se lançou com fúria sobre seu próprio corpo, castigando-o com jejuns, vigílias, preces ininterruptas. Por meio dessa violência voluntária, Maria Madalena, “vítima”, e “vítima obstinada”, ficou sendo no limiar da salvação “porteira do céu”” (Georges Duby, op. cit.).

Em mil anos, a Igreja retoca sucessivamente a imagem de Maria Madalena até transformar a santa num “arquétipo do pecado” (Daniela Crepaldi Carvalho, Madalena: Arquétipo do Pecado, http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/m00015.htm).

Ticiano. Sta Maria Madalena penitente. 1533.

Ticiano. Sta Maria Madalena penitente. 1533.

A figura de Maria Madalena penitente, sofredora, empenhada na expiação dos pecados, vai marcar a arte cristã desde a Idade Média:

“A cabeleira solta, o perfume espalhado, ambos intimamente associados no imaginário da cavalaria aos prazeres do leito. Evocar essas armadilhas da sensualidade era atiçar no espírito dos ouvintes os fantasmas que a leitura da vida eremítica despertava: as doçuras de um corpo de mulher, nu entre as pedras ásperas, a carne adivinhada sob os cabelos em desalinho, a carne mortificada e no entanto resplandecente. Tentadora. Desde o final do século XIII, pintores e escultores se empenharam em oferecer da Madalena essa imagem ambígua, perturbadora. Sempre, mesmo os mais austeros, mesmo Georges de La Tour. Inclusive Cézanne” (Georges Duby, op. cit.).

Artemisia Gentileschi - Madalena desmaiada, ca 1653.

Artemisia Gentileschi – Madalena desmaiada, ca 1653. Tem na mão o instrumento com que se vergasta.

Na arte medieval, predominam duas imagens matriciais de Maria Madalena: penitente, eremita, nua, com os cabelos a cobrir o corpo; ou em ascensão, amparada pelos anjos, rumo ao céu para alimento celestial.

Antonio del Pollaiolo. Assunzione di Santa Maria Maddalena, ca. 1460.

Antonio del Pollaiolo. Assunzione di Santa Maria Maddalena, ca. 1460.

Estas imagens medievais esbatem-se durante o Renascimento. Maria Madalena tende a ser retratada vestida, em ambiente doméstico, acompanhada pelo vaso de unguento e por um livro, símbolo da gnose. Da Maria Madalena renascentista, desprende-se uma atmosfera de recato.

Piero Cosimo. Santa Maria Madalena. 1490.

Piero Cosimo. Santa Maria Madalena. 1490.

Bernini, “St. Mary Magdalen,” 1661-1663, Chigi Chapel, Siena Cathedral, Siena.

Bernini, “St. Mary Magdalen,” 1661-1663, Chigi Chapel, Siena Cathedral, Siena.

Com o barroco, regressa a Maria Madalena penitente. Mas, agora, ambivalente, foco de uma tensão entre o corpo e o espírito. Vivo, perturbador e inquieto, o corpo é castigado, mas nem por isso perde sensualidade (repare-se na escultura de Bernini). Uma sensualidade que se exacerba nos momentos de êxtase (ver as pinturas de Artemisia Gentileschi, Andrea Vaccaro e Francesco del Cairo). A corporalidade e a espiritualidade dobram-se mutuamente. Nem a Idade Média, nem o Renascimento lograram tamanha veemência assente na tensão entre o corpo e a alma (atente-se nas pinturas de Georges de la Tour, Angelo Caroselli, Giacomo Galli ou Carlo Sellito). Para o barroco, Maria Madalena é, antes de mais, uma bela alma num corpo belo.

A. Vaccaro. Magdalena penitente. Séc. XVII.

A. Vaccaro. Madalena penitente. Séc. XVII.

Para George Duby, esta alteração da imagem de Maria Madalena tem a ver com a reforma eclesiástica implementada entre 1075 e 1125: generalização do celibato dos membros do clero, instituição do casamento e combate aos pecados da carne. Neste cenário, a imagem de Maria Madalena, santa pecadora, presta-se como emblema e como arma, às mãos da Igreja.

Em mil anos, a Igreja masculiniza-se e a imagem de Maria Madalena feminiza-se. E, quanto mais mulher, mais pecadora. Ser mulher comporta custos, mesmo na corte celestial.

Andrea Vaccaro. Madalena em êxtase. 1654.

Andrea Vaccaro. Madalena em êxtase. 1654.

Nos primeiros séculos da era cristã, as mulheres foram, gradualmente, afastadas dos cargos da Igreja. “O Concílio de Elvira, em 305, instruiu que, todos aqueles que participassem do cerimonial do altar, mantivessem total abstinência de suas esposas. Em 325, o Concílio de Laodiceia proibiu as mulheres de servirem como sacerdotes e de possuírem paróquias; e em 425, o Concílio de Cartago, que contou com a presença de Santo Agostinho, decretou que todo o alto clero deveria se separar de suas esposas, sob pena de perder seus direitos sacerdotais” (Sociedade das Ciências Antigas, Santa Maria Madalena, a Companheira do Salvador, http://www.sca.org.br/news/134/58/Santa-Maria-Madalena.html).

Angelo Caroselli. The Penitent Magdalene, c. 1620, San Diego Museum of Art.

Angelo Caroselli. The Penitent Magdalene, c. 1620, San Diego Museum of Art.

Em 1073, o Papa Gregório VII alargou a obrigação de celibato a todo o clero. Em 1123, o Concílio de Létran decreta a invalidade do matrimónio dos clérigos. Pode ser meramente casual, mas a correlação entre a masculinização da Igreja e a feminização pecadora de Maria Madalena manifesta-se uma hipótese tentadora.

 

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