Cinderela Oriental
O Tendências o Imaginário funciona como um arquivo onde guardo textos, músicas, vídeos e imagens. À procura do anúncio Thai Love Story, deparo com um aviso frequente: vídeo indisponível. Confrontado com esta contrariedade, vejo se encontro outros links disponíveis. Alcancei, mais do que o mero anúncio, um vídeo com uma série de spots da respetiva campanha: a história, em vários episódios, de uma maria rapaz (gata borralheira) que, com recurso a um creme facial (varinha mágica), se transforma numa beldade feminina, acabando por encontrar, graças a uma tatuagem (sapatinho), o noivo verdadeiro e definitivo (príncipe). A marca tailandesa Smooth propicia, destarte, um efeito Cinderela. Há males que vêm por bem!
Beatas: Luz divina e pegada tóxica
Nem tudo o que arde purifica, nem tudo o que se apaga acaba.
Flamengo japonês
A influência da cultura oriental no Ocidente é antiga. Declaradamente assumida pelos românticos do século XIX, precede as missões dos jesuítas portugueses no Japão do século XVI. Aproximadamente a partir dos anos sessenta, a “orientalização do Ocidente” resulta cada vez mais estudada e teorizada no âmbito das Ciências Sociais.
Por seu turno, o movimento inverso, a “ocidentalização do Oriente”, acentua-se e acelera-se nas décadas mais recentes. Em várias vertentes, entre as quais a música, mormente em segmentos mais abrangentes com vocação global, como a pop e o rock. O rock coreano (K-rock) representa uma boa ilustração. Mas esta repercussão observa-se, também, embora mais discreta, em géneros mais específicos e localizados, tais como o tango, o flamengo e o fado. Reservo para este último os próximos artigos. Neste, o foco incide sobre o flamengo adaptado e interpretado em japonês por Noriko Martín. Um híbrido de espantar!
Agradeço aos ventos que, hoje, sopraram novidades, não do Sudeste vimaranense, mas do Norte galego.
Canção de embalar
Não estou em Moledo, nem o vento sopra do Norte, mas de Sudeste, vimaranense, e traz esta interpretação admirável da “canção de embalar”, de Zeca Afonso, pelo Duo Ibero-Americano que me apresso a partilhar.
O simbolismo da mala
A mala do emigrante: uma carga mínima a abarrotar de sonhos

Maria Beatriz Rocha-Trindade, Professora Catedrática na Universidade Aberta, acaba de publicar, pela Editora Alma Letra, de Viseu, um livro notável, ímpar e oportuno, com o título Em Torno da Mobilidade. Aborda os Provérbios, Expressões Idiomáticas e Frases Consagradas que proporcionam conforto e sentido aos percursos e às experiências de vida dos migrantes. Esta sabedoria popular é acompanhada e realçada por numerosas imagens criteriosamente escolhidas.
Esta recurso ao senso comum e à linguagem quotidiana como via para a apreensão e interpretação de realidades genéricas e estruturantes revela-se uma aposta original e conseguida. Resulta uma obra generosa, agradável e instrutiva, respaldada em mais de meio século de investigação.

Primeira mulher antropóloga portuguesa, Maria Beatriz desloca-se em 1965 para Paris para prosseguir um curso de doutoramento em Sociologia. Com orientação de Alain Girard, defende a tese, sobre aimigração portuguesa em França, em 1970 na Universidade Paris V – Sorbonne. Por coincidência, também fui aluno da mesma universidade e do Professor Alain Girard. Publicada em 1973 com o título Immigrés Portugais, destaca-se como o primeiro estudo de fôlego da emigração portuguesa alicerçado numa investigação empírica sistemática e aprofundada. Desde então, não se tem cansado de inovar, mas sem se desviar da problemática das migrações, culturas e identidades. Admiro a Maria Beatriz como cientista e, em particular, como pessoa. O seu exemplo de vitalidade oferece-se como um amparo nos meus momentos de descrença e esmorecimento. Conhecemo-nos em 1983 num encontro organizado na Universidade do Minho a pedido da Secretaria de Estado da Emigração: o Seminário Portugal e os Portugueses – Raízes e Horizontes.
Em pleno verão, dezenas de lusodescendentes provenientes de todo o mundo estagiaram em Braga durante várias semanas. Nasceu, nestas circunstâncias, uma amizade, daquelas que, mesmo com poucos convívios, nascem para crescer.

A mala, na mão, às costas ou pousada, representa um símbolo maior da figura do emigrante. Uma arca, “brasileira”, e uma mala de cartão, “francesa”, sobressaem no Espaço Memória e Fronteira, em Melgaço, como objetos que falam aos visitantes, frequentemente num registo que frisa a intimidade.
Imagem: Espaço Memória e Fronteira. Melgaço
Seguem o vídeo do lançamento do livro Em torno da Mobilidade, em Tavira, no dia 5 de novembro, bem como o pdf do capítulo Potencialidade Simbólica da Imagem no Quadro do Percurso Migratório (págs. 33-54), precedido pela folha de rosto, a ficha técnica e o índice do livro.
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A Cura
Pedi ao meu filho que “me sugerisse uma música que correspondesse com a minha cara”. Escolheu a canção Anoama, dos nórdicos Heilung (em português, cura). Acertou, não na minha cara, unidade identitária sumária que desconheço, mas numa das minhas caras, aquela que se interessa pelo grotesco e pelo tribal, senão pelo bárbaro, ultimamente algo negligenciada. “Filhos e filhas de Odin”, os Heilung e a sua percussão lembram o galope das Valquírias (“aquelas que escolhem os mortos”) na sua missão de procurar os melhores guerreiros mortos em combate para os integrar no exército de Odin destinado à batalha do fim do mundo.

Chegados a esta encruzilhada, insinua-se um desvio por Richard Wagner: ritmo, exaltação, mito, etos do guerreiro. Compositor original, inovador do mundo do espetáculo, acabou por ser penalizado menos pelo que fez (revolucionário amigo de Bakunine expulso de vários estados, com um percurso sexual atribulado e autor de textos nacionalistas e antissemitas, designadamente, em 1850, o artigo “O Judaísmo na Música”, crítico dos compositores judeus alemães G. Meyerbeer e F. Mendelssohn) e mais pelo que, postumamente, fizeram dele, do seu legado, mormente o aproveitamento ostensivo pela propaganda nazi.
Curiosamente, estas associações e colagens recordam-me o alerta de Vilfredo Pareto no Tratado de Sociologia Geral (1916) a propósito da extrapolação de atributos caraterística das ações não lógicas, esquematicamente ilustrável com a seguinte formulação: de um músico não há que esperar santidade mas música, bem como de um santo não música mas santidade. Importa ter algum cuidado em não baralhar os fusíveis para não provocar curto-circuitos. Neste entendimento, não me surpreenderia que, falaciosamente, resulte do agrado do diabo a expetativa, uma espécie de beatice extrema em expansão, segundo a qual todos (políticos, jornalistas, professores, juízes, artistas…) se devem comportar como anjos imaculados.
Este espírito, esta disposição, colide, paradoxalmente ou não, com a própria mensagem do cristianismo, a começar pelo exemplo e pela palavra de Jesus Cristo. Quando o ser humano perde a noção dos limites está na altura de se preparar para o pior. Não nos aguarda uma Nova Jerusalém mas uma qualquer Sodoma ou Gomorra. Sei que me repito como um boneco teimoso, mas não o suficiente.
Os moinhos do coração
Retirar-se para se reencontrar contribui para bem abraçar os outros
Comme une pierre que l’on jette
Dans l’eau vive d’un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l’eau…As the images in wind
Like the circle that you find
In the windmills of your mind

Michel Legrand (1932-2019) foi um grande compositor francês, sobretudo de músicas para filmes. Conquistou três óscares: dois de melhor banda sonora pelos filmes Summer of ’42 (1972) e Yentl (1983), e um de melhor canção original por The Windmills of Your Mind/ Les moulins de Mon Coeur, do filme The Thomas Crown Affair (1969). Ganhou, também, cinco prémios Grammy.
De momento, retenho apenas a canção The Windmill of Your Mind. Inspirou imensas interpretações, algumas memoráveis, como as de Sting, Dusty Springfield, Noel Harrison, Barbra Streisand, Alison Moyet ou Natalie Dessay. A versão francesa tocada e cantada pelo próprio compositor em 1969 permanece um marco incontornável (vídeo 3) https://www.youtube.com/watch?v=UANLvlQKYcI&list=RDEMvYQImFH0wL-Y6SvZyz7W6g&index=7). Impressionaram-me especialmente duas interpretações ao vivo, pela singeleza e depuração: de Sinne Eeg, em inglês, em 2012, e de Juliette Armanet, em francês, em 2018.
Há canções e canções. Algumas dizem-nos. Dedico esta a quem (co)move os “moinhos do meu coração”.
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Les Moulins de Mon Coeur, de Michel Legrand
Comme une pierre que l’on jette
Dans l’eau vive d’un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l’eau
Comme un manège de lune
Avec ses chevaux d’étoiles
Comme un anneau de Saturne
Un ballon de carnaval
Comme le chemin de ronde
Que font sans cesse les heures
Le voyage autour du monde
D’un tournesol dans sa fleur
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon cœur
Ce jour-là près de la source
Dieu sait ce que tu m’as dit
Mais l’été finit sa course
L’oiseau tomba de son nid
Et voilà que sur le sable
Nos pas s’effacent déjà
Et je suis seule à la table
Qui résonne sous mes doigts
Comme un tambourin qui pleure
Sous les gouttes de la pluie
Comme les chansons qui meurent
Aussitôt qu’on les oublie
Et les feuilles de l’automne
Rencontrent des ciels moins bleus
Et ton absence leur donne
La couleur de tes cheveux
Comme une pierre que l’on jette
Dans l’eau vive d’un ruisseau
Et qui laisse derrière elle
Des milliers de ronds dans l’eau
Au vent des quatre saisons
Tu fais tourner de ton nom
Tous les moulins de mon cœur
As the images in wind
Like the circle that you find
In the windmills of your mind
O pastor, a cabra e o cordeiro

A ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet, baseia-se no romance homónimo de Anatole France (1889), que, por seu turno, se inspira nas vidas de São Paphnutius (Pafnúcio) de Tebas e Santa Thaïs (Taíde) de Alexandria, ambos de século IV, consagrados pelas igrejas católica, ortodoxa e copta, celebrados, respetivamente, nos dias 11 de setembro e 8 de outubro (para um resumo das suas vidas, consultar os seguintes links: Paphnutius of Thebes; e Santa Thais, Penitente).

No romance de Anatole France, o anacoreta Paphnutius, arrependido de sua juventude frívola, retira-se no deserto, onde acaba por se tornar abade de um conjunto de monges fundamentalistas egípcios. Uma visão impele-o a sair do deserto para “salvar a alma” de Thaïs, uma bela e rica cortesã, “prostituta de elite”, da cidade de Alexandria. Com imensa dificuldade, consegue convertê-la, convencendo-a a ingressar num convento. O pastor transforma a cabra em cordeiro.

Mas será a sua vez de cair em tentação. Apaixona-se por Thaïs, sofrendo mil atribulações, incluindo ciúme pelos seus antigos amantes. Não há oração nem ascetismo capazes de o redimir. A salvação amaldiçoa o salvador. Trata-se de um desenlace perverso atendendo que a resistência às tentações representa uma das maiores virtudes dos anacoretas. As investidas do mal costumavam aparecer menos como demónios horrendos (ver o painel de Matthias Grunewald) e mais disfarçados sob figuras belas e atraentes (ver a pintura de Pieter Coecke Van Aelst, o Velho).
Recomendo a leitura do romance Thaïs, de Anatole France. Junto duas cópias em pdf: a primeira do original em francês, a segunda da tradução inglesa.


Seja-me permitido, a despropósito e a contramão, efabular ou proverbializar sobre a ambivalência dos símbolos: o pastor não deixa de ser um zeloso guardador de rebanhos; a cabra, sobretudo a montesa, uma apreciadora da liberdade; e o cordeiro, um potencial lobo disfarçado. Não dá para jurar, tão pouco ignorar.
Mio violino caro: Maxim Vengerov
Nascido na Rússia em 1974, Maxim Vengerov consta entre os violinistas mais celebrados do século. Em 1997, foi nomeado embaixador da UNICEF na área de música. Segue a interpretação da Meditação, da ópera Thaïs (1894), de Jules Massenet.

