A Cura
Pedi ao meu filho que “me sugerisse uma música que correspondesse com a minha cara”. Escolheu a canção Anoama, dos nórdicos Heilung (em português, cura). Acertou, não na minha cara, unidade identitária sumária que desconheço, mas numa das minhas caras, aquela que se interessa pelo grotesco e pelo tribal, senão pelo bárbaro, ultimamente algo negligenciada. “Filhos e filhas de Odin”, os Heilung e a sua percussão lembram o galope das Valquírias (“aquelas que escolhem os mortos”) na sua missão de procurar os melhores guerreiros mortos em combate para os integrar no exército de Odin destinado à batalha do fim do mundo.

Chegados a esta encruzilhada, insinua-se um desvio por Richard Wagner: ritmo, exaltação, mito, etos do guerreiro. Compositor original, inovador do mundo do espetáculo, acabou por ser penalizado menos pelo que fez (revolucionário amigo de Bakunine expulso de vários estados, com um percurso sexual atribulado e autor de textos nacionalistas e antissemitas, designadamente, em 1850, o artigo “O Judaísmo na Música”, crítico dos compositores judeus alemães G. Meyerbeer e F. Mendelssohn) e mais pelo que, postumamente, fizeram dele, do seu legado, mormente o aproveitamento ostensivo pela propaganda nazi.
Curiosamente, estas associações e colagens recordam-me o alerta de Vilfredo Pareto no Tratado de Sociologia Geral (1916) a propósito da extrapolação de atributos caraterística das ações não lógicas, esquematicamente ilustrável com a seguinte formulação: de um músico não há que esperar santidade mas música, bem como de um santo não música mas santidade. Importa ter algum cuidado em não baralhar os fusíveis para não provocar curto-circuitos. Neste entendimento, não me surpreenderia que, falaciosamente, resulte do agrado do diabo a expetativa, uma espécie de beatice extrema em expansão, segundo a qual todos (políticos, jornalistas, professores, juízes, artistas…) se devem comportar como anjos imaculados.
Este espírito, esta disposição, colide, paradoxalmente ou não, com a própria mensagem do cristianismo, a começar pelo exemplo e pela palavra de Jesus Cristo. Quando o ser humano perde a noção dos limites está na altura de se preparar para o pior. Não nos aguarda uma Nova Jerusalém mas uma qualquer Sodoma ou Gomorra. Sei que me repito como um boneco teimoso, mas não o suficiente.

Tão bom, tão maravilhoso, não me canso de ler estas pérolas do Prof Albertino. Com elas enriqueço, com elas me torno muito mais tolerante, expectante, mas confiante no ser humano.