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Émilie e o Pinguim

The March of Penguins

Gosto da música de Emilie Simon. Tem um aroma francês. Lembra Yann Tiersen e, sobretudo, os Air. A canção Désert (2003) é incontornável. Em 2005, compôs a banda sonora do documentário La Marche de l’Empereur, dedicado à vida dos pinguins; retenho a música To the Dancer on the Ice.

Émilie Simon – Desert (28.02.04). Editado em 2003.

Émilie Simon. To the Dancer on the Ice. Da banda sonora do documentário La Marche de L’Empereur. 2005.

Kayak nas cascatas do rio Laboreiro

“Ó Natureza, a única Bíblia verdadeira és tu!…” (Guerra Junqueiro, O Melro, A Velhice do Padre Eterno, 1885).

Cascatas do rio Laboreiro. Castro Laboreiro. Fotografia cedida pela câmara municipal de Melgaço.

Cascatas do rio Laboreiro. Castro Laboreiro. Fotografia cedida pela câmara municipal de Melgaço.

“Portugal revela-se, cada vez mais, um paraíso para os amantes dos desportos de água” (http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/video-irao-os-rapidos-de-castro-laboreiro-ficar-tao-famosos-como-as-ondas-da-nazare=f755521). As cascatas do rio Laboreiro são, nessa exaltação, a porta do céu situada mais a norte.

Maxime Mitaut, vice-campeão mundial de kayak extremo por equipas pela selecção francesa, afirma o seguinte:

“Este fim-de-semana em Portugal, no último mês de Fevereiro, foi provavelmente o melhor que tive em 2013. Para mim, o Laboreiro é um dos rios mais belos da Europa. É um concentrado de rápidos classe V e de encadeamentos de belas quedas. Tudo num contexto magnífico, na fronteira entre a Galiza e Portugal (…) O melhor momento é o encadeamento das três quedas num eixo, o troço mais conhecido do Laboreiro, sendo cada uma espaçada por uma grande bacia sem sifões nem repuxos (com pouca água)” (http://max-mitaut.blogspot.pt/search?q=laboreiro).

Maxime Mitaut. Extreme Kayak au Portugal. Rio Laboreiro. 2013.

A estética do surf

Surf Blue Moon

O teaser View From A Blue Moon, de John Florence & Blake Vincent Kueny, é uma preciosidade estética: um hino ao surf. Filmadas em locais como Nova Zelândia, Brasil ou Hawaii, as imagens são fantásticas, pautadas por detalhes cirúrgicos: o carro que levanta voo numa lomba; a velocidade dos tubarões; a visão inesperada das favelas; a barreira masculina sob a água; o corvo marinho (?) na cabeça do surfista… Mas o pormenor digno de maior menção afigura-se-me radicar na citação do som do clássico Good Things Come To Those Who Wait, da Guinness (1999).

Título: View From A Blue Moon. Agência: ArtOfficial Agency CPH. Direcção: John Florence & Blake Vincent Kueny. Produção: Brain Farm. Efeitos sonoros: Martin Dirkov. Suécia, 2015.

 

As danças de Matisse

« J’ai toujours essayé de dissimuler mes efforts, j’ai toujours souhaité que mes œuvres aient la légèreté et la gaieté du printemps qui ne laisse jamais soupçonner le travail qu’il a coûté » (Matisse, Henri, 1948, Carta a Henry Clifford).

Henri Matisse pintando a Dança, c. 1931.

Henri Matisse pintando A Dança, c. 1931.

Matisse with his painting The Dance (1932–33) in Nice, France, 1933.

Henri Matisse à frente da pintura A Dança (1932–33) em Nice.

Entre dois relatório de atividades, o pessoal e o do Departamento, o olhar deixa-se atrair por outros encantos. Um quadro de Matisse é outra louça. Matisse é um caso à parte na história da pintura: expoente do fauvismo, foi um dos artistas mais influentes do século XX, sobretudo, nos Estados Unidos. Andy Warhol terá exclamado: “Gostava de ser Matisse”.

Henri Matisse. A dança de Paris. 1931-1933. Fotografia de Henning Høholt.

Henri Matisse. A dança de Paris. 1931-1933. Fotografia de Henning Høholt.

Henri Matisse. A dança. Barnes Foundation. 1933.

Henri Matisse. A dança. Barnes Foundation. 1933.

As obras que Henri Matisse dedica à dança encontram-se entre as mais marcantes. Por exemplo, La Danse de 1910 (Museu Hermitage), mas também o tríptico La Danse de Mérion, encomendado por Albert Barnes, coleccionador de arte, patente na Barnes Foundation, em Filadélfia. Matisse pintou duas versões anteriores deste tríptico que se encontram no Musée de l’Art Moderne, em Paris.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.

Henri Matisse. A dança. 1910. Museu Hermitage.

Henri Matisse. Blue Nude (I). 1952

Henri Matisse. Blue Nude (I). 1952

O que me distraiu não foram as pinturas de Matisse. Foi uma fotografia, enviada pela Adélia, com Matisse a traçar o esboço de um tríptico, em cima de um banco munido com uma cana de bambu. Quem diz que pintar é fácil não conhece Matisse: “Algumas das minhas gravuras acabei-as após centenas de desenhos” (citado em  Schneider, Pierre, 1984, Matisse, Flammarion, p. 578).

Como suplemento dançante, a música Avlägsen Strandvals (1981) do acordeonista sueco Lars Hollmer, acompanhada por uma selecção de quadros de Paula Rego. Trata-se de um excerto da parte final do vídeo O Desconcerto do Mundo (2005).

Albertino Gonçalves. O Carrossel. Excerto de O Desconcerto do Mundo. 2005.

A bênção escatológica num mundo às avessas. Os Serviços da Tarde na Festa de São João de Sobrado

Dedico este artigo aos alunos de Sociologia da Cultura. Sabem aprender, descobrir e conhecer de diversas formas. Uma sabedoria em perdição. Gosto dos alunos! São pinceladas coloridas numa tela que tanto se esforça por ser cinzenta. Os alunos ajudam-me a não enterrar o pensamento. Aflitos com o pico de trabalhos práticos, contra-organizaram-se; pediram o adiamento da aula. Segue um texto de apoio. Tornou-se vício crónico a avaliação sobrepor-se à função.

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

01. A Bênção Escatológica. Os Serviços da Tarde na festa de S. João de Sobrado

Este texto decorre de um estudo em curso dedicado à festa da Bugiada e Mouriscada de Sobrado, no concelho de Valongo, estudo coordenado por Rita Ribeiro, que integra os seguintes investigadores do CECS (Centro de Estudos Comunicação e Sociedade) e do CRIA (Centro em Rede de Investigação em Antropologia): Moisés de Lemos Martins; Manuel Pinto; Luís Santos; Emília Rodrigues Araújo; Luís Cunha; Jean-Yves Durand; e Maria João Nunes. Caiu-me em sorte escrevinhar sobre os Serviços da Tarde.

Vídeo 01. Festa dos Bugios e Mourisqueiros. Sobrado – Valongo. CECS. 2016. Ver, também, para uma panorâmica global, o documentário Viagem ao Maravilhoso: Bugios e Mourisqueiros, RTP, 1990.

Os Serviços da Tarde, ou Sementeiras, consistem numa sequência de episódios, de índole carnavalesca, associados à atividade agrícola. Culmina numa farsa: a Dança do Cego, ou Sapateirada. Trata-se de um ritual único e notável, antes de mais, pela consistência. Os princípios gerais, a macroestrutura, reiteram-se em cada uma das partes, as microestruturas (Goldmann, Lucien, 1970, “Microstrutures das les vingt-cinq premières répliques de Nègres de Jean Genet”, in Structures Mentales et Création Culturelle, Paris, Ed. Anthropos, pp. 341-67). Esta “cristalização fractal” decorre da sedimentação e da consolidação de crenças e rituais ancestrais. Os Serviços da Tarde, mormente a Dança do Cego, não destoariam das festas populares que excitavam as praças e ruelas medievais. O grotesco, acentuadamente escatológico, anima as diversas atividades, conferindo-lhes espontaneidade, irreverência e impacto. Não se observa qualquer separação entre os protagonistas e o público. Não existem palcos ou cercas passíveis de contrariar a abrangência turbulenta do convívio coletivo (Maffesoli, Michel, 1988, Le Temps des Tribus, Paris, Méridiens-Klincksieck). A interação, desejada, é constante. Predomina a cultura cómica popular  (Bakhtin, Mickail, [1965] 1970, L’oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Rennaissance, Paris, Gallimard). As máscaras, omnipresentes, escondem ou revelam? Alteram. Retomando Mikhail Bakhtin ([1929] 1970, La poétique de Dostoïevki, Paris, Seuil), a máscara propicia o diálogo com a alteridade que coabita dentro e fora de nós. Quando a mascarada é coletiva, são as próprias comunidades que se descentram e transformam.

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02. Bugios mascarados. Fotografia de Michel Sasso. 2012.

Os Serviços da Tarde abrem com a Cobrança dos Direitos. Ao ar livre, acompanhado por bugios e rodeado pelo público, o cobrador monta num burro às avessas. Para escrever a contabilidade, finge carregar a enorme pluma no rabo do burro. Este episódio marca toda a série. A figura do burro montado às avessas é remota. Esculturas da Antiguidade mostram Sileno (ver Sileno, o vinho e o burro: https://tendimag.com/2015/03/28/sileno-o-vinho-e-o-burro/) e Dionísio às arrecuas num burro (Imagem com Dionísio). Estas imagens popularizam-se nas iluminuras medievais. Durante as Festas dos Loucos e a Festa do Burro, o eclesiástico eleito bispo entra na igreja montado às avessas num burro, por sinal, o animal celebrado durante a “cerimónia” (ver Heers, Jacques, 1984, Fête des fous et carnavals, Paris, Fayard). Estes casos são convergentes: o burro montado às avessas simboliza a desordem cósmica, mais precisamente, a inversão do mundo, tópico maior dos Serviços da Tarde.  (Imagem da Idade Média; som com a missa do burro).

Dionísio montado num burro  (200AC) Minneapolis Institute of Fine Art

03. Dionísio montado num burro. 200 a. C. Minneapolis Institute of Fine Art.

O burro possui uma elevada carga simbólica que o inclina mais para as profundezas do inferno do que para as alturas do paraíso. Animal do presépio, o único montado por Cristo (na fuga para o Egipto e na entrada em Jerusalém), o burro é associado à teimosia e à sexualidade exuberante. Por seu turno, o uso do rabo do burro como tinteiro indicia, para além da inversão, o rebaixamento grotesco: a pluma e, por extensão, o cobrador deixam-se contaminar pelo baixo corporal asinino. A inversão e o rebaixamento são escatológicos (Cabral, Muniz Sodré A.& Soares, Raquel Paiva de A., 2002, O Império do Grotesco, Mauad, pp. 65-72). O baixo material e corporal, a sexualidade, os excrementos, a desordem e a poluição comportam uma potência de morte e de vida, de regeneração (Douglas, Mary, 1966, Purity and Danger, New York, Frederick A. Praeger).

À Cobrança dos Direitos, sucede a Lavra da Praça, que engloba três atividades agrícolas: semear, gradar e lavrar. A representação da agricultura como ciclo de tarefas povoa os livros de salmos e de horas medievais: o Livro de Horas de D. Manuel, da primeira metade do séc. XVI (1983, Imprensa Nacional / Casa da Moeda) constitui um bom exemplo. Mas os Serviços da Tarde acrescentam um pormenor crucial: a inversão do tempo. O camponês não só monta o burro como cavalga o calendário agrícola às avessas. Semeia antes de gradar; grada, antes de lavrar; paga os direitos antes de colher. Baralha-se o tempo, baralha-se a vida. Destroem-se ordens e constroem-se desordens (Balandier, George, 1980, Le pouvoir sur scènes, Paris, Balland; e Gonçalves, Albertino, 2009, Vertigens. Para uma sociologia da perversidade, Coimbra, Grácio Editor).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

04. Montando um burro. Macclesfield Psalter (c.1320-30).

Montado às avessas, o camponês semeia. Retira de um saco “sementes” que espalha sobre o público. Dissemina e, simbolicamente, insemina. Fertiliza e fecunda, como manda a festa de S. João! O “saco das sementes” continha, nos tempos do linho, baganhas esmagadas, substituídas, hoje, por serrim, ambos desperdícios. Segundo consta, com impurezas à mistura. A arruada toma ares de charivari: gaitas, gritos, obscenidades, provocações e um banho de gente. A violência espreita: o camponês, derrubado do burro, envolve-se com os bugios e com a assistência até aos limites do simulacro. A terra e a semente, o caos e a violência, a campa e o túmulo…

Os “actores” que “vestem a personagem” do camponês (Stanislavski, Constantin, [1949], A Construção da Personagem, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1986) evidenciam arte e treino. Aqui, o camponês deixa-se cair do burro desamparado e roda pelo chão. Logo, passa por baixo da cavalgadura. São gestos de rebaixamento, mas também habilidades teatrais de saltimbancos. A festa prepara-se, de facto, durante todo o ano, de ano para ano.

 

Vídeo 02. Lavra da Praça. Gradar.

Lavrar e gradar são actividades agrícolas consecutivas. Lavra-se e, de seguida, grada-se para, depois, semear. O arado que sulca a terra destaca-se como um símbolo quase universal da sexualidade (Chevalier, Jean & Gheerbant, 1969, Dictionnaire de symboles, Paris, Robert Laffont). Agora apeado, o camponês guia a grade, ou, no episódio seguinte, a charrua, puxada, uns metros à frente, por um burro ou por um cavalo. Destemperado, a frisar a doidice e a embriaguez, o camponês grada e sulca o asfalto, o granito e a terra. A condução, imprevisível, ameaça chocar com a assistência. Às vezes, acontece. Circulam e cruzam-se insultos e palavrões. A grade acaba destruída. O camponês faz questão. Não faltou pontaria para acertar numa árvore. O lavrar e o gradar convocam a sexualidade, a loucura, o caos, o movimento e a violência. O ambiente de “efervescência criativa” (Durkheim, Émile, [1912] 1991, Les formes élémentaires de la vie religieuse, Paris, Le Livre de Poche) frisa a orgia (Maffesoli, Michel, 1982, L’Ombre de Dionysos. Contribution à une Sociologie de l’Orgie, Paris, Méridiens/Anthropos). Catarse? Despedida cíclica? Libertação ? Violência fundadora (Maffesoli, Michel, 1984, Essai sur la violence banale et fondatrice, Paris, Librairie Méridiens/Klincksiec ; Girard, René, 1972, La Violence et le Sacré, Paris, Editions Grasset)?

Os Serviços da Tarde operam uma inversão do tempo, uma das maiores tentações da humanidade. Num anúncio publicitário célebre, um jovem casal despede-se, no meio da praça, à vista de todos. Ele sobe para o autocarro e ela fica desconsolada. As pessoas começam a “andar para trás”: o ciclista, o carro e os peões; o barbeiro recoloca o cabelo na cabeça do cliente, o pintor apaga a tinta, o varredor esvazia o lixo… E o autocarro reaparece, lentamente, de marcha atrás; o jovem desce, abraçam-se e ficam felizes para sempre. Este anúncio da Orange chama-se, apropriadamente, Rewind City (agência: Publicis; França, 2008). Encena o recurso à magia para alterar o destino e a ordem cósmica (ver Publicidade e Magia; https://tendimag.com/2013/08/05/publicidade-e-magia/). Os Serviços da Tarde invertem o ciclo agrícola para fazer recuar a vida? As gentes de Sobrado sabem que não há magia que valha. O que não os impede de retomar, ano após ano, o ritual. Os bugios também sabem que vão perder a guerra com os mourisqueiros. Mas entregam-se ao combate!

Um pouco por todo o mundo, na noite de São João, acendem-se, nas praças e nos campos, fogueiras para dar mais dia à noite. Mas ninguém se ilude: amanhã, por artes do solstício, o dia será mais curto e a noite mais longa. Há algo de trágico e de glorioso nesta luta lúcida contra o inelutável (ver Goldmann, Lucien, 1955, Le Dieu Caché, Paris, Gallimard).

A Dança do Cego, ou Sapateirada, último episódio dos Serviços da Tarde, exibe todos os pergaminhos de uma farsa. Entaladas entre os mistérios e as moralidades, as farsas medievais aliviavam os fiéis de tanta seriedade. Surgiu, assim, um género teatral breve, com poucas personagens, apostado na ação, nos adereços e no cenário, em detrimento da palavra. A linguagem é vulgar, os gestos e os objetos impróprios e a violência, uma pantomina. Propensa a equívocos e absurdos, a farsa privilegia as reviravoltas que vitimam o agressor, humilham o soberbo ou enganam o aldrabão. Menção especial merece a inversão de género: a mulher engana e domina o homem, como no caso da Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente. Não obstante, a farsa não visa propósitos moralizadores ou edificantes. A interação com o público é apanágio da farsa. Relíquia histórica, a Dança do Cego ostenta estas propriedades. Convoca, inclusivamente, as personagens da farsa mais antiga de que há registo. Da segunda metade do séc. XIII, Le Garçon et l’Aveugle (Paris, Librairie Ancienne Honoré Champion, 1921) também inclui um cego acompanhado pelo criado.

Vídeo 03. Dança do cego. São João de Sobrado.

A Dança do Cego é tão apreciada que, à semelhança de outros números, é representada em vários locais da vila de Sobrado. Replicada junto à igreja e noutros locais, as pessoas acotovelam-se à volta de um lamaçal imundo. Dezenas de metros quadrados de lama, urina e excrementos de animais. Sentado num banco, andrajoso, o sapateiro martela o calçado, molha-o e atira-o indiscriminadamente para o público, que o recebe como uma espécie de bênção escatológica. O sapateiro e a mulher (representada por um homem) não param de se desentender. Aproxima-se um cego com o seu criado. O cego tropeça e estatela-se de bruços no lamaçal. Furioso, o sapateiro bate-lhe com a vara. Arrepende-se. Para verificar o estado de saúde, aproxima a cara do traseiro do cego. Respira, pelo menos por baixo! Deslocando-se de um lado para o outro, o sapateiro bate com a vara no lamaçal. Mais uns salpicos providenciais. O público aproxima-se e afasta-se; delira. Entretanto, o criado do cego rapta a mulher do sapateiro, que terá que recorrer ao jogo do pau para a reaver.

A auscultação de sinais vitais junto ao traseiro é rara e insólita, mas não é inédita. No livro Pantagruel, Epistemão foi decapitado durante uma batalha épica. Panurgo coze-lhe a cabeça:

“De repente, Epistemão começou a respirar, depois a abrir os olhos, depois a bocejar, depois a espirrar, e por fim deu um grande peido da sua reserva. Disse então Panurgo: – Está, com toda a certeza, curado” (Rabelais, François, [1532] 2006, Pantagruel, Lisboa, Frenesi, p. 168).

A Dança do Cego é uma obra-prima, sistemática e radical, de rebaixamento escatológico. O lamaçal é uma espécie de húmus. “O humano é também húmus” (Maffesoli, Michel, 1998, Elogio da Razão Sensível, Petrópolis, RJ, Vozes, p. 35). O cego estatela-se no lamaçal e aí permanece imobilizado. Os sapatos remetem para os pés, rasteiros e desvalorizados. O arremesso dos sapatos e os salpicos de esterco configuram um ritual misto de batismo e poluição. Tudo servido com entusiasmo público. Estamos perante um rebaixamento grotesco festivo, que regenera e restaura. A solução adotada pelo sapateiro para descortinar os sinais vitais do cego representa um caso paradigmático de rebaixamento mediante aproximação dos contrários: a face nobre e o traseiro ignóbil. Graças a este mergulho na terra e no corpo, a comunidade resulta renovada e reforçada. Não se vislumbra a mínima sombra de grotesco do estranhamento corrosivo kayseriano (Kayser, Wolfgang, [1957] 1986, O grotesco: configuração na pintura e na literatura, São Paulo, Editora Perspectiva). Na Dança do Cego, o rebaixamento quer-se cómico, vitalista e popular, “bakhtiniano”. O baixo, prenhe, é esperançoso.

Existem festas e rituais congéneres um pouco por todo o mundo. Lidamos com arquétipos (Jung, Carl Gustav, 2000. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes), “estruturas antropológicas do imaginário” (Durand, Gilbert, 1960, Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire, Paris, P.U.F.). Assim como, em Sobrado, o camponês brinda o público com sementes e o sapateiro com lama imunda, em Lanjarón (Granada, Espanha), durante a “Carrera del Agua”, logo a seguir à meia-noite de S. João, residentes e forasteiros percorrem cerca de 1 500 metros molhando-se uns aos outros, com o que estiver à mão, sob uma “chuva” que cai das janelas, das varandas e dos telhados, enviada pelos não participantes. A rega no lugar da sementeira.

O cego e o sapateiro movem-se na lama. Em Bibiclat, no norte das Filipinas, durante o São João, ao amanhecer, os aldeões reúnem-se em silêncio num campo pantanoso, cobrem-se de lama e vestem capas feitas de folhas de bananeira. Assistem neste preparo à celebração da missa.

Mais perto, nas freguesias de Romarigães (Paredes de Coura), Covas (Vila Nova de Cerveira) e São Julião (Valença) ocorre a pega ou apanha do porco. À volta de um recinto cercado, enlameado a rigor, o público assiste à briosa perseguição de porcos bravos. Ganha o concorrente mais rápido a agarrar os bichos (ver Lama, excrementos e porcos; https://tendimag.com/2016/06/26/lama-excrementos-e-porcos/).

Vídeo 04. Apanha do porco. Covas. Vila Nova de Cerveira. 2012.

Recoloquemos o olhar na matriz medieval, nas festas dos loucos e na festa do burro. À semelhança do cobrador e do camponês, o eclesiástico eleito entra na igreja às arrecuas, montado num burro. Baseado em documentos de 1454 e 1482, Mr. du Tilliot descreve, em livro publicado em 1741, o pandemónio durante e após a celebração do ofício:

“On voyait les Clercs & les Prêtres faire en cette Fête un mèlange afreux de folies & d’impietez pendant le service Divin, où ils n’assistoient ce jour-là qu’en habits de Mascarade & de Comedie. Les uns étoient masquez, ou avec des visages barbouillés qui faisoient peur, ou que faisoient rire, les autres en habits de femmes ou de pantomimes, tels que sont les Ministres du Theatre. Ils dansoient dans le Choeur en chantant , & chantoient des chansons obscènes. Les Diacres & les Sou-diacres prenoient plaisir à manger des boudins & des saucices sur l’Autel, au nez du Prêtre célébrant : ils jouoient a ses yeux aux Cartes & aux Dez : ils mettoient dans l’Encensoir quelques morceaux de vieilles savates, pour lui faire respirer une mauvaise odeur. Après la Messe, chacun couroit, sautoit & dansoit par l’Eglise avec tant d’impudence, que quelques un n’avoient pas honte de se porter à toutes sortes d’indécences, & de se dépouiller entierement ; ensuite ils se faisoient trainer par les rues dans des tombereaux pleins d’ordures, où ils prenoient plaisir d’en jetter à la populace qui s’assembloit  autour d’eux » (Mr. du Tillier, 1741, Memoires pour servir a l’histoire de la Fête des Foux, Lausanne & Geneve, chez Marc-Michel Bousquet & Compagnie, pp. 5-6).

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Nord de France. 13e siècle.

Alusão à Missa do Burro. Le livre de Lancelot du Lac. Autres romans arthuriens. Norte de França. Séc. XIII.

“Sabemos que os excrementos desempenharam sempre um grande papel no ritual da “festa dos tolos”. No ofício solene celebrado pelo bispo para rir, usava-se na própria igreja excremento em lugar  de incenso. Depois do ofício religioso, o clero tomava lugar em charretes carregadas de excrementos; os padres percorriam as ruas e lançavam-­nos sobre o povo que os acompanhava (Bakhtin, Mikahil, 1987. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo. HUCITEC, P. 126).

Durante a Missa do Burro, o ofício e os cânticos eram talhados a preceito. As pessoas cantavam, bramiam e zurravam em devoção ao animal.

Clemencic Consort. Clemencic Consort. Kyrie Asini – Litanie. La Fête de l’Ane. 1985.

À semelhança dos Serviços da Tarde, a festa dos loucos começa invertida e acaba escatológica.

 

A Dança do Cego ganha em ser integrada na série dos trabalhos agrícolas dos Serviços da Tarde. Alude, inequivocamente, à adubação. O camponês dispunha o estrume em montículos para o espalhar por todo o campo antes da lavra. Fertilizante, a Dança do Cego não conhece princípio nem fim; é o princípio e o fim; é o recomeço, em adubo líquido. O eterno retorno do estranho sempre próximo. Forasteiros, o cego e o criado ameaçam a ordem local. O rapto e o resgate da mulher do sapateiro exprimem o carácter agonístico da competição sexual. Nos Serviços da tarde, tudo é movimento, metamorfose e vertigem. Território, comunidade, violência e sexualidade, dimensões cardeais da vida humana, borbulham no caldeirão da lama impura. Impuro sobre impuro gera libertação e esperança. Há batismos e batismos! A potência telúrica e a promessa das entranhas abraçam-se, dançam e envolvem-nos nos Serviços da Tarde da festa de São João de Sobrado. De geração em geração, desde tempos imemoriáveis.

Filhos da madrugada

Reli o artigo As idades da vida , que consta entre aqueles que vou publicar em livro. Não termina em rabo de peixe porque termina em rabo cortado. Escrever sobre as idades da vida na Idade Média, na Idade Moderna e despachar a Idade Contemporânea não faz sentido. Tentei compor a falha com dois artigos (O eclipse da velhice e Pró-actividade), mas não é a mesma coisa. Fiz colagens e acrescentos. Resultou este texto que vai ser enxertado na parte final do artigo As idades da vida. De todos os artigos do livro, é o que comporta mais vídeos. É difícil não recorrer ao audiovisual para discorrer sobre o imaginário contemporâneo. Começo com um provérbio curioso que, 2 500 anos depois de Esopo, nos faz pensar sobre pressas e vagares:

“O primeiro pássaro pega a minhoca, mas o segundo rato fica com o queijo” (Provérbio).

O homem medieval cresce até atingir um planalto em que o adulto e o idoso permanecem à mesma altura até à morte. A Idade Moderna altera esta representação do percurso da vida: ascensão até ao topo adulto e declínio até ao túmulo. Os dois lados da curva não têm o mesmo valor: o esquerdo é agradável e pujante, o direito é sofrido e frágil…

Hans von Marées. Die Lebensalter, 1877-8. Alte Nationalglerie, Berlin.

11. Hans von Marées. As Idades, 1877-8.

No mundo contemporâneo, continuamos a nascer, crescer, envelhecer e morrer. Muda, porém, a experiência e a representação do percurso da vida. Em Portugal, a esperança de vida rondava, em 1950, os 56 anos; em 2015, ascende aos 81 anos (fontes: OCDE, 1988, Le vieillissement social: conséquences pour la politique sociale, Paris; e INE, PORDATA). O “entardecer da vida” (Leandro, Maria Engrácia, “Assumir o entardecer da vida: novas atitudes se impõem”, Cadernos do Noroeste, Vol. 4, Nº 6-7, pp. 359-367) alonga-se. Nunca houve tantos idosos nas sociedades ocidentais. Em Portugal, em 1971, 28,5% da população era jovem e 9,7%, idosa; em 2016, 14,1% da população é jovem e 20,9% idosa (INE, PORDATA). Durante este período, a população idosa duplicou. Em 1960, havia 27,3 idosos por cem jovens; em 2016, são 143,9 (Fonte: INE, PORDATA). E no entanto… Estamos em vias de descobrir um teorema novo: existem populações que quanto maiores são menos se enxergam.

A representação das idades da vida na arte contemporânea não é unívoca. A disposição das figuras no quadro As Idades (1877-8), de Hans von Marées, lembra Hans Baldung (As idades da vida, Figura 6) e Bartolomeus Anglicus (As idades da vida, Figura 8). Mas o idoso não está nem à altura dos adultos, nem a um passo da sepultura. Curva-se junto das crianças como que a fechar um ciclo. Gustav Klimt aglomera as idades da vida num único bloco humano (Figura 11) exposto à morte (Figura 12). As idades distinguem-se, não se isolam nem se alinham.

A contemporaneidade é a era do audiovisual, que inclui a publicidade, um meio massivo de comunicação.

O anúncio Champagne (2002), da Xbox, propõe uma paródia absurda da representação moderna das idades da vida: a trajectória alucinante de um ser humanodesde o ventre materno até à sepultura. Enquanto se desloca, envelhece.

Vídeo 1. Marca: Xbox. Título: Champagne. Agência: BBH. Direcção: Daniel Kleinman. Reino Unido, 2002.

Os objectos falam (https://tendimag.com/2015/03/21/objetos-que-falam/). Deixar os objectos falar foi um desafio na publicidade dos anos setenta. Recorde-se o controverso anúncio “Bouteille Phalique”, da Perrier, estreado em 1976: uma mão feminina afaga uma garrafa que cresce lentamente até sair um jorro de água gazificada (https://tendimag.com/2011/10/19/a-mulher-o-homem-e-o-objecto/). Anos antes, em 1970, a Guinness lança o anúncio Ages of Man. Num tapete rolante, desfilam, primeiro, um biberão, em seguida, uma garrafa com leite, uma garrafa de refrigerante, uma caneca e, por último, um copo com cerveja Guinness. A cada recipiente corresponde um grupo etário com acompanhamento sonoro a condizer. No último recipiente, surge a mão de um jovem adulto. As “idades do homem” do anúncio da Guinness resumem-se à primeira metade do percurso da vida: o lado solar. Não há sinal nem de velhice nem de último brinde.

Vídeo 2. Marca: Guinness. Título: Ages of man. Reino Unido, 1970.

No anúncio Evolution (2006), da Renault, uma criança gatinha para a rua. Cresce à medida que muda de cenário. Na parte final, após uma espécie de Parkour, transforma-se, quase adulto, num automóvel. O percurso de vida é, mais uma vez, suspenso a meio, longe da velhice.

Vídeo 3. Marca: Renault Clio. Título: Evolution. Agência: Publicis Brussels. Direcção: Style War. Bélgica, Março 2006.

Em meados de Outubro de 2017, saíram dois anúncios que versam sobre as idades da vida.

O anúncio português Como lavar roupa com melhores resultados, da Ariel, inicia com uma criança a gatinhar, depois a andar, culminando com uma mulher que corre e dá lugar a uma atleta equipada com as cores nacionais. Energia, eficácia, progresso e performance. Uma ascensão sem queda num guião assoberbado pelo amanhecer da vida.

Vídeo 4. Marca: Ariel. Título: Ariel apresenta A+. Agência: Carat Portugal. Portugal, Outubro 2017.

No anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait, do Wall Street Journal, a referência às idades da vida é evidente. Começa com um nascimento, “antes do tempo”, num táxi. O bebé cresce, por etapas, a um ritmo vertiginoso. A cada etapa é associada uma actividade: mamar, andar, explorar, jogar, namorar, estudar, trabalhar, investir… A curva termina na juventude adulta. O anúncio desenha a sua própria teoria: uma escada que só sobe até ficar sem degraus. Configura um elogio da aceleração, da conquista, da pró-actividade e da juventude empreendedora. Um anúncio que sabe o que pretende: Don’t wait for opportunity. Create it. Get the news, tools and insight you need to get ahead—because good things come to those who don’t wait (Wall Street Journal).

Vídeo 5. Marca: Wall Street Journal. Título: Good Things Come to Those Who Don’t Wait. Agência: The&Partnership.USA, Direcção: Ellen Kuras. Outubro 2017.

Vídeo 6. Marca: Guinness. Título: Surfers – Good Things Come to Those Who Wait. Agência: Abbott Mead Vickers. Direcção: Jonathan Glazer. Reino Unido, 1999.

O mundo é uma Hidra e um Janus. Muitas cabeças com muitas faces. O anúncio Good Things Come to Those Who Don’t Wait dialoga com o anúncio Surfers – Good Things Come to Those Who Wait, da Guinness, considerado um dos melhores anúncios britânicos de sempre. A pressa de futuro e a espera do momento.A maioria destes anúncios tende a suspender ou eclipsar o  envelhecimento. As figuras 14 e 15 ilustram este jogo de sombras. Na imensidão da Internet, mal surgiu a primeira imagem com as idades da vida (Figura 14), logo outra a recompõe (Figura 15). A cada segmento etário a sua luz: solar na juventude, lunar na velhice.

Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

14. Karthik – Goolgle +. Idades da Vida

Idades da Vida

15. Idades da Vida

Não sabemos que envelhecemos? Que a morte nos aguarda? Saber, sabemos, mas o que sabemos nem sempre é o que nos orienta. Saber que nos espera a morte não nos impede de viver segundo outras verdades. O fumador conhece os malefícios do tabaco, nem por isso deixa de fumar. Na vida, o saber vale muito; o desejo e a vontade, também.

Valoriza-se a alvorada; desvaloriza-se o crepúsculo. O homem contemporâneo não se quer “ser para a morte” (Martin Heidegger) mas filho da madrugada. Importa “agarrar a vida”, não a deixar fugir. “Viva a viva” é nome de filme, de canção, de barco, de hotel… É lema de uma visão do mundo. Viva a vida, morra a morte! O ser humano é um animal que se ilude. Nenhuma sociedade anterior se empenhou tanto no afastamento e no encobrimento da morte. Cavou-se a “separação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos” (Philippe Ariès, 1975. Essais sur l’histoire de la mort en Occident, Paris, Seuil). Isolam-se os cemitérios, aumenta “a solidão dos moribundos” (Elias, Norbert, A solidão dos moribundos,1972). Reduzem-se ou eliminam-se os sinais de luto. Da morte, conhecemos cada vez mais uma máscara, a máscara do carnaval dos vivos, como o Halloween, e a máscara dos media, como a saga Twilight. A máscara faz ecrã, encobre como um véu (Balandier, Georges, Le pouvoir sur scènes, 1980). Mesmo quando sentimos a foice a passar rente, insistimos em acreditar na lonjura da morte. O homem é propenso a acções não lógicas (Pareto, Vilfredo, 1916, Tratado de Sociologia). Reduzir a luz que incide sobre as últimas etapas da vida humana parece ser um vício das sociedades contemporâneas. Apagar a luz não adormece a morte. Desperta os fantasmas ( (Thomas, Louis-Vincent, 1979, Civilisation et divagations. Mort, fantasmes, science-fiction, Payot).

Para analisar um texto ou uma imagem importa ver o que lá está e o que lá não está. Também importa levantar, de vez em quando, o olhar para não esquecer o mundo.

Acentuar a juventude e a vida em detrimento da velhice e da morte releva de um imaginário, de uma encenação e de uma pragmática bastante influentes na sociedade actual. Não deixa, contudo, de ser uma perspectiva entre outras.

Apesar das tendências em contrário, a maioria dos idosos ainda é acompanhada na vida e na morte. Cuidamos dos vivos e dos mortos e a interacção entre gerações é uma realidade. As pessoas vão ao cemitério cuidar das sepulturas, rezar pelos mortos e estar com os vivos. Em muitas freguesias, o cemitério afirma-se como um dos principais locais de encontro. A necrologia é a parte mais consultada nos jornais regionais. Há concelhos com menos de 10 000 habitantes em que morre uma pessoa dia sim, dia não. Resulta difícil ignorar a morte.

Associada à psicanálise, a noção de analisador diz respeito a uma fonte de informação que nos dá acesso à natureza do todo. Não precisa de ser geral, nem tão pouco notória. Há alguns anos, numa freguesia portuguesa, o jardim de infância e a morgue coexistiam paredes a meias. Este caso, excepcional, revela até onde pode ir a proximidade entre a “comunidade dos vivos” e a “comunidade dos mortos”. “Um caso particular do possível” (Gaston Bachelard).

 

 

 

O carnaval dos alimentos

 

Seattle Skyline Chocolate Postcard. Dilletante Chocolates. Fundada em 1976

Seattle Skyline Chocolate Postcard. Dilletante Chocolates. Fundada em 1976

 

No dia 25 de Outubro de 2017, o V&A Museum of Childhood, de Londres, promoveu um evento delicioso. Organizou um banquete digno das fantasias infantis: nuvens com sabor a ananás, bolhas de ar feitas com vegetais e muitas outras surpresas, tais como embalagens, cartazes e postais comestíveis.

O postal comestível não é novidade. Existem empresas especializadas, como, por exemplo, a marselhesa Cracocarte. Abordo o tema dos postais comestíveis num capítulo de um livro em que colaborei (Postais Ilustrados: Textura e Sensibilidade, in Martins, Moisés de Lemos & Oliveira Madalena, Postal a Postal, Centro de Estudos Comunicação e Sociedade, 2011. pp. 109-119)

“Visão, tato, audição e olfato. Falta o paladar. Assim como não há “tele-olfato”, também não há “tele-paladar”, nem e-cards comestíveis. Mas há, em contrapartida, bilhetes postais muito saborosos. Postais com uma face em chocolate ou bombom podem ser encomendados pela internet. Para crianças e para adultos. Por exemplo, as cracocartes propostas pelo site http://www.bonbonsgourmands.fr custam 3,60 euros, pesam 12gr., medem 17x12cm., o lado da imagem é comestível e no verso pode redigir-se uma mensagem. Em Portugal, o Festival Internacional de Óbidos propôs “um produto inovador e no mínimo original: bilhetes postais com chocolate”, conforme menciona Madalena Oliveira no post de 12 de março de 2009.

O bilhete postal tem marcado a nossa relação com a imagem e com o mundo, estendendo a sua influência a várias atividades, tais como a arte, a publicidade e, até, a pastelaria. Se o postal ilustrado se cobre de calorias, os bolos (de aniversário, de primeira comunhão e de casamento) adoptam, cada vez mais, o formato do bilhete postal. “As coisas mimosas ao paladar”sempre se prestaram à reciprocidade.

“O postal ilustrado tem duas faces – a frente e o verso. E é um objeto tátil, com uma textura e uma memória, entre o mesmo e o outro, o longínquo e o próximo”, conforme anota Moisés de Lemos Martins no post de 25 de abril de 2010. Textura e sensibilidade. Em papel, ou noutra matéria qualquer, o postal ilustrado é uma paleta de sentidos: de significados, de sensações e de sentimentos. A sua textura alberga um “não-sei-quê” (Jankélévitch, 1980) que franqueia a personalização e um “quase-nada” onde cabe o infinito. Do mais vulgar ao mais criativo, no postal ilustrado também mora o ser humano” (pp. 117-118).

Anunciante: V&A Museum of Childhood. Título: Edible Exhibition. Agência: AMV BBDO (London). Reino Unido, Outubro 2017.

“Parents of kids who are fussy eaters will know: the best way to get them to try new foods is to spark their interest in it. So, to get kids playing with their fruit and vegetables, London’s V&A Museum of Childhood held an “Edible Exhibition” last weekend in a collaboration with agency AMV BBDO, foodie creative company Bompas & Parr and illustrator at Blink Art, Rob Flowers.

At a free food workshop earlier this year, over 100 children were given the chance to use their imagination and invent their ultimate food fantasies. Six winning designs were then selected and turned into reality with the help of Bompas & Parr. They included glow-in-the-dark ice cream made from carrots, edible bubbles made from broccoli and cucumber and a “parsnip tornado.”

Rob Flowers helped bring the “Edible Exhibition” to life with a series of posters and invitations for AMV BBDO that were also entirely edible. Every aspect of the printing process, from edible paper to the multi-flavored inks, was custom-made for the exhibition in collaboration with Bompas & Parr. The posters went on display at the museum and visitors could take away postcards to eat for themselves.

The exhibit took over a year to create, according to Neil Clarke, copywriter at AMV BBDO who came up with the idea alongside his creative partner, art director Jay Phillips. “There was a lot of trial and error. But it was an amazing experience, and we all felt like kids again making it” (Editors).

Minimalismo corporal

James Ensor. Espelho com esqueleto. 1890

James Ensor. Espelho com esqueleto. 1890

Coloquei, em 2011, no Facebook, este anúncio, com o seguinte comentário: “é tempo de retirar os esqueletos do armário”. Retomo-o porque faz sentido nesta sociedade do emagrecimento e do minimalismo corporal.

 

Anunciante: Weihenstephan Dairy. Título: Ghost. Agência: Kolle Rebbe Werbeagentur. Direcção: Thornsten Meier. Alemanha, Maio 2005.

 

A cor do abismo

“Sempre linhas e nunca corpos. Mas aonde encontram eles as linhas na natureza? Eu apenas vejo corpos iluminados e corpos que não são, planos que avançam e planos que recuam… O meu olho nunca percepciona nem delineamentos nem detalhes… O meu pincel não deve ver melhor que eu” (Francisco de Goya, citado Roy, Claude, 1987,  L’Amour de la peinture, Paris, Ed. Gallimard).

31. Goya. Desastres da guerra. Nº 71. Contra o bem geral, c. 1814-15

Goya. Desastres da guerra. Nº 71. Contra o bem geral, c. 1814-15

“Chegamos às salas dedicadas a Goya. Ali vemos Saturno devorando seus filhos, ou os esboços para os tapetes murais; ou, ainda, folheamos os ciclos dos Caprichos ou dos Desastres da Guerra (…). Eis numa estampa do ciclo dos Desastres da Guerra – que se intitula Contra o bem público – aparece acocorado  uma espécie de jurisconsulto , escrevendo fria e indiferentemente num livro. Trata-se ainda de um ser humano? Os dedos terminam em garras, os pés em patas e, em vez de orelhas, lhe cresceram asas de morcego. Mas tampouco é ser pertencente a um mundo onírico, puramente fantástico: no ângulo direito da gravura, grita e se contorce o desespero das vítimas da guerra – é o nosso mundo em que o monstro horripilante ocupa seu lugar dominante. Muita coisa nas estampas de Goya é apenas caricatura, sátira, tendência amarga – mas tais categorias não bastam para a interpretação. Nessas gravuras, ao mesmo tempo, um elemento lúgubre, noturno e abismal, diante do qual nos assustamos e nos sentimos atônitos, como se o chão nos fugisse debaixo dos pés” (Kayser, Wolfgang, O grotesco: configuração na arte e na literatura, São Paulo, Ed. Perspectiva [1957], 1986, pp. 15-16).

Goya. El Aquelarre, Sabat das bruxas. 1819-1823

Goya. O Aquelarre, Sabat das bruxas. 1819-1823

Na história da arte, não há negro mais negro do que as pinturas negras dos últimos anos de vida (1819-1823) de Francisco de Goya (1746-1828). O sonho da razão, gerador de monstros, insinua-se cedo na sua obra. Durante décadas, Goya desancorou a humanidade e pendurou-a no ar em noite de bruxedo, com tons obscuros e corrosivos. No entendimento de Wolfgang Kayser, Goya é o expoente do grotesco. Abriu portas à arte dos séculos XIX e, sobretudo, XX. Teve uma vida atormentada. Como Rembrandt, Vivaldi, Beethoven, Van Gogh ou Nussbaum. Os génios também sofrem!

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Francisco Goya’s The Pilgrimage of St. Isidro (detail) 1821-23

A chamada fase negra de Goya destaca-se como a mais obsessiva, perturbadora e sombria da sua vida. Como a mais original e a mais visionária. Figuras descentradas, desequilibradas, excessivas, desnorteadas, em ambientes nocturnos ou crepusculares, turbulentos e violentos. As pinturas negras, aparentemente inacabadas e com contornos indecisos, assemelham-se às últimas pinturas de Rembrandt, como, por exemplo, A Conspiração dos Batavos sob Claudius Civilis (1666), encomendada e devolvida pela Prefeitura de Amesterdão. Ecoam na pinturas negras de Goya o medo, a morte e a descida aos infernos. “O vazio dos céus” (Rose-Marie & Rainer hagen, 2004, Francisco de Goya, Taschen), p. 64).

Rembrandt. A Conspiração dos Batavos sob Claudius Civilis, 1666 (National Museum, Estocolmo)

Rembrandt. A Conspiração dos Batavos sob Claudius Civilis, 1666.

As pinturas negras tiveram como suporte as paredes dos dois pisos da sua derradeira residência, conhecida por Quinta del Sordo, perto de Santo Isidro. Pintadas nas paredes das paredes da Domus Aurea, já não com a técnica do afresco, mas com a técnica de óleo al secco sobre a superfície de reboco. Uma espécie de graffiti de interior, difícil de deslocar, logo, de vender. As pinturas negras de Goya não foram concebidas para o mercado. Talvez nem ele soubesse qual era a função e destino.

18. Goya. Saturno. 1820-1823

Goya. Saturno. 1820-1823

Apresentamo-nos e revemo-nos mediante desvios e comparações. Não gostava de ser professor como Leonardo da Vinci, o enigmático, Holbein, o teórico,  Rembrandt, o perfeito, ou Jacques-Louis David, o teatral. Gostava de arremedar o Bosch, das tentações, o Bruegel, “dos infernos”, o Bernini, dos êxtases, o Rodin, da potência ou o Magritte, da magia. Gostava, sobretudo, de ensinar como Goya pintou. De qualquer modo, ambos detestamos ser iguais ao original.

Goya inspirou inúmeras obras e estudos. Sugiro duas: O filme Os Fantasmas de Goya (2007), de Milos Forman, e o documentário Goya: Crazy like a Genius (2007), escrito e apresentado por Robert Hughes, dirigido por Ian MacMillan, produzido pela Kultur (http://www.freedocufilms.com/player.php?title=Goya:%20Crazy%20Like%20A%20Genius).

Segue o vídeo A cor do Abismo, com quadros de Goya e música de Adrian Willaert (Vecchie Letrose, sec. XVII) e Aguaviva (La ciudad es de goma, 1971). “Sempre que ouço os Aguaviva, convenço-me que são tetranetos do Francisco de Goya: um tom negro de sofrimento revoltado” (https://tendimag.com/2015/12/22/negro-que-te-quero-negro/). O vídeo data de 2012, mas foi revisto em 2017. Acresce uma galeria com pinturas de Goya.

A cor do abismo: Goya. Albertino Gonçalves, 2012.

A cor do abismo: galeria de imagens.

Descarrilar

AIME cogs

Andar sobre carris pode ser bom ou mau. Quando uma economia anda sobre carris parece que é bom. Quando os seres humanos andam sobre carris é mau sinal, é sinal de desumanização, de que a decisão transitou do homem para a engrenagem que construiu. Este cenário distópico assombra a literatura e o cinema ocidentais. Que fazer? A resposta do anúncio Cogs, da AIME, não pode ser mais clara: o que faz falta é descarrilar. Descarrilas tu, descarrilo eu… Mas, atenção, que descarrilar não é fácil. Imagino-me na ponte sobre a Estação Saint-Lazare em Paris: os comboios descarrilam para logo encarrilhar. Mas há muito quem tenha conseguido descarrilar: Don Quixote, Caravaggio, Mozart, Goya, Van Gogh, Francis Bacon…

O realizador deste anúncio, Laurent Witz, ganhou, em 2014, o Óscar pela melhor curta-metragem de animação com o filme Mr Hublot.

Marca: AIME. Título: Cogs. Agência: M&c Saatchi (sydney). Direcção: Laurent Witz. Austrália, Junho 2017.

Mr Hublot. Por Laurent Witz & Alexandre Espigares. Curta-metragem. Ganhou o Óscar pela melhor curta-metragem em  2014.