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O sabor da felicidade

Monstro das Bolachas. Rua Sésamo.

Publiquei o anúncio Biblioteca, da Oreo, no facebook, em 2011. Não hesito em retomá-lo. Retomar é viver duplamente: no passado e no presente. O anúncio Biblioteca é uma ternura. Trata da felicidade que tanto perseguimos e tanto nos escapa. Um pensamento estorva-me as ideias: qual é o lugar da felicidade na televisão, mormente na informação? Nos anos sessenta, chamava-se à televisão a “caixa mágica”, uma adição, uma droga, da sociedade do consumo e da imagem. Com todas as nossas viragens e posteridades, da sociedade do consumo e da imagem ainda não saímos. A felicidade na informação televisiva joga às escondidas ou aparece passada a ferro. Manifesta-se mais natural gerar medo, insegurança e tristeza do que inspirar confiança, esperança e felicidade. Existe atração pelo medo? Compensa o drama e a tragédia? A felicidade mora ao lado. E o golo? E o hino? E a lotaria? E os festivais? E a saída nacional do “lixo”? Extraordinários efémeros. A felicidade é um sentimento. Não é fácil contribuir para a felicidade alheia. Tão pouco para a nossa. O anúncio Biblioteca é um sobressalto da alma. Menos pelo conteúdo, “o apetite guloso”, e mais pela forma: o apetite aguça a arte de superar limites. Nos anúncios, como em quase tudo, a forma transcende o conteúdo. Conheci a Felicidade; até tenho fotografias; era uma das figuras da minha aldeia; uma excelente pessoa; despediu-se há muito tempo.

Marca: Oreo. Título: biblioteca. Agência: Draftfcb Argentina. Director: Martín Hodara. Argentina, 2010.

O saxofone de Baker Street

Lisa. Saxofone. Os Simpsons.

A música de Gerry Rafferty (1947-2011) não parece talhada para os auscultadores da geração Z. Nem da geração Y. Mais ao estilo dos Baby Boomers e da geração X. Quem conhece, hoje, Gerry Rafferty? Não obstante, quase todos reconhecemos o saxofone da música Baker Street. Baker Street é retomada em muitas paródias ou pastiches digitais. Sublinhe-se, porém, que uma canção, Right Down The Line, atinge, neste momento, numa única página, 48 407 543 visualizações. Seguem dois exemplos de enxertos da música Baker Street: o primeiro resume-se a uma colagem no filme The Hobbit; o segundo integra o original, The Simpsons. Para aproveitar o ensejo, acrescentam-se quatro músicas de Gerry Rafferty, todas do álbum City to City, de 1978. Fernando Gonçalves e Albertino Gonçalves.

The Hobbit – Saxo Man. Editing: Minni Dorian. Música: Baker Street, de Gerry Rafferty.
Lisa. Sax solo. “Baker street” (The Simpsons version).
Gerry Rafferty. Baker Street. City to City. 1978.
Gerry Rafferty. Right Down the Line. City to City. 1978
Gerry Rafferty. The Ark. City to City. 1978.
Gerry Rafferty. Stealin’ time. City to City. 1978.

Preconceito pró-activo

Paula Rego. O Exílio. 1963.

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” (Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, 1845).

Em matéria de discriminação de crianças, sabemos muito da realidade que a UNICEF nos quer ensinar. Saber é importante, mesmo quando fingimos o contrário. Mas não chega. Este “apanhado” da UNICEF é um “soco no estômago da gente”, que, como diz Michel Maffesoli, entra, sai e passa. De espanto em espanto, de palavra em palavra, o pensamento submerge.

O José Alberto enviou-me, em boa hora, este anúncio de sensibilização da UNICEF centrado no olhar (ver para crer). Enviou a versão comentada em brasileiro por Madeleine Lacsko (vídeo 2). Reproduzo, também, a versão original, parcimoniosamente despida de palavras (vídeo 1).

Anunciante. UNICEF. Título: Would you stop if you saw this little girl on the street?, Junho 2016.
UNICEF / Madeleine Lacsko. A forma como você trata uma criança depende da roupa que ela veste? Programa Radioatividade, da Rádio Jovem Pan, São Paulo, Brasil, Julho 2016.

Recolhimento responsável

A man takes a nap on the street using a protective mask in Tokyo, Japan July 16, 2020. REUTERS-Issei Kato

A publicidade é um barómetro do imaginário. Mudam os valores, mudam os anúncios. Já existiam anúncios com discursos de responsabilidade social. Agora, generalizaram-se. A publicidade reforça a esfera intimista que nunca descuidou (ver, no fim do artigo, a galeria com obras do pintor “intimista” Pierre Bonnard). Estes tempos mórbidos pedem responsabilidade social e refúgio na intimidade. Recentes, o anúncio brasileiro “Seja exemplo”, da Bradesco, e o anúncio argentino “Mientras esperamos”, da Corona, ilustram este duplo constrangimento: responsabilidade social e recolhimento na intimidade.

Marca: Bradesco. Título: Seja exemplo. Brasil, Agosto 2020.
Marca: Corona. Título: Mientras esperamos. Agência: Draftline Argentina. Direcção: Guido “Chapa” Lofiego. Argentina, Agosto 2020.

Selecção de obras de Pierre Bonnard

Alan Parker: O muro continua

Alan Parker.

Morreu o realizador de cinema Alan Parker. Associo-o ao Pink floyd – The Wall (1982). Mas realizou muito filmes tão ou mais marcantes: Bugsy Malone (1976); Midnight Express (1978); Fame (1980); Mississippi Burning (1988); The Commitments (1991); Evita (1996)… Várias canções que integraram os seus filmes foram grandes êxitos. Fame conquistou o óscar de melhor canção original. Acrescente-se Midnight Express, Unconfortably Numb ou Midnight Hour. Prefiro não me concentrar nas obras importantes de Alan Parker. Há muito quem discorra sobre assuntos importantes. Vou cingir-me a pormenores, como diria Hercule Poirot, à petites choses de rien du tout, aderindo a uma vocação da insignificância.

Alan Parker iniciou a sua carreira na publicidade. Da extensa lista de anúncios que realizou, retenho dois: o primeiro ao vinho do Porto Cockburns; o segundo aos charutos B&H Special Panatellas. Em ambos, um apurado humor britânico.

Regressando à insignificância. É mais fácil estudar um assunto importante do que um assunto insignificante. Uma autoestrada da informação contra um carreiro de cabras. A originalidade comporta riscos, por exemplo, uma maior probabilidade de errar. Mas é maior a motivação. Não se lambe tanta erva molhada. Custou mais colocar o anúncio Train do que uma série de algumas centenas de vídeos de The Wall.

Marca: Cockburns Port. Título Lifeboat. Direcção: Alan Parker. Reino Unido, 1974.
Marca: B&H Special Panatellas. Título: Train. Direcção Alan Parker. Reino Unido, 1974.

Um mandamento novo

Jean Michel Folon. Aguarela sem título.

As pessoas de diferentes culturas não só falam diferentes linguagens como, facto possivelmente mais importante, habitam diferentes mundos sensoriais (Hall, Edward T., 2003, La Dimensión Oculta, Buenos Aires, Siglo XXI, ed. original 1966 , p. 8).

O Covid-19 criou um mandamento novo: afastai-vos uns dos outros. Apela a um socialização responsável. A publicidade aderiu à sensibilização. Seguem dois anúncios da Heineken em que a cerveja rima com convívio desaproximado.

Marca Heineken. Título: Back to the bars. Agência: Publicis Italy. Direcção: Nicolai Fugisig. Itália, Julho 2020.
Marca: Heineken. Título: Ode to close. Agência: Publicis Italy. Itália, Abril 2020.

Estar no céu: Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O José Alberto enviou-me o poema “Aos meus amigos”, do Vinicius de Moraes. Também temos um cantinho do céu.

Na festa de aniversário de 30 anos do Memorial da América Latina, o ator Odilon Wagner declamou o poema “Aos meus amigos”, de Vinicius de Moraes, com acompanhamento do cantor Toquinho.

Sugestão: https://tendimag.com/2018/03/28/um-pouco-de-ceu/

Vinicius de Moraes. Aos meus amigos. Interpretação: Odilon Wagner, acompanhado por Toquinho.

O vício de viver e o canto do cisne

Instalação Anjos. Exposição Vertigens do Barroco em Jerónimo Baía e na Actualidade. Mosteiro de Tibães. 2007.

A distância mais curta entre a moto e o prazer não é a linha reta mas a curva! (Renard Argenté).

O direito e o retorcido, o sedentário e o nómada, o previsível e o errático, as formas que pesam e as formas que voam (Eugenio D’Ors), o conforme e o disforme, a norma e o desvio constituem oposições que alicerçam o nosso imaginário, contrapondo o clássico ao barroco. Inspiram, naturalmente, a publicidade.

Em 2007, fiz uma comunicação sobre o barroco na publicidade de automóveis (capítulo quarto do livro Vertigens. Para uma Sociologia da Perversidade, livro acessível em:  https://core.ac.uk/download/pdf/229419944.pdf). Em 2009, complementei com uma comunicação sobre o barroco na publicidade em geral (pdf acessível em https://tendimag.files.wordpress.com/2020/03/albertino-gonc3a7alves.-como-nunca-ninguc3a9m-viu.-imagem-e-pensamento-2.pdf). Cada comunicação foi acompanhada por um vídeo, respetivamente, O meu carro é barroco (versão original no fim do artigo) e O origami mágico (https://tendimag.com/2020/03/13/licao-imaterial/). Gosto destes textos. São o meu canto do cisne.

Marca: Honda Motos. Título: Inexplicável. Agência: Publicis Brasil. Brasil, Julho 2020.

O anúncio brasileiro Dia do Motociclista, da Honda Motos, tem um andar barroco:

“O que se passa na sua cabeça? Você já deve ter ouvido essa pergunta antes. Por quê escolher o vento e não o conforto do ar condicionado? Trocar uma música pelo ronco do motor. Como alguém pode ignorar o GPS e ir pela estrada mais longa? O que se passa na sua cabeça? Na verdade é que não tem como explicar o inexplicável. Faz parte da nossa natureza, de quem a gente é.”

Marca: Citroen C Crosser. Título: New Road. Agência: H Paris. Direção: NoBrain. França, 2007.

Cavaleiro do asfalto, blouson noir, hell’s angel, a figura do motociclista, isolado ou em tribo, é um alfobre de símbolos. Correm no outro lado da rua. Abundam os anúncios com este discurso barroco. Recordo o anúncio New Road, da Citroen. Um condutor aborrece-se numa estrada plana e recta. Insatisfeito, amarrota um mapa sobre o capot. Por magia, irrompem montanhas e a estrada contorce-se. Adivinham-se quilómetros de curvas e contracurvas a subir e a descer montanhas. O condutor agradece: a emoção vence o tédio.

Albertino Gonçalves. O meu carro é barroco. 2007.

As malhas do género

Libresse. #wombstories. 2020.

Três anúncios excelentes,

Tem vindo a crescer o número de anúncios dedicados ao género. Abrangem todas a categorias: transgénero, homossexual, lésbica, heterossexual… A maioria propõe anúncios de promoção. Existem, no entanto, anúncios que, embora centrados no género, não visam a promoção de uma categoria, mas a exposição da sua condição,  sem visar uma “vantagem competitiva”. Parece ser o caso do anúncio Womb Stories, da Libresse. “Histórias de úteros”, com dores e prazer, amor e horror, que revelam uma relação contraditória com corpo e a mente. O anúncio é impactante. A combinação de sequências filmadas e de animação funciona magistralmente.

“And yet the same research found that half of women feel society wants them to keep silent about their experiences, while half of women felt staying silent about their issues damaged their mental health. This leads to a damaging silence around a range of difficult and sensitive issues that women face every day. The physical concern may be treated, but the emotional dimension is often left unheard and overlooked” (https://www.lbbonline.com/news/libresse-tells-a-wombstory-no-ad-has-told-before-in-latest-taboo-busting-ad).

Marca: Libresse. Título: #wombstories. Agência: AMV BBDO. Direcção: Natasha Braier. Reino Unido, Julho 2020.

O anúncio #ShareTheLoad, da Ariel, adopta um discurso feminista num país, a Índia, patriarcal. Teve um impacto mediático e social considerável. Ganhou vários prémios. Trata-se de um anúncio que promove, assumidamente, a condição feminina.

Marca: Ariel. Título: #ShareTheLoad. Agência: BBDO India. Índia, Fevereiro 2016.

O anúncio Francesca, da Diesel, é um misto de exposição de uma condição e promoção de uma categoria.

“No mês do orgulho LGBTQI+, a DIESEL apresenta seu novo filme “Francesca”, dirigido por Francois Rousselet e realizado com o Conselho da Diversity, associação italiana comprometida com a promoção da inclusão social.
O filme criado pela Publicis Itália mostra cenas de uma jovem transgênera e sua jornada durante o processo de transição de gênero. Vemos Francesca, que nasceu menino, se transformar em uma linda mulher, enquanto acompanhamos seu cotidiano, as descobertas dos elementos que compõem o universo feminino e sua relação com a fé, que a leva a buscar a vida em um convento” (https://www.youtube.com/watch?v=535_479z-hM).

Marca: Diesel. Título: Francesca. Agência: Publicis (Itália). Direcção: François Rousselet. Internacional, Junho 2020.

Incompreendido

Incompreso, de Luigi Comencini. 1966.

A Itália é um santuário do cinema. Os anos cinquenta e sessenta foram gloriosos. Sobressaem o neorrealismo e a comédia. O filme Incompreso (Quando o amor é cruel, em Portugal), de Luici Comencini (1966), não é neorrealista nem cómico. Após a morte da mãe, o pai pede ao filho mais velho (Andrea) para manter segredo perante o irmão mais novo (Milo), bem como para o proteger. Acontece que, dos dois irmãos, o mais frágil é o mais velho. A situação agrava-se culminando na morte de Andrea. É um filme sobre o luto, a vulnerabilidade humana, a solidão e a incomunicação entre gerações (pai e filho). O filme é um melodrama denso e opressivo. Um misto de olhar psicológico e microssociológico. O Incompreendido é um filme marcante. Vi-o com o Marino Trancoso, um amigo jesuíta colombiano, que fez doutoramento com Claude Bremond. Faleceu há anos. Um dos principais anfiteatros de Bogotá tem o seu nome. Tanto olho para trás que fiquei com a cabeça torta e o pescoço dorido.

Consultei a Wikipedia a propósito do cinema italiano. Propõe uma lista com os trinta “principais directores”. Não contempla o Luigi Comencini. Tenho um gosto depravado; não acerto nos valores consagrados. Resolvi aceder à versão em inglês. Nos primeiros lugares, aparecem Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Ettore Scola, Sergio Leone e, em oitava posição, Luigi Comencini. Na Wikipedia portuguesa ocorreu, algures, um lapso.

Segue o filme completo, original, com legendas em inglês.

Incompreso (Vita col figlio) – Misunderstood (1966). Realizador: Luigi Comencini. Legendas em inglês.