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Diálogo ao espelho

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

Conrad of Megenberg, ‘Buch der Natur_, Germany ca. 1434.

A Isabel Vilela sugere-me este momento de humor português: “Não faleci nada”, dos Gato Fedorento. Apesar de recalcado e mórbido, o tema da morte presta-se ao humor. Existem limites, mas respira-se, pelo menos, enquanto não vem um corte ou uma bomba. Respira-se menos com temas de maior sensibilidade pública, tais como o nacionalismo, a religião, o género ou as conquistas da humanidade. Alguns assuntos são tão polémicos que até parece que só um lado se pode expressar.

Gato Fedorento. Série Lopes da Silva. Não faleci nada.

Uma pessoa disse o que não devia ter dito. Por ser quem é; por ser onde foi. Eis um “crime”, no sentido durkheimiano da palavra: uma “ofensa à consciência colectiva”. Como reagem as democracias mais democráticas? 1) Dão ampla publicidade ao que não devia ter sido dito e a quem o disse; 2) Punem quem disse o que disse por ter dito o que disse; e 3) Passada a purga, termina o espectáculo. Há temas tabu, não há? Um destes dias, ainda vamos usar mordaças descartáveis. Em nome dos princípios e dos valores fundamentais advogados pelos “novos bem pensantes” (Michel Maffesoli).

Os tempos não correm de feição ao respeito pelo outro e à liberdade de pensamento. O direito à diferença significa, à partida, que o outro tem direito a uma identidade e a uma idiossincrasia próprias. Uma opinião diferente não se resume a uma qualquer variação da nossa, por muito que isso nos contrarie e desagrade. O pensamento conveniente, normalmente o nosso, sempre foi o mais arreigado inimigo da liberdade de expressão. Esta nossa incapacidade para nos descentrar deve provir do pecado original. Por muito que te custe, um pensamento diferente, se é diferente, pode não ser o teu. A tua intolerância aduba a intolerância alheia, e vice-versa. Quer-me parecer que, hoje, crescem ideias profanas que se tomam por religiosas. Não gosto de apóstolos. Censurar, corrigir, sancionar ou castigar as ideias dos outros, nomeadamente aquelas que colidem com os nossos princípios e valores fundamentais, é tarefa fácil. Salazar e Franco fizeram-no muito bem. Estaline, Hitler e Mussolini fizeram-no ainda melhor. Kim Il-Sung e companhia continuam a fazê-lo, com todo o rigor. É certo que o direito de expressão não é absoluto. Existem direitos de expressão mais ou menos generosos. O mais generoso que conheço é o seguinte: eu tenho direito à opinião, e tu também tens direito à minha. Um diálogo ao espelho. O dito que foi dito é, no mínimo, uma enorme grosseria. Mas a minha opinião, aquela a que tenho direito, é apenas uma opinião. Sempre que alguém for castigado por não pensar como eu, estou a abrir mão da liberdade. Espero que quem disse o que disse não venha um dia a estar em condições de, por simetria, nos corrigir. A nós, os paladinos intermitentes da liberdade! Nada que não tenha acontecido antes. Nada que não aconteça.

No após 25 de Abril de 1974, andei metido na política. Fiz um discurso sobre este tema num comício numa antiga garagem de autocarros no lugar do Peso, em Melgaço. Portugal andava conturbado e febril. Algumas pessoas acharam o discurso deslocado. Retomei o assunto. É um risco, uma opinião atirada ao charco.

Milagres esféricos

Canal + L'amnésique

Raras são as realidades que nos mobilizam tanto como o futebol. Mobiliza o corpo, a alma e o resto. Uma comunhão prodigiosa. A bola faz milagres, inspira os apóstolos e consagra as estrelas, como Pauleta. Nem sequer falta “a mãozinha de Deus”. Devolver a memória a um amnésico é a menor das proezas.

Marca: Canal +. Título: L’amnésique. Agência: BETC Paris. França, Fevereiro 2017.

Não vale a pena uivar à lua

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Creio que devíamos salivar menos perante os símbolos. A distância e o tempo ajudam o entendimento. Convém reflectir em vez de sobre-reagir. Não vale a pena uivar à lua (Albertino Gonçalves).

Realizador: John Bashyan. Título: The night the moon fell. Produção: Tom Leach. 2016.

Jejuemos de anúncios. É a vez de uma curta-metragem e de três vídeos musicais. Tudo lunar. O vídeo é amoroso, como costumam ser as animações com crianças, mas a lua entendeu ser desmancha-prazeres. Moral: não faças cócegas à lua a não ser que estejas por cima. As três canções são tesourinhos de vinil. Na canção do Zeca Afonso, 400 bruxas esperam a lua cheia. Em Portugal, Angelo Branduardi sempre foi o meu segredo isolado. Bob Dylan publicou o álbum Self Portrait em 1970. Um insucesso muito criticado. A maioria das canções são covers e Bob Dylan canta de um modo inesperado. É esse modo inesperado que me cativa no cover Blue Moon.

José Afonso. A Ronda das Mafarricas. Cantigas de Maio. 1971.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.

Bob Dylan. Blue Moon. Self Portrait. 1970.

Em companhia da morte

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“Uma rapariga que tinha de ir regar um campo muito cedo, passou por diante da igreja e vendo que se estava à missa, deu parabéns à sua fortuna e entrou, indo ajoelhar entre as outras mulheres. Estas começaram a olhar umas para as outras e a rosnar “aqui cheira a fôlego vivo”! Uma das mulheres levantou-se, aproximou-se da rapariga e disse-lhe: “O que te valeu foi vires ajoelhar na campa de tua madrinha, que sou eu. Vai-te e não olhes para trás!” A rapariga saiu, mas não resistiu à curiosidade e olhou para trás. Viu muitas fogueiras a arder. Eram as almas das pessoas, porque se não tinham dito missas. (Guimarães) (…)
Na noite de Natal é costume rezar pelas almas dos antepassados, “para eles não virem comer as migalhas que ficaram na mesa”. No Alto Minho nessa mesma noite põe-se sempre um talher a mais para a pessoa de família que ultimamente faltou, e não se levanta a mesa que fica posta toda a noite” (Pedroso, Consiglieri, Tradições Populares Portuguesas, Braga, Edições Vercial, 2010-2012, p. 102-103).

A fronteira entre o mundo da vida e o mundo da morte constitui um dos temas mais complexos da relação com a morte. O que parece um abismo é, afinal, uma ponte, uma zona de contrabando macabro. A morte assombra os vivos e os mortos mantêm uma centelha de vida (fantasmas, almas penadas, mortos-vivos). Proliferam as crenças e os testemunhos sobre os prenúncios de morte, tais como os acompanhamentos ou as procissões de defuntos. Carmelo Lisón-Tolosana dedica uma parte da Antropología Cultural de Galicia (Madrid, Akal, 1971) a este fenómeno conhecido na Galiza por “la santa compaña”. Muitas das lendas estudadas por Lisón-Tolosana também existiam na paróquia da minha infância.

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George Barros. Procissão dos Mortos. Brasil.

Se bem me lembro, um acompanhamento é uma procissão de almas de mortos, eventualmente de vivos, que ocorre normalmente de noite. Confina-se ao território da paróquia, que delimita demarcando uma espécie de comunidade de vivos e de mortos. A procissão é encabeçada por um vivo que leva uma cruz e o caldeiro de água benta. Para o comum dos mortais, a procissão não é visível, mas pode ser sensível: aragem, frio, cheiro a velas, som de passos… Existe o risco de um vivo ser incorporado na procissão. Uma forma de o evitar consiste em traçar um círculo no chão e deitar-se com o rosto virado para baixo até a procissão passar. Os vivos que encabeçam as procissões carecem ser substituídos. De outro modo, empalidecem, definham e morrem. Embora o comum dos mortais não consiga ver o acompanhamento, existem excepções, pessoas que, vendo a procissão, se inteiram das próximas mortes. Não é raro as pessoas “sentirem” a passagem do acompanhamento. Muitos o admitem. Há relatos aterradores: um morto da procissão deu uma vela a uma pessoa; ao acordar, não tinha uma vela mas um osso do fémur. Na minha paróquia “sabia-se” quem tinha o fado de ver os acompanhamentos e a sina de antever os mortos. Não eram, precise-se, figuras fictícias: tinham rosto e nome. São crenças, mas para quem acredita são verdades.

Vêm estas curiosidades a propósito do documentário galego Em Companhia da Morte, de 2011 (também acessível em http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/11/as-gentes-de-castro-laboreiro-e-os.html), que, durante 29 minutos, dá voz ao saber e à experiência de mulheres de Castro Laboreiro no que diz respeito a acompanhamentos e outros anúncios da morte.

Em Companhia da Morte. filmado por Vanessa Vila Verde, João Aveledo e Eduardo Maragoto. Filmes de Bonaval. Galiza, 2011. Duração: 29 minutos.

Além do documentário, acrescento dois episódios do filme Fantasia (1940) de Walt Disney: Night on Bald Moutain, com música de Modest Mussorgsky: e Ave Maria, com música de Franz Schubert. Ambos lembram outros mundos.

Fantasia (1940) de Walt Disney: Night on Bald Moutain, com música de Modest Mussorgsky.

Fantasia (1940) de Walt Disney: Ave Maria, com música de Franz Schubert.

O pós-sapatinho de Cinderela

dinosaur-adventureO meu rapaz mais novo desafia-me com um novo prodígio digital. O sucesso da futilidade na Internet é incomensurável. Este “cover” (vídeo 1) de um excerto de uma animação alemã (vídeo 2; minuto 9) colheu, desde Fevereiro de 2012, cerca de 17,5 milhões de visualizações! Trinta vezes mais do que o original. Ultrapassa a canção “While my guitar gently Weeps”, dos Beatles… Sinal dos tempos? Antigamente falava-se em “nadas muito bonitos”; agora, em “nadas muito insólitos”. As pessoas gostam daquilo que as exprime: faculdades, gestos e fantasias. Pós-verdade ou não, a Internet é o pós-sapatinho de Cinderela.

Yee. “I dinosauri antropomorfi hanno il sangue nel ritmo”. 2012.

The Little Dinosaur (Dinosaur Adventure, na versão da Phoenix). Direcção: Ludwig Ickert, Simone Greiss. Produção: Dingo Pictures. Alemanha, 2000.

The Beatles. While My Guitar Gently Weeps. The Beatles. 1968.

A donzela e a morte: morrer a teu lado

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Premiado com um óscar em 2014 (Her, melhor roteiro original) e realizador do filme Quero ser John Malkovich (1999), Spike Jonze destaca-se, ainda, como um dos mais consagrados realizadores de vídeos musicais. To die by your side é uma curta-metragem em stop motion. Uma história de amor entre uma donzela e um esqueleto que convoca várias figuras clássicas da morte: a dança da morte, o beijo da morte e o golpe da morte. Acrescente-se a crença de que a morte, mesmo quando apaixonada, acaba sempre por matar, involuntariamente, o ser amado. É a sua vocação e o seu destino. Um reparo: não é a morte, o esqueleto, que conduz a dança mas a donzela. A revista Time considerou To die by your side o melhor vídeo do ano (2011).

Spike Jonze. Mourir auprès de toi (To die by your side). Dir. Simon Cahn e Spike Jonze. 2011.

Sofrimento

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“Mas as crianças Senhor / Porque lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil. Balada da Neve. 1909).

O anúncio Violence marks forever, da UNICEF, foi publicado no dia 5 de Dezembro. No mesmo dia, à noite, foi exibido integralmente no noticiário da SIC. É raro os noticiários passarem anúncios. Será por causa da instituição, a UNICEF? De David Beckham, embaixador de boa vontade da ONU? Do tema, a violência contra as crianças? Do modo, imagens animadas “tatuadas” na pele? Provavelmente, o conjunto. Nesta quadra de generosidade natalícia, a UNICEF cativa-nos com altíssima publicidade. Mas não é completamente original. Desconfio que a originalidade é veneno e a repetição néctar.

Os NoBrain criaram, em 2009, um vídeo, também para a ONU, intitulado Huit (os oito objectivos adoptados pelas Nações Unidas para o desenvolvimento mundial). As imagens são “projectadas” em corpos não identificados. Mas o efeito é semelhante. A pele é o suporte das imagens. A pele é sensibilidade e memória. O fascínio actual pelas tatuagens não desmente esta vocação da pele. “A violência fica marcada para sempre”.

Estes dois anúncios lembram um terceiro, com mais de trinta anos, também da UNICEF: imagens de crianças vítimas da fome acompanhadas pela música Twelve O’clock (1975), do Vangelis. Ainda não encontrei o anúncio. Um português, Luís Moreira, de Setúbal, produziu um vídeo que conjuga esta música do Vangelis com excertos do filme Jesus de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977). O resultado é interessante (ultrapassou dois milhões de visualizações).

Anunciante: unicef. Título: Violence marks forever. Agência: Blind Pig. Direcção: Jonas McQuiggim. Reino Unido, Dezembro de 2016.

Título: 8. Director: NoBrain. Produção: LDM Production. Pós-produção: Mac Guff Ligne. França, 2009.

Vangelis. 12 o’clock. Heaven and Hell. 1975. Vídeo produzido por Luís Moreira, com excertos do filme Jesús de Nazaré (Franco Zefirelli, 1977).

ABC da morte

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Há duas semanas, comecei um artigo que desejava publicar hoje, dia de rara comunhão dos vivos e dos mortos. O dito artigo ainda vai a meio. Opto, constrangido, por uma solução de recurso.

O vídeo ABC of Death presume-se ser um falso anúncio. Mas a Volvo autorizou a sua circulação. Apresenta uma série de mortes. O humor negro predomina. A morte é súbita, imprevista e, por vezes, ridícula. Mas não é essa a novidade! Digna de atenção é a seguinte mensagem: nos tempos que correm, os carros conduzem melhor do que os condutores. Ainda bem para os vivos!

Os realizadores do ABC of Death, Daniel Titz e Dorian Lebherz, dirigiram, em 2015, o anúncio Dear Brother, para a Johnnie Walker, um dos anúncios mais criativos e sublimes de que tenho memória. Retomo-o, sem hesitar.

Marca: “Volvo”. Título: ABC of Death. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Alemanha, Outubro 2016.

Marca: Johnnie Walker. Título: Dear Brother. Direcção: Dorian Lebherz & Daniel Titz. Dezembro 2015.

Van Gogh animado

loving-vincentO meu rapaz mais novo volta a desafiar-me com o trailer do tão aguardado filme Loving Vincent. Trata-se de uma obra com financiamento coletivo a partir da plataforma Kicstarter. Dedicado a Vincent Van Gogh, é o primeiro filme de animação com pintura a óleo. Doze pinturas por segundo, a cargo de uma centena de pintores especializados. Confesso que não imaginava um filme de animação com o traço de Van Gogh. Em boa hora! Uma iniciativa extraordinária da Breakthru Films, vencedora de um óscar. Assim se saltam limites. Junto o trailer acompanhado pelo behind the scenes. Página do filme: http://lovingvincent.com/.

Loving Vincent. Trailer. Breakthru Films. Directores: Dorota Kobiela & Hugh Welchan.

Loving Vincent. Behind the scenes.

Arte com todos

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L’Art pour tous é o nome de uma revista francesa fundada em 1861, dirigida por Émile Reiber e editada por A. Morel & cie (Paris). A arte para todos configura uma mentira iludida. Se acrescentarmos l’art par tous (a arte por todos), incorremos numa mentira descarada. Há, no entanto, quem acredite e pretenda fazer acreditar.

lart-pour-tous

Parks, John A, L’Art pour tous. Ed. Marcel Didier Inc, 2015.

Seguem dois vídeos bem-dispostos. Tomados à letra, acreditam nos milagres da arte. O primeiro, Student helps blind man see Picasso, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), aponta para a universalização da recepção da arte (a arte para todos). O segundo, Trace d’homme, do Museum fur Kunst und Gewerbe, de Hamburgo, sugere que a criação artística (a arte por todos) está ao alcance de qualquer um, nem que seja por acidente. Carregar na última imagem para aceder ao segundo vídeo.

Museu de Arte de São Paulo (MASP). Student helps blind man see Picasso. Brasil, 2001.

arte-hamburgo

Museum fur Kunst und Gewerbe. Trace d’homme. Hamburgo, Alemanha, 2006.