Archive | Setembro 2018

A medida de tudo e a relevância de nada

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915

Franz Kafka, The Metamorphosis, 1915.

Não se cria um investigador por decreto, nem se mede a investigação a metro. “Vem-nos à memória uma frase batida”: a escola como “fábrica de salsichas” (Karl Marx / Pink Floyd / Neil Smith), mais custosas do que gostosas. Desde a Idade Média que as universidades nunca voaram tão baixo. E não há volta a dar-lhe? As novas elites das redes não querem, as burocracias não podem e os sábios não sabem. Resta aos políticos desfazer aquilo que fizeram. Um hino à razão pérfido e grotesco, grotesco da pior espécie, da espécie que não tem graça. Talvez Moisés de Lemos Martins esteja certo: já não há palavras para tantos números. Com boa vontade, vamos conseguir “ter a medida de tudo e a relevância de nada” (Pitirim A. Sorokin). A minha memória é extremamente vadia. Perde-se de salto em salto sem ponto onde se firmar. Acabei de me lembrar de Gregor Samsa, o protagonista da novela A Metamorfose (1915) de Franz Kafka, que acorda um triste dia transformado em insecto. Deitado de costas na cama, nem se consegue levantar. Quer-me parecer que aquilo que acontece às pessoas nos livros acontece na realidade às organizações.

Tanto a Old Spice como a Chaindrite têm apostado no grotesco. O grotesco ocidental e o grotesco oriental não são semelhantes. Nestes dois casos, qual é o mais cerebral? O mais visceral? O mais delirante? Qual perturba mais?

Marca: Old Spice. Título: Nice and Tidey. Estados Unidos, Setembro 2018.

Marca: Chaindrite. Título: Insects. Agência: MullenLowe Thailand. Direcção: Thanonchai Sornsriwichai. Tailândia, Agosto 2018.

Abstenção

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Não vale a pena? Tens mais que fazer? És um original? Não és um parafuso numa engrenagem? Nem um nada na massa? São todos iguais? Não os conheces de nenhum lado? Pois, não votes, outros o farão por ti. Mais do que imaginas! Mas não vale a pena insistir. Nunca se sabe o que se ganha com uma cruz num quadrado.

Desconversemos! Por que motivo o anúncio se dirige a um grupo etário, os jovens? Mesmo que o abstencionismo seja maior entre os jovens, isso não justifica uma discriminação cívica, o dedo apontado à maneira do Tio Sam. Mas o que mais me incomoda no anúncio é a oposição entre jovens, que não votam, e velhos, que votam mal. Senso comum, tão comum quanto perverso. Como diria o cónego Remédios, não havia necessidade.

Anunciante: Acronym. Título: Dear young people, don’t vote. Agência: Nail Communications. Direcção: Lee Beckett. Estados Unidos, Setembro 2018.

A companhia da solidão

Emilio José

As teclas estão desencontradas. A família está na Bélgica. E eu, no parque temático da solidão:

– “Não, nunca estou só com a minha solidão” (Georges Moustaki);
– “Nunca pensei tanto nos outros como quando estive só” (Henri Thomas”;
– “A minha solidão é sombria e quente como o ventre de minha mãe” (Jean-Pierre Martinet);
– “A melancolia torna a solidão atraente” (Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre).

Eis algumas divisas das armas dos cavaleiros da ordem da melancolia.

No sabiendo ni a donde va,/ que feliz vive mi soledad” são versos de uma canção difícil de encontrar na Internet. Esqueci o nome do cantor e a Internet está cheia de lixo e de ruído. Tropeça no seu próprio sucesso. A canção Soledad, do espanhol Emilio José, não tem nada de especial. É apenas um dos meus tesourinhos deprimentes.

Emilio José. Soledad. 1973. Ao vivo, Festival de Viña, 1975.

A família, um valor tradicional

Ronald Inglehart and Christian Welzel, Modernization, Cultural Change and Democracy. 2005. page 63

Gráfico 01. Ronald Inglehart and Christian Welzel, Modernization, Cultural Change and Democracy. 2005. page 63

No final da Idade Média, acreditava-se que, na hora da morte, os moribundos reviviam os momentos mais marcantes de suas vidas. Esta crença não desapareceu. O anúncio Una vida por ver, da Movistar, operadora de telemóveis ibero-americana, é distinto. Não se trata de uma “revisão do passado” mas de uma “visão do futuro”, da vida que a morte amputou. Não é um rewind nem um forward, mas um retrocesso do futuro para o presente.

Que vida desperdiçou o jovem acidentado? Uma vida em família. Anos e anos, em companhia da mulher e da filha. Nem mais, nem menos. A família é encarada como um importante valor tradicional. Curiosamente, a cobertura da Movistar incide sobre um agregado de países latinos caracterizados, segundo Ronald Inglehart e Christian Welzel, pelo apego aos valores tradicionais (ver gráfico 01).

Marca: Movistar. Título: Una vida por ver. Agência: Young & Rubicam Santiago. Direcção: Diego Núñez Irigoyen. Chile, Setembro 2018.

 

Eros e Thanatos

Kelvin Klein. Love

Calvin Klein. Love. 2018.

Love é um anúncio brutal da Calvin Klein. Primorosamente filmado, acelerado, entrelaça amor, violência e (homo)sexualidade. Eros e Thanatos. What else? Hate me, dos Blue October. Esta noite fui assistir a uma sábia conferência do Moisés de Lemos Martins. Não me sobrou tempo para mais palavras.

Marca: Calvin Klein. Título: Love. Produção: Filmakademie Baden-Wurttemberg. Direcção: Eugen Mehrer. Alemanha, Setembro 2018.

Blue October performing Hate Me (10th Anniversary) [Live]. (C) 2015.

Extremos

Vangelis in 1974

Vangelis em 1974

Uma centelha basta para aquecer o dia! Ouvir, por exemplo, a música Ask the mountains, do Vangelis (Voices, 1995). Engana a melancolia.Valoriza o anúncio Underwater World, da Ariston Aqualtis (2006) e desafia as montanhas no vídeo homónimo. É um sonho erguer o olhar e não tropeçar com burocratas, confrades e marialvas… Nem com o Zé Povinho a empurrar a encosta. Soltemos o olhar!

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater world. Agência: Buf Film Master. Direcção: Dario Piana. Itália, Março 2006.

Amor de filho

CP Group. Gratitude.

O anúncio tailandês Gratitude, da CP Group, ajusta-se ao gosto oriental: longo, lento e emotivo. Uma história muito bem contada. Era uma vez um professor que levava a mãe para a sala de aula…

Marca: CP Group. Título: Gratitude. Agência: Ogilvy Group Thailand. Direcção: Kumphol Witpiboolrut. Tailândia, Setembro 2018.

Até que a morte nos separe

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway

01. Gustav Vigeland. Death parting man and woman. Foutain relief. 1916.Vigeland Park, Oslo, Norway.

Na Internet, esta escultura de Gustav Vigeland aparece quase sempre intitulada: “Até que a morte nos separe” (Till Death Do Us Part). A designação original é: “Death Parting Man and Woman (“A Morte Separando um Homem e uma Mulher”). O sentido é praticamente o mesmo: a separação pela morte.

Apetece-me desconversar. Renovemos o olhar. A escultura apresenta um homem e uma mulher abraçados e a Morte a interpor-se. Lembra as danças macabras. Mas o casal não está separado nem a morte está em pose de triunfo. O casal continua abraçado e a morte concentrada no seu trabalho. Será que o Amor pode resistir à Morte?

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

02. Gustav Vigeland in the studio. 28 May 1917.

“Falava Camões daqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Todos resistimos à mortalidade, uns valerosamente, outros nem tanto” (Rita Ribeiro). Camões sabe que não é apenas “por obras valerosas que nos vamos da lei da morte libertando”, pelo amor, também. No Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel o Velho, ninguém escapa à fúria de Morte. Ninguém excepto um par de namorados, alheados da tragédia envolvente (ver no canto inferior direito do quadro da Fig. 11). Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Pedro e Inês, “da lei da morte se libertaram”.

11. Pieter Bruegel the Elder - The Triumph of Death (1562).

11. Pieter Bruegel the Elder – The Triumph of Death (1562).

As obras de arte permitem várias interpretações, por vezes, opostas. São polissémicas. Quem vence? O Amor ou a Morte? Depende da perspectiva. Como num poema de Clarice Lispector, se o olhar desce, surpreende a morte a separar o casal; se o olhar sobe, vislumbra o casal a resistir à Morte. As obras de arte ganham em ser ambivalentes.

Qual é a opinião do escultor? Ignoro. Mas, por importante que seja, não é a única nem, porventura, a mais decisiva. Esta é uma questão polémica no seio da sociologia da arte. A interpretação alternativa resume-se a um enxerto de sentido, neste caso, apressado e atrevido? Naturalmente. É um mero exercício de pensamento, que convoca um provérbio distinto: “nem a morte nos separa”. Mas a sina das obras de arte reside, precisamente, em incorporar as interpretações que suscita, incluindo as mais bárbaras. Esta é outra questão polémica na sociologia da arte.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

03. Gustav Vigeland. The Monolith, modelled in 1924-1925.

Gustave Vigeland (1869-1943) é um reputado escultor norueguês. Em 1921, a cidade de Oslo disponibilizou-lhe um estúdio em Frogner, nos arredores de Oslo. É o início de uma obra monumental que culmina no actual parque Vigeland. Desenha o parque, ao mesmo tempo, que introduz as esculturas. Começa com o Monólito (Fig 3) e a Fonte (Fig 6 ). No conjunto, são mais de 200 esculturas da sua autoria. O Parque Frogner/Vigeland, o maior da cidade de Oslo, destaca-se como uma maravilha mundial.

Esculturas de Gustav Vigeland. Vigeland Park. Oslo. Noruega.

Passar pela Noruega sem ouvir Edward Grieg não me parece bem. Edvard Munch pode esperar. Opto pela famosa Solveig’s Song. A canção termina com os seguintes versos:

“If you are in heaven now waiting for me
In heaven for me
And we shall meet again love and never parted be
And never parted be!”

(Edward Grieg. Solveig’s Song).

No céu, ninguém nos separará! Nem sequer as asas dos anjos.

Edward Grieg. Solveig’s Song. Peer Gynt. Intérprete: Marita Solberg. Direcção de Neemi Jarvi.

Mortos interactivos

 

Terceiro dedo.

Terceiro dedo.

O último capítulo do livro A Morte na Arte conduziu-me pelos cemitérios em busca de esculturas mortuárias veladas. Quem procura uma coisa encontra outras. Sempre que procuro perco-me. Intrigaram-me algumas esculturas de “mortos interactivos”. Partes do corpo dos mortos irrompem dos túmulos numa espécie de comunicação com os vivos. Nas figuras 2 a 4, destacam-se as mãos, nas figura 5 e 7, partes do corpo. Na figura 1, uma mão aponta o terceiro dedo. Não são casos de somenos importância. Os túmulos das figuras 5 e 6 pertencem a Jules Verne e ao poeta Gerges Rodenbach. A figura 1, a mais fática, justifica algumas reservas. Embora não seja rara na Internet, não consegui identificar nem o local, nem o fotógrafo. Pode ser falsa (fake).

Há quem acredite que a vida e a morte não são mundos tão separados quanto a razão dita. Existe uma zona de intersecção onde deambulam, por exemplo, as almas penadas e os mortos vivos. Existem imaginários que sustentam este contrabando, torto por linhas tortas, entre a vida e a morte.

A máquina da felicidade

Ford Trucks

Gosto deste anúncio brasileiro. Não lhe falta nenhum parafuso. O que é a felicidade? Casar, aprender, jogar, recordar, ter filhos, conduzir. Alterando a ordem das peças da engrenagem, resulta uma nova versão das idades da vida. Na última fase, a velhice, recorda-se, revive-se a memória. Curiosamente são as máquinas e os artefactos que despoletam a felicidade: o anel; o candeeiro; as sapatilhas; a grafonola; a flor; o tablet; e o camião. Será este o nosso conceito de felicidade? Creio que não anda longe.

Marca: Ford. Título: Gears. Agência: GTB Brasil. Produção: Zombie Studio. Direcção: Paulo Garcia. Brasil, Setembro 2018.