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Do mais forte ao mais fraquinho: o gato, o rato e o pintainho.

Luís Sepúlveda. História de um gato e de um rato que se tornaram amigos. Ilustração de Paulo Galindro.

Luís Sepúlveda. História de um gato e de um rato que se tornaram amigos. Ilustração de Paulo Galindro.

Nos contos e nas fábulas, felinos e roedores ora são complementares, como na fábula de Esopo; ora ficam amigos, como no conto de Luís Sepúlveda (História de um gato e de um rato que se tornaram amigos), ora se envolvem em brigas intermináveis, como o Tom e o Jerry. E qual é a relação dos gatos com as aves? Silvestre, o gato, não dá tréguas a Tweety, o canário. No anúncio Best Friends, da Deli-Catz, o gato e o pintainho são amigos inseparáveis. Até que um dia a fome come a amizade. Este anúncio aposta no desencanto. Fantasia à parte, o mais fraco é o mais fraco. A galinha pôs o ovo… E o gato papou-o todo. Gosto de anúncios impertinentes que rematam em rabo de peixe absurdo. Alimente o seu gato se não quer que ele lhe coma o passarinho. O meu rapaz mais velho tem um gato, o Moriarty, que não precisa ter fome para morder e rasgar tudo quanto é papel. É o seu luxo! Dava para mascote de uma instituição que não me ocorre o nome.

Marca: Deli-Catz. Título: Best friends. Agência: Adam&Eve DDB (London). Direcção: Keith Schofield. Reino Unido, Setembro 2017.

Histórias mal contadas

Francisco Goya. Witches Sabbath. 1789

Francisco Goya. Witches Sabbath. 1789

Quem não teve a tentação de emendar o final de um conto?

Na História da Carochinha, o João Ratão não ficou “cozido e assado no caldeirão”. Caiu no caldeirão e comeu tanto, tanto, que, para além de nada sobrar para os convidados, teve que fazer dieta durante sete anos.

Na versão de Perrault, “Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe: «Avó, que grandes braços tem!» «É para melhor te abraçar, minha filha.» «Avó, que grandes pernas tem!» «É para correr melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes orelhas tem!» «É para escutar melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes olhos tem!» «É para ver melhor, minha pequena.» «Avó, que grandes dentes tem!» «É para te comer.»” Mas o lobo mau não comeu a Capuchinho. Eu estava lá para ver. Ao ouvir as respostas do lobo, a Capuchinho aproximou-se e deu-lhe um beijo; e o lobo mau transformou-se num príncipe maravilhoso, dono da floresta e de todas as terras em redor, mais rico do que o rei Bico de Tordo.

Por altura do Natal, nasceu, durante a noite, um pequeno bode negro com cornos graúdos. Não havia quem lhe fizesse frente: o cão, o homem, os obstáculos, a vaca… Mas eis que surge um monstro de lata com olhos de dragão. As ovelhas afastam-se, mas o pequeno bode negro não arreda pé, até que, a um dado momento, desiste. Desiste? Não, não desistiu, na verdade tinha mais que fazer do que estar a olhar para aquela coisa rolante. Estava atrasado a um encontro com as bruxas.

Marca: Volskswagen. Título: Baby ram. Agência: Adam & Eve/DDB. Direcção: Nick Gordon. Alemanha, Novembro 2017.

Natal andróide

Edeka. Christmas. 2117

Num mundo disfórico entregue às máquinas, um andróide deixa-se cativar por alguns vestígios de vida humana num cartaz e num filme com a ceia de Natal. Começa uma odisseia da máquina em busca do humano. Simula a ceia de Natal com manequins, mas não resulta, falta o espírito. Acaba por reconhecer a paisagem numa fotografia de um jornal.  Por vales e montanhas, encontra finalmente a família humana que o acolhe com generosidade.

Este anúncio lembra filmes tais como O Planeta dos Macacos (1968), Blade Runner (1982), Equilibrium (2002) ou WALL-E (2008). E convoca uma série de mitos mais ou menos contemporâneos:

– A superação e a dominação do homem, aprendiz de feiticeiro (Goethe, 1797), pelas suas próprias obras, nomeadamente computadores e andróides;

– As máquinas assumem-se mais humanas do que os humanos, propiciando um espelho, mais ou menos deformado, da condição humana;

– Uma ovelha negra redentora galga fronteiras e vence obstáculos contribuindo para a emancipação, mais ou menos fugaz e inconsequente, dos oprimidos.

Marca:  Edeka. Título: Will we celebrate Christmas in 2117? Agência: Jung von Matt. Alemanha, Novembro 2017.

Novo conto de Natal

 

Miguel Torga

Miguel Torga

Do Brasil, informaram-me que estavam a pensar candidatar o Tendências do Imaginário a um prémio, na categoria versatilidade. Não sei se o blogue é versátil, mas neste artigo dialogam vários géneros mais ou menos desconectados: a literatura, a publicidade e a música (AG).

A H&M oferece-nos um conto de Natal com coração secular e cara refrescada, o suficiente para aquecer o sono antes de dormir. Uma narrativa criativa e agradável.

Marca: H&M. A Magical Holiday. Agência: Forsam & Bodenfors. Direcção: Johan Renck. Suécia, Novembro 2017.

O conto Natal, de Miguel Torga, é de outra fibra. O mendigo Garrinchas atrasa-se e não vai a tempo de consoar ao calor do forno do povo, “o santuário colectivo da fome”. Acaba por ficar a meio caminho, numa capela, junto aos céus. Para aceder ao pdf com as três páginas do conto: Miguel Torga. Natal. Novos Contos da Montanha. 1944

Acrescento a canção Big Love, dos Fleetwood Mac, interpretada neste vídeo por um dos membros: Lindsey Buckingham. Nunca é cedo para desejar bom Natal!

Desejo-vos um bom Natal deste refúgio: uma secretária, um computador, livros, aparelhagem de música, fotografias e uma janela para ver o mundo quando ergo o pensamento. É esta a fábrica do Tendências do Imaginário.

Fleetwood Mac. Big love. Tango in the night. 1987.

A variação do mesmo

Antuérpia

Antuérpia

Aos emigrantes de Antuérpia

As estrelas anunciam uma quadra em que contos, cânticos, figuras e anúncios tendem a ser uma variação do mesmo. Saturados, os marcadores simbólicos natalícios cobrem quase tudo que é sentido. Ressalve-se, porém, que repetir não é, necessariamente, anular ou reverberar. A própria repetição do mesmo gera uma mesmidade distinta. Dez pessoas que se alinham, uma atrás da outra, em frente a um caixa multibanco formam uma fila, com as possibilidades e os constrangimentos que isso implica. Acrescente-se que a variação não é irmã gémea da repetição. Nada impede a variação de ser genuinamente única. Escute-se, por exemplo, Bach.

J. S. Bach. Goldberg Variations, BWV 988: I. Aria.

O anúncio polaco Talizman, da Allegro, é uma variação do mesmo. Contracenam uma criança e um velho. A fé e a ternura, tanta fé e tanta ternura, são os sentimentos nucleares da época. No entanto, o disco não está riscado. Outras pautas e outras vozes cantam o espírito de Natal. E ouvimos, encantados, o milagre, um milagre que nos apressamos a esquecer.

Marca: Allegro. Título: Talizman. Agência: Bardzo. Direcção: Jesper Ericstam. Polónia, Novembro 2017.

Papão

John. Moz the Monster. 2017

Quantas vezes não me cantaram, quantas vezes não cantei, esta canção de embalar:

“Dorme menino
Que aí vem o papão
Comer meninos
Que não dormem não.”

O meu menino chama-se
Fernando Meco João
É muito lindo e brincalhão.

“O meu menino está chorando
Com medo do papão,
Sossega, meu menino,
Que não te come, não.”

Segue o anúncio Moz the Monster, com a assinatura de Michel Gondry.

Marca: John Lewis. Título: Moz the Monster. Agência: Adam&eveDDB. Produção: Partizan. Direcção: Michel Gondry. Reino Unido, Novembro 2017.

Festa batráquia

Para o Halloween, enquanto as bruxas e os zombies não chegam, recomendo a curta-metragem Garden Party. Fabulosa! Com sapos, animais associados ao mal, à morte e à bruxaria. O vídeo é longo (7 minutos) e lento. Mas tem uma estética e uma narrativa prodigiosas. O desfecho, cirurgicamente anunciado, é surpreendente. Trata-se de uma curta-metragem mega premiada: cerca de 30 prémios. Imagino quanto os autores se divertiram durante a produção.

Garden Party. Direcção: Florian Babikian; Vincent Bayoux; Victor Caire; Théophile Dufresne; Gabriel Grapperon; Lucas Navarro. MOPA, 2016.

Os sapos não são apenas criaturas do mal, são também beijoqueiros. No anúncio Water Frog, da Vitamin, um sapo anda à procura da princesa, mas não lhe serve uma qualquer, deve beber Vitaminwater Zero Glow. Para aceder ao anúncio, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.culturepub.fr/videos/vitaminwater-frog/.

Vitamin

Marca: Vitaminwater. Título: Frog. Agência: CP+B. Direcção: Bryan Buckley. USA, 2011.

 

 

Vermelho que te quero vermelho

Capuchinho 3

O poder dos símbolos é espantoso. Põem-nos o cérebro a salivar. Tanto permanecem iguais como se renovam, para sua maior eficácia e nossa maior confusão. Pense-se no Capuchinho Vermelho.

Bela e curiosa. Vermelha! Nem azul, nem verde: vermelha. Vermelha há mais de trezentos anos. Não esperou por nós, nem por Bruno Bettelheim, para saber que o capuchinho era vermelho. Vermelho cor de sangue. O sentido, a chave, desta conversa não está neste artigo, nem nos anteriores, mas no próximo. É um novo estilo inspirado nos romances de cordel.

Marca: Green & Blacks. Título: Dark, but different. Agência: Mcgarrybowen London. Direcção: Dorian & Daniel. Reino Unido, Outubro 2017.

A cabra danada

Max Ernst. The Beautiful Thing. 1925.

Fig. 1. Max Ernst. The Beautiful Thing. 1925.

Na minha mais terna infância, antes de casar as letras, o meu avô contava-me histórias, intervaladas por poemas. O principal protagonista era a cabra danada. Só o nome! Associa-se a cabra à sexualidade, à luxúria e à propensão para a troca de parceiro, daí, talvez, o termo cabrão (ver Pitt-Rivers, Julian A., 1954, The People of the Sierra, New York, Criterion Books). Por outro lado, a cabra é também associada à bruxaria (ver quadro de Francisco de Goya na figura 5). Por acréscimo, o adjectivo “danada” não deixa margem para dúvidas. Estamos confrontados com uma figura demoníaca.

Marc Chagall. O Sonho. 1927.

Fig. 2. Marc Chagall. O Sonho. 1927.

Marc Chagall. O casal da Torre Eiffel. 1938-1939.

Fig. 3. Marc Chagall. O casal da Torre Eiffel. 1938-1939.

Consoante a inspiração do meu avô, a cabra danada ora era encantadora ora era assustadora. Uma vez deitado, virava-me para a janela, à espera de ver passar a cabra danada. A curiosidade era maior do que o medo.

Andy Warhol Bighorn Ram, from Endangered Species, 1983.

Fig. 4. Andy Warhol Bighorn Ram, from Endangered Species, 1983.

Nunca vi a cabra danada! Pelos vistos, aguardava que eu adormecesse para passar rente à janela. De manhã, ainda se lhe sentia o rasto. Não sei se tinha asas. Creio que não! O meu avô nunca fez menção a asas. As cabras do Marc Chagall, por exemplo,  voam sem asas (Figura 3). Na minha imaginação, a cabra danada era parecida com as cabras de Marc Chagall (Figura 2), de Max Ernst (Figura 1) ou de Andy Warhol (Figura 4). Na minha terna infância, nunca vi uma cabra danada, mas que as há, há! E cabrões, também.

Francisco Goya; Witches' Sabbath, 1798

Fig. 5. Francisco Goya; Witches’ Sabbath, 1798

A próxima estação

Cuando el alzheimer llega arrasa. Por Martin De Pasquale (via Creattica).

Cuando el alzheimer llega arrasa. Por Martin De Pasquale (via Creattica).

A próxima estação pode chamar-se Alzheimer. Coloco artigos que ora valem pelo comentário, ora, como este, pelo anúncio. Em termos de narrativa e emoção, o anúncio La Misión, da Fundación Reina Sofía, bate-se com os orientais. E, pronto! Não preciso passear mais palavras.

Anunciante: Fundación Reina Sofía. Título: La Misión. Agência: Sra Rushmore. Direcção: Gabe Ibáñez, Maio 2017.