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Trelas Electrónicas

Tomar uma torre de controlo de um aeroporto por um videojogo pode ser perigoso. O trabalhador e o posto de trabalho devem estar em harmonia. Esta é a preocupação da agência de emprego Keljob: a cada um o emprego para que está vocacionado.

Não há registo na história da humanidade de sociedades com tantos meios de vigilância e controlo como a actual. Os poderes (governo, justiça, finanças, empresas, redes) transbordam de recursos de vigilância e controlo. O mundo alberga paradoxos: A vigilância e o controlo nunca foram tão intrusivos e nós nunca nos sentimos tão livres! Há trelas e trelas! Algumas devem ser confortáveis.

A canção Space Oddity, de David Bowie, vem a preceito. Não é animadora, mas a vida não é um eterno magusto.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Packman

Marca: Keljob. Título: Tour de Contrôle. Produção: Byzance. Direcção: Gérôme Rivière. França, 2002.

 

David Bowie. Space Oddity. Ao vivo em 1969, ano de estreia da música.

 

Filho da Lua

Colocaram estas fotografias no Facebook. Passaram-me despercebidas. Provêm da sessão inaugural do festival Filmes do Homem (Agosto 2018). Gosto de conversar. Umas vezes com a máscara da convicção, outras com o humor de quem ri com as próprias piadas. Restrinjo cada vez mais as conversas a assuntos e a públicos que me tocam. Apraz-me conversar, escrever, ensinar e investigar com liberdade e motivação. Um privilégio que a academia está a perder. Já a gestão e a “internacionalização”, dispenso-as. “Internacionalizo” pouco. Não sinto a falta. Prefiro não ter fronteiras.

Internacionalizemos! Hijo de la Luna (1986), da banda espanhola Mecano, ultrapassou a vintena de covers, desde os clássicos até aos góticos. Os Mecano cantam-na em espanhol e em italiano. Gosto da versão italiana. Coloco uma e outra. A letra convoca a mitologia. Uma mulher dá à luz um bebé de pele branca com olhos cinzentos. O pai, cigano, desconfia de adultério. Mata a mulher e abandona o filho no cimo de um monte. A lua, que não pode ter filhos, adopta a criança. Quando esta está contente, temos lua cheia; quando está triste, a lua encolhe-se, em quarto minguante, para melhor a embalar.

Mecano. Hijo de la Luna. Entre el Cielo e el Suelo. 1984. Vídeo musical.

Mecano. Figlio Della Luna. Video musical em italiano.

 

Somos seres de partilha

Romeu e Julieta 2

Somos seres de partilha, que existimos para os outros, que juntos lutamos para que a terra seja um espaço de dom de uns para outros (Seres de partilha: http://franciscanos.org.br/?p=70419).

Somos seres de partilha. Correntes de dádiva e contra dádiva percorrem e cimentam as sociedades (ver Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925). Partilhamos quase tudo. Até as misérias. Os gostos são cruciais nestas partilhas e distinções. Pelos gostos nos expomos, pelos gostos comungamos, pelos gostos nos afastamos. O gosto é, ao mesmo tempo, pessoal e colectivo. Os gostos musicais prestam-se particularmente a este jogo entre o íntimo e o público.

Gosto do compositor Nino Rota, bem como de outros compositores que nos anos sessenta e setenta escreveram dezenas de músicas de filmes. Por exemplo, Ennio Morricone ou Francis Lai. Não é uma paixão, antes um abraço da memória. Aos meus treze anos trauteei vezes sem conta o Tema do Amor, do filme The Godfather (1972). Escutá-lo regenera-me. A memória tem destas manhas. Partilhá-lo reconforta-me. Revisita-me uma velha máxima: é mais gostoso gostar do que ser gostado”. Gosto de gostar!

Acrescento o Tema do filme Romeu e Julieta (1968), também da autoria de Nino Rota. Recordo raramente memórias isoladas. Recordo em cadeia. E rumino: por que motivo estas músicas desapareceram da nossa paisagem sonora? Fazemos muito melhor?

Nino Rota. Tema do filme Romeu e Julieta. 1968.

Nino Rota. Love theme. Filme The Godfather. 1972.

Girl power

Emily Roberts. #santaclara

O anúncio Santa Clara, do Lidl, e o vídeo musical #santaclara, de Emily Roberts, festejam o advento de Santa Clara e o fim da usurpação na terra. Santa Claus? Who cares? Talvez tenha chegado o momento propício para começar a chamar ao divino divindade e retocar o espírito da natividade.

“Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so
Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so

It’s time for us to change this stupid old school game
A whole new era Santa Clara’s gonna reign
There’s something coming ain’t it, we’re up and running
And we’re finally gonna change it.”
(Excerto da letra da canção #santaclara, de Emily Roberts).

Marca: Lidl. Título: Santa Clara. Agência: Überground. Direcção: Nathan Price. Internacional,

Emily Roberts. #santaclara. 2016.

Amanhã é sempre longe demais

Fonte - WWF

Mapa global da pegada ecológica do consumo. Fonte – WWF

Estamos a destruir o planeta. “Somos a primeira geração que está a destruir o planeta e a última que o pode salvar”. Todos sabemos. Mas do saber ao decidir vai um passo, um passo que não damos. O homem é um animal capaz de se auto castigar. Se o presente foge, o “amanhã é sempre longe de mais” (Radio Macau).

Resistência. Amanhã é sempre longe demais. Ao vivo em Lisboa. Cover dos Radio Macau.

O homem é dado à descrença. Não fala a língua do poder, nem o poder fala a língua dele. Quem muito fala, fica rouco. E a mão cheia de poderes globalizados, em que cena do anúncio aparecem? A este nível, o homem comum sente-se tão impotente que poucos sonhos o mobilizam e muitos pesadelos o atormentam. Mas a propaganda e a publicidade insistem que o mundo está nas nossas mãos! Recomecemos: “Somos a primeira geração que está a destruir o planeta e a última que o pode salvar”. Quem está a destruir o planeta? A nossa geração? A nossa geração tem as costas largas. Cumpre-lhe, naturalmente, fazer o que estiver ao seu alcance. Salvar o planeta? Em 2017, a China (27,6%) e os Estados Unidos (15,2%) emitiram 42.8% do dióxido de carbono do planeta. Mas estou convencido que a nossa geração, com a tal responsabilidade que lhe cabe,vai converter os fariseus e salvar o planeta.

Consta que o anúncio Fight for your world, da WWF, é a primeira grande encomenda da agência Uncommun Creative Studio. Felicito-a! O trabalho é notável. Esmerado. E o texto, eloquente e incisivo.

Tanya Steele, chief executive of WWF UK, said: “The decisions made over the next few years will determine the future of our world and the wildlife we share it with. We have a window of opportunity to act and show we care – as citizens, as consumers and as individuals. That opportunity starts now and leads up to the end of 2020, when global decisions on biodiversity loss, climate change and sustainable development will be made. This window is rapidly closing. The time to fight for your world is now.”

Nils Leonard, co-founder of Uncommon, added: “If we could watch our planet in this second, and see our impact upon it in real time, it would scare us. It would be the understanding that every choice we make, no matter how small it might seem, has a huge impact. These little choices are how we fight the biggest battles, they are the way for all of us to make a difference. Not making a choice, is a choice: in every decision, of every day, you are either for the world or against it.” (campaign: https://www.campaignlive.co.uk/article/wwfs-bold-ad-uncommon-urges-people-fight-world/1497550).

Anunciante: WWF. Título: Fight for your world. Agência: Uncommun Creative Studio. Direcção: Daren Rabinovitch. Reino Unido, Outubro 2018.

Noite dos medos. O Carnaval macabro

Noite dos Medos. Melgaço. Noite de 31 de Outubro de 2018. Produção: Rádio Vale do Minho.

A segunda edição da Noite dos Medos de Melgaço ultrapassou as expectativas. Centenas de pessoas partilharam medos numa catarse colectiva respaldada na tradição. Nenhum medo escapou, nem sequer “os medos que metem medo a um susto”. Numa noite para aquecer, com chamas e queimadas, o protagonista foi o corpo, mascarado, pintado, representado, dançado e comunicado. Revitaliza-se, tribalmente, a memória e reinventa-se o passado.

Acrescento duas músicas a condizer: The End, dos The Doors, e Highway to Hell, dos AC/DC. Faltavam no Tendências do Imaginário. Dispus os vídeos por ordem de estreia. A menor qualidade do som e da imagem do vídeo dos The Doors é compensada pelo facto de se tratar de uma actuação ao vivo no próprio ano do lançamento da música (1967).

The Doors. The End. The Doors. 1967.

AC/DC, Highway to Hell. Original: Highway to Hell. 1979.

Os anjos também sofrem

Escultura. Cemitério de Varsóvia

Escultura. Cemitério de Varsóvia.

Os anjos estão entre as raras figuras do nosso imaginário que tanto vivem nas trevas como na luz. Aprendi com o filme As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, que os anjos amam e sofrem. Os cemitérios, entrepostos da vida e da morte, abrigam muitos anjos inconsoláveis.

Acrescento o vídeo musical My Immortal, dos Evanescence. Porque sim!

Evanescence. My Immortal. Origin. 2000.

Vontade de sentir

Lisa Ekdahl

Lisa Ekdahl.

Rema que não rema, a cabeça afasta-se do arquipélago do pensamento. Perde-se num rodopio de sensações. Max Weber disse realmente o que disse? A cabeça dá voltas e o barco mete água. Um náufrago da razão tem urgência em se agarrar aos sentidos. Se o Max Weber disse o que realmente disse isso é questão, uma questão de muita sabedoria.

Hoje, ouvi Lisa Ekdahl. Após vinte anos de jejum! Nos álbuns mais recentes, a maior parte das canções são em sueco. Acabei por me decidir pelas canções Crazy in Love, do álbum Så mycket bättre – Tolkningarna (2016) e, bastante mais antiga, Nature Boy, do álbum Back to Earth (1998).

Lisa Ekdahl. Nature Boy. Back to Earth (1998).

Lisa Ekdahl. Crazy in Love.  Så mycket bättre – Tolkningarna. 2016.

Pelo contrário

Sonia Delaunay. Girls in bathing suit. 1928

Sonia Delaunay. Girls in bathing suit. 1928.

Isabelle Mayereau é uma “cantautora” francesa pós Maio 68. A música, simples, lembra um fio de água de uma nascente hipnótica. As letras, arabescos de um delírio híbrido, nem são estranhas, nem são familiares. São amigas do paradoxo. A obra de Isabelle Mayereau não granjeou o sucesso merecido, nem outrora, nem agora. É verdade que não se trata de um Jacques Brel, de um Serge Gainsbourg, nem de um George Brassens, seu mestre. Marcou, no entanto, muitos cantores actuais. Gosto de obras com pouco sucesso: sabem-me a dobrar! Abraçar o desconhecido é uma bênção. Conheci Isabelle Mayereau através do álbum Déconfiture, de 1979. Uma aposta cega num catálogo francês equivalente do Círculo dos Leitores. Desde então, sou “seguidor”. Seguem três canções dos anos setenta: Tu m’écris (1978), Hash (1977) e Stars Fantômes (1977).

Isabelle Mayereau. Tu m’écris. Isabelle Mayerau. 1978.

Isabelle Mayereau. Hash. Isabelle Mayereau. 1977.

Isabelle Mayereau. Stars Fantômes. 1977.

O amor dos meus amores

Sociedade pantagruélica. o. Suspiro das Trevas. Fotografia de Fernando Gonçalves.

A gula. Suspiro das Trevas. Fotografia de Fernando Gonçalves.

Ontem, a propósito do imaginário Dior, interpretei quanto baste para uma semana. Interpretar aborrece. O excesso de interpretação faz doer a coluna desde o occipital até ao cóccix. Hoje, limito-me a ouvir. Os dedos tropeçaram-me no álbum Cripple Crow (2005), de Devendra Barnhart. Por acaso, ao pesquisar anúncios de perfumes, deparei com um anúncio da Kenzo com música do Devendra Barnhart. Vamos, portanto, ouvir Devendra Barnhart. É norte-americano, nasceu em 1981, e é membro destacado do estranho movimento New Weird America, a que pertencem também os Animal Collective. Como curiosidade cor-de-rosa, namorou com Natalie Portman. Em 2004, actuou em Braga, no âmbito do Festival para Gente Sentada.

Comercial Madly Kenzo! Feminino Eau de Toilette. Sephora Brasil. 2012.

Devendra Barnhart. Cripple Crow. Cripple Crow. 2005.

Devendra Barnhart. Inaniel. Cripple Crow. 2005.

Devendra Barnhart. Baby. What Will Be Will Be. 2009.

Natalia Lafourcade & Devendra Barnhart. Amor, amor de mis amores, Mujer Divina, 2012.