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Geringonças

Ivan Black. 'Black Ellipse'. Revolving Suspended Disk Metal sculpture.

Ivan Black. ‘Black Ellipse’. Revolving Suspended Disk Metal sculpture.

Criança, pegava em duas laranjas verdes, numa cana e num pau. Dava para fazer um carro. Ainda gosto de brincar. Partilhei um vídeo do mural da Isabel Fonseca: Interactive Kinetic Sculptures by Ivan Black. Magiquei retirar o som de origem e enxertar A Ronda das Mafarricas, do José Afonso. Pareceu-me divertido. Não consegui baixar o vídeo. Para grandes males, pequenos remédios: coloquei o vídeo sem som e acrescentei a música do José Afonso. Basta abrir, no início, a música e o vídeo, de preferência nesta ordem. Para ver o vídeo com o som original, basta ligar o som no vídeo.

 

José Afonso. Ronda das mafarricas. Cantigas de Maio. 1971

 

Cannabis Day

Snoopy e Pink Floyd

O 20 de Abril é o dia da cannabis no Canadá e nos Estados Unidos. Há dias para tudo, desde que tudo caiba num dia. A publicidade preza, cada vez mais, as efemérides. O dia da cannabis não é excepção. A Mighty Blend, por exemplo, não desdenha a oportunidade, enrolando-a com o imaginário psicadélico da praxe.

Marca: Mighty Blend. Título: The Finest Herb with Aunt Mary (episode 1). Agência: Havas Montréal. Canadá, Abril 2018.

Marca: Mighty Blend. Título: The Finest Herb with Aunt Mary (episode 2). Agência: Havas Montréal. Canadá, Abril 2018.

Aproveito a ocasião para regressar a um pecado da juventude: os Pink Floyd, uma banda que se me afigura ser mas gostada ou desgostada do que ouvida.

Pink Floyd. Interstellar Overdrive. The Piper at the Gates of Dawn. 1967.

Pink Floyd. Cymbaline. More. 1969. Gravação de uma sessão ao vivo em 1969.

A cópia, a série e a ovelha negra

Golconda, 1953 by Rene Magritte

René Magritte. Golconda. 1953.

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty

Trump X Magritte. The Surrealist Series by Butcher Billy (2016) Trump Travesty.

Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou amplo, contenho multidões (Walt Whitman).

Eu me duplico? Pois muito bem, eu me duplico. Sou amplo, contenho massas. A reflexividade não é pós-moderna. Mas tanta reflexividade, quem sabe? “Eu é um outro” (Arthur Rimbaud). Numa galeria de espelhos, eu sou vários outros iguais a mim. Um desfile de cópias como no Golconda de René Magritte. Mas ressalve-se: ainda existem ovelhas negras. O vídeo de Vladimir Cauchemar não as esquece.

Vladimir Cauchemar. Aulos. Direcção: Alice Kunisue. Ed Banger records. 2017.

A indiferença

Swedish Public Employment Service. Make Room. Agência Le bureau Stocholm. Direcção Bjorn Stein. Suécia, Março 2018

“A majestosa igualdade das leis, que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir sob as pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão” (Anatole France , 1894, Le Lys Rouge).

“A sociedade da prosperidade, aquela que pretende o ser próspero, odeia todos aqueles que não alcançam aquilo que ela institui. O indivíduo desfavorecido é pois julgado e responsabilizado pela coletividade por não ter alcançado melhor lugar no seu seio.
Da mesma maneira em que a sociedade da informação penaliza o indivíduo desinformado; da mesma maneira que a sociedade tecnológica penaliza o indivíduo desprovido de técnica; da mesma maneira que a sociedade politizada penaliza o indivíduo desprovido de polítiquice.
Todos os dias se pode observar como o ricaço escorraça o mendigo com cólera…” (Georg Simmel, através de Pedro Costa).

O diferente é igual? Devemos amar os outros como a nós mesmos ou amar os outros como outros? Pode a igualdade abraçar a diferença sem a apagar? És tão igual quanto prevê a lei? E tão único quanto o teu cartão de cidadão? A expansão da mesmidade aproxima-nos da nulidade, de um deserto em que somos areia. No Make Room, do Swedish Public Employment Service, vale o anúncio, vale a causa e vale a música (de John Lennon). Na canção L’Indifférence, de Gilbert Bécaud, vale o talento e a poesia. Vale a sabedoria: “a indiferença destrói o mundo”.

Anunciante: Swedish Public Employment Service. Título: Make Room. Agência: Le bureau Stocholm. Direcção: Bjorn Stein. Suécia, Março 2018.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence. 1977.

Gilbert Bécaud. L’Indifférence.

Les mauvais coups, les lâchetés
Quelle importance
Laisse-moi te dire
Laisse-moi te dire et te redire ce que tu sais
Ce qui détruit le monde c’est
L’indifférence

Elle a rompu et corrompu
Même l’enfance
Un homme marche
Un homme marche, tombe, crève dans la rue
Eh bien personne ne l’a vu
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose
L’indifférence
Chez toi tu n’es qu’un inconnu
L’indifférence
Tes enfants ne te parlent plus
L’indifférence
Tes vieux n’écoutent même plus
Quand tu leur causes

Vous vous aimez et vous avez
Un lit qui danse
Mais elle guette
Elle vous guette et joue au chat à la souris
Mon jour viendra qu’elle se dit
L’indifférence

L’indifférence
Elle te tue à petits coups
L’indifférence
Tu es l’agneau, elle est le loup
L’indifférence
Un peu de haine, un peu d’amour
Mais quelque chose

L’indifférence
Tu es cocu et tu t’en fous
L’indifférence
Elle fait ses petits dans la boue
L’indifférence
Y a plus de haine, y a plus d’amour
Y a plus grand-chose

L’indifférence
Avant qu’on en soit tous crevés
D’indifférence
Je voudrai la voir crucifier
L’indifférence
Qu’elle serait belle écartelée
L’indifférence

Da importância dos fósforos

BrunuhVille

BrunuhVille

Conhece BrunuhVille? Não é uma cidade. É o pseudónimo de Bruno Miguel Correia José, compositor nascido em Coimbra em 1989. Na área do New Age Instrumental, BrunuhVille é uma grande estrela do YouTube, com vários Cd editados: The Eternal Forest (2011); Anima (2012); Tales of Lost Kingdom (2012); Aura (2013); Aurora (2014); Rebirth (2014); Northwind (2015); e Age of Wonders (2016). Foi o meu rapaz mais novo que me falou deste compositor. Os filhos servem para educar os pais. Entre tantas músicas, escolhi Emotional Dark Music, do cd The Eternal Forest. Tem mais de 6,6 milhões de visualizações no YouTube! As outras músicas que consultei ultrapassam todas os 2 milhões de consultas. Os portugueses brilham no estrangeiro. Em Portugal, há falta de fósforos.

BrunuhVille. Emotional Dark Music. The Eternal Forest. 2011.

Alice e o chocolate

Nestlé Alice

Trás e frente, dentro e fora, mole e duro, constituem alguns dos tópicos cardeais do nosso imaginário, nomeadamente no que respeita à nossa relação com o corpo e com o mundo. Destacam-se, contudo, a altura, subir e descer, e o volume, crescer e diminuir. Por exemplo, numa contenda, diz-se que fulano se agigantou, cresceu para o outro, e que sicrano se encolheu, ficou de rastos.

À semelhança da Alice de Lewis Carrol, a Alice do anúncio da Nestlé também muda de tamanho. Entre bebes, comes e leques, a Alice de Carrol vai crescendo e diminuindo, até estabilizar. A Alice da Nestlé apenas cresce. Regressa à estatura normal graças às artes mágicas do chocolate. A Alice de Carrol reduz-se até ficar muito pequena, a Alice da Nestlé apenas cresce. “A vida faz a gente crescer”. Sinais dos tempos. Os tempos da bolha.

Marca: Nestlé. Título: Alice. Agência: David Brasil. Direcção: Marcelo Burgos & Giancarlo Barone. Brasil, Fevereiro 2018.

Tori Amos. Strange little girl. Strange little girls. 2002.

Nas tuas mãos

01.Eduardo Kingman. Mãos.

Eduardo Kingman. Mãos.

“Se precisas uma mão, recorda que eu tenho duas” (Santo Agostinho).

Gosto do expressionismo. De Edvard Munch, Otto Dix, Georg Grosz, Cândido Portinari… (ver A Falha Humana e Portinari e o burro montado às avessas) O expressionismo foi a corrente artística pioneira na exploração da subjectividade.

02. Eduardo Kingman. Maternidad

Eduardo Kingman. Maternidad

“O Expressionismo é a arte do instinto, trata-se de uma pintura dramática, subjectiva, “expressando” sentimentos humanos. Utilizando cores irreais, dá forma plástica ao amor, ao ciúme, ao medo, à solidão, à miséria humana, à prostituição. Deforma-se a figura, para ressaltar o sentimento (História das Artes, Expressionismo).

Inquietas e carregadas, as pinceladas expressionistas desafiam o poder e a potência. Abordam temas marginais, subterrâneos, incómodos.

“O expressionismo usava paleta cromática, dando vida às temáticas angustiantes: miséria, ansiedade e solidão. Essa era o principal enredo das obras nos anos antes e pós Primeira Guerra, na Alemanha.

Eduardo Kingman

Eduardo Kingman

A arte expressionista primava pela liberdade individual e escancarava polêmicas, temas que até então quase não eram retratados: o fantástico, perverso, sexual e outros. A principal ideia era revelar a expressividade subjetiva desses temas, da realidade (A arte expressionista)”.

Eduardo Kingman (1913-1997), pintor expressionista do Equador, exprime nas suas telas a pobreza e o sofrimento, sobretudo, dos indígenas (indigenismo). É conhecido como o “pintor das mãos”. Por quê? A seguinte galeria com algumas das suas obras é esclarecedora.

Galeria de imagens: Eduardo Kingman.

Em tempos, costumava alinhar as imagens num vídeo, acompanhadas com música. Muito trabalho e pouco proveito. Se fizesse, hoje, um vídeo com as pinturas de Eduardo Kingman, a música seria, provavelmente, El Pastor Solitario. Adoptada por muitos grupos sul americanos, o compositor, James Last, é alemão, e o melhor intérprete, Ghjeorge Zamfir, romeno. Mais uma história de Babel bem sucedida. Segue um vídeo com um excerto de um concerto com James Last e Gheorghe Zamfir, em Londres, no ano de 1978.

James Last & Gheorghe Zamfir. El pastor Solitario. Londres. 1978

Teño Morriña, teño saudade. Un canto a Galicia.

Eduardo Kingman (1913-1998) "El duelo".

Eduardo Kingman (1913-1998). “El duelo”.

Em conversa com um galego, afirmo:
– Não costumo seguir a moda.
Responde:
– É uma lástima! Os outros vão de carro e tu vais a pé.

A minha voz pede outras línguas. Sinto saudades da Galiza! Cresci junto à Galiza, e não o esqueço. Apraz-me republicar, com pequenos retoques, o artigo Um Canto a Galiza.

Faz tempo que não vou à aldeia. Criança, mal abria as janelas do quarto, a Galiza, como o Melro de Guerra Junqueiro, dava-me bons dias. Mais quatrocentos metros e nascia galego. Aprendi cedo, com a ferrugem dos anos, o que significa a interculturalidade. “Vendo-os assim tão pertinho / A Galiza mais o Minho / São como dois namorados / Que o rio traz separados / Quasi desde o nascimento… (João Verde, Ares da Raya, excerto). Gosto de poesia, de verdades sentimentais. João Verde escreve: “Que o rio traz separados”. O Minho não separa, une! Nas ruas de Melgaço, Monção, Valença, Cerveira e Caminha fala-se tanto português como galego. E come-se bacalhau!

Uma cantiga com a voz de Luz Casal, a gaita-de-foles de Carlos Nuñez e a poesia de Rosalía de Castro é uma Negra Sombra abençoada. Festiva é a interpretação ao vivo de Mar Adentro por Carlos Nuñez. E, para que não digam que não trago nada de novo, acrescento a canção tradicional galega Camariñas, interpretada por Luz Casal com Luar na Lubre.

Não há três sem quatro. O Álvaro Domingues sugeriu uma canção em galego interpretada por Teresa Salgueiro com a colaboração de Carlos Nuñez. Uma sugestão oportuna.

Luz Casal & Carlos Nuñez. Negra Sombra. Poema de Rosalía de Castro.

Carlos Nuñez. Mar Adentro. Ao vivo em Vigo.

Camariñas, canção tradicional galega interpetrada por Luz Casal & Luar na Lubre.

Teresa Salgueiro & Carlos Nunez. María Soliña. Teresa Salgueiro. Obrigado. 2005.

Portugal entornado

Dedico este artigo, exceptuando os cemitérios, aos habitantes de Antuérpia.

Cemitério Monumental de Staglieno, em Génova. 1851

1. Cemitério Monumental de Staglieno, em Génova. 1851.

O vídeo musical Les Oxalis (vídeo 1), de Charlotte Gainsbourg, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, teve a virtude de me despertar. Tanta sepultura e tanta escultura mortuária lembram-me o livro sobre a arte na morte, a minha obra de Santa Engrácia. Falta um artigo dedicado às esculturas veladas. Artigo prescindível mas que elegi para fecho do livro. Intitulado Velai por Nós, despede-se com imagens de esculturas veladas patentes em vários cemitérios europeus: Montjuic, em Barcelona; Père Lachaise e Monmartre, em Paris; Monumental, em Milão; Monumental de Staglieno, em Génova; ou o Central de Viena. Só em alguns deste cemitérios me foi dado ver esculturas, extremamente raras, com a imagem da própria morte velada (ver imagens 1 e 2). Tenho tido muito que fazer. E quando tenho muito que fazer, não faço nada! Vou começando aos poucos como se quase nada tivesse para fazer. Cada um tem a sua pancada.

Escultura da famiíia Nicolau-Juncosa no cemitério de Montjuic, em Barcelona.

2. Escultura da famiíia Nicolau-Juncosa no cemitério de Montjuic, em Barcelona. Detalhe.

Regressemos à Charlotte. Actriz e cantora célebre, trabalhou com o realizador Lars von Trier e com o grupo Air. O vídeo musical Rest (vídeo 2) corresponde a um single produzido e co-escrito por Guy-Manuel de Homem-Christo, do duo francês de música electrónica Daft Punk. Pressente-se pelo nome que o Guy Manuel é de origem portuguesa (prefiro a lusodescendente, que me lembra água). O bisavô, Homem Cristo Filho (1892-1928), foi um intelectual, jornalista e escritor português que se exilou em Itália, onde foi partidário de Mussolini.  Estranhamente, há países que deixam sair os jovens talentos e amesquinham aqueles que ficam.

  1. Charlotte Gainsbourg. Les Oxalis. Rest. 2017.

2. Charlotte Gainsbourg. Rest. Rest. 2017.

 

Imaginação

Nescafé

O anúncio da Nescafé, Those few people, é original. Uma tentação bem gizada. Faz sentido o exercício proposto. Eloquente, mas impossível. Parte das pessoas que nos comoveram não pode sentar-se num anfiteatro. Mas o exercício não perde o voo. É didáctico, mas continua impossível! Confrontado com uma realidade que te embaraça, imagina, sonha uma realidade que te liberte. Vê com o olho interior. Imagina! Para Albert Einstein, a imaginação é mais importante que conhecimento. Imagina!

“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, 2002, Pensamentos, eBooksBrasil.org, Artigo XX: XIII).

A música do anúncio é um cover do Stand by me, do John Lennon, por coincidência o autor da canção Imagine.

Marca: Nescafé. Título: Those few people. Agência: Publicis (London). Direcção: Henry Mason. Europa, Outubro 2017.

John Lennon, Imagine. Imagine, 1971