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No limite: The Kills I

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“A morte não é acontecimento da vida. Não se vive a morte. / Se por eternidade não se entender a duração infinita do tempo mas a atemporalidade, vive eternamente quem vive no presente. / Nossa vida está privada de fim como nosso campo visual, de limite” (Ludwig Wittgenstein. Tractatus Logico-Philosophicus. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p. 127).

Mudar de música ajuda a mudar de atitude. Tive São João em casa. Quatro em cada cinco jovens admitiram não ter ouvido falar dos The Kills. Este e o próximo posts ser-lhes-ão dedicados. Seguem, por enquanto, duas versões mais despojadas e mais raras, com menos punch e batida do que o duo nos habituou.

The Kills. The Last Goodbye. Blood Pressures. 2011. Live David Letterman chat show, 2012.
The Kills. Wait. Keep on Your Mean Side. 2003. ‘Echo Home – Non-Electric EP’ released 2017.

Não esqueças onde vais: Memória e idade

Yuichi Ikehata. Fragment of LTM6. Série Long Term Memory. 2015

“Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo” (Ortega y Gasset, José, Meditaciones del Quijote, Madrid, Publicaciones de la Residencia de Estudiantes, 1914, pp. 43-44).

Em Moledo, dá-me para escrever textos como este. Como sugere Ortega Y Gasset, convém atender às circunstâncias mais ínfimas e mais íntimas. Com escassa mobilidade, debato-me com um computador ultrapassado com som e imagem péssimos. Dedico-me, assim, a escrevinhar textos de média reflexão como este sobre “A memória e a idade” ou, há duas semanas, as “Canções de luto por vivos” (https://tendimag.com/2022/06/05/cancoes-de-luto-por-vivos/). Uma escapatória. Uma tábua de salvação.

Tornou-se proverbial associar a memória à idade. As pessoas maiores são, por excelência, os arquivos vivos. Com o tempo, acumula-se e destila-se o vivido. Será? Não me atardo sobre a degenerescência da memória. Limito-me à memória como actividade e produto social. A vida e a memória não são coisas. Nem a primeira é um conjunto de segmentos, nem a segunda o respectivo repositório. Não tinha completa razão Sherlock Holmes ao apoquentar-se com a selecção das recordações; na sua opinião, a memória é assimilável a uma caixa que depressa se enche; a cada recordação que entra, outro sai. Não, a memória não é um depósito de elementos, antes uma teia, uma agência, de virtualidades, “cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte nenhuma” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XVII).  A vida é acção, experiência e abertura e a memória presentificação e criação. Um simples momento pode inspirar um oceano e a eternidade reduzir-se a uma gota A memória não condiz com a extensão do calendário. Quando muito, pode comportar episódios mais antigos. Não se pode assumir que longevidade seja sinal ou sinónimo de maior biografia ou memória.

POTÊNCIA E SONHO. Marca: TC Bank. Título: Dream Rangers. Agência: Ogilvy Taiwan. Direcção: Thanonchai. Taiwan, Março 2011. Legendado em inglês.

A memória remete para o passado mas actualiza-o e reforma-o no presente. É potência, emergência e protensão. Apresenta-se debruçada para o futuro. Dependente das condições, os encontros e os diálogos tendem a facilitá-la. A interacção social propicia a comunhão e a partilha de memórias. Não cessa de nos mergulhar no passado para nadar no presente e no futuro. Chamemos a esta comunhão e partilha de memórias comemoração (recordar em conjunto). Quem tem mais probabilidades de comemorar? De desfrutar de encontros? A idade aumenta as hipóteses de isolamento e diminui as oportunidades de intercâmbio e comemoração. O anúncio Come Home propõe uma ilustração extrema: um idoso simula a própria morte para forçar a visita dos filhos.

AUSÊNCIA E COMEMORAÇÃO. Marca: Edeka. Título: Come Home. Agência: Jung von Matt (Hamburg). Direcção: Alex Feil. Alemanha, Novembro 2015. Legendas em português.

“Toda a gente sabe” que as pessoas maiores “vivem mais do/no passado”. Para trás, uma vida inteira, para a frente, uma promessa incerta. Voltamos a cair na tentação de geometrizar o vivido.

Com o avançar da idade o presente tende a ser cada vez mais pautado por rotinas, que, apesar dos preconceitos, comportam uma inestimável espessura vivencial. Com os anos, mirra o restolho do passado, desbota o mapa do futuro e aumenta a repetição cíclica. Conjugar rotina e memória aproxima-nos de um oxímero, de uma espécie de memória automática do presente.

A orientação temporal da mente é variável. A bússola aponta para horizontes ora para o passado ora para o futuro. Por exemplo, em algumas comunidades, à memória outonal do verão, sucede o alheamento do inverno e a esperança da primavera. Uma pessoa pode recordar a última visita dos emigrantes como um cão que rilha um osso e acalentar a próxima como um pássaro que faz o ninho (Gonçalves, Albertino, “O Presente Ausente: O Emigrante na Sociedade de Origem”, Cadernos do Noroeste, vol. I – nº1, 1987, pp. 7-30; e Gonçalves, Albertino & Gonçalves, Conceição, “Uma vida entre parênteses. Tempos e ritmos dos emigrantes portugueses em Paris”, Cadernos do Noroeste, vol. 4 – nº6-7, 1991, pp. 147-158). Não se pode, portanto, afiançar que na vida das pessoas, mesmo as maiores, predomina o passado. Nem a minha experiência nem a alheia me permitem decifrar este enigma. Arrisco, em contrapartida, que com a idade cresce o sentimento e a experiência da ausência, e com esta, a memória dos ausentes, daqueles que “estão fora” e daqueles que “partiram para não mais voltar”, inclusivamente para o Além. Esta presença da ausência e dos ausentes torna-se obsessiva. Trata-se de um tipo de memória que afeta, naturalmente, mais as pessoas maiores.

Assim como, com a idade, tende a definhar a socialização, também tende a encolher o espaço vital. Cada vez se restringe mais a um espaço fixo exíguo, porventura a uma mera divisão da habitação. Diminuem a expansão, exploração e deambulação, em suma, a exposição a estímulos e rastilhos da memória. A dança do passado tende a evoluir num circuito fechado solitário, com sobre investimento nos marcadores disponíveis, por exemplo, as fotografias e as lembranças. Corresponderá este cenário a um acréscimo da memória e do seu exercício? Talvez da sua importância vivencial. Quando tudo tende a desaparecer, restam, como alternativa, os fósseis de uma vida. Por uma vez, concordo com os médicos e os cientistas: uma das principais ameaças à memória das pessoas maiores reside não no excesso mas na falta de exercício.

Subsiste, enfim, uma derradeira dimensão, propensa, aliás, a ser parceira da memória da ausência. Para além dos testemunhos, das pessoas e dos acontecimentos, a vida também acolhe a imaginação. É real. Fabrica-se, abraça-se, sente-se. “É virtual nos seus fundamentos e real nas suas consequências”. Refém do isolamento, o novo eremita entrega-se a sonhos e pesadelos. Cria mundos, interpreta personagens e inventa histórias. Experiencia-os. Salta de uns para outros. Pelo caminho, ficam as carícias e as cicatrizes do imaginado, tão familiares e sensíveis como as do vivido.

“Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afectaria tanto quanto os objectos que vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas, que era artesão” (Pascal, Blaise, Pensamentos, 1670. Artigo XIII).

The Piano. Animação: Aidan Gibbons. Música: Yann Tiersen. Junho 2005.

Duvido que com a idade aumente a memória ou o seu exercício. Acredito que a passagem do tempo tende a diferenciá-los: propende a cavar a ausência e a beber no imaginário.

Como sociólogo e como pessoa, encaro os relatos de vida como a mais compensadora das fontes. Gosto de remexer no passado e partilhar experiências. No tempo em que costumava passar as férias e os fins de semana em Melgaço, comprazia-me a registar “testemunhos e confidências” de pessoas maiores, individualmente ou em grupo. Assentava-me bem o papel de regenerador, provocador e esquentador de memórias. E de vidas…

Descanso

Hoje não fiz nada! Como é costume, mas hoje empreendi um nada ainda maior. Escorreguei no pecado da negligência. Pasmei a ver documentários:  sobre as campanhas do MFA, em que, para surpresa, um tio intervém, ou sobre a festa de Nossa Senhora da Peneda, com mulheres a subir o escadório de joelhos. Entretive-me a fazer um post dedicado a um anúncio com mulheres sobre melões. Fazer um post resulta pior do que não fazer nada. Trata-se de um desperdício de alguma vontade à partida com nenhuma consequência à chegada. Alinhavei um projeto de atividade para Agosto em Melgaço. Deixei descarregar a bateria do telemóvel e fui umas dezenas de vezes à varanda para fumar e saudar os melros. E, recostado, ouvi música, rebatida, sem adormecer: David Bowie, Vivaldi e Dire Straits. O álbum de estreia dos Dire Straits foi uma autêntica pedrada no charco dos arrastados anos setenta. No CD, ainda consta o “preço de amigo”: 1995$00. Então, uma fortuna. Pior só o álbum em francos. Acabo o dia com um derradeiro nada irrelevante e inconsequente: mais um post. Seguem três canções:

Dire Straits. Down to the Waterline. Dire Straits. 1978. Ao vivo em 1979.
Dire Straits. Sultans of Swing. Dire Straits. 1978.
Dire Straits. Wild West End. Dire Straits. 1978.

Fado abensonhado

Rão Kiao

Amanhecer “abensonhado” (Mia Couto) com o saxofone de Ran Kiao.

Rão Kiao. Fado Bailado. Fado Bailado. 1983.
Rão Kiao. Ai Mouraria. Fado Bailado. 1983.
Rão Kiao. Foi Deus. Fado Bailado. 1983.
Rão Kiao. Contemplação. Fado Bailado. 1983.

Música, envelhecimento e desativação

Engrácia Cardoso. Mãos para criar e fazer nascer, desenho a grafite e acrílico sobre papel Os sítios da pedra, Complexo Cultural da Levada, Tomar, 2020

O “envelhecimento” é um processo coletivo. É menos o indivíduo que envelhece e mais a sociedade que o envelhece. Desativa-o!

São poucas as bandas rock que envelheceram connosco mantendo corrente a fonte da juventude. The Rolling Stones são, porventura, o melhor exemplo. Ano após ano, souberam renovar a nossa subjetividade.

The Rolling Stones. Start Me Up. Start Me Up / No Use in Crying. 1981.
The Rolling Stones. Miss you. Some Girls. 1978. Ao vivo em 1997.
The Rolling Stones. White Horses. Sticky Fingers. 1971.

Sinais de vida

Vamos andar sem sair do lugar! Seguem três músicas do álbum Signs of Life, dos Penguin Cafe Orchestra: Perpetuum Mobile; Dirt; e Southern Jukebox Musc. Lembram-se?

Penguin Cafe Orchestra. Perpetuum Mobile. Signs of Life. 1987.
Penguin Cafe Orchestra. Dirt. Signs of Life. 1987.
Penguin Cafe Orchestra. Southern Jukebox Music. Signs of Life. 1987. Live From The Royal Festival Hall, United Kingdom/1987 / 2008 Digital Remaster. 2008.

Os avatares do Tendências do Imaginário

Tetramorfo. Símbolos dos quatro evangelistas – humano, S. Mateus; leão, S. Marcos; touro, S. Lucas; águia, S. João. Livro de Kells, por volta de 800.

“Car je est un autre” (Arthur Rimbaud, carta a Paul Demeny datada de 15 de maio de 1871).

Tenho três avatares: o Dionísio, o mais trágico e cínico; o Porfírio, o mais prometeico e entusiasta; e o Amâncio, o mais poético e sensível. Cada um é responsável pelo que assina e todos me fazem companhia. Seguem três exemplos de assinaturas:

– Uma máxima do Dionísio:

                “Nunca desvalorizar os seres humanos, mas descrer sempre deles”.

– Um anúncio que convence o Porfírio:

Marca: Ariston Aqualtis. Título: Underwater World. Agência: Leo Burnett Italia, Milan. Direção: Dario Piana. Produção: FilmMaster, Milan. Pós-produção: BUF, Paris. 2006. Prémios: Gold Lion at the Cannes Lions International Advertising Festival in 2006; Grand Clio Award in 2007.

– E um vídeo musical que comove o Amâncio:

Vangelis. Ask the mountains. Pulse. Voices. 1995. Fonte: Akeldama חקל דמא.

Canções de luto por vivos

Nos últimos tempos, o Tendências do Imaginário tem-se sintonizado, enfadonhamente, na mesma onda: o alheamento. É assim! Quando encontro um novelo deixo-me enroscar nele. Em vez de o exorcizar, desfio, uma a uma, as pontas. Até surgir outro novelo. Importa libertar-me deste que é pouco compensador. Abrir-me, quem sabe, ao tema do reencontro. Para apressar, em vez de desfiar uma ponta por artigo, passo a juntar várias num único.

Assim como existe a expressão “viúvas de vivos”, avanço uma homóloga: “fazer o luto de vivos”. De tão satisfeito com a fórmula, vou patenteá-la! Fazer o luto por um vivo é encetar um processo mediante o qual o outro, embora vivo, passa a assumir, sem traumas, o estatuto de morto. Costuma dizer-se: “Para mim, está mort@!”.

Vou alinhar várias canções, todas de despedida, segundo uma ordem que as aproxima cada vez mais de um exemplo de luto por um vivo.

A canção Le Moribond, de Jacques Brel (1961) é uma despedida da vida/anúncio de morte. Conheceu várias retomas em língua inglesa. A versão mais célebre é, porventura, Seasons in the sun (1974), do canadiano Terry Jacks, influenciado pela leucemia de um amigo. Conheci-a em meados dos anos setenta quando comprei um single com a canção Where do I begin, de Andy Williams, inspirada no filme Love Story, também uma canção de despedida. A canção de Terry Jacks, se bem me lembro, vinha no lado B. Ao arrepio do expectável, existem muitas canções de luto de vivos por vivos. Retenho duas em língua francesa: On Ne Vit Pas Sans Se Dire Adieu, de Mireille Mathieu (1974), e Adieu, de Lynda Sherazade (2020).

Tenho que me entreter com qualquer coisa! E nunca enjeitei os assuntos mais incómodos. Acolho-os harmoniosamente, como estas canções. Coloco apenas uma condição: gostar dos conteúdos partilhados, no presente caso, das canções, que, sendo cinco num único post, ninguém vai visionar.

Jacques Brel. Le moribond. Marieke. 1961.
Terry Jacks. Seasons in the sun. Seasons in the sun. 1974.
Andy Williams. (Where do I begin) Love Story. 1971.
Mireille Mathieu. On ne vit pas sans se dire adieu. On ne vit pas sans se dire adieu. 1974.
Lynda Sherazade. Adieu (fit Dadju). Papillon. 2020.  

Repetição e variação

M. C. Escher, Cisnes, 1956.

Quando a paisagem humana se encolhe e se repete, o melhor é recorrer ao que pode variar. Por exemplo, a música. Seguem duas interpretações do California Guitar Trio: o medley Ghost Riders on the Storm, a partir dos Shadows e dos Doors; e o cover de Echoes, dos Pink Floyd.

California Guitar Trio. Ghost Riders on the Storm. White Water. 2004. From the DVD “At Home With the California Guitar Trio”. 2010.
California Guitar Trio. Echoes. 2008. Ao vivo. Red Clay Music Foundry. 2018.

Insensibilidade

The Worst Feeling Isn’t Being Lonely, It’s Being Forgotten by David Debono.

See Me / Feel Me / Touch Me / Heal me (The Who. Tommy. 1969).

Corpo ausente, câmara fria / Laços líquidos, passos perdidos / Memória leve, exílio forçado / Ponte quebrada, rio seco / Vazio social. Alguém consegue ver, sentir, tocar, cuidar? Always listening to you!

The Who, 43 anos após a estreia da ópera-rock Tommy.

The Who. See me, feel me, listening to you. Tommy. 1969. Glastonbury Festival 2015.