Archive | Vídeo musical RSS for this section

Não vale a pena uivar à lua

the-night-the-moon-fell

Creio que devíamos salivar menos perante os símbolos. A distância e o tempo ajudam o entendimento. Convém reflectir em vez de sobre-reagir. Não vale a pena uivar à lua (Albertino Gonçalves).

Realizador: John Bashyan. Título: The night the moon fell. Produção: Tom Leach. 2016.

Jejuemos de anúncios. É a vez de uma curta-metragem e de três vídeos musicais. Tudo lunar. O vídeo é amoroso, como costumam ser as animações com crianças, mas a lua entendeu ser desmancha-prazeres. Moral: não faças cócegas à lua a não ser que estejas por cima. As três canções são tesourinhos de vinil. Na canção do Zeca Afonso, 400 bruxas esperam a lua cheia. Em Portugal, Angelo Branduardi sempre foi o meu segredo isolado. Bob Dylan publicou o álbum Self Portrait em 1970. Um insucesso muito criticado. A maioria das canções são covers e Bob Dylan canta de um modo inesperado. É esse modo inesperado que me cativa no cover Blue Moon.

José Afonso. A Ronda das Mafarricas. Cantigas de Maio. 1971.

Angelo Branduardi. La Luna. La Luna. 1975.

Bob Dylan. Blue Moon. Self Portrait. 1970.

A carne e a escada para o céu.

francis-bacon-study-for-a-crucifixion-pormenor-1962

Francis Bacon. Study for a Crucifixion. Pormenor. 1962.

Os australianos estão do outro lado do mundo. Às avessas. Com um sentido de humor muito próprio: enérgico, retorcido e desinibido. O inesperado e o incongruente persistem como principal fonte de humor. Quero envelhecer assim: ao saltos com uma guitarra nas mãos.

Há quem acredite, sobretudo as “classes laboriosas”, que a carne vermelha é o mais nutritivo e o mais revigorante dos alimentos (Bourdieu, Pierre, La Distinction, 1979). Da crença ao hino, apenas um passo. Red Meat merece o Stairway to Heaven, dos Led Zeppelin (tenho em casa um guitarrista que gosta de tocar esta música).

Marca: Red Meat – Australian Meat & Livestock. Título: Stairway to Heaven. Agência: Campaign Palace. Direcção: Graeme Burfoot. Austrália, 2002.

Led Zeppelin. Stairway to Heaven. Live Earls Court. 1975.

Antes que seja tarde

yemen-foto-unicef

Yemen. Foto Unicef.

Hoje é o dia do Senhor. E não fui à missa. Mas não sou má pessoa. Não sei como reparar? Talvez um artigo integralmente lusófono, com um anúncio da Unicef Brasil, uma canção dos Titãs e um poema de Miguel Torga. Hoje não é o dia do Senhor; hoje é o dia do Menino.

Anunciante: Unicef Brasil. Título: Antes que seja tarde. Agência: Isobar. Brasil, Janeiro 2017.

Titãs. Epitáfio. Álbum: A melhor banda de todos os tempos da última semana. 2001.

AVISO

Um Deus que me queira, um dia,
Depois desta penitência
De viver,
Se me não der a inocência
Que perdi,
Terá o desgosto de ver
Que de novo lhe fugi.

Quero voltar a criança,
À meninice dos ninhos.
Quero andar pelos caminhos
Com olhos de confiança,
A quebrar a minha lança
Nos moinhos…

Miguel Torga, Diário VI, 1952.

Azul, rosa e âmbar. Paleta simbólica.

significado-das-cores

Significado das cores.

O mundo veste azul e rosa. Às vezes, azul sobre rosa, como a menina com o smartphone. Uma pincelada dissonante na geometria das cores. A Cinderela do smartphone é uma mulher vestida de azul. Personalidade? Segunda pincelada dissonante. Azul costuma ser associado por psicólogos e decoradores à serenidade, à harmonia e à maturidade: e, pelo comum dos mortais, ao sexo masculino. O rosa respira desejo, ternura e ingenuidade. Corresponde ao sexo feminino. Azul mais rosa dá roxo, todo espiritualidade, magia e mistério. A mistura das três cores não basta para produzir o branco, cor da paz, da harmonia e da pureza. Quando uma pessoa não tem que dizer, escreve com o cérebro em velocidade de cruzeiro. Devia limitar-se a ver o anúncio brasileiro Azul, da Samsung (vídeo 1). Mas caso insista na incontinência colorida, o melhor é mudar de tom, para um azul aveludado, e, sobretudo, de cor, de rosa para âmbar (vídeo 2).

Marca: Samsung S7 Edge. Título: Azul. Agência: Leo Burnett Tailor Made. Direcção: Carol Markowicz. Brasil, Janeiro 2007.

Mysteries of Love. Música por Angelo Badalamenti. Com Kid Moxie. Blue Velvet (1986), por David Lynch.

Eclipse. Cat Stevens

catstevens

yusuf Islam (Cat Stevens).

Tesourinhos deprimentes quem os não tem?
Não são caviar, mas sabem bem (AG).

Ocasionalmente apetece um retiro. Existem várias possibilidades de alheamento. Por exemplo, dar cinco passos rumo à prateleira dos discos de vinil. Escolho um. Às vezes, justifica partilha. Procuro, na Internet, um endereço com bom som e boa imagem. Não é fácil. Para uma única música, consulto, sem auscultadores, acima de uma dezena de páginas, algumas com direito a repetição. Esta é a fase que a família detesta: ouvir, sem descanso, a mesma tesourinho deprimente. Com o Cat Stevens (o Álvaro Domingues chamava-lhe Gato Esteves) foi quase assim. O massacre doméstico foi, porém, maior. Na verdade, andava à cata do Rick Wakeman, de uma das Six Wives of Henry VIII (1973) que fosse agradável ao ouvido. Deparo-me com um vídeo estranho: Cat Stevens acompanhado ao piano por Rick Wakeman a interpretar Morning has broken (1971), uma canção de grata memória. Pelos vistos, o arranjo de piano da canção foi composto por Rick Wakeman. Justifica-se, portanto, o duo. Cat Stevens é bastante homogéneo quanto à qualidade das canções. Destacam-se, no entanto, para além de Morning has broken, Father and Son (1970) e Wild World (1970). Surpreendeu-me o facto de Yusuf / Cat Stevens ainda dar, com 68 anos, concertos, sem desmerecer os dos anos setenta. Convertido ao islamismo, abandona a música pop em 1978. Regressa em 2006, com o álbum An Other Cup. Um longo eclipse.

Rick Wakeman & Cat Stevens (Yusuf Islam). Morning has broken.

Yusuf Islam (Cat Stevens) – Father and Son (TV Bayern 3, Munich, Germany 2009).

Cat Stevens – Wild World (BBC 1970).

Sem remorsos

edith-piafEdith Piaf enternece e emociona; a mulher e a cantora. Seguem três « canções do século XX »: Non, je ne regrette rien (1960) ; La vie en rose (1946); e Milord (1959). Optei pela gravação ao vivo. Acrescentei a letra da canção Non, je ne regrette rien. Vale a pena.

 

Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
C’est payé, balayé, oublié, je me fous du passé

Avec mes souvenirs j’ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n’ai plus besoin d’eux
Balayé les amours avec leurs trémolos
Balayé pour toujours
Je repars à zéro

Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Ni le bien qu’on m’a fait, ni le mal
Tout ça m’est bien égal
Non, rien de rien, non, je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies
Aujourd’hui ça commence avec toi.

Aleluia

jeff-buckleyNeste tempo em que todos comunicam tudo com todos, o melhor que se pode dar a uma pessoa é atenção.

Jeff Buckley. Hallelujah. Grace. 1994.

O dia das coisas boas

Janis Joplin

Janis Joplin

Ouvi dizer que hoje é o Dia Internacional das Coisas Boas. The International Day of Good Things – IDGT! Lembrei-me de partilhar tangerinas ou grelos. Andam muito bons. Ou uma cerveja, é sempre uma coisa boa. Mas parece que não dá para partilhar tangerinas, grelos e cerveja na Internet. Partilho, por isso, um vídeo musical: Janis Joplin canta Ball and Chain em Monterey no ano de 1967.

Janis Joplin. Ball and Chain. Monterey. 1967.

Hieronymus Bosch Death Metal

hieronymus-bosch-tentacoes-de-santo-antao-1502-museu-nacional-de-arte-antiga-lisboa

Hieronymus Bosch. As Tentações de Santo Antão. 1502. Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa.

Os trípticos As Tentações de Santo Antão (c. 1500) e O Jardim das Delícias (c. 1503-1504), de Hieronymus Bosch, constam entre as pinturas mais marcantes da história da arte. Um delírio hipnótico, enigmático e inquietante. Entre os prazeres da vida e as penas da morte, prevalecem o desejo e o pecado. Os trípticos inspiraram várias animações, algumas particularmente sinistras, como, por exemplo, o vídeo musical Spokes for the Wheel of Torment, da banda de death metal Buckethead. Seguem imagens (carregar para aumentar) dos dois trípticos de Hieronymus Bosch e o vídeo musical dos Buckethead.

hieronymus-bosch-jardim-das-delicias-terrenas-museu-do-prado-1503-1504

Hieronymus Bosch. Jardim das Delícias Terrenas. 1503-1504. Museu do Prado. Madrid.

Buckethead. Spokes for the Wheel of Torment. Direcção Syd Garon & Eric Henry. 2010.

Vibrações


Henry Purcell. Musica Per Il Funerale Della Regina Maria, Processione.

henry-purcell

Henry Purcell (1659-1695).

Que lembra esta música? Um trailer do Assassin’s Creed? O filme A Laranja Mecânica? A canção Iron, do Woodkid? A “Musica Per Il Funerale Della Regina Maria, Processione”, de Henry Purcell, é um expoente da música barroca. Permanece viva. A pergunta está mal formulada. Purcell não lembra Woodkid ou A Laranja Mecânica. Woodkid é que pode lembrar Purcell. Não são semelhantes, mas nada impede duas diferenças de se lembrar uma à outra. Devia ter invertido as posições: perguntar o que é que o Iron do Woodkid lembra? Talvez ocorra a alguém Henry Purcell e a Musica Per il Funerale Della Regina Maria.

Assim gira o mundo! Acanhado. De tão “comprimido”, o tempo parece anorexo. Encolhe-se no presente sem grande sobra para o passado. Qual é o lugar da memória? A memória comemora-se. No e para o presente, com ou sem funeral. Mais ou menos como um fato domingueiro pendurado num armário.

Woodkid. Iron. 2013.