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Exorcismos

O mal só pode ser vencido por outro mal (Sartre, Jean Paul, Les Mouches, 1943)

  1. A Fuga dos demónios

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

01. Cristo exorciza um jovem possuído por um demónio. Très Riches Heures du Duc de Berry, Séc. XV

Há muitos anos, fiz uma comunicação sobre São Bento no Mosteiro de Tibães. São Bento é um santo milagreiro mas rigoroso. Segundo a crença popular, antes de se fazer uma promessa a São Bento, importa pensar duas vezes. Promessa a São Bento é para cumprir. A par de São Bartolomeu, Santo Antão ou São Francisco, São Bento é um dos grandes santos exorcistas, dos mais temidos pelo diabo. Desafiado pelo diabo várias vezes em vida, São Bento não é meigo com os endemoninhados. Empunha a cruz e arreia-lhes umas pauladas (figura 2) ou umas bofetadas (figura 3). Não há demónio que resista. A assistência, de provecta idade, ouviu, ponderou e deu um desconto.

02 Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído. Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

02. Spinello Aretino, São Bento liberta um monge possuído pelo demónio (à direita). Sacristia da Basílica San Miniato al Monte. Florença. 1387

No imaginário medieval, os demónios são expulsos pela boca, lembrando morcegos e répteis voadores envoltos em fumaça. A este nível, não se verifica diferença maior, salvo um ou outro detalhe, entre os exorcismos de Jesus Cristo (figuras 1 e 5) e os dos santos (figuras 2 e 6). As bruxas, seres próximos do diabo, destacam-se na primeira fila dos possessos.

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

03. Sébastien Leclerc. São Bento cura com uma bofetada um religioso possuído pelo demónio, 1637-1714

À semelhança de São Bartolomeu, mas mil anos depois, São Francisco retoma a figura do exorcismo colectivo. Ao entrar numa cidade, afugentava todos os demónios (figura 4).

 

Não são apenas os demónios que saem pela boca. A fazer fé nas gravuras das Ars Moriendi, no momento do último suspiro, a alma liberta-se do corpo pela boca. Nas figuras 9 e 10, a alma de um moribundo é acolhida, sob a forma de uma criança, ora por um anjo, o Anjo da Morte, ora por um demónio.

 

Pela boca quase tudo entra e pela boca nunca se sabe o que pode sair. Alguma razão tinha François Rabelais ao sugerir que a boca é o órgão cósmico por excelência. A boca é um local de passagem entre vários mundos, sagrados e profanos. Nunca se sabe o que escondem as goelas de Grandgosier, Gargantua ou Pantagruel.

2. Esqueletos vampiros

O mal não tem fim. Resiste e ressurge. Como o Drácula e os mortos vivos. Para o mal, a morte não é obstáculo incontornável, não é, como se diz, sono eterno. Receosas e vulneráveis, as comunidades humanas previnem-se. No pesadelo medieval, a morte não não é irreversível. O morto pode regressar do além para molestar os vivs. Importa proteger-se.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII.

09. Esqueleto de mulher enterrada com foice na garganta. Polónia, secs XVII e XVIII

Neste quadro mental, há cadáveres que, pela sua vidas terrena, são ameaças mesmo após a morte. Na Polónia, na Bulgária, na Irlanda e na Itália, foram descobertos túmulos medievais e pós-medievais com esqueletos de corpos brutalizados: pedras e tijolos enfiados na boca e na garganta, cabeça deslocada entre as pernas, corpos cravados com estacas, imobilizados com forquilhas… São “esqueletos de vampiros”. Pertencem a cadáveres de presumíveis vampiros (undead, em inglês, ou revenants, em francês). Para maior imunidade, impunha-se evitar a saída do túmulo e o regresso aos vivos.

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

10. Esqueleto de vampiro com uma pedra na boca. Kamien Pomorski. Polónia. Séc XVI

Em Drawsko, na Polónia, num cemitério datado dos séculos XVII e XVIII, foram encontrados, no meio de 285 sepulturas, seis esqueletos de vampiros:

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

11. Mulher vampiro com pedra colocada na garganta. Drawsko. Polónia. Séc XVII e XVIII

“Destes seis indivíduos, cinco foram enterrados com uma foice colocada à volta da garganta ou do abdómen, destinada a cortar a cabeça ou abrir o intestino caso tentassem sair do túmulo (…). Dois indivíduos também tinham pedras grandes posicionadas sob o queixo, provavelmente como uma medida preventiva para evitar que o indivíduo mordesse outros (…) ou para bloquear a garganta de modo a que o indivíduo não pudesse alimentar-se dos vivos (…). Curiosamente, essas sepulturas não se encontram segregadas no cemitério, foram colocadas no meio das sepulturas não-desviantes” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

Os vampiros do cemitério de Drawsko não apresentam diferenças significativas quanto à idade e ao sexo, e provêm da comunidade local. A hipótese de serem vítimas de epidemias de cólera não encontra fundamentação empírica suficiente. Mas, para além das vítimas da cólera, existem outras categorias pessoas candidatas a vampiros.

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

12. Caveira de uma mulher vampiro com pedra na boca. Itália. Séc XVI

“Um texto alemão de 1898, “Zeitschrift des Vereins fur Volkskunde”, descreve as antigas crenças na região segundo as quais os vampiros podiam manifestar-se como seres malévolos, vítimas de suicídios, bruxas ou possessos. Segundo a “Mythologie du Vampire en Roumanie” de Adrein Cremene, entre os romanis, qualquer pessoa sem um dedo, com um apêndice semelhante ao de um animal ou uma aparência horrível, era encarado como “alguém que está morto”, enquanto que na Rússia quem falasse sozinho, consigo próprio, era suspeito de possuir a natureza de um vampiro (Pirate Vampire Dug Up in Bulgaria; http://www.smithsonianmag.com/smart-news/pirate-vampire-dug-up-in-bulgaria-131708166/).

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi decepada e colocada ntre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

13. Sepultura de vampiro. A cabeça foi separada e colocada entre as pernas. Gliwice. Polónia. Sec XVI

No cemitério de Drawsko, foram desenterradas três sepulturas com medalhas. Duas de S. Bento, com a respectiva cruz. O exorcismo e a protecção contra o mal prosseguem após a morte, no outro mundo. Em 116 sepulturas, mais de um terço (36%) do total de sepulturas escavadas, descobriram-se moedas passíveis de funcionar, na outra vida, como amuletos contra o mal:

“As moedas (…) representam uma importante apotropaia colocada junto aos mortos, e foram concebidas ​​para proteger o corpo de espíritos malignos (…). Às vezes, eram simplesmente colocadas sobre ou perto do corpo, mas muitas dessas moedas foram colocadas sob a língua, não só para evitar que um espírito malicioso entre no corpo através da boca, mas também para proporcionar aos mortos-vivos algo para morder de modo a dissuadi-los de se alimentar dos vivos” (Gregoricka LA, Betsinger TK, Scott AB, Polcyn M (2014) Apotropaic Practices and the Undead: A Biogeochemical Assessment of Deviant Burials in Post-Medieval Poland. PLoS ONE 9(11): e113564. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0113564).

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Sec XIII

14. Suposto vampiro com uma estaca cravada no coração. Bulgária. Séc XIII

A potência atribuída ao mal sobrenatural é de tal índole que todo o exorcismo é pouco. Corre-se, apenas, o risco de combater o mal com uma maldade ainda maior. É desolador, mas humano. E “nada do que é humano nos é estranho” (Terêncio).

Para mais informação, sugiro o documentário da National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002: https://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_Ihttps://www.youtube.com/watch?v=H425yBlkm_I.

National Geographic Documentaries. Vampire Skeletons Mystery. 2002

O vídeo musical Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin fecha o artigo com chave sinistra.

Come to Daddy (1997), realizado por Chris Cunningham para os Aphex Twin.

O novo Sísifo

Carlsberg Everest

Um humor amoral, sem prólogo, epílogo, catarse, ou expiação, alicerçado numa minudência cósmica, é, no meu preconceito, humor das gentes do norte. Um humor destilado, como o whisky ou a cerveja. É um humor fino e espirituoso, sem anjos nem bestas, nos antípodas do riso farto e rasteiro. Temos humor e cerveja, falta a música. Há tantas músicas nórdicas! Opto por dois excertos da Suite Peer Gynt (1875), do compositor norueguês Edvard Grieg: Amanhecer (parte I) e Na Gruta do Rei da Montanha (parte IV).

Tenho o vício de colar adjacências ao tema principal, neste caso ao anúncio. Às vezes, acabam por ser as mais relevantes. É o caso presente.

Marca: Carlsberg. Título: Everest. Agência: Fold7 Creative. Estados Unidos, 2011.

Edvard Grieg. Amanhecer. Peer Gynt. Orkiestra Filharmonii Narodowej.

Edvard Grieg. Na Gruta do Rei da Montanha. Peer Gynt. Berliner Philharmoniker. 2010.

O melhor tempero

Nandos_logo.svgEsta estância balnear tão recatada encheu-se de centenas de jovens vestidos de preto! Ouvem-se as carpideiras electrónicas. Apetece-me despistar.
A cadeia Nando’s, com cerca de 30 000 restaurantes em 35 países, tem ADN português: o engenheiro de som Fernando Duarte foi fundador. O símbolo, o galo de Barcelos, não engana! A Nando’s aposta em anúncios burlescos, se não brejeiros. Quinze anos separam os anúncios Toilet Roll (1996) e Last Dictator Standing (2011). Em 2010, a Advertising Age colocou a Nando’s no top 30 mundial das hottest marketing brands. Mereciam o top 10 se a música fosse portuguesa. O anúncio Last Dictator Standing ganhava com a companhia do Quim Barreiros e do Bacalhau à Portuguesa. É “melhor tempero”.

Marca: Nando’s. Título: Toilet Roll. Agência: TBWA. África do Sul, 1996

Marca: Nando’s. Título: Last Dictator Standing. Agência: Black River FC  Johannesburg. Direcção: Dean Blumberg. África do Sul, 2011

Quim Barreiros. Bacalhau à portuguesa. Ao vivo em Setúbal

Novo, agora, mais e melhor

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A publicidade a produtos de beleza exorbitou. Só overpromises. C’est extra! New, now, more. Sucesso sem agenda nem narrativas. Técnica salvífica. A pedra filosofal do orgasmo instantâneo em massa. Um manto de ilusão. “É demais”! Pois, a Avon parte em combate contra estes unicórnios pós-modernos. Em nome de valores como a fiabilidade, a honestidade e a verdade. Valores modernos? Será este anúncio da Avon um caso particular do geral? O regresso da modernidade? Ou apenas uma corrente de ar? Uma posição pela oposição.

O que é que tem, afinal, publicidade “pós-moderna”? Qual é o charme? Vale a pena ouvir a canção “Ela é demais”, de Rick & Renner.

Marca: Avon. Título: Overpromises.  Agência: Santo Buenos Aires. Argentina, Maio 2017.

Rick & Renner. Ela é demais. Mil vezes cantarei. 1998.

Entre gerações

paolo-conteConheces Paolo Conte? Um cantor italiano. Deve rondar os oitenta anos. Tu e eu não somos da mesma geração. A diferença que a idade faz! Tenho os bolsos cheios de anos e tu, cheios de vida. Tu não conheces o que eu conheço e eu não conheço o que tu conheces. E a sociologia continua a subestimar o efeito das gerações.

Paolo Conte é um cantor jazz inconfundível. Não é o Seal, nem o Pedro Abrunhosa, creio, contudo, que és capaz de gostar. Mais ou menos folhas mortas, as gerações comunicam e aprendem umas com as outras.

Via Con Me é uma canção de Paolo Conte de 1981. O vídeo resulta de uma montagem de sequências de três filmes com Fred Astaire e Ginger Rogers. Sparring Partner é uma canção de 1993. Via Com Me é a canção mais célebre de Paolo Conte. Não obstante, prefiro a segunda, de que contemplo duas versões: uma interpretada ao vivo na Arena di Verona, em 2005, a outra, uma gravação de estúdio, de 1993. São diferentes. O piano não engana.

Paolo Conte. Via Con Me. Álbum Paris Milonga. 1981.

Paolo Conte: Sparring Partner. Álbum Tournée. 1993. Ao vivo na Arena di Verona. 2005.

Paolo Conte: Sparring Partner. Álbum Tournée. 1993.

Liberdade e diversidade

Free-AF-video-Canadian-Centre-of-Diversity-and-Inclusion

Um vídeo divertido que não falha o alvo. Para ver e, eventualmente, rever.

“This is a fun way to talk about a serious subject,” “We enjoyed doing this video because it reflects us. We took the opportunity to celebrate our peoples’ differences, their beauty and contributions” (Michael Bach, Founder and CEO at Canadian Centre for Diversity and Inclusion: http://ccdi.ca/wp-content/uploads/2017/06/20170629-CCDI-Newsletter-July-2017-EN.pdf).

Marca: Canadian Center of Diversity and Inclusion. Título: Free AF. Agência: Rethink. Direcção: David Gaudet. Canadá, Junho 2017.

A ti que deixaste de estar onde te encontrei

The Cinematic Orchestra. Lilac Wine.

Gosto de grotescos: linhas e figuras que se entrelaçam em caprichoso movimento e perpétua metamorfose. São fantásticos os grotescos do Vaticano, de Florença, de Pompeia ou da Domus Aura em Roma. Continuamos a produzir grotescos. Por exemplo, na publicidade e nos vídeos musicais. Lembro os U2 (Original of the Species) ou os Gnarls Barkley (Crazy). Gosto de Lilac Wine (na voz de Nina Simone, Jeff Buckley, Katie Melua, Jeff Beck…). Gosto, também, dos The Cinematic OrchestraAconselho a definição 720p.

The Cinematic Orchestra. Lilac Wine. Various artists. 50 years of Dr. Martens. 2010.

Despasmar o prazer

Dune. Elements. 2017.

Estética orquestral num anúncio da Dior votado à sedução. Sem parasitar atributos alheios. “Je suis comme je suis, je plais à qui je plais” (Jacques Prévert). What else? A dança do corpo nas cordas de um violoncelo; o âmbar de um tempo humano e divino. Entre dois mundos, o cósmico e o feminino, e quatro elementos: o vento, a areia, o fogo, a água. E um perfume: Dune.

“A woman embodies the dune, created in the low chamber of an hourglass. After breaking free, she is able to control the Elements. This piece is a dreamlike journey from the sands of the dune to the waters of the ocean”.

Marca: Dior Dune. Título: Elements. Agência: Art Center College of Design. Direcção: Ignacio Sepúlveda. Estados Unidos, Junho 2017.

Houve tempos em que me revia no poema de Jacques Prévert. Hoje, infelizmente, só com um capacete de realidade aumentada. Seguem o anúncio Elements, da Dior, e o poema Je Suis Comme Je Suis, de Jacques Prévert, em francês e em português (tradução de Priscila Junglos). Não resisto a intercalar um vídeo musical com uma versão heavy Metal do poema de Prévert, pela banda Spike. O poema Je suis comme je suis foi interpretado, entre outros, por Juliette Greco (1952) e Wende Snigder (2004). Opto pela banda francesa de Salles-Sur-Hers (Carcassonne ):  o guitarrista é empregado municipal e bombeiro; o baixo, marceneiro; o bateria, “encarregado de negócios”. A música destoa da volúpia reinante, mas nada como uma dissonância para despasmar o prazer. Em vésperas de aniversário, acodem-me as originalidades da existência. O resto são inércias e formulários biográficos. Gosto de uma vertente da globalização. Não tanto a internacionalização, até um tomate bem calibrado se internacionaliza, mas o acesso ao local: a um lugar recôndito, com 695 residentes, e a uma banda de música, com 19 409 visualizações no You Tube. Como não a encaro como uma plataforma para alpinistas de rankings, a Internet agrada-me.

Spike. Je suis comme je suis. (J. Prévert / Spike). 2016.

Jacques Prévert. Je Suis Comme Je Suis. Paroles. 1946.

Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Quand j’ai envie de rire
Oui je ris aux éclats
J’aime celui qui m’aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n’est pas le même
Que j’aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
Je suis faite pour plaire
Et n’y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu’est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m’est arrivé
Oui j’ai aimé quelqu’un
Oui quelqu’un m’a aimé
Comme les enfants qui s’aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer…
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n’y puis rien changer.

Jacques Prévert: Eu sou como eu sou

Eu sou como eu sou
Eu sou feita assim
Quando eu tenho voltade de rir
Sim, eu gargalho
Eu gosto de quem me gosta
Lá isso é culpa minha
Se não é o mesmo
Que eu gosto a cada vez
Eu sou como eu sou
Eu sou feita assim
O quê você quer além disso
O quê você quer de mim
Eu sou feita para agradar
E nada nisso posso mudar
Meus saltos são muito altos
Minha silhueta muito empinada
Meus seios são duros demais
E em meus olhos muitas olheiras
E depois, e daí
O quê isto tem a ver com você
Eu sou como eu sou
Eu agrado a quem eu agrado
O quê isto tem a ver com você
O quê aconteceu comigo
Sim, eu amei alguém
Sim, alguém me amou
Como as crianças que se amam
Simplesmente sabem amar
Amar amar…
Por que me questionar
Eu estou aqui para lhe agradar
E nada nisso posso mudar.

(Tradução de Priscila Junglos: http://triunfecomofrances.blogspot.pt/2012/11/je-suis-comme-je-suis-de-jacques-prevert.html).

Smartphone

Só a música pode falar da morte (André Malraux, [1933] (1946), La condition humaine, Paris, Gallimard, p. 334)

O mundo é um espanto. No anúncio Relove, da Telefónica, a técnica salva-nos da própria técnica! Já tinha saudades destas dialécticas! Um casal, que o smartphone desencontra, reencontra-se graças ao smartphone. Live more love!

Existem objectos que são, simultaneamente, pessoais e civilizacionais. Alguns dignos de acompanhar o morto no outro mundo. Por exemplo, o relógio ou a aliança. Acrescento o smartphone. O relógio para não se atrasar na travessia, o anel para amar eternamente, e o smartphone para ouvir, no silêncio escuro, Fernando Pessoa e Maria Bethânia.

Marca: Telefónica. Título: Relove. Agência: África, São Paulo. Direcção: Vellas. Brasil, Junho 2017.

Maria Bethânia. Sonho Impossível. Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo. 1975. Poema de Fernando Pessoa.

Vitalismo

Vulnerável e vital! Como um animal ou uma planta. Como um ser humano.

Oh LauraO anúncio Release Me, da Saab, é, ao mesmo tempo, um eco da vulnerabilidade oprimida e uma ode à libertação. Teve o mérito de lançar a banda sueca Oh Laura, de que acrescento duas músicas: Release Me, do anúncio da Saab, e Raining in New York, ambas do álbum A Song Inside My Head (2007).

Vulnerável e vital, como uma gota de água. A curta-metragem Voyage dans l’arbre, do parque de plantas Terra Botanica (Angers, França), é um exímio trabalho a que nos habituou a agência Mac Guff Paris.

Anunciante: Saab. Título: Release Me. Agência: Lowe Brindfors, Sweden. Suécia, Junho 2007. Música: Oh Laura.

Oh Laura. Release Me. A song Inside My Head, a Demon in My Bed. 2007.

Oh Laura. Raining in New York. A Song Inside My Head, A Demon in My Bed. 2007.

Terra Botanica. Produção: Tvcible. Agência: TBWA Paris. Directores: Thomas Szabo e Helene Guiraud. Pós-produção: Mac Guff. França, 2010.