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Havemos de ir a Melgaço

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Parafraseando Pedro Homem de Mello:

Se o meu sangue não se engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Melgaço (Viana)
ó meu amor de algum dia.

Páscoa

Artur Bual. Cristo. 1991

Artur Bual. Cristo. 1991

Admiro, como Miguel de Unanumo, os “homens mais carregados de sabedoria do que de ciência”.

“Certo pedante, vendo Sólon chorar a morte de um filho, disse-lhe: “Para que choras dessa maneira, se isso de nada serve?” E o sábio respondeu-lhe: “Precisamente porque para nada serve.” (…) O que de mais sagrado existe num templo é o facto de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere, cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino, vale tanto como uma filosofia. Não basta curar a peste, há que saber chorá-la! Sim, importa saber chorá-la! E esta é, talvez, a suprema sabedoria.” (Unanumo, Miguel,1913, Do sentimento trágico da vida, Lisboa, Relógio d’água, 2007,p. 22).

Páscoa, paixão, sacrifício, expiação e redenção. Ocorre-me Lisa Gerrard.

Lisa Gerrard & Pieter Burke. Sacrifice. Duality. 1998.

Três dedos abaixo de cão

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tavern scene. Meb drinking, with a cellarer below. Late 14th century

Tive um blogue chamado Marginália. Retomo parte do artigo Bestialidade (http://dobras.blogspot.pt/2010/08/bestial.html).

O grotesco não está de volta. Ele nunca nos deixou. Mas está no vento! Tal como “o feio, o porco e o mau”. Afirmar que ultrapassa os limites não passa de um pleonasmo. O grotesco está sempre a ultrapassar limites. Essa é a sua sina. Mas, por vezes, surpreende. Pela pujança e pelo insólito. É o caso do anúncio “slow motion” da Carlton Draught.

Marca: Carlton Draught. Título: Slow Motion. Agência: Clemenger BBDO. Direcção: Paul Middleditch. Austrália, Agosto 2010.

Não deixa de ser tentador, mas infundado, entrever neste anúncio alguma intertextualidade perversa, uma espécie de paródia do grotesco “hiper-realista” e degradante de algumas campanhas anti álcool, anti tabaco, anti obesidade e anti coiso.  Atente-se, por exemplo, nos seguintes anúncios provenientes de campanhas anti álcool.

Anunciante: Binge Drinking Awareness. Titulo: Anti Binge Drinking NHS. Agência: Atticus Finch. Direcção: Chris Richmond. Reino Unido, Julho 2010.

Anunciante: Vinbúdin. Título: Don’t be a pig. Agência: Ennemm. Direcção: Sammuel & Gunner. Islândia. Maio 2008.

É provável que os promotores destes anúncios tenham razão. Mas ter razão não é o mesmo que ter a razão, e muito menos ser capaz de fazer bom uso dela. Afigura-se-me que uma campanha de sensibilização comunitária não pode dispensar o respeito pelo outro, seja este vítima ou infractor. Certos (ab)usos da razão despertam, de algum modo, velhos fantasmas, tais como as purgas dos totalitarismos do séc. XX ou os desmandos das Guerras da Religião dos séculos XVI e XVII, ambos propensos a conceber o outro como um animal ou um mostrengo. Mas há quem tendo (a) razão também a sabe utilizar, a preceito, com criatividade e bom gosto. É o caso do seguinte anúncio português premiado em Cannes.

Anunciante: Fundação Portuguesa de Cardiologia. Título: Balão. Agência: Ammirati Puris Limpas. Portugal, Julho1999

Internacionalização

António. Cartoon

António. Cartoon.

O perfil das consultas do Tendências do Imaginário sofreu uma alteração significativa: as visualizações provenientes dos Estados Unidos superam as portuguesas, que rondam os 17.5%. Atendo-se ao Brasil, aos Estados Unidos e a Portugal, o gráfico ilustra esta “nova ordem”. O blogue nunca foi tão “internacionalizado” nem teve tanta afluência como nas últimas semanas. Não é motivo para júbilo? Confesso alguma amargura. O blogue foi concebido para um público português. Nunca imaginei que 36,6% e 29,0% das visitas proviriam do Brasil e dos Estados Unidos. Os portugueses andam, decerto, muito ocupados a internacionalizar-se. É o novo fado da pátria.

Visualizações do Tendências do Imaginário-Brasil, Estados Unidos e Portugal

Uma caricatura do Infante D. Henrique abre o artigo; uma música do séc. XVI dedicada a D. Sebastião fecha-o. Entre ambas, deve esconder-se o V Império.

Puestos estan frente a frente. Circa 1500. O Lusitano. 1992.

Da importância dos fósforos

BrunuhVille

BrunuhVille

Conhece BrunuhVille? Não é uma cidade. É o pseudónimo de Bruno Miguel Correia José, compositor nascido em Coimbra em 1989. Na área do New Age Instrumental, BrunuhVille é uma grande estrela do YouTube, com vários Cd editados: The Eternal Forest (2011); Anima (2012); Tales of Lost Kingdom (2012); Aura (2013); Aurora (2014); Rebirth (2014); Northwind (2015); e Age of Wonders (2016). Foi o meu rapaz mais novo que me falou deste compositor. Os filhos servem para educar os pais. Entre tantas músicas, escolhi Emotional Dark Music, do cd The Eternal Forest. Tem mais de 6,6 milhões de visualizações no YouTube! As outras músicas que consultei ultrapassam todas os 2 milhões de consultas. Os portugueses brilham no estrangeiro. Em Portugal, há falta de fósforos.

BrunuhVille. Emotional Dark Music. The Eternal Forest. 2011.

Música sobre a emigração

Fotografia rasgada. Metade ficava em Portugal, a outra regressaria mais tarde

Fotografia rasgada. Metade ficava em Portugal, a outra regressaria mais tarde.

Sem eira, nem beira
Sem Pátria onde albergar
Estrangeiro em terra alheia
Estranho no meu lugar
(Letra de uma canção sobre a emigração).

Um grupo de alunos propôs-se fazer um vídeo sobre a emigração. Felicito-os pela ideia e pela vontade. Quatro músicas sobre a emigração são incontornáveis: Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia; Eles (1968), de Manuel Freire; Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira; e O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.

Tema do filme O Salto (1967), de Luís Cilia.

Eles (1968), de Manuel Freire.

Cantar de Emigração (1971), de Adriano Correia de Oliveira.

O Emigrante (1977), do Conjunto Maria Albertina.

 

O Carnaval de Antuérpia no século XVII

Erasmus de Bie retratou, em 1670, o Carnaval de Antuérpia. Não fica atrás do Rio ou de Nice. Ontem, como hoje, as pessoas deleitam-se com as artes efémeras. Tempos barrocos.

Tenho descendência a viver em Antuérpia. Nunca o imaginei! Mas a desigualdade entre sociedades quanto ao valor que conseguem atribuir aos seus membros é decisiva. No meu País, a balança pende para o lado de fora. Lembra um montado: plantam-se sobreiros para exportar rolhas. Um corpo exangue com uma sanguessuga na cabeça.

Erasmus de Bie. Carnival Floats on the Meir Square in Antwerp. 1670

Erasmus de Bie. Carnival Floats on the Meir Square in Antwerp. 1670

Portugal entornado

Dedico este artigo, exceptuando os cemitérios, aos habitantes de Antuérpia.

Cemitério Monumental de Staglieno, em Génova. 1851

1. Cemitério Monumental de Staglieno, em Génova. 1851.

O vídeo musical Les Oxalis (vídeo 1), de Charlotte Gainsbourg, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, teve a virtude de me despertar. Tanta sepultura e tanta escultura mortuária lembram-me o livro sobre a arte na morte, a minha obra de Santa Engrácia. Falta um artigo dedicado às esculturas veladas. Artigo prescindível mas que elegi para fecho do livro. Intitulado Velai por Nós, despede-se com imagens de esculturas veladas patentes em vários cemitérios europeus: Montjuic, em Barcelona; Père Lachaise e Monmartre, em Paris; Monumental, em Milão; Monumental de Staglieno, em Génova; ou o Central de Viena. Só em alguns deste cemitérios me foi dado ver esculturas, extremamente raras, com a imagem da própria morte velada (ver imagens 1 e 2). Tenho tido muito que fazer. E quando tenho muito que fazer, não faço nada! Vou começando aos poucos como se quase nada tivesse para fazer. Cada um tem a sua pancada.

Escultura da famiíia Nicolau-Juncosa no cemitério de Montjuic, em Barcelona.

2. Escultura da famiíia Nicolau-Juncosa no cemitério de Montjuic, em Barcelona. Detalhe.

Regressemos à Charlotte. Actriz e cantora célebre, trabalhou com o realizador Lars von Trier e com o grupo Air. O vídeo musical Rest (vídeo 2) corresponde a um single produzido e co-escrito por Guy-Manuel de Homem-Christo, do duo francês de música electrónica Daft Punk. Pressente-se pelo nome que o Guy Manuel é de origem portuguesa (prefiro a lusodescendente, que me lembra água). O bisavô, Homem Cristo Filho (1892-1928), foi um intelectual, jornalista e escritor português que se exilou em Itália, onde foi partidário de Mussolini.  Estranhamente, há países que deixam sair os jovens talentos e amesquinham aqueles que ficam.

  1. Charlotte Gainsbourg. Les Oxalis. Rest. 2017.

2. Charlotte Gainsbourg. Rest. Rest. 2017.

 

Feliz Natal!

Marca: Indie Junior. Título: Horse. Agência: Leo Burnett (Lisboa). Direcção: Telmo Vicente. Portugal, 2014.

Racismos

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

Jean-Michel Basquiat, Dustheads, 1982

“Somos sempre o estranho de alguém. Aprender a viver em conjunto, eis o que é lutar contra o racismo” (Jelloun, Tahar Ben, 1998, Le racisme expliqué à ma fille, Paris, Éditions du Seuil).

O anúncio português O mundo está cheio de pessoas assim, de Festival Política, não condiz com a quadra. O que vale é que a quadra natalícia não é nenhum espanador de ideias.

O racismo contamina a relação com o outro. E, dialogicamente, a relação consigo mesmo. O racismo é uma poluição humana. Caricaturar o outro, rebaixá-lo, estigmatizá-lo e reduzi-lo a um exemplar não se me afigura anti-racismo. Antes pelo contrário. O racismo é uma falácia, uma entorse do espírito, a que ninguém é imune. Todos somos vulneráveis. É avassaladora a tentação de embalsamar o outro com os nossos medos e as nossas certezas. O racista está convencido que escreve direito por linhas tortas. Ousemos escrever torto por linhas direitas.

Marca: Festival Política. Título: O mundo está cheio de pessoas assim. Agência: 004. Direcção: Gonçalo Franco. Portugal, Abril 2017.