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Depois do fim

Legends of the Fall

Pensei colocar uma música do Rachmaninov. Passei algum tempo a decidir a obra: concerto No.2 in C minor, op.18 [Adagio sostenuto]. Passei ainda mais tempo a escolher a interpretação: Hélène Grimaud (piano), Claudio Abbado (direcção). Tive um pressentimento: já coloquei Rachmaninov no Tendências do Imaginário? Em 31 de Agosto de 2019: a mesma música e a mesma interpretação. Uma perda de tempo? Não, aprendi que sou previsível.

Hoje, tomei banho em mel. Só histórias de amor! Daquelas que terminam mas continuam. Por exemplo, o filme Love Story (Oscar em 1970). Cinquenta anos depois, ainda me comove. Segue o trailer do filme. Francis Lai, o autor, compôs cerca de sessenta músicas de filmes, tais como Un Homme et Une Femme (1966), Emmanuelle (1975) e Bilitis (1977).

Francis Lai lembra-me James Hormer, compositor de uma centena de músicas de filmes, tais como  An American Tail (1986), Field of Dreams (1989), Glory (1989), Braveheart (1995) e Titanic (1997). Acrescento a música do filme Legends of the Fall (1995).

Francis Lai. Love Story. 1970.
James Horner. Legends of the Fall – The Ludlows. 1995.

Dar é criar

Para Deus Todo-Poderoso, o que conta não é quanto damos, mas quanto amor colocamos na dádiva (Madre Teresa).

O amor faz-nos descobrir capacidades desconhecidas, faz-nos ir muito além de nós para nos aproximarmos dos outros, daqueles de quem gostamos e de quem cuidamos. Assim rezam os dois anúncios da Teva: um homem de idade descobre o talento de cabeleireiro ao pentear a mulher doente; uma filha aprende a dançar para proporcionar momentos de felicidade ao pai. Damos o que somos e o que podemos ser. Dar é criar. Dar é ser maior. É ser maior do que aquilo que somos.

Marca: Teva. Título: Hairspray. Agência: VCCP. Direcção: John Turner. Reino Unido, Janeiro 2020.
Marca: Teva. Título: Best Foot Forward. Agência: VCCP. Direcção: John Turner, Reino Unido, Janeiro 2020.

Estética da guerra

Bruno Aveillan é o Bernini da publicidade. Habituou-nos a vídeos belos, lentos e poéticos. Não é o caso deste “Eternels”, para o parque temático Puy du Fou, o segundo mais visitado em França a seguir à Disneylândia. O anúncio é brutal, acelerado e fragmentado. A sucessão de cenários lembra o anúncio Handle Doors, do Ford S-Max (incluído no vídeo A Construção do Impossível). De violência em violência, o anúncio regride desde as trincheiras da I Guerra Mundial até a um circo romano, para regressar no fim ao início: uma mulher despede-se do homem compartilhando uma fotografia rasgada, presente em todos os episódios. Bruno Aveillan, mais que um contador, é um encantador de histórias.

Marca: Puy du Fou. Título : Eternels. Agência : Les Gros Mots. Direcção: Bruno Aveillan. França, Abril 2019.

O anúncio de Bruno Aveillan Dolce Vita, para a Gaz de France, fecha a sequência de anúncios associada à comunicação “A Construção do Impossível” (2009), que versa sobre o espaço nos anúncios publicitários. Creio que ainda não a coloquei no Tendências do Imaginário. Como nenhum tesourinho deprimente merece aparecer só, acrescento o artigo correspondente: “Como nunca ninguém viu – O olhar na publicidade” (in Martins, Moisés de Lemos et alii, Imagem e Pensamento, Coimbra, Grácio Editor, 2011, pp. 139-165).

Albertino Gonçalves. A construção do impossível. Encontro O Espaço em Todos os Sentidos, CECS, Museu D. Diogo de Sousa, Braga, 23 de Abril de 2009.

Música, amor e harmonia

Tiffany & Co.

Não devemos esgotar o riso. Deforma os maxilares e cansa o diafragma. Pois, sejamos sisudos. Falemos a sério de coisas nem sempre sérias. A música consta das experiências que proporcionam um sentimento de harmonia. A harmonia, existe? Se se sente, existe. Existe na música e, com alguma intermitência, no amor. O amor existe? Se se sente, existe. O amor dá-nos uma sensação de plenitude beata. O amor é o prazer humano mais próximo do divino. A música e o amor costumam conjugar-se. Por exemplo, na barcarola de Offenbach (Belle nuit, ô nuit d’amour), mas também no anúncio da Tiffany (Love (in) New-York). Quando a música e o amor dão as mãos à estética, o prazer vai para além do pecado.

Jacques Offenbach. Barcarola (Belle nuit, ô nuit d’amour), da ópera Les Contes de Hoffmann. 1881. Interpretação de Montserrat Caballé e Marilyn Horne. Munique, 1990.
Marca: Tiffany & Co. Título: Love (in) New York. Agência: Ogilvy NY. Direcção: Bruno Aveillan. 2015.

Amar perdidamente

Mercedes Benz. Eternal Love. 2019.

Ver um anúncio como quem bebe um licor: devagar e até à última gota. O Eternal Love, da Mercedes Benz, é extenso, atarda-se na viagem. Palavra a palavra, imagem a imagem, desdobram-se memórias da avó e insinua-se um pressentimento. Quando tudo se demora, corre-se o risco de desligar a atenção. Vale a empatia com o avô. Vale também a curiosidade. O desfecho faz-se esperar dois minutos, a duração de quatro anúncios normais. A música ajuda. A noiva, a avó, vem num Mercedes. Afinal, a eternidade é a eternidade do amor. Não há despedida mas continuação renovada.

Marca: Mercedes Benz. Título: Eternal Love. Agência: Inhouse. Direcção: Dorian & Daniel. Alemanha, Novembro 2019.

Cancro, amor e humor

Médis. 2019.

Uma tripla visita: de um anúncio português; da “filha” ao “pai”; e da Médis aos consumidores. Um anúncio notável: cancro, amor e humor compõem um triângulo vital. A comunicação não verbal sempre foi um trunfo na publicidade. Com o toque da Ministério dos Filmes.

A diretora de Marketing da Médis, Rita Travassos, afirma ter sido um “enorme desafio” abordar a necessidade de maior proteção da doença, sem serem “alarmistas” ou “pessimistas”, tendo em conta a dimensão que o cancro tem na população portuguesa.
“A história que apresentamos, nesta campanha, é familiar e próxima para muitos dos portugueses e traz consigo uma abordagem humana e muito realista”, destaca. https://www.briefing.pt/marketing/46415-m%C3%A9dis-refor%C3%A7a-prote%C3%A7%C3%A3o-oncol%C3%B3gica.html.

Marca: Médis. Título: Nunca será fácil, mas com a Médis é menos difícil. Agência: VMLY&R. Produção: APP e Ministério dos Filmes. Portugal, Setembro 2019.

O sismo do amor

Mordillo. Les couples. 1997

O amor ainda existe. Violento! Um amor cósmico. Magoado, o coração rasga o chão. Palpita e a terra treme. Edith Piaff e Buster Keaton, paixão e elegância. Um belo anúncio da Lacoste.

Marca: Lacoste. Título: Crocodile Inside. Agência: BETC (Paris). Direcção: Megaforce. França, Maio 2019.

A caminho do céu

Apple. Flight. 2019

“Sim, se alguém procura o infinito, basta fechar os olhos!” (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, 1983).

A liquidez, a fragmentação e a hibridez caracterizam, pelos vistos, o homem contemporâneo. E a leveza? O Tendências do Imaginário dedica-lhe acima de uma trintena de artigos (ver A Civilização da Leveza: https://tendimag.com/2015/05/02/a-civilizacao-da-leveza/). O anúncio Flight, bem concebido e bem realizado, tem a marca Apple. A dança da campeã mundial de Indoor Skydiving, Inka Tiitto, lembra as levitações turbulentas das figuras negras de Goya (Leveza e turbulência na pintura de Goya: https://tendimag.com/2017/07/25/leveza-e-turbulencia-na-pintura-de-goya-2/). Uma passagem pelo céu, com ascensão, pico e queda, de um anjo sem asas, mas com relógio. Recordo, sobretudo, o anúncio Marry Me, da Siemens (2006). Apesar da qualidade do vídeo, não resisto a republicá-lo. As associações de ideias têm os seus mistérios.

Marca: Apple. Título: Flight. Direcção: Jonathan Glazer. Estados Unidos, Fevereiro 2019.
Marca: Siemens. Título: Marry me. 2006.

Amor sobre rodas

O anúncio espanhol Electric Love, da Smart, dá-se ao luxo de tomar o seu tempo (2:39). É repetitivo e atarda-se em cada sequência. Respira jovialidade, confiança e sedução. Adivinha-se o público-alvo. Trata-se de um anúncio meticuloso: cada imagem, cada som, no seu momento oportuno.
Para constratar, passemos da publicidade para a música. Clássica ou moderna, a Espanha sempre foi um país de boa música. Héroes del Silêncio consta entre os melhores grupos rock espanhóis. A revista Rolling Stone, de 22 de novembro de 2012, atribui-lhe o segundo lugar num conjunto de cinquenta grupos rock “mais representativos de Espanha” (http://rollingstone.es/noticias/especial-rs-los-50-mejores-grupos-de-rock-espanol/). Retenho duas cançõe: El Estanque, do álbum El Mar No Cesa (1988) e La Chispa Adecuada, do álbum Avalancha (1995).

Marca: Smart. Título: Electric Love. Agência: Contrapunto BBDO. Direcção: Victor Carrey. Espanha, Março 2017.
Héroes del Silencio. El Estanque. El Mar No Cesa. 1988. Versão acústica ao vivo, 30 de Abril de 1996. Miami.
Héroes del Silencio. La Chispa Adecuada. Avalancha. 1995.

Os anjos também sofrem

Escultura. Cemitério de Varsóvia

Escultura. Cemitério de Varsóvia.

Os anjos estão entre as raras figuras do nosso imaginário que tanto vivem nas trevas como na luz. Aprendi com o filme As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, que os anjos amam e sofrem. Os cemitérios, entrepostos da vida e da morte, abrigam muitos anjos inconsoláveis.

Acrescento o vídeo musical My Immortal, dos Evanescence. Porque sim!

Evanescence. My Immortal. Origin. 2000.