O arco da generosidade
No passado 30 de janeiro, no artigo “Carta de uma Criança ao Menino Jesus”, escrevi: “Receber é bom, oferecer ótimo. Habitualmente, ocorre reciprocidade. Ora a dádiva suscita contra dádiva (Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925), ora entra numa cadeia que acaba por regressar ao início (Bronislaw Malinowski, Os argonautas da Pacífico Ocidental, 1922). De qualquer modo, o gesto tende a compensar”.
Na disciplina de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior de Braga, propomo-nos fazer um vídeo dedicado à felicidade. A pesquisa de obras com alguma afinidade com o tema conduziu-me a “Ripple – Kindness and good deeds will come back to you”, do realizador singapurense Daniel Yam, que alude precisamente à circulação da dádiva, a qual, passado algum tempo, pode regressar à origem, embora com outra carga simbólica.
Do mesmo realizador, pode também ver as curtas In the Heart of the Zoo e The Journey. A primeira convoca “o amor, a família e a natureza”, a segunda realça o papel dos marcadores da memória, por banais e simples que sejam, na preservação da felicidade.
Amor e Fidelidade

No anúncio “Abandon” da Sociedade Protetora dos Animais (SPA, França) não é o som da “voz do mestre” que sensibiliza, mas a alta fidelidade da voz do animal. Mais um anúncio comovedor que alerta para o problema do abandono de animais domésticos em França, país com uma das incidências mais altas da Europa: cerca de 100 000 por ano.
Tempos de Amor e Ódio
A uma refugiada em Paris durante a Guerra
Civil Libanesa iniciada em 1975

Thanatos, a pulsão de morte e a violência, aqui tão perto e Eros, a partilha e o Live Aid, já tão longe…
Seguem dois excertos da histórica prestação dos Queen no Live Aid 85 com as canções: Bohemian Rhapsody; We Will Rock You; e We Are The Champions.
História de Amor com Arroz de Frango
Admito gostar, com uma certa ingenuidade, da publicidade tailandesa. Tenho-o repetido tantas vezes que fiquei sem palavras.
Há mais de cinquenta anos, comprei um dos meus primeiros singles (45 rotações): do lado A, “Love Story (Where do I begin)”, por Andy Williams; do lado B, “Seasons in the sun”, por Terry Jacks.
O que tem a ver o anúncio da KFC com a música composta por Francis Lai? Porventura, a imaginação do amor.
Declarações de amor pré-fabricadas
E viver sem amar não é realmente viver (Molière, La Princesse d’Élide, 1664).

Se quer arrastar a asa, mas, por qualquer motivo, prescinde da comunicação verbal ou gestual, diga-o não com flores, mas com letras. Existem declarações prontas a usar num minimercado perto de si. Haja desejo e inspiração! O anúncio “Lait drôle la vie”, do Monoprix, é lento como um caracol, mas ternurento como um coelho.
Imagem: Breviary of Renaud de Bar, Metz, 1302-1303. British Library
Acode-me a canção “Tu m’écris”, de Isabelle Mayereau, cuja letra parece um misto que sucede a Jacques Prévert e precede Mia Couto.
Insetos amorosos
Sem entomofobias (ou insetofobias), ousemos voar, com besouros e libelinhas, automobilizados, telecomandados ou pela imaginação, rumo a recantos e momentos paradisíacos, tais como, eventualmente, aqui ao perto, o Couraíso, Festival Vodafone Paredes de Coura.
O fóssil e a acendalha


Eros e Thanatos. Instintos de vida e morte. O amor é vida. Que a vida não o esqueça.
Norte-americana, com formação em canto operático, Minnie Riperton iniciou a sua carreira em soul, rythm e rock, aos 15 anos. A canção “Lovin’You”, do álbum Perfect Angel, foi um dos grandes sucessos da década de setenta. Morreu de cancro da mama, em 1979, com apenas trinta e um anos.
Os fósseis podem funcionar como acendalhas?
Amor e lamentação

“1 | Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras.
2 | Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo.
3 | Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos
4 | e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério.
5 | Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? “
6 | Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo.
7 | Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”.
8 | Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão.
9 | Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando com os mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele.
10 | Então Jesus pôs-se de pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou? “
11 | “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”. (Versículos do Capítulo 8 do Livro João; João 8:1-11)
Entre os megafones da acidez recorrente e as canções de amor e lamentação, hoje, prefiro ouvir as últimas. Proporcionam-me mais sossego e esperança.
Um pouco de amor e melancolia

We live together in a photograph of time” / Vivemos juntos numa fotografia do tempo (Antony And The Johnsons. Fistful Of Love)
Regularmente, o Tendências do Imaginário faz questão de introduzir uma pausa na conversa para “dar música”. Abrir uma janela lúdica entre artigos porventura mais densos. Que músicas? Quaisquer, de preferência que exprimam um gosto ou um estado de alma a partilhar. Estranho? O blogue é omnívoro e não possui contrato de exclusividade com assuntos ditos sérios nem é alérgico ao prazer. Não é só pela razão que se conhece e ainda menos se sente, se abraça, o mundo (Blaise Pascal, Pensées, 1670). Faz parte da sabedoria não espalmar a vibração dos sentidos, dos sentimentos e das emoções.
Angel Olson lançou este ano a canção Big Time. Associando Woman (2016) obtém-se um belo par que transmuta a melancolia em lamento e melodia, arte de que é mestre Antony. Recorde-se, por exemplo, Fistful Of Love. Um jeito de se deixar embalar em dia de chuva indolente.

