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Uma página do livro da natureza. A seda da amizade

Vila Praia de Âncora

Ao Amaro

A grande diferença entre o amor e a amizade é que não pode haver amizade sem reciprocidade” (Michel Tournier, Petites proses, 1986).

No outro lado da casa, entoa Silk Road (1980), do japonês Kitaro, álbum que me foi oferecido por um amigo da adolescência. Ainda jovens, fomos passar umas férias, fora de época, a Vila Praia de Âncora. Um dia, apareceu com uma gaivota ao colo com uma asa ou uma perna, não consigo precisar, partida. Médico, socorreu-a. Colocou-lhe uma tala, e instalou-a na varanda. Tornou-se um ritual trazer-lhe pedaços de peixe da lota, mesmo em frente. Não era fácil dar-lhe de comer. A ave ingrata não parava de se defender com o bico. Até que lhe assentou uma valente bicada na testa. Por pouco, não lhe vazava um olho… Assim se escreveu mais uma página do livro da natureza. Regra geral, os meus amigos não se parecem comigo. O Amaro é diferente: tem quase todos os meus defeitos.

A amizade é uma fonte que a música sabe absorver. Insuficiente renal, avio um garrafão de água por dia. Outro tanto beberia de amizade, sem sofreguidão, delicada e suave como a seda. Malogradamente, estou a entrar numa idade em que a chuva da amizade se torna mais rara.

Kitaro. Theme From Silk Road. Silk Road. 1ª ed. 1980. Music video by Kitaro performing Theme From Silk Road.

Eclipses

Kia. Robo Dog. 2022.

Existem fases para descarregar e fases para carregar. Em boa hora, carreguemos!

O anúncio Robo Dog, da Kia, constitui mais um exemplo da criatividade e da sensibilidade ímpares do realizador Noam Murro para humanizar máquinas e objetos. Da mais de uma dezena de anúncios de Noam Murro contemplados no Tendências do Imaginário, recoloco dois: Old Friends, para a Macy’s, e Monsters, para a Hummer.

Marca: Kia. Título: Robo Dog. Agência: David&Goliath. Direção: Noam Murro. Estados-Unidos, fevereiro 2022.
Marca: Macy’s. Título: Old Friends. Agência: BBH (New York). Direcção: Noam Murro. Estados-Unidos, novembro 2016.
Marca: Hummer. Título: Monsters. Agência: Modernista. Direção: Noam Murro. Estados-Unidos, fevereiro 2006.

Balada de amor e mortificação

Garth Brooks. If tomorrow never comes.1989.

De outra divisão da casa, chegam os ecos da canção If Tomorrow Never Comes, de Garth Brooks. Costumo arremedá-la. Não sei cantar, mas gosto de cantar. Também não sei dançar, e gosto de dançar. Gosto também de pesquisar… Pelos anos oitenta, interessei-me pela música country. Talvez me proponha a repescar uma ou outra canção de grata memória. If Tomorrow Never Comes é uma canção lamechas, ao jeito da música country. Não deixa de convocar um sentimento que não é insólito: amar e saber-se mortal. Resulta, contudo, pouco recomendável a um jejum de horas à espera de uma ecografia.

Garth Brooks. If Tomorrow Never Comes. 1989.

A separação do amor

Mordillo.

Aquando da inauguração do museu de Castro Laboreiro, um balanço inesperado inquietava os responsáveis: os donativos da população local manifestavam-se aquém das expetativas. Um problema de adesão?

Galeria: Núcleo Museológico de Castro Laboreiro. Melgaço.

Certo dia, a funcionária, de madrugada, ao abrir o museu depara-se com um embrulho plantado, no segredo da noite, na soleira da porta da entrada. Era uma peça digna de exposição, uma dádiva anónima, uma fatia discreta de uma identidade enraizada. O fenómeno repetiu-se. O motivo, afinal, não era o alheamento, mas a reserva e o recato tão caraterísticos dos castrejos.

Josefa de Óbidos.

Confinado em casa por doença durante os últimos onze meses, recebi durante todo o período uma escassa dúzia de visitas. Por causa da pandemia, as pessoas mais do que preservar-se entendiam preservar-me. Em contrapartida, surpreendeu-me esta nova prática que se tornou um hábito retomado por familiares e amigos.  Recebia uma chamada: “Deixei uma lembrança à tua porta, trá-la para dentro porque pode estragar-se ao sol”. Aguardava-me, na maioria dos casos, um belo cabaz com fruta e legumes. As pessoas depositavam, sorrateiramente, à minha porta um pouco de si. Em tempos de separação, o cabaz é um traço-de-união, um barco, o “barco do amor”.

Quando só resta o amor

Fernando Botero. Priest extends. 1977.

Viremos o disco. O grupo coral francês Les Prêtres é composto, como o nome o indica, basicamente, por três membros do clero: dois padres, Jean-Michel Bardet e Charles Troesch, e um seminarista, o vietnamita Joseph Dinh Nguyen Nguyen. Foi criado em 2010 com o intuito de apoiar iniciativas católicas e sociais. Por exemplo, a construção de uma igreja no Laos e uma escola em Madagascar. Reinterpretam, sobretudo, canções consagradas. Publicaram três álbuns (Spiritus Dei, em 2010; Gloria, em 2011; e Amen, em 2014), separando-se em 2011. Spiritus Dei ocupa, desde 2010, o segundo lugar dos discos mais vendidos em França. O grupo separou-se em 2014, após o abandono da Igreja por parte de Joseph Dinh Nguyen Nguyen, entretanto casado e pai. A música, ao mesmo tempo, abrangente, tonificante e apaziguadora, recorda, no nome, na composição e no conteúdo, o grupo irlandês The Priests.

Seguem, por ordem, as quatro primeiras faixas do álbum Spiritus Dei:

Les Prêtres. Spiritus Dei (Sarabande). Spiritus Dei. 2010.
Les Prêtres. I Believe. Spiritus Dei. 2010.

Les Prêtres. Il est né, le divin. Spiritus Dei. 2010.

A tua mão

Auguste Rodin. Mains d’amants. 1904.

Dá-me a mão! Não te afastes, não feches, não apontes! Dá-me a mão. A pele, a carne, o desejo, o vazio. Dá-me, dá-me a tua mão! Dou-te, quem sabe, o desassossego e a fome do presente. O resto é contingência.

Apocalyptica. Nothing Else Matters. Plays Metallica By Four Cellos – A Live Performance). 1996.

Perseguição

As cenas de perseguição são uma tentação. Quanto mais aparatosas e improváveis, melhor. Neste anúncio da Renault, o resultado da perseguição, a multiplicação da presa, é surpreendente. Vale o anúncio! E o beijo fugaz no coração do anúncio. Uma parte do real? uma vénia simbólica? Um enxerto ritual? Uma mensagem subliminar? As cores são fantásticas.

Marca: Renault. Título: The chase. Agência: Publicis Conseil. Direção: We are from L.A. França, Março 2021,

Beijos

O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável (Fernando Namora).

Gustav Klimt. Girlfriends. 1916-1917.

O título do anúncio da Nettflix é L’Amour. C’est Tout. O amor é tudo, para todos, sem apropriação, nem discriminação positiva ou negativa. Não é? A canção La Vie en Rose é uma escolha acertada.

Marca: Nettflix. L’amour c’est tout. França, fevereiro 2021.

Amor em tempo de confinamento

Mordillo

Canta o amor e namora a felicidade! A música é performativa.

Marca AT&T. Título: A Little Love. Agência: BBDO LA. Direção: Peter Thwaites. USA, janeiro 2021.
James Brown. I Got You (I Feel Good). 1965.

Marie Laforêt

Marie Laforêt. 1974, France

Je ne m’écoute jamais. Là, j’ai été obligée de le faire pour effectuer le choix de mes chansons et ça été un vrai calvaire. De toute façon, je déteste me voir ou m’entendre (Interview Télé Star, 2005, « Marie Laforêt : Je déteste m’entendre chanter » , Propos recueillis par Fabrice Dupreuilh)

Tanta doçura, tanto laço, tanto amor. Abraça-se o tronco e sorve-se a seiva. As três canções que seguem não cantam o Natal, mas são melodiosas e sentimentais. São dos anos sessenta e setenta, canções de amor, procura e separação. Por Marie Laforêt, uma das meninas bonitas da canção francesa.

Marie Laforêt. Je voudrais tant que tu comprennes. 1966.
Marie Laforêt. Je suis folle de vous. Chansons à aimer. 1968.
Marie Laforêt. Viens Viens. 1973.