Gárgulas obscenas

Acontece investir mais num artigo. É o caso de Gárgulas Impúdicas, de 10 de agosto de 2014, revisto posteriormente em 23 de novembro de 2021.
Em 2017, decidi elaborar uma antologia, intitulada A Morte na Arte, com uma trintena de artigos do Tendências do Imaginário. Embora tenha revisto uma boa parte, com as vicissitudes da vida, acabei por suspender o projeto. Sinto, contudo, o dever de o reassumir.
O artigo que recoloco é o revisto: Gárgulas Impúdicas (para o livro A Morte na Arte. O link para o artigo de 2014 é https://tendimag.com/2014/08/10/gargulas-impudicas/
Pró criativo. Futebol e natalidade

Ao basculhar o passado do blogue, constato, pela presença do tema do futebol, que julho costuma ser o mês do mundial. Não tenho relevado os artigos correspondentes, mas Futebol e natalidade merece distinção. Pela ponta de humor prazenteiro com que aflora um dos principais problemas do mundo ocidental: a baixa natalidade.
Noite de S. João e São João do Churrasco


É necessário que ele cresça e que eu diminua. (O testemunho de João Batista acerca de Jesus – João 3:30)
Desgastam-se pilares seculares e projectam-se castelos de areia, versão digital! Pelos vistos, a tradição mora, agora, no futuro, de braço dado com o vazio identitário. Até dói o pensamento. (Albertino Gonçalves, 2016)
Seguem os artigos “Noite de S. João” e “São João do Churrasco” publicados no dia 23 de junho de 2016 e 2019.
Milagres?
Em terras americanas pode mesmo acontecer tudo? Como nos filmes da Filmakademie Baden-Wuerttemberg?…
Para aceder a outros exemplos de filmes da Filmakademie Baden-Wuerttemberg, pode consultar os seguintes artigos do Tendências do Imaginário:
Jogos e brincadeiras (30.10.2012)
Perdidos e achados (10.01.2013)
Humor estranho (31.10.2013)
Aspirações (25.08.2015)
ABC da morte (01.11.2016)
Limites da fidelidade (06.08.2018)
Eros e Thanatos (26.09.2018)
O prazer dos mortos (30.11.2018)
Lágrimas do Paraíso (29.11.2018)
Conto de Natal (23.12.2019)
Pilhas de salvação (15.05.2021)
A Boémia na Rua

Em setembro de 2025, a Place de la Contrescarpe, no Quartier Latin, em Paris, transbordou dopamina. Um conjunto de 30 músicos e cantores entoou e encenou a Bohemian Rhapsody, dos Queen. Empolgante! Agradeço a partilha deste link à Helena Lages, aluna de uma das primeiras turmas de que fui professor na Universidade do Minho, no início dos anos 1980′.
Fogo de Artifício
Nunca vi tanta gente a lançar tanto fogo de artifício! Até apetece começar o ano a cantar, a cantar “Mes Emmerdes” com o Charles Aznavour:
Les canulars
Les pétards
Les folies
Les orgies
Les jours du bac
Le cognac
Les refrains
Tout ce qui fait
Je le sais
Que je n’oublierai jamais
Mes amis, mes amours, mes emmerdes(Charles Aznavour, Mes Emmerdes, 1976)
As Festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro

Ontem, conversei até à meia noite, durante mais de duas horas, sobre o carnaval. Comentei e ilustrei, com música e imagens, algumas das figuras mais caraterísticas do imaginário carnavalesco.
Imagem: Raoul Le Petit. L’Histoire de Fauvain, 1326. Bibliothèque nationale de France
Na Idade Média, sucediam-se, no final de fevereiro, três festas: dos Loucos, dos Inocentes e do Burro. Perduraram até ao século XVIII. Seguem:
- Três cânticos da Missa do Burro;
- Um testemunho de 1741 sobre as festas do Loucos e dos Inocentes;
- Um programa da rádio Europe 1 dedicado a estas três festas.
Na festa do Burro, o “arcebispo” eleito, entrava na igreja montado num burro às avessas. Seguia-se uma paródia de missa e procissão, ambas acompanhadas a preceito com cânticos (a)berrantes, de preferência zurrados.
Nas suas Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, publicadas em 1741, Mr. Du Tilliot descreve os desmandos das festas dos Loucos e dos Inocentes:
Elegia-se nas Igrejas Catedrais um Bispo ou um Arcebispo dos Loucos, e a sua eleição era confirmada por muitas bobices ridículas que serviam de consagração, em seguida promoviam-no a oficial pontífice, para dar a bênção pública loucamente ao povo, transportando a Mitra, a Cruz e, mesmo, a cruz arquiepiscopal. Mas as Igrejas Isentas, ou que recebem imediatamente da Santa Sede, elegiam um Papa dos Loucos (unum Papam fetuorum) a quem também se dava, com grande derisão, os ornamentos do papado, de modo a que pudesse agir e oficiar solenemente como o Santo Padre.
Os Pontífices e as Dignidades desta espécie eram assistidos por um clero também licencioso. Viam-se os Clérigos e os Padres fazer na Festa uma mistura horrorosa de loucuras e impiedades durante o serviço Divino ao qual só assistiam, nesse dia, com roupas de Mascarada e Comédia. Uns estavam mascarados, ou com as caras manchadas, que metiam medo ou que faziam rir, outros com roupas de mulheres ou de pantomimos, como os atores de Teatro. Dançavam no coro e cantavam canções obscenas. Os diáconos e os subdiáconos entregavam-se ao prazer de comer chouriços e salsichas no Altar, debaixo do nariz do padre oficiante: jogavam às cartas e aos dados: colocavam no Incensário pedaços de calçado velho para dar a respirar um mau odor. Após a missa, cada um corria, saltava e dançava pela igreja com tanta impudência que alguns não tinham vergonha de se entregar a extremas indecências, e de se despojar completamente: em seguida faziam-se conduzir pelas ruas em tonéis cheios de imundícies, tomando prazer em arremessá-las à populaça que acudia à sua volta. Paravam e faziam com os seus corpos movimentos e posturas lascivas, que acompanhavam com palavras impúdicas. Os mais libertinos dentre os Seculares misturavam-se no meio do clero, para assumir também algumas personagens de loucos em trajes eclesiásticos, de Monges e Religiosas (…)
Em determinados Mosteiros de Provence se celebra a festa dos Inocentes com Cerimónias tão impertinentes e tão loucas, como se faziam outrora as solenidades aos falsos Deuses. Nunca (…) os Pagãos solenizaram com tanta extravagância as suas festas cheias de superstições e de erros como se soleniza a festa dos Inocentes em Antibes entre os Cordeliers. Nem os Religiosos Padres, nem os Guardas vão ao Coro nesse dia. Os irmãos Laicos, os Irmãos-Corta-Couve, que fazem o peditório, aqueles que trabalham na cozinha, os ajudantes de cozinha, os que tratam dos jardins, tomam o seu lugar na Igreja e dizem que vão produzir um ofício conveniente a tal festa, uma vez que são os loucos e os furiosos, e dizendo-o assim o fazem. Vestem ornamentos sacerdotais, todos despedaçados, e virados do avesso. Seguram nas suas mãos livros virados ao contrário, lidos de frente para trás, fazendo de conta que os leem com óculos a que retiraram os vidros, e aos quais adaptaram cascas de laranja, o que os torna disformes, e tão horríveis, que é preciso ver para crer, sobretudo que, após terem soprado nos incensários que abanam nas mãos por derisão, a cinza cobre a cabeça de uns e outros. Nestes atavios não cantam nem Hinos, nem Salmos, nem Missas correntes; mas resmungam determinadas palavras confusas, e dão gritos tão loucos, tão desagradáveis e tão discordantes, como uma vara de porcos a grunhir: de tal modo que as bestas brutas não celebrariam pior o ofício do dia. Porque mais valeria, efetivamente, trazer as bestas brutas para a Igreja, para louvar o Criador ao seu jeito, e seria, certamente, uma santa prática a seguir, do que aguentar estas pessoas que gozando Deus, com semelhantes louvores, são mais loucos e mais insensatos do que os animais mais insensatos e mais loucos” (Mr. Du Tilliot, Mémoires pour servir à l’histoire de la fête des fous, 1741, pp. 5-6 e 19-20).
No podcast Au Coeur de l’Histoire, da Europe 1, no episódio “La fête des Fous, le Carnaval médiéval de la débauche”, Clémentine Portier-Kaltenbach aborda as festas dos Loucos, dos Inocentes e do Burro.
Filhos da Vida

Se fosse imortal, inventaria a morte para ter o prazer de viver (Jean Richepin. La Chanson des Gueux, 1876)
Nada em nós é eterno. Filhos da vida, herdamos a morte. Qual é a nossa pegada? Vale a pena atardar-se neste anúncio de seis minutos. Acelerado e excessivo em referências históricas, “Immortal” representa mais uma dádiva do Royal Ontario Museum. Por (des)ventura, demasiado generosa face à atenção que nos prestamos a dispensar.


