Sequela do Pilates: Deep Purple
Chegado do Pilates, faltava apetite para retomar a investigação sobre as “virgens abrideiras”. Recostei-me e pedi ao YouTube para me dar música. Num piscar-de-olho, propôs uma sequência de canções, todas dos Deep Purple e dos tempos do Sá de Miranda e do D. Diogo. Aconcheguei-me como um velho ao mesmo tempo revitalizado e nostálgico. As máquinas e a Inteligência Artificial conhecem-nos e (con)vencem-nos, talvez mais e melhor do que os amigos. Em muitos casos, também interagimos mais com elas do que com eles.
Seguem as canções: “Child in Time” (1970), uma crítica que permanece atual; “Hush”, do álbum de estreia (1968); “Lazy” (1972), uma perdição instrumental; e “Mistreated”, problema particularmente sensível.
À quarta, desliguei e dormitei. Bastava!
Entroncamento auspicioso

Um dia, faz 43 anos, no Carrefour (encruzilhada), o preço e a qualidade encontraram-se, encetando uma história de amor feliz sem fim à vista, a não ser que, por capricho do mercado, o ponto de encontro, o Carrefour, feche as portas, como aconteceu em Braga, deixando saudades, pelo menos, aos francófilos.
Traseiro arrojado
O grotesco está a pegar de estaca. Na publicidade como na política. Que significa a coexistência de uma censura omnívora cada vez mais zelosa, a que nem sequer escapa a sombra de um seio de uma escultura clássica, com uma permissividade desbragada, em que as nádegas podem falar mais alto? Dualismo ou forma de gerir valores e emoções?
O anúncio norueguês “Start your own”, da DNB, apostado no desafio de uma nova vida, proporciona uma oportunidade para abraçar o dia bem-disposto e irreverente.
Abensonhar

“Abensonhar” é um verbo criado por Mia Couto no livro Estórias Abensonhadas (1994), cujos contos “falam desse território onde nos vamos refazendo e vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada”. Creio que estes dois anúncios latino-americanos, com balas transformadas em canetas (e votos) e um campeonato de pesca de plástico, foram, a seu tempo (2016 e 2022), abensonhados. O Presidente da República de Colômbia, Juan Manuel Santos, presente no primeiro anúncio, foi distinguido com o Nobel da Paz em 2016.
[Este artigo foi removido do Facebook]
Pronto e garantido
“Vivemos em épocas em que o compromisso quase não existe, onde confiar é cada vez mais difícil. Um ano vale por dez. Assim que imagina algo dure até dez anos. Dez anos?! Parece uma loucura! Alguém que te acompanhe durante uma década (…) A verdade é que nestes tempos algo que dure tanto vale ouro, porque só quem confia de verdade pode dar-te a garantia de estar tranquilo por mais tempo, assim que se vais eleger, elege confiar”
Será concebível uma sociedade com défice, ao mesmo tempo, de confiança e de espírito crítico? Uma mistura paradoxal de suspeição primária generalizada nas instituições e crendice espontânea e ingénua nos maiores disparates, desde que bem-acondicionados. Os ventos sopram entre Cila e Caríbdis. Nesta navegação, que papel desempenham as “garantias”?
A Banheira Fantasma
O mal espalha-se no espírito do tempo como a água por baixo da porta. No início, quase nada. Um pouco de humidade. Quando a inundação começa, é tarde demais (Christian Bobin, La Plus Que Vive, 1996).
O anúncio “DIY Odyssey”, da Hornbach, releva da arte. Alucinante, propõe, antes de mais, um coro e uma coreografia impressionantes. Aprecio os anúncios da Hornbach. Costumam ser criativos e divertidos. O Tendências do Imaginário contempla cerca de uma dezena.
Ver a cara a Deus

Ainda é domingo. Deixo o comentário do anúncio argentino “Verle la cara a Dios”, da Tulipán, para outros, mais entendidos.
“Tulipán insiste en recordar que el placer importa, merece un lugar central y debe vivirse con respeto y cuidado. Debido a que el lanzamiento llega en un momento donde conviven la hipersexualización, la sobreexposición y el acceso ilimitado a porno con poca educación sexual. Paradójicamente, el deseo parece a la baja: menos ganas, más apatía.
Victoria Kopelowicz, directora de la marca, expresó: “‘Verle la cara a Dios’ es la forma más argentina de describir el máximo placer, y es exactamente eso lo que queremos transmitir con nuestra nueva línea de productos.” (Adlatina: Preestreno: Zurda y Tulipán anuncian una nueva colección de juguetes sexuales para “Verle la cara a Dios” )
Goyesco

O Uber Eats estreou na Espanha sua nova campanha de marca, intitulada “Peça Quase Tudo”, em parceria com a agência Ogilvy e estrelada pelo ator Antonio Banderas. Natural de Málaga, o artista interpreta a si mesmo em uma narrativa divertida e caótica, na qual um pedido aparentemente simples acaba resultando em um “Goya inesperado (…)
A nova campanha do Uber Eats também aposta na irreverência ao incorporar elementos da cultura popular e da história da arte espanhola. Com toques de humor, o filme faz referência a obras icônicas de Francisco de Goya — como O Três de Maio de 1808, O Cão Meio Afundado e A Maja Vestida. A campanha ainda inclui uma citação divertida ao célebre “Ecce Homo” restaurado de forma desastrosa, agora reinterpretado como uma intervenção artística surreal.” (Acontecendo Aqui: https://acontecendoaqui.com.br/propaganda/quando-o-goya-chega-no-delivery-antonio-banderas-vive-momento-surreal-com-uber-eats/).
Coros políticos
A demagogia é para as democracias o que o anzol é para os peixes (AG)
A política é coisa séria: afeta a vida das pessoas. Não é mera verborreia. Nunca pensei vir a escrever esta banalidade, mas a fruta da época não para de ganhar bicho e começa a cheirar a podridão. A ética da responsabilidade sucumbe a uma profusão de “cantares ao desafio” com refrões falaciosos. Ecoam na comunicação social, nas redes sociais e nas conversas do dia a dia. E o povo parece disposto a dançar!
Insinuação estética
“Os privilégios da beleza são imensos. Afeta inclusivamente quem não a reconhece.” (Jean Cocteau. Les enfants terribles. Paris, Grasset, 1929, p. 19)
Quando a beleza passar perto, abram as janelas! Seguem mais duas canções da norueguesa Ane Brun.
