Archive | Setembro 2025

Centelha celestial

Pressente-se Deus em tudo que é belo; aproximamo-nos do divino criando beleza.

“Se a beleza que vejo não fosse centelha do eterno,
nunca inflamaria em mim desejo tão alto;
mas do céu vem aquilo que em ti me atrai,
e para o céu deve levar-me de volta.”
(Michelangelo)

Ane Brun – Last Breath. How Beauty Holds The Hand Of Sorrow, 2020. Vídeo oficial

Azedume

Rafael Bordalo Pinheiro. O dia dos reis. Publicado em O António Maria, em 6 de janeiro de 1881

Não sei como, nem porquê, assombram-me, de repente, o Goya e o Bordalo Pinheiro. Seremos uma espécie de novos avatares do Zé Povinho com a mesma propensão a cavalgaduras? Importa, naturalmente, compreender, mas sem condescender, nem subestimar.

Imagem: Caricatura do Zé Povinho com o rei D. Luís a cavalo em cima dele e Mariano de Carvalho como agulheiro. Litografia de Rafael Bordalo Pinheiro, in António Maria, 9 de Setembro de 1880

Por pouca margem de manobra que tenhamos e bem-intencionados que sejamos, somos responsáveis pelas nossas escolhas e pelos nossos atos. Se, por desventura, acabarmos albardados a carregar burros pesados, aguentaremos o fa(r)do que criamos. Entrementes, as furnas dos infernos continuam a acolher vítimas ingénuas e paladinos espertos.

Imagem: Francisco de Goya. Tu que no puedes. Estampa 42 dos Caprichos, 1799

O jardim das verduras inadiáveis

A Marta Carvalho enviou-me o anúncio “Bok Choy/Garden of Doom”, da Thai Health Promotion. Agradeço sobremaneira porque resulta difícil encontrar uma curta-metragem mais delirante, ousada e polissémica. Já a tinha colocado no Tendências do Imaginário em 2019 (Verdura fora de época). Não obstante, continua digna de ser (re)revista.

Imagem: Bok choy ou acelga chinesa

Marca: Thai Health Promotion Foundation. Título: Bok Choy/Garden of Doom. Agência: The Leo Burnett Group Thailand. Suthon Petchsuwan. Tailândia, Novembro 2019.

Umbigos

Quanto maior o umbigo, mais ele cria uma barreira entre você e os outros, entre você e o mundo (Alexandre Millon).

O ego pode ser enorme, desde que o umbigo seja pequeno… Mas umbigos inflamados, por ínfimo que seja o ego, são lamentáveis. Vale para as pessoas e para as instituições. Para bom entendedor, meia canção basta. Seguem quatro, em língua francesa.

Zazie – Je Suis Un Homme. Totem, 2007
Stromae – Carmen. Racine carrée. 2013
Isabelle Mayereau – Crocodiles. Déconfiture, 1988
Boris Vian- Je suis snob. 1955

Anúncio português vintage 9. Rave

Onde amassar? No meu carro, no teu ou no dele? Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Marca: Nissan. Título: Rave. Agência: BBDO. Portugal, 2003

Extravagância

Está a chegar a hora de deitar. O álbum O’Stravaganza – Vivaldi in Ireland é um bom preâmbulo. Publicado pelo músico francês Hughes de Courson, em 2001, é todo ele uma pérola. Segue a canção “Berceuse de Grinne pour Diamait”.

Hughes de Courson – Berceuse de Gráinne pour Diarmait (After Vivaldi’s Nisi Dominus, RV 608). O’Stravaganza – Vivaldi in Ireland, 2001

Desbussolar

A publicidade volta ao delírio da construção de mundos impossíveis: baralha realidades, aturde sentidos, concilia opostos, acelera e voa para nenhures. Tudo para chamar a atenção de um público cada vez mais alheado. Trata-se de desbussolar para melhor magnetizar. Seguem dois anúncios recentes tão fabulosos quanto estapafúrdios: “Winning Is Everything”, francês, da WINAMAX; e “Never Stop Playing”, dinamarquês, da LEGO.

Por sinal, está a decorrer uma exposição da LEGO em Lisboa, na Cordoaria Nacional, até 5 de outubro (ver galeria de imagens).

Anunciante: WINAMAX. Título: Winning is everything. Agência: TBWA Paris. Direção: Romain Chassaing. França, setembro 2025
Anunciante: The LEGO Group. Título: Never Stop Playing. Agência: Lego Agency. Direção: Los Pérez. Dinamarca, setembro 2025

Exposição da LEGO em Lisboa, até 5 de outubro, na Cordoaria Nacional

Anúncio português vintage 8. Adultério

“O teatro tece o quotidiano”. O anúncio “Adultério”, da Câmara Municipal da Maia”, é uma raridade ousada e preciosa. Mostra como superar uma crise dando a volta por fora. “Dar a volta por cima” e “dar a volta por fora” constituem duas virtualidades da “força dos fracos”. Carregue na imagem para aceder ao vídeo.

Anunciante: Câmara Municipal da Maia. Título: Adultério. McCann Erickson. Portugal, 2002

Dança da vida, triunfo da morte

Dança da Morte .1474. Detalhe, Cemitério da Igreja de Santa Maria da Rocha. Por Vincenzo da Castua, Beram, Istria, Croácia.

Um compositor anónimo italiano do início do século XVII, possivelmente Stefano Landi, compôs a passacaglia magistralmente cantada pelo grupo Apollo’s Fire. Trata-se de “um estilo de composição musical baseada num tema, que é repetido constantemente no baixo, e em variações sobre esse tema na melodia principal”.

“Este gênero, que data do século XVI, é fascinante. Simples e direta, a passacaglia atinge o coração do ouvinte com a sua melodia repetitiva e precisa, como o mecanismo de um relógio. O texto representa um memento mori, apresentado com graciosidade, uma dança macabra (…), que nos convida a refletir profundamente sobre a nossa existência.

Imagem: Mestre de Adelaide de Savóia. História de Merlim, Poitiers, ca. 1450-1455

Pois na nossa dança diária da vida, a um dado momento importa entregar-nos a uma pausa de reflexão (…) para nos interrogar se aquilo que somos é aquilo que gostaríamos de ser. É neste momento, quando paramos para pensar, que um novo impulso vital costuma surgir. Indo do movimento para a quietude e depois novamente para o movimento, percebemos que temos um passado e, embora não tenhamos a certeza de ter um futuro, vivemos verdadeiramente no presente. A vida é uma dança para a qual todos somos convidados, sem máscaras nem fantasias. E enquanto durar, por este momento de eternidade, podemos perfeitamente dançá-la bem.” (La Passaglia della Vita  ©Marco Beasley: https://www.marcobeasley.it/la-passacaglia-della-vita.html).

LANDI: Passacaglia della Vita (Dance of Life) – APOLLO’S FIRE, from “ALLURE: The Three Amandas”. Performed November 8, 2020 at First Baptist Church in Cleveland, Ohio.

Anúncio português vintage 7: Sofá

“Sofá”, da Optimus, ilustra claramente quanto somos filhos do telemóvel. Somos a geração do sofá, das emoções confortáveis, mas pertencemos, em particular, à geração do telemóvel, no duplo sentido de época e progenitura. [Carregar na imagem para aceder ao anúncio].

Anunciante: Optimus. Título: Sofá. Agência: BBDO. Portugal, 2002