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Virtualidades pouco virtuosas

Fotoprix. Breast. 1999

Cada vez se torna mais complicado distinguir a realidade do imaginário. Por vezes, somos mais estimulados pela cópia do que pelo original. Tomamos, inclusivamente, como reais realidades que nunca existiram. Jean Baudrillard fala em hiper-realidade. Estes três anúncios da Fotoprix são duplamente dúbios: pela ilusão e pela mensagem. Virtualidades pouco virtuosas.

Marca: Fotoprix. Título: Silicona. Agência: Casadevall. Direção: Xavier Rosello. Espanha, 1996
Marca: Fotoprix. Título: Breast. Agência: Young & Rubicam (Madrid). Direção: Xavier Rosello. Espanha, 1999
Marca: Fotoprix. Título: Ilusión. Agência: The Farm. Direção: Xavier Rosello. Espanha, 2002

Sombras frias

A memória de estar entre os que vão morrer é uma ferida latente

Pablo Picasso. Guernica. 1937

Três canções de morte sem luto e de luto sem morte dos Aguaviva, grupo catalão dos anos setenta que ainda escuto com calado respeito.

Aguaviva. la canción del que está quieto. La Casa De San Jamás. 1972
Aguaviva. Pon tu cuerpo a tierra. Poetas andaluces de ahora. 1975
Aguaviva. La Víspera. No Hay Derecho. 1977

Ah pon tu cuerpo a tierra tierra tierra
Y siembra siembra siembra siémbrate
en el cuenco del ojo tierra tierra, cuerpo a tierra.

Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.

Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(A tierra, tierra, pon tu cuerpo a tierra)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Tierra tierra gitano tierra comba)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Paraíso gitano luna siembra siembra)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(siembra gitano siembra sombra)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.

Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(A tierra pon tu cuerpo a tierra muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Muerta gitano la esperanza muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(Gitano la esperanza muerta muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon
Pon tu cuerpo a tierra pon a tierra pon
(y la esperanza muerta muerta muerta)
Siembra sombra siembra sombra a tierra pon.

En la limosna de las manos tierra
En la lengua el escupitajo
Escúpeles con asco el asco de tu tierra muerta
Pon tu cuerpo a tierra

Canciós del que está quieto
Aquí se está quieto
Pero el mundo sigue girando.
Aquí se mueven los pájaros, pero están quietos
Y el mundo sigue girando
Yo estoy quieto
Pero el mundo dentro de mí esta girando
Qué saben esos caballos, estas dulces campanillas
Estos perros y este largo sollozo de la paloma?
Qué el hombre que va en el aire galopando?
Se mueven, pero están quietos,
Y el mundo sigue girando

La Víspera
Escrito está en un papel
que me fusilan al alba.
Si yo supiera de letra
te escribiría una carta.
Pero nunca fui a la escuela
porque fui pastor de cabras.
Dice el cura que hoy aquí…
esta sociedad me mata.
¿Y quién es la sociedad
que me mata por la espalda?
¿Por qué me dieron paga
cuando crío, sin que fuera
una carga pa mi casa?
Si maté al amo aquel día
era porque me robaba.
Más me valiera haber muerto
a aquel que lo autorizaba.
Y porque se haga justicia
y la paz reine en España,
me ha dicho el jefe de aquí
que me fusilan al alba.

Anúncio quase perfeito

J&B. She. Espanha, novembro 2022

De qualquer ângulo, o anúncio “She/Abuelo”, da J&B Spain, é quase perfeito. Só não é perfeito porque a perfeição não existe.

Marca: J&B Spain. Título: She/Abuelo. Agência: El Ruso de Rocky. Direção: Gabe Ibanez. Espanha, novembro 2022

De sapatilhas em Melgaço

Melgaço

ZXM, Zapatillas pxr el mundo, um canal do YouTube dedicado à viagem, ao lazer e ao turismo, visitou Melgaço. Este vídeo de 21 minutos em espanhol foi um dos resultados.

Zapatillas por el mundo. Melgaço, Norte de Portugal. Colocado em 03/10/2022

Quem são os Zapatillas por el Mundo?

Albert y Ana
Pues si… somos Zapatillas por el mundo.
Para los que aún no nos conozcáis nuestros nombres son Ana y Albert un par de aventureros que un dÍa decidieron viajar juntos por el mundo y por la vida.
Tras algunos viajes juntos y casi 20 años dedicados al mundo del marketing y de la comunicación, un día decidimos contarle al mundo lo que nuestros ojos veían y creamos nuestro canal de YOUTUBE, desde entonces, la cámara siempre nos acompaña para captar momentos en formato vídeo para después contar las experiencias, las historias de aquellos lugares que visitamos.
Hoy, viajamos arropados por ti que a través de la pantalla nos acompañas día a día. Y es que una de las cosas que más nos gusta, es poder inspirarte, a viajar, conocer nuevos destinos y lugares, vivir nuevas experiencias… y todo esto de una forma amena y muy cercana, mostrándote toda la información que necesitas para emprender este viaje que tienes entre ceja y ceja ((https://zapatillasporelmundo.com/nosotros/).

Aleluia

Autor: Rui Rito

Ao Jean Martin Rabot que conheci há 40 anos em Paris na casa do Michel Maffesoli.

No regresso de uma aula ao doutoramento em Estudos Culturais, aguarda-me uma surpresa agradável: um atalho para a canção Una Noche Más, de Yasmin Levy. A terceira sugestão de Rui Rito, após a música Born Free, de Giovanni Marradi (https://www.youtube.com/watch?v=KBtYWkxOOCA), e a canção Et si tu n’existais pas, de Joe Dassin (https://www.youtube.com/watch?v=Ueba8LaflnE). Trata-se de um gesto raro que me sensibiliza. Ao Tendências do Imaginário e à minha página no facebook falta-lhes o oxigénio da reação dos visitantes. Nem sombra de reciprocidade. Os artigos parecem dar sumiço num monstruoso buraco negro, sem ressonância.

Desde janeiro de 2011, com 3 758 artigos e 1 228 271 visualizações, o Tendências do Imaginário mereceu 1 156 comentários, 968 circunscritos a apenas sete pessoas, somando uma 785. No facebook, uma dúzia de “gostos” num artigo, quase sempre pelos mesmos amigos, já satisfaz. Escrevo para um público que, eletronicamente, não corresponde. Como se houvesse alguma intimidação ou toxicidade. Uma sugestão ergue-se como uma flor no deserto, a mais improvável e encantadora.

Escutar Yasmin Levy aproxima-se de uma revelação. Lembra, com a devida modéstia, a madalena da Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, ou a espreguiçadeira de Hans Castorp no sanatório da Montanha Mágica, de Thomas Mann. Escutei de enfiada até às tantas da madrugada uma trintena de canções. Desconhecia Yasmin Levy. Ainda bem. Neste mar de ignorância, uma descoberta é uma jangada, uma oportunidade de sabedoria. Demasiado recente, o parco conhecimento da obra de Yasmin Levy dificulta a seleção das músicas. Segue, portanto, uma incontinência de cinco vídeos.

Nascida em Israel, em 1975, Yasmin Levy é filha de um folclorista turco, Yitzhak Levy, (…) que colectava canções em ladino (a língua dos judeus da Península Ibérica). A obra de Yasmin inclui músicas em ladino, espanhol, hebraico, árabe e turco (…)  O jornal Guardian considerou Yasmin “uma das melhores cantoras do Médio Oriente” (…) Numa mescla de música cigana (flamenco) com instrumentos como o alaúde, o violoncelo, e o piano e uma maneira moderna de cantar, ela deu nova vida a letras muito antigas, vindas dos bairros judeus habitados pelos descendentes dos exilados de Portugal e Espanha no século XVI” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Yasmin_Levy).

Yasmin Levy. Una Noche Más. Mano Suave. 2007
Yasmin Levy. Adio Kerida. Manu Suave. 2007. Live from Bucharest National Opera House
Yasmin Levy. Madre, Si Esto Hazina. Romance & Yasmin. 2004
Yasmin Levy. Perdono. Frida. 2002
Yasmin Levy. nani nani. Libertad. 2012

Meigas

Existem momentos em que o contexto, os astros, as afinidades e as predisposições se conjugam para transformar a comunicação em comunhão, a porta em ponte, o limite em prolongamento, a cara em carinho e o saber em conhecer (do latim cognoscere, de com, junto, mais gnoscere, saber, ou seja, saber em conjunto). As pessoas, os gestos e os pormenores parecem apostados em entrelaçar as mãos. Não sei por que estou a escrever estas palavras. Deve ter sido algum pirilampo que passou pelo teclado.

Serões do Medo. Melgaço. 21.10.2022

Regressei de Melgaço com os ouvidos cheios de testemunhos de experiências sobrenaturais: acompanhamentos, aparições, sinais, bruxas e meigas. Proporciona-se a canção Túa nai é meiga e, por acréscimo, Alalá Das Mariñas, ambas de Uxía.

Uxía. Túa nai é meiga. estou vivindo no ceo. 1995. Ao vivo no Auditório da Ilha de Arousa. 2018.
Uxía. Alalá Das Mariñas. estou vivindo no ceu. 1995.

Anúncios de bolso

Com poucas imagens se ilustra muito. Publicidade vintage.

Anunciante: Bancos de alimento. Título: Palomas. Agência: McCann Erickson. Direção: Mario Garcia. Espanha 1999.

Para aceder ao segundo anúncio, carregar na imagem seguinte.

Anunciante: Journée Mondiale du Refus de la Misère. Título: Donnons la parlole aus pauvres. Agência: TBWA. França, 1998.

Comprar nada como investimento

McDonald’s Spain. The burger that could be. 2022

O anúncio The burger that could be, da McDonald ‘s Spain é um bom exemplo de um elevado sentido de oportunidade e da boa arte de a saber aproveitar. Trata-se de uma campanha que adota um estratagema que está a abrir caminho: convocar, ao mesmo tempo, o ecrã e a vida, interpelar tanto o espetador como o ator, numa mobilização em torno de uma causa emotiva emocionante e inclusiva emergente. Mais um caso de uma iniciativa de consciencialização interessada.

Marca: McDonald’s Spain. Título: The burger that could be. Agência: TBWA Spain. Espanha, agosto 2022.

A Ave, o casal e a lápide

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa, 1 de agosto de 2022. Fotografia: Conceição Gonçalves

Prometi, há dois meses, colocar o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro” logo após o lançamento do livro Uma paisagem dita casa, de João Gigante, integrado no programa Quem somos os que aqui estamos?, do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço. Aconteceu ontem.

Lançamento do livro Uma Paisagem Dita Casa. Melgaço, 1 de agosto de 2022. Assistência. Fonte: Melgaço, Portugal começa aqui

Tenho vindo a afastar-me da nobre missão de facultar ciência. Contento-me com namorar o conhecimento. A autoridade da lição e do relatório cede à desenvoltura da poesia, do conto ou da comédia. Entrego-me ao gozo da descoberta e da escrita e aposto no prazer do eventual leitor. Sem lonjuras nem distâncias, próximo das realidades e dos públicos. “A ave, o casal e a lápide” presta-se a ser lido como um romance policial. Nem sequer foi preciso reordenar as etapas da pesquisa. O texto espelha o percurso efetivo. Constitui um exemplo de investigação tal como sucede. Confesso algum carinho por estas páginas: não pretendem desvendar a realidade, mas acrescentar e valorizar; não contabilizam, satisfazem.

Segue o capítulo “A ave, o casal e a lápide: as esculturas da porta da igreja de São João Baptista de Lamas de Mouro”, in Gigante, João, Uma paisagem dita casa, Ao Norte, 2022, pp. 124-139. Acresce a reportagem da visita, em 2021, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao MDOC.

Cerimónia de encerramento e entrega de prémios do MDOC – Festival Internacional de Documentários. Melgaço, 08 de agosto de 2021. © Mário Ramalho/Presidência da República.

Embarque

Há precisamente um ano, na margem, o corpo à frente e a alma atrás, fui salvo por uma neurologista. Se estou neste mundo, devo-o a duas mulheres.

  • Diabo                À barca! À barca! andem já
  •                            que temos mansa maré!
  •                            Podem manobrar de ré!
  • Companheiro  Assim mesmo como está!
  • Diabo                Corre ali, seu Coisa-má
  •                            e acerta aquele atravanco
  •                            deixando livre esse banco
  •                            para a gente que virá
  •                            À barca! À barca! Seu nabo,
  •                            pois logo queremos ir!
  •                            Já é tempo de partir,
  •                            com louvores ao Diabo!
  •                            E puxa bem esse cabo,
  •                            põe logo o convés a jeito!
  • Companheiro  Será logo tudo feito!
  • (Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, SWAI-SP editora, 2015)
Carl Orff. Carmina Burana. Reie. 1935-1936. Munich String and Percussion Orchestra. Madrigal Choir Munich. Conductor: Adel Shalaby.
Manuel de Falla. Siete canciones populares españolas. Nana. 1914. Violoncelo: Brinton Averil Smith. Piano: Evelyn Chen. Rice University’s Shepherd School of Music. 2011.