Tag Archive | grotesco

Androides

RC Cola. Band. Filipinas. 2021.

L’homme qui veut dominer ses semblables suscite la machine androïde. Il abdique alors devant elle et lui délègue son humanité. Il cherche à construire la machine à penser, rêvant de pouvoir construire la machine à vouloir, la machine à vivre pour rester derrière elle sans angoisse, libéré de tout danger, exempt de tout sentiment de faiblesse, et triomphant médiatement par ce qu’il a inventé. Or, dans ce cas, la machine devenue selon l’imagination ce double de l’homme qu’est le robot, dépourvu d’intériorité, représente de façon bien évidente et inévitable un être purement mythique imaginaire. » (Simondon, Gilbert. 1958. Du mode d’existence des objets techniques. Paris, Éditions Aubier-Montaigne, p. 10).

O Extremo-Oriente habituou-nos a anúncios absurdos e hilariantes. Pela imagem e pela narrativa. O anúncio filipino Band, da RC Cola, é um bom exemplo deste género de grotesco. Os androides, fruto de uma imaginação desinibida, asseveram-se, simultaneamente, desconcertantes, ávidos e cordiais.

Marca: RC Cola. Título: Band. Agência: GIGIL. Direção: Marius Talampas. Filipinas, janeiro 2021.

A bateria fantástica

Boliden. 2020.

Um anúncio tailandês grotesco, variante brutesca. Humor de Hollywood, do circo e do imaginário popular. Nada bate certo e tudo se encaixa, nesta procissão de disparates.

Marca: Boliden. Título : Whatever happened… Search Boliden. Agência: CJ WORX Co., Ltd.// Bangkok. Direcção: Suthon Petchsuwan. Tailândia, Novembro 2020.

Os Punk e as aulas não presenciais

The Offspring

Este semestre dou aulas por teleconferência. Sou uma imagem digital. Os alunos moram algures do outro lado do ecrã. Não ligam as câmaras. Televisão versus rádio. É este o retorno. A participação dos alunos é mínima. Exceto no intervalo. Digo disparates e eles verdades. Recomeçada a aula, arrefece a comunicação. Para a próxima, a aula vai ser toda um intervalo.

Hoje, durante a aula, abordámos o imaginário grotesco. Deu-se o exemplo dos punk. Lembrei-me da banda The Offspring. Seguem três vídeos. O segundo é um caso sério de grotesco.

The Offspring. Self Esteem. Ao vivo em 1998. Álbum Smash. 1994.
The Offspring. The Kids Aren’t Alright. Americana. 1998.
The Offspring. You’re Gonna Go Far, Kid. Rise and Fall, Rage and Grace. 2008.

Cuvídeo

Channel 4.

Não estranhe! Pode-se ter razão por linhas travessas. Quantas campanhas não mobilizaram a retaguarda! Contra a Covid, o Cuvídeo. Dê prazer ao rabo. Sente-se no sofá, e salve o próximo. O Channel 4, uma rede de televisão britânica vocacionada para a utilidade pública, apelava, em Abril de 2020, a uma nova modalidade voluntária de confinamento. O grotesco e o sério de mãos dadas.

This is an important public safety announcement, for your arse. If you have buttocks, put them on the sofa. The longer they stay there, the quicker we’ll get through this (Channel 4).

Anunciante: Channel 4. Título: Important Safety Announcement for Your Arse #StayAtHome. Reino Unido, Abril 2020.

O roubo das caras

Francis Bacon, Self-Portrait, 1971. Centre Georges Pompidou,

Para os lados do Japão, andam a roubar as caras às pessoas! Evite uma aberração facial, recorra à loção para a pele Gatsby. Esta é a mensagem principal do anúncio The Kawaii Tweak Hazard Song. Pelo meio, espalha-se muita imaginação e humor.

Marca: Gatsby Perfect Skin Lotion. Título: The Kawaii Tweak Hazard Song. Agência: Dentsu (Tokio). Direcção: Wataru Sato. Japão, Abril 2019.

Videojogos. Viagem ao coração da emoção

PlayStation. Feel the power. 2020

A quarentena justificada pelo coronavírus aumenta o uso e o download de videojogos. O caso da China é ilustrativo:

“Um recém-publicado relatório da consultora App Annie demonstra que o número de downloads de aplicações móveis tem vindo a crescer exponencialmente na China. Ao todo, desde 2 de fevereiro, foram registados mais de 222 milhões de instalações através da App Store, em especial de aplicações de jogos. / De acordo com os dados a que o Financial Times teve acesso, o número médio de downloads registado durante as duas primeiras semanas de fevereiro na China representa um aumento de 40% em comparação com os valores verificados na totalidade de 2019”. (https://tek.sapo.pt/mobile/apps/artigos/coronavirus-quarentena-faz-aumentar-o-download-de-aplicacoes-de-videojogos-na-china).

Vem a propósito o anúncio Feel the power of PlayStation. Abismal, mergulha-nos na angústia, no medo e no choque, provocando uma emoção desconcertante. O importante é o coração, mais precisamente, o aperto do coração. Desagradável mas fascinante, lembra o filme Alien e os biomecanóides de HR Giger. Os anúncios da PlayStation têm vindo a apostar nesta estética da emoção tensa e opressiva (ver o anúncio Head, de 2006: https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/.

Marca: PlayStation. Título: Feel the power of Playstation. Agência: adam&eveDDB. Direcção: Romain Gavras. Fevereiro 2020.

O perfume e o hálito

O Tendências do Imaginário dedicou uma série de artigos a anúncios de perfumes. Lugares mágicos, modelos extra belos e fragâncias sedutoras. Importa dissentir!

O ser humano dá sentido a tudo, e tudo avalia. A começar pelo corpo. É de entendimento comum que existem fenómenos corporais que são bons e outros que são maus. O que sai do corpo tende a ser desagradável: a transpiração, a urina, os excrementos, a mucosidade, a cera, o cuspo, o hálito…  Existem, porém, excepções: o parto, a lágrima e a palavra. A alimentação e a respiração são bons exemplos desta dualidade: os alimentos são bons, mas o arroto e vómito são maus; inspirar é bom, expirar, nem por isso. Desçamos, pois, da alteza dos perfumes para a baixeza do corpo.

No anúncio tailandês, da Dentiste, o mau hálito ameaça a interacção humana. Entre modulações e repetições, durante seis minutos, os contratempos do mau hálito são ridicularizados. Com imaginação e desenvoltura. Bizarro, disse bizarro? Estranho. A percepção do corpo dos orientais difere, porventura, da nossa.

Marca: Dentiste. Título: Hálito. Agência: Lobster & Co. (Tailândia). Direcção: Thanonchai Sornsrriwichcha. Tailândia, Fevereiro 2020.

Morte divertida

James Ensor. Death and the Masks. 1897.

Morrer a rir é um fim de vida que Deus se descuidou de criar. Mas, para nossa salvação, as novas tecnologias e a publicidade emendam a criação divina. Se quer morrer a rir, num hospital ou atolado em areias movediças, contacte a Quibi. Costumo designar este tipo de anúncio como de dupla contorção: o riso do diafragma e o calafrio do baixo ventre.

Marca: Quibi. Título: Quicksand. Agência: BBH (Los Angeles). Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Diabolus in Musica

Guitarra com combustível.

Existem anjos que moram no purgatório. Impacientes, sobem e descem a escada: ora inalam enxofre ora respiram ar condicionado. Estes anjos conhecem tudo: o churrasco do inferno, o maná do céu e o fumeiro do purgatório. O Alberto conhece este mundo e os outros. Quando sinto falta de espanto procuro o Alberto. Pasme-se com uma guitarra elétrica cuja caixa é uma lata de combustível da Sacor, talhada para concertos infernais. Se as chamas desfalecerem, soltam-se uns pingos de gasolina. Com esta inspiração ainda vamos criar uma banda chamada Hellite.

Fiz, há meses, uma comunicação intitulada “Música do Inferno”, concentrada na Idade Média e no Renascimento. Mas existe música infernal na atualidade. Por exemplo, a música dos norte-americanos Slayer, acabados de acabar. Independentemente de gostar ou não da música, interessa-me o fenómeno. Não se ganha em virar a cara, porque pode a cabeça ficar torta. Segue um anúncio e uma música dos Slayer.

Anunciante: Slayer. Título: Giveaway: Enter to Win Repentless Hell-p. Agência: Kolle Rebbe. Alemanha, Janeiro 2020.
Slayer. Hell Awaits / The Antichrist. Hell Awaits. 1985. Live In Anaheim, CA / 2002.

Diabos, diabas e diabinhos

Prenda de Natal. Diabo com diabinho ao ombro. Mistério. Barcelos.

Meia-noite feliz. Nesta freguesia, como em muitas outras, não há missa do galo. Apenas sinos e foguetes. O Natal está passado; agora é todos os dias. Convém dar tempo ao Pai Natal para descer e subir a chaminé. Coube-me um diabo com um diabinho ao ombro, da Mistério, de Barcelos. A minha cara! Há quem me ofereça prendas de que gostam; há, mais raro, quem me ofereça prendas de que gosto. Oferecer-me algo de que gostam e de que gosto é tão improvável como um eclipse solar. Um diabo com um diabinho ao ombro, há quem me conheça! Desertas as “catedrais do consumo” (Jean Baudrillard) e afrouxados os laços de amor (Zygmunt Bauman), regressam os infernos, com diabos e diabas com diabinhos ao colo (ver figuras 2 e 3). Ressurgem os malefícios e as tentações. O pecado.

Provocadora, a Madonna avançou no fio da navalha da moralidade. A primeira vez que a vi foi a cantar Like a Virgin. Vestida de noiva, simula, deitada no palco, algo como um orgasmo. Sustenta-se que a Madonna é polissémica. Mais ou menos polissemia, a Madonna esteve para ser presa no Canadá por causa da coreografia rasteira. Madonna, uma prenda! Segue uma interpretação, ao vivo, em 1984, de Like a Virgin, apresentada na MTV.

Madonna – Like A Virgin (Live MTV VMAs 1984).