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Videojogos. Viagem ao coração da emoção

PlayStation. Feel the power. 2020

A quarentena justificada pelo coronavírus aumenta o uso e o download de videojogos. O caso da China é ilustrativo:

“Um recém-publicado relatório da consultora App Annie demonstra que o número de downloads de aplicações móveis tem vindo a crescer exponencialmente na China. Ao todo, desde 2 de fevereiro, foram registados mais de 222 milhões de instalações através da App Store, em especial de aplicações de jogos. / De acordo com os dados a que o Financial Times teve acesso, o número médio de downloads registado durante as duas primeiras semanas de fevereiro na China representa um aumento de 40% em comparação com os valores verificados na totalidade de 2019”. (https://tek.sapo.pt/mobile/apps/artigos/coronavirus-quarentena-faz-aumentar-o-download-de-aplicacoes-de-videojogos-na-china).

Vem a propósito o anúncio Feel the power of PlayStation. Abismal, mergulha-nos na angústia, no medo e no choque, provocando uma emoção desconcertante. O importante é o coração, mais precisamente, o aperto do coração. Desagradável mas fascinante, lembra o filme Alien e os biomecanóides de HR Giger. Os anúncios da PlayStation têm vindo a apostar nesta estética da emoção tensa e opressiva (ver o anúncio Head, de 2006: https://tendimag.com/2014/09/18/segredos-da-mente/.

Marca: PlayStation. Título: Feel the power of Playstation. Agência: adam&eveDDB. Direcção: Romain Gavras. Fevereiro 2020.

O perfume e o hálito

O Tendências do Imaginário dedicou uma série de artigos a anúncios de perfumes. Lugares mágicos, modelos extra belos e fragâncias sedutoras. Importa dissentir!

O ser humano dá sentido a tudo, e tudo avalia. A começar pelo corpo. É de entendimento comum que existem fenómenos corporais que são bons e outros que são maus. O que sai do corpo tende a ser desagradável: a transpiração, a urina, os excrementos, a mucosidade, a cera, o cuspo, o hálito…  Existem, porém, excepções: o parto, a lágrima e a palavra. A alimentação e a respiração são bons exemplos desta dualidade: os alimentos são bons, mas o arroto e vómito são maus; inspirar é bom, expirar, nem por isso. Desçamos, pois, da alteza dos perfumes para a baixeza do corpo.

No anúncio tailandês, da Dentiste, o mau hálito ameaça a interacção humana. Entre modulações e repetições, durante seis minutos, os contratempos do mau hálito são ridicularizados. Com imaginação e desenvoltura. Bizarro, disse bizarro? Estranho. A percepção do corpo dos orientais difere, porventura, da nossa.

Marca: Dentiste. Título: Hálito. Agência: Lobster & Co. (Tailândia). Direcção: Thanonchai Sornsrriwichcha. Tailândia, Fevereiro 2020.

Morte divertida

James Ensor. Death and the Masks. 1897.

Morrer a rir é um fim de vida que Deus se descuidou de criar. Mas, para nossa salvação, as novas tecnologias e a publicidade emendam a criação divina. Se quer morrer a rir, num hospital ou atolado em areias movediças, contacte a Quibi. Costumo designar este tipo de anúncio como de dupla contorção: o riso do diafragma e o calafrio do baixo ventre.

Marca: Quibi. Título: Quicksand. Agência: BBH (Los Angeles). Estados Unidos, Fevereiro 2020.

Diabolus in Musica

Guitarra com combustível.

Existem anjos que moram no purgatório. Impacientes, sobem e descem a escada: ora inalam enxofre ora respiram ar condicionado. Estes anjos conhecem tudo: o churrasco do inferno, o maná do céu e o fumeiro do purgatório. O Alberto conhece este mundo e os outros. Quando sinto falta de espanto procuro o Alberto. Pasme-se com uma guitarra elétrica cuja caixa é uma lata de combustível da Sacor, talhada para concertos infernais. Se as chamas desfalecerem, soltam-se uns pingos de gasolina. Com esta inspiração ainda vamos criar uma banda chamada Hellite.

Fiz, há meses, uma comunicação intitulada “Música do Inferno”, concentrada na Idade Média e no Renascimento. Mas existe música infernal na atualidade. Por exemplo, a música dos norte-americanos Slayer, acabados de acabar. Independentemente de gostar ou não da música, interessa-me o fenómeno. Não se ganha em virar a cara, porque pode a cabeça ficar torta. Segue um anúncio e uma música dos Slayer.

Anunciante: Slayer. Título: Giveaway: Enter to Win Repentless Hell-p. Agência: Kolle Rebbe. Alemanha, Janeiro 2020.
Slayer. Hell Awaits / The Antichrist. Hell Awaits. 1985. Live In Anaheim, CA / 2002.

Diabos, diabas e diabinhos

Prenda de Natal. Diabo com diabinho ao ombro. Mistério. Barcelos.

Meia-noite feliz. Nesta freguesia, como em muitas outras, não há missa do galo. Apenas sinos e foguetes. O Natal está passado; agora é todos os dias. Convém dar tempo ao Pai Natal para descer e subir a chaminé. Coube-me um diabo com um diabinho ao ombro, da Mistério, de Barcelos. A minha cara! Há quem me ofereça prendas de que gostam; há, mais raro, quem me ofereça prendas de que gosto. Oferecer-me algo de que gostam e de que gosto é tão improvável como um eclipse solar. Um diabo com um diabinho ao ombro, há quem me conheça! Desertas as “catedrais do consumo” (Jean Baudrillard) e afrouxados os laços de amor (Zygmunt Bauman), regressam os infernos, com diabos e diabas com diabinhos ao colo (ver figuras 2 e 3). Ressurgem os malefícios e as tentações. O pecado.

Provocadora, a Madonna avançou no fio da navalha da moralidade. A primeira vez que a vi foi a cantar Like a Virgin. Vestida de noiva, simula, deitada no palco, algo como um orgasmo. Sustenta-se que a Madonna é polissémica. Mais ou menos polissemia, a Madonna esteve para ser presa no Canadá por causa da coreografia rasteira. Madonna, uma prenda! Segue uma interpretação, ao vivo, em 1984, de Like a Virgin, apresentada na MTV.

Madonna – Like A Virgin (Live MTV VMAs 1984).

Urinar para a lua

Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Doze Provérbios. 1558-1560.

Percorri mil imagens do Pieter Brueghel sem me aperceber dos Doze Provérbios. Quem se aventura sem guia corre o risco de passar ao lado do essencial. Mas tenho os meus rapazes. O mais velho desencantou no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, os ditos Doze Provérbios, de Pieter Brueghel. “Figuras com legenda”. Por exemplo, no quarto fragmento, o homem está sentado entre duas cadeiras, ou seja, não consegue decidir-se; em baixo, no oitavo fragmento, o homem não consegue ver o reflexo do sol na água, ou seja, inveja outras pessoas.

Pieter Bueghel o Velho. Doze provérbios. 1558-1560.

Concluído entre 1558 e 1560, os Doze Provérbios ganham em ser confrontados com os Provérbios Flamengos, obra concluída pela mesma altura, em 1559. Pelo menos, onze dos Doze provérbios constam entre os 112 Provérbios Flamengos.

Pieter Brueghel o Velho. Provérbios Flamengos. 1559.

Carregar na tabela para melhor visualização.

Doze Provérbios e Provérbios Flamengos ,de Brueghel o Velho. Repetições.
Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Provérbios Flamengos. 1559.

Incomoda-me esta ignorância vetusta. “O homem a urinar para a lua” é uma falha no meu repertório. Não conhecia os Doze Provérbios, nem tão pouco relevei tão estranha figura nos Provérbios Flamengos. Faltava, confesso, no meu imaginário um homem a urinar para a lua.

Importa festejar. Com música, naturalmente. Existem muitas canções dedicadas à lua e aos lunáticos: Moon River (Audrey Hepburn), Harvest Moon (Neil Young), Brain Damage (Pink Floyd),  La Luna (Angelo Branduardi), Moonlight  Shadow (Mike Oldfield), Blue Moon (Elvis Priesley), mas, sentimentalmente, opto pela Sonata ao Luar, de Beethoven. Consta entre as músicas que o meu rapaz mais velho mais gosta de tocar. Coloco a versão completa: o terceiro movimento é o meu preferido. Interpretação da ucraniana Valentina Lisitsa

João e Albertino

Beethoven. Piano Sonata No.14 .Opus 27 No.2. Mov 1, 2, 3 (Sonata ao luar). Valentina Lisitsa.

Diablo

Não existe dia mais apropriado do que o dia dos mortos para estrear o trailer do videojogo Diablo IV. Um grotesco de alta qualidade, que produz uma sensação de estranhamento vertiginoso rumo ao inferno. Se é muito sensível, dispense! Se é apenas um pouco sensível, veja só com um olho.

Fernando e Albertino

Diablo IV – Official Announce Cinematic Trailer | “By Three They Come” | BlizzCon 2019. 01/11/2019.

O papa-moscas

Figura 1: Gorleston Psalter, XIVe siècle, British Library.

Na areia, o sol queimou os fusíveis e desactivou a censura. Mau presságio.

Anunciante: Mio Digiwalker. Título: The fly. Agência: Duval Guillaume Brussels. Bélgica, Setembro 2007.

Quando a imaginação ultrapassa, pela realidade, o imaginável, arriscamos colher frutos inesperados tais como o anúncio The fly, da Mio Digiwalker: um disgusto ao jeito dos gracejos da Idade Média, propensos ao humor grotesco e escatológico . As três iluminuras inseridas no artigo testemunham esta inclinação.

Figura 2: Book of hours, Flanders 14th century (Baltimore, The Walters Art Museum, W.88, f. 157r)

Figura 1. O protagonista (um monge?) apresenta-se numa postura despudorada. Parece esperar, porventura, uma mosca.

Figura 2. O músico toca dois instrumentos de sopro ao mesmo tempo. Por cima e por baixo. Lembra a polémica introdução da música polifónica durante a Idade Média.

Figura 3. O corpo humano é percorrido por túneis: o digestivo e, segundo o adágio popular, o auditivo. Num túnel pode-se entrar pelos dois lados, bem como sair.

Figura 3: Book of hours (‘The Maastricht Hours’), Liège 14th century.

À lei de conservação da matéria de Lavoisier (1743-1794), “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, convém acrescentar o princípio da dinâmica do realismo grotesco: nada está parado, tudo se move.

Pelo sim, pelo não

Dollar Shave Club. Manifique. 2019

Homens objectos dançantes. Coreografados a preceito. Muito se tem escrito sobre a representação da mulher na publicidade. Recordo o livro Gender Advertisements, de Erving Goffman (1976). Pelo sim, pelo não, chegou o momento de estudar a representação do homem na publicidade. Com ou sem humor. Com ou sem pelos.

Marca: Dollar Shave Club. Título: Manifique, A Father’s Day Gift. Produção: Biscuit Filmworks, Revolver, Will. Direcção: The Glue Society. Estados Unidos, Junho 2019.

Magic. Jogar aos monstros

Magic. The gathering.

“Il est bien peu de monstres qui méritent la peur que nous en avons.” (André Gide, Les Nouvelles Nourritures, 1935).

Vampiros, lobisomens, serpes, ogres, dragões, harpias, minotauros, demónios, bruxas, papões, cabeçudos, zombies, são figuras recorrentes do imaginário fantástico da humanidade. Afirmam-se como entidades monstruosas e grotescas. A relação com os monstros desafia o nosso entendimento. Wolfgang Kayser (O Grotesco, 1957) define o grotesco, inspirando-se em Sigmund Freud, como estranhamento. O mundo que nos é familiar torna-se estranho, eventualmente ameaçador. “Foge debaixo dos pés”. Com o grotesco ocorre uma desfamiliarização do familiar. Há algo de estranho neste estranhamento. Como conceber as situações em que o estranho se torna familiar? Quem passou anos a fio a ler mangas ou a imergir em videojogos pode avançar-se que as respetivas imagens lhe permanecem estranhas? O Shrek e o Smeagol são estranhos? São uma ternura de brinquedos. Esboça-se uma certa cumplicidade na experiência do estranhamento, na própria configuração do estranho. Um dos principais contributos de Wolfgang Kayser consistiu na concepção do grotesco e do estranhamento como uma relação dinâmica e não como um confronto de essências desencontradas.

Serpe na festa de São João, em Braga.

O Shrek assevera-se mais familiar, menos grotesco, do que o mais mediático dos presidentes da república. Nesta espécie de interacção dialógica acontece um efeito de Coco. Como sublinha Omar Calabrese, a propósito do filme A Coisa (2011), de John Carpenter, há monstros que são vazios e, mais do que disformes, mostram-se informes. Carecem do envolvimento, do “sacrifício”, das vítimas para assumir a missão e ser o que são. Coco, à semelhança do Papão, é um monstro originário de Portugal e da Galiza. “Não é o aspecto do coco mas o que ele faz que assusta a maioria das crianças. O coco é um comedor de criança (um papa-meninos) e um sequestrador. Ele imediatamente devora a criança e não deixa rastro dela ou leva a criança para um lugar sem volta. Mas ele só faz isso às crianças desobedientes (…) O coco toma a forma de qualquer sombra escura e fica (…) de guarda” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Coca_(folclore). Apetece relembrar que “os monstros somos nós”. O fantástico conhece, nos nossos dias, uma exuberância inédita. O jogo Magic, antes com cartas materiais, agora também online, é um caso de sucesso global. Emerge, submerge e reemerge mais forte. Ao ritmo da adesão lúdica e emocional dos jogadores.

Albertino Gonçalves & Fernando Gonçalves.

War of the Spark Official Trailer – Magic: The Gathering.
Magic: The Gathering – Guilds of Ravnica: Official Trailer. 2018.