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Pintarolas carnais

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Baiser de l’Hôtel de Ville. Por Robert Doisneau. 1950.

A crer na publicidade, os Skittles, para além de minúsculos e coloridos, são irresistíveis e sexuados. No anúncio “Romance”, um novo Romeu (ou Cyrano de Bergerac) em vez de versos atira skittles para a janela da donzela, sofregamente engolidos, um a um, por um carrocel grotesco de glutões. O anúncio “Smile” surpreende com um beijo guloso capaz de superar o Beijo de Auguste Rodin ou o Beijo de l’Hôtel de Ville de Robert Doisneau.

Marca: Skittles. Título: Romance. Agência: Adam&eveDDB. Direcção: Harold Einstein. Reino Unido, Janeiro 2017.

Marca: Skittles. Título: Smile. Agência: DDB (Chicago). Estados Unidos, 2013.

A distração da morte

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James Ensor. Pierrot and yellow skeleton. 1925-1930.

Partilhamos a crença de que a morte não desperdiça as ocasiões. Beijo, abraço, riso, dança, espírito, foice, esqueleto, triunfo, a morte não falha. Excepto quando saboreia a cerveja Greene King Ipa. O protagonista sobrevive a uma série de acidentes fatais, graças à cerveja Ipa e à gula da morte. O céu, o purgatório e o inferno podem esperar. Espanta a imagem da morte a beber cerveja num anúncio a cerveja. Desconheço o efeito. Mas a agência McCann Erickson deve saber. A mente humana é arrevesada e presta-se a inversões e associações intempestivas.

Marca: Greene King Ipa. Título: La mort l’attend. Agência: McCann Ericson (London). UK, 2002.

O cru e o cozido

Levi-straussSaiu hoje o anúncio La découverte du feu, da Burger King, segunda empresa de hamburgers em França, logo a seguir à McDonald’s. O anúncio é delirante, recheado com situações hilariantes. O herói descobre o fogo, mas não sabe como o utilizar. Em vias de desistir, dá-se conta, por acaso, que a carne “queimada” tem um cheiro e um sabor maravilhosos. Sublinhe-se que os hamburgers Burger King são os únicos feitos em chamas. Este desvio pela pré-história, pelo fogo e pelos hamburgers inspira-me uma asneira. A divisão da história da humanidade em três eras: a era do cru, a era do cozido e a era do podre. Este disparate é uma homenagem arrevesada a Claude Lévi-Strauss.

Marca: Burger King. Título: La découverte du feu. Agência: Buzzman. Direcção: The Perlorian Brothers. França, Agosto 2016.

Pinguins

J.J. Grandeville. Course de Clocher Conjugal, D'Un Autre Monde. 1844.

J.J. Grandeville. Course de Clocher Conjugal, D’Un Autre Monde. 1844.

O artigo precedente associa os desenhos de Grandville às capas dos discos dos Queen. Apetece-me fabular uma ponte entre os desenhos de Grandville e as capas dos discos dos Penguin Cafe Orchestra. O híbrido de Grandville que passeia, em 1844, na praça da Concorde em Paris parece migrar para as capas dos discos dos Penguin Cafe Orchestra. Têm um certo ar de parentesco.

Estas linhas são uma brincadeira, uma “drôlerie”. Um abuso da atenção apressada. Para remissão, acrescento uma música dos Penguin: Perpetuum Mobile, do álbum Signs of Life (1987).

Penguin Cafe Orchestra. Perpetuum Mobile, Signs of Life. 1987.

 

Obscenidade

Pink  Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Pink Floyd. Atom Heart Mother. 1970.

Há fenómenos que parecem talhados para ilustrar processos semióticos, por exemplo, a sacralização do profano e a profanação do sagrado. O anúncio The Bicky Beef Miracle, da Bicky, destaca-se como um caso exemplar.

Das entranhas de uma vaca saem caixas com hamburgers. Um milagre, admitem o padre e o bispo. Promove-se uma procissão, criam-se imagens “santificadas” da vaca, substituem-se as hóstias por hamburgers aparecidos no ânus do animal. Em suma, assiste-se a uma escalada na sacralização do profano. Por outro lado, reconhecer um milagre num hamburger evacuado, promover uma procissão a uma vaca equiparada a uma santidade e substituir a hóstia pela caixa de hamburger, tudo isto releva de uma profanação do sagrado. Um delírio grotesco com escatologia acintosa. Vale a pena afrontar o público e enojar o espectador?

Esta dialética entre sagrado e profano é corrente no mundo publicitário. Mas também floresce no quotidiano mais banal. Uma anedota, memória da infância, mostra os extremos a que pode conduzir a profanação humorística do sagrado.

A missa estava inusitadamente concorrida. O padre conta as hóstias. Não chegavam. Ordena ao sacristão:
– Vai ao curral, colhe bosta seca, corta às rodelas, pinta-as de branco e traz-mas.
O sacristão assim fez. A missa começa. E a comunhão decorre sem falhas. Entretanto, o Manuel, entre pragas e caretas, mastigava. A mulher, a seu lado, admoestou-o:
– Comporte-se que é o corpo de Cristo!
O Manuel murmurou:
– Foi-me logo calhar a parte do cú.

O processo é similar ao do anúncio da Bicky: sacralização do profano (a bosta) e profanação do sagrado (a hóstia associada ao traseiro).

O anúncio comporta riscos, como, por exemplo, associar o Hamburger Bicky aos intestinos miraculosos de um bovino. A ousadia afasta ou cativa os consumidores? A obscenidade e a escatologia compensam? Polémicas à parte, o anúncio apresenta uma história bem contada com um cocktail de símbolos explosivo.

Jens Mortier, fundador e director criativo da agência mortierbrigade, esclarece:

However, we’re not creating these attention-grabbing campaigns solely as gimmicks or for a quick laugh; the incredible results of our work with Bicky so far shows that we are really striking a note with burger lovers”.

Spike van der Werf, director de Marketing & Inovação da Bicky, prossegue:

“Bicky can be anything, except virtuous. We save the good taste for our 100 per cent Angus burgers. When it comes to our brand communications, we want to create content that act as an adrenaline shot to the heart of our customers. Mortierbrigade is exactly the right partner to help us to tell stories that don’t smell like advertising and, instead, become part of the cultural conversation. This collaboration with Lionel Goldstein fits our brand perfectly well” (http://www.lbbonline.com/news/what-beefy-miracle-is-hiding-in-this-holy-cows-anus/).

Marca: Bicky. Título: The Bicky Beef Miracle. Agência: mortierbrigade. Direcção: Lionel Goldstein. Bélgica, Junho 2016.

Vaca por vaca, prefiro a vaca dos Pink Floyd. Atom Heart Mother (1970) não é dos álbuns mais famosos dos Pink Floyd. E depois? Segue a última faixa do lado A: Remergence.

 

Old Spice: Um Novo Conceito de Publicidade

old-spice-remix-hed-2016A agência Wieden + Kennedy Portland criou para a Old Spice um conceito de publicidade inconfundível. Humor estapafúrdio, sequências alucinantes e personagens hilariantes. Os cenários, a acção e os pormenores sucedem-se grotescos e excessivos. Entre os espectadores, há quem delire e quem se enfade.

O primeiro vídeo, Horrifying Mutant Nightmare Abomination, corresponde a um remix de sete anúncios da Old Spice do ano 2015.

Marca: Old Spice. Título: Horrifying Nightmare Abomination (Remix). Agência: Wieden + Kennedy Portland. USA, Junho de 2016.

Os anúncios da Old Spice nem sempre foram tão excêntricos. Selecciono quatro anúncios antigos, dos anos sessenta aos anos noventa. São machistas: o homem que é homem escolhe Old Spice (ver Not Meant for All Men, 1983); não há mulher que resista ao encanto do perfume (Old Spice Aftershave Lotion, anos sessenta, Mark Of a Man, nos anos setenta); nem sequer a mulher presidente  (Bunker, 1999).

Marca: Old Spice. Título: Old Spice Aftershave Lotion. USA, anos sessenta.

Marca: Old Spice. The Mark of a Man. Anos setenta.

Marca: Old Spice. Título: Not Meant for All Men. 1983.

Marca: Old Spice. Título: Bunker. Agência: Saatchi & Saatchi. Àfrica do Sul. 1999.

Nos anúncios mais recentes, o machismo não desaparece. Mas tudo resulta ridicularizado, incluindo o machismo. O caso muda de figura.

O cão que sabia demais

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Som e imagem excelentes num anúncio bizarro e enigmático. O que contém o pote? O que sabe o cão? Quem compra Special Dog?

Marca: Special Dog. Título: Widow. Agência: DM9DDB. Direcção: Lívia Gama. Brasil, Março 2016.

A moral e o riso

“Sair para fora, cá dentro” é um dos meus lemas preferidos. Graças à Internet, também vou ao Brasil, cá dentro, no âmbito de um projecto aliciante e inovador em torno da moral e do riso.

Para aceder à página original, carregar na imagem ou no seguinte endereço: http://www.uefs.br/modules/noticias/article.php?storyid=182.

A Moral e o Riso

Nem apocalípticos, nem integrados

Chris Cunningham

Chris Cunningham

Retomando o artigo precedente, as cabeças boquiabertas grotescas do vídeo Magma,dos Dvein, lembram muitas outras obras. Por exemplo, o vídeo musical Come To Daddy (1997), de Chris Cunningham, para os Aphex Twin. Desconcertante. Trata-se de um vídeo musical que se tornou um clássico, tal como outros vídeos dirigidos por Chris Cunningham: Only You (1998) dos Portishead, Frozen (1998) da Madonna e All is Full of Love (1999) da Bjork.

Umberto Eco

Umberto Eco

Por um tempo, convém distrair a memória para dar oportunidade a outros pensamentos. Para não cair na vertigem das listas (Umberto Eco, 2009). Gosto do Umberto Eco. Autor de uma obra vasta e diversificada. Felizmente, não se deixou seduzir pela moda de se concentrar em uma ou duas ideias. Apesar de ser um grande erudito, não cita apenas autores germânicos. Frequentava os arquivos, mas não dispensava observar o mundo da vida (ver, por exemplo, Viagem na Irrealidade Quotidiana, de 1983). Perdemos um sábio! Não faltam, porém, escritores de artigos e mestres em infografia burocrática. A minha mulher ofereceu-me, há anos, A Vertigem das Listas e o meu filho ofereceu-me, há meses, o último livro do Umberto Eco: O Número Zero (2015). Conhecem bem as minhas taras.

Aphex Twin. Come To Daddy. Dir. Chris Cunningham. 1997.

Pisar o risco

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A morte é central no imaginário grotesco. A gravidez e o nascimento, também. Multiplicam-se os anúncios que recorrem a estes temas. Umas vezes, aproximando-os, como no anúncio Champagne da XBOX (ver O parto na modernidade avançada ), outras, separando-os, como no anúncio Ultrasound, da Doritos, para o Superbowl. Gravidez e parto, sem morte, mas com gula. O apetite excessivo associado à gravidez; o apetite deslocado do pai; o apetite prodigioso de bebé, no ventre da mãe. Tudo possível graças às maravilhas mágicas da técnica. O anúncio mergulha-nos no âmago do grotesco: a gravidez, o nascimento, a gula, o corpo e a técnica. Faltam, por exemplo, a morte, a religião e o poder. Alguém anda a saltitar nos limiares da conveniência? Trata-se de uma obsessão do grotesco: pisar o risco.

Marca: Doritos. Título: Ultrasound. Direcção: Peter Carstairs. Austrália, 2016.