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Esperança de vida e desigualdade perante a morte

Praga de San Vito. Epidemia de dança de 1518

Somos iguais perante a morte? A resposta parece consensual. Será? Atente-se no gráfico 1, que incide sobre a variação da esperança de vida aos 35 anos dos homens em França, entre 2012 e 2016, em função do nível de vida e da escolaridade. Da leitura do gráfico, que se proporciona reter?

Fonte: Insee-DGFIP-Cnaf-Cnav-CCMSA, Échantillon démographique permanent. Extraído de Nathalie Blanpain, L’espérance de vie par niveau de vie : chez les hommes, 13 ans d’écart entre les plus aisés et les plus modestes, INSEE, 2018 : https://www.insee.fr/fr/statistiques/3319895.

A esperança de vida muda consoante o nível de vida. Seja qual for a escolaridade, a esperança de vida aumenta com o nível de vida. Quando os rendimentos passam de 1000 para 3500 euros, a esperança de vida sobe, por exemplo, nas pessoas sem diplomas, 7 anos, de 38.9  para 45,9 anos e naqueles que têm ensino superior, sobe 8.5 anos, de 41.8 para 50.3 anos. A idade da morte depende do nível de vida.

A esperança de vida muda, também, consoante a escolaridade. Seja qual for o nível de rendimentos, a esperança de vida aumenta com a escolaridade. Para um mesmo nível de rendimentos, por exemplo 2000 euros, a esperança de vida sobe de 44, nas pessoas sem diploma, para 47.8 anos, naquelas que têm o ensino superior. No caso de um nível de rendimentos de 3500 euros, a esperança de vida sobe, respetivamente, de 45,9 para 50,3 anos. A idade da morte depende da escolaridade.

Gosto de contrariar. Como não consigo contrariar os outros, contrario-me a mim próprio. Os dados sobre a esperança de vida, o nível de rendimentos e a escolaridade não evidenciam a desigualdade perante a morte mas a desigualdade perante a vida.

Artes florescentes

Jean-Philippe Rameau. Les Sauvages (Les Indes Galantes). 1735. Coreografia de Blanca Li. Bailado : Les Arts Florissants.

Acordei rococó. Os artigos de hoje convocam o estilo. Antes de mais, boa disposição: Les Sauvages (Les Indes Galantes, 1735), de Jean-Philippe Rameau, com coreografia de Blanca Li, interpretada por Les Arts Florissants.

No ensino à distância, o diálogo é sui generis. A reação, frequentemente dessincronizada, ou é escrita ou é falada. Mas reduzida. A comunicação não verbal é rara. Imagina-se! Por exemplo, os alunos a dançar.

Jean-Philippe Rameau. Les Sauvages (Les Indes Galantes). 1735. Coreografia de Blanca Li. Bailado : Les Arts Florissants.

Saint Germain

Maçaneta cacto: https://www.facebook.com/isabel.a.silva.5030/posts/10219668670740087

Em tempo de epidemia, arrumar a casa é uma tentação. A cave, com 180m2 de tralha, é uma prioridade. Graças ao meu sentido apurado de organização, uma quinzena de cds originais andava submersa no caos dos bens dispensados:  Air, Enya, Kraftwerk, Serge Gainsbourg, Kate Bush, Goldfrapp, Luz Casal, Mozart e o único cd que possuo do Saint Germain. Saint Germain tem uma música muito própria entre o Acid Jazz, a Música Eletrónica e o Nu Jazz. Lembra alguns músicos nórdicos, nomeadamente o norueguês Nills Petter Molvaer. Pressinto que estou a acertar ao lado dos vossos gostos. A culpa é da arrumação.

Saint Germain. Sure Thing. Tourist. 2000.
Saint Germain. Rose Rouge. Tourist. 2000.
Saint Germain. Montego Bay Spleen. Tourist. 2000.

Duo das flores

Leo Delibes.

Há músicas que todos conhecem e que quase todos desconhecem o autor. É o caso de Duo des Fleurs (da ópera Lakmé) e Pizzicato (do bailado Sylvia), de Léo Delibes (1836-1891). Delibes compôs outras obras dignas de atenção. Por exemplo, Où va la jeune Hindoue (ópera Lakmé) e Fantasia sobre Jean de Nivelle (ópera Jean de Nivelle).

Léo Delibes. Duo des Fleurs. Ópera Lakmé. 1883. Intérpretes : Anna Netrebko & Elina Garanca. Baden-Baden Opera Gala 2007.
Léo Delibes. Pizzicato. Bailado Sylvia. 1876. Salgótarjáni Szimfonikus Zenekar, 2008.
Léo Delibes. Où va la jeune Hindoue. Ópera Lakmé. 1883. Intérprete : Natalie Dessay. L’Orchestre Colonne. 1995.
Léo Delibes. Fantasia sobre Jean de Nivelle. Ópera Jean de Nivelle. 1880. Intérprete : José Ananias. Orquestra de Câmara Villa-Lobos.

Depois do fim

Legends of the Fall

Pensei colocar uma música do Rachmaninov. Passei algum tempo a decidir a obra: concerto No.2 in C minor, op.18 [Adagio sostenuto]. Passei ainda mais tempo a escolher a interpretação: Hélène Grimaud (piano), Claudio Abbado (direcção). Tive um pressentimento: já coloquei Rachmaninov no Tendências do Imaginário? Em 31 de Agosto de 2019: a mesma música e a mesma interpretação. Uma perda de tempo? Não, aprendi que sou previsível.

Hoje, tomei banho em mel. Só histórias de amor! Daquelas que terminam mas continuam. Por exemplo, o filme Love Story (Oscar em 1970). Cinquenta anos depois, ainda me comove. Segue o trailer do filme. Francis Lai, o autor, compôs cerca de sessenta músicas de filmes, tais como Un Homme et Une Femme (1966), Emmanuelle (1975) e Bilitis (1977).

Francis Lai lembra-me James Hormer, compositor de uma centena de músicas de filmes, tais como  An American Tail (1986), Field of Dreams (1989), Glory (1989), Braveheart (1995) e Titanic (1997). Acrescento a música do filme Legends of the Fall (1995).

Francis Lai. Love Story. 1970.
James Horner. Legends of the Fall – The Ludlows. 1995.

Sentimento

Man Ray. Ingres Violin. 1924.

“Les sanglots longs de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone” (Paul Verlaine, Chanson d’Automne, 1866).

Ando, há meio século, com o Emmanuel, de Michel Colombier, ao colo. Nenhuma versão substitui a música original (ver https://tendimag.com/2017/10/19/a-danca-da-consciencia/). Mas gosto do violoncelo bem tocado. Por que não o Emmanuel? São cordas, cordas graves, que tremem e gemem.

Michel Colombier. Emmanuel. Wings (1971). Intérprete : Kristina Cooper.

Chanson d’Automne (Paul Verlaine)

Les sanglots longs

Des violons

De l’automne

Blessent mon cœur

D’une langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne l’heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure;

Et je m’en vais

Au vent mauvais

Qui m’emporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

A canção do outono (Paul Verlaine; trad. Guilherme de Almeida)

Estes lamentos

Dos violões lentos

Do outono

Enchem minha alma

De uma onda calma

De sono.

E soluçando,

Pálido, quando

Soa a hora,

Recordo todos

Os dias doidos

De outrora.

E vou à toa

No ar mau que voa.

Que importa?

Vou pela vida,

Folha caída

E morta.

Falsificação

Réplica de um elmo encontrado em Sutton Hoo, na sepultura de um líder anglo-saxão, datado provavelmente de 620.

Existem falsidades disfarçadas que representam tão bem a verdade que seria errado não se deixar enganar (La Rochefoucauld. Réflexions ou sentences et maximes morales. 1664).

A Falsificação de informação e de mercadorias revela-se preocupante, atendendo, sobretudo, às características da circulação actual de bens e notícias. Comporta consequências mais graves do que muitas gravidades em voga. Criada em 1985, em França, e sediada em Paris, Repórteres Sem Fronteiras é uma organização internacional estimável, num mundo “armadilhado” (Isabelle Mayereau).

Anunciante: Reporters Sans Frontières / RSF. Título: Fight Fake News. Agência: BETC (Paris). França, Maio 2018.
Isabelle Mayereau. Piège à rats. 1982.

Piège à rats
Quand on ne sait pas
Quand on ne veut pas
C’est qu’on n’ sait pas où l’on va
On regarde là
On regarde pas
Parce qu’on n’ sait pas où l’on va
On sait pas
Quand on ne dit pas
Quand on ne dit plus
C’est qu’on a perdu le droit
De placer sa voix
Solitaire et nue
Sur l’échiquier des grands rois
Des grands rois
On se dit qu’on a
Deux chances sur trois
De tomber dans l’ piège à rats
Tomber
Puis, on joue sa vie
À “bouffe pasn merci”
À quoi ça sert une vie?
Puisque les canons
Ont fait la chanson
Pourquoi parler de raison
De raison?
Quand on ne voit pas
Quand on ne voit plus
C’est qu’on a perdu le choix
Le choix de sa vie
Le choix de ses mots
Faut partir avant l’ennui
Partir
Partir
Quand on ne sait pas
Quand on ne veut pas
On regarde là
On regarde pas
Parce qu’on n’ sait pas où l’on va
Je n’ sais pas

Deserdados do futuro

Polorum regina. Llibre Vermell de Monserrat. Iluminura. Séc. XIV.

Reservei a música medieval Polorum Regina para cartão de boas festas. Mas não consigo guardar nada para o futuro. Colide com a minha identidade: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje. Sou uma aberração. Se não consigo guardar o futuro, tão pouco acerto no presente. As datas baralham-se. O meu calendário é de borracha: estica, encolhe e dobra. Polícrono (Edward T. Hall), não me dou com a agenda. Nunca usei. O que me prega partidas. Um dia, vou de Braga a Melgaço para a inauguração do Espaço Memória e Fronteira. Encontrei apenas alguns trabalhadores. A inauguração era na semana seguinte. Noutra ocasião, fui à inauguração de uma exposição na Casa Museu de Monção. À porta, apenas o funcionário: Então Senhor Professor o que o traz por cá? Era, também, na semana seguinte. Já aconteceu preparar-me para dar aula num feriado. Isto é o pão nosso de cada dia, mas continuo sem agenda e pouca memória. Não tem piada, mas é o meu lado Peter Pan, “a criança que nunca cresceu”. Acabei uns textos para o livro que, se não acelero, vai ser póstumo. Insiste em não se fazer sozinho. A publicação desses textos é uma tentação. Aposto que sairão um dia, antes da hora, nem que seja numa rotunda.

Mosteiro de Monserrat. Espanha.

A música Polorum Regina integra uma compilação de canções, o Llibre Vermell, do final do séc. XIV, guardada no Mosteiro de Monserrat, perto de Barcelona. É com respeito e admiração que imagino os peregrinos a cantar a Nossa Senhora: “Antes do parto, virgem fecundada por Deus, sempre permaneceste inviolada, estrela matutina absolve-nos”. Gente rude que não teve o privilégio de conhecer a civilização e a racionalização do Ocidente, nem a modernidade, a pós-modernidade, a hipermodernidade, a sobremodernidade, a modernidade tardia, a globalização, o pós-colonialismo, a sociedade de massas, a sociedade de consumo e a sociedade digital. Com a aceleração, depressa seremos pós-virtuais. E, no entanto, “os deserdados do futuro” mostram-se estranha e magistralmente humanos. Encaro-os com consideração e ternura. Deixo a ironia e o cinismo para os meus conterrâneos estacionados à porta do amanhã. Resquícios meus de um romantismo retrógrado.

Existem muitas interpretações da canção Polorum Regina. Algumas lembram mais um concerto do que uma canção de peregrinos. Outras são cantadas por uma única voz; atrevo-me imaginar os peregrinos a cantar em coro. Optei pela interpretação do Ensemble Obsidienne.

Obsidienne, ensemble vocal et instrumental. Polorum Regina. Livre Vermeil de Monserrat. Séc. XIV.

Bem-estar animal

« Na produção de ovos, as galinhas poedeiras são sistematicamente abatidas por volta dos 18 meses, idade a partir da qual se tornam menos produtivas, logo menos rentáveis, quando podem viver, em média, 6 anos (…) A start-up compromete-se a alimentá-las, alojá-las, cuidar delas, durante toda a sua vida graças à venda dos ovos Poulehouse” (Poulehouse).

O anúncio L’Oeuf qui ne tue pas la poule, da Poulehouse, é uma iniciativa ética e estética notável. Um belo gesto, uma bela história e uma bela animação. Confesso não conhecer nenhum criador de galinhas que espere pela sua morte natural. Aguarda-se pelo direito à vida e à reforma dos frangos.

Há animais felizes. “A Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA” (Alto Minho TV). Têm música ambiente, massagens, espaços diversificados… Cabras descontraídas dão mais e melhor leite.

“As cerca de 400 cabras são massajadas e ouvem música relaxante, num autêntico ‘parque anti- stress’. O agradecimento é uma média diária de 250 litros de leite de qualidade, que originam seis variedades de queijo” (Alto Minho TV).

Alto Minho TV. Queijaria de Melgaço cria cabras em ambiente de SPA. Maio 2017.

Técnica e criatividade há sessenta anos

Monsavon. 1955.

Existem pessoas lindas que dão humanidade ao mundo, pessoas belas que fazem do mundo um palco, pessoas boas que fazem o bem sem olhar a quem e pessoas criativas que fazem anúncios lindos, belos e bons. Existem, ainda, belezas mascaradas numa paródia de Sergio Leone. Entre o anúncio Pure Beauté, da Monsavon (1955), e o anúncio Very Irresistible L’Eau en Rose, da Givenchy (2014), distam 59 anos. Duração suficiente para esboçar uma ideia da evolução da técnica e da criatividade na publicidade.

Marca: Monsavon. Título: Pure Beauté. Agência: Publicis. Direcção: Alexeieff. França, 1955.
Marca: Givenchy. Título: Very Irresistible L’Eau en Rose. Agência: DDB Luxe. Direcção: Cedric Klappisch.