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Por um nome

Reggiani

Serge Reggiani

Acaba de sair o anúncio “El nacimiento de un nombre”, da revista Hahora Mamá. É longo, lento e fala ao coração. Confrontada com costume de atribuir o nome das bisavós às bebés, a bisavó Haydée muda o nome para Matilda, o nome por todos desejado. Pela duração, pela lentidão e pelo enredo, “El nacimiento de un nombre” lembra alguns anúncios orientais. Certo é que a imaginação dos publicitários não tem limites.

A canção francesa tem particular apetência pelo tema da velhice e do envelhecimento. Retenho a Sarah de Serge Reggiani (Album nº2, 1967).

Marca : Ahora Mama. Título : El nacimiento de un nombre. Agência: Ogilvy & Mather Argentina. Direcção: Los Clan. Argentina, Abril 2’017.

Serge Reggiani. Sarah. Album nº2. 1967.

Sermão de Joana d’Arc às pombas

Sauvez la France

Lá vai uma, lá vão duas, três pombas a descansar
Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a agarrar
(José Afonso, Avenida de Angola, 1970).

Sauvez la France é um anúncio contra a abstenção nas eleições presidenciais francesas do dia 23 de Abril de 2017. Convoca o sentimento de identidade nacional. Mas, que identidade nacional? Que versão? Partilhada por que segmento da população? Existem várias interpretações da identidade nacional francesa. Não o admitir significa esquecer a história do país, atrofiar o presente e não estar preparado para o futuro. “Salvar a França”, de quê e de quem? Do voto? Do “inimigo interno”? Dos próprios franceses?

Este anúncio combate a abstenção. É empolgante. É também ideologicamente implicado (engagé). Reconheço-me na imagem da França veiculada pelo anúncio. Mas não ignoro que uma parte muito expressiva dos cidadãos franceses não se revê em algumas das frases compiladas. Duvido, cada vez mais, que alguém ganhe em se apoderar de uma identidade nacional. Quando pensa que ganha, já está a perder. As últimas frases vêm na crista da onda do texto; são cativantes, mas falsas. Se existe tanta gente empenhada em jardinar as identidades nacionais, é porque a horta rende.

Anunciante: Collectif Sauvez la France. Título: Sauvez la France. França, Abril 2017.

José Afonso. Avenida de Angola. Traz outro amigo também. 1970.

Optimismo

Carrefour

Perco-me nas origens, mas não consigo recomeçar. Este anúncio não me assenta bem, é optimista. Mas gosto de o ver e, ainda mais, de o ouvir:
“Ensinei aos homens a ver o copo meio cheio, mas, sobretudo, a poder enchê-lo”.
“Não me recuso a ver a infelicidade, mas recuso ver uma fatalidade”.

Marca: Carrefour. Título: Je suis l’optimisme. Agência: Publicis K4. França, Março 2016.

Os Indígenas do Paraíso Perdido

Mongólia

Uma bela natureza num belo filme. Todos ansiamos pelo paraíso perdido. Para os lados da Mongólia, existem dois indígenas munidos de instagram para salvaguarda ecológica. Lembram os “embaixadores” das colónias na Grande Exposição do Mundo Português, de 1940, o álbum Tintin no Gongo, o livro A Nação nas malhas da sua identidade, de Luís Cunha, e o filme Os Deuses Devem Estar Loucos. Águas passadas movem moinhos; a nossa atracção pelo genuíno, pelo outro idealizado, também. A figura do indígena guardião da natureza, que com ela quase se confunde, é recorrente na publicidade.

Marca: Crosscall. Título: Nature’s eyes. Agência: Leo Burnett. Direcção: Fabien Ecochard. França, Março 2017.

A Grande Exposição do Mundo Português (1940). Realizador: António Lopes Ribeiro.

As mercadorias do amor

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L’amour consiste à être bête ensemble (o amor consiste em ser estúpido em conjunto; Paul Valéry, Monsieur Teste, 1896).

Um anúncio centrado numa relação heterossexual! Um romance num mundo recheado de mercadorias. L’amour, l’amour, l’amour… A música é meio anúncio. Uma pequena amostra de romantismo francês.

Marca: Intermarché. Título: L’amour, l’amour, l’amour. Agência: Romance. Direcção: Katia Lewkowicz. França, Março 2017.

Francis Lai. Un homme et une femme. Claude Lelouch. Un Homme et une femme. 1966.

 

 

Inexoravelmente: a mulher e o desporto

Nescau Strong girls

De onde sopra o vento? As mensagens repetem-se e reverberam no pensamento. A publicidade insiste no valor ímpar do sexo feminino. O desporto também ajuda. Segundo a Nescau, produz mulheres “fortes e confiantes”:

“Campaign, created by Ogilvy Brazil, seeks to empower young women through sport. The idea came up after NESCAU® carried out a survey on girls’ attitude towards sports activities, stressing the importance of sports practice to boost confidence. The aim is to raise consumers’ awareness of the role of sport in young women’s development and ability to face the challenges of adult life. The main idea behind the movie is to show that, much in the same way sports turn boys into men, it can also turn girls into strong and confident women”.

Já tenho saudades das minhas lembranças. Acrescento uma raridade: Isabelle Mayereau, Inexorablement (Déconfiture, 1979).

Marca: Nescau. Título: Strong girls. Agência: Ogilvy & Matter Brasil, Rio do Janeiro. Direcção: Daniel Lombardi. Brasil, Março 2017.

Isabelle Mayereau. Inexorablement. Déconfiture. 1979.

Mulheres incríveis

Contrex

“Nós somos invencíveis. Nada nem ninguém nos pode parar. Não há limites àquilo que podemos realizar. Marchamos sem armadura, sem estrelas nos nossos ombros. Ninguém nos obriga, mas ninguém nos pode impedir. Porque, sim, nós somos invencíveis. Mas não o nosso corpo. Dá-lhe todos os dias os minerais de que precisa: cálcio, magnésio, Contrex. O vosso corpo é a favor!”

O anúncio “Nous sommes invencibles”, da Contrex, representa uma inovação na imagem de marca da empresa. O foco são as mulheres, mas já não se fala de “elegância”, a Meca peregrinada durante décadas. Quem se atem às palavras julga tratar-se de um anime ou de um hino de samurais. Limitar a interpretação a este tópico seria injusto. Tomar a árvore, delirante, pele floresta. As imagens apresentam-se em dissonância com as palavras: corpos esgotados e desalentados. O anúncio é um poema de palavras e imagens. A alma invencível mora num corpo vencido. Só um druida pode acudir ao desequilíbrio. Assim como a poção mágica de Panoramix dá força a Axtérix, a água de Contrex dá potência ao corpo das mulheres. Resultado: uma alma invencível em corpo inabalável.

Marca: Contrex. Título: Nous sommes invencibles. Agência: Marcel. França, Março 2017.

O post da meia noite

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Meia noite, na parvónia voam em vassouras as teclas de mau agoiro. No ecrã, surge, repescado e apressado, um mini-post.

A citröen é uma referência na publicidade. O povo francês tem sentido de humor, excelentes mimos (e.g. Marcel Marceau), cineastas (e.g. Jacques Tati) e actores (e.g. Fernandel). Este anúncio não renega a tradição.

Marca: Citroen. Título: Bip bip. Agência: H. Direcção: Thorsten Herken. França, 2011.

 

Milagres esféricos

Canal + L'amnésique

Raras são as realidades que nos mobilizam tanto como o futebol. Mobiliza o corpo, a alma e o resto. Uma comunhão prodigiosa. A bola faz milagres, inspira os apóstolos e consagra as estrelas, como Pauleta. Nem sequer falta “a mãozinha de Deus”. Devolver a memória a um amnésico é a menor das proezas.

Marca: Canal +. Título: L’amnésique. Agência: BETC Paris. França, Fevereiro 2017.

Fazer política por outros meios

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« Todas as análises políticas, económicas e climáticas tendem a revelar que a terra gira no sentido do inferno” (Marc Lévy, 2004, Sept Jours pour une éternité, Paris, Robert Laffont, p. 19).

Os três candidatos às eleições presidenciais francesas com mais intenções de voto nas sondagens são alvo de suspeitas e acusações:

« Marine le Pen, presidente do Front Nacional, é indigitada em três casos politico-financeiros: os assistentes europeus, o financiamento das campanhas e a subavaliação do seu património” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/02/les-trois-affaires-qui-menacent-marine-le-pen-et-le-front-national_5073473_4355770.html).

“M. Macron é suspeito de ter utilizado os recursos do ministério da economia para preparar a sua candidatura à eleição presidencial no início do ano 2016 (…) Estas alegações fundamentam-se em informações fornecidas pelos jornalistas Marion L’Hour e Frédéric Says. No seu livro Dans l’enfer de Bercy (JC Lattès), lançado no dia 25 de Janeiro de 2017, afirmam que o ministro da economia “utilizou, para si, 80% do pacote anual das despesas de representação atribuídas ao seu ministério”  (pelo menos 120 000 dos 150 000 euros) antes da sua demissão do governo no dia 30 de Agosto de 2016” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/03/emmanuel-macron-peut-il-etre-inquiete-dans-l-affaire-des-frais-de-bouche_5074081_4355770.html).

François Fillon é suspeito de “desvio de fundos públicos, abuso de bens sociais, tráfico de influências… Não obstante as suas explicações, o candidato dos Republicanos não dissipou as zonas de sombra (…) O candidato dos Republicanos para as eleições presidenciais (…) foi duramente atingido pelas acusações de emprego fictício da mulher, publicadas no dia 25 de Janeiro pelo jornal Le Canard enchaîné” (http://www.lemonde.fr/les-decodeurs/article/2017/02/01/les-affaires-fillon-pour-ceux-qui-n-ont-rien-suivi_5072939_4355770.html#3oFpFBru0DQsHsZg.99).

Nos três casos, os acusadores são jornalistas, com destaque para o jornal Le Canard enchaîné. Sob suspeita, os candidatos não serão provavelmente julgados antes das eleições. O povo francês descobre-se refém desta justiça oportunista: a acusação é formulada em período eleitoral ou pré-eleitoral.

Entretanto, segundo uma sondagem recente (Odoxa, 1 e 2 de março), Emmanuel Macron tem 27% de intenções de voto, Marine le Pen, 25,5% e François Fillon, 19%. Os três somam 71,5% das intenções de voto.

Face a este cenário, sinto-me numa situação de duplo vínculo, desafiado a fazer surf num pântano. Como o burro de Burídan, não sei para que lado me virar. Os políticos desonestos devem ser denunciados, com direito a julgamento segundo as normas e os princípios do direito. Os jornalistas não são juízes nem procuradores. Serão, quando muito, testemunhas. Quanto ao povo, não é jornalista, nem juiz, nem procurador.

Este cenário é uma mixórdia infestante. Na presente conjuntura jornalístico-jurídico-política, tudo parece misturar-se, tudo parece apodrecer. A propensão para amalgamar política, justiça, jornalismo, moral e ciência tem-se revelado uma ameaça tóxica para a democracia. Os exemplos não datam de agora. Acodem à memória o período de Terror da Revolução Francesa, a Rússia de Estaline ou a Alemanha de Hitler. Bem como os regimes das figuras de Estado constantes no anúncio Candel, da Amnistia Internacional. Exemplos não faltam!

As eleições são políticas e assim devem continuar. Os candidatos são políticos, não são santos. Nunca votei em santos! Se quiser devotar, devoto-me a Santa Maria Madalena, a penitente. Duvido que os políticos que mais aprecio tenham lugar cativo no céu. “Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra'” (João: 8.1-11). Em política, não temo as prostitutas, temo os atiradores de pedras. Desde Adão, somos feitos de um barro que é propenso a defeitos. Basta escarafunchar para encontrar ruindade. Não me dêem políticos desonestos, não me dêem instituições fáceis de abusar, não me dêem paladinos do bem! Dêem-me o que não tenho! E não soprem tanto na vela da democracia.

Anunciante: Amnesty International. Título: Candle. Agência: TBWA (Paris). França, 2005.