Tag Archive | França

O império das mercadorias

Coca-Cola. Open that Coca-Cola. 2021.

A Coca-Cola oferece-se como uma poção mágica (vídeo 1). À semelhança da beberagem do Panoramix (vídeo 2). A primeira resulta numa dança acelerada e colorida, a segunda, numa pancadaria ciclópica. Os objetos, as mercadorias, apoderam-se de nós e transfiguram-nos. Atente-se nos sofás Snug (vídeo 3).

Marca: Coca-Cola. Título: Open that Coca-Cola. Agência: Wieden + Kennedy (London). Direção: Los Perez. Reino Unido, Fevereiro 2021.
Astérix : Le Secret de la Potion Magique – L’Attaque du Village. Excerto. França, 2018.
Marca: Snug. Título: New Realm of Cosy. Agência: Wax/On. Direção: Thomas Ormonde. Reino Unido, Fevereiro 2021.

O medo e o racismo

É difícil discorrer sobre o racismo sem incorrer em contradições.  René Gallissot fala de Misère de l’Antiracisme (Paris, Editions de l’Arcantère, 1985). O anúncio Démasquons la Peur, da associação Licra, merece particular atenção. Em primeiro lugar, o morphing permite revelar a diversidade e a plasticidade humanas. Em segundo lugar, o recurso ao preto e branco propicia o esbatimento das cores e a acentuação dos contrastes. O discurso lembra uma árvore de palavras: alia a abrangência troncal à especificação dos ramos. O tópico do medo é matricial: “O racismo é o medo da diferença” (Franck Ntasamara).

Anunciante: Licra. Título: Démasquons la Peur. Agência: Publicis Conseil. Direção: Akim Laouar. França, fevereiro 2021.

Marie Laforêt

Marie Laforêt. 1974, France

Je ne m’écoute jamais. Là, j’ai été obligée de le faire pour effectuer le choix de mes chansons et ça été un vrai calvaire. De toute façon, je déteste me voir ou m’entendre (Interview Télé Star, 2005, « Marie Laforêt : Je déteste m’entendre chanter » , Propos recueillis par Fabrice Dupreuilh)

Tanta doçura, tanto laço, tanto amor. Abraça-se o tronco e sorve-se a seiva. As três canções que seguem não cantam o Natal, mas são melodiosas e sentimentais. São dos anos sessenta e setenta, canções de amor, procura e separação. Por Marie Laforêt, uma das meninas bonitas da canção francesa.

Marie Laforêt. Je voudrais tant que tu comprennes. 1966.
Marie Laforêt. Je suis folle de vous. Chansons à aimer. 1968.
Marie Laforêt. Viens Viens. 1973.

Bom Natal!

Georges De Latour. Adoration de bergers. 1645.

Petit Papa Noël (1946), de Tino Rossi, é uma das canções preferidas dos emigrantes portugueses em França nas décadas de 50 e 60. Bom Natal, todos os dias!

Tino Rossi. Petit Papa Noël. 1946.

Dior

John William Waterhouse. Eco e Narciso. 1903.

“Surrealist images manage to make visible what is in itself invisible. I’m interested in mystery and magic, which are also a way of exorcising uncertainty about the future” (Maria Grazia Chiuri, responsável pela coleção de alta costura de outono-inverno 2020-2021 da Dior; https://www.dior.com/en_pt/womens-fashion/haute-couture-shows/fall-winter-2020-2021-haute-couture-collection).

Lento, longo e luxuoso, este vídeo da Dior é uma pérola. A viagem da alta costura pelos mundos da mitologia e da arte. Uma aposta na intertextualidade. Convoca figuras míticas e obras de arte. Recupera, por exemplo, as iluminuras medievais com mulheres nuas a sair de conchas ou o Narciso da pintura Eco e Narciso, de John William Waterhouse (1903). Quinze minutos de estética envolvente. “Alta costura, alta cultura”.

A Beatriz enviou-me este conto da Dior. A seguir a mim, é a Beatriz quem mais tem escrito no Tendências do Imaginário. Centenas de comentários. Não sei como lhe agradecer.

Dior. Le Mythe Dior. Dior Autumn-Winter 2020-2021 Haute Couture. Direção: Matteo Garrone. Julho 2020.

Um milhão de visualizações

As recordações são as nossas forças (Victor Hugo).

René Magritte. Golconda. 1953.

Existem números e números. Por exemplo, os números redondos, especialmente aqueles que coincidem com o acréscimo de um dígito: uma dezena, uma centena, um milhar, um milhão… Mas existem outros. Alguns parecem deter uma espécie de hegemonia simbólica. Por exemplo, o número três. Afirma-se decisivo na visão tripartida do mundo dos indo-europeus (Georges Dumézil. 1968. Mythe et épopée – L’Idéologie des trois fonctions dans les épopées des peuples Indo-européens. Paris: Gallimard ). Georg Simmel sustenta que a tríade representa, mais do que a díade,  a equação efetiva da sociedade (Soziologie, 1908). Destaco a Santíssima Trindade, as três ordens feudais, os três poderes da organização política, os três porquinhos, os três mosqueteiros que, afinal, eram quatro… Enfim, a conta que Deus fez.

Mas regressemos aos números redondos. O Tendências do Imaginário acaba de ultrapassar um milhão de visualizações. A comemoração é arbitrária. Certo é que esperei uma década por este momento. Vou colocar os Queen, abrir uma cerveja e acender um cigarro. E agradecer as visitas.

Tabela 1. Visualizações do Tendências do Imaginário por país. 07.12.2020.

Um milhão (1 000 028) de visualizações; 331 670 visitas. Três visualizações por visita. Cinco países concentram mais de quatro quintos (83%) das visualizações: Brasil, 40%; Portugal, 24%; Estados-Unidos, 8%; Espanha, 7%; e França, 4% (ver Tabela 1). Mas a componente mais excessiva do Tendências do Imaginário reside nos artigos: 3 267.  Quase um artigo por dia (0.95). No topo das visualizações, destacam-se, curiosamente, os mais extensos e densos, porventura, os mais originais (ver tabela 2).

Tabela 2.Artigos do Tendências do Imaginário mais visualizados.07.12.2020.

O que começou como capricho transformou-se num vício. Nos últimos dez anos, artigo a artigo, o Tendências do Imaginário tornou-se o blogue do meu envelhecimento. O inverno do meu ensimesmamento.

Escrever no Tendências do Imaginário é uma experiência estranha, senão perversa: o autor escreve para centenas de pessoas que, literalmente, desconhece. Uma massa incógnita. A tentação é de o escritor e o leitor se confundirem, com a mediação numérica e abstrata do “público”. Um excesso de solidão e de reflexividade. Um excesso de ilusão. Eremitério digital.

Podia escolher um anúncio, um vídeo ou uma imagem marcante do Tendências do Imaginário para assinalar o momento. Interessa, porém, prosseguir caminho, embora com os olhos no retrovisor. Acender velas na memória. A vela de hoje é Judy Collins. Duas canções: Send in the clowns e, com Leonard Cohen, Suzanne. Nem tudo são rosas: o pai de Judy Collins era cego e o filho único suicidou-se. Acendo velas na memória, com os olhos cansados, cansados do fogo-de-artifício pós-moderno. Vou festejar! Com o rato, o teclado e o caixote do lixo. Uma orgia biomecanóide.

Judy Collins. Send in the Clowns. Judith. 1975. Ao vivo em 1976.
Judy Collins & Leonard Cohen. Suzanne. Ao vivo em 1976.

A deriva do gosto

Andy Wahrol. Campbell’s Soup Complete Portfolio II. 1969.Aldi

“Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse não sei quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o mundo inteiro.
Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado” (Blaise Pascal. Pensamentos).

É fenómeno antigo mas sempre surpreendente: conversar sobre nada com muito interesse. É impressionante! Uma hora, duas horas, a pastar palavras! Para além da conversa fiada, está na moda promover experiências com seres humanos. A estes apanhados chamam testes. Confrontados com o mesmo produto, rotulado com preços distintos, as pessoas escolhem o mais caro. E se, em vez de preços, fossem marcas? E se um estivesse colocado ao nível dos joelhos, outro ao nível da cintura e o terceiro ao nível do peito? Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto… Os seres humanos não são racionais, mas têm as suas lógicas (Vilfredo Pareto; Max Weber).

Marca: Aldi. Título: The Real Surprise of Christmas. Agência: Ogilvy, Paris. França, dezembro 2020.

O poder da língua

La Marche de l’Empereur. 2005.

Há meio século, era raro um francês cantar em inglês. Hoje, tornou-se banal. A França era orgulhosa da sua língua e da sua música, incluindo a chanson française. Resultado da globalização? Há palavras ofuscantes e “globalização” é uma delas. Explica tudo e não explica nada. É como uma matrona que esconde as realidades debaixo das saias.

Num filme documentário francês, La Marche de l’Empereur (2005), Emilie Simon canta em inglês (The Frozen World). Já Désert, o seu grande sucesso, tem duas versões: inglesa e francesa. Retenho uma interpretação ao vivo da versão francesa.

Emilie Simon. The Frozen World. La Marche de l’Empereur. 2005.
Emilie Simon. Désert. Emilie Simon. 2003. Ao vivo.

Testamento

Vanitas ‘Last will & Testament’- English school of the 17th century.

Primeiro anúncio: Se existem anúncios a agências funerárias (ver https://tendimag.com/2014/02/20/a-um-morto-nada-se-recusa/), por que não a associações de notários? A morte é um negócio que, pelos vistos, os cogumelos alimentam. Convém não esquecer o testamento.

Segundo anúncio: Velho Testamento; Novo Testamento; Testamento indeciso. “Se não não tem de quem goste, pense em nós”, contemple uma instituição de solidariedade social.

Anunciante: Chambre des Notaires de la Gironde. Título: Le Testament. Agência: Le Vestiaire. Direção: Antoine Lassort. França, novembro 2018.

Carregar na imagem seguinte para aceder ao anúncio.

Anunciante: Tcs – hospiz rennweg. Título: Anti-exclusion – Old Testament. Agência: Film Factory. Áustria, 2001.

Pomplamoose e Django Reinhardt

Pomplamoose

Pomplamoose é um grupo musical, um duo elástico, norte-americano. Publicou músicas próprias mas também cover,  com arranjos e interpretações notáveis. A música Les Yeux Noirs inspira-se na música homónima (1940) de Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano pioneiro do estilo Gipsy Jazz. Segue a reinterpretação dos Pomplamoose e o original de Django Reinhardt.

Pomplamoose ft. The Vignes Rooftop Revival. Les Yeux Noirs (Dark Eyes). En Français. 2020.
Django Reinhardt & Quintette du Hot Club de France. Les Yeux Noirs. Parlaphone. 1940.