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A sério

UNESCO

L’UNESCO lance une campagne mondiale pour interroger notre perception de la normalité. Le film de 2’20” s’appuie sur une succession de faits marquants sur la situation dans le monde avant et pendant la pandémie de la Covid-19. Ensemble, ces faits remettent en question nos idées préconçues sur ce qui est “normal”, et suggère que nous avons toléré l’inacceptable depuis trop longtemps. Il est temps d’un vrai changement. Et tout commence par l’éducation, la science, la culture et l’information (UNESCO).

Uma pessoa que diz coisas sérias não ri! O sério é sisudo e o riso, tonto. Imagine alguém a comunicar assuntos sérios às gargalhadas! O sério não ri, assim é desde o barro genético. O anúncio Le Prochain Normal, da UNESCO, aborda assuntos graves da humanidade. O que consideramos normal? Perguntas sérias, muito sérias. Até o formato do anúncio é sacrificial. Como rir num mundo tão sério? O riso é um acto de humor nas suas origens e um acto sério nas suas consequências.

Anunciante : UNESCO. Título : Le Prochain Normal. DDB (Paris). França, Junho 2020.

Sucesso de estimação

Isabelle Mayereau

Quem não tem um recanto pessoal para afectos singulares? Coisas de que gostamos e que quase mais ninguém gosta. Afinidades que, contra ventos e marés, são o barro da nossa identificação. Penso, pessoalmente, nos livros de Rafael Pividal (1934-2006), nos filmes de Luigi Comencini (1916-2007) ou nas canções de Isabelle Mayereau (nascida em 1947). São obras que provocam um prazer duplo: primeiro, porque se gosta; segundo, porque é um gosto solteiro.

Conheci a música de Isabelle Mayereau em 1977. Por acaso. Acompanhei-a até ao “retiro” de 1987. A obra, melódica, é original. Escreve as letras, compõe as músicas e canta. Como escreveu um crítico a propósito do seu primeiro álbum (L’Enfance, 1977), “o álbum obteve apenas um sucesso de estimação”. Estava lançado o mote. Que fazer com estes sucessos de estimação? Quem os guarda para si, partilhá-los-à no inferno. Para os partilhar, precisa de parceiros. Já coloquei várias canções da Isabelle Mayereau no Tendências do Imaginário. Acrescento um pequeno pacote com quatro sucessos de estimação.

Isabelle Mayereau. Mal aux dents. Déconfiture. 1979.
Isabelle Mayereau. Coup de froid. Déconfiture. 1979.
Isabelle Mayereau. Juste une amertume. Juste une amertume. 1997.
Isabelle Mayereau. Les mots. Juste une amertume. 1997.

Morbilidade

Frida Kahlo. Fille au masque de mort’, 1938.

« Je ne rêve plus je ne fume plus
Je n’ai même plus d’histoire”
(Serge Lama, Je Suis Malade, 1973)

Je suis malade du corps
Je suis malade du coeur (AG).

Segundo algumas religiões, nascemos com uma missão; importa descobri-la e cumpri-la. Na minha família, a vocação não engana: a mulher nasceu para ser professora, o mais velho, para investigador, o mais novo, para escritor e eu, para doente.

Lembrei-me de um refrão de Serge Lama.

Serge Lama. Je suis malade. Je suis malade. 1983. Programa Système Deux, 1975.
Serge Lama. Je voudrais tant que tu sois là. Accompagné de l’Orchestre Symphonique de Québec. 1997.

Músicas de medo, morte e pranto 3. Gilbert Bécaud

The deathbed of Philippes de Commines. France. 1512.

Existem muitas canções de medo, morte e pranto. Algumas bem bonitas. Gilbert Bécaud: Quand Il Est Mort le Poète e Mon Père à Moi.

Gilbert Bécaud. Quand il est mort le poète. 1965.
Gilbert Bécaud. Mon père à moi. Don Juan. 1964. Live Olympia 1988.

Esperança de vida e desigualdade perante a morte

Praga de San Vito. Epidemia de dança de 1518

Somos iguais perante a morte? A resposta parece consensual. Será? Atente-se no gráfico 1, que incide sobre a variação da esperança de vida aos 35 anos dos homens em França, entre 2012 e 2016, em função do nível de vida e da escolaridade. Da leitura do gráfico, que se proporciona reter?

Fonte: Insee-DGFIP-Cnaf-Cnav-CCMSA, Échantillon démographique permanent. Extraído de Nathalie Blanpain, L’espérance de vie par niveau de vie : chez les hommes, 13 ans d’écart entre les plus aisés et les plus modestes, INSEE, 2018 : https://www.insee.fr/fr/statistiques/3319895.

A esperança de vida muda consoante o nível de vida. Seja qual for a escolaridade, a esperança de vida aumenta com o nível de vida. Quando os rendimentos passam de 1000 para 3500 euros, a esperança de vida sobe, por exemplo, nas pessoas sem diplomas, 7 anos, de 38.9  para 45,9 anos e naqueles que têm ensino superior, sobe 8.5 anos, de 41.8 para 50.3 anos. A idade da morte depende do nível de vida.

A esperança de vida muda, também, consoante a escolaridade. Seja qual for o nível de rendimentos, a esperança de vida aumenta com a escolaridade. Para um mesmo nível de rendimentos, por exemplo 2000 euros, a esperança de vida sobe de 44, nas pessoas sem diploma, para 47.8 anos, naquelas que têm o ensino superior. No caso de um nível de rendimentos de 3500 euros, a esperança de vida sobe, respetivamente, de 45,9 para 50,3 anos. A idade da morte depende da escolaridade.

Gosto de contrariar. Como não consigo contrariar os outros, contrario-me a mim próprio. Os dados sobre a esperança de vida, o nível de rendimentos e a escolaridade não evidenciam a desigualdade perante a morte mas a desigualdade perante a vida.

Artes florescentes

Jean-Philippe Rameau. Les Sauvages (Les Indes Galantes). 1735. Coreografia de Blanca Li. Bailado : Les Arts Florissants.

Acordei rococó. Os artigos de hoje convocam o estilo. Antes de mais, boa disposição: Les Sauvages (Les Indes Galantes, 1735), de Jean-Philippe Rameau, com coreografia de Blanca Li, interpretada por Les Arts Florissants.

No ensino à distância, o diálogo é sui generis. A reação, frequentemente dessincronizada, ou é escrita ou é falada. Mas reduzida. A comunicação não verbal é rara. Imagina-se! Por exemplo, os alunos a dançar.

Jean-Philippe Rameau. Les Sauvages (Les Indes Galantes). 1735. Coreografia de Blanca Li. Bailado : Les Arts Florissants.

Saint Germain

Maçaneta cacto: https://www.facebook.com/isabel.a.silva.5030/posts/10219668670740087

Em tempo de epidemia, arrumar a casa é uma tentação. A cave, com 180m2 de tralha, é uma prioridade. Graças ao meu sentido apurado de organização, uma quinzena de cds originais andava submersa no caos dos bens dispensados:  Air, Enya, Kraftwerk, Serge Gainsbourg, Kate Bush, Goldfrapp, Luz Casal, Mozart e o único cd que possuo do Saint Germain. Saint Germain tem uma música muito própria entre o Acid Jazz, a Música Eletrónica e o Nu Jazz. Lembra alguns músicos nórdicos, nomeadamente o norueguês Nills Petter Molvaer. Pressinto que estou a acertar ao lado dos vossos gostos. A culpa é da arrumação.

Saint Germain. Sure Thing. Tourist. 2000.
Saint Germain. Rose Rouge. Tourist. 2000.
Saint Germain. Montego Bay Spleen. Tourist. 2000.

Duo das flores

Leo Delibes.

Há músicas que todos conhecem e que quase todos desconhecem o autor. É o caso de Duo des Fleurs (da ópera Lakmé) e Pizzicato (do bailado Sylvia), de Léo Delibes (1836-1891). Delibes compôs outras obras dignas de atenção. Por exemplo, Où va la jeune Hindoue (ópera Lakmé) e Fantasia sobre Jean de Nivelle (ópera Jean de Nivelle).

Léo Delibes. Duo des Fleurs. Ópera Lakmé. 1883. Intérpretes : Anna Netrebko & Elina Garanca. Baden-Baden Opera Gala 2007.
Léo Delibes. Pizzicato. Bailado Sylvia. 1876. Salgótarjáni Szimfonikus Zenekar, 2008.
Léo Delibes. Où va la jeune Hindoue. Ópera Lakmé. 1883. Intérprete : Natalie Dessay. L’Orchestre Colonne. 1995.
Léo Delibes. Fantasia sobre Jean de Nivelle. Ópera Jean de Nivelle. 1880. Intérprete : José Ananias. Orquestra de Câmara Villa-Lobos.

Depois do fim

Legends of the Fall

Pensei colocar uma música do Rachmaninov. Passei algum tempo a decidir a obra: concerto No.2 in C minor, op.18 [Adagio sostenuto]. Passei ainda mais tempo a escolher a interpretação: Hélène Grimaud (piano), Claudio Abbado (direcção). Tive um pressentimento: já coloquei Rachmaninov no Tendências do Imaginário? Em 31 de Agosto de 2019: a mesma música e a mesma interpretação. Uma perda de tempo? Não, aprendi que sou previsível.

Hoje, tomei banho em mel. Só histórias de amor! Daquelas que terminam mas continuam. Por exemplo, o filme Love Story (Oscar em 1970). Cinquenta anos depois, ainda me comove. Segue o trailer do filme. Francis Lai, o autor, compôs cerca de sessenta músicas de filmes, tais como Un Homme et Une Femme (1966), Emmanuelle (1975) e Bilitis (1977).

Francis Lai lembra-me James Hormer, compositor de uma centena de músicas de filmes, tais como  An American Tail (1986), Field of Dreams (1989), Glory (1989), Braveheart (1995) e Titanic (1997). Acrescento a música do filme Legends of the Fall (1995).

Francis Lai. Love Story. 1970.
James Horner. Legends of the Fall – The Ludlows. 1995.

Sentimento

Man Ray. Ingres Violin. 1924.

“Les sanglots longs de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone” (Paul Verlaine, Chanson d’Automne, 1866).

Ando, há meio século, com o Emmanuel, de Michel Colombier, ao colo. Nenhuma versão substitui a música original (ver https://tendimag.com/2017/10/19/a-danca-da-consciencia/). Mas gosto do violoncelo bem tocado. Por que não o Emmanuel? São cordas, cordas graves, que tremem e gemem.

Michel Colombier. Emmanuel. Wings (1971). Intérprete : Kristina Cooper.

Chanson d’Automne (Paul Verlaine)

Les sanglots longs

Des violons

De l’automne

Blessent mon cœur

D’une langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne l’heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure;

Et je m’en vais

Au vent mauvais

Qui m’emporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.

A canção do outono (Paul Verlaine; trad. Guilherme de Almeida)

Estes lamentos

Dos violões lentos

Do outono

Enchem minha alma

De uma onda calma

De sono.

E soluçando,

Pálido, quando

Soa a hora,

Recordo todos

Os dias doidos

De outrora.

E vou à toa

No ar mau que voa.

Que importa?

Vou pela vida,

Folha caída

E morta.