Oração às avessas. Vida de esqueleto II

Em 2017, sentia a morte rondar-me. Os três anos seguintes foram de aproximação paulatina, mas iniludível. Em vez de a esconjurar, optei por me familiarizar com ela. Vida de esqueleto II. O espelho, como muitos outros textos que escrevi nesse período, nasceu desse exercício. Volvidos nove anos, leio-o hoje como uma espécie de oração às avessas.
Imagem: William Cheselden. Esqueleto rezando. 1733
morvida

Para os antepassados, a morte e a vida são contrários. Mas contrários muito próximos. Tão próximos que se entrelaçam. Ao extremo de a vida ter morte e a morte ter vida. Esta sabedoria exprime-se em esculturas, pinturas, gravuras e rosários. Por exemplo, nos quadros e nos pingentes em que metade do ser humano é pele e carne e a outra metade, esqueleto.
Imagem: Giuseppe Arcimboldo, Alegoria da Vanitas. 1580
Grotesco e Desconcerto do Mundo
O Desconcerto do Mundo é o meu primeiro vídeo. Seguiram-se outros, mas é deste que gosto mais. Foi apresentado no seminário internacional O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo, no Mosteiro de Tibães, em Braga, no dia 19 de Abril de 2005. Dura 38 minutos. Este exagero é compensado pela originalidade, pela variedade e pelo encanto das imagens e dos sons. De espanto em espanto, o tempo passa.

Organizei muitos encontros, mas o seminário O Trágico e o Grotesco no Mundo Contemporâneo destaca-se na minha memória. O Moniz Sodré veio do Brasil, o Michel Maffesoli e o David Le Breton, de França… O vídeo O Desconcerto do Mundo foi concebido para ser projetado durante os intervalos. As pessoas interromperam a saída para assistir. Recordo, em particular, a expressão de espanto e admiração do Michel Maffesoli. No artigo seguinte, para saborear aos poucos.
Gostos bárbaros

“Considero o gosto, o bom e o mau, o maior inimigo da arte”. (Marcel Duchamp)
É difícil evitar comentários humorísticos próprios do gosto dito bárbaro perante a criatividade pura de obras de arte contemporânea.
Segue o artigo Públicos da arte, colocado em 19 de julho de 2016.
Imagem: Marcel Duchamp e a sua Roda de Bicicleta (1913)
Que contento estoy!

Alguém se lembra do boneco Macario de um programa de humor da televisão espanhola dos anos oitenta? Celebrizou a expressão “Que contento estoy”. Pois, que contento estoy! Por um lado, terminei um prefácio que se arrastava; por outro, Bruno Aveillam, o meu realizador preferido de anúncios publicitários, acabou de colocar três corações no meu artigo Beleza Tranquila, de 13 de junho de 2026.
Imagem: Starlux puzzle. Macario. Detalhe
Em jeito de celebração, resgato três “artigos do dia” com anúncios notáveis: O sorriso dos alimentos, de 2020; Do You Fantasy?, de 2014; e Uma espécie de spoiler, de 2012, este último com um anúncio dirigido referido pelo próprio Bruno Aveillan. Acrescento um pequeno excerto de um episódio do programa “Jose Luis Moreno y su Macario”.

Felicidades. Condições e Momentos
A pretexto do Dia Internacional da Felicidade, 20 de março, a turma de Sociologia da Arte e do Imaginário, da Academia Sénior do Município de Braga, produziu o vídeo Felicidades: Condições e Momentos, uma compilação de textos, fotografias, curtas metragens, videoclips e anúncios produzidos ou escolhidos pelos alunos. Ao integrar a generalidade das propostas, resulta uma obra heterogénea. Não é de ninguém em particular, antes uma soma de iniciativas. Coube-me a coordenação e a montagem. Com a participação a ultrapassar as expetativas, o vídeo dura 1 hora e 4 minutos. É um gosto partilhá-lo.
Para visualizar o vídeo no YouTube, carregar na imagem seguinte ou aceder ao endereço https://www.youtube.com/watch?v=AVNGu2bk-ns

Foco e exorbitância na publicidade
No início do século XXI, a publicidade, algo aliviada das amarras da “mensagem”, como que se soltou aproximando-se da arte: criativa e fabulosa, aposta em cativar através de imagens, emoções e sensações, quase dispensando demorar-se no produto (ver vídeo My Car Is Baroque). Esta propensão esmoreceu nos últimos anos: aumenta o foco no produto em detrimento da exorbitância envolvente. A publicidade torna-se mais racional e menos excêntrica. A divagação e o delírio abrandam. O sonho reside cada vez menos no anúncio, em geral, e mais no produto, em particular. Mas, com maior ou menor prevalência, as diversas modalidades coexistem. Demonstra-o, pelo menos em parte, esta série de anúncios recentes a automóveis. Aliás, até parece que a vaga está em vias de se inverter.


![[DisfarçARte] Fotografia por Liu Bolin](https://i0.wp.com/tendimag.com/wp-content/uploads/2026/07/Fotografia-por-Liu-Bolin.jpg?resize=479%2C401&ssl=1)
