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Públicos da Arte

Art Gallery2

O anúncio Art Gallery, da Sportsbet Multi  Builder, é uma paródia da arte, designadamente da recepção e da avaliação das obras de arte pelos públicos. Trata-se de um tema recorrente. Recordo Mr. Bean às voltas com o quadro Whistler’s mother, o ministro russo que, após visitar o Ocidente, regressa encantado com a arte de fazer arte com lixo (Rafael Pividal, Pays Sages, 1977). Humor à parte, destaque-se, também, a investigação de Pierre Bourdieu sobre os públicos da arte: L’Amour de l’Art (1966) e Un Art Moyen (1965).

Marca: Sporsbet. Título: Art Gallery.  Agência: Sportsbet Creative Team supported by DPR&Co. Direcção: Dave Wood. Austrália, Julho 2016.

Que diria Kant?

Argentum“Há muito tempo que os museus deitam mão do marketing e da publicidade. E alguns, como a Tate Gallery of Liverpool, fazem-no com arte” (ver https://tendimag.com/2012/06/20/publicitar-arte/). Pois também há quem defenda que os anúncios publicitários podem ser arte (https://www.youtube.com/watch?v=B7F8L15gWPc). A publicidade, arte? Eis uma questão que ainda não saiu do adro. Alguns anúncios suscitam-me prazer, mormente estético. Olhar puro? Olhar bárbaro? Que diria o Kant? Entretanto, segue um mosaico de anúncios?

Argentu. Art of Advertisin. 2013. Amostra de excertos de anúncios.

 

Keep yourself alive!

Joseph Beuys' signature. 2006. Joseph Beuys (1921-1986) era quase tão conhecido pelo chapéu como pela assinatura.

Joseph Beuys’ signature. 2006. Joseph Beuys (1921-1986) era quase tão conhecido pelo chapéu como pela assinatura.

No anúncio The Chorus, da Heineken, pessoas distintas cantam, em diversos contextos, a mesma canção: Bohemian Rhapsody, dos Queen (A Night at the Opera; 1975). Partindo dos indivíduos desafinados desemboca-se num gigantesco coro empolgante. Em suma, a potência das massas. Duvida-se que a sintonia do colectivo seja espontânea. Duvida-se, também, da potência das massas. Duvida-se, até, do mito das massas. Quando era aluno de sociologia, por altura da Bohemian Rhapsody, estava na moda falar-se em sociedade de massas. Agora, está na moda falar-se em sociedades globais. Cada época tem os seus chavões. E chapéus para proteger a cabeça. Não impede que este anúncio esteja bem concebido e funcione.

Marca: Heineken. Título: Chorus. Agência: Publicis Milan. Direcção: Antoine Bardout-Jacquet. Itália, Maio 2016.

Admitindo que o Tendências do Imaginário é cada vez mais um albergue espanhol, acrescento uma das primeiras músicas dos Queen, Keep yourself alive, incluída no álbum de estreia da banda: Queen (1973).

Queen. Keep yourself alive. Queen. 1973. Ao vivo, 1975.

Offset poster for US lecture-series Energy Plan for the Western Man (1974) by Joseph Beuys, organised by Ronald Feldman Gallery, New York

Offset poster for US lecture-series Energy Plan for the Western Man (1974) by Joseph Beuys, organised by Ronald Feldman Gallery, New York

Por falar em chapéus, nos anos 1970, tive o privilégio de trocar duas palavras com Joseph Beuys, um dos maiores artistas do século XX. Deram-nos, aos alunos de sociologia, a oportunidade de assistir à montagem das obras pelos próprios artistas no dia anterior à abertura da exposição, no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris. Um dos trabalhos de Beuys incluía, precisamente, o (seu) chapéu.

A técnica e a arte

Na era da aceleração técnica, o projecto tecnológico aproxima-se da obra de arte. Não porque a técnica se converta aos cânones da arte (não faz pinturas, esculturas ou instalações), mas porque a própria técnica se assume como arte, apostando na forma tanto quanto na função. O maneirismo que envolve nos anúncios os objectos técnicos é um sinal claro dessa tendência. Tendência que não se cinge à publicidade. Atente-se nos mistos de arquitectura e técnica que albergam museus, fundações e outras construções congéneres. A forma abraça a função. O edifício rivaliza com a colecção ou a exposição. É arte sobre arte. O público assim o entende, demandando os novos roteiros das maravilhas estéticas da técnica. Falar da técnica como arte é insensato e imprudente. É certo que o assunto se entrevê nas páginas do livro de Jürgen Habermas:  A Técnica e a Ciência como “Ideologia” (1968). O que não impede que Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Georg Lukacs ou Lucien Goldmann se indignem no paraíso. Paciência! Se Deus morreu, não é o intelectual que o vai substituir.

O anúncio italiano Mechatronic Harmonies, da Wittenstein, é um exemplo desta aspiração estética. Depurado, estilizado, a marca só no fim aparece discreta e fugidia. Lembra E.C. Escher, Wenzel Jamnitzer e outros gravuristas maneiristas dos séculos XVI e XVII. Estranho? Nem por isso. A inovação e o arcaísmo costumam encontrar-se nas dobras do destino.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Wittenstein

Marca: Wittenstein. Título: Mechatronic Harmonies. Agência: Negrini & Varetto. Direcção: Luigi Pane. Itália, Janeiro 2016.

 

O avanço da inteligência

VWAnunciar o que não existe é obra de charlatão ou de génio? Com a Volkswagen nunca se esteve tão perto do que não existe. Uma ideia absurda mas performativa. Só a profecia tecnológica consegue dar vida ao nada. É a nossa síndrome do Prof. Pardal, a disparar mais rápido do que a sombra. Está na moda tudo ser inteligente: a lâmpada, a máquina, a casa, a cidade, o míssil… Até os parvos são inteligentes! E concluo à boa maneira francesa, citando Madame de Girardin: “Um homem inteligente a pé anda mais devagar do que um parvo de automóvel”.

Marca: Volkswagen. Título: Special Feature. Agência: DDB Argentina. Direcção: Rodrigo Garcia Saiz.  Argentina, Maio 2015.

Criação e recriação

kia-optima-blake-griffin-fighter-pilotHá criação e recriação. Alguém disse que o que é bem pensado voltará a ser pensado. O anúncio Fighter Pilote, da Kia, retoma a papel químico o anúncio de Jacques Séguéla, Porte avion, para a Citroën (1985). Em suma, há recriação por todo o lado. Na publicidade, na ciência e na arte, expulsa-se a “folle du logis” (a imaginação). É substituída pela “follie ménagère” (a arrumação).

Marca: Kia. Título: Fighter Pilote. Agência: David&Goliath. Direção: Stacy Wall. USA, Fevereiro 2015.

Marca: Citroen. Título: Porte avion. Direcção: Jacques Séguéla. França, 1985.

Maria Madalena: O Corpo e a Alma

“A razão nunca superou totalmente a imaginação, mas o contrário é corrente” (Blaise Pascal, Pensamentos). E quando a razão imagina? Quando sonha, segundo Goya, produz monstros. E quando imagina?

Levou semanas esta visita a Maria Madalena. Muito ficou por ver.

Giovanni Bellini. Maria Magdalena.1490.

Giovanni Bellini. Maria Magdalena.1490.

Maria Madalena consta entre as figuras mais fascinantes do Novo Testamento. Ambivalente e controversa, a imagem de Madalena sofre várias transfigurações ao longo dos séculos:
Companheira de Cristo, “apóstola dos apóstolos”, nos primeiros tempos da cristandade;
Santa pecadora perdoada por Cristo, a partir do século IV;
– Santa pecadora penitente, no fim do primeiro milénio;
– Santa penitente, “bela de corpo e bela de alma”, a partir do século XV.

Os evangelhos mencionam Maria Madalena em três episódios marcantes da vida de Jesus Cristo: a crucifixão, o sepultamento e a ressurreição.

Statue de Marie-Madeleine d'Écouis (Eure), Église Notre-Dame, 1311-1313

Statue de Marie-Madeleine d’Écouis (Eure), Église Notre-Dame, 1311-1313

Evangelho segundo Marcos. Capítulo 15

37  E Jesus, dando um grande brado, expirou.
38  E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.
39  E o centurião, que estava defronte dele, vendo que assim clamando expirara, disse: Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.
40  E também ali estavam algumas mulheres, olhando de longe, entre as quais também Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé;
41  As quais também o seguiam, e o serviam, quando estava na Galileia; e muitas outras, que tinham subido com ele a Jerusalém.
42  E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado,
43  Chegou José de Arimateia, senador honrado, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus.
44  E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido.
45  E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José;
46  O qual comprara um lençol fino, e, tirando-o da cruz, o envolveu nele, e o depositou num sepulcro lavrado numa rocha; e revolveu uma pedra para a porta do sepulcro.
47  E Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o punham.

Donatello. The Penitent Mary Magdalene 1425 Cathedral Museum, Florence. Detail.

Donatello. The Penitent Mary Magdalene 1425 Cathedral Museum, Florence. Detail.

Evangelho segundo Marcos. Capítulo 16.

1  E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo.
2  E, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol.
3  E diziam umas às outras: Quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?
4  E, olhando, viram que já a pedra estava revolvida; e era ela muito grande.
5  E, entrando no sepulcro, viram um jovem assentado à direita, vestido de uma roupa comprida, branca; e ficaram espantadas.
6  Ele, porém, disse-lhes: Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não está aqui; eis aqui o lugar onde o puseram.
7  Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse.
8  E, saindo elas apressadamente, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e nada diziam a ninguém porque temiam.
9  E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios.
10  E, partindo ela, anunciou-o àqueles que tinham estado com ele, os quais estavam tristes, e chorando.

Colijn de Coter,The Mourning Mary Magdalene (1500 - 1504) detail.

Colijn de Coter,The Mourning Mary Magdalene (1500 – 1504) detail.

Evangelho segundo João. Capítulo 20.

11 Maria Madalena tinha ficado perto da entrada do túmulo, chorando. Enquanto chorava, ela se abaixou, olhou para dentro
12 e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus. Um estava na cabeceira, e o outro, nos pés.
13 Os anjos perguntaram: -Mulher, por que você está chorando? Ela respondeu: -Levaram embora o meu Senhor, e eu não sei onde o puseram!
14 Depois de dizer isso, ela virou para trás e viu Jesus ali de pé, mas não o reconheceu.

“Noli Me Tangere” by Fra Angelico, c. 1440.

“Noli Me Tangere” by Fra Angelico, c. 1440.

15 Então Jesus perguntou: -Mulher, por que você está chorando? Quem é que você está procurando? Ela pensou que ele era o jardineiro e por isso respondeu: -Se o senhor o tirou daqui, diga onde o colocou, e eu irei buscá-lo.
16 -Maria! -disse Jesus. Ela virou e respondeu em hebraico: -“Rabôni!” (Esta palavra quer dizer “Mestre”.)
17 Jesus disse: -Não me segure, pois ainda não subi para o meu Pai. Vá se encontrar com os meus irmãos e diga a eles que eu vou subir para aquele que é o meu Pai e o Pai deles, o meu Deus e o Deus deles.
18 Então Maria Madalena foi e disse aos discípulos de Jesus: -Eu vi o Senhor! E contou o que Jesus lhe tinha dito.

Anónimo italiano. Madalena. Séc. XVI.

Anónimo italiano. Madalena. Séc. XVI.

Segundo as escrituras, Maria Madalena é a discípula mais próxima de Jesus Cristo. Acompanha-o no Calvário; observa o sepultamento; dispõe-se a preparar o seu corpo. É a primeira pessoa a ver Cristo ressuscitado e a primeira a dar a boa nova (“primeira apóstola”). Entre as mulheres, o seu nome surge em primeiro lugar (a guia das seguidoras de Jesus). Retenha-se, ainda, o reparo de Marcos: Jesus tinha expulsado sete demónios de Maria Madalena. Sete demónios, tantos quanto os pecados capitais. Maria Madalena terá levado, antes de se converter a Jesus, uma vida de vício e pecado.

Enfim, não identificada, a pecadora da casa de Simão (Evangelho de Lucas), que molha os pés de Cristo com lágrimas e os enxuga com os próprios cabelos, será, alguns séculos mais tarde, associada, pela Igreja, a Maria Madalena.

Evangelho segundo Lucas. Capítulo 7.

36 Convidou-o um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa.
37 E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento;
38 e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o unguento.
39 Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora.
40 Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Diz, Mestre.
41 Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta.
42 Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais?
43 Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem.
44 E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos.
45 Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés.
46 Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés.
47 Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.
48 Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados.
49 Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este que até perdoa pecados?
50 Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.

Rubens Pieter Paul - Feast in the House of Simon the Pharisee. 1618-20.

Rubens Pieter Paul – Feast in the House of Simon the Pharisee. 1618-20.

A associação, controversa, de Maria Madalena à pecadora de Lucas acaba por afetar a sua imagem. Consta que, naquele tempo, só as mulheres de má vida traziam o cabelo solto em público. A prostituição seria um dos sete demónios de Maria Madalena.

O Evangelho, apócrifo, de Maria (Madalena), retrata a santa como companheira, confidente e intérprete de Jesus Cristo, e com algum ascendente sobre os discípulos. Atente-se neste pedido de Pedro a Maria (Madalena): “Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as de que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos”. Em consonância, Hipólito, Bispo de Roma (170-235 D.C), classifica Maria Madalena como a “Apóstola dos Apóstolos”.

Perugino. Saint Mary Magdalene. Circa 1500-1502.

Perugino. Saint Mary Magdalene. Circa 1500-1502.

Que destino reserva a Igreja à companheira de Jesus, a “Apóstola dos Apóstolos”?

Bartolomeo di Giovanni. Sainte Marie-Madeleine. XV siècle.

Bartolomeo di Giovanni. Sainte Marie-Madeleine. XV siècle.

O Papa Gregório, o Grande (540-604 D.C.), acrescenta uma primeira interpretação decisiva. Num sermão, apresenta Maria Madalena como a prostituta que se arrependeu, e por isso foi salva. Esta imagem consolida-se com a fusão de três figuras do Novo Testamento: Maria Madalena, Maria de Betânia e a prostituta arrependida de Lucas. Para o Papa Gregório, o Grande, as três são uma única. Duas chamavam-se Maria e as três possuíam vasos com unguento.

“Se ela foi até o sepulcro para ungir o corpo do Senhor; se em João e Mateus está escrito que a mulher que ungira Jesus durante a ida a Betânia seria lembrada por ungi-lo, preparando-o para a morte futura; e se a mulher que lhe lavara os pés em Lucas também O ungira, então todas são a mesma pessoa: Maria Madalena era também Maria de Betânia e era a prostituta do texto de Lucas” (Sociedade das Ciências Antigas, Santa Maria Madalena, a Companheira do Salvador, http://www.sca.org.br/news/134/58/Santa-Maria-Madalena.html).

A imagem de Maria Madalena começa a pender para o lado do pecado e da penitência. O vaso com unguento será o seu principal símbolo. Maria Madalena afasta-se da Virgem Maria rumo a Eva.

Gregor Erhart. Maria Madalena. 1510. Museu do Louvre.

Gregor Erhart. Maria Madalena. 1510. Museu do Louvre.

No segundo quartel do século XI, “descobre-se” em Vézelay, no sul de França, o “santíssimo corpo da bem-aventurada Maria Madalena”. Como explicar semelhante fenómeno? “Impunham-se, pelo menos, duas explicações: qual foi a vida de Maria Madalena após a ressurreição de Cristo? Como é que o corpo de Maria Madalena veio da Judeia para a Gália?” (Duby, Georges, As damas do século XII, Companhia de Bolso, 2013). Os sermões vão encarregar-se de dar resposta:

Elevation of Mary Magdalene with angels raising her. SS Johns Cathedral. Toorun, 14th century. Detail.

Elevation of Mary Magdalene with angels raising her. SS Johns Cathedral. Toorun, 14th century. Detail.

““Após a ascensão do Salvador, movida por uma afeição ardente pelo Senhor e pela tristeza que sentia após sua morte”, Maria Madalena “nunca mais quis ver um homem nem um ser humano com seus olhos”; “retirou-se durante trinta anos no deserto, ignorada por todos, jamais comendo alimento humano nem bebendo. A cada uma das horas canônicas, os anjos do Senhor vinham do céu e a conduziam no ar a fim de que ela rezasse em companhia deles.” Um dia, um padre percebeu anjos que esvoaçavam acima de uma caverna fechada. Ele se aproximou e chamou. Sem se mostrar, Madalena se fez conhecer e lhe explicou o milagre. Pediu-lhe que lhe trouxesse roupas, pois “não podia aparecer nua entre os homens”. Ele retornou, e conduziu-a à igreja onde celebrou a missa. Ela expirou ali, após ter comungado o corpo e o sangue de Jesus Cristo. “Por seus santos méritos, grandes maravilhas se produziam junto de seu sepulcro.” Na época em que Geoffroi se empenhava em fazer admitir que esse sepulcro se achava na abadia da qual era o encarregado, uma outra vida de Maria Madalena circulava, a que os historiadores chamam apostólica. Pretendia que Madalena, após o Pentecostes, tinha viajado por mar em companhia de Maximino, um dos 72 discípulos. Desembarcando em Marselha, os dois se puseram a pregar, a evangelizar a região de Aix. Morta Maria Madalena, Maximino lhe fez belos funerais e colocou seu corpo num sarcófago de mármore que mostrava, esculpida numa de suas faces, a cena da refeição na casa de Simão. Era possível conjugar essa segunda lenda com a primeira, situando o deserto de que esta falava nas montanhas provençais, na Sainte-Baume” (Duby, Georges, As damas do século XII, Companhia de Bolso, 2013).

Lucas Moser. The Magdalene Altar. St. Mary Magdalene Church, Tiefenbronn, 1432. Em cima, na casa de Simão. À esqueda, a viagem para França. À direita, a última comunhão de Madalena.

Lucas Moser. The Magdalene Altar. St. Mary Magdalene Church, Tiefenbronn, 1432. Em cima, na casa de Simão. À esqueda, a viagem para França. À direita, a última comunhão de Madalena.

Enxertam-se duas lendas na biografia de Maria Madalena. A vida depois de Cristo e a travessia de Galileia até França. A vida de eremita é decalcada de Maria do Egipto (344-421), prostituta convertida que se retirou em penitência no deserto. As imagens das duas santas são tão próximas que, por vezes, só os três pães, de Maria do Egipto, e o vaso com unguento, de Maria Madalena, as distinguem.

Hairy Mary of Egypt. Missal and book of hours, Lombardy, ca. 1385-1390.

Hairy Mary of Egypt. Missal and book of hours, Lombardy, ca. 1385-1390.

Ressalve-se que, no sermão analisado por Georges Duby, são dois os motivos que levam Maria Madalena a retirar-se do mundo: o amor a Jesus Cristo e a fuga ao contato humano: “movida por uma afeição ardente pelo Senhor e pela tristeza que sentia após sua morte, nunca mais quis ver um homem nem um ser humano com seus olhos”. Não se alude à vida de eremita como expiação dos pecados até à morte. Mas não será necessário aguardar muito tempo.

Ascensão de Maria Madalena. Fresco da Capela de St Erige, Auron. França. Séc. XV,

Ascensão de Maria Madalena. Fresco da Capela de St Erige, Auron. França. Séc. XV,

No início do século XII, Geoffroi de Vendôme escreve sobre Maria Madalena: “Pecadora famosa, depois gloriosa pregadora (…) mais por meio das lágrimas do que das palavras”.

“A mulher que Geoffroi mostra como exemplo é antes de tudo a que foi habitada pelos sete demônios, ou seja, pela totalidade dos vícios. Pecadora — a palavra retorna catorze vezes nesse curto texto —, peccatrix, mas também accusatrix, consciente de suas faltas e confessando-as, prostrada aos pés do mestre. (…) Submissa como devem ser sempre as mulheres, Maria Madalena só foi plenamente redimida após ter feito penitência. Interpretando à sua maneira a vida eremítica, Geoffroi afirma que, após a Ascensão, ela se lançou com fúria sobre seu próprio corpo, castigando-o com jejuns, vigílias, preces ininterruptas. Por meio dessa violência voluntária, Maria Madalena, “vítima”, e “vítima obstinada”, ficou sendo no limiar da salvação “porteira do céu”” (Georges Duby, op. cit.).

Em mil anos, a Igreja retoca sucessivamente a imagem de Maria Madalena até transformar a santa num “arquétipo do pecado” (Daniela Crepaldi Carvalho, Madalena: Arquétipo do Pecado, http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/m00015.htm).

Ticiano. Sta Maria Madalena penitente. 1533.

Ticiano. Sta Maria Madalena penitente. 1533.

A figura de Maria Madalena penitente, sofredora, empenhada na expiação dos pecados, vai marcar a arte cristã desde a Idade Média:

“A cabeleira solta, o perfume espalhado, ambos intimamente associados no imaginário da cavalaria aos prazeres do leito. Evocar essas armadilhas da sensualidade era atiçar no espírito dos ouvintes os fantasmas que a leitura da vida eremítica despertava: as doçuras de um corpo de mulher, nu entre as pedras ásperas, a carne adivinhada sob os cabelos em desalinho, a carne mortificada e no entanto resplandecente. Tentadora. Desde o final do século XIII, pintores e escultores se empenharam em oferecer da Madalena essa imagem ambígua, perturbadora. Sempre, mesmo os mais austeros, mesmo Georges de La Tour. Inclusive Cézanne” (Georges Duby, op. cit.).

Artemisia Gentileschi - Madalena desmaiada, ca 1653.

Artemisia Gentileschi – Madalena desmaiada, ca 1653. Tem na mão o instrumento com que se vergasta.

Na arte medieval, predominam duas imagens matriciais de Maria Madalena: penitente, eremita, nua, com os cabelos a cobrir o corpo; ou em ascensão, amparada pelos anjos, rumo ao céu para alimento celestial.

Antonio del Pollaiolo. Assunzione di Santa Maria Maddalena, ca. 1460.

Antonio del Pollaiolo. Assunzione di Santa Maria Maddalena, ca. 1460.

Estas imagens medievais esbatem-se durante o Renascimento. Maria Madalena tende a ser retratada vestida, em ambiente doméstico, acompanhada pelo vaso de unguento e por um livro, símbolo da gnose. Da Maria Madalena renascentista, desprende-se uma atmosfera de recato.

Piero Cosimo. Santa Maria Madalena. 1490.

Piero Cosimo. Santa Maria Madalena. 1490.

Bernini, “St. Mary Magdalen,” 1661-1663, Chigi Chapel, Siena Cathedral, Siena.

Bernini, “St. Mary Magdalen,” 1661-1663, Chigi Chapel, Siena Cathedral, Siena.

Com o barroco, regressa a Maria Madalena penitente. Mas, agora, ambivalente, foco de uma tensão entre o corpo e o espírito. Vivo, perturbador e inquieto, o corpo é castigado, mas nem por isso perde sensualidade (repare-se na escultura de Bernini). Uma sensualidade que se exacerba nos momentos de êxtase (ver as pinturas de Artemisia Gentileschi, Andrea Vaccaro e Francesco del Cairo). A corporalidade e a espiritualidade dobram-se mutuamente. Nem a Idade Média, nem o Renascimento lograram tamanha veemência assente na tensão entre o corpo e a alma (atente-se nas pinturas de Georges de la Tour, Angelo Caroselli, Giacomo Galli ou Carlo Sellito). Para o barroco, Maria Madalena é, antes de mais, uma bela alma num corpo belo.

A. Vaccaro. Magdalena penitente. Séc. XVII.

A. Vaccaro. Madalena penitente. Séc. XVII.

Para George Duby, esta alteração da imagem de Maria Madalena tem a ver com a reforma eclesiástica implementada entre 1075 e 1125: generalização do celibato dos membros do clero, instituição do casamento e combate aos pecados da carne. Neste cenário, a imagem de Maria Madalena, santa pecadora, presta-se como emblema e como arma, às mãos da Igreja.

Em mil anos, a Igreja masculiniza-se e a imagem de Maria Madalena feminiza-se. E, quanto mais mulher, mais pecadora. Ser mulher comporta custos, mesmo na corte celestial.

Andrea Vaccaro. Madalena em êxtase. 1654.

Andrea Vaccaro. Madalena em êxtase. 1654.

Nos primeiros séculos da era cristã, as mulheres foram, gradualmente, afastadas dos cargos da Igreja. “O Concílio de Elvira, em 305, instruiu que, todos aqueles que participassem do cerimonial do altar, mantivessem total abstinência de suas esposas. Em 325, o Concílio de Laodiceia proibiu as mulheres de servirem como sacerdotes e de possuírem paróquias; e em 425, o Concílio de Cartago, que contou com a presença de Santo Agostinho, decretou que todo o alto clero deveria se separar de suas esposas, sob pena de perder seus direitos sacerdotais” (Sociedade das Ciências Antigas, Santa Maria Madalena, a Companheira do Salvador, http://www.sca.org.br/news/134/58/Santa-Maria-Madalena.html).

Angelo Caroselli. The Penitent Magdalene, c. 1620, San Diego Museum of Art.

Angelo Caroselli. The Penitent Magdalene, c. 1620, San Diego Museum of Art.

Em 1073, o Papa Gregório VII alargou a obrigação de celibato a todo o clero. Em 1123, o Concílio de Létran decreta a invalidade do matrimónio dos clérigos. Pode ser meramente casual, mas a correlação entre a masculinização da Igreja e a feminização pecadora de Maria Madalena manifesta-se uma hipótese tentadora.

Um par de cornos

Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de  Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.

Moisés. Sillería de coro de la catedral de San Salvador de Oviedo. Obra realizada entre 1491 y 1497.

Muitas pessoas contemplaram, presencialmente ou não, o Moisés de Michelangelo. Poucas repararam nos cornos. As duas protuberâncias não são artifício de penteado, são, ineludivelmente, dois cornos. Este tipo de “cegueira” remete para a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger. Quando visitamos a basílica de San Pietro in Vincoli, em Roma, aspiramos à perfeição da arte e da religião, não a um par de cornos ao jeito de Pan ou de Lucífer. E, no entanto, eles lá estão.

Michelangelo. Moisés. 1513-1515. Pormenor.

Michelangelo. Moisés. 1513-1515. Pormenor.

O Moisés de Michelangelo não é um caso isolado (ver galeria de imagens). Na Idade Média, mas também nos séculos seguintes, muitas obras representam o profeta com cornos. Dizem os entendidos que esta anomalia decorre de um erro de São Jerónimo (347-420) na tradução da Bíblia do hebreu para o latim:

 Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary's Abbey, now in the Yorkshire Museum. Detail.

Statue of Moses c.1150-1200, St. Mary’s Abbey, now in the Yorkshire Museum. Detail.

“Ao traduzir uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, São Jerônimo escreveu em latim: cornuta esse facies sua, ou seja, “sua face tinha chifres”. Esse detalhe esquisito foi levado a sério por artistas como Michelangelo – sua famosa escultura representando Moisés, hoje exposta no Vaticano, está ornada com dois belos corninhos. Tudo porque Jerônimo tropeçou na palavra hebraica karan, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A tradução correta está na Septuaginta: o profeta tinha o rosto iluminado, e não chifrudo. Apesar de erros como esse, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média – durante séculos, não houve outras traduções.
30.E, tendo-o visto Aarão e todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele. Ex 34:30.” (“Chifres de Moisés”. Blogue Parafraseando a Verdade: http://parafraseandoaverdade.wordpress.com/2011/06/30/moises-do-antigo-testamento-com-chifres/.”

Arbusto flamejante. Huntingfield Psalter. 1210-1220.

Arbusto flamejante. Huntingfield Psalter. 1210-1220.

Custa-me a acreditar que um erro de tradução de uma palavra fosse suficiente para coroar, durante séculos, o profeta dos profetas com um brilhante par de cornos. A imagem vingou porque se enxertou no imaginário da época, nas crenças e nos sentimentos das pessoas. Fazia sentido.

Moisés recebe as tábuas da lei. Ms. Rouen, BM 0.4. Séc. XIV.

Moisés recebe as tábuas da lei. Ms. Rouen, BM 0.4. Séc. XIV.

Os cornos significam, em várias culturas, potência. No caso de Moisés, a força de Deus. Não é por acaso que os guerreiros celtas e vikings colocavam cornos nos capacetes. Dei, há semanas, uma aula sobre a relação entre o poder e a arte, incluindo as moedas. Começámos pelo início: Dario I, o imperador da Pérsia, cunhou moedas com o logotipo do arqueiro, o seu símbolo; Alexandre o Grande faz circular moedas com o seu perfil. Acontece que Alexandre o Grande é retratado nas moedas com cornos na cabeça! (Figura).

Moeda de Alexandre o Grande

Moeda de Alexandre o Grande

Não há símbolos unívocos. Os cornos remetem para a potência, para a virilidade, mas também para o oposto:

“C. G. Jung encara uma outra ambivalência no simbolismo dos cornos: representam um princípio ativo e masculino, pela sua forma e pela sua força de penetração; um princípio passivo e feminino, pela sua abertura em forma de lira e de recetáculo. Reunindo estes dois princípios na formação da personalidade, o ser humano, assumindo-se integralmente, atinge a maturidade, o equilíbrio, a harmonia interior” (Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain, Dictionnaire de Symboles, Paris, Robert Laffont, 1982, p. 290).

Palavras que lembram Gilbert Durand.

Evasão

 

Louis Vuitton

Hoje, apetece-me algo bom! Sim! Algo mesmo bom! Para despedir as férias. Apetece-me zarpar para a ilha das pessoas raras. Apetece-me, por exemplo, um Aveillan! Um balsamo para os olhos e para os ouvidos. Que a boca e o tacto são dados à luxúria… Bruno Aveillan dirigiu em 2008 a primeira campanha para a Louis Vuitton: “Where Wil Life Take You”. Sob o signo da travessia. Recebeu 14 prémios internacionais. As imagens são fantásticas. A fotografia é inconfundível. Sequências passageiras despedem-se suavemente. A música é da autoria de Gustavo Santaolalla, vencedor de dois prémios Nobel pela melhor banda sonora dos filmes O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e Babel (2006). Hoje, apetece-me algo bom! Mesmo bom! Uma pitada de evasão com as asas de Bruno Aveillan e Gustavo Santaolalla.

Marca: Louis Vuitton. Título: A Journey. Agência: Ogilvy. Direção: Bruno Aveillan. Produção: Quad. Música: Gustavo Santaolalla. França, 2008.

Música para museu

Air. Music for Museum

Novo álbum dos Air! Apenas em vinil. O que não impede a circulação digital. Trata-se de uma encomenda do Palais des Beaux Arts, de Lille, em França, para uma experiência audio+visual. Audível em todo o espaço do museu, a música faz parte da mostra que envolve quatro artistas (Linda Bujoli, fotógrafa; Mathias Kiss, designer; Xavier Veilhan, escultor, fotógrafo…; Yi Zhou, arte multimedia).

Não posso afirmar que este Music for Museum corresponde aos Air que me habituei a apreciar (a minha subjectividade não lhe retira valor). A maior parte das faixas lembram Tangerine Dream e Klaus Shulze, mais de cinquenta anos atrás. Por sua vez, o baixo da faixa Octogum não destoa do baixo de One of These Days, dos Pink Floyd. Não obstante, que saiba, nem os Pink Floyd, nem os Tangerine Dream, nem Klaus Shulze, nenhum deles compôs uma trilha sonora para um museu.

Air. Octogum. Music for Museum. 2014.

Pink Floyd. One of These Days. DVD Pink Floyd Live @ Pompeii (The Director’s Cut). 1972.