Archive | Janeiro 2019

Humilhados e ofendidos. Os labirintos da liberdade.

Hoje, temos manga. Um anúncio japonês da Nissin: Hungry to win. Nasceu polémico devido às razões do costume. Neste caso parece que é a claridade que incomoda. Creio que foi retirado de circulação. Em quase todas páginas que consultei, o vídeo não está acessível. No que respeita a recursos e especialistas de censura, estamos ao mais alto nível da história da humanidade. Perturba-me sempre a proibição em nome de valores.

O anúncio é uma homenagem a The Prince of Tennis, manga e anime do início de milénio, criado por Takeshi Konomi. Abre, como muitos filmes de aventuras, com a interrupção do lazer prazeroso dos heróis. Nyudō Mifūne, o treinador da série The Prince of Tennis obriga-os a treinar para o Grand Slam. Nos courts, mas também em situações inóspitas: saltar com cangurus, correr na água em Sidney ou escalar cascatas com crocodilos à espera. O anúncio termina com as metamorfoses e as saudações do costume.

Para aceder ao vídeo do anúncio, carregar na imagem seguinte.

Marca: Nissin. Título: Hungry to win. Japão, 2019.

Soube, entretanto, qual é, especificamente, o abuso civilizacional cometido pelo anúncio da Nissin).

After an initial apology earlier this week, Nissin has pulled its animated Cup Noodle ads featuring tennis player Naomi Osaka. The company had received international backlash for Osaka’s depiction in the advertisements as a much lighter-skinned version of herself.
Osaka, who is half-Haitian and half-Japanese, appeared in the ads as an anime character along with fellow tennis player Kei Nishikori. Nissin’s ads showed a pale version of Osaka with less textured hair.
Osaka herself has not commented on her depiction in the ads. Nissin Foods received approval from her management agency IMG Japan but it was revealed that the agency’s U.S. counterpart did not confer prior to the approval. Nissin pulled the ads from YouTube and the “Hungry to Win” campaign site. Images were also purged from Cup Noodle’s Twitter page.
Notably, Prince of Tennis creator Takeshi Konomi’s artwork depicting Osaka and Nishikori was also removed from the campaign website. (Anime News Network: https://www.animenewsnetwork.com/interest/2019-01-23/nissin-pulls-cup-noodle-prince-of-tennis-ads-after-white-washing-controversy/.142453).

Olhos nos olhos

Edouard Manet. Dejeuner sur l’herbe. 1863.
Edouard Manet. Olympia. 1863

Recusado no Salão Oficial, Edouard Manet expôs, em 1863, o quadro Déjeuner sur l’herbe no Salão dos Rejeitados (Refusés). O quadro provocou escândalo, pela nudez de uma provável prostituta, entre dois homens vestidos, mas o maior motivo de indignação reside no facto de a mulher olhar descaradamente para o público. No mesmo ano, Manet pinta o quadro Olympia com uma prostituta nua que, mais uma vez, nos olha de frente. Volvidos 153 anos, no anúncio The Pure Experience, da cerveja Michelob, uma bela mulher fita-nos com um olhar sedutor, senão provocante. Apenas um reparo: aproxima-se o Super Bowl (3 de Fevereiro); a colheita de anúncios costuma ser a mais cara e a mais cuidada do ano. O anúncio da Michelob vai passar durante o Super Bowl.

Marca: Michelob. Título: The Pure Experience. Agência: FCB (Chicago). Estados Unidos. Janeiro 2019.

Balada marítima. Dormir com as ondas

“Dorme menino
Que aí vem o papão
Comer meninos
Que não dormem, não
(Balada popular, excerto)

No inverno, o mar continua a molhar a areia. Frente à praia, há quem dispense sair do carro. Ajusta-se o assento e toca a dormir. Uma soneca balnear. Junto ao paredão, proliferam os adeptos do sonho ao ar livre. O murmúrio das ondas embala e a humidade do ar descongestiona. Não é mas parece uma nova religião. Perdoem-me, mas vem-me à memória a rumba de Los Payos, Maria Isabel.

Los Payos. Maria Isabel. Vídeo original. 1969.

Corpos densos, corpos tensos

Friedemann Vogel .Stuttgart Ballet – Baki Photography

Habituei-me a ver no bailado corpos imaginados, quase impossíveis. É o caso do bailarino Friedemann Vogel fotografado por BAKI (Figura 1; parece uma alegoria do equilíbrio da economia). Sul-coreano, BAKI foi solista no Bailado Nacional da Coreia, é fotógrafo e coreógrafo.

BAKi transcends the role of the photographer. His work isn’t about capturing the aesthetic of an instant or rendering the essence of a dance through the prism of his own vision. Mastering both disciplines, dance and photography, BAKi submits our eyes to his inner energy and unfolds it in space (Opium Gallery: http://www.opiomgallery.com/en/artistes/oeuvres/4116/baki).

Cebolas dançantes

Vai uma música dos Booker T and the MGs? Uma banda de sucesso dos anos sessenta. O nome deve ter ajudado. Consta que foi a primeira banda inter-racial. Publicaram em 1962 a música Green Onions. Cebolas verdes. Seguem dois vídeos: o primeiro, ao vivo; o segundo, um pequeno excerto dançado.

Booker T. And The M.G.’s – Green Onions. Green Onions. Ao vivo (1962).
Booker T. And The M.G.’s – Green Onions. Green Onions. Ao vivo (1962). Excerto.

A Sagração da Primavera

Sagração da Primavera

Sentir-se a afogar é terrível. Só ou em grupo, num barco ou numa instituição. E quando o naufrágio envolve uma superorganização? Afunda hierarquicamente, por etapas, com relatório de autoavaliação, despacho e autorização superior. Pior quando se esbraceja. Como os bailarinos da Sagração da Primavera, de Ígor Stravinsky (coreografia de Nijinsky). A estreia, em 1913, foi um dos maiores insucessos da história da música. Segue um excerto; a dança, propriamente dita, começa no minuto 3:20.

Stravinsky. Rite of Spring. Introduction, Augurs of Spring and Ritual of Abduction. Nijinsky 1913 edit. Joffrey Ballet, 1987.

Pois bebamos!

Conhece os Corvus Corax? Nem é tarde, nem é cedo. Originários da Alemanha de Leste, dedicam-se à música neomedieval, com instrumentos da época. Desde a fundação em 1989, publicaram cerca de 25 álbuns. Os concertos ao vivo proporcionam uma encenação entre o barroco e o grotesco, ao gosto de muitos intérpretes germânicos, tais como Klaus Nomi e Nina Hagen. Seguem duas músicas: a primeira, Mille Anni Passi Sunt, numa versão de estúdio, a segunda, Ergo Bibamus (Pois bebamos), ao vivo.

Corvus Corax – Mille Anni Passi Sunt. Mille Anni Passi Sunt. 2000.
Corvus Corax – Ergo Bibamus. Cantus Buranus. 2005. Ao vivo em Munique.

Capitalismo do coração

Entramos na era do capitalismo virtuoso. Sem nos dar conta. O nosso capitalismo exala uma aura de bondade. Em politiquês correcto, é socialmente responsável. Já arranhei o assunto. Os anúncios Wind never felt better, da Budweiser, e Our flavor has no race, da Postobón ressuscitam o azedume.

Marca: Budweiser. Título: Wind never felt better. Agência: David Miami. Direcção: Adam Berg. Estados Unidos, Janeiro 2019.

Wind never felt better é um anúncio excelente. Com pouco comunica-se muito. A música de Bob Dylan não engana: estamos, duplamente, no vento. Preocupada com a ecologia, a Budweiser só consome energia eólica. E se fossem outras empresas? A energia é como os impostos. Não há cobrança com destino específico, apenas o dinheiro do orçamento. It’s the symbolic, stupid! Um parêntesis: Estamos no vento é um livro de Fernando Namora (1974) dedicado aos movimentos juvenis contestatários dos anos cinquenta e sessenta. Contribuiu para a minha vocação como sociólogo.

Marca: Postobón. Título: Our flavor has no race. Agência: Sancho BBDO. Colômbia, Janeiro 2019.

Our flavour has no race aposta na mobilização, simbólica, contra o racismo. A colombiana Postobón vende vários tipos de bebida, cada de sua cor. Para comemorar o dia de luta contra o racismo, retira o colorante às bebidas tornando-as todas iguais: transparentes como a água. Uma pergunta perversa: metáfora por metáfora, qual é o maior entorse racista? Manter as cores ou apagá-las? Convém não esquecer que uma das vertentes do racismo consiste em converter os outros para os tornar iguais a nós. Algo como uma cruzada pela mesmidade.

E pronto! Não há como uma boa dose de maledicência.

A Procissão da Burrinha

Procissão de Nossa Senhora da Burrinha – Braga,

“Vá até onde puder ver; quando lá chegar poderá ver ainda mais longe” (Goethe). Ver longe é uma vontade e um privilégio. Assim o estima Goethe mais as resmas de anões montados nos ombros dos gigantes. Gosto de ver as maravilhas onde elas estão: ora perto, ora longe. Richard Hoggart quase não teve que sair de casa para escrever The Uses of Literacy. Aspects of Working-Class Life with Special Reference to Publications and Entertainments (1957), um clássico da Sociologia. Quando enxergo maravilhas longe, fico encantado; quando ignoro maravilhas perto, não me perdoo.

Procissão da Burrinha. Braga TV.

A Procissão da Burrinha, na freguesia de S. Victor, em Braga, não podia ser mais próxima. Desde 1992, o número de figurantes, participantes, assistentes e turistas não para de crescer. Um sucesso que é um misto de religião oficial e religiosidade popular. A origem remonta aos anos 1870. Conheceu, entretanto, altos e baixos. Teve longos períodos de interrupção. Os motivos, os quadros e os figurantes mudaram ao longo do tempo. Outrora, em Julho, a procissão era dedicada às dores de Nossa Senhora, agora, inserida na Semana Santa, versa sobre o “Cortejo Bíblico Vós sereis o meu povo”. Até o SNI, órgão de propaganda do Estado Novo, pugnou, nos anos sessenta, pela renovação da Procissão da Burrinha. Ressalve-se, porém, que a partir do momento em que a imagem de Nossa Senhora do Egipto (a Senhora da Burrinha) se juntou, na procissão, à imagem de Nossa Senhora das Angústias, o núcleo duro permaneceu intacto: Nossa Senhora montada numa “jumentinha”, com o menino Jesus ao colo e São José a conduzir. Acrescenta-se um pormenor raro: Nossa Senhora porta um chapéu. Para se resguardar da inclemência solar durante a “fugida” para o Egipto? Por uma contingência local: quem organizava a procissão era a Irmandade de S. Tiago. “Esta corporação era constituída essencialmente pelos fabricantes de chapéus, os sombreireiros, que chegou a ser o mais importante ofício praticado na cidade de Braga” (Ferreira, Rui, 2007, Procissão da Burrinha, Braga, Junta de Freguesia de S. Victor). Nem tudo o que é divino cai dos céus.

Milhares nas ruas de Braga para aclamar a Procissão da Burrinha. Braga TV.

A imagem de Nossa Senhora, com chapéu, montada, o menino ao colo, avança numa burrinha conduzida por S. José (um figurante). Este é o coração da procissão. Rodeado e acompanhado por um mar de gente. Acontece estar perto o que não se encontra longe!

Preserve-se o nome “Nossa Senhora da Burrinha”, mais eloquente do que “Nossa Senhora das Angústias” ou “Nossa Senhora do Chapéu!

Procissão da Burrinha. Braga. Press Minho.

As informações constantes neste artigo provêm do livro Procissão da Burrinha, da autoria de Rui Ferreira. Apoia-se, ainda, num estudo, de que fui tutor, protagonizado por um grupo de alunos do curso de licenciatura em Sociologia da Universidade do Minho: Memória e Significado: O Caso da “Procissão da Burrinha”, por Ana Pereira, Ana Tavares, Daniela Pereira, Eduardo Mó e José Sendão.
A burrinha da procissão lembra o jumentinho do poema A moleirinha, de Guerra Junqueiro (Os Simples, 1892). A mesma humildade, quase a mesma divindade. “Quando a virgem pura foi para o Egipto, / Com certeza ia num burrico assim”.


Guerra Junqueiro. A Moleirinha.


Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!…

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa…
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume…
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume…

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata…
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d’outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus…

Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!…
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar…

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d’astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d’oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!

A doença do trabalho

Planet Of The Apes (1968).

O anúncio Sanctuary for Overworked Humans, da Mitsubishi, é um gracejo. Um francês medieval diria uma drôlerie. Algo entre a farsa e a paródia. Seres humanos vítimas do trabalho curam-se numa reserva. Assemelham-se a animais em cativeiro. Estes lugares de recuperação lembram a reserva no livro “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, e as gaiolas para humanos no filme Planeta dos Macacos (1968). O anúncio é uma paródia de uma lista interminável de séries e filmes centrados nas aventuras e desventuras de animais. Por exemplo, Skippy (1967-1970). Paródia ou não, já deparei com seres humanos num estado parecido. E o carro? Faz parte. Restaura e liberta, impávido e sereno.  

Marca: Mitsubishi. Título: Overworked Humans. Agência: Golley Slater Cardiff. Direcção: Sami Abusamra. Reino Unido, Janeiro 2019.
Skippy the Bush Kangaroo 1968 – 1970 Opening and Closing Theme.