Archive | Novembro 2018

Trelas Electrónicas

Tomar uma torre de controlo de um aeroporto por um videojogo pode ser perigoso. O trabalhador e o posto de trabalho devem estar em harmonia. Esta é a preocupação da agência de emprego Keljob: a cada um o emprego para que está vocacionado.

Não há registo na história da humanidade de sociedades com tantos meios de vigilância e controlo como a actual. Os poderes (governo, justiça, finanças, empresas, redes) transbordam de recursos de vigilância e controlo. O mundo alberga paradoxos: A vigilância e o controlo nunca foram tão intrusivos e nós nunca nos sentimos tão livres! Há trelas e trelas! Algumas devem ser confortáveis.

A canção Space Oddity, de David Bowie, vem a preceito. Não é animadora, mas a vida não é um eterno magusto.

Carregar na imagem para aceder ao vídeo.

Packman

Marca: Keljob. Título: Tour de Contrôle. Produção: Byzance. Direcção: Gérôme Rivière. França, 2002.

 

David Bowie. Space Oddity. Ao vivo em 1969, ano de estreia da música.

 

Gata melómana

Camille Saint-Saens

Camille Saint-Saens.

Conheci uma gata meio vadia. Aparecia quando a manjedoura estava vazia. Respondia, contudo, a um chamamento: a música. Aproximava-se a ronronar. Mas não era qualquer música que a cativava. Apenas jazz e clássica. A música que segue tanto encanta a gata como engana Sansão. É uma canção de sedução traiçoeira. Mon coeur s’ouvre à ta voix, da ópera Sansão e Dalila, composta por Camille Saint-Saens, foi apresentada em 1868 a um grupo de amigos. Em tempo de rescaldo da guerra franco-prussiana, estreou em Weimar no ano de 1877. Só teve as honras do Palácio Garnier, sede da Ópera de Paris, em 1892, volvidos 24 anos.

Filippa Giordano. S’Apre Per Te Il Mio Cuor . Ópera Sansão e Dalila. De Camille Saint-Saens. 1877.

Pedagogia de choque

SAAQ. Stunt piéton

Do ponto de vista do cidadão moderno, os atropelamentos são inadmissíveis. Demasiada imprudência, distracção e morte. A publicidade destaca-se como um dos principais meios de prevenção. Há várias formas de dissuadir o peão imprevidente: acidentes tecnicamente estetizados ou dramatizados; mortos faladores; desespero dos pais das vítimas; anjos salvadores… Predominam os anúncios que chocam e assustam. É o caso do Stunt piétons, da canadiana SAAQ (Société de l’Assurance Automobile du Québec). O anúncio recorre ao choque e ao susto. O desvio é o caminho mais avisado. Os acidentes e as vítimas, reduzidas a esqueletos, reconhecem-se no ecrã de um aparato técnico. A simulação de uma realidade pode ter mais impacto do que a própria realidade.

A pedagogia do choque e do medo não é apanágio dos regimes e das instituições totalitárias. Mais ou menos eficaz, configura um discurso do poder. A pedagogia do choque e do medo esmera-se, mas, muitas vezes, sem grandes resultados. Por exemplo, contra o tabaco ou o álcool. Tudo indica que a pedagogia do choque e do medo também é apanágio das sociedades democráticas. A prudência não está associada ao medo? O medo não sensibiliza?

Marca: SAAQ. Título: Stunt piétons. Agência: Lg2. Direcção: Olivier Labonté Lemoyne. Canadá, Novembro 2018.

Proposta indecente

Proposta indecente

O face reconheceu que as minhas páginas respeitam os “padrões da comunidade”. Quando a emoção bate à porta, gosto de a acompanhar com música. Optei pelo tema do filme Proposta Indecente (1993), da autoria de John Barry, vencedor de cinco prémios Óscar e compositor da maioria das músicas da saga 007. O tema do filme Proposta Indecente é sereno e melodioso. Assim me apetece.

John Barry. Indecent proposal, 1993. Interpretação: The City of Prague Philharmonic Orchestra.

A montanha mágica

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866

02. Albert Bierstadt. A Storm in the Rocky Mountains, Mt. Rosalie, 1866.

É costume opor-se a cultura e a natureza. Quase toda a natureza é cultura. Um povo pode nunca se ter deslocado a determinada montanha, não lhe ter feito o mínimo arranhão, percorre-a, no entanto, com as suas crenças e o seu imaginário. Eleva-a, por exemplo, a um lugar mítico. O ser humano acolhe, deste modo, a natureza naquilo que a cultura tem de mais crucial: o sagrado.

Os quadros de Albert Bierstadt (1830-1902), norte-americano nascido na Alemanha, lembram as palavras de Álvaro Domingues:

“As montanhas, outrora lugares de assombração e de cavernas de dragões, eram, no imaginário do antigamente, os ossos da terra, os ligamentos sem os quais tudo se desconjuntaria, os ninhos das tempestades, o reino das nuvens, a origem das águas, os tesouros de minério, um axis mundi, uma montanha cósmica entre a Terra e o Céu” (Álvaro Domingues, Volta a Portugal, 2017, p. 54)-

As montanhas de Albert Bierstadt:

A sombra das novas tecnologias

phone

Anúncios como o Get your brain back, da reMarkable, ou Relax we post, da Ibis, multiplicam-se. A extrema euforia é mãe do desencanto. Inovações com o impacto das novas tecnologias não podem dormir na sombra do entendimento. As novas tecnologias são aditivas. Afastam-nos do “mundo da vida”. Moldam-nos, menos com sobressaltos e mais com massagens infestantes. O anúncio Get your brain back enuncia os riscos do mundo electrónico e sugere, como alternativa, o “papel digital”, uma oportunidade de negócio; no anúncio Relax we post, uma rede de hotéis disponibiliza uma ama-seca para cuidar dos telemóveis. Somos netos de Metropolis (Fritz Lang, 1927) e do Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932). Combate-se o fogo com o fogo. E o digital com o digital? A alienação com a alienação? Um novo flautista de Hamelin conseguirá afastar os ratos electrónicos, o cortejo de “amigos” mortos vivos? Em Portugal, os telemóveis existem desde 1991. Sobre os seus efeitos, pessoais e sociais, pouco se sabe. A procissão ainda vai no adro.

Get your brain back e Relax we post são dois anúncios notáveis a transbordar de criatividade. Contribuem, ambos, para abrir caminho num terreno movediço que a experiência já banalizou.

Marca: Ibis Switzerland. Título: Relax we post. Agência: Jung von Matt/Limat. Direcção: Johannes Schroeder. Suíça, Outubro 2018.

Marca: reMarkable. Título: Get your brain back. Agência: & Co./NoA, Direcção: Simon Ladefoged. Dinamarca, Novembro 2018.

 

 

 

A fechadura grotesca

Ex-votos

Ex-votos.

O anúncio chinês Intelligent Lock, para a Kaadas, é um cúmulo do grotesco. Corpos despedaçados num mundo desconexo e caótico. O anúncio baralha os nossos sentidos e os nossos sentimentos. É sinistro, mas consegue pôr-nos a rir. Embora delirante, aparentemente desmiolado, manifesta-se completamente racional. É racional pelos fins visados: a promoção das fechaduras Kaadas. E é racional em relação aos meios mobilizados. O anúncio é composto por uma sucessão de enigmas: como conseguem os pais reconhecer os filhos e estes abrir a porta? Ao jeito de um romance policial, a solução está guardada para o desfecho final: as fechaduras Kaadas abrem com um toque e identificam a pessoa. Apesar do desconcerto, Intelligent Lock revela-se mais racional do que os anúncios em que não existe relação aparente entre, por um lado, a imagem, o som e a narrativa e, por outro, o produto ou o serviço. Nestes casos, a ligação, a ponte, entre o conteúdo e o produto do anúncio é impressiva, subliminar ou alegórica.

Marca: Kaadas. Título: Intelligent Lock. Agência: F5 Shanghai. China, Outubro 2018.

Mergulho e ascensão da mulher. Coreografia subaquática

julie gautier

AMA. Julie Gautier. 2018.

Ama é uma palavra japonesa que significa “mulher do mar”. Nesta curta-metragem, realizada e interpretada por Julie Gautier, uma mulher, fustigada pela chuva, vê-se mergulhada na piscina mais profunda do planeta. Sujeita à gravidade da água, protagoniza uma coreografia sofrida que culmina numa suspensão, num equilíbrio, que precede a ascensão libertadora.

The rain falls like so many tears on a young woman in a little black dress. We dive into her eyes as we dive into her soul drowned in sorrow. The woman is lying on the bottom of the water. She gets up slowly and begins to dance. Her movements are graceful, but her feet are heavy on the bottom. Despite gravity reveal the weight on her shoulders. The music gets faster, the dancer rises faster, breaks free of gravity until she flies off. She falls as exhausted by this fight against herself before finally ascending to the surface. Her face shines, she releases a bubble of air, the pain is gone, life can resume its place (https://www.y-40.com/en/events-program-/1292-ama-international-women-s-day-.html).

A performance de Julie Gautier é fantástica. Convém realçar que o marido, Guillaume Néry, é campeão mundial de mergulho livre (freediving). A curta-metragem AMA foi concebida para o Dia Internacional da Mulher.

This film speaks a lot to women, because it was written by and for women but it is not exclusive to women. I do not want to make it a militant film, nor feminist. For me, it’s just an open door for the heart of a woman (Julie Gautier: https://www.y-40.com/en/events-program-/1292-ama-international-women-s-day-.html).

AMA oferece-se como uma curta-metragem minuciosamente concebida e realizada. A coreografia subaquática é, ao mesmo tempo, surpreendente e encantadora. A estética deu ares de sua graça e foi a banhos.

Título: AMA. Realização e interpretação: Julie Gautier. Coreógrafa: Ophélie Longuet. Produção: Spark Seeker/Les Films Engloutis. França, Março 2018.

Filho da Lua

Colocaram estas fotografias no Facebook. Passaram-me despercebidas. Provêm da sessão inaugural do festival Filmes do Homem (Agosto 2018). Gosto de conversar. Umas vezes com a máscara da convicção, outras com o humor de quem ri com as próprias piadas. Restrinjo cada vez mais as conversas a assuntos e a públicos que me tocam. Apraz-me conversar, escrever, ensinar e investigar com liberdade e motivação. Um privilégio que a academia está a perder. Já a gestão e a “internacionalização”, dispenso-as. “Internacionalizo” pouco. Não sinto a falta. Prefiro não ter fronteiras.

Internacionalizemos! Hijo de la Luna (1986), da banda espanhola Mecano, ultrapassou a vintena de covers, desde os clássicos até aos góticos. Os Mecano cantam-na em espanhol e em italiano. Gosto da versão italiana. Coloco uma e outra. A letra convoca a mitologia. Uma mulher dá à luz um bebé de pele branca com olhos cinzentos. O pai, cigano, desconfia de adultério. Mata a mulher e abandona o filho no cimo de um monte. A lua, que não pode ter filhos, adopta a criança. Quando esta está contente, temos lua cheia; quando está triste, a lua encolhe-se, em quarto minguante, para melhor a embalar.

Mecano. Hijo de la Luna. Entre el Cielo e el Suelo. 1984. Vídeo musical.

Mecano. Figlio Della Luna. Video musical em italiano.

 

Somos seres de partilha

Romeu e Julieta 2

Somos seres de partilha, que existimos para os outros, que juntos lutamos para que a terra seja um espaço de dom de uns para outros (Seres de partilha: http://franciscanos.org.br/?p=70419).

Somos seres de partilha. Correntes de dádiva e contra dádiva percorrem e cimentam as sociedades (ver Marcel Mauss, Ensaio sobre a dádiva, 1925). Partilhamos quase tudo. Até as misérias. Os gostos são cruciais nestas partilhas e distinções. Pelos gostos nos expomos, pelos gostos comungamos, pelos gostos nos afastamos. O gosto é, ao mesmo tempo, pessoal e colectivo. Os gostos musicais prestam-se particularmente a este jogo entre o íntimo e o público.

Gosto do compositor Nino Rota, bem como de outros compositores que nos anos sessenta e setenta escreveram dezenas de músicas de filmes. Por exemplo, Ennio Morricone ou Francis Lai. Não é uma paixão, antes um abraço da memória. Aos meus treze anos trauteei vezes sem conta o Tema do Amor, do filme The Godfather (1972). Escutá-lo regenera-me. A memória tem destas manhas. Partilhá-lo reconforta-me. Revisita-me uma velha máxima: é mais gostoso gostar do que ser gostado”. Gosto de gostar!

Acrescento o Tema do filme Romeu e Julieta (1968), também da autoria de Nino Rota. Recordo raramente memórias isoladas. Recordo em cadeia. E rumino: por que motivo estas músicas desapareceram da nossa paisagem sonora? Fazemos muito melhor?

Nino Rota. Tema do filme Romeu e Julieta. 1968.

Nino Rota. Love theme. Filme The Godfather. 1972.