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A sociedade dos guarda-chuvas

À porta da igreja de Parada do Monte. Fotografia de João Gigante. Livro Pedra e Pele. 2018.

Com Álvaro Domingues (coordenador), João Gigante e Daniel Maciel, participo, desde 2017, numa investigação sobre a freguesia de Parada do Monte, em Melgaço. Inventariaram-se documentos, nomeadamente imagens, organizou-se uma exposição (Somos os que aqui estamos – em trânsito), e publicaram-se vários textos. Acresce o livro de fotografias de João Gigante, Pedra e Pele, editado no verão passado (2018). Está ainda na forja um livro global. Este ano, abordamos uma outra freguesia de Melgaço: Prado.

Os objectos falam, diria Edward T. Hall (A Linguagem Silenciosa, 1959; e a Dimensão Oculta, 1966). Mas importa entendê-los. Os objectos são, provavelmente, os melhores analisadores da vida social. Prenhes de sentido, interpelam-nos sem nos atordoar com palavras. São estuários de sentido. Por estranho que seja escutar o silêncio dos objectos, há momentos em que não temos outra solução senão dialogar com eles. Por exemplo quando participei na exposição Vertigens do Barroco, no Mosteiro de Tibães, em 2007, e na criação de um espaço museológico (Espaço Memória e Fronteira, em 2007, em Melgaço). Os objectos falam, calados. É verdade que somos nós quem fala. Nos livros de Álvaro Domingues, os objectos não desdenham posar e confidenciar uma nuvem de discursos esfíngicos.

À porta da igreja, num bengaleiro com varões metálicos cravados no granito, os guarda-chuvas esperam, quietos e mudos, os donos. Tanta gente vê e ninguém presta atenção. São guarda-chuvas e toda a gente sabe que um guarda-chuva é um guarda-chuva. Mas o João Gigante tirou-lhes um retrato. Fotografar é transubstanciar. Os guarda-chuvas já não tremem com o vento mas ganham uma nova vida e cativam novos olhares. As notas numa pauta proporcionam música, os guarda-chuvas numa fotografia proporcionam interrogações e pistas. A disposição dos guarda-chuvas no bengaleiro depende da decisão dos donos. Penduro-o aqui ou ali? Ou não o penduro? Uma sociedade comporta pessoas que se avizinham e compactam configurando grupos e massas. Os guarda-chuvas também se encostam uns aos outros (ver o segundo varão à direita). Outros distanciam-se. Em pequenos grupo (primeiro varão à esquerda) ou individualmente (segundo varão à esquerda e, destacado, no terceiro varão. Uns estão pendurados, outros enfiados. Dois guarda-chuvas dispensam o bengaleiro, encostando-se à porta da igreja. João Gigante tem destes encantamentos: transforma um conjunto de guarda-chuvas numa alegoria da diferenciação social.

Voar com asas de sal

Ontem, dia 5 de Abril, apresentei uma comunicação, “Jogos de espelhos entre emigrantes e residentes, em Monção, no Colóquio “Emigração para França na década de 60”, organizado pela Mulher Migrante – Associação de Estudo, Cooperação e Solidariedade (AMM). Há 25 anos que não investigo sobre a emigração. Desde então o pouco que escrevi releva do restolho e do resíduo. Levava, porém, no bolso dois assuntos marginais a abordar se se proporcionasse. Não foi o caso. Regressaram, carinhosamente, tão secretos como partiram. Mas já é tempo de os desembolsar e colocar no Tendências do Imaginário, o meu repositório de ideias pardas.

A expressão “viúvas de vivos” tornou-se numa palavra mestre. Ilumina e obscurece, como todas as palavras mestre. Nas décadas de 50, os portugueses emigraram em massa, mormente para França. A crónica falta de gente no País. Mas, nos primeiros tempos, faltaram sobretudo homens. E as companheiras, por vezes vestidas de negro, arcaram com a responsabilidade, e o trabalho, da “casa”, da família, dos filhos, das propriedades, da agricultura… Se, ao partir, os emigrantes foram uns “heróis”, ao ficar, as mulheres foram umas “heroínas”. Mas, para além das casadas, sobraram, também, as solteiras, que detêm a sua parte na história. Faltavam, de facto, mancebos na comunidade. Em 1981, apesar da correcção decorrente da emigração feminina massiva a partir de meados dos anos 60, a curva de masculinidade ainda acusa o desequilíbrio nas idades “mais férteis”. Em Melgaço, entre os 25 e os 35 anos, havia cerca de 40 homens para 100 mulheres (Gráfico 1).

Gráfico 1. Curva de masculinidade. Melgaço, 1981.

O quadro 1 evidencia a disparidade da incidência da emigração em função do género. Segundo um inquérito, dos 866 entrevistados com mais de 60 anos residentes em Melgaço, 72,9% dos homens, contra 10,8% das mulheres, foram emigrantes. A distância acentua-se nas freguesias da montanha (Alto Mouro): 90,5% contra 9.5%.

Este desequilíbrio na relação de masculinidade tem consequências na vida das pessoas. Na minha infância, nas noites mais amenas, após o jantar, as mais jovens costumavam passear em grupo. Se a memória não me engana, compunham bouquets de seis e mais moças. Caminhavam sós ou acompanhadas por um rapaz, porventura, o sobrinho do padre. Cava-se uma falha no mercado matrimonial. É certo que os homens não desaparecem. Estão, apenas, longe. Mas, antes das trombetas da globalização, já era possível estar-se longe e perto. “Presente ausente”.

Nas freguesias de montanha, onde não era hábito a mulher emigrar, as solteiras preparavam-se durante o ano para os encontros estivais. Durante as férias de verão, processa-se uma concentração e uma aceleração do mercado matrimonial. Esta efervescência da “escolha do cônjuge” beneficiava da profusão de festas, eventos, casamentos, baptizados, passeios e idas a banhos. Organizavam-se, inclusivamente, bailes em caves improvisadas. Findo “o querido mês de Agosto”, casados, comprometidos ou livres, os homens repartiam e as mulheres ficavam.

Apesar da proximidade da lonjura e dos calores de verão, algum desequilíbrio teimava em persistir na repartição por sexo. Estou convencido que este desequilíbrio contrariou a propensão para a homogamia: os operários casam com operárias, os professores com professoras… Propiciou, extraordinariamente, num lugar por um tempo, alguma exogamia: o aumento de casamentos fora da classe.

Creio que estes temas ganhariam em ser estudados. A informação talvez não esteja na Internet. Vai todos os dias ao cemitério e não volta.

Este é um dos dois apontamentos. Guardo o segundo para mais tarde. Acrescento duas canções. Uma francesa que costuma cantar em inglês canta francês e uma brasileira canta espanhol. Acompanharam a escrita do artigo, não têm por que se despedir dele.

Simone. Procuro olvidarte. Bésame. 1991.
Charlotte Gainsbourg. L’un part, l’autre reste. L’Un reste, l?Autre part. 2005.

Mudam-se as vontades, mudam-se os nomes

Elan.

“Women want mediocre men, and men are working hard to become as mediocre as possible” (Margaret Mead).

As palavras andam numa autêntica roleta russa. Rotuladas e estigmatizadas, esfregam-se como quem lava o mundo. Participo num evento internacional que alterou o nome por suspeita de machismo. Continha a palavra “homem” (ser humano). O novo título é tão asséptico que nem um elefante o memoriza. Perde a realidade, vence a ideologia.

A palavra é performativa, muda montanhas e rasga oceanos. Uma palavra a mais ou a menos cava um abismo, mormente se for apontada com o dedo em riste, indexada. Entendo, porém, que não se muda uma língua palavra a palavra. Uma língua, dizia Ferdinand de Saussure (Curso de Linguística Geral, 1916), comporta uma visão do mundo. Várias visões do mundo, acrescenta Mikhail Bakhtin (Marxismo e a Filosofia da Linguagem, 1929). Embora “aconteçam coisas com palavras” (John L. Austin, Quando Dizer é Fazer, 1962), o essencial do efeito linguístico é estrutural. Não se combate a ideologia de uma língua a esconjurar palavras.

Tantas certezas têm a virtude de me converter no burro de Buridan, estacado no meio da ponte sem saber para onde se virar. Um burro, mas um burro velho avesso a cenouras, censuras e catequeses. Um asno que dispensa que lhe ensinem como escrever, dizer ou pensar. O anúncio, excelente, The Unbias Botton, da ElaN Languages, configura uma página de censura e tradução? Parece, mas provavelmente não.

Na verdade, o meu comentário é redutor e ligeiro. O que está em causa não é alfinetar esta ou aquela palavra mas lançar acendalhas na fogueira da luta contra a dominação de género. Sustentar o contrário não é apaziguar mas atear a fogueira com aguardente. Há situações como esta, simbolicamente densas, que nos conduzem a uma situação de duplo vínculo, a uma dilaceração sem saída.

Marca: ElaN. Título: The Unbias Botton. Holanda, Março 2019.

Sobre rodas

Bertha Benz. Motorwagen.

Em 2018, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz dos Estados-Unidos lançou um anúncio intitulado “First Driver” dedicado a Bertha Benz, mulher do inventor e empresário do primeiro automóvel (ver vídeo 1). Este ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, a Mercedes-Benz alemã lança um anúncio intitulado “The journey that change everything” dedicado, também, a Bertha Benz. Para o próximo ano, por altura do Dia Internacional da Mulher, não estranhará se a Mercedez-Benz lançar um anúncio intitulado “Visita à família em quatro rodas”, dedicado, mais uma vez, a Bertha Benz. A consumar-se esta eventualidade, consolida-se uma saga internacional com Bertha Benz como protagonista.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The First Driver. Agência: R/GA. Estados Unidos, Agosto 2018.

Os dois anúncios partilham a mesma protagonista e a mesma história: a viagem de cerca de 60Km em automóvel até à residência da mãe. Ela própria cuidou que o evento justificasse uma grande cobertura mediática e publicitária. Bertha Benz, uma mulher notável, é uma referência para a marca Mercedes-Benz, bem como para a emancipação da mulher. Nestes anúncios, Bertha Benz é uma dupla embaixadora.

Marca: Mercedes-Benz. Título: The Journey That Changed Everything. Agência: antoni garage. Direcção: Sebastian Strasser. Alemanha, Março 2019.

Os dois anúncios são semelhantes no conteúdo, mas bastante distintos no estilo. First Driver, a preto e branco, acusa um pendor clássico. The journey that change everything comporta, a começar pelo título, uma propensão barroca, por vezes, grotesca. A acção é exuberante e sobram as personagens feias, porcas e más. Esta diversidade no estilo intriga. Poucos anos atrás, a Mercedes-Benz primava por cultivar uma imagem robusta, ver previsível. Recentemente, a saída de um novo anúncio gera expectativa. Não se consegue adivinhar, à partida, qual é o estilo, o conteúdo e o público-alvo. A publicidade da Mercedes-Benz parece ter adoptado uma estratégia de comunicação poliédrica e polifónica.

Acima da igualdade

Sprite. The Pole. 2019.

À partida, sou indiscriminadamente contra todas as discriminações, positivas ou negativas, mormente as fomentadas pelo Estado. Parece não saber o que é discriminação e não discriminação, logo não saber não discriminar. O anúncio The Pole, da Sprite, é criativo, pelo tema e pelo modo: a centralidade da barra, a “deslocação de papéis” e o comentário machista em voz off. Registe-se, por último, o bailado em torno da barra. Sublime!

Marca: Sprite. Título: The Pole. Agência: Santo (Buenos Aires). Direcção: Jo Roy. Argentina, Março 2019.

As mulheres são o máximo

Nike. Dream Crazier. 2019

As mulheres são o máximo, seja essa a sua vontade. No desporto como no resto. Ilustra-o a Nike em Dream Crazier, um anúncio enérgico. Têm crescido exponencialmente os anúncios promotores da mulher. E os homens, não há publicidade que os exalte? Porventura sem as trompetes da Nike, mas com uma mensagem mais ou menos implícita e subliminar. Num registo humorístico e invertido, o homem é mergulhado no ridículo do corpo e da mente. Porque não é o máximo quem quer! Milenar, a dominação masculina escreve torto por linhas tortas. Perversamente, como no lento e pasmado anúncio da Linx, em que, com os cocos na mão e a lâmina em riste, um homem investe contra os pelos da desgraça. Em suma, a epopeia da mulher vencedora versus a farsa do homem depilado. Joana d’Arc e Don Quixote.

Marca: Nike. Título: Dream Crazier. Agência: Wiecem + Kennedy (Portland). Direcção: Kim Gehrig. Estados Unidos, Fevereiro 2019.

Marca: Linx. Título: The Balls. Agência: 72andSunny (Amsterdam). Holanda, Fevereiro 2019.

Saco de batatas

A jornalista Paula Telo Alves cita o Tendências do Imaginário no editorial de O Contacto, Jornal do Luxemburgo, intitulado Sinais de Fumo, a propósito do projecto do governo luxemburguês no sentido de tornar obrigatória a instalação de detectores de fumo em todas as casas, incluindo as privadas. Para aceder ao artigo de Paula Telo Alves, carregar na seguinte imagem.

Esqueleto fumador.

No ano 2018, 18,8% das visitas ao Tendências do Imaginário provêm de Portugal; menos de metade do Brasil, 44,4%, e o mesmo que os Estados-Unidos, 18,6%. Relativizando, em Portugal, 26 visitas por 10 000 habitantes, e no Brasil, 3 por 10 000 habitantes. Confesso que já não sei para quem escrevo.

Cabe aos fumadores uma pesada sobrecarga fiscal. Não é segredo. No entanto, entre os fumadores não predominam as classes médias nem as classes altas. As classes populares estão sobre-representadas. O imposto sobre o tabaco é tudo menos solidário. Configura um imposto focado, por que só atinge um segmento da população, e um “imposto cego e injusto porque afecta os contribuintes de igual forma, apesar das disparidades dos rendimentos disponíveis”. É uma solução de recurso que colide com o princípio da progressividade fiscal. Pagam os mais pobres para todos. Duvido que esta equação seja constitucional. Mas deve ser. Os grandes textos como a constituição costumam ser poliglotas. Uma pessoa faz uma pergunta numa língua e a resposta vem noutra.

Em muitos países, a legislação e a propaganda anti-tabaco parecem desafiar as liberdades e garantias constitucionais. Sustenta-se que é para proteger os não-fumadores, vítimas do fumo intrusivo. Este argumento da discriminação de alguns para proteger os outros é antigo. Há noventa anos, protegia-se a raça. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a Inquisição “salvou” muitos heréticos de si mesmos. O homem permanece feito da mesma massa. Os nichos da intolerância e do totalitarismo são fáceis de construir. A privacidade tem-se manifestado, historicamente, a principal presa do totalitarismo. Totalitarismo e privacidade são antagónicos. 

Creio nos interpretes da constituição mais do que o turista inglês acredita na limpeza das ruas do Porto. 

 

“Um inglês descia a avenida dos Aliados. Depara-se com um imprevisto no passeio. Observa e pensa:

  • Isto parece cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva toca na anomalia.
  • Isto é mole como cocó, mas cocó no Porto não pode ser.
  • Com a ponta do guarda-chuva extrai uma amostra que aproxima do nariz:
  • Isto cheira a cocó, mas cocó no Porto não pode ser
  • Aproxima a ponta do guarda-chuva e prova.
  • É mesmo cocó, ainda bem que não pisei.

Aflige-me que tantas organizações governamentais, para-governamentais e não-governamentais se empenhem sistemática e ostensivamente em associar o fumador, acima de dois milhões de pessoas em Portugal, à morte, ao morrer e ao morto. Além de mórbido é macabro. Se esta propensão não é uma afronta à dignidade dos cidadãos, então qual é o significado constitucional de dignidade? Como é possível que um Estado democrático divulgue “ameaças de morte” aos seus cidadãos por “crime de fumo”? Como é possível que as campanhas anti-tabaco se resumam, essencialmente, a ameaças de morte? Será que existem responsáveis que acreditam que o mundo é um videojogo?

O cigarro e a morte
O cigarro, a cinza, o fumo e a morte.

Tantas organizações anti-tabaco e nenhuma pró-fumador! Este desequilíbrio desassossega-me: O que impede os fumadores de se mobilizar através de organizações e associações? A resposta mais sensata encontro-a num apontamento de Karl Marx acerca dos camponeses:

“Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos outros em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo (…). Uma pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas de elas constituem uma aldeia e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira que batatas em um saco constituem um saco de batatas.” (Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte, 1852).

Pulverizados enquanto massa, os fumadores portugueses constituem, tal como os camponeses de Karl Marx, um saco de dois milhões de batatas. 

O fumador suicida ou o cigarro mortal

Made in Japan

Ajinomoto Stadium. Japão.

Pelos vistos, no Japão os homens gostam de mulheres. E não as deixam em paz. Não sei se, por cá, não configuraria assédio punível por lei. Mas não gostam de mulheres com voz de homem, com sinais exteriores de masculinidade. A voz da mulher quer-se feminina. Tudo por causa do desporto: as pessoas ficam roucas de tanto gritar no Ajinomotu Stadium. Mas o anúncio Husky girls data de 2005. Já lá vão 14 anos! Em suma, no anúncio os homens gostam de mulheres que parecem mulheres. As relações de género parecem confusas. A publicidade também: fique rouco, venha ao Ajinomotu Stadium!

Marca: Ajinomotu Stadium. Título: Husky girls. Agência: Dentsu (Tokyo). Direcção: Jun Kawanishi. Japão, 2005.
Deep Purple. Woman from Tokio. Who do you think we are. 1973.

Capitalismo do coração

Entramos na era do capitalismo virtuoso. Sem nos dar conta. O nosso capitalismo exala uma aura de bondade. Em politiquês correcto, é socialmente responsável. Já arranhei o assunto. Os anúncios Wind never felt better, da Budweiser, e Our flavor has no race, da Postobón ressuscitam o azedume.

Marca: Budweiser. Título: Wind never felt better. Agência: David Miami. Direcção: Adam Berg. Estados Unidos, Janeiro 2019.

Wind never felt better é um anúncio excelente. Com pouco comunica-se muito. A música de Bob Dylan não engana: estamos, duplamente, no vento. Preocupada com a ecologia, a Budweiser só consome energia eólica. E se fossem outras empresas? A energia é como os impostos. Não há cobrança com destino específico, apenas o dinheiro do orçamento. It’s the symbolic, stupid! Um parêntesis: Estamos no vento é um livro de Fernando Namora (1974) dedicado aos movimentos juvenis contestatários dos anos cinquenta e sessenta. Contribuiu para a minha vocação como sociólogo.

Marca: Postobón. Título: Our flavor has no race. Agência: Sancho BBDO. Colômbia, Janeiro 2019.

Our flavour has no race aposta na mobilização, simbólica, contra o racismo. A colombiana Postobón vende vários tipos de bebida, cada de sua cor. Para comemorar o dia de luta contra o racismo, retira o colorante às bebidas tornando-as todas iguais: transparentes como a água. Uma pergunta perversa: metáfora por metáfora, qual é o maior entorse racista? Manter as cores ou apagá-las? Convém não esquecer que uma das vertentes do racismo consiste em converter os outros para os tornar iguais a nós. Algo como uma cruzada pela mesmidade.

E pronto! Não há como uma boa dose de maledicência.

Entre quatro linhas

Smoking Cartoon Angry Face (https://br.storyblocks.com/stock-image/smoking-cartoon-angry-face-hqzepxru7ozj6grsnrs)

“Quanto mais a água é pura, menos peixes tem” (Provérbio chinês)

Aprende-se quando se viaja. O aeroporto do Luxemburgo é magnânimo: permite fumar fora do edifício. Nuns rectangulozinhos chamados smoking areas, situados entre as entradas. Com 6 graus abaixo de zero, as calças pareciam cubos de gelo. Acodem-me dois sentimentos: um de culpa e outro de idiotice. Tanta chaminé bípede a expelir fumo magoa a cidadania: em tempos de aquecimento, os fumadores tanto aquecem os pulmões como o planeta. Mas mais do que fumar tabaco, fumam-se impostos. No tempo do volfrâmio, consta que havia quem acendesse o cigarro com notas de dinheiro. O fumo do tabaco também se desfaz no orçamento do Estado. Aproximo-me da smoking area. Uma jaula sem grades para párias. Fuma-se e defuma-se até à última cinza.

Uma nova doutora em Ciências Sociais: Heidi Rodrigues Martins. Universidade do Luxemburgo.

Esta segregação justifica-se: afasta os fumadores das entradas. A segregação sabe-se quando começa, não se sabe onde acaba. Com uma ponta de humor negro, imagino os cemitérios com um recanto destinado aos falecidos fumadores. Protecção tanto na morte como na vida. Em poucas décadas, a intolerância face ao tabaco disparou. A aversão das pessoas não é só mental, é física. O fumo incomoda. Na Europa, uma em cada três pessoas com mais de 15 anos fuma (28%). É muita população sem privilégios sobrecarregada com impostos. Uma nova versão da solidariedade social e da repartição democrática dos rendimentos. O confinamento rectangular do fumador não estranha. Faz parte do imaginário. Na topografia das almas, o único lugar que não tem fumo é o Céu. Não obstante, insisto que a obsessão pela pureza é perigosa. O puro pode ser imundo. Vou ter que deixar de fumar. É uma estupidez que dura uma vida. Não me apetece ser ovelha estrelada numa pastagem de cimento. Let us smoke on the water!

Deep Purple – Smoke On The Water – Live 1973 (New York, USA).