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Os condenados da terra

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

Starvation in Africa. httpswww.religiousforums.comthreadsafrica-as-americans-are-getting-fatter.207830

“Não faz muito tempo a terra tinha dois biliões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e um bilião e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros pediam-no emprestado” (Jean-Paul Sartre, Prefácio, Franz Fanon, Os Condenados da Terra, 1961).

Quando não se vive e não se está morto, recorda-se.

Existe um anúncio que me marcou profundamente e não consigo encontrar: da Unicef, sobre a fome em África e com a música Twelve o’clock do Vangelis (Heaven and Hell, 1975). Tornou-se uma obsessão. Passava, há mais de 30 anos, na televisão francesa na hora de jantar. O apetite encolhia-se perante o cortejo de imagens de desnutrição extrema acompanhado por um lamento do outro mundo.

Não sei se encontrei o anúncio, mas nunca estive tão perto. A memória audiovisual é vaga, muito vaga. O anúncio Don, da Unicef, corresponde na música e em algumas imagens, mas data de 1985. Regressei de França em 1982. Talvez seja uma sequência ou talvez o tenha visto numa das então muitas viagens a França.

O vídeo Africa Hunger aproxima-se bastante do dito anúncio. Tem imagens terríveis de desnutrição e música do Vangelis, embora diferente e mais recente: Rachel’s song (Blade Runner, 1994). Nem sequer é um anúncio, a não ser o da nossa irresponsabilidade. Para Paul Virilio, a realidade acelerou a uma velocidade nunca vista, mas nem tudo acelerou, há realidades que mudam demasiado devagar.

Anunciante: Unicef. Título: Don. Agência: Opus. França, 1985. Música Twelve o’clock, Heaven and Hell, 1975.

MarK Van Doich. Africa Hunger. 2009. Música: Vangelis. Rachel’s song. Album: Blade Runner. 1994.

A besta humana

SemioticaEspacoTibaes

Está convidado!

A Cruz Vermelha, fundada em 1864, é a mais respeitável das instituições de solidariedade. Tem uma presença no terreno única. O primeiro anúncio, The one gift Santa can´t deliver, aborda o abandono de crianças durante os conflitos, as migrações e as catástrofes naturais. O segundo anúncio, Ce père va-t-il sauver sa fille?, oferece-se como uma ficção que se revela realidade: a destruição das condições mínimas de vida das populações.

Eneko

Eneko.

Todos os anúncios são construídos e comportam um coeficiente de fantasia. O primeiro anúncio recorre à figura do Pai Natal, uma boa opção para a narrativa, mas também um amaciador da realidade. O segundo anúncio lembra as tragédias, os dramas e o suspense dos filmes e das séries televisivas mas são uma dura realidade. Ambos convocam crianças. Constituem dois anúncios pungentes de “sofrimento à distância” (Luc Boltanski, La souffrance à distance, 1994). O segundo mais do que o primeiro.

Anunciante: International Committee of Red Cross. (IRCR). Título: The one gift Santa can´t deliver. Agência: adam&eve DDB. Direcção: Gary Freedman. Reino Unido, Novembro 2018.

Anunciante: International Committee of Red Cross. (IRCR). Título: Ce père va-t-il sauver sa fille? Agência : Sra Rushmore. Direcção : James Rouse. Maio 2018.

Vulvas e pirilaus

Libresse

Pelo conteúdo do anúncio No Jobs For C*cks, da associação Oh You Women, os pirilaus, usurpadores, desfrutam de algum protagonismo. Pergunto-me o que aconteceria se o anúncio fosse invertido? Uma indignação?

Marca: Oh You Women. Título: No Jobs For C*cks. Agência: Jung von Matt. Alemanha, Maio 2018.

Na publicidade, além de pirilaus, temos vulvas. O anúncio Viva la Vulva, da Libresse, consiste numa música cantada por vulvas. Muitas vulvas. Se o anúncio No Jobs For C*cks é um protesto, o anúncio Viva la Vulva é uma celebração. Goste-se ou não!

Marca: Libresse. Título: Viva la Vulva. Agência: AMV BBDO. Direcção: Kim Gehrig. Reino Unido, Novembro 2018.

Pauzinhos

Descarga de uma carraca portuguesa. Pannels attributed to Kano Naizen, 1570-1616 (detail)

Descarga de uma embarcação portuguesa. Biombos atribuídos a Kano Naizen, 1570-1616 (detail). Museu Nacional de Arte Antiga.

Na semana passada eclodiu um imbróglio internáutico. Um anúncio e um desfile da Dolce & Gabbana foram boicotados. Um excerto de uma notícia do Público Online narra os acontecimentos. Cinjo-me a acrescentar alguns apontamentos.

  • O sentido de humor parece não ser universal. Se quiser fazer humor, assegure-se que domina a arte. Existem cordas muito sensíveis em que convém não tocar, a não ser com luvas de seda estilizadas. Na actualidade, duas dessas cordas são o sexismo e o racismo.
  • A Internet é um espaço de poder, um lugar onde pontificam vontades hierarquizadas. Apesar de a Internet ser imaterial, há pessoas que pesam mais do que outras. Por exemplo, a indignação das celebridades Zhang Ziyi, Li Bingbing e Wang junkai surte tanto efeito que até é notícia mundial. A universalidade e a igualdade da Internet são um logro.
  • É possível retirar, de um momento para o outro e à escala global, conteúdos da Internet. Revela-se, deste modo, difícil aceder aos anúncios boicotados. Precise-se que o cidadão comum não tem quase nada de seu na Internet. Num ápice, podem desaparecer-lhe conteúdos, por exemplo, do seu blogue ou das suas páginas nas redes sociais.
  • Os responsáveis pela marca italiana pediram desculpa à China. Intrometeu-se uma mensagem polémica de Stefano Gabbana que este garante ser falsa. Alguém teria pirateado a sua conta de Instagram. Verdade ou mentira, que alguém aceda a uma conta e fale em nosso nome é um risco real. Esta situação é mais complexa do que o boato tradicional. Os procedimentos de partilha e adulteração do boato são conhecidos (ver Edgar Morin, La rumeur de Orléans, 1969). Contudo, neles não consta esta usurpação ou este aluguer da identidade alheia. Daqui se depreende que a Internet pode ser uma árvore de enganos e um jogo de máscaras.
  • As proibições e os boicotes a anúncios podem resultar numa espécie de maná para as marcas. No caso do anúncio da Dolce & Gabbana, duvido. Notoriedade, já a conquistou. Falta saber o que acontece à imagem.

Os anúncios boicotados da Dolce & Gabbana, com uma chinesa a comer comida italiana com pauzinhos, são difíceis de encontrar. Foram sistematicamente “apagados”. Encontrei uma cópia que passo a colocar. Não sei por quanto tempo.

Dolce & Gabbana. Anúncios a um desfile em Shangai. Novembro 2018.

Notícia no Público Online:

“Dolce & Gabbana cancela desfile em Shanghai por causa de um anúncio que envolve pauzinhos

A Dolce & Gabbana cancelou nesta quarta-feira um desfile de moda nem Shanghai, depois de uma polémica online em torno de um dos seus anúncios. Em causa está um anúncio onde uma mulher chinesa luta para conseguir comer pizza ou esparguete com pauzinhos. Os chineses não gostaram.

A controvérsia foi o tópico número um na plataforma Weibo, com mais de 120 milhões de leituras, já que celebridades, incluindo Zhang Ziyi, estrela de cinema de Memórias de uma Geisha, publicaram comentários críticos à marca. Celebridades, como a actriz Li Bingbing e a cantora Wang Junkai, disseram que boicotariam o desfile da marca italiana.

Alguns dos que viram os anúncios, ao todo são três, ficaram incomodados com o que consideram o tom paternalista do narrador, oferecendo lições sobre como comer com pauzinhos. Além disso, uma alegada troca de mensagens de Stefano Gabbana surgiu nas redes sociais que viriam a confirmar que o designer é racista. Este veio desmentir na sua conta de Instagram.

“Lamentamos o impacto e o prejuízo que essas observações falsas tiveram sobre a China e o povo chinês”, disse a marca de moda de luxo italiana, num pedido de desculpas online em chinês no Weibo, acrescentando que a conta do Instagram de Gabbana foi pirateada”.

(Público Online. https://www.publico.pt/2018/11/21/culto/noticia/dolce-gabbana-cancela-desfile-shanghai-criticas-anuncio-envolve-pauzinhos-1851859 (Reuters  21/11/2018). Acedido02/12/2018)

Girl power

Emily Roberts. #santaclara

O anúncio Santa Clara, do Lidl, e o vídeo musical #santaclara, de Emily Roberts, festejam o advento de Santa Clara e o fim da usurpação na terra. Santa Claus? Who cares? Talvez tenha chegado o momento propício para começar a chamar ao divino divindade e retocar o espírito da natividade.

“Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so
Whohohohohohohoho
You’re the best, you’re the best and we love you so

It’s time for us to change this stupid old school game
A whole new era Santa Clara’s gonna reign
There’s something coming ain’t it, we’re up and running
And we’re finally gonna change it.”
(Excerto da letra da canção #santaclara, de Emily Roberts).

Marca: Lidl. Título: Santa Clara. Agência: Überground. Direcção: Nathan Price. Internacional,

Emily Roberts. #santaclara. 2016.

Humanidade e inclusão

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000

Herman Kuypers (Holanda). Babel try out. Anos 2000. Babel, a história de um projecto de inclusão que acabou em segregação.

O anúncio Neymar Jr. and Teacher Kids alcança o alvo. A Humanity & Inclusion assegura, racional e emocionalmente, a mensagem. O jogador de futebol Neymar Jr. é o “embaixador”. Não sei se é um exemplo de ensino-aprendizagem, mas revela-se um bom actor. As crianças, por sinal, desfavorecidas são um suplemento de comunicação e sensibilidade. A manutenção das línguas é uma boa opção. O anúncio tem tanta qualidade que ouso desconversar. Diz Neymar Jr.: “Se eles podem ensinar, eles podem aprender”. Naturalmente! Mas na minha imaginação existem pessoas que ensinam como trombas de água e aprendem como desertos.

Anunciante: Humanity & Inclusion. Título: Neymar Jr. and Teacher Kids. Agência: Herezie (Paris). França, Outubro 2018.

À maneira de Diógenes. Os sopradores de lâmpadas.

Estátua de Diogenes

Estátua de Diógenes.

O anúncio Indestructible, da Organisation Internationale de la Francophonie , é optimista. A ideia, por mais que a castiguem, nunca se apaga. Sou menos optimista. As ideias, as boas ideias, não têm a vida fácil. Como os cavalos, também se abatem. Inclino-me para um optimismo moderado: uma ideia bem pensada, embora abafada no presente, voltará a ser pensada no futuro.

A autoria e a propriedade intelectual fazem parte da retórica da Internet. No início de Outubro, milhares de artigos foram removidos da minha página do Facebook acusando-a de spam, a “coisa” (1982), de John Carpenter, na Internet. Assegurei que não havia spam; pediram-me para aguardar. Até agora, nenhuma mensagem. Será esta a versão digital do diálogo? Entretanto, a autoria e a propriedade intelectual dormem nas urtigas. Este processo é semelhante a um auto da fé.

Não consigo colocar links do Tendências do Imaginário na minha página do Facebook. Nem eu nem ninguém. Uma mensagem automática alerta que o site Tendências do Imaginário é perigoso. O Tendências do Imaginário não é nenhum Moriarty. Contém, é verdade, pensamentos críticos e, eventualmente, polémicos. É um blogue incómodo. É a sua vocação. Com os pés em Braga e a cabeça no mundo, não poupa nenhuma instituição, grande ou pequena, branca ou preta. O Tendências do Imaginário preza o comentário desinibido, apanágio de um pensador livre. O boicote à partilha configura uma censura.

À medida que o Tendências do Imaginário crescia, cresceu o meu receio por este tipo de percalços. Passo muitas horas no computador, mas não vejo o mundo pelo ecrã.

Termino com uma história de Diógenes. Quando alguém lhe lembrou que o povo de Sinopse o condenara ao exílio, ele retorquiu: “E eu condenei-os a permanecer em casa”.

Marca: Organisation Internationale de la Francophonie. Agência : TBWA Paris. Direcção : Vincent Gibaud. França, Outubro 2018.

A geração +

“Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?” (Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra, 1891).

Todos os dias estreiam excelentes anúncios. É o caso da série Great Shows Stay With You, da Amazon Prime Video. Cada episódio foca uma pessoa que se supera. “Prime Video propõe através das suas séries tornar-te mais forte, mais audaz e, até, mais sexy” (http://www.culturepub.fr/videos/amazon-prime-video-vikings/). A campanha exorta à superação individual. Esta exaltação inspira-me um breve devaneio.

Houve períodos no século passado em que o objectivo das pessoas residia não tanto em ser mais, uma mesmidade potente, mas em ser diverso, uma travessia pela alteridade. O desígnio da superação individual, da ultrapassagem dos limites banais, lembra o super-homem de Nietzsche. Lembra, também, a ideologia de alguns regimes do século XX apostados no aperfeiçoamento do homem. A obstinação do ser humano na superação dos outros e de si próprio pode terminar num desastre.

Escrevo fragmentos desencontrados. Escrevo, em larga medida, o que me apetece. Durante a juventude combinei as duas vontades: superação e abertura. As flores do imaginário prestam-se a vários arranjos. Gostava de continuar, mas, neste momento, só consigo ultrapassar-me em doenças. O pensamento e a escrita afinam-se por uma flauta de pastor; sempre a mesma melodia.

Marca: Amazon Prime Video. Título: Vikings. Agência: Droga 5. Direcção: Steve Rogers. Estados Unidos, Outubro 2018.

Marca: Amazon Prime Video. Título: Tom Clancy’s Jack Ryan. Agência: Droga 5. Direcção: Steve Rogers. Estados Unidos, Outubro 2018.

Marca: Amazon Prime Video. Título: Outlander. Agência: Droga 5. Direcção: Steve Rogers. Estados Unidos, Outubro 2018.

De pequenino se torce o destino

Marca: Barbie. Título: The Dream Gap Project. Agência: BBDO San Francisco. Direcção: Karen Cunningham. Estados Unidos, Outubro 2018.

O anúncio The Dream Gap Project, da Barbie, está a ser um sucesso. Merecido. Meninas de tenra idade são as únicas protagonistas. Estou convencido que não existe melhor embaixador para a publicidade do que as crianças. Numa sequência de imagens notável, desempenham o seu papel de um modo brilhante. O objectivo, a igualdade de género desde a infância, é alcançado de uma forma magistral e cristalina.

As mensagens prestam-se a várias interpretações. Será que neste anúncio se enxerta um segundo discurso, uma espécie de “currículo oculto”? Uma vez que o anúncio interpela, principalmente, os pais, permitam que me expresse em conformidade: as nossas filhas precisam de sonhar que podem ser “presidentes, cientistas, astronautas, grandes pensadoras, engenheiras, presidentes de empresas”? Precisam de “ver mulheres brilhantes a ser brilhantes, e ver como chegaram onde estão”? É este o mundo que desejamos para nós e para as nossas filhas? As nossas filhas devem ser galgos a correr atrás das elites? É essa a nossa ideia de felicidade e de realização pessoal?

Choca a discriminação de que são vítimas as meninas: “três vezes menos provável receberem um brinquedo ligado às ciências”; pior, “duas vezes mais provável os pais pesquisarem “o meu filho é sobredotado?” do que “a minha filha é sobredotada”. Há, porém, males que vêm por bem. Na maioria dos casos, quando os pais estimam que o filho é sobredotado, o “privilégio” torna-se num suplício para os filhos e para os professores. É verdade que pode propiciar-se uma predição criadora: o filho, considerado sobredotado, acaba, na prática, por corresponder às expectativas. Mas, na maioria dos casos, a etiqueta de sobredotado converte-se num doloroso equívoco.

 

Embaixadores e semideuses

“A dúvida nasce do espírito, a fé é filha da alma” (John Peti-Senn, Les bluettes et boutades, 1846).

É antiga a história do burro e da cenoura. Hoje, a tendência é para substituir a cenoura por um “embaixador”, uma espécie de semideus contemporâneo. Vilfredo Pareto (Tratado de Sociologia Geral, 1916) classificava como acção não-lógica a tendência para seguir a opinião de uma pessoa célebre mas em domínios afastados do assunto. Por exemplo, um músico ou um político para resolver um problema de saúde. Na publicidade, abundam os anúncios que recorrem à figura do embaixador. Em muitos casos, o embaixador não tem, logicamente, quase nada a ver com o assunto; mas, não logicamente, tem quase tudo a ver. Herança da cenoura? Prodígios da fé? Convém lembrar uma máxima da Sociologia: não é porque uma ideia é falsa que ela perde eficácia.

Marca: The Allstate Foundation: Purple Purse. Título: Invisible Weapon. Agência: Leo Burnett (Chicago). Estados Unidos, Outubro 2018.