Anúncios que nos dão música
A comunicação nos anúncios publicitários é plural, “orquestral” e “polifónica”. Para além da “racional”, convoca múltiplas vias e dimensões: sensações, sentimentos, emoções, memórias, valores, símbolos… Por acréscimo, parte do efeito costuma ser subliminar. O que importa é que no momento oportuno o comprador, ou quem o influencia, faça a escolha desejada. Neste quadro, o fundo sonoro, especialmente a música, é particularmente relevante.
O segmento automóvel é, porventura, o mais proeminente em quantidade, recursos mobilizados e qualidade. O alcance do(s) anúncio(s) a um (novo) modelo é decisivo. Contratam-se, normalmente, os realizadores mais conceituados e as melhores agências de criatividade e produção.
Um anúncio a um automóvel não atende apenas às propriedades reais ou imaginárias do modelo; considera também as caraterísticas do público alvo a envolver e cativar. Para conseguir que este adira e nele se reconheça, convém conhecê-lo, designadamente as suas prioridades, aspirações e visões do mundo.
Embora bastante esbatida, esboçam-se correspondências entre o tipo de automóvel, as propriedade sociais dos potenciais compradores e o género musical. Ilustra-o, até certo ponto, o vídeo “Anúncios que nos dão música”, apresentado no dia 18 de março de 2026 na segunda parte de uma conferência A Música na Publicidade durante a Semana Aberta da Academia Sénior do Município de Braga.
Como de costume

Uma vez é um erro; duas vezes é um mau costume (Provérbio do Quebec).
A Almerinda Van Der Giezen teve a generosidade de me enviar a versão de My Way interpretada por Herman Brood, canção que nos habituámos a associar a Frank Sinatra. Herman Brood, ator e poeta, mas sobretudo músico e pintor, com um percurso singular, multifacetado e controverso, tornou-se uma figura emblemática da Holanda, bastante consolidada após o seu suicídio em 2001, com 54 anos. My Way é uma das suas interpretações mais bem-sucedidas.
O que poucos conhecerão, creio, é que a canção original que está na base de My Way é francesa: Comme D’Habitude, de Claude François, estreada em 1967 e contemplada na abertura dos jogos olímpicos de Paris. Creio, também, que poucos conhecem porque poucos o assumem. Acontece algo semelhante com a canção Autumn Leaves, cujo original, Les Feuilles Mortes, também é francês, com música de Joseph Kosma e letra de Jacques Prévert.
Em ambos os casos, a Inteligência Artificial não se engana:
A canção “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, é uma adaptação da música francesa “Comme d’habitude”, composta em 1967 por Claude François e Jacques Revaux, com letra de François e Gilles Thibaut. A versão original conta a história de um casal cuja rotina diária se torna monótona e sem paixão.
Paul Anka, cantor e compositor canadense, adquiriu os direitos da música em francês e escreveu uma nova letra em inglês, transformando-a em “My Way”. A nova versão foi feita sob medida para Frank Sinatra e se tornou uma das músicas mais emblemáticas da sua carreira. Apesar de ter mantido a melodia da versão original, a letra em inglês é completamente diferente e fala sobre uma reflexão de vida e realizações pessoais (ChatGPT, 05.11.2024).A canção “Autumn Leaves” é originalmente francesa. Ela foi composta por Joseph Kosma, com a letra original em francês escrita pelo poeta Jacques Prévert. A canção se chamava “Les Feuilles Mortes” e foi lançada em 1945. Tornou-se popular através de performances de cantores franceses como Yves Montand.
Mais tarde, a canção foi traduzida para o inglês por Johnny Mercer e recebeu o título “Autumn Leaves”. A versão em inglês ganhou popularidade em todo o mundo e foi interpretada por diversos artistas famosos, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Édith Piaf. A melodia melancólica e as letras poéticas em ambas as línguas tornaram “Autumn Leaves” um clássico atemporal no repertório de jazz e música popular (ChatGPT, 05.11.2024).
O Microchip e a Parabólica. Ekaterina Shelehova 1
À São, à Beatriz, à Minda,
à Paula e à Fátima,
estrelas deste deserto
Quando tudo é belo e sublime, a intérprete, a voz e a execução, convém sentir mais do que ser. Ekaterina Shelehova, canadiana, de origem russa, a viver em Itália, revelou-se durante o Got Talent de 2022 búlgaro. Desde então, de en-canto em en-canto, abraçou uma carreira de merecido, embora não ofuscante, sucesso.
Sur-preso por uma promessa incomensurável de prazer, que fazer? Tornar-se, como diria Pascal, infinitamente pequeno e infinitamente grande, microchip e parabólica, para sentir concentrado, intensamente, e aberto, extensamente. Depois, agradecer e partilhar alegre e humildemente.
Proponho-me dedicar três artigos a Ekaterina: o primeiro realça a qualidade da voz e da interpretação; o segundo retém algumas canções preferidas; o terceiro contempla parcerias.
Doidos

Os italianos e os japoneses têm um traço em comum: como diria o Obélix, são doidos! Por massas, naturalmente. Seguem quatro anúncios a marcas de ramen escolhidos pelo nipófilo cá da casas com o intuito de relevar o cuidado com o acompanhamento sonoro, designadamente a qualidade das músicas, muitas vezes exclusivas, ou seja, produzidas ou adaptadas para o efeito.
The Tokugawa Cup Noodle Prohibition feat. Nenerobo & Mikudayo. Direção: Morii Kenshirou. 2017
Bom Dia, Tristeza
“Somos poucos a pensar demasiado, demasiados a pensar pouco” (Françoise Sagan, Le Cheval évanoui, Paris : René Julliard, c1966)

Quando desejo música a preceito, costumo pesquisar neste blogue. Do compositor polaco Zbigniew Preisner, encontrei uma dúzia de obras repartidas por 4 artigos: Tristeza pasmada, Purgatório eterno, Zbigniew Preisner e Amor e lamentação. O mais antigo, Tristeza pasmada, encontrava-se desformatado e amputado. Retomo-o como lembrete da existência de fases em que a desolação, embora acompanhada por lindas palavras e boa música, se arrasta até secar a esperança.
Não me apetece dormir como o gato, nem pensar como a Françoise Sagan
Tristeza pasmada


Zbigniew Preisner é um compositor polaco. A sua música integra mais de 40 filmes. As composições não primam por ser heroicas ou alegres. O certo é que hoje acordei triste. Os sonhos devem ter sido tão bons que fiquei triste ao acordar. Uma tristeza não amargurada, de estimação, de embalar ao colo. Nunca fixaste, à beira mar, um navio que nunca mais desaparece? É isso mesmo, uma tristeza pasmada. Uma tristeza que vicia.
Seguem quatro músicas de Zbigniew Preisner. São curtas. Não dá para o navio passar.
Repouso

Se não encontrar uma oração que lhe convenha, invente-a (Santo Agostinho, 354-430).
Demoremos-nos, suspensos no colo divino, com o olhar perdido nas mãos desertas. A música proporciona-se como uma forma de comunhão. Algumas composições de Yann Tiersen prestam-se especialmente para esse efeito. Seguem Tempelhof, Erc’h e Pell, do álbum All (2019).
Jejum guloso
Não faltam fatores de desigualdade. Alguns beneficiam de uma enorme visibilidade: o género, a raça… Outros, não sendo menores, permanecem discretos: de idade, de língua… Não tenho, contudo, memória de hegemonia tão aceite, entranhada e global como, atualmente, a da língua inglesa.

Como as demais, a hegemonia do inglês é solar. Conforme o lado, ofusca ou ensombrece. Jejuar resume-se a um gesto simbólico. Óculos escuros não apagam o sol, ainda menos uma peneira. Mas propicia-se mais do que dar luz à luz.
Christoph Weidiz. Dança mourisca.1530
O simbólico não é inócuo. Interfere na nossa visão do mundo, logo no nosso modo de (re)agir. Jejuar pode contribuir para rasgar horizontes e “dar novos mundos ao mundo”, torná-lo mais rico, complexo e diversificado. Dispensar o que nos enfarta pode revelar-se salutar e, até, estimular a gula. As sombras ganham vida e entregam-se a ritmos, sonoridades e coreografias admiráveis. Acomete-nos a vertigem da descoberta e vacila ligeiramente a dominação que nos submete.

A música é outra. O ar assobia pelas frinchas das janelas e o sobrado range novos ritmos. E noite dentro, em regime lunar, espelham-se nos vidros os nossos próprios fantasmas. Ressoam outras línguas, de uma estranheza que ressoa familiar. Por exemplo, o sefardita, mas também o mourisco e o luso-árabe.

Acontece-nos visitar poesias e canções cuja origem nem sonhamos: o “Belo Manto”, de José Peixoto e Sofia Vitória; a “Hortelã Mourisca”, de Amália Rodrigues; “O Pastor”, dos Madredeus…
E surpreendemo-nos a cismar: como nos empobrece a riqueza que nos dão!
Pela diversidade, pela paz
Hesite um instante, por favor! Saia dessa corrente que o absorve! Deixe de se ofuscar pelo sol e preste alguma atenção ao que permanece na sombra. Ao contrário do que pensa, pouco terá a perder. Talvez não tenha consciência, mas andamos enrolados por maus caminhos.

Se não ouviu falar em Ofra Haza (1957-2000), aproveite a oportunidade. Conhecida como a “Madona do Médio Oriente”, descende de uma família de imigrantes iemenitas em Israel. Nasceu em Telavive em 1957 e faleceu, perto, em Ramat Gan, em 2000, com 43 anos, vítima, segundo consta, do vírus da sida. Única, a sua voz mezzo-soprano é prodigiosa.
Ofra Haza

A postura e as canções são reconhecidamente ecuménicas e interculturais. O LP, a meu ver um dos mais emblemáticos da sua carreita, Shirey Teyman (Yemenite Songs/Fifty Gates of Wisdom), de 1984, com letras em hebraico, árabe e aramaico, assume-se como uma homenagem às suas raízes iemenitas. Esta inspiração múltipla, aparentemente insólita, resulta excecionalmente bem conseguida.
Picasso. Le Bouquet de la Paix. 1958
Em 1994, foi a cantora convidada para a cerimónia de atribuição do Prémio Nobel da Paz a Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat.
Convém recordar que nós portugueses, pelo menos no que respeita à tradição musical, de sefarditas e mouriscos, quase todos temos um pouco. Abramos os ouvidos e o coração. Os tempos que correm assim o exigem.
Seguem as canções Kaddish, uma prece em memória dos entes falecidos, e Yerushalaim Shel Zahav (Jerusalem of Gold), ao vivo na sua última atuação em vida.


