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Tão feliz que ele era!

ELP

Em passeio pasmado pelos vinis deprimidos, encontrei a canção “Lucky Man”, dos Emerson Lake & Palmer. “Tão feliz que o homem foi”! Quem? Pantagruel? Tarzan? O rei Salomão? São Francisco de Assis? Os ELP dão a entender que sabem quem foi “esse homem de sorte”. Compunham, nos anos setenta, uma banda tecnologicamente avançada. Lembro-me de trautear a canção Lucky Man (1970).

Emerson Lake & Palmer. Lucky Man. Emerson Lake & Palmer. 1970

Urinar para a lua

Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Doze Provérbios. 1558-1560.

Percorri mil imagens do Pieter Brueghel sem me aperceber dos Doze Provérbios. Quem se aventura sem guia corre o risco de passar ao lado do essencial. Mas tenho os meus rapazes. O mais velho desencantou no Museu Mayer van den Bergh, de Antuérpia, os ditos Doze Provérbios, de Pieter Brueghel. “Figuras com legenda”. Por exemplo, no quarto fragmento, o homem está sentado entre duas cadeiras, ou seja, não consegue decidir-se; em baixo, no oitavo fragmento, o homem não consegue ver o reflexo do sol na água, ou seja, inveja outras pessoas.

Pieter Bueghel o Velho. Doze provérbios. 1558-1560.

Concluído entre 1558 e 1560, os Doze Provérbios ganham em ser confrontados com os Provérbios Flamengos, obra concluída pela mesma altura, em 1559. Pelo menos, onze dos Doze provérbios constam entre os 112 Provérbios Flamengos.

Pieter Brueghel o Velho. Provérbios Flamengos. 1559.

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Doze Provérbios e Provérbios Flamengos ,de Brueghel o Velho. Repetições.
Pieter Brueghel o Velho. Urinando para a lua. Provérbios Flamengos. 1559.

Incomoda-me esta ignorância vetusta. “O homem a urinar para a lua” é uma falha no meu repertório. Não conhecia os Doze Provérbios, nem tão pouco relevei tão estranha figura nos Provérbios Flamengos. Faltava, confesso, no meu imaginário um homem a urinar para a lua.

Importa festejar. Com música, naturalmente. Existem muitas canções dedicadas à lua e aos lunáticos: Moon River (Audrey Hepburn), Harvest Moon (Neil Young), Brain Damage (Pink Floyd),  La Luna (Angelo Branduardi), Moonlight  Shadow (Mike Oldfield), Blue Moon (Elvis Priesley), mas, sentimentalmente, opto pela Sonata ao Luar, de Beethoven. Consta entre as músicas que o meu rapaz mais velho mais gosta de tocar. Coloco a versão completa: o terceiro movimento é o meu preferido. Interpretação da ucraniana Valentina Lisitsa

João e Albertino

Beethoven. Piano Sonata No.14 .Opus 27 No.2. Mov 1, 2, 3 (Sonata ao luar). Valentina Lisitsa.

A democracia avançada

Jan_Miense_Molenaer. Family making music. 1630.

“Dois estilos que correspondem a duas concepções da vida claramente opostas: o estilo clássico, todo economia e razão, estilo das “formas que pesam”, e o barroco, todo música e paixão, grande agitador das formas “que voam” (Eugene d’Ors, Du Baroque, 1935).

Cumpre-me preencher formulário após formulário em plataformas electrónicas como se essa fosse a minha razão de existir. Costumo acompanhar esta penitência com música barroca. Espiraliza a quadratura.

A par do plástico, vigora a epidemia das regras e dos formulários. Mesquinha, quando não estúpida. Campos, campos e mais campos, para o rebanho apascentar. Neste mundo pós-novo, não há vontade, nem iniciativa, que não careça autorização. Autorização, autorização e mais autorização. Obrigados a preencher cinco vezes o mesmo formulário para a mesma entidade, que razão nos assiste? A razão reiterativa, com a repetição do ruído a proporcionar uma erosão do eu. Sinais de uma democracia avançada.

Garantem os sábios que os laços estão a afrouxar. Eu vejo-os a tolher os impulsos e a depenar as asas. Cada época tem as suas palavras mestras; “autorização” é palavra emblemática do nosso tempo. Existem, evidentemente, plataformas que permitem a criatividade, que não resumem as pessoas a coisas timbradas. A técnica sempre foi ambivalente. Há técnicas que nos disciplinam e técnicas que nos libertam. Mas essa é outra história.

A música barroca é um antídoto do classicismo digital, das “formas que pesam”. Além de Bach, Vivaldi ou Haendel, existem compositores barrocos que não desmerecem. Por exemplo, Giuseppi Torelli (1658-1709). Vale a pena ouvir até ao fim.

Giuseppe Torelli. Concerti grossi con una pastorale per il Santissimo Natale, Concerto A Quattro Op. 8, Nº 6 (1709).Performed by Il Giardino Armonico.

Uma história antiga

Tablet V of the Epic of Gilgamesh from the Old-Babylonian Period, 2003-1595 BCE

O Épico de Gilgamesh é considerada a obra literária mais antiga da humanidade. Escrita em Sumério, passa-se na Mesopotâmia. Narra os feitos de um rei que, desafio após desafio, parte em busca da imortalidade. Há cerca de 4 000 anos. O Épico de Gilgamesh foi traduzido em português pela Assírio & Alvim (2017).

O músico canadiano Peter Pringle canta, na língua original, acompanhado por um gish-gu-di (um alaúde sumério de três cordas), os primeiros versos do Épico de Gilgamesh.

Fernando e Albertino

Peter Pringle. The Epic of Gilgamesh in Sumerian.

Sanfona

Organistrum do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela. c. século XII. Espanha

Se bem me lembro, quando era criança, na minha terra, havia pessoas que tocavam sanfona. É um instrumento musical medieval com uma sonoridade própria. O meu rapaz mais novo mostrou-me esta interpretação de sanfona. Dá para ouvir? Sanfoniza-te!

Andrey Vinogradov. Aequilibrium. Hurdy-Gurdy Aequilibrium. 2018. Medieval Tune. Hurdy-Gurdy With Organ.

O pesadelo, a armadilha e o prodígio

Dospinox. 2019.

A eslovaca Dospinox anuncia um remédio contra os pesadelos com música a condizer. Faltava. Pesadelos e curas lembram dois anúncios, bem musicados, da Nolan. Dois roedores, duas vítimas musculadas. Tudo em vésperas de urnas e Halloween.

Marca: Dospinox. Título: Dragostea Din Tei. Agência: Wiktor Leo Burnett (Bratislava). Direcção: Maxmilian Turek. Eslováquia, Setembro 2019.
John Nolan. Nolan’s Cheddar. John Nolan Films. UK, 2010.
John Nolan. Nolan’s Nuts. John Nolan Films. UK, 2010.

Danças do Renascimento

Pieter Bruegel. A Dança Camponesa. 1568.

Nos anos setenta, pertenci a um clube de música clássica. Tinha a vantagem de estar ao corrente do que era publicado e de adquirir os discos a preço reduzido. Encomendei o álbum Danses de la Renaissance (1973), do Clemencic Consort, neste quadro, sem conhecer o conteúdo. Afeiçoei-me ao Clemencic Consort e acompanhei a sua carreira. Tivemos momentos felizes. Por exemplo, o álbum La Fête de l’Âne – Traditions du Moyen-Age (1980 : o Tendências do Imaginário contempla várias músicas). O vinil das “Danças do Renascimento” é uma relíquia.

O Tendências do Imaginário e a Internet contêm muita música medieval. Ainda mais, música barroca. E a música do Renascimento? Fica entalada entre o medieval e o barroco? As sociedades têm ouvidos selectivos. A História da Música comprova-o. Dispense-se alguma atenção a estas danças do Renascimento. Não ficamos mais pobres. Seguem a faixa 3, Danses, 08:58, ficheiro vídeo; a faixa 11, Danses anonymes, 05:12, e a faixa 14, Danses, 04:17, estas duas faixas em ficheiro áudio.

Clemencic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1973.
Clemencic Consort. Danses anonymes. Danses de la Renaissance. 1973.
Clemencic Consort. Danses. Danses de la Renaissance. 1973.

Perder a vontade

De todos os animais, o homem é aquele a quem mais custa viver em rebanho.“ (Jean-Jacques Rousseau).

Começar o dia com três cigarros, Anna F. e dois gramas de vontade é um prenúncio batido.

Perdi a vontade num dia de nevoeiro. Viajava rumo ao Alto Minho. A minha vontade gosta do Alto Minho. Em Nine, mudei de comboio. Não me acompanhou, entrou noutro comboio, não sei se por engano. Segui para Viana do Castelo e ela, para o Porto. Nunca mais nos reencontrámos. Sem a vontade, não há vontade. Apodera-se de nós um vazio que nos cansa. E nos devora. “A espécie de felicidade de que preciso não é tanto a de fazer o que eu quero, mas a de não fazer o que eu não quero.” (Jean-Jacques Rousseau).

Anna F., Too Far, For Real. 2010.
Anna F., Most of all, For Real. 2010.

A mãe do soldado e a ilha da liberdade

Ilha de Hornos. Chile.

I need an island, somewhere to sink a stone
I need an island, somewhere to bury you
Somewhere to go (Heather Nova).

Quanto mais frágil a memória instantânea e imediata, mais me acodem recordações remotas e recônditas. Por exemplo, a cantora Heather Nova, natural das Bermudas. Com uma dúzia de álbuns publicados, torna-se difícil reter esta ou aquela música. Opto por aquelas que se gravaram na minha idiossincrasia. Every soldier is a mother son, um truísmo que abala a nossa paleta de emoções; Island demanda um lugar para libertação da opressão. Conheço alguém que já construiu a sua ilha. Não é longe da costa, mas é agreste. Como a ilha de Hornos, no Chile, habitada apenas por um militar e família (ver imagem).

Heather Nova. Every soldier is a mother son. The jasmine Flower. 2008. Ao vivo em Ghent, em 2009.
Heather Nova. Island. Oyster. 1994. Ao vivo. TV Noir. 2011.

Os gatos são como a felicidade

Roberto Chichorro., Janela com gato e mulher de vermelho. 2010.

Os gatos são como a felicidade. Sabe-se quando se afastam, não se sabe quando voltam (AG)

O anúncio Katzen, da Netto, apresenta gatos a fazer compras. É uma paródia dos gatos virais na Internet: o OMG Cat (23 942 793 visualizações); Surprised Kitty (78 935 700 visualizações); No No Cat (12 843 138 visualizações); o Keyboard Cat (55 947 719 visualizações); ou o gato Maru (23 854 637 visualizações).

A banda sonora do anúncio é uma adaptação da música Magic Fly dos Space, uma banda francesa dos anos setenta, por sinal, muito desconhecida. Acrescento duas músicas menos alegres dos Space: Blue Tears e Secret Dreams, ambas do álbum Magic Fly (1977).

Marca: Netti Marken-Discount. Título: Netto-katzen. Direcção: Brian Lee Hughes. Alemanha, Junho 2016.
Space. Blue Tears. Magic Fly. 1977.
Space. Secret Dreams. Magic Fly. 1977.