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A valsa das flores

Claude Monet. Water Lilies. 1914.

Cinquenta e cinco primaveras. Uma “Valsa da Primavera”, do Frédéric Chopin, vinha a propósito, mas a música é, afinal, de Paul de Senneville (Mariage d’Amour, 1979). Existem, porém, muitas páginas na Internet a apresentar a música como sendo de Chopin. Uma dessas páginas tem mais de 84 milhões de visualizações. A Internet também (se) engana!

Paul de Senneville compôs vários sucessos. Por exemplo, a Ballade pour Adeline (1977) e a Song of Ocarina (1991). Revisito uma música que brilhou e invernou: Dolannes Melodie (1975).

Paul de Senneville. Mariage d’Amour. 1979.
Paul de Senneville & O. Toussain. Dolannes Melodie. 1975. Intérprete : Jean-Claude Borelly.

Primavera

Giuseppe Arcimboldo. Primavera. 1563.

Pressente-se a Primavera. Antonio Vivaldi dedicou-lhe uma composição e Giuseppe Arcimboldo, vários quadros. As obras de Vivaldi e de Arcimboldo sofreram, ambas, um longo eclipse histórico. Apenas foram redescobertas na primeira metade do século XX.

A. VIVALDI: «Filiae maestae Jerusalem» RV 638. Ph. Jaroussky / Ensemble Artaserse,

A democracia morre no escuro

O Washington Post faz 140 anos. “O conhecimento empodera-nos. O conhecimento ajuda-nos a decidir. O conhecimento mantém-nos livres”. E o jornalismo empodera-se a si próprio. Bob Woodward e Carl Bernstein, protagonistas no caso Watergate (1972-1974) eram jornalistas do Washington Post.

Marca: Washington Post. Título: Democracy dies in darkness. Estados Unidos, Fevereiro de 2019.

Eram tempos de protesto, e de canções de protesto; em 1967, os Buffalo Springfield lançam a canção For What it’s Worth que alude à repressão de uma manifestação de jovens ocorrida em Novembro de 1966 em Nova Iorque:
“There’s something happening here
What it is ain’t exactly clear
There’s a man with a gun over there
Telling me I got to beware “

Buffalo Springfield. For What It’s Worth. Buffalo Springfield. 1967.

A Sagração da Primavera

Sagração da Primavera

Sentir-se a afogar é terrível. Só ou em grupo, num barco ou numa instituição. E quando o naufrágio envolve uma superorganização? Afunda hierarquicamente, por etapas, com relatório de autoavaliação, despacho e autorização superior. Pior quando se esbraceja. Como os bailarinos da Sagração da Primavera, de Ígor Stravinsky (coreografia de Nijinsky). A estreia, em 1913, foi um dos maiores insucessos da história da música. Segue um excerto; a dança, propriamente dita, começa no minuto 3:20.

Stravinsky. Rite of Spring. Introduction, Augurs of Spring and Ritual of Abduction. Nijinsky 1913 edit. Joffrey Ballet, 1987.

Delhia de France. Três dedos de música

Delhia de France.

Estava no céu
E vi uma gaivota
Que me mergulhou no mar
Estava no mar
E vi um peixe
Que me atirou contra as rochas
Estava nas rochas
E vi um caranguejo
Que me arrastou para a areia
Estava na areia
E vi um ser humano
Que não me viu.

Os dias sucedem-se ora burocraticamente académicos e tensos, ora academicamente burocráticos e lentos. Não sobra espaço para a deriva do pensamento. Nestes tempos de coágulo mental, a música é boa companheira. Não é ciumenta e sabe ser pouco intrusiva.

Ouvi pela primeira vez a cantora alemã Delhia de France no anúncio Earth Rising, da Sony (https://tendimag.com/2019/01/05/o-nascer-da-terra/). Cativou-me.

Ontem, 7 de dezembro, a Dra. Ana Macedo concluiu, com brio, as provas de doutoramento em Estudos Culturais. Tive o gosto de ser orientador. Dedico-lhe estes três dedos de música.

Robot Koch and Savannah Jo Lack – Heart as a River (feat Delhia de France). 2016.
Delhia de France. Blank. Moirai. 2018.
Delhia de France. Waterfalls. Moirai. 2018.

Folk dinamarquês

Haugaard & Høirup.

“Ninguém escreve ao coronel” (Gabriel Garcia Márquez). Tão pouco, ressalvando duas ou três pessoas. A Sónia enviou-me a música Gaestebud, do duo dinamarquês Haugaard & Høirup. Lembra o filme, também dinamarquês, Babettes Gaestebud (A Festa de Babette; 1987). Um banquete extraordinário transforma as atitudes e os comportamentos dos convidados. No fim, os aldeões, protestantes puritanos, dão as mãos numa roda nocturna. Graças ao banquete, “tudo é possível”: imagino a música Gaestebud a descer da lua para empolgar os vizinhos entretanto regenerados e reconciliados.

Haugaard & Høirup. Gaestebud. Gaestebud. 2005.

À música que a Sónia enviou, Gaestebud, do álbum homónimo (2005), acrescento Rejsedage, do álbum homónimo (2008), e Som Stjernerne på Himlens Blå, do álbum Om Sommeren (2003). Desta vez é uma canção, o que não é frequente.
Descentrar-se, vaguear pelo mundo sem calcorrear os mesmos caminhos faz bem ao espírito. É uma arte de não ficar fechado lá fora. Como muita boa gente!

Haugaard & Høirup. Rejsedage. Regjsedage. 2008.

Haugaard & Høirup. Som Stjernerne på Himlens Blå. Om Sommeren. 2003.

Espelhos deformadores

Flat distorting mirrors

Atardo-me por terras de Islândia. Emiliana Torrini é islandesa. Tornou-se conhecida pela sua participação no Senhor dos Anéis (Gollum’s Song; As Duas Torres, 2002) e pela canção Jungle Drum (Me And Armini, 2008). Gosto do álbum Love In The Time Of Science (1999), especialmente da canção Baby Blue. Uma canção bem cantada encanta a dobrar.
O pai de Emiliana Torrini é italiano. Tenho um apreço enorme pela Itália. O que é um desconsolo. Tenho várias portas abertas para o mundo e a Itália quase nunca aparece. Aliás, a Espanha, a Grécia, Portugal e, em menor grau, a França parece que deram sumiço. Cinco países com um lastro histórico e cultural ímpar, que num par de décadas caíram do sétimo andar até às catacumbas. Não acredito que a produção cultural tenha entrado em colapso, mesmo com a “crise do petróleo” e as “novas tecnologias”. Na verdade, o mundo é uma feira popular com espelhos deformadores. E a Internet é uma enorme galeria de espelhos. Uma parte vale pelo todo e as outras partes carecem de uma lupa. O nosso mundo pode ser global, líquido, pós-moderno, pós-materialista, pós-humano, pós-urbano, pós-industrial, pós-colonial, pós-pipoca, não deixa de ser, como no romance de Camilo José Cela (A Colmeia, 1951), uma colmeia com vários enxames num cortiço político-financeiro. Talvez as abelhas humanas sejam menos propensas ao equilíbrio do aquilo que Bernard de Mandeville vaticinava (Fábula das Abelhas, 1705). Mas, sublinhe-se, todos contribuimos para as hegemonias culturais. Não fossem hegemonias…

Emiliana Torrini. Baby Blue. Love In The Time Of Science. 1999.

Orelhas grandes

Ice Goðafoss Waterfall. Iceland.

Ando a pensar demasiado com as orelhas, que não crescem com a idade segundo os cientistas (a cartilagem permanece) mas crescem segundo a realidade (pelos vistos, tornam-se mais moles cedendo à gravidade). Não obstante a Ciência, as minhas orelhas têm crescido. Deve ser algum cruzamento hereditário animal. Mas as orelhas grandes têm algum préstimo: ouvir para além do habitat cultural. O meu habitat cultural quer que conheça a Ariana Grande, que não conheço, e desconheça quem desejo conhecer. Ironia à parte, para ouvir longe basta ouvir os próximos. O mundo está aqui. Seguem duas músicas do finlandês Ólafur Arnalds: Particles, do álbum Island Songs (2016) e Only the Winds, do álbum For Now I Am Winter (2013).

Ólafur Arnalds. Particles. Island Songs. 2016.
Ólafur Arnalds. Only the Winds. For Now I Am Winter. 2013.

Cavalo cansado

Bretanha

Gosto de ligar o que não tem ligação ou está solto. Em todos os domínios menos um: o mundo académico e científico. Fazem-no por mim. Em França, a Bretanha, como o Minho, tem uma ascendência celta, o que se presta a simbolismos profundos. Em 1975, Pierre-Jakez Helias escreveu um livro chamado Cheval d’Orgueil dedicado à cultura bretã. Teve um enorme sucesso. Em 1977, volvidos dois anos, Xavier Grall publica o livro Le Cheval Couché a criticar o passadismo de Pierre-Jakez Helias. Ambos são bretões. Yann Tiersen e Didier Squiban também são bretões, compositores e pianistas. Yann Tiersen é sobejamente conhecido, Didier Squiban nem por isso. Para comparação, junto as músicas Porz Gwenn e Ar Baradoz, de Didier Squiban, e a música Porz Goret, de YannTiersen.

DidierSquiban. Porz Ween. Porz Ween. 1999.
Didier Squiban. Ar Baradoz. Molene. 1997.
Yann Tiersen. Porz Goret. EUSA. 2016.

Sarajevo

Max Richter.  Fotografia: Eric Weiss.

March 2012, Berlin. Max Richter. Fotografia: Eric Weiss.

Não me apetece trabalhar. Já dura há alguns dias. A preguiça, ao contrário da pasmaceira, ganha em ser confortada. Com música, por exemplo. A preguiça é uma pastagem generosa. Só o ignora quem nunca ruminou. Manhas da pós-inteligência. Trata-se de uma preguiça caprichosa. Não me impede, por exemplo, de teclar vigorosamente sem parar nas vírgulas. Mas não faço nada do que devo. Algo como uma greve da alma.

A filmagem do Sarajevo de Max Richter não é perfeita. Foi, no entanto, o melhor vídeo de interpretação ao vivo que encontrei.

Max Richter. Sarajevo. memoryhouse. 2002. Ao vivo, com Grace Davidson: 2016.